09 setembro 2010

Frederico Füllgraf - Lili Marleen, os 95 anos de um mito (parte 3/3)

 

“Nili”, a Marleen judaica



Durante minha solitária pesquisa me deparei com a referência de um autor alemão, sem dúvida surpreendente: a de que Stefan Zweig seria autor de uma versão de “Lilli” para o hebraico 6. Mas a informação tinha dois problemas: não citava sua fonte, e a matéria, publicada há trinta anos, não estava assinada.


Após testar na Internet centenas de combinações de busca, as mais esdrúxulas, e trocar correspondências inócuas com arquivos históricos em todo o mundo, suspeitei que devesse arquivar Stefan Zweig. Mas teimoso, acabei descobrindo a edição de uma caixa com sete CDs de “Lilli Marleen”, pelo selo alemão The Bear Family.


Não tive dúvidas, na janelinha, “fale conosco”, do site da empresa, deixei minha pergunta sobre Zweig. No mesmo dia, Richard Weize, que não é secretária, mas uns dos donos da empresa, respondeu-me, solícito: “Do Zweig não sei nada, mas veja isso aqui” – e me enviou um calhamaço, do qual destrinchei a seguinte estória.


Em 25 de abril de 1944, a rádio A voz de Jerusalém põe no ar uma versão hebraica de “certo letrista, com interpretação de um cantor, ambos desconhecidos”. A reação do público é eufórica, e então a rádio esclarece que do nome “Lilli”, os soldados ouvintes fizeram sua própria versão, a da personagem Nili.


Quem, diabos, era “Nili”? E o enigma foi se desvelando: em primeiro lugar, “Nili” é um acrônimo do verso hebraico que diz: Netzach Israel Lo Jeschaker' – “Deus é fiel a Israel”. E fiel ao Talmud, durante a 1ª. Guerra Mundial, quando inicia o êxodo dos judeus europeus à Palestina, Nili era o nome de um comando judeu, clandestino, que apoiava a luta dos britânicos contra as tropas turcas no Oriente Médio. Já na 2ª. Guerra Mundial, Nili é o nome de honra adotado pela pára-quedista Hannah Senesh (1921-1944).


Nascida em Budapeste, e desembarcando no Oriente Médio, em 1942, Hannah vincula-se à Palmach, unidade da Haganah, que combatia árabes e britânicos, com atos de terrorismo. Como primeira mulher, em 1943, Hannah é admitida pela força aérea britânica, saltando sobre o território do Egito para salvar pilotos derrubados, e praticar atos de sabotagem.


Em março de 1944, Hannah é enviada a Bari, na Itália, onde muda de avião e salta sobre território da Eslovênia, depois se juntando por três meses aos guerrilheiros iugoslavos de Josip Broz Tito. Ao tentar cruzar a fronteira para a Hungria, seu país natal, é delatada e entregue à Gestapo. Levada a Budapeste, durante quatro meses sofre interrogatórios violentos. Julgada por um tribunal fantoche, nazista, é fuzilada em 7 de novembro de 1944, aos 23 anos de idade.


Lembrada como heroína de espantosa coragem, Hannah protagonizará a versão hebraica de “Lilli Marleen” ('Ani socher od Lili'), cujos versos dizem: “Dentre milhares de mulheres na cidade De teus olhos o pálido olhar Eu guardarei, Lili” 'Tenho saudades de ti, Lili... "


Na década dos anos 50, a rádio Kol Jerushalajm grava um compacto dessa versão, que acompanha a mudança dos estúdios da emissora, de Jerusalém para Tel Aviv. O infortúnio: durante uma reforma do prédio, a gravação é danificada, depois se perde definitivamente


Desconsolados, em 2004 os editores daquela versão contratam o musicólogo, regente de orquestra e pianista, alemão, Axel Weggen, que a re-grava, numa versão interpretada pelas cantoras Ariella e Nora Hirshfeldt, executada em julho de 2004, no Palais Aux Etoiles Studio, em Bremen.


Nesse mesmo período, em Berlim, Dan Kahn executa uma versão de “Lilli Marleen” em iídiche, e a cantora judia, Tamara, interpreta-a numa versão acompanhada pelo pianista Vladimir Shalit.


E o mistério da versão hebraica continua: a autoria musical de “Nili”, que homenageia Hannah Senesh, é creditada a Norbert Schultze, mas o nome do letrista judeu continua em branco – seria Stefan Zweig? E se o escritor se sentisse constrangido em assinar a letra de uma música cantada pelas tropas do mesmo regime que o obrigara ao exílio?


Do ocaso de Rommel à "Lilli" trash de Fassbinder


Acima - Winston Churchill e Erwin Rommel (dir.);
Abaixo - Hannah Schigulla em "Lili Marleen", de R. W. Fassbinder

Com a apropriação internacional da canção, em mais de 50 idiomas, termina o ciclo genuinamente alemão de "Lilli Marleen". Findo o ciclo, sai de cena a mulher que incitara o mito - Lale Andersen.


Ridicularizada por intelectuais alemães do pós-guerra como "a choradeira da lanterna", como muitos de seus conterrâneos, contudo, sir Winston Churchill continuava fã devoto de "Lilli Marleen". Certo dia, no pós-guerra, durante um retiro de férias à Riviera francesa, entre uma e outra baforada no inseparável habano, sir Winston pede à banda do hotel que lhe toque a balada dos namoradinhos sob a lanterna.


Pedido prontamente atendido, o almirante viaja a ré no tempo e se emociona. Na noite seguinte, percebendo a presença de Churchill no salão, o maestro da banda não pensa duas vezes, tenta ser gentil, e manda ver a "Lilli" outra vez. Mas Churchill ergue a mão, manda parar a banda, explicando que dormira mal - I dreamed on Rommel! Num pesadelo lhe aparecera Rommel...


Mas Churchill não partilhava da maledicência e ciumeira de seu Estado Maior contra o ex-inimigo: He deserves our respect... - "ele merece nosso respeito", disse o almirante, porque "Rommel chegou a odiar Hitler e todas as suas maquinações, depois tomou parte na conspiração para afastar do caminho o maníaco e tirano, e resgatar a Alemanha. Por isso, pagou com a própria vida!” E lamentou: “Nas guerras sombrias da democracia moderna mal sobra espaço para o cavalheirismo.”


Falta de honradez também protagonizada mais tarde por Leni Riefenstahl, com suas "Memoiren", mal rimadas, em plena democracia do pós-guerra, estabilizada na Alemanha, em 1971, a artista quando velha, Lale Andersen, publica sua autobiografia 7, na qual se reinventa, reescrevendo a História de um ponto de vista que lhe permite justificar sua permanência na Alemanha de Hitler.


E é ficção que vai alimentar o roteiro "Lilli Marleen" (1981), de Rainer Werner Fassbinder, que além de preservar as meias-verdades de Andersen, contrabandeia meias-mentiras para a narrativa, como a suposta prisão de Mendelson-Lieberman (o regente e marido judeu de Andersen), torturado nas garras da SS - fatos jamais ocorridos -, ou ainda os audaciosos contrabandos de filmes sobre os campos de concentração, da personagem Willie, de Hanna Schygulla (aliás, Lale Andersen).


A rigor, naqueles dias, foi assaz modesta a vida pessoal de la Andersen, vida despojada de todo glamour barroco, incensado no filme de Fassbinder, porque longe de protagonizar a militante da resistência, a moça que cantava "Lili Marleen" nas ondas da Rádio Belgrado, não passava de Mitläuferin; sem dúvida algo gata-borralheira, insubordinada, mas simples "prosélita" do nazismo.


Inspirada nesta autobiografia, como realismo de cena ou "documento" histórico, a "Lilli Marleen" de Fassbinder derrapa sobre o fio da memória, em acrobacias fascinadas pelos climas soturnos, crepusculares, de "Os malditos" (1969), de Visconti (que justapondo cenas da chacina de Ernst Röhm, ao clima festivo de cervejaria, insinua a teatralidade e as semelhanças entre uma suposta estética nazista e o gênero da ópera); pelo glamour plastificado de "Cabaret" (1972), e pelas evocações demoníacas de Liliana Cavani, em "O porteiro da noite" (1974) - tudo celebrado como orgia panteísta, ou, se quisermos, como genuína viadagem estética (adjetivação aqui sem qualquer conotação sexual), ontem e sempre imprestável, porque mistificadora, do fenômeno nazista. Infelizmente, a décadence marron não se limitou a sessões sado-masô de puteiro de luxo, com direito a couro envernizado, peitos, bundas e fálos a rodo, mas articulando-se como ideologia da exclusão e do extermínio.


"Lilli" e a Discoteca de Babel


E “Lilli” continuou marchando...
“La Biblioteca es tan enorme que toda reducción de origen humano resulta infinitesimal", escreveu J. L. Borges, a meio caminho de sua "Biblioteca de Babel" : “(...) Cada ejemplar es único, irreemplazable, pero (como la Biblioteca es total) hay siempre varios centenares de miles de facsímiles imperfectos: de obras que no difieren sino por una letra o por una coma" - ironia de Borges sobre a historia da escrita, que cai como luva sobre a longevidade de "Lilli Marleen".


Nos primeiros anos da guerra fria, os EUA tentam recuperar os direitos de "Lilli Marleen", agora enviando Lale Andersen em turnê pela Coréia e a Indochina, tentando popularizá-la também nos países do recém-formado bloco soviético, mas a canção enfrenta forte rejeição na RDA e também na Iugoslávia de Tito - justamente o lugar sobre o qual devaneava Fitzroy Maclean naquelas madrugadas sob o céu estrelado da Líbia, enfeitiçado pela voz, “rouca, sensual, nostálgica, doce como o açúcar… que parecia desprender-se para tocar-me, espalhando sobre os acordes tocantes da música, aquelas palavras loucamente sentimentais (...)".


Entre as sonoridades exóticas, estão as versões em japonês e finlandês, e como intérpretes tão dissimiles, figuram Greta Garbo, Edith Piaf e a japonesa Kanashii Michi, sem esquecer a anglo-francesa, Amanda Lear, que em 1978 gravou uma mal-parida versão "discothéque" (álbum "Never Trust a Pretty Face"). Escrita do ponto de vista de um soldado, mas sempre interpretada por mulheres, nas décadas de 1950 e 1960, como sintoma de enorme capacidade de sobrevivência do mito "Lilli Marleen", nas hostes masculinas se somavam ao coro, Bing Crosby, Al Martino, Perry Como, Jean Claude Pascal e outros, aqui esquecidos.


Outro sintoma de teimosa vitalidade, sobretudo como indelével ritual de guerra, é que bastava eclodir um novo conflito - na Indochina, Coréia, em Israel ou no Vietnã - e o faturamento disparava aos altos, em movimento oposto às bombas que caiam dos aviões e massacravam em terra. Não foi por acaso que na década dos anos 1980, a viúva do letrista Hans Leip recebia em média 60 mil francos suíços (à época, aprox. 50 mil dólares) por ano com o recolhimento de direitos autorais pela GEMA. Sem falar que Norbert Schultze, o compositor, já era milionário. Também compositor da marcha nazista, "Panzer rollen in Afrika vor" (Tanques avançam sobre a África), Schultze não teve papas na língua ao comentar o sucesso comercial auto-sustentado de "Lilli Marleen": "A música só podia crescer com a guerra, porque então o desespero é grande."


E "Lilli" continua marchando neste início de terceiro milênio: entre outras versões contemporâneas, conste a da banda Atrocity, de 2000, a do grupo italiano, Camerata Medio Lanese, e outra ainda, da banda de rock alemã, Eisregen Thüringen. Em 2005, para ensejo do 60º. aniversário do desembarque dos Aliados na Normandia, a cantora Patricia Kaas chacoalhou o esqueleto de "Lilli" em transmissão televisiva de Mondovision, mas ainda marcados pelas atrocidades (eis aqui um recado para a banda Atrocity) das Einsatzgruppen da SS, os poloneses rejeitaram a alegoria.


"E a lanterna?"- alfineta o ensaísta alemão, Jan Feddersen, na divertida crônica "526 minutos sob a lanterna“ 8: "a imaginação gostaria que a lanterna fosse algo assim como um luzeiro em tempos sombríos - um guarda-chuva luminoso para alguma sorte de privacidade, incapaz de existir, sobretudo em tempos de guerra e no âmbito dos quartéis“.


Epílogo - a sobrinha de Freud


Desde 2006, circula uma sub-lenda do mito, sibilando que Leip estivera apaixonado pela atriz austríaca, Lilly Freud, filha de Marie, irmã de Sigmund Freud, que durante mais de uma década viveu em Berlim, de onde retorna a Viena. Segundo a versão, a atriz resolvera deslembrar-se de Leip em 1917, casando-se com o ator e diretor de teatro, Arnold Marle. Só então Leip teria re-escrito o poema, no qual chorava a perda da namorada Marlé, criando o segundo avatar na trajetória de "Lili Marleen".


Nascida em 1888, Lilly Freud Marle inaugurava carreira muito aplaudida na segunda metade dos anos 20, como intérprete e declamadora, celebrizando-se com textos de Rabindranath Tagore. Mas em 1938, quando Hitler anexou a Áustria, a família Freud, de judeus assimilados, começa a sofrer perseguições. Como lembra Elisabeth Roudinesco, “aferrado à idéia de que somente a civilização, isto é, o cumprimento de uma lei imposta ao poderio absoluto das pulsões assassinas, permitiria à sociedade escapar de uma barbárie ansiada pela própria humanidade", segundo a ótica nazista, Freud era uma aberração, e sua psicanálise, uma “ciência judaica".


Em 2003, o psicanalista alemão, Christfried Tögel, diretor do Sigmund Freud Zentrum, de Magdeburg, faz uma descoberta desconcertante: durante suas pesquisas em partes do acervo de Freud, arquivadas na Biblioteca do Congresso, em Washington, depara-se com os originais intactos de uma biografia do fundador da psicanálise, escrita por sua sobrinha Lilli Freud Marle, referida num artigo de sua irmã mais velha, Margarethe Freud, publicado no “Neue Zürcher Zeitung”, de maio de 1948.


Informação solenemente ignorada pelos pesquisadores de Freud, talvez porque suspeitassem de sua credibilidade, Tögel checa a autenticidade do texto, por ele finalmente publicado na Alemanha, em 2006 9. No livro, Lilly Freud Marle narra os episódios que em agosto de 1939 culminam com a fuga da família Freud para Londres, onde o tio virá a falecer poucos meses depois.


Em conversas espaçadas, ocorridas entre 1945 e 1947, com Martha Freud, sua tia e viúva do psicanalista, ela faz anotações biográficas sobre os aspectos lúdicos e conviviais no cotidiano do clã Freud, em Viena e no exílio londrino, numa espécie de narrativa profana, à margem do consultório e do gabinete científico.


Prefaciando o livro, Tögel detalha o artigo de Margarethe Freud com uma revelação ainda mais desnorteadora: a de que Lilly fora a verdadeira musa inspiradora da letra escrita por Hans Leip, e da música “Lili Marleen”, depois interpretada por Lale Andersen. A versão é reiterada pelo neto de Sigmund Freud, Anton Walter Freud, filho de Martin, o primogênito do psicanalista. Procurado por Tögel, Anton Walter lhe conta que sua prima, Lilly, fora namorada e abandonara Hans Leip, o autor da mítica balada, para casar-se com Arnold Marle.


A traição teria magoado e indignado Leip a tal ponto, que este resolvera marcar indelevelmente seu poema da “puta do soldado”, com o nome da ex-namorada. Já Leip desmentiria categoricamente esta versão, numa carta escrita a Margarethe Freud: ”Escrevi a canção na qualidade de fuzileiro da guarda, na véspera da mobilização para a Rússia, em abril de 1915 – ela não foi dedicada a nenhuma dançarina, nem a qualquer declamadora, e sim, a duas moças simples, das quais uma se chamava Lilli, e a outra, Marleen [...]”. Lilly Freud Marle, porém, jamais se pronunciou sobre a polêmica, dessa forma adensando as brumas do mistério.


Em e-mail que me enviou em 17 de abril de 2010, o Dr. Tögel diz não haver provas documentais do pretextado envolvimento entre o autor da canção mítica e a sobrinha de Freud: “A família Freud, principalmente Walter Freud, com quem mantive longa amizade, sempre repetiu essa estória. Mas eu prefiro admitir que foi alimentada, mais porque se insinua como teoria instigante, do que efetivamente sustentada por fatos”.


A carta de Margarethe, publicada no livro de Lilly Freud, editado por Tögel, foi prontamente reverberada por outros dois livros, "Lili Marleen. Canción de amor y muerte" (Alcantilado, Espanha, 2008), de Rosa Sala Rose, e "La véritable histoire de la plus belle chanson d’amour de tous les temps" (Télémaque, França, 2010), de Jean-Pierre Guéno. Em seu livro, Rose afirma que, exilada na Suécia, Lilly Freud Marle esteve "reducida a la miséria”.. Tögel replica energicamente: “definitivamente, Lilly jamais demorou-se na Suécia”.


O que importa, de fato, é a potencialidade de uma ironia histórica, insólita: se foi mesmo Lilly Freud a musa inspiradora, o fato comprovaria que em sua idolatria da "Lilli", a Wehrmacht e a SS de Adolf Hitler estavam homenageando - quem diria! - uma garota judia...


NOTAS


¹ “The German Campaign in the Balkans (Spring 1941), U.S. Army Center of Military

History Publication 104-4 (1986);

² Joseph Goebbels: "Das-eherne-Herz" -1942; Adrian Stewart: "The Early Battle of

Eighth Army: crusader to the Alamein Line 1941-1942" (2002);

³ Bernd Hartmann: ”Die Geschichte des Panzerregiment 05” - A história do 5º.

Regimento de Blindados - Ed. Bernd Hartmann (2005);

4 Fitzroy Maclean: "Eastern Approaches" (1949);

5 Hans Leip: "Ein halbes Jahrhundert" (1965); "Hans Leip” (1968);

6 Der Spiegel: “Frühling für Hitler und Lili Marleen” (19/01/81);

7 Lale Andersen: "Der Himmel hat viele Farben" / O céu tem muitas cores (1971);

8 Jan Feddersen, "526 Minuten unter der Laterne", Die Tageszeitung (19/11/2005);

9 " Lilly Freud Marle: “Mein Onkel Sigmund Freud. Erinnerungen an eine große Familie" /Meu tio Sigmund Freud - memórias de uma grande família, Aufbau (2006).

25 julho 2010

As bombas da periferia - o comercial da casa


Para quem ainda tem dúvidas sobre as intenções nucleares de alguns países ditos emergentes, mas também da assimetria imposta e do papo furado dos sócios do clube que já "a" tem, recomendo o que já analisei vinte anos atrás
neste livro que, infelizmente, teve apenas duas edições, mas somente é encontrável em alguns bons sebos do país.

10 maio 2010

O ataque das hienas


“Se nós não detivermos essa alcatéia voraz,,
os lobos estralhaçarão os países
mais fracos”  - Anders Borg, Ministro das Finanças da Suécia

Feds Open Criminal Probe of Goldman
Friday, 30 Apr 2010 07:11 AM

Stepping up the pressure on Goldman Sachs two days after its executives were grilled and publicly rebuked by lawmakers, the Justice Department has opened a criminal investigation of the Wall Street powerhouse over mortgage securities deals it arranged.

09 maio 2010

"Νυστικό αρκούδι δεν χορεύει"

 
"Um urso faminto não dança"
"A starving bear doesn´t dance"
(dito popular na Grécia)

AP Photos: Petros Giannakouris,
Alkis Konstantinidis, Dimitri Messinis

Wendy Guerra - "Havana é meu universo, daqui não saio"

Wendy Guerra

 Wendy Guerra: 'Todos se van' se ha convertido en un 'libro de culto' en Cuba. La escritora no contempla por ahora tomar el camino del exilio, mientras que Leonardo Padura opina que 'por nada del mundo quiere dejar su país'.

Agencias
13/05/2009

AFP/ La Habana. La escritora Wendy Guerra tiene 38 años y dos novelas. Sus libros, que abordan duras realidades cotidianas, no son publicados en la Isla pero circulan al menos de mano en mano.
Guerra no contempla por ahora tomar el camino del exilio, como lo han hecho muchos de sus compatriotas, escritores o no, como lo reseña su novela Todos se van.

    "No me quiero ir de aquí. Quiero a mi país. Mis novelas serán sin duda publicadas en Cuba cuando ya no tengan actualidad", como ocurrió, por ejemplo y sin pretender compararse, con las obras de José Lezama Lima y Virgilio Piñera, cuenta en su apartamento en el barrio de Miramar, en La Habana.
     Todos se van, la primera novela de Guerra publicada en 2006, narra bajo la forma de un diario íntimo el duro recorrido de la pequeña Nieve en una sociedad en "hibernación" que casi todos, de una forma u otra, terminan abandonando.
    "Parece que Todos se van se ha convertido en una suerte de libro de culto en Cuba", donde circula clandestinamente —fotocopiado—, afirma con satisfacción Guerra, una ex actriz cuyos poemas sí fueron publicados en la Isla.
    Su segunda novela, Nunca fui primera dama, que relata la historia de tres generaciones de cubanas, se publicará el próximo mes en Francia.
    Al contrario de Guerra, el escritor Leonardo Padura, de 53 años, puede vanagloriarse de ser publicado en el exterior y en Cuba, donde sus novelas son consideradas "best-sellers", con tiradas de hasta 20.000 ejemplares.
    "Odio la política. No quiero que mis libros sean una tribuna. Lo que me interesa es describir una realidad social, como la corrupción, el exilio o la marginalidad. Por ejemplo, en Pasado perfecto el delincuente central de la novela es un viceministro", afirma Padura, autor de ocho novelas y de ensayos.
    Actualmente da los últimos toques a El hombre que amaba a los perros, un relato esperado en septiembre en España y a principios de 2010 en Francia "sobre el asesinato de Trotsky por Ramón Mercader, quien pasó los últimos cuatro años de su vida en La Habana".
    "Lo que me interesa con ese libro es ver cómo la gran utopía del siglo XX desapareció", dice Padura, a quien le cambió radicalmente la "visión del mundo" la caída de la Unión Soviética en 1991, que sumió a Cuba en una profunda crisis económica.
    Aun cuando las esperanzas de cambios suscitadas por la llegada de Raúl Castro al poder en julio de 2006 "cayeron" y volvió el "desencanto", según opina, por nada del mundo quiere dejar su país, "personaje principal" de sus novelas.
    Asegura no haber tenido nunca problemas en la Isla como escritor. "Solo como periodista", confiesa, agregando que los medios oficiales "no existen para describir la realidad o alimentar la reflexión social", sino para ser instrumentos de "propaganda".
    Wendy Guerra también rechaza la política, pero es difícil escapar de ella, sobre todo en Cuba. "Todo es política. Para escapar de la política, hay que salir de Cuba, decía mi madre", una periodista "hippie" ya fallecida, afirma.
    Cuba es "una tierra rodeada de agua y de silencio", resume la escritora, con una sonrisa. 


In:  http://www.cubaencuentro.com/es/cultura/noticias/wendy-guerra-todos-se-van-se-ha-convertido-en-un-libro-de-culto-en-cuba-178059

Blog Wendy Guerra: http://www.elmundo.es/blogs/elmundo/habaname/

(nus para Interviú, Espanha)

Wendy Guerra - "Todos se van"


"Alguien pisó la imagen del Che en una exposición a la que fui esta noche. Alguien fue llevado preso por pisar una imagen del Che en el suelo de una galería de arte. ...

    Siempre paso caminando de prisa por La Rampa, caminando sobre las cerámicas del suelo, todos los días miles de personas pisan las obras de Wifredo Lam y Martínez Pedro, pero no es lo mismo. Mienten. El arte y la política son diferentes. Nadie puede pisar la imagen de un héroe. No se se fue un performance, la obra estaba allí y en la confusión alguien se sintió dueño de lo que nos dijeron que era nuestro karma para toda la vida y caminó sobre ello y se vio como una vejación. Si estaba en el suelo y alguien caminó con naturalidad sobre algo que es como el cimiento de todo lo que nos ha sucedido, puede verse hermoso, normal. Si fuera una catarsis, seguro que lo entendería. El Che es lo cotidiano, como de todos los días en todas las casas de este país. Su asma y su locura, su alma suicida. Todo lo que dijo y todo lo que rompió con su irreverencia no significan ni la milésima parte de pisar su imagen. ¿Cuántas cosas transgredió él? Alguien puso su pie bajo la imagen de "El guerrillero heroico", camino firme sobre todo lo prohibido y se acabo el mundo por aquí. La galería está cerrada. Claro, está de moda cerrar las galerías. Que lastima." (237-238)
Todos se van, Wendy Guerra (Barcelona: Bruguera, 2006)

Livros de Wendy Guerra:

Poesia
Platea a oscuras, 1987
Cabeza rapada, 1996.
Ropa interior, 2008.



Romances

Posar desnuda en La Habana. Diario apócrifo de Anais Nin (2000)
Todos se van (Barcelona: Bruguera, 2006 (Prêmio Melhor Romance)
Nunca fui primera dama, Barcelona: Bruguera, 2008.

03 maio 2010

Frederico Füllgraf - Por uma vaca e um celular

(Miles yrus, Naked)

Conto


Uma denúncia anônima chegou ao Conselho Tutelar. A Vara de Infância e da Juventude é acionada. Até a conclusão das investigações, a guarda da menina é passada à avó materna e uma irmã mais velha; casada. Por determinação da juíza, a menor é submetida a exames psicológicos. O delegado que investiga o caso dispara o texto da lei: é delito “prometer ou efetivar a entrega de filho ou pupilo a terceiro, mediante paga ou recompensa”.


     A menina está muito perturbada, chora com medo da prisão do pai. E do “protetor“ também. Parece não entender o que fez de errado. Parece. Terá sido "o efeito Anita“ ? Em sua memória confundida, re-pesca as imagens da novela das oito, que assistia com o “tio”: a lolita Mel Lisboa refestelando-se na cama com o quarentão paternal, o seio direito desnudo, as coxas mal escondendo seu delta de Vênus em broto.


     A negociação entre os dois homens teria ocorrido há meio ano, mas os vizinhos, o pai-arrendatário e o fazendeiro-“protetor”, negam as acusações. Admitem, contudo, certa “querença” entre a menina e o último. Malicioso, o policial constata que o vizinho e a menina viviam juntos, mas não tem certeza se ocorreu ou não a venda - Venda?


     A televisão ligada na sala, marido e mulher acusam-se mutuamente na cozinha. Essa moda de criança usar saltinho e batom, foi tu que incentivou, mulher! A esposa se defende: às vezes eu acho que de tanta novela e propaganda de sem-vergonhice, as regra dela chegaram mais cedo...


     A psicóloga vara a noite em vigília, depois esparrama seus achados sobre a escrivaninha do promotor. Desembesta erudição: A Lolita de Vladimir Nabokov, a menina de 12 anos, e figura central do célebre romance de 1955, desfila uma sensualidade tão ambígua quanto o próprio corpo, que exibe os primeiros contornos de mulher. Essa ambigüidade atiça a caça romântica, assume as formas e o sabor de um fruto proibido...


     O promotor se ajeita na cadeira desconfortável, desdenha o significado metafórico do fruto: “toda proibição é ponto de partida para uma acusação!” A psicóloga não perde a elegância, abrindo o livro na página com os destaques de marca-texto fosforescente: “O amante sente-se atraído por uma combinação de sinais que incluem juventude, saúde perfeita, hormônios em plena atividade, seios, pêlos e curvas em floração. Além de exibir tais atributos, a lolita alimenta clássicas fantasias masculinas..”.


     O promotor volta a aboletar-se: virgindade violada, eis o argüitivo! Pitonisa incorporada, a psicóloga instiga: “Sem dúvida, que entre o amante e a ninfeta, tudo é fogo. Sensações à flor da pele superam cautelas. A paixão então se estabelece, nublando a capacidade de julgamento do homem, como previu o filósofo espanhol Ortega y Gasset...” - Filósofo safado, esse! - corta o promotor, acende um cigarro e deixa a sala.


     Treteiro, o fazendeiro tenta desconversar. Diz: o inferno era a menina! Ele não conseguia desgrudar os olhos dela, serpejando lascivamente seu corpinho de menina-mulher na varanda da meia-água. O rádio ligado na cozinha tocava uma daquelas guarânias erotizantes de uma dupla neo-caipira travestida de caubói americano - Quando ela passa ninguém fica parado Tem sabor de pecado os seus lábios de mel...


     Estava parado no pátio, protegido pela sombra da única aroeira remanescente e acompanhou o olhar dela, fingindo apreensão por algum detalhe amoitado no plano geral do campo da fazenda, Uma brisa preguiçosa acariciava a plantação de soja verde-chamejante, e os movimentos tansos dos poucos animais no pasto conferiam letargo ao início da tarde; languidez que o fez mergulhar na lembrança da primeira vez – o corpo dela montando suas pernas, o beijo na boca de lábios leitoados, lambiscando seus mamilos de ninfa pubescente, suas mãos redesenhando a calipígia precoce, a bunda bem-criada, roçando seu ventre...


     Ao som de Latino, os requebros da menina esboçaram um sorriso debochado no canto esquerdo da boca dele. Conhecia aquelas coreografias televisivas dos programas de estúdio dominicais, transmitidos por canais concorrentes, mas todos muito iguais. Todos os domingos, milhões de meninas, moças e mulheres acompanhavam pasmadas o bailareco das saltatrizes no titeriteio dos estúdios de TV, invejando-lhes a glória de um close da câmera, capaz de catapultá-las para a tão sonhada carreira, decantada pelas revistas nas bancas de jornal.


     Não ouviu os passos do homem que se aproximava por trás e assustou-se quando o compadre deu-lhe as palmadinhas costumeiras no ombro. O outro chasqueou um sorriso treteiro ao recolher seu olhar da área de onde a filha se esgueirava para a cozinha, e onde recebeu a ordem para preparar o chimarrão. Alapados à sombra da velha aroeira, os dois homens acepilharam causos dos últimos dias com prosa cúmplice, dividindo mates na ponta da bombilha. Foi quando o patrão cortou da orilha para o olho d´água, assuntando que entre ele e a menina tinha desabrochado uma benquerença.


     Abismado, o outro soltou a cuia e levantou-se feito bagual, com a mão direita apajeando o facão. Só voltou a acocorar-se quando o patrão acenou com um negócio, porque entre compadre não tem engabelação. Floreou as palavras, propondo-lhe uma justa compensação: ofereceu-lhe a vaca leiteira, o aparelho de som e o telefone celular. Em troca, ficaria com a proteção da menina.


     Amancebaram-se, então?! - rosna o delegado. No início do conúbio, diz o pai, ele teria resistido, pois a menina tinha apenas 12 anos, depois, contudo, ficara cediço, adomado pela situação...


     Não havendo flagrante, só resta ao delegado enquadrar o fazendeiro em crime de “estupro presumido”; qualificação de violência para casos de menores de catorze anos. A caminho de casa, estaciona o carro em frente à locadora de vídeo. Pede “Menina Bonita” e, de volta ao volante, enquanto desvia o tráfego, pergunta-se, intrigado, por que sente a incômoda atração pela estonteante Brooke Shields, no papel da prostituta infantil do filme, mal tinha ela treze aninhos.


Sue Lyon no papel de Dolores Haze, em "Lolita", de Stanley Kubrick (1962)

24 abril 2010

"A nova arte de construir ruínas" - um olhar sobre Havana

Sobre a Havanomania disse, com uma pitada de bom humor, o escritor e crítico cinematográfico cubano, Juan Antonio García Borrero, Presidente da "Cátedra de Pensamiento Audiovisual Tomás Gutiérrez Alea" (2002): “Reconozco que cuando uno se asoma al Prado, y se fija en la fachada de algunas de esas residencias monumentales, nos queda la impresión de estar en presencia de una mujer que, aunque muy entrada en la tercera edad, todavía nos sugiere lo que fue el poder letal de su capacidad juvenil de seducción. Pero al final, eso no me cura la habanafobia que padezco”.

Desde o final dos anos 80, Havana vem sendo explorada como mito estético na literatura local e no cinema mundial, seja através da obra de Juan José Gutierrez, ou seja nostalgicamente exposta em “Buena Vista Social Club” (2000), de Wim Wenders.

O documentário “La Habana: El arte nuevo de hacer ruinas” (2006), dirigido pelos cineastas alemães, Florian Borchmeyer e Matthias Hentschler, se insinua como retrato das vidas e reflexões de gente forçada a viver e trabalhar em edificações semi-destruidas da capital cubana.

Um escritor, Antonio José Ponte*; um casal de velhos, cuja chácara fora confiscada pela Revolução; o vigia e único habitante-espectador de um teatro abandonado; o encarregado da manutenção de um edifício do início do séc. XX e sua ex-esposa; como também uma jovem que a cada noite adormece atomentada pela fantasia de que venha abaixo o telhado de sua casa, são os personagens que narram suas vidas e falam de seus sonhos ou conflitos gerados pelo entorno em que vivem - as ruinas da cidade de Havana.

Pelo filme, estreado em 2006, os cinestas alemães levaram o Bayerischer Filmpreis (melhor documentário, governo da Baviera), e em 2008 o filme foi agraciado com o prêmio de melhor documentário internacional no III Festival Internacional de Cine Documental de la Ciudad de México. Em 2006, o filme protagonizaria um episodio que muita gente associou à censura do governo cubano, no Festival de La Habana, mas alguns meses depois foi reprovado pelo Festival de Miami.


*Asiento en las ruínas (Madrid: Renacimiento, 2005): e Un arte de hacer ruinas y otros cuentos (México, Fondo de Cultura Económica, 2005), ee.oo.

O filme:
http://www.lakadena.com/2009/02/la-habana-el-arte-nuevo-de-hacer-ruinas/

"Ruinologia", ou viagem pelos destroços romantizados de Havana


 

Esther Whitfield*

“Artistas versus WalMart” es el título con que El Universal de México introdujo el conflicto que el pasado mes desataron los planes para construir una supertienda cerca de las ruinas de Teotihuacan. “Consideramos que es la responsabilidad incuestionable del Estado preservar el patrimonio artístico de México”, escribió un grupo de intelectuales en una carta pública al presidente Fox; pero al lado de la bóveda símbolo de la globalización, su caso a propósito de las ruinas parece precario. Si bien no menos precario que esas ruinas, cuyo poder para movilizar las ideas tuviera su apogeo con el Romanticismo.



Las ruinas románticas, como las describe Christopher Woodward, son más que la presencia del pasado: son recordatorios humillantes del futuro y de la disminución inevitable de toda gloria: “para los estadistas, las ruinas predicen la caída de los imperios, y para los filósofos, la futilidad de las aspiraciones de los hombres. Para un poeta, la decadencia de un monumento representa la disolución del ego individual en el flujo del Tiempo; para un pintor o arquitecto, los fragmentos de estupenda antigüedad ponen en duda el propósito de su arte”.

Pero, ¿qué poder hace a las ruinas humillarse, y menos aún adoctrinar, en la época de WalMart? ¿Qué son sino presencias para ser acumuladas en el carrito de compras de la experiencia turística, para parafrasear a Dean MacCannell? Me gustaría tomar una posición más esperanzada, sin embargo, y averiguar cómo las ruinas podrían ser reintegradas al presente. La pregunta es tanto política como estética, y la orientaré a través de ruinas bien distantes de las de México, y bien diferentes en cuando a su relación con las corporaciones globales. Largamente protegida de los poderes económicos que querrían acribillar su paisaje con supertiendas, es no obstante la espectacular confrontación de Cuba con el capitalismo la que ha ubicado a las ruinas de La Habana entre las más fotografiadas de la pasada década, cuando adornaron las páginas de innumerables menús de cafeterías, funcionado como telón de fondo de Buena Vista Social Club, y aportado un andamiaje visual para la ficción.


Técnicamente, o en un sentido romántico, la Habana no tiene ruinas reales. Los edificios más viejos de la ciudad datan del siglo XVI y, al igual que esos de los siguientes dos siglos de dominio colonial, han sido meticulosamente restaurados, en parte gracias a un proyecto patrocinado por la UNESCO, que comenzó en 1982. Así que no es la antigüedad lo que lega sus ruinas a La Habana. Pero tampoco son éstas ruinas en el sentido más corriente y triste del término: blancos de la destrucción deliberada, devastadas por disparos o destrozadas por bombas.

Las ruinas más fotografiadas de La Habana son víctimas de un lento abandono, del desvío, a lo largo de 45 años, de recursos hacia proyectos sociales más apremiantes. Se trata de barriadas del siglo XIX de Centro Habana en avanzado estado de abandono, entregadas al gobierno de la fuerza de gravedad; o las mansiones de inicios del siglo XX del Vedado, cuyos jardines las han cubierto. Son también, como las redefine el artista visual Carlos Garaicoa en su enérgica serie Las ruinas del futuro, proyectos inconclusos de casas que se ensamblaron entre sí en los años 70, iniciando un momento de ahínco que nunca se completó; y son las Escuelas de Arte, edificios voluptuosos abruptamente abandonados a mediados de los 60, según ha documentado John Loomis. Las de Garaicoa son ruinas con una inflexión temporal en sí mismas: en lugar de hallar el futuro en el pasado, observan el futuro en pro de completar el pasado, detectando solo un futuro imperfecto, un “serán completadas” que tiende hacia un futuro condenado.

Para iniciar una arqueología de estas ruinas del presente, llamaré a La Habana por otro nombre: Beirut. Este rebautizo no es mío, dado que La Habana es renombrada como Beirut en dos recientes novelas cubanas, haciendo de la capital libanesa tanto una ciudad hermana como un sitio para la distancia crítica. Perversiones en el Prado (1999), de Miguel Mejides, novela ampliamente divulgada que ocurre en un solar de Centro Habana, termina con una vista aérea de la ciudad, con la que se le fosiliza desde lo alto: “Sufrida Habana que había resistido el ataque de sus mismos hijos, ahora convertida en un Beirut caribeño, sus ruinas desinfladas en el grito de la noche.” Y en Contrabando de sombras (2002), de Antonio José Ponte, un fotógrafo español que ha terminado un proyecto en Beirut viene a La Habana a por “imágenes de calles vacías, de edificios apuntalados o convertidos en escombros. Ruinas, en suma. “Las calles de Beirut -comprende el personaje-, devastadas por la guerra, podían perfectamente pertenecer a esa misma ciudad” (22-23).

Beirut tiene ruinas de dos tipos diferentes: esas que le dejó la guerra civil de 1975 a 1990, la cual arrasó el centro de la ciudad y ahora están siendo reconstruidas; y las de cinco antiguas civilizaciones, desde los romanos hasta los otomanos, las cuales el gobierno se afana en promover como atracción turística. Luego, en la resonancia del argot local habanero, los emigrantes sin hogar de la provincial de Oriente se convierten en “los palestinos” en la Habana –los desplazados, los desposeídos-, de ahí que la analogía con Beirut y sus dos clases de ruinas ubica a La Habana dentro de una amplia esfera geopolítica. Ello permite que sus largamente desatendidos edificios sean leídos como ruinas dobles: a un tiempo, como anacronismos filtrados por una perspectiva romántica, y como una escena de guerra. A partir de este doble arruinamiento, o a partir de estos dos tipos de ruinas, emergen intereses contrapuestos en la construcción de La Habana como sitio desmantelado –intereses que corresponden a un mercado global de las imágenes, por un lado, y por otra, y como la obra de Ponte sugiere, a una necesidad más local de visualizar un peligro.

Acerca de la caja del reloj y del tiempo
que se ha ido - Carlos Garaicoa, 1996

Un aprecio nostálgico por los anacronismos –anhelo de un lugar fuera del tiempo que es sorprendido por el presente- es el método empleado por muchas representaciones visuales de La Habana que circulan fuera de Cuba a partir del “boom” cultural de finales de los años 90. El estudio realizado por Ana María Dopico acerca de los libros de fotos publicados en el extranjero advierte la estética común de decadencia, señalando que “en tanto la Habana de los últimos 40 años se desmorona, cambia y desaparece, la fotografía reconstituye sus paisajes en el campo de la visión, diseminando de manera seductora imágenes y sitios reales e inestables” (453). Los espectadores contemplan esta Habana petrificada con algo del sobrecogimiento que Woodward encuentra en los románticos; y si las ruinas debidas a la antigüedad “predicen la caída de imperios”, entonces las de La Habana registran y anticipan simultáneamente el declive de un ideal. Ellas incitan un lamento prematuro y ambivalente por un casi caduco proyecto social cuyo transcurso –ensayado en cada fachada agrietada, en cada ladrillo caído- señalará al menos el final de una era.

Mientras que la fotografía silencia la ciudad, ofreciendo lo que Dopico llama “una sintaxis visual seductora que debe reemplazar las voces de aquellos a quienes representa”, la ficción y las películas animan las fachadas desmoronadas de la Habana y las reforman –y con ella, a Cuba misma- como lugar habitado y vivo. Esta afirmación de vida dentro de la muerte ha creado un mercado para representaciones ruinosas en la ficción: de ahí el éxito del escritor Pedro Juan Gutiérrez, cuyas cinco novelas del “Ciclo de Centro Habana” han sido publicadas en veinte países. Las ruinas de sus novelas son a un tiempo arquitectónicas y espirituales –su protagonista está “arruinado”, “echado a perder” y “destrozado”, al igual que el edificio que habita; pero, en desafío a su propio estado de muerte, el edificio está superpoblado, sus pisos se tuercen bajo el peso de la vida y sus paredes resuenan con el frenesí de los encuentros sexuales, que son la única manera de pasar el tiempo. Buena Vista Social Club es, también, esencialmente una narrativa de sobrevivencia entre las ruinas, de estos nonagenarios músicos que han resistido décadas de anonimato para resucitar los sonidos del período prerrevolucionario. Su éxito es debido, en parte, como ha dicho Michael Chanan, a la imagen “de una Cuba del presente que preserva vestigios de un tiempo ido” (152) en cualquier otra parte. Esta estética de lo-vivido-en-ruinas, cuyos habitantes cuentan sus historias y defienden una vitalidad contra la decadencia, habla a la nostalgia y especulación mórbida de los extranjeros aficionados a Cuba. Nostalgia por un ideal mortecino que es atemperado por un ojo curioso hacia el futuro; nostalgia por el hedonismo de la década de 1950, que la industria turística ahora promete revivir; y nostalgia por un lugar protegido de la fiebre de la globalización, pero que incluye una alegría paradójicamente voyeurística en el punto de encuentro con el capital extranjero.

Esta concepción romántica de las ruinas –ruinas que glorifican el pasado prerrevolucionario y prefiguran el decaimiento del actual orden- satisface el interés de los extranjeros y sus nostalgias más que las de esos habitantes de La Habana; y la industria turística oficial ha sido renuente a capitalizarla, dirigiendo a los visitantes, en cambio, hacia los monumentos restaurados de la ciudad vieja y a los recién abiertos hoteles de la costa. Pero ello no excluye una complicidad doméstica en esta estética ruinosa de La Habana –la misma que implica el desplazamiento figurativo que hacen los escritores antes citados de las ruinas de segunda clase del Beirut destruido por la guerra.

En 1994, la artista Tania Bruguera distribuyó a través de una red de conocidos los primeros ejemplares de su panfleto “Memoria de la posguerra”. El panfleto invitaba a sus lectores a registrar sus reflexiones acerca del Período especial, el período post soviético de severa crisis económica. La guerra en su título es, obviamente, la Guerra Fría –pero el paisaje que Bruguera invoca es uno más fértil, que podría ser leído, sobre el curso de la década, como el emplazamiento de otras guerras imaginarias. La Beirut semejante a La Habana de Mejides merece la analogía precisamente porque, sugiere él, es la escena de una guerra civil -“sufrida Habana, que había resistido el ataque de sus mismos hijos” –, pese a que no existen en la memoria reciente ataques militares a gran escala, y no es una lucha armada, sino la negligencia, lo que ha causado la devastación de la ciudad.
 
  
Entonces, ¿dónde y cuándo podemos localizar la guerra civil en La Habana, la agresión a manos de sus propios hijos? La obra de Antonio José Ponte ofrece una exploración más matizada de esta guerra imaginada. En su ensayo La viga maestra, el tiempo, publicado como ¿Por qué estoy aquí? en la colección de foto-ensayos de Terri McCoy Cuba on the Verge, sugiere que cada período revolucionario “intenta abrir en el Tiempo una brecha insalvable, y ese ataque a la fortaleza de lo temporal muy pronto pasa a ser encastillamiento propio”. Como consecuencia, con el fin de conservar su pasado, tales proyectos mantienen su entorno físico en estado de ruina. En un posterior ensayo acerca de la modelización idealista de La Habana, Ponte sugiere que las escenas de destrucción de la ciudad sirven a un propósito hondamente ideológico: proveen espejismos de batallas, utilizados políticamente como recordatorios de la guerra que no sobrevino a la Crisis de Octubre de 1962. Escribe Ponte: “Ry Cooder definió que, con la música del álbum Buena Vista Social Club, intentó recrear el sonido de una orquesta cubana de los años sesenta que nunca había existido. Practicante de una nostalgia aún más poderosa, el gobierno cubano ha conseguido convertir a La Habana en el sitio de un ataque esperado en los años sesenta que no tuvo lugar nunca” (256).

Desde esta lectura, las ruinas de la ciudad representan la memoria y, simultáneamente, el temor a una guerra estructurada a través del tiempo: las amenaza de invasión estadounidense de la Crisis de los Misiles de 1962, una pasada guerra jamás materializada; el presente y continuo ataque que implica el bloqueo; y el conflicto a gran escala con el enemigo imperialista, de proporciones inimaginables, que siempre parece inminente. Esta estudiada conservación de una devastación bélica es consistente con la retórica de militarización que ha permeado el discurso público cubano desde las tempranas batallas contra el vicio y el analfabetismo hasta el presente “período especial en tiempos de paz”. Una escena de Contrabando de sombras perpetúa está analogía alterada que se establece entre las ruinas y la ilusión de guerra. El fotógrafo español de la novela se deleita tanto en La Habana como en Beirut precisamente debido a su devastación: “en medio de la guerra, por la época en que todo resultaba más decrépito, le había llegado la sensación de pertenencia a un sitio. Y nunca más volvería a encontrar sabor en lo intacto”.

Es este aspecto encubierto de construir ruinas –debido a un interés que no revela su complicidad con los estragos del tiempo- el que Ponte atienden en su cuento Un arte de hacer ruinas. El título ya sugiere que las ruinas no han surgido simplemente, sino que han sido hechas, o incluso fabricadas; la historia culpa implícitamente a esos que podrían ver las ruinas habaneras nostálgica o heroicamente a través de la perpetuación de una estética con mala fe. Como se lamenta Ponte en ¿Por qué estoy aquí?, “la contemplación estética de la vida habanera suele pasar por alto que sus ruinas están habitadas.” Como si desafiara tal ignorancia, Un arte de hacer ruinas tiene por escenario una Habana afligida por dos problemas urbanos contemporáneos, la sobrepoblación y el derrumbe frecuente de sus edificios, y refiere la historia de un estudiante intentando escribir su tesis acerca de la creación de espacio donde este no existe.

Amenazado por la “tugurización” (“la capacidad que tiene una ciudad superpoblada para hacer espacios dentro del espacio urbanizado”, Rodríguez 184) y sostenido por “la estática milagrosa” (30) (término arquitectónico para los edificios que se mantienen en pie pese a que los cálculos estructurales podrían indicar lo contrario), La Habana es “una ciudad… que crece hacia adentro” (25). Y todavía hay una ciudad creciendo hacia abajo: tal y como el estudiante descubre, es un nivel extremo de práctica clandestina de la “tugurización” lo que determina el milagro estructural de la ciudad. Al final de la historia, el estudiante tropieza con una extraña ciudad subterránea: debajo de La Habana, una replica parásita ha sido reconstruida con materiales robados de arriba, ciudad ésta que perpetúa la ilusión de una estructura perdurable, cuando de hecho la crea de una manera aún más precaria. Esta ciudad es Tuguria, “donde todo se conserva como en la memoria” (39), pero la memoria a cuyo servicio la ciudad bajo tierra ha sido arruinada es precisamente el problema. Ya que las ruinas son reverenciadas en nombre de una nostalgia idealista o de la intimidación, sugiere el relato, su atractivo visual es permitido para eclipsar el sufrimiento humano que es su más inmediato contenido.


La obra de Ponte expone los abusos de las ruinas de La Habana, y sugiere una relación perturbadora entre las ruinas y los intereses globales y locales. Desplazar La Habana hacia Beirut, como Ponte y Mejides hacen, es inducir un choque de valores similar al que provoca el fotomontaje de Arturo Cuenca de la esquina de Tejas de Miami, titulado “Esto no es La Habana”. El mensaje implícito es “La Habana no es Beirut”, y representa una acusación contra las fuerzas tanto locales como foráneas que necesitan una ciudad que permanezca en ruinas. Estas ruinas particulares del presente, entonces, son una llamada a la acción; y su restauración, según la entiendo, equivale a su repolitización. La repolitización de las ruinas es, necesariamente, una práctica diferente en diferentes contextos: para Teotihuacan pudiera significar defender el patrimonio artístico contra el consumismo fácil y la homogeneidad arquitectónica. Para La Habana, cuyas imágenes circulan en los mercados globales, de los cuales se ha protegido su infraestructura económica, el movimiento opuesto es quizás más adecuado: la repulsa a ver belleza en las ruinas, una sospecha sobre su estatus en tanto que arte. Pero en ambos contextos, la restauración conlleva cuestionar los intereses ideológicos que podrían apropiarse de la ruina, ya sea relegándola a las sombras de un gigante económico como WalMart, o haciéndola pervivir como ilusión perdida y batalla a ser ganada.

*Esther Whitfield é professora na Brown University, Rhode Island, EUA.
Versão em Espanhol: Dean Luis Reyes
Fonte: Escuela Internacional de Cine Y Televisión, La Habana
(Fotos: no-more.com, pilot of a project to photograph, catalog, map, and visually assess, Havana buildings).

23 abril 2010

Gondwana - o Paraná e a Namíbia no filme "Maack, profeta pé na estrada"


Release TV Cultura, SP, 30.08.07
25º Programa da Série DOCTV III


Cenários brasileiros e africanos - cerca de oito décadas após a passagem do pesquisador alemão - estão nessa biografia do pioneiro nas preocupações ambientais

Já em 1920, um geólogo denunciava a devastação ambiental no Paraná e registrava, em 16 mm, as paisagens do norte do estado antes da chegada da cultura do café. A biografia deste homem, Reinhard Maack, é o tema do 25º programa da Série DOCTV III, que vai ao ar neste domingo, dia 2 de setembro, às 23h, pela Rede Pública de Televisão.

Ao contrário da maioria dos documentários, Maack, o Profeta Pé na Estrada não nasceu da admiração da equipe de produção pelo personagem. “A idéia foi fazer um filme sobre um personagem apesar de profundas discordâncias com seus valores ideológicos e morais. Maak foi soldado do Kaiser na África. Mas o documentário resgata suas virtudes, e isto foi para mim uma autodeterminada lição de tolerância e respeito pelo 'outro' e suas diferenças”, afirma o diretor Frederico Füllgraf que, assim como Maak, tem origem alemã e radicou-se no Brasil.


“Maak foi visionário em sua capacidade de pressentir e alertar sobre a devastação ambiental aqui no Sul do Brasil”, afirma Füllgraf. Ele conta que o vídeo alia a biografia de Reinhard Maak a referências ao seu pioneirismo científico. Entre as virtudes do pesquisador - cartógrafo, geógrafo, geólogo, paleontólogo e engenheiro de minas -, que também foi professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), o diretor ressalta o pioneirismo, a competência e o visionarismo.


“Descobri, através de seus diários, africanos e brasileiros, inéditos, um Maack não apenas ungido de sua aura de geógrafo e geólogo, mas surpreendentemente poético. Para o roteiro do filme eu traduzi um fragmento dos diários e criei aquela cena ao pé da fogueira, onde vemos Maack descrevendo uma noite às margens do Rio Tibagi, no Paraná, onde há cativante sensibilidade, rara numa cabeça apenas técnica”, avalia.


Durante os trechos do documentário gravados na Namíbia, o diretor e roteirista assumiu também a captação das imagens e a direção de fotografia, para garantir que a viagem coubesse no orçamento - R$ 100 mil em recursos do Programa DOCTV. Depois de sua estréia televisiva, o filme já tem uma agenda de projeções especiais para a comunidade científica, sobretudo para geógrafos e naturalistas de todo o país, informa Frederico Füllgraf.


Ficha Técnica
Maack, o Profeta Pé na Estrada - Brasil / 2007, 52 minutos

Direção: Frederico Füllgraf


Co-produção: Frederico Füllgraf / Eloah Produções / Paraná Educativa / Fundação Padre Anchieta-TV Cultura de SP

O trailer

http://www.youtube.com/watch?v=gBWU12_4QY8&feature=related


Leia entrevista com Frederico Füllgraf

"Filme mostra contribuições de Maack à Geografia e Geologia"
 MINEROPAR
www.mineropar.pr.gov.br/modules/noticias/print.php?storyid=540

EM BREVE: compre aqui seu DVD