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30 maio 2015

Frederico Füllgraf - O beijo de Bóreas, Parte I

Reparos à “Viagem no Brasil” (1817-1920)
de Carl Friedrich Phillip von Martius & Johann Baptist von Spix




Südfriedhof - Cemitério da Zona Sul, Munique, verão de 1992. 

Seguindo a indicação de Alexander von Martius, tetra-tetraneto do lendário naturalista-viajante, vim prestar uma homenagem a dois brasileiros aqui sepultados. 

E lá estava a lápide reproduzida na capa do  livro de Henrike Leonhardt, que eu acabara de ler: esculpido em mármore azulado, levita no céu o mitológico deus dos ventos do norte, soprando seu hálito glacial sobre o corpo de duas crianças, prostradas: Isabella-Miranha e Yuri-Comás, dois curumins com idades variando entre 10 e 14 anos, arrancadas da Amazônia tropical e transplantadas para o inverno de Munique, onde morreram de frio, entre 1821 e 1822.

Ao lado dos dois indiozinhos, repousa Carl-Friedrich Phillip von Martius - médico, dublê de botânico, geólogo e geógrafo, aos 23 anos de idade - que juntamente com Johann Baptist von Spix (32 anos, zoólogo), empreendeu a mais longa de todas as expedições naturalistas ao interior do Brasil-Colônia: a "Viagem pelo Brasil". 

Para um cineasta à procura de uma back story, não poderia haver imagem mais desconcertante que a do túmulo dos curumins, aos pés dos Alpes; metáfora de inúmeras aberrações que aderem à história das expedições científicas europeias do séc. 19, à América profunda.

No divã de Humboldt

Recém-retornado de sua epopeia nas Américas, Alexander von Humboldt foi assediado por convites para proferir palestras e participar de tertúlias com amigos e admiradores nos salões da nobreza prussiana, em Jena e em Weimar, discorrendo sobre sua Voyage aux régions equinoxiales du Nouveau Continent, fait en 1799-1804, par Alexandre de Humboldt et Aimé Bonpland (Paris, 1807). 

Na plateia costumava reunir-se a fina flor das artes e da cultura alemã da época, tais como Heinrich Heine, Ludwig Tieck, ou ainda Matthias Claudius, Carl Friedrich Gauss, Wilhelm Grimm e August Wilhelm Schlegel, sem esquecer os já canonizados Johann Wolfgang von Goethe e Friedrich Schiller. Entre os ouvintes que disputavam uma cadeira, frequentemente estava um jovem médico dublê de botânico, chamado Carl-Friedrich Phillip Martius, de Munique, que não desgrudava olhos e ouvidos dos lábios de Humboldt.


Parte da plateia estava ali para deliciar-se com o "olhar planetário" do barão, porque fenômenos fantásticos como as assim chamadas "províncias botânicas" - conceito científico emoldurado por uma estética das floras, que segundo Humboldt teciam um cordão de afinidades eletivas, botânicas, ao redor do planeta - constituíam verdadeiras relíquias visionárias. Mas Humboldt estava burilando um projeto completamente inédito, que atraiu e extasiou grande número de artistas plásticos: o "Ensaio de uma geografia das plantas". Nela, ela pretendia plasmar suas concepções sobre a representação artística da natureza tropical.



Humboldt já tinha esboçado uma técnica da representação das plantas em corte anatômico e, não se considerando, ele mesmo, dono da mão mais engenhosa, o que precisava, agora, eram representações de paisagens pela mão de artistas consumados. E de uma forma tal que resultassem adequadas do ponto de vista estético, e fossem ao mesmo tempo cientificamente informativas. Estas paisagens, enfatizava Humboldt, deveriam ser contempladas como organismos vivos e como totalidade. Por isso, seria preciso captar nos desenhos a ação conjunta dos fenômenos naturais, como as condições climáticas e o crescimento, mas acentuando as representações das plantas e as silhuetas das colinas mais características. 

Na platéia, ovações e êxtase...

Elegante, mas categórico, agora Humboldt discorria sobre o aspecto mais delicado e comprometedor de sua nova cosmogonia: o imperativo de um novo olhar político sobre as Américas, atitude que definiu como Wiederentdeckung - o re-descobrimento. E nestas oportunidades era possível perceber que Alexander não era o termômetro, mas ele mesmo protagonista destes novos tempos, pois ousava denunciar, enérgico, o sistema colonialista nas Américas, assentado sobre o massacre dos indígenas autóctones e a exploração do mais abjeto escravismo.

Não cabia dúvida que a inflexão ideológica de seu discurso tinha um quê do "sotaque" francês de 1789 - "liberté-egalité-fraternité! - e não por acaso o gênio berlinense pisara o continente americano exatamente na véspera da eclosão do movimento independentista, no sul encabeçado por nacionalistas como Bolívar e San Martín. 

Com seu novo olhar sobre as Américas, assim o percebia a platéia, simbolicamente Humboldt declarava morto o ciclo da "longa noite escura", inaugurada pelos "descobrimentos" do séc. XVI. Portanto, cobrava o gênio, o programa de todo naturalista que se prezasse, interessado em baixar às regiões equinociais, deveria constituir-se da mais rigorosa investigação científica, acompanhada de não menos enérgica conscientização humanista e política. 

O jovem Martius anotou o recado em sua agenda, mas algo constrangido.

Resultados versus “filosofia”- a  Viagem pelo Brasil

No início de 1817, começam os preparativos para a partida ao Brasil da Missão Austríaca, cujo personagem central era a Arquiduquesa Leopoldine von Habsburg, pedida em casamento por D. Pedro I. Integravam a comitiva o zoólogo Johann Baptist Spix e o médico, dublê de botânico, geólogo e geógrafo, Carl-Friedrich Phillip Martius, que desembarcaram no Rio de Janeiro em abril de 1817. Mas eis um aspecto político do convite: como súditos cristãos do Império da Áustria e do Reino da Baviera, contaram com o estímulo de D.João VI, apenas porque lhe pareciam confiáveis.

E aqui se faz mister explicar um conflito com "esses intelectuais, metidos" da Alemanha: em 1795, o rei português embargara o visto de entrada para outro alemão, mais célebre, porém nada confiável aos olhos da Casa de Bragança: ele mesmo, Alexander von Humboldt, adepto da Revolução Francesa, cujo desembarque no Brasil a Coroa avaliava como perigoso estímulo à luta dos brasileiros pela Independência (Humboldt era esperado em Vila Rica). Enxotado para o Brasil, após a invasão de Portugal por Napoleão, e ainda por cima abrir as fronteiras da colônia para as "bisbilhotices" do prussiano francófilo era, na acepção de D. João VI, colocar a raposa como guarda do galinheiro! Em 1800, quando a Coroa, em Lisboa, soubera que Humboldt fazia pesquisas na fronteira da Venezuela com o Brasil, oficiara o governador da Província do Maranhão, mandando-o distribuir um cartaz: "Alexandre de Humboldt, vivo ou morto!".

Por outro lado, o convite aos dois bávaros foi também uma espécie de compensação para a malfadada "Viagem Filosófica", comandada pelo naturalista baiano, Alexandre Rodrigues Ferreira, e auspiciada  pela Academia das Ciências de Lisboa e o Ministério de Negócios e  Domínios Ultramarinos (1). De 1783 a 1792, Ferreira percorrera as capitanias do Grão-Pará, Rio Negro e Mato Grosso, mas seu rico acervo jamais fora estudado em Portugal, sendo requisitado por Napoleão como butim de guerra e desviado para a França.


Contabilizados os prejuízos, agora o entendimento da Coroa era de que estas viagens não deveriam esgotar-se no devaneio romântico, mas inserir-se na estratégia de fortalecimento da economia imperial, isto é, produzir resultados. Entre suas finalidades, as expedições visavam a reprodução em cativeiro de plantas trazidas pelos naturalistas, e a diversificação da agricultura de contexto colonial.

Pelo Brasil profundo

O primeiro aspecto que chama atenção na "Viagem..." de Martius e Spix foi a extensão territorial de sua caminhada: mais de dez mil quilômetros, percorridos em ziguezague, do Rio de Janeiro até as fronteiras com o Peru e a Colômbia; extensão que se compara à campanha militar de Alexandre Magno, na Ásia Menor, e que faria sombra à "Odisséia" de Ulisses e à "longa marcha" de Mao Tsé Tung, durante a Revolução Chinesa. 

Spix e Martius embrenharam-se em um trópico hostil, a pé, em lombo de burro; navegando rios em canoas improvisadas, dormindo ao relento, passando privações, adoecendo, perdendo as esperanças. E quase o juízo. Despencaram em cachoeiras, e por um triz não morreram afogados, como atesta uma cruz afixada à porta de uma capela em Santarém, na Amazônia.

Interessado em refazer essa odisséia, adaptada para formato de seriado para a TV Alemã, que deveria ser produzido pelo jurista Walter Kalthoff, de Munique, e dividido em 12 capítulos dos três tomos da versão original da "Viagem...", mergulhei no texto da crônica de Martius, que descreve a faina diária dos expedicionários, coletando plantas, animais, minerais e fósseis, catalogando-os provisoriamente. Plantas e animais recebiam desenho apenas esboçado, geralmente acompanhado de instruções para os coloristas, de Munique, pois in situm os naturalistas não possuiam as tintas apropriadas, nem o tempo. Mas o primeiro desfalque da "Viagem pelo Brasil" - espécie de maldição que se abaterá duplamente sobre a expedição de Langsdorff, anos mais tarde - foi Thomas Ender, aquarelista austríaco com a função de “repórter fotográfico”, que adoeceu e abandonaria a expedição, antes mesmo de atingir São Paulo. Suas aquarelas refletem os modos de percepção dos pintores viajantes europeus ao construírem certa imagem do Brasil no início do século XIX, e serviram de modelo para várias enquadramentos de câmera que fizemos em Bananal, buscando a posição mais aproximada do eixo de seus cavaletes.

Entre Santa Cruz, na Província do Rio de Janeiro, e o Alto Japurá, na Amazônia, Martius coletou  20 mil ecicatas, representando 6.500 espécies botânicas, entre as quais  400 espécies novas, descritas na "Flora Brasiliensis" - obra monumental, de aprox. 80 tomos, que reúne 23 mil espécies botânicas, com cerca de 4 mil ilustrações, de acachapante beleza e precisão, e que só recentemente foi digitalizada e está acessível na Internet (http://www.fapesp.br/publicacoes/flora/) na forma de projeto patrocinado, entre outros, pela empresa Natura. O que se desconhece completamente no Brasil é a belíssima zoografia de Spix, que catalogou centenas de espécies de aves, primatas, além de infindáveis gêneros de insetos, que constituem o acervo cult da Coletânea Zoológica do Estado da Baviera, com belíssimas reproduções, em aquarela, de espécies de aves hoje virtualmente extintas. Causou-me enorme estranhamento a visita à Coletânea, onde “dormem” centenas de tucanos brasileiros - e dez, apenas, não teriam sido suficientes? Replicou o prof. Ernst Fitkau, sucessor de Spix, cento e setenta anos mais tarde, que o estudo das espécies vivas requer sempre o abate de dezenas e centenas de indivíduos. Resposta cruel. E lá estão os tucanos, empalhados, com quase duzentos anos de idade, que já perderam o odor a formol, mas cujas plumas continuam sedosas, e cujos olhos brilham, por vezes esboçando sorrisos de cumplicidade. Tocá-los é uma experiência mágica e ao mesmo tempo insólita.

Estratégia fatal

Vinte mil plantas a bordo da galera Nova Amazona, e outro tanto de animais - eis a "Arca de Spix e Martius", em Belém, no ano de 1820, preparando-se para a grande travessia. A nau toma  feições de um colorido jardim botânico, à cuja sombra jaz um hilariante jardim zoológico de animais abatidos.

E la nave va ...

Entretanto, à altura das Ilhas Canárias, a estratégia fatal da travessia é sinalizada pelas primeiras rajadas de vento gelado, e as plantas começam a definhar. 

Martius registra em seu diário de bordo a “má vontade  do capitão português com a carga”, mas é a latitude que exige seu tributo. 

A galera partira de Belém durante o afélio, quando a Terra encontrava-se na posição mais afastada do Sol, e era verão no Hemisfério Norte. À medida, porém, que o barco avançara, rumo a Lisboa, acima da linha dos equinócios, a Terra inclinara-se para o periélio, anunciando a aproximação da estação fria na Europa. 

A propósito, “Herr Professor”, era pergunta a se fazer a Von Martius: o que, diabos, os curumins amazônicos ainda fazem a bordo? 

Já estão batendo queixo de frio como peixes fora d água! 

Tarde demais, porém: três (ou terão sido quatro, cinco – ninguém sabe quantos índios foram, exatamente) morrem de frio. Sim, porque além dos curumins, presenteados por suas tribos, alguns índios adultos também pegaram "carona" na caravela de Spix e Martius. Mortos, são lançados ao mar gelado, mas dizem os nativos que, quando no céu noturno desponta a Estrela Dalva, eles podem ser vistos na abóbada, caminhando de volta ao grande Rio-Mar...

Spix, Martius e sua “arca” cruelmente desfalcada de índios, animais e plantas, atingem a foz do Tejo no final de outubro de 1820. 

Extenuados e debilitados, apressam-se em saudar a El Rey, em Lisboa. 

Enquanto a galera segue viagem para descarregar o butim tropical em Gênova, os naturalistas tomam uma carruagem rumo a Munique. A bordo dela, febris e silenciosos, dois curumins de pele da cor do cacau, são arrastados através do tapete branco, mágico e fatal, da Europa invernal.


07 outubro 2011

Frederico Füllgraf - Koch-Grünberg, pioneiro do cinema na Amazônia

Taurepang, 1911

Ensaio


Em 1911, quando o boom da borracha, na Amazônia, já descrevia uma curva descendente, o antropólogo alemão, Dr. Theodor Koch-Grünberg, empreendia sua terceira expedição à selva amazônica.

Talvez os céus lhe tivessem dado um crédito de sobrevida, porque, mal completara vinte e quatro anos de idade, vinculara-se à descabeçada e acidentada expedição de Hermann Meyer, iniciada em 1896 em Buenos Aires, rumo à foz do Rio Xingu. Sobrevivente, retornou à Alemanha e escreveu seu doutorado. Em 1903,  partiu para sua primeira expedição pessoal à Amazônia, internando-se em territórios onde cem anos antes o naturalista Carl F. Philip von Martius concluía sua “Viagem pelo Brasil” (http://fuellgrafianas.blogspot.com/2010/11/o-beijo-de-boreas-parte-i.html).

Agora, Koch-Grünberg explorava o Rio Japurá e o Rio Negro, até a fronteira da Venezuela. A expedição durou dois anos e, de volta à Alemanha, o antropólogo a documentou com o livro, Zwei Jahre Unter Den Indianern. Reisen in Nord West Brasilien, 1903-1905. (Dois anos entre os índios. Viagens no noroeste do Brasil, 1903-1905, com farta e fascinante cobertura fotográfica. 


Naqueles dias, um tal Fitzgerald, seringalista peruano, procurava atalhar caminho entre dois rios, o Varadero de Fitzcarrald, para levar sua borrache em menos tempo para Manaus. Nas matas perto dali, nascia a etnografia audio-visual de Koch-Grünberg: as gravações em cilindros metálicos, às quais se somavam as impressões visuais de seu convívio com os índios do Alto Rio Negro, com os quais montou uma espécie de “ateliê das selvas”.



A terceira expedição de KG partiu de Manaus, em 1911, até o Rio Branco e de lá rumou à Venezuela. Em 1913, KG alcançou o Rio Orinoco depois de explorar nesse percurso, a pé e de canoa, várias regiões ainda hoje de difícil acesso. Ao voltar a Manaus, escreveu seu livro mais importante, Vom Roraima Zum Orinoco (De Roraima ao Orinoco), publicado em 1917, mas só outros100 anos depois no Brasil (cf. Livraria UNESP). 

Durante esta expedição, com a duração de dois anos, nascia o primeiro filme na História da Amazônia – “Aus dem Leben der Taulipang in Guyana” (Da vida dos Taurepang na Guiana),
As bem humoradas anotações que seguem, descrevem os percalços da filmagem, realizadas por KG e seu assistente, H. Schmidt, e foram por mim traduzidas da edição original de “Vom Roroima zum Orinoco”.

 Minha afirmação, de que KG é autor dao primeiro fillme amazônico (http://www.cronopios.com.br/site/colunistas.asp?id=2690), suscitou polêmica e contradisse a crença generalizada na Amazônia, reverberada pelo escritor Márcio Souza, segundo a qual o português, Silvino Santos, teria sido o pioneiro, com seu filme rodado em 1912 no Putumayo, contratado pelo “cauchero”, Julio Cesar Aranã.

Theodor Koch-Grünberg

O diário das filmagens

"As chapas fotográficas que me foram fornecidas por uma grande e famosa empresa berlinense, são uma encrenca. A consistência das chapas de Isolar deixa muito a desejar. Ainda que eu proceda com o maior cuidado, revelando somente durante a madrugada e enxaguando o material em água fresca do arroio da montanha, em várias delas a emulsão se desprende em grandes nacos de pele. Bom número de imagens se perde e terá que ser re-fotografada. O banho de sulfato duplo de alumínio e sódio, que eu executo rigorosamente segundo o manual, comprime a camada flácida demais em um sem número de rugas, tornando as fotografias imprestáveis. Toca de forma notavelmente ridícula ao especialista em trópico, quando lê, impresso em três idiomas na embalagem deste material, "a prova de trópicos“, que: "a temperatura do revelador não deverá exceder 20 graus centígrados”. É muito raro encontrar água com  temperatura tão baixa nos trópicos, que pelo menos se mantenha baixa até conseguirmos revelar uma dúzia de chapas.

[....] Já as gravações fonográficas me proporcionam alegria compensadora. Eu trouxe um cilindro já gravado e costumo tocar as gravações para habituar as pessoas à percepção de que o aparelho reproduz a voz humana. "---- és minha doce, pequena mulher“, da peça "O Conde de Luxemburgo“ de Lehár, e trechos  ("---mas, que coisa, o que é que deu na Rosa“ -  do  charmoso  regional da Renânia, "No Bósforo“, de Paul Lincke, são canções que eles sempre voltam a pedir e não demora até essas crianças com tino musical entoarem as melodias, com divertida  mutilação do texto alemão.

[...] É preciosa a ajuda que o cacique Pitá me dá neste trabalho. Com sofrível acompanhamento de Pirokaí, ele mesmo entoa os cânticos de dança dos Makuschí para o funil [do fonógrafo], também o Parischerá, o Tukúi, o Muruá, um Oarebã, somente dançado de dia, e outro, que é dançado de madrugada. Com suas vozes luminosas, agradáveis, duas meninas entoam canções envolventes, como acompanhamento da ralação de mandioca (...)



 


[...] A meu pedido, o cacique arrasta o curandeiro Katúra à cena. Inicialmente, este resiste a cantar para a ´mákina´, como todos os índios costumam chamar minhas engenhocas mágicas. Desconfiado, Katúra pergunta por que eu quero levar sua voz comigo. Eu lhe prometo presentear uma grande faca. Isso o convence,  mas desde que a gravação seja feita em todo segredo e que, depois, seus cânticos não sejam reproduzidos `às pessoas´. Provavelmente teme [expor-se e]  perder sua influência. Pitá enxota todos os visitantes da maloca [...]  – in:  Theodor Koch-Grünberg,  Do Roraima ao Orinoco, edição alemã, 1917, vol. I, 51-53

"O que devo relatar sobre os dias seguintes ? Eles foram belos, também de paz, não menos laboriosos, é certo, como na minha primeira estada em Koimélemong. – Contudo, não foram os ´selvagens´ que nos fizeram sofrer, nem os mosquitos, que a cada dia surgiram em menor número. Não - foi uma das mais modernas conquistas da civilização, há vinte anos sequer imaginada pelos exploradores – o Kinematógrapho!


Kynematographo

Carregar sua pesada caixa, é um suplício diário e, de entrada, esforço aparentemente inócuo. Apesar de observarmos atentamente as recomendações, a película costuma emaranhar-se após alguns metros. A exposição à luz torna este pedaço de filme imprestável, tendo que ser cortado e queimado, para que os índios não cometam besteira com a sobra [tóxica]. Generosas, essas pessoas aguardam pacientemente debaixo de calor tórrido, suspendem respeitosamente suas danças e seus afazeres, até que eu consiga carregar um novo chassis.  Eu retomo a manivela e a geringonça trava novamente. Assim, muito material, tempo e paciência são desperdiçados. Sem perda de tempo, após sua impressão os filmes têm de ser retirados do chassis, embalados em folha de alumínio e acondicionados em latas metálicas. Quase nu, estou alapado na barraca improvisada de câmara escura, tomando um banho turco, na acepção mais aleatória do termo, pois do lado de fora já se faz meio-dia com 35 graus à sombra. Freqüentemente, só conseguimos repousar muito depois de meia-noite e, mesmo dormindo, continuamos a manivelar [o cinematógrafo]...

(...) Estou completamente estendido no chão, que reflete um calor de chapa de fogão.  Observo as brincadeiras das crianças, ou converso com meninas e mulheres inteligentes, que tomam aulas de alemão comigo. Elas quase torcem a língua na tentativa de repetir a fonética das pesadas palavras, que lhes parecem duras, devido à profusão incomum de consoantes. Suas divertidas gargalhadas parecem não ter fim. Querem saber o nome de tudo em alemão: da lua e das estrelas, de todas as  partes do corpo. Elas me perguntam o nome do meu pai, da minha mãe, da minha esposa e dos meus filhos, se eu resido na montanha ou na planície, quais os animais que vivem sobre a terra, na água e no ar da minha terra natal; se lá as pessoas têm de morrer, se também existem Piasángs (curandeiros) e muito mais. Ato contínuo, me pedem para cantar.  E o cenário é como o de Uaupés. E que belas canções eu canto !  "Annemarie, wo willst du hin / Anamaria, pra onde queres ir“, ¨Saufen ist das Allerbest/ Beber é o melhor que há...“, "Ich ging mal bei der Nacht / Uma vez fui de madrugada ...“ – canções que certamente os missionários não cantam para elas! [...]" (Koch-Grünberg 1917, Vp, Roroima ao Orinoco / Do Roroima ao Orinoco, Tomo 1, 80-81).


Cenas de Taulipang (1911)


Imagens: Philips Universität Marburg, Museum für Völkerkunde Berlin

04 novembro 2010

Frederico Füllgraf - O beijo de Bóreas, Parte II

Isabella Miranha,Yuri Comás: morte em Munique


"Pai da Botânica Brasileira"
Cento e setenta anos após a aventura de seu tetravô, o advogado Alexander Von Martius, instalado em endereço nobre do Odeonsviertel, setor histórico de Munique, incumbiu-se da administração do acervo biblio e iconográfico da expedição, recolhido em regime de comodato à Biblioteca do Estado da Baviera. Emocionado com a eventual imortalização de seu ilustre ancestral em telas e monitores, abre o acervo para a pesquisa de pré-produção do filme que eu queria fazer.
Manusear os manuscritos originais, rabiscados, de uma obra clássica, é uma experiência emocionante, e sua monumentalidade inibe. Após a morte de Spix, ocorrida em 1825, provavelmente por causa de uma malária mal-curada, Martius dedicou com persistência avassaladora os dois terços restantes de sua vida à tabulação de dados científicos e à publicação do imenso acervo coletado no Brasil. E ei-lo, sistematizado. Em "Passado e Futuro do Homem Americano" (Munique, 1838), Martius ousou traçar um perfil antropológico do índio brasileiro, mas com olhar europeu, fatalista. Já com a  "Natureza, Doenças, Medicina e Remédios dos Índios Brasileiros" (Munique, 1844) compilou o primeiro receituário fito-terapêutico e de medicina popular do Brasil, constituído de aprox. 130 plantas medicinais em uso no início do séc. 19.

Do ponto de vista estético, porém, suas duas obras mais exuberantes são a "Historia Naturalis Palmarum" - atlas em três tomos e ilustrações in folio, no qual o botânico inventariou mais de 120 espécies palmáceas brasileiras - e a "Flora Brasiliensis", cuja edição completa o próprio D. Pedro II ajudou a financiar, e que entre 1840 e 1906 contou com a participação de aproximadamente 60 especialistas internacionais, tais como o desenhista de plantas, Johann Buchberger. A instituição das "províncias botânicas brasileiras" – estabelecidas em  nova ordem taxonômica, e agrupadas em 40 famílias - além da publicação de mais de 20 obras científicas nos terrenos da Botânica, Zoologia, Medicina, Antropologia, Geografia e Lingüística, certamente faz de Martius o maior brasilianista do séc. 19, logo celebrizado como "pai da Botânica brasileira.".

Através de sua obra geográfica e botânica, Martius soe apresentar-se como cientista - objetivo, sisudo, quase frio. Ao longo da expedição, no entanto, irromperá em cena, mas como tímido personagem coadjuvante, o Martius-pessoa; subjetivo e apaixonado. Emocionantes são suas cartas, cujos originais, trocadas com Goethe, manuseio em Munique, e numa delas ele informa ao autor de "O Jovem Werther" que em território da atual Bahia acabara de batizar de Goethea Cauliflora uma plantinha da família das malvas - um  gesto de gratidão pelas informações contidas na  “Morfologia das Plantas”, da autoria de Goethe, que participa desta expedição como correspondente entusiasmado.

A música e uma história de amor

Ana Maria Kieffer

Jovem com formação e um excelente ouvido musical, Martius tocava violino, que o teria acompanhado durante a expedição. É bem possível que tenha atravessado o Brasil, vez por outra executando um Mozart ou alguma obra sacra, mas sentiu-se seduzido pelos Lundus e as Modinhas, nativos, cantados em arraiais e saraus, nas fazendas. Memorizava as melodias populares, muitas delas de autores anônimos, e de ouvido escreveu suas respectivas partituras, contribuindo para sua eternização: “Eu nem suspirar sabia, Antes de te conhecer, Mas depois que vi teus olhos, Sei suspirar, sei morrer...” Algumas foram anexadas à edição alemã da "Viagem pelo Brasil", e pela primeira vez adaptadas e gravadas em CD (2) pela cantora lírica, paulistana, Ana Maria Kieffer, e seu conjunto de música popular do Brasil-Império. Fundadora de certa “Confraria Von Martius”, grupo de artistas e intelectuais brasileiros, apaixonados pela Viagem pelo Brasil, Ana Maria recebeu como se fosse um presente, meu convite para compor a trilha sonora do filme, cuja produção foi interrompida porque em 1992 seus principais investidores alemães resolveram empatar seu dinheiro na ex-Alemanha Oriental, sucatada.

Outra janela subjetiva prevista no roteiro do filme foi a revelação dos originais de “Frei Apolônio” (3), romance que Martius escreveu como espécie de “interface entre a divulgação científica e a imaginação literária” (4). Enredo fortemente autobiográfico, seu personagem central é um naturalista estrangeiro em visita à Amazônia, apaixonado por uma índia brasileira. “Frei Apolônio” nasce durante a caminhada de Martius pela selva, onde presta atenção aos afazeres das mulheres; brancas, mestiças e índias. Sendo médico, observa sua manipulação de plantas medicinais, sua capacidade de cura de variadas doenças, mas é sobre a intimidade das mulheres índias que recai o olhar furtivo do personagem do romance; e quase sempre com o recorte psicológico do buraco da fechadura; certamente porque Martius era luterano, devoto, ou porque sua antropologia rudimentar já lhe exigia distanciamento do objeto do desejo. Os originais do livro foram trancados a sete chaves pela Família Von Martius, mas descobertos na mesma Biblioteca por pesquisadores bávaros, em 1967. A decisão de esconder o livro do público não se deveu ao temor da devassa da intimidade de Martius, mas aos próprios defeitos de composição literária, na qual, segundo Nicodemos Senna “o contexto invadiu o texto...abrindo-se um abismo entre a imagem e sua expressão”


O beijo de morte de Bóreas

Spix, Martius e os dois curumins chegaram a Munique debaixo de espessa nevada, a poucos dias do Natal de 1820, e foram a grande atração das colunas sociais bávaras. Os castelos e casarões não tinham calefação, mas os indiozinhos foram obrigados a tirar a roupa,  expostos à curiosidade pública e à sanha dos pintores, como “os calados selvagens do Prof. Martius”. O paroxismo: como a garota Isabela pertencia à tribo Miranha, do Alto Rio Negro, e o menino Iuri, ao grupo dos Comás, das margens do Rio Purus, sequer conseguiam comunicar-se, recolhendo-se em terrível sentimento de desproteção e mutismo.

Martius, contudo, exultava: havia conseguido apresentar a Sua Majestade, Max, o Rei Maximiliano, dois selvagens em carne e osso, admiração tributada pelo rei com a concessão dos títulos de nobreza - "von" - aos dois viajantes. A índia Isabela foi rapidamente “adotada”  pelas jovens filhas do rei. Deram-lhe roupas finas e tentaram ensinar-lhe alemão e a etiqueta - “Guten Tag, mein Name ist Isabella!“. Mais isolado, Iuri adoeceu antes que Isabella também caísse com febre. Questionava-se a velha copeira de Martius, se era o frio ou, por acaso, a tristeza que estavam deixando as crianças doentes. 

Compassiva, a  escritora Henrique Leonhardt (5), colocou-se no lugar dos curumins, imaginando a perspectiva: tudo era assustador para as crianças, sempre acocoradas ao lado de suas camas. Leonhardt  preencheu com emocionante tentativa de reconstituição ficcional o silêncio reservado por Martius aos dois índios. Iuri e Isabella nunca tinham visto uma casa, não estavam habituados aos móveis, estranhavam os cheiros e o sabor das comidas. E o que dizer desse pesado sotaque bávaro, desafiando o seu jejum - Essen, ihr müsst essen, Kinder, sonst ruf’ ich die böse Hex’! (Comer, vocês tem que comer, crianças, senão eu chamo a bruxa malvada!).

- Abram estas malditas janelas!, vociferava Martius, toda vez que acedia ao quarto, gelado, em que definhava o menino Iuri. O professor  atribuía seu mau estado de saúde “à falta de ar fresco”. Muito pelo contrário, era o excesso de elementos em perigoso ponto de glaciação, que estava matando o índio brasileiro. O estado de Iuri piorou e Martius mandou chamar o médico da família. Tarde demais: feito um gravatá, colhido nos trópicos e transplantado para o canteiro das tulipas de neve, não resistiu ao beijo de Bóreas, deus dos gélidos ventos do norte: Iuri morreu no inverno de 1821.

Isabella sobreviveu mais um ano. No verão, as meninas brincaram com ela o jogo da amarelinha, e os adultos levaram-na, com aquele chapéu de renda branca, até o Chiemsee, o belo lago aos pés dos Alpes, azulados. Mas Isabella não suportou o terceiro inverno da Baviera, falecendo no final de 1822, e foi sepultada com Iuri no Südfriedhof, onde Martius veio fazer-lhes companhia, após sua morte ocorrida em 1868. 
"Como se deve escrever a História do Brasil"
Em 1844, Von Martius publicou um interessante ensaio, intitulado "Como se deve escrever a História do Brasil". Constatando que a historiografia oficial era totalmente permeada pelo discurso colonialista português, esboçou a matriz de um projeto historiográfico, que segundo seu entendimento seria capaz de conferir uma identidade à Nação, em processo de construção. Segundo Von Martius, seria desejável que os futuros historiadores centrassem seu foco na missão específica reservada ao Brasil, enquanto Nação, e estimulando a idéia da mescla das três raças, assegurassem sua identidade.

Traçando um esboço do país, cuja evolução obedeceria a certa "lei das forças diagonais", cada uma dessas raças seria um motor da História do Brasil. Mas com reservas, porque segundo a concepção de Von Martius, devido à sua maior experiência civilizatória, o branco deveria ser contemplado com maior interesse na liderança nesse processo. Já os negros são enfocados sob o prisma, contraditório, da depreciação, pois representariam um obstáculo ao processo civilizatório - olhar que hoje só pode causar espanto, dada sua conotação racista, mas completamente "natural" no contexto de uma etnografia apenas emergente, em meados do séc. 19. Os indígenas, enfim, apesar de enquadrados sob o ponto de vista de "ruínas de povos antigos", mereceram a valorização do naturalista, que encoraja sua integração à História Nacional sob a perspectiva dos conhecimentos que propiciaram à História Natural do país.

O vôo filosófico e humanista do botânico não agradou à elite da época, que rejeitou, até o início do século XX, a miscigenação que Martius identificava como pilar da identidade nacional. Apesar de suas próprias restrições, a reflexão de Martius “foi uma ante-sala do discurso da miscigenação, fundamental para definir a identidade nacional”, afirma Karen Lisboa, autora de uma das narrativas brasileiras sobre a expedição.

Escravos e natureza de Rugendas

Martius, Langsdorff e Rugendas
Exatamente um ano depois do regresso de Spix e Martius a Munique, Hans Lorenz Rugendas participava da redação do contrato entre seu filho, Hans Moritz (ou João Maurício) Rugendas, e o Barão Von Langsdorff, que na qualidade de emissário do czar, Alexandre I, e de Cônsul da Rússia no Rio de Janeiro, contratava naturalistas e artistas para sua própria expedição ao interior do Brasil, a ser iniciada em maio de 1824.
O mesmo rei Max Josef, ou Maximiliano José I, da Baviera, um grande entusiasta do Brasil, foi informado sobre o projeto de Rugendas, já que havia apoiado a expedição de Martius e Spix, e ali mesmo combinaram que João Mauricio Rugendas deveria ampliar os contatos já existentes no país. Martius acompanhou os preparativos da viagem, e da mesma forma como Humboldt, que residia em Paris e estava debruçado sobre o texto da sua "Nova genera et species plantarum" (7 vols. in fólio, escritos entre 1815 e 1825), ele também solicitou a Rugendas que lhe enviasse desenhos e aquarelas para ilustrar suas obras de botânica.

No início de janeiro de 1822, Rugendas tomou um navio no porto de Bremen, rumo ao Brasil, desembarcando em 5 de março de 1822 no Rio de Janeiro, onde o esperava Langsdorff. Nascido em 1802, quando desembarcou, Rugendas mal completava 20 anos de idade, celebrando seu aniversário em 29 de março de 1822, na Fazenda Mandioca, de Langsdorff.

A fazenda, localizada no hinterland do Porto da Estrela, nos fundos da Baía da Guanabara, se estendia por uma zona de grande diversidade botânica, e já servira como refúgio para Auguste Saint Hilaire, Spix, Martius e outros. Apesar da pujança tropical, o artista plástico não consegue desfrutar relaxadamente dessas belezas naturais, pois ali mesmo começaram seus enfrentamentos ideológicos com Langsdorff; aspecto da permanência de Rugendas no Brasil muito raramente enfocado por autores nacionais.

Ocorre que em sua fazenda o Barão mantinha 200 escravos, negros, por quem Rugendas logo se afeiçoou vivamente. Langsdorff era um homem carismático, mas certamente não um re-descobridor das Américas, na linha iluminista, pró-abolicionista e independentista, recém-inaugurada por Humboldt, e, sim, um empreendedor que apostava na longevidade do sistema colonial. Já Rugendas chegava ao Brasil, marcado pelo espírito do Romantismo alemão e a rebeldia ideológica do movimento "Sturm und Drang" (literalmente:agitação e impulso), de precoce matiz republicano.

O artista se compadeceu das condições de vida cruéis dos escravos, e devido aos seus duros agravos ao regime escravagista, a relação do barão e do jovem artista plástico ficou estremecida antes mesmo que a expedição partisse. Quando atravessavam as Minas Gerais, deixando para trás Barbacena, São João del Rei, Ouro Preto e Sabará, Rugendas e Langsdorff se enfrentaram numa última disputa.

Concluído o trabalho de ilustrador, ao qual estava obrigado por contrato, Rugendas desligou-se da expedição, tomando uma decisão que se pode considerar acertada, pois já era previsível que nem de longe o empreendimento de Langsdorff teria o êxito da expedição de Spix e Martius, realizada cinco anos antes. Adrien-Aimé Taunay, substituto de Rugendas como desenhista da expedição, morreu afogado num rio, e foram tantas as doenças e mortes durante a malfadada aventura, que Langsdorff se viu obrigado a interrompê-la e regressar à Europa, onde ele mesmo desembarcou em estado mental próximo à demência.

Final feliz (para a Ciência...)
Comparados com o verdadeiro saque biológico, perpetrado durante o período colonial pelas potências européias contra os países e povos colonizados, com esta viagem e esta obra, monumentais, Spix e Martius legaram à memória nacional muito mais do que efetivamente levaram do país - missão científica, da qual desgraçadamente o translado doidivanas dos dois indiozinhos da Amazônia resta como esmaecida nota de rodapé da História.

26 março 2010

Frederico Füllgraf - Nazistas na Amazônia

(Fotos: O. Schulz-Kampfhenkel, "Rätsel der Urwaldhölle", Dt.Vlg. 1938)


A história dos alemães que desembarcaram no Jari em 1935 para uma confusa e misteriosa expedição científica



Publicãção original in: Revista Brasileiros, Nazistas na Amazônia - Edição 21 - (Abril/2009) - http://www.revistabrasileiros.com.br/edicoes/21/.../554/

 Entre a foz do Rio Jari, no Amazonas, e sua deslumbrante Cachoeira de Santo Antônio, há uma cruz de madeira, medindo três metros de altura por dois metros de largura, que há alguns anos é explorada como atração turística no Amapá. Debaixo dela jaz o teuto-brasileiro Joseph Greiner, ali sepultado em janeiro de 1936, vitimado pela selva. Feita sacrário, hoje a cruz é protegida por um telhado e encabeçada pelo entalhe de uma suástica - a cruz gamada de origens indo-tibetanas, popularizada como ícone incendiário do nazismo. Lápide improvisada, o necrológio da cruz explica: "Joseph Greiner morreu aqui em 2/1/36, a serviço da pesquisa alemã, vitimado pela febre - Expedição Alemã do Jary, 1935-1937".

Setenta anos de intempérie se encarregaram de esmaecer um dos pouquíssimos marcos de uma insondável aventura na Amazônia.


Meu envolvimento com a história que segue começou em 2003, por meio de uma página encontrada por acaso nas profundezas da internet, intitulada "A rota do nazismo na Amazônia", em referência ao livro sobre uma misteriosa expedição alemã. Minha primeira reação foi a lembrança da teoria da conspiração tramada no livro A crônica de Akakor (Editora Bertrand, 1977) do correspondente da rádio alemã no Brasil, Karl Brugger - assaltado e assassinado no final de 1983 à saída de um restaurante no Leblon, Rio de Janeiro. Nele Brugger ecoava a invencionice contada nos anos 1970 por um falso índio, de uma "expedição nazista à Amazônia", ocorrida no final da 2ª. Guerra Mundial - crônica esdrúxula reciclada em 2007 por Steven Spielberg. Plágio bilionário, o cenário apoteótico de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal é a "cidade perdida" de Akator, supostamente uma "base subterrânea de nazistas na Amazônia". No curso destes anos resisti à publicação do que sabia sobre o Jari para não comprometer um projeto cinematográfico há muito acalentado. Contudo, o episódio atraiu o interesse da revista alemã Der Spiegel, cujo correspondente no Brasil resolveu adiantar-se, publicando o livro Das Guyana-Projekt (O Projeto Guiana). Resisti em lê-lo para não me deixar influenciar, mas a publicidade dada ao assunto na Alemanha justifica, agora, a abertura de uma modesta janela no Brasil.


No inferno das selvas


Num sebo da internet encontrei o tal livro sobre a expedição. Folheando-o, dei-me conta que tinha nas mãos a encomenda errada, porque sua edição era a de 1953. Demorei em entender que são duas as versões sobre a aventura no Amapá: uma oficial, de 1953, e outra, de 1938, nem tanto. Publicado pela Deutscher Verlag em 1938, plena ditadura nazista, o livro original "Rätsel der Urwaldhölle" - Mistérios do inferno da selva, que eu adquiri mais tarde, tem 60 fotografias a mais que a versão pós-guerra. Suas ilustrações mais escancaradas são duas suásticas: uma, na cabeça da cruz, e outra, tremulando alegremente na popa de uma canoa, sobre o Jari. Símbolo proibido pela constituição democrática alemã, do pós-guerra, as fotos com as suásticas nazistas foram banidas da edição de 1953.


Capricho germânico, o livro é um diário making of do filme homônimo, estreado e distribuído pela Universum Film AG (UfA) em 1938, depois misteriosamente desaparecido. Em seu lugar, surge na década de 1970 o inofensivo documentário Sobre o cotidiano dos índios da selva amazônica - relatos de uma viagem de pesquisas, 1935 - 1937, distribuído pela WBU, produtora de filmes educativos, fundada na década de 1960 pelo geógrafo dublê de documentarista, Otto Schulz-Kampfhenkel.


O apoio brasileiro


Conta a versão oficial da aventura que em outubro de 1935 desembarcam em Belém do Pará três jovens aviadores alemães, acompanhados de 11 toneladas de bagagem, cuja lista e sofisticação extrapolam abusivamente os limites desta crônica. Risível nota de rodapé é que além do inexplicável arsenal trazido, os alemães não abriram mão do conforto, em plena selva amazônica, de cobertores de pelo de camelo e roupa de cama. Eram eles Gerd Kahle, Gerhard Krause e o líder da expedição, Otto Schulz-Kampfhenkel. Ao contrário da informação, falsa, veiculada pela imprensa internacional, Joseph Greiner, sepultado sob a cruz do Jari, não foi integrante do Esquadrão de Pesquisas Schulz-Kampfhenkel, vindo da Alemanha, mas, provavelmente, contratado no Rio de Janeiro. Explica o líder da expedição: "Neste meio tempo Gerd (Kahle) manda um cabo do Pará, informando que lá não é possível encontrar nenhum 'capataz'. Mas já que eu estou no Rio de Janeiro, tento encontrar algum landsmann (patrício), criado no País e versado em Português. Depois de muito procurar, eis que encontro o sujeito certo: Joseph Greiner, auslandsdeutscher (alemão criado no exterior), jovem marinheiro, empreendedor e confiável, que se soma como quarto integrante ao nosso grupo expedicionário, onde terá a função de mestre-bagageiro, capataz e encarregado das provisões. Contratado, ele embarca no primeiro navio de cabotagem rumo ao norte, no Pará". (Rätsel der Urwaldhölle, Berlim, 1953.)


Antes de receber a permissão para subir o Jari, Schulz-Kampfhenkel gastou mais de dois meses com extenuantes despachos aduaneiros e expedientes burocráticos no Rio de Janeiro. Credenciado pelos mais prestigiados institutos de pesquisa e museus de história natural da Alemanha, Schulz-Kampfhenkel conseguiu facilmente a adesão do Instituto Emilio Goeldi, em Belém, e do Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Contudo, o apoio mais importante seria o das Forças Armadas brasileiras, que em 1935 ainda não estavam divididas em facções pró-Alemanha e pró-EUA. Por isso, em Belém, o governador José Carneiro da Gama Malcher e o general Manuel de Cerqueira Daltro Filho prestigiaram o comando alemão com sua visita.


Os alemães retribuíram a gentileza com um teste do hidroavião modelo "Seekadett", burlescamente batizado de "Águia Marinha", especialmente equipado com flutuadores de compensado e instrumentos de navegação, tudo inédito para os embasbacados dignatários brasileiros. Talvez o entusiasmo brasileiro se devesse à expectativa de lucrar com o componente mais importante da missão: o levantamento topográfico da bacia do Jari até suas cabeceiras, mapeamento até então inédito, mas previsto nos mínimos detalhes pelo geógrafo Schulz-Kampfhenkel.

Expedições da SS


A expedição ao Jari coincidiu com um capítulo insólito da história do nazismo. Chefe de um "Estado dentro do Estado" - o famigerado Departamento Central de Segurança do Reich, subordinado à SS -, o sombrio e esotérico Heinrich Himmler tinha uma obsessão: acreditava na fantástica "civilização de Atlântida", cujos descendentes, "de raça pura", presumiu no Tibet e na América do Sul. Na origem de seu esoterismo estavam "ariósofos" sinistros, antissemitas e também seu fascínio pelas pesquisas do mitologista Otto Rahn, sobre as fabulações do Santo Graal. Reciclando o Santo Graal como mistério pagão para a SS, Himmler inaugurara uma série de expedições para os recônditos do planeta, onde seus homens deveriam encontrar vestígios genéticos da "raça ariana".


Em 1934 Himmler indica o jovem geógrafo Otto Schulz-Kampfhenkel, recém-filiado ao partido nazista NSDAP, como participante da primeira expedição alemã ao Tibet. Otto não embarcou e safou-se de uma tragédia, pois a maioria dos integrantes morreu na Nanga Parbat, depois do Everest, a nona montanha mais alta do mundo. A terceira expedição alemã, ocorrida em 1939, celebrizou-se com o livro Sete anos no Tibet, de Heinrich Harrer, oficial da SS (protagonizado por Brad Pitt, no filme de Jean Jacques Annaud). Outra expedição de Himmler teria como destino a Amazônia, mas ocorreu apenas na imaginação fértil das confrarias esotéricas. Himmler e Schulz-Kampfhenkel voltariam a se encontrar, mas quem patrocinou a expedição ao Jari, como mentor do geógrafo, foi Hermann Göring, aviador durante a Primeira Guerra Mundial na esquadrilha de Manfred von Richthofen, o Barão Vermelho, logo promovido a ministro da Aeronáutica de Hitler. Muito bem articulado com o complexo industrial-militar e os grandes bancos alemães, Göring já apadrinhara expedições anteriores de Schulz-Kampfhenkel, aviador como ele, e mais uma vez abriu-lhe as portas para a expedição ao Rio Jari.


Berlinense de origem abastada, Schulz-Kampfhenkel estudara geografia e ciências naturais, especializando-se na caça de animais africanos para jardins zoológicos alemães. Mas do que gostava mesmo era de voar. Com sua paixão pela zoologia, em 1934 participou ativamente da "arianização" ocorrida na DGS (Sociedade Alemã de Pesquisas em Mamíferos) - centro de excelência mundial. Como a maioria dos militares alemães, o geógrafo se insurgiu contra o Tratado de Versalhes, imposto aos alemães por sua derrota na Primeira Guerra Mundial, e que, entre outras retaliações, lhes proibia pesquisas científicas no exterior. Schulz-Kampfhenkel não via a hora de violar o tratado com sua expedição ao Jari.


Contra a correnteza


Jari, final de 1935. Apesar da contratação de uns 30 caboclos-mateiros, familiarizados com a selva, foi uma operação tumultuada. Que o Jari era um imenso tapete pedregoso, repleto de cachoeiras, sem superfície de pouso para o hidroavião, era detalhe que os alemães já intuíam, apostando em condições mais apropriadas rio acima.


Enquanto Gerd Kahle, no comando da expedição, desafiava a lei da gravidade, forcejando contra a correnteza, na retaguarda Schulz-Kampfhenkel e Gerhard Krause chocaram os flutuadores do "Águia Marítima" contra toras de árvores submersas, entre Gurupá e Arumanduba, e o hidroavião espatifou-se sobre o Amazonas. Agarrados a um dos flutuadores, a mais de um quilômetro da margem amapaense do Amazonas, os dois alemães estavam sendo arrastados pela maré. Foram salvos por remadores caboclos, que Schulz-Kampfhenkel louva como "heróis da selva". Estava gravemente comprometido o principal objetivo da expedição: o mapeamento aéreo da bacia do Jari.


Barcos sobrecarregados e rio raso demais, o geógrafo determina a instalação de subacampamentos, dividindo sua equipe. O inverno amazônico se aproximava, chovia copiosamente. Explorando um rio, Schulz-Kampfhenkel foi surpreendido por uma súbita enchente, perdendo seu barco com todo o equipamento - câmeras, material de cartografia, armas, provisões e roupa. Durante uma semana errou sozinho pela selva. Foi resgatado e safou-se da morte pela segunda vez.


Em janeiro de 1936 alcançaram a grande aldeia dos índios Aparaí, no médio Jari. O capataz e mestre-bagageiro Joseph Greiner desce novamente o rio, para apanhar as provisões guardadas em Santo Antônio. Mas os índios que o acompanhavam retornaram sozinhos. Krause, o mecânico do avião e operador de som, saiu em seu encalço, mas não conseguiu salvá-lo. Então Krause o sepulta, ergue aquela cruz de madeira e faz os entalhes legíveis até hoje. Depois envia uma mensagem ao comando da expedição, na aldeia Aparaí, informando que, surpreendentemente, o estoque de quinina de Greiner estava intocado. Ele não havia tomado um comprido sequer, obviamente confiando exageradamente na "imunidade" do seu organismo.


No "inferno verde"


Tudo indicava que o lendário Curt Nimuendaju Unkel, alemão que vivia em Belém e era ligado ao Instituto Emilio Goeldi, havia sido convidado para guiar a expedição, e neste caso poderia ter evitado grande parte do descalabro. Mas Schulz-Kampfhenkel menciona com frieza seu encontro com o indigenista conterrâneo, provavelmente porque Nimuendaju desprezava o nazismo. Desde 1910 ele atuava no recém-fundado Serviço de Proteção ao Índio (SPI), mas entraria para a história do cinema como consultor de pelo menos quatro produções cinematográficas na Amazônia.


Aliás, o "inferno verde" parecia dar o troco, cobrar tributos por velhos pecados alemães, jamais expiados. Como o caso dos índios levados em 1820 para a Alemanha pelo naturalista Carl Friedrich Phillip von Martius: três adultos faleceram durante a travessia do Atlântico, e os dois curumins Isabella Miranha e Yuri Comás estão sepultados no Cemitério Sul de Munique. Morreram de frio durante o inverno de 1820 /21. Outra aberração: os crânios dos índios Botocudos, caçados por exploradores alemães, entre eles o príncipe Maximilian zu Wied, para compor o macabro acervo dos darwinistas de plantão - prática absolutamente dentro da etiqueta, pois ninguém menos que D. Pedro II, durante uma visita à Alemanha, tirou da bagagem, de presente, um crânio de silvícola.


Mas eram exatamente esses melindres que atiçavam o frenesi alemão, atraindo mais de 20 produções cinematográficas alemãs à Amazônia, entre 1920 e 1941. Sua maioria explorava a forte demanda por enredos exóticos. Com uma exceção: o longa-metragem de ficção Kautschuk / O inferno verde, inspirado no emblemático episódio do contrabando de 70 mil sementes de seringueira pelo agente britânico Henry Wickham, em 1870. Com um set de mais de 60 pessoas em plena selva amazônica, a produção ocorreu na mesma época em que Schulz-Kampfhenkel se penitenciava no Jari.


Os Aparaí do "Führer"


Era 1936, ano das Olimpíadas em Berlim, Schulz-Kampfhenkel não estava interessado em cultura, apenas em "raça". Insensíveis à religiosidade Aparaí, os alemães abateram e descarnaram uma enorme sucuri, que nadava à flor d'água e não os ameaçava, juntando seu couro ao butim de centenas de peles, crânios, ossos, dentes, plumagens e órgãos conservados em álcool, prometidos aos museus de ciências naturais da Alemanha. Mas não havia ali ciência alguma, o galpão "científico" dos alemães mais se assemelhava a um gigantesco açougue. Apesar disso, o relacionamento com os hospitaleiros Aparaí foi mais do que pacífico: índios e alemães tornaram-se muito bons amigos. Os indígenas naturalmente não entendiam os objetivos do alemão. A sexualidade brotou entre hóspedes e anfitriões. Mas, obviamente, não há nos livros de Schulz-Kampfhenkel qualquer pista de seu envolvimento com a formosa Macarrani, filha do cacique Aocapotu. Assumi-la teria significado admitir a inadmissível fraqueza da carne germânica, "superior", e uma traição da doutrina racial, cujo rosário o alemão desfiava com fervor. Ao despedir-se dos Aparaí em 1937, o alemão deixou para trás uma mulher grávida. Sua filha, nascida entre 1937 e 1938, foi batizada de Cessé, também conhecida por "alemoa": tinha a tez clara e os olhos azuis de seu pai "ariano". Contou-me Cristóvão Lins, ilustre pesquisador e autor da História do Jari, que pouco tempo atrás morreu José Pinheiro, líder dos caboclos de Schulz-Kampfhenkel. Com isso foi-se a última testemunha viva do nascimento de Cessé.


Operação Guiana


Início de 1937, perto da Guiana Francesa. Os alemães não tinham cruzado o Atlântico com toda aquela parafernália para testar bobagens. O que Schulz-Kampfhenkel queria experimentar era a aerofotogrametria, técnica que revolucionou a cartografia moderna. Já com o avião fora de combate, teve de se contentar com suas medições feitas em terra. Apesar de extenuados "seus" índios e caboclos, o alemão insistiu teimosamente em mapear as cabeceiras do Jari, a pouca distância da Guiana Francesa. O mapa da fronteira era a chave de ouro para fechar seu plano da colonização do território francês por grandes contingentes alemães, apoiados numa forte "coluna indígena". Com a invasão da França pela Alemanha, em junho de 1940, o geógrafo não teve dúvidas: submeteu-o a Heinrich Himmler. Recomendou a selva (do Amapá e da Guiana Francesa) como território privilegiado pela natureza, com baixíssima densidade demográfica, excelente para a exploração como "colônia tropical", que "não deveria ficar nas mãos de povos, que, comparados à Alemanha ou à Inglaterra, são inferiores, do ponto de vista racial e civilizatório". Porém, o chefe da SS repeliu a idéia com uma aritmética muito simples: para quê todo o esforço hercúleo, de subir o Jari, se a França estava sendo ocupada e a Guiana Francesa seria "alemã" por tabelinha?


O espião do Saara


No início dos anos 1940 a "operação Guiana" era página virada da história. O "Esquadrão Schulz-Kampfhenkel" - integrado por geólogos, geógrafos, hidrólogos e botânicos, e devidamente incorporado à SS - leva a cabo uma missão especial no norte da África. O grupo deverá produzir mapas para a avaliação de terreno, o que faz com incursões rápidas e mediante a cartografia aérea. É quando o expedicionário do Jari vive seus dias de glória: da cabine de seu avião, Schulz-Kampfhenkel mapeia o relevo do Saara, para determinar as trilhas apropriadas aos pesados blindados do Afrika-Korps do marechal Erwin Rommel.


Chamado de volta à Alemanha e promovido a capitão da SS em maio de 1943, Otto é nomeado "Delegado Especial para Missões Geocientíficas do Conselho de Pesquisas do Reich", executando operações de inteligência geográfica sobre o território da União Soviética. Mas, perdida a guerra, ele foi preso pelas tropas norte-americanas e duramente interrogado pela OSS, precursora da CIA. Com o "desmanche" da Alemanha, os EUA levaram consigo milhares de técnicos e cientistas. E apesar de liberado em 1946, o geógrafo-aviador continuou figurando como "nazista a serviço da inteligência militar norte-americana", na letra "S" do arquivo "Top Secret decimal file, Records of Army General Staff, RG 319, NA", tornado público há poucos anos.


Otto Schulz-Kampfhenkel, o "nazista da Amazônia", terminou seus dias levando a vida que tinha pedido a Deus. Viajando, dirigiu dezenas de documentários educativos e científicos. Conta-me Falko Ahsendorf - diretor de fotografia em várias produções de Otto sobre a África e o Oriente Médio, nas décadas de 1960 e 1970 - que Mistérios do inferno selvagem, o filme sobre a expedição do Jari, estreado em 1938, tornou "próspero" o geógrafo-aviador, morto em 1989, aos 78 anos de idade. Mas de seu pai rico, a índia Cessé Schulz-Kampfhenkel nada sabia. 


E é onde começa outro filme sobre a aventura, agora contada de trás para frente.