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30 setembro 2024

Frederico Füllgraf - Diário da Namíbia

Reinhard Maack, Schutztruppe, 1914

Crônica de viagem


Quando meu guia Siegphried - prenome hilário, grafado com “ph”, mais para Otelo que para personagem de Wagner – com sua estampa de rastafari, parou à entrada de uma gruta informativa, colada às paredes rochosas ao pé do Monte Dâures, intuí que estávamos próximos dela. 

Caminhando pelas trilhas do vale, ao lado do bravo Siegphried, eu tentava aprender o estalo de língua (simbolizado por exclamação que antecede certas  palavras, característico dos idiomas bosquímanos), para pronunciar corretamente seu sobrenome (“!Karuchab”), quando ele acenou para um painel redigido em Inglês, advertindo os caminhantes para a transcendência histórica e a imperativa preservação daquele patrimônio da Humanidade, que a poucos passos dali costuma desafiar olhos e mentes, extasiados, com silente beleza milenar.

À sombra do anteparo rochoso, bebi o resto da água mineral prestes a ferver no fundo da garrafa aquecida pelo sol, acendi um cigarro e despistei minha ansiedade. 

Fazia um ano que iniciara minha pesquisa sobre ela, e me preparara para este encontro. Mas, qual o significado de “Don’t pour / spray liquid on them” ? 

Quando o guia aludiu aos atentados de turistas ocidentais contra as pinturas rupestres, com restos de Coca Cola, para “realçar” cores consideradas esmaecidas demais para suas máquinas fotográficas canibais, não me contive e, pela primeira vez desde tempos imemoriais, as pedras avermelhadas do vale de Tsisab ecoaram um sonoro palavrão em Português.

Segui os vinte passos do guia até o refúgio de pedra, como quem ingressa em território sagrado e, de repente, ela se desvelou muito maior e bonita do que eu havia imaginado: a mitológica White Lady. 

Exultei, tremi dos pés à cabeça. 

Obstinado, eu tinha conseguido alcançá-la! Apesar dos obstáculos, da pressão de agenda e do orçamento de produção apertado demais para aquela travessia de Curitiba até o deserto de Namib; via Congonhas, caos aeroportuário, enchente na Marginal, Cumbica, Johannesburgo e Windhoek...

Os quatrocentos quilômetros de estrada da capital até a incandescente Omukuruwaro, Dâures ou Brandberg (“montanha incendiada”, em dialeto Herero, Damara e Alemão, respectivamente), em parte rodados debaixo de sol com 45 graus, foram motivos para festa. Eu não os sentira mais, já estava sob o efeito do transe do deserto, a alma entregue à trilha sonora de certa ancestralidade que transpira da paisagem esculpida; ora doce, ora inclemente. Mas, com uma intrigante sensação de “Walt Disney was here!” Depois, enquanto caminhávamos pela paisagem tórrida, subitamente me lembrei: claro, “Rei Leão”! Como o castelo de Neuschwanstein, do doidivanas Ludwig, plagiado integralmente para cenário de Cinderela, passaram o scanner em toda a Namíbia - dos bichos, pelas montanhas, ao céu, sempre azul - para o storyboard de um filme hollywoodiano que faturou bilhões em todo o mundo.

Mas preciso alertar que eu não viajara até aqui por interesse arqueológico e, sim, por obstinação cinematográfica, a tudo decidido para fechar uma estória – a aventura do topógrafo, dublê de geógrafo e geólogo, alemão, Reinhard Maack, iniciada aqui, entre o Namib e o Kalahari, na África Austral, durante a 1ª. Guerra Mundial, e concluída na década dos anos 60 nos sertões do Paraná; agora reconstruída fragmentariamente em filme para o DOC TV.

Homem, cuja biografia sinaliza a passagem de várias mulheres por sua intimidade, parece ter dormido sempre com seu teodolito ao lado – tão forte sua atração por montanhas; e por quedas, no sentido mais metafórico da palavra. 

Suas conquistas mais famosas estarão sempre contextualizadas por situações extremas: enfrentamentos, prisões, fugas. Teimoso, já vivendo no Brasil, em 1941 duvidou que o Pico Marumby fosse o ponto orográfico mais elevado do Paraná e enfrentou uma escalada de dezesseis dias com chuva, espinheiras, a vertigem das escarpas, barro e tombos, até conquistar o pico por ele batizado de Paraná; o “Kilimandjaro do sul” na acepção de “Vitamina”, o “papa” do montanhismo paranaense. 

A epopéia de Maack custou-lhe três anos de prisão na Ilha Grande, acusado, segundo o prontuário policial da época, de “espionagem para o 3º. Reich", mediante a “transmissão de sinais de lanterna de mão para submarinos alemães, na baía de Paranaguá”. Que Maack alimentava simpatia pelo "Führer" e seu "Reich" nazista era notório, mas que manifestara aquela simpatia de modo tão primário e risível, mais soava como  teoria da conspiração, pobre em figurinos e contra-regra.

Vinte e três anos antes, Maack fugira de um campo de prisioneiros inglês, na então colônia, que antes de "Namíbia" se chamava “África Alemã do Sudoeste”, assumindo a identidade falsa de “Hans Ritter”, passando à clandestinidade, e no final de 1917 entrincheirando-se no Monte Brandberg, que esquadrinhou em seus mínimos detalhes, com a pachorra de agrimensor das Schutztruppen do Kaiser.

Durante o mapeamento desta montanha mais elevada do sul da África, descrita pelos bushmen como milenar “montanha dos deuses”, ocorre o imprevisto: uma patrulha inglesa topa com Maack e três companheiros armados, balas dançam e ricocheteiam pela garganta do Tsisab. Os alemães conseguem escapar e, entre tombos e rachaduras de chapas fotográficas, ao pé da montanha incendiada, Maack depara-se com a gruta misteriosa.

Sem nenhuma chapa fotográfica inteira para seu lambe-lambe, o topógrafo esboça a lápis o gigantesco painel de 5,5 m de largura por 2,0 m de altura. 

Em seu diário de campo especula intensamente sobre o significado desta mais exuberante pintura rupestre de toda a África. Seus desenhos inspirarão uma editora alemã a publicar, em 1930, o primeiro livro sobre arte rupestre bosquímana. 

Em 1947, o abade francês Henri Breuil visita a já então famosa « Gruta de Maack » e batizará seu personagem central com o controvertido nome de «Dama Branca ». Breuil identifica traços « egípcios » e até « cretenses » (minóicos) na técnica do painel, sabichando que a pintura só poderia ser de origem "extra-africana", talvez da mão de « pintores-viajantes » - eurocentrismo rasteiro, fácil de entender, pois Breuil atuava como perito a convite do Apartheid sul-africano, capaz de negar a existência de uma alma em corpo de africano negro.

Sítio característico de cerimônias sagradas dos bosquímanos, com uma idade estimada entre 4 mil a 2 mil anos, a «Dama Branca » é uma vibrante coreografia. Seu centro é ocupado por uma figura dançante, rodeada por um círculo de três caçadores e vários animais. Seus realces em branco contrastam as cores básicas do ocre, vermelho e preto, utilizadas na fase ainda monocromática da pintura rupestre. Na mão esquerda segura um arco e um punhado de flechas, mas na direita, em atitude de invocação, ostenta uma espécie de cetro – o cálice do enigma jamais desvendado...

Em uma cena ficcional, por mim escrita e gravada para o DOC TV, Maack, já vivendo no Brasil, ironiza o abandono de sua dama : «intocada, luxuriante mulher fatal... ». No entanto, através de leituras prévias à expedição ao deserto, eu já desconfiava que tinha que experimentar a desilusão in situm e transferir a decepção ao espectador excitado, rasgando o véu de mistério, que encobre a desejada africana: é que a « dama », apesar de teimosas fantasias europeias, é um cabra macho!

A mortificante revelação é um detalhe observado por arqueólogos mais atentos que Breuil: um discreto cinto, cuja parte frontal sustenta uma bolsa de proteção escrotal. 

Concorre para a desmistificação da burla (Dama Branca, uma Drag Queen do deserto??) o imperativo histórico, segundo o qual, mulheres não eram toleradas no centro dramático de um ritual de caça (aqui explícito), tido, durante milênios, como enclave exclusivamente masculino. Já, na periferia, também da « Dama Branca », abundam seios fartos, de mulheres em papel de meras figurantes da ação.

De volta do deserto, mas ainda intrigado, leio que « damas brancas », como as de Castle Huntly, Branch Brook Park, Durand-Eastman Park, Willow Park e a esfinge de Metedeconk, são todas e, literalmente, miragens femininas para inglês ver. 

Até desenlaçar-se um cinto viril, que não é o da castidade...

(Fotos:  Frederico Füllgraf; divulgação)

19 agosto 2019

Frederico Füllgraf - Roberto Arlt, Cármen e Baía Creek

Fotos: bafilm.com.ar, R. Haussmann

Cármen de Patagones
Roberto Arlt

Imposibilitado de utilizar diez definiciones para calificar al pueblo de Patagones escalonaré unas cuantas. El público puede quedarse con la que más le agrade. Ahí van:

Patagones es un pueblo donde uno se puede morir de muerte romántica.
Patagones es una niña bien. Aspira.

Patagones podría ser una ciudad costera de Brasil. Es más quieto y denso que una de aquellas ciudades del trópico donde José Mojica y la Rubia Platinada se desvanecen escuchando una rumba ejecutada por la orquesta de Don Aspiazu.
Patagones es bonito como un beso de novia. (En días de lluvia).

En Patagones se puede escribir una novela de amor tan amoroso, que después de leerla, los amantes no escojan sino entre el suicidio o la felicidad.

Patagones es noble, rústico y severo y, al mismo tiempo, dulce como un “menino”.

Para escribir sobre Patagones hay que ponerse una mano sobre el corazón y entornar dulcemente los ojos. Y no tener miedo del ridículo al afirmar que es diez veces más bonito que Bahía Blanca, que Rosario y que Tandil, a pesar de ser diez veces más pequeño que la parroquia de Caballito.

Todas estas y otras innumerables virtudes se le pueden descubrir a Patagones en un día nublado. (in: En el país del viento, Editorial Sigmur, 1996.)


Baía Creek

Frederico Füllgraf


Quando o arrependimento dói, é preciso reinventar-se.

Mal lembrado, era meio-dia, sol a pino, quando atravessaram, apressados, Patagones, porque pretendiam atingir San Antonio Oeste antes do anoitecer. Mas não pelo caminho mais curto, a Ruta Nacional 3 e, sim, bordejando o Golfo de San Matías, sobre uma estrada de rípio, feita de cascalho e muito pó, porque ali, assim alertara o Guia YPF, se ocultavam duas atrações: a lobería Punta Bermeja e, depois dela, a Baia Creek.

Rumo à Patagônia e ao fim do mundo, estavam imersos numa paisagem localizada mil quilômetros ao sul de Buenos Aires, onde o Rio Negro separa sua província homônima da de Buenos Aires, ato continuo desfazendo-se no Atlântico, em El Pesadero.

Navegando sob colunas de pó de cor ocre, que penetrava pelas frestas do carro hermeticamente fechado, e levitava em câmera lenta diante de seus olhos, como plumas à brisa, sobre o primeiro segmento da estrada de rípio, atingiram Punta Bermeja, para apreciar os primeiros lobos marinhos em suas vidas. Que têm primos maiores, chamados leões, e que são todos muito belos, mas de pouca conversa, logo mostrando suas presas afiadas e amareladas de maresia, sal e tanto peixe, e prontos para o ataque. E têm toda razão: não têm nada a ganhar com essas fotos, todas, tiradas às suas custas, mas tudo a perder com a importunação de sua siesta ao sol, que por ali é disputado a rosnaduras e mordidas; de tão infrequente.

E então se descortinou Bahia Creek - paisagem escarpada com praias desertas, de areia negra, vulcânica, feito refúgio que incitava ao recolhimento contemplativo. 

No horizonte, o dia já sangrava em texturas alaranjadas e purpúreas que, refletidas pela superfície das águas, faziam do mar a casa dos espelhos gelatinosos e ondeantes. 

Vento áspero varria a praia, levantando areia em espirais de furta-cores. 

Ela se acocorara, buscando proteção ao lado de um arbusto, que tanto tremia, dando sentido literal àquele provérbio da vara verde. Tiritando sob as rajadas de vento, tirou a roupa. Era o primeiro nu feminino, dela. E dele! 


Silente, os olhos pregados naquele mar de prata e sangue, ela não percebia que sobre seu seios serpenteavam os pincéis do crepúsculo. Tinha aquele abandono de Vera Broido nas fotos de Raoul Haussmann. E ele sentiu-se enternecido. 




Quando o vento foi se tornando gélido e o mar, mais negro, agasalharam-se com beijos de hálito quente e seguiram para San Antonio. Mas seus pensamentos estavam em Cármen - Cármen de Patagones.

Em parte, isso soa a imaginação, um devaneio incitado por aquela paisagem primeva e metálica, cuja beleza excessiva fazia doer os olhos. Mas só em parte.

Só muitos anos depois descobri a crônica de Roberto Arlt.
E quando a li, senti imenso remorso.
Arrependimento por tê-la atravessado com tanta pressa.
Então decidi-me: voltaria a Cármen!
Para rebobinar o filme e esperar o dia esvair-se em novo crepúsculo. 
Nos braços daquela que disse, "contigo me me voy hasta el fin del mundo".


30 maio 2015

Frederico Füllgraf - O beijo de Bóreas, Parte I

Reparos à “Viagem no Brasil” (1817-1920)
de Carl Friedrich Phillip von Martius & Johann Baptist von Spix




Südfriedhof - Cemitério da Zona Sul, Munique, verão de 1992. 

Seguindo a indicação de Alexander von Martius, tetra-tetraneto do lendário naturalista-viajante, vim prestar uma homenagem a dois brasileiros aqui sepultados. 

E lá estava a lápide reproduzida na capa do  livro de Henrike Leonhardt, que eu acabara de ler: esculpido em mármore azulado, levita no céu o mitológico deus dos ventos do norte, soprando seu hálito glacial sobre o corpo de duas crianças, prostradas: Isabella-Miranha e Yuri-Comás, dois curumins com idades variando entre 10 e 14 anos, arrancadas da Amazônia tropical e transplantadas para o inverno de Munique, onde morreram de frio, entre 1821 e 1822.

Ao lado dos dois indiozinhos, repousa Carl-Friedrich Phillip von Martius - médico, dublê de botânico, geólogo e geógrafo, aos 23 anos de idade - que juntamente com Johann Baptist von Spix (32 anos, zoólogo), empreendeu a mais longa de todas as expedições naturalistas ao interior do Brasil-Colônia: a "Viagem pelo Brasil". 

Para um cineasta à procura de uma back story, não poderia haver imagem mais desconcertante que a do túmulo dos curumins, aos pés dos Alpes; metáfora de inúmeras aberrações que aderem à história das expedições científicas europeias do séc. 19, à América profunda.

No divã de Humboldt

Recém-retornado de sua epopeia nas Américas, Alexander von Humboldt foi assediado por convites para proferir palestras e participar de tertúlias com amigos e admiradores nos salões da nobreza prussiana, em Jena e em Weimar, discorrendo sobre sua Voyage aux régions equinoxiales du Nouveau Continent, fait en 1799-1804, par Alexandre de Humboldt et Aimé Bonpland (Paris, 1807). 

Na plateia costumava reunir-se a fina flor das artes e da cultura alemã da época, tais como Heinrich Heine, Ludwig Tieck, ou ainda Matthias Claudius, Carl Friedrich Gauss, Wilhelm Grimm e August Wilhelm Schlegel, sem esquecer os já canonizados Johann Wolfgang von Goethe e Friedrich Schiller. Entre os ouvintes que disputavam uma cadeira, frequentemente estava um jovem médico dublê de botânico, chamado Carl-Friedrich Phillip Martius, de Munique, que não desgrudava olhos e ouvidos dos lábios de Humboldt.


Parte da plateia estava ali para deliciar-se com o "olhar planetário" do barão, porque fenômenos fantásticos como as assim chamadas "províncias botânicas" - conceito científico emoldurado por uma estética das floras, que segundo Humboldt teciam um cordão de afinidades eletivas, botânicas, ao redor do planeta - constituíam verdadeiras relíquias visionárias. Mas Humboldt estava burilando um projeto completamente inédito, que atraiu e extasiou grande número de artistas plásticos: o "Ensaio de uma geografia das plantas". Nela, ela pretendia plasmar suas concepções sobre a representação artística da natureza tropical.



Humboldt já tinha esboçado uma técnica da representação das plantas em corte anatômico e, não se considerando, ele mesmo, dono da mão mais engenhosa, o que precisava, agora, eram representações de paisagens pela mão de artistas consumados. E de uma forma tal que resultassem adequadas do ponto de vista estético, e fossem ao mesmo tempo cientificamente informativas. Estas paisagens, enfatizava Humboldt, deveriam ser contempladas como organismos vivos e como totalidade. Por isso, seria preciso captar nos desenhos a ação conjunta dos fenômenos naturais, como as condições climáticas e o crescimento, mas acentuando as representações das plantas e as silhuetas das colinas mais características. 

Na platéia, ovações e êxtase...

Elegante, mas categórico, agora Humboldt discorria sobre o aspecto mais delicado e comprometedor de sua nova cosmogonia: o imperativo de um novo olhar político sobre as Américas, atitude que definiu como Wiederentdeckung - o re-descobrimento. E nestas oportunidades era possível perceber que Alexander não era o termômetro, mas ele mesmo protagonista destes novos tempos, pois ousava denunciar, enérgico, o sistema colonialista nas Américas, assentado sobre o massacre dos indígenas autóctones e a exploração do mais abjeto escravismo.

Não cabia dúvida que a inflexão ideológica de seu discurso tinha um quê do "sotaque" francês de 1789 - "liberté-egalité-fraternité! - e não por acaso o gênio berlinense pisara o continente americano exatamente na véspera da eclosão do movimento independentista, no sul encabeçado por nacionalistas como Bolívar e San Martín. 

Com seu novo olhar sobre as Américas, assim o percebia a platéia, simbolicamente Humboldt declarava morto o ciclo da "longa noite escura", inaugurada pelos "descobrimentos" do séc. XVI. Portanto, cobrava o gênio, o programa de todo naturalista que se prezasse, interessado em baixar às regiões equinociais, deveria constituir-se da mais rigorosa investigação científica, acompanhada de não menos enérgica conscientização humanista e política. 

O jovem Martius anotou o recado em sua agenda, mas algo constrangido.

Resultados versus “filosofia”- a  Viagem pelo Brasil

No início de 1817, começam os preparativos para a partida ao Brasil da Missão Austríaca, cujo personagem central era a Arquiduquesa Leopoldine von Habsburg, pedida em casamento por D. Pedro I. Integravam a comitiva o zoólogo Johann Baptist Spix e o médico, dublê de botânico, geólogo e geógrafo, Carl-Friedrich Phillip Martius, que desembarcaram no Rio de Janeiro em abril de 1817. Mas eis um aspecto político do convite: como súditos cristãos do Império da Áustria e do Reino da Baviera, contaram com o estímulo de D.João VI, apenas porque lhe pareciam confiáveis.

E aqui se faz mister explicar um conflito com "esses intelectuais, metidos" da Alemanha: em 1795, o rei português embargara o visto de entrada para outro alemão, mais célebre, porém nada confiável aos olhos da Casa de Bragança: ele mesmo, Alexander von Humboldt, adepto da Revolução Francesa, cujo desembarque no Brasil a Coroa avaliava como perigoso estímulo à luta dos brasileiros pela Independência (Humboldt era esperado em Vila Rica). Enxotado para o Brasil, após a invasão de Portugal por Napoleão, e ainda por cima abrir as fronteiras da colônia para as "bisbilhotices" do prussiano francófilo era, na acepção de D. João VI, colocar a raposa como guarda do galinheiro! Em 1800, quando a Coroa, em Lisboa, soubera que Humboldt fazia pesquisas na fronteira da Venezuela com o Brasil, oficiara o governador da Província do Maranhão, mandando-o distribuir um cartaz: "Alexandre de Humboldt, vivo ou morto!".

Por outro lado, o convite aos dois bávaros foi também uma espécie de compensação para a malfadada "Viagem Filosófica", comandada pelo naturalista baiano, Alexandre Rodrigues Ferreira, e auspiciada  pela Academia das Ciências de Lisboa e o Ministério de Negócios e  Domínios Ultramarinos (1). De 1783 a 1792, Ferreira percorrera as capitanias do Grão-Pará, Rio Negro e Mato Grosso, mas seu rico acervo jamais fora estudado em Portugal, sendo requisitado por Napoleão como butim de guerra e desviado para a França.


Contabilizados os prejuízos, agora o entendimento da Coroa era de que estas viagens não deveriam esgotar-se no devaneio romântico, mas inserir-se na estratégia de fortalecimento da economia imperial, isto é, produzir resultados. Entre suas finalidades, as expedições visavam a reprodução em cativeiro de plantas trazidas pelos naturalistas, e a diversificação da agricultura de contexto colonial.

Pelo Brasil profundo

O primeiro aspecto que chama atenção na "Viagem..." de Martius e Spix foi a extensão territorial de sua caminhada: mais de dez mil quilômetros, percorridos em ziguezague, do Rio de Janeiro até as fronteiras com o Peru e a Colômbia; extensão que se compara à campanha militar de Alexandre Magno, na Ásia Menor, e que faria sombra à "Odisséia" de Ulisses e à "longa marcha" de Mao Tsé Tung, durante a Revolução Chinesa. 

Spix e Martius embrenharam-se em um trópico hostil, a pé, em lombo de burro; navegando rios em canoas improvisadas, dormindo ao relento, passando privações, adoecendo, perdendo as esperanças. E quase o juízo. Despencaram em cachoeiras, e por um triz não morreram afogados, como atesta uma cruz afixada à porta de uma capela em Santarém, na Amazônia.

Interessado em refazer essa odisséia, adaptada para formato de seriado para a TV Alemã, que deveria ser produzido pelo jurista Walter Kalthoff, de Munique, e dividido em 12 capítulos dos três tomos da versão original da "Viagem...", mergulhei no texto da crônica de Martius, que descreve a faina diária dos expedicionários, coletando plantas, animais, minerais e fósseis, catalogando-os provisoriamente. Plantas e animais recebiam desenho apenas esboçado, geralmente acompanhado de instruções para os coloristas, de Munique, pois in situm os naturalistas não possuiam as tintas apropriadas, nem o tempo. Mas o primeiro desfalque da "Viagem pelo Brasil" - espécie de maldição que se abaterá duplamente sobre a expedição de Langsdorff, anos mais tarde - foi Thomas Ender, aquarelista austríaco com a função de “repórter fotográfico”, que adoeceu e abandonaria a expedição, antes mesmo de atingir São Paulo. Suas aquarelas refletem os modos de percepção dos pintores viajantes europeus ao construírem certa imagem do Brasil no início do século XIX, e serviram de modelo para várias enquadramentos de câmera que fizemos em Bananal, buscando a posição mais aproximada do eixo de seus cavaletes.

Entre Santa Cruz, na Província do Rio de Janeiro, e o Alto Japurá, na Amazônia, Martius coletou  20 mil ecicatas, representando 6.500 espécies botânicas, entre as quais  400 espécies novas, descritas na "Flora Brasiliensis" - obra monumental, de aprox. 80 tomos, que reúne 23 mil espécies botânicas, com cerca de 4 mil ilustrações, de acachapante beleza e precisão, e que só recentemente foi digitalizada e está acessível na Internet (http://www.fapesp.br/publicacoes/flora/) na forma de projeto patrocinado, entre outros, pela empresa Natura. O que se desconhece completamente no Brasil é a belíssima zoografia de Spix, que catalogou centenas de espécies de aves, primatas, além de infindáveis gêneros de insetos, que constituem o acervo cult da Coletânea Zoológica do Estado da Baviera, com belíssimas reproduções, em aquarela, de espécies de aves hoje virtualmente extintas. Causou-me enorme estranhamento a visita à Coletânea, onde “dormem” centenas de tucanos brasileiros - e dez, apenas, não teriam sido suficientes? Replicou o prof. Ernst Fitkau, sucessor de Spix, cento e setenta anos mais tarde, que o estudo das espécies vivas requer sempre o abate de dezenas e centenas de indivíduos. Resposta cruel. E lá estão os tucanos, empalhados, com quase duzentos anos de idade, que já perderam o odor a formol, mas cujas plumas continuam sedosas, e cujos olhos brilham, por vezes esboçando sorrisos de cumplicidade. Tocá-los é uma experiência mágica e ao mesmo tempo insólita.

Estratégia fatal

Vinte mil plantas a bordo da galera Nova Amazona, e outro tanto de animais - eis a "Arca de Spix e Martius", em Belém, no ano de 1820, preparando-se para a grande travessia. A nau toma  feições de um colorido jardim botânico, à cuja sombra jaz um hilariante jardim zoológico de animais abatidos.

E la nave va ...

Entretanto, à altura das Ilhas Canárias, a estratégia fatal da travessia é sinalizada pelas primeiras rajadas de vento gelado, e as plantas começam a definhar. 

Martius registra em seu diário de bordo a “má vontade  do capitão português com a carga”, mas é a latitude que exige seu tributo. 

A galera partira de Belém durante o afélio, quando a Terra encontrava-se na posição mais afastada do Sol, e era verão no Hemisfério Norte. À medida, porém, que o barco avançara, rumo a Lisboa, acima da linha dos equinócios, a Terra inclinara-se para o periélio, anunciando a aproximação da estação fria na Europa. 

A propósito, “Herr Professor”, era pergunta a se fazer a Von Martius: o que, diabos, os curumins amazônicos ainda fazem a bordo? 

Já estão batendo queixo de frio como peixes fora d água! 

Tarde demais, porém: três (ou terão sido quatro, cinco – ninguém sabe quantos índios foram, exatamente) morrem de frio. Sim, porque além dos curumins, presenteados por suas tribos, alguns índios adultos também pegaram "carona" na caravela de Spix e Martius. Mortos, são lançados ao mar gelado, mas dizem os nativos que, quando no céu noturno desponta a Estrela Dalva, eles podem ser vistos na abóbada, caminhando de volta ao grande Rio-Mar...

Spix, Martius e sua “arca” cruelmente desfalcada de índios, animais e plantas, atingem a foz do Tejo no final de outubro de 1820. 

Extenuados e debilitados, apressam-se em saudar a El Rey, em Lisboa. 

Enquanto a galera segue viagem para descarregar o butim tropical em Gênova, os naturalistas tomam uma carruagem rumo a Munique. A bordo dela, febris e silenciosos, dois curumins de pele da cor do cacau, são arrastados através do tapete branco, mágico e fatal, da Europa invernal.


14 novembro 2011

Frederico Füllgraf - Olhos e bocas canibais, ou o nascedouro da etimologia

Ilustração: Theodor de Bry



O prisioneiro branco, longa barba, ruiva, inteiramente nu, está imobilizado com cordas de cipó a um tronco no centro da aldeia. Ao seu lado um xamã balbucia sons ininteligíveis, agressivos. Sua litania atiça homens, mulheres e crianças, que saltitam em lamento monocórdio ao redor de outro prisioneiro; este, indígena, já prostrado diante de um inimigo forte, que ergue a pedra da morte, rachando em duas a cabeça do caçado. Sangue, fragmentos cranianos, cérebro indagante, grudados a mechas de cabelo, saltam para os lados, incitando a caterva ao ataque.

Rasgam-no em pedaços: cabeça, tronco e membros secionados, arrancados das articulações. Cheiro adocicado de exótico assado desprende-se da fogueira, deita-se sobre a aldeia e invade as narinas do homem branco, barbudo e nu, inteiramente banhado em seu próprio suor; a transpiração do horror à morte iminente. Homens e mulheres disputam histericamente o butim de carne humana, que sacia a fome das crianças com nacos ainda malpassados. O branco barbudo, desvelado e fragilizado, ergue a cabeça em atitude de devoção, pede proteção ao seu Deus.

Cenas como esta se repetem ao longo de dez meses e constituem o eixo da narrativa de a “Historia Verdadeira e Descrição de uma Paisagem dos Selvagens/Desnudos/ Ferozes e Devoradores de Gente no Novo Mundo da América”.

De autoria do arcabuzeiro, mercenário alemão, Hans Staden, este misto de diário e crônica do espanto é, depois da carta de Caminha, o primeiro ensaio etnográfico sobre o Brasil quinhentista. Aprisionado pelos índios Tupinambá diante de um forte português em Bertioga, litoral de São Paulo, é ameaçado de morte e devoração. Como por encanto, Staden é poupado e consegue fugir. Seu calvário, porém, dura mais de ano, com uma peregrinação que vai de Bertioga à Ilha Grande, litoral sul do Rio de Janeiro.

Seios flácidos como as “bruxas” da Inquisição...

Retornando à Europa a bordo de um barco francês, decide publicar um livro em 1557, cuja primeira edição é ricamente ilustrada pelo gravurista Theodor de Bry, que nunca havia estado no Brasil e que por isso desenhou “de ouvido”. Mas é de Bry quem imprimirá ao olhar quinhentista sua mirada eurocêntrica e certo maneirismo estético, sintomaticamente “fora da ordem” tropical. É o caso da xilogravura que mostra Staden nu, cercado de sedutoras mulheres índias. Igualmente nuas, dançam ao seu redor, podam-lhe a barba e os cílios. Com suas bocas roçando-lhe as orelhas, parecem sussurrar-lhe sacanagens ao ouvido casto, devorando-lhe os lóbulos com seus lábios carnudos, temperando-os com seu bafejo de libidinosa maresia.

O que chama atenção nas demais xilogravuras de De Bry é que apenas as índias sensuais são retratadas em primeiro plano. Em segundo plano predominam as mulheres de carnes flácidas e peitos caídos – o que pode ser uma sutil alegoria do imaginário cristão, que na Europa necessitava de uma justificativa estética, uma mensagem na garrafa para a condenação das “bruxas” às fogueiras da Inquisição.

Borrascas e naufrágios

Após seis meses de navegação errante pelo Atlântico Sul, as caravelas de Juan de Salazar - que partira da Espanha durante a Páscoa de 1550, com a missão de iniciar a ocupação da Bacia do Prata - castigadas por tormentas e borrascas e desviadas de seu curso, foram atiradas contra a costa do sudeste brasileiro. Era o dia 24 de novembro de 1550, com sol de rachar pedra, e quis o mau humor de Netuno que um mercenário ruivo, oriundo de Wolfhagen, recôndita província alemã, fosse o primeiro europeu a pisar o solo do Paraná, vindo do mar, vomitando água e sal.

Além de um mapa-de-ouvido confeccionado por de Bry, o episódio não mereceu comentários na narrativa de Staden. É a este hiato da memória que me reporto com alguma licença poética.

Supõe-se que o barco foi abastecido de víveres e concedido descanso à sua tripulação no Superagüi, depois zarpando rumo a São Vicente. Lá não chegou porque naufragou mais ao sul, estima-se que nas praias de Cananéia. Uma vez salvos, Staden e os espanhóis procuraram a amizade dos portugueses ali estabelecidos. Parte do grupo espanhol partiu rumo ao Prata, enquanto Staden foi incumbido de guarnecer o forte de Bertioga.

Neste forte começa a aventura hilariante e dilacerante do jovem aventureiro que na esteira do furor re-descobrimentista em 2000 teve reeditada no Brasil sua obra e saltou do arquivamento histórico para a imortalidade cinematográfica. O que confere dinâmica a uma boa estória é uma pitada de conflito e, não fosse o seqüestro de Staden pelos Tupinambá (cujo mitológico cacique Cunhambebe, Antonio Torres resgatou em seu romance “Meu querido canibal”), jamais teríamos sabido da intimidade destes índios. Digo: de seu apurado paladar na degustação de orelhas, bíceps, coxas e glúteos humanos...

Mas é de lingüística que quero falar, do picante desencontro entre o bárbaro tropical, devorador de corpos humanos, e o cristão temente às tentações da carne: a origem do termo “comer”, por exemplo, para designar a cópula, a interpenetração dos corpos. Recordemos: Staden era obrigado a saudar os selvagens com a frase tupi-guarani, “Ajune che peê remiurãama - aqui venho eu para vossa comida!”.

Etimologia da palavra “comer”

Chula e por isso excitante, fato é que ao longo de quinhentos anos de ilusão des-cobrimentista, a verdadeira voragem dos corpos acontece nas camas brasileiras, onde (sempre na contramão de abalizada verdade anatômica) machos iludem-se em “comer” suas fêmeas e estas iludem-se em ser “comidas”, quando na verdade são elas as devoradoras.

Refletindo estes equívocos tropicais, Darcy Ribeiro sempre suspirava, resignado, uma bela frase de efeito: “No Brasil o mundo ‘tá de ponta-cabeça. É preciso reinventar tudo!” E eu sempre me perguntava: mas com os pés no chão, não perderia a graça? A segunda hipótese é a de que nem Cunhambebe e muito menos Staden tenham sido lembrados pelos patronos da Semana de 22 como os pais legítimos e incontestes do Antropofagismo - Cunhambebe como seu mentor e Staden como Macunaíma-Cara-Pálida , o assimilador e deglutidor da grande comilança tropical, mas autor do grande equívoco canibal.

Freqüentemente deixado (testado?) a sós com as mulheres, Staden escreve:
- Algumas caminharam à minha frente, outras atrás, dançando e cantando uma canção que, segundo seu costume, entoavam aos prisioneiros que tencionavam devorar.

Os historiadores creditam sua sobrevivência à inabalável fé cristã, mas eu imagino que Staden foi poupado por outro, um motivo forte - qual indiazinha, enxuta e perfumada por óleos essenciais da flora atlântica e sais marinhos, teria de livre e espontâneo desejo realizado o intercurso multirracial com um bárbaro branco, encardido e mal cheiroso?

Si non e vero e ben trovato: o “descobrimento” do Superagüi foi na verdade um desencontro de libidos.

Imaginei a seguinte cena: no meio das tratativas protocolares, uma indiazinha afoita consegue saltar para o convés do barco dos espanhóis e, esgueirando-se entre couraças, barbas e corpos suados, tenta apoderar-se do espelho que vira da canoa, e que, pendurado num dos mastros da caravela, reproduzia toda a cena do encontro insólito, agora multiplicado por dois.

Uma señora, do grupo de respeitosas damas espanholas, que se mantinha a distância segura, solta um grito de advertência, mas quando os bucaneiros correm para agarrar a indiazinha... é tarde demais! Esta dá um salto tríplice de bombordo, diretamente para a canoa dos seus companheiros. Interrogam-na irritados sobre sua incursão em território inimigo e sua resposta, o polegar e o indicador da mão direita espremendo as narinas em sinal de fedor, é o primeiro signo compartilhado naquela conversa de surdos-mudos, entre descobridores e descobertos - alguma coisa cheirava muito mal no Reino de Castela!

02 novembro 2011

Frederico Füllgraf - Burton e as reinvenções de nós mesmos

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  Fotos: divulgação.


Frederico Füllgraf

Quando Kundamini, a prostituta do templo, morreu e foi cremada, Burton Saheb, doente de amor, ordena a Nukaram, seu pajem indiano, que arranje alguns símios para lhe fazer companhia.

Macacos, sire?!

Surpreso e na dúvida, o indiano belisca as próprias orelhas, mas já percebe a resposta na crispação do rosto e no olhar fulminante do patrão. Sem mais comentário abaixa o bestunto e sai à cata dos bichos.

Passam horas.

Mas então, junto com seis lubambeiros trazidos das capoeiras por Nukaram, o britânico toma assento à mesa farta e, em inglês e hindustani, incita seus comensais à conversação, observando-lhes as reações, pesquisando sua linguagem.

Inicialmente apreensiva, a macacada logo mostra a que veio, pouco se lixando para a etiqueta. E de babel o dinner degenera em motim, pandemônio, uma zona infernal. Já escabreada, a turba inicia o troca-troca de cadeiras. Enfezado, um macaco feio como o cão-tinhoso, salta sobre a mesa, enrabicha a garrafa de vinho com sua cola e emborca o precioso Chateu Neuf du Pape sobre a toalha de linho branco. Lívida de excitação a patuléia põe-se a lamber e chupar o vermelho-escuro. Há dois que metem as patas no caldo de cordeiro assado, e num átimo a choldra se submete ao bombardeio com os quitutes do menu - já estarão borrachos? Em seguida, mordem, despedaçam e mijam nos legumes, lambuzam de carne de manga, páprica vermelha, açafrão e suas próprias fezes, as paredes da sala, que restam ali como tela inacabada de um hilariante quadro expressionista, pegajoso e fedorento. Depois, emporcalhados de lavagem e seus próprios desarranjos, sujeitam o anfitrião, abobalhado, à malhação com os bolinhos de arroz, temperados no gengibre.

Mas uma estranha cumplicidade faz desta barafunda um ritual no qual está obliterada a fronteira entre o bem e o mal: um macaco-prego, com fuça de belzebu, provocativamente encara Burton, que responde ao desafio com uma carranca ainda mais luciferina: preta de azul cintilante, de tão maligna. Rendido, o pongo desvia o olhar, abaixa a crista, recua de costas, e desde uma cadeira afastada, observa, melindroso, o Grande Satã.  

E no meio do angu-de-caroço, desse deus-nos-acuda, o coisa-ruim e impassível Saheb consegue catalogar 60 expressões, através das quais os rufiões se comunicam.

Cenas como essa, tecem com cores e odores a narrativa de “Der Weltensammler” [O colecionador de mundos, 2007] do búlgaro de língua alemã, Ilija Trojanow. A  narrativa de Trojanow literalmente gira ao redor de uma das personalidades mais excêntricas e ousadas da vida real e da literatura do séc. XIX, em movimento concêntrico aos giros daquela ao redor dos meridianos terrestres: Richard Francis Burton - militar, diplomata e espião do Império Britânico, viajante obsessivo dublê de místico sufi, etnólogo autodidata e libertino.
“O colecionador de mundos” é um romance biográfico sobre as andanças e os travestimentos de Burton, e para senti-los na pele Trojanow não teve dúvidas: retomou as sendas do personagem e também peregrinou até Meca, depois do que, ainda imitando o inglês, também se converteu ao islamismo.

Eis um fenômeno insólito: aquelas conversões enchiam de horror o British Empire, porque enviava seus melhores homens para espionar e subjugar o inimigo e os povos colonizados, e eles retornavam convertidos às suas doutrinas exóticas e subversivas!

Por essa e outras razões Richard Francis Burton era insultado por seus contemporâneos britânicos como o “white nigger”, insulto obviamente expressado com a impoluta elegância de luvas brancas nas mãos, mas agravado pela tez morena de sua pele matizada desde a nascença por generosa dose de melanina.

Impávido, sobejamente se lixando à imagem de si na cabeça dos outros, Burton não desiste de caminhar pelas vielas lamacentas de Baroda, até alcançar o casebre onde se instalou em companhia de Kundamini. Obviamente, o nome da personagem é uma licença poética emprestada das virtudes carnais da prostituta do templo. Ela encarnava uma dessas entidades que desde os dias das guardiãs dos Templos de Apolo no imaginário religioso e popular transitam entre o sacro e o profano. E Burton a toma como amante por sua carência espiritual, pois intui que ela o iniciará no Kundalini, a fruição do sexo em suas mais elevadas libações. Kundamini não se faz de rogada, entre uma “borboleta”, um “dragão” ou uma poderosa cavalgada do amado, narrando-lhe parábolas orientais. Das cortesãs, por exemplo, que a cada tanto ingeriam doses mais potentes de certo veneno indiano para, poção após poção, imunizar o próprio corpo. Naturalmente, explica-lhe Kundamini, o intercurso com elas tornava-se um empreendimento peçonhento para seus inimigos. Mas só para eles... Debaixo dela, Burton sacode-se, derruba-a da sela – “empreendimento peçonhento”?

Essa estória nos é contada aos tropeços e com elipses de Sidy Mubarak Bombay, que tenta salvá-la, narrado-a aos escrivinhadores de cartas dos bazares, mas não tem o dinheiro para pagá-los.

A infiltração nos santuários proibidos

Nascido em Elstree, Hertfordshire, em 1821, aos vinte e um anos decide prestar serviço militar à Companhia das Índias, vivendo, pesquisando e escrevendo sobre o Subcontinente Indiano durante cinco anos. Acobertado pela Real Sociedade Geográfica, em Londres, em 1853, Burton traveste-se de peregrino muçulmano e penetra nos mais sagrados sítios do Islã. De regresso a Londres escreve a “Narração Pessoal de Uma Peregrinação a Medina e a Meca”, que o lança à fama, mas o torna maldito aos olhos dos muçulmanos, pois sua presença clandestina fora um sacrilégio e insulto às leis de Mahoma. O Empire dá de ombros, mas naquela andança até o Haj alguma coisa tinha mexido com a alma do conspurcador, Burton.
Em 1854, o inglês é um dos primeiros europeus a infiltrar-se e investigar os costumes na cidade proibida de Harar, na Etiópia, de onde nenhum estrangeiro voltaria com vida. O pretexto era inconfessado, mas acobertado pelo império, pois sua missão consistia em estudar o comércio da zona. Ao descrever os Somalis em seu “First Steps in Africa”, o ainda jovem Burton é capaz de destilar opiniões deveras extravagantes sobre os nativos, que dizem da Eugenia ou do mais deslavado racismo como Doutrina de Estado do Empire: “The Somali have all the levity and instability of the Negro character; light-minded as the Abyssinians,--described by Gobat as constant in nothing but inconstancy,--soft, merry, and affectionate souls, they pass without any apparent transition into a state of fury, when they are capable of terrible atrocities. […].

A desastrada expedição às fontes do Nilo

Dois anos mais tarde, parte em busca das fontes do Nilo. Foi uma de suas mais conturbadas expedições, interrompida por uma disputa com o tenente John H. Speke pela autoria da descoberta do Lago Vitória, e agravada pelo incidente insólito da morte do tenente após o retorno à Inglaterra que, segundo o laudo pericial da época, teria disparado uma arma de caça, matando-se sem querer. “Sem querer” é um desses cacoetes de linguagem empregados com sobeja irresponsabilidade pela tal alma popular, e por isso um prato cheio ou “discurso” para dar trela no divã dos psicanalistas, que à época do acidente infelizmente ainda pensavam em voz baixa (que tal a pulsão de suicídio de Speke?), agravando o status de Burton, suspeito de ter assassinado o tenente rival, que notoriamente lhe usurpara o direito da descoberta do Lago Vitória.

Maldição em cima de maldição: como se não bastasse o opróbrio, a execrável expedição lhe brindara uma cicatriz medonha e inapagável, produto de uma insuspeitada trombada com um javali, que com suas presas lhe atravessara as bochechas, de face a face, como uma espada com lâmina de polegada e meia; estigma da maldição que para o resto de seus dias acentuaria ainda mais sua expressão demoníaca.

A carranca não impediu que Isabel Arundell, donzela de família católica e aristocrática, com vinte e nove anos de idade, caísse de amores pelo aventureiro, que conhecera em 1851, e que de tempos em tempos desaparecia em mais uma de suas misteriosas incursões, mundo adentro. Burton a deixara esperando cinco anos até encetar o namoro secreto com a bela, e outros cinco se passaram até a bela criar coragem, enfrentar seus pais, veementes adversários do affaire, e debandar-se a Londres, para juntar-se a Richard Francis. Foram os amores de suas vidas, um para o outro, o que não impediu que Isabel intuísse a devassidão do marido, nem que este colocasse freios à sua insopitável pulsão por um bordel.  


Nos papéis de Camões e Ovídio


Em 1861, Burton é nomeado cônsul britânico em Fernando Pó. Nessa época, peregrinara a Goa para exultar Luís de Camões. O que fez mais uma vez reinventando-se, devendo-se apostar que vestiu aquelas bombachas esdrúxulas do lusitano. Arrebatado, e não pouco, traduz-lhe “Os Lusíadas” e dedica uma apaixonada biografia ao poeta caolho. Na verdade, sua transferência para Fernando Pó equivalia ao desterro: tinham-no enxotado para lá com a finalidade de tirá-lo de circulação, enquanto a Justiça e a opinião pública regurgitavam as circunstâncias da morte de Speke.

Visivelmente aborrecido, em 1864 assume o cargo de cônsul britânico em Santos, no Brasil, onde protagoniza pequenas expedições a Minas Gerais e ao Rio São Francisco. Em 1869, final de sua gestão, percorre os cursos superiores dos rios Paraguai e Paraná. Naturalmente, o que para o público externo poderia sinalizar tédio e enfastio, era na verdade mais um plano urdido pelo Empire: admirada desde seus dias na Índia, alguns nacionalistas suspeitaram que Burton viera estudar a experiência portuguesa da colonização nos trópicos. O que nunca explicaram é o que aquela colonização tivera de tão admirável.

Destacado como cônsul para Damasco, depois Burton penetra no deserto da Síria e visita Palmira. Em seguida, recebe do paxá do Egito o mandato para estudar as minas de ouro de Madian (“As Minas de Ouro de Midian e as Cidades Medianitas em Ruínas”), e em 1882 visita a Costa do Ouro com o comandante Cameron (“À Costa do Ouro em busca de Ouro”). Sua última missão oficial foi a nomeação para cônsul-geral em Trieste, onde morre em 1890, agraciado com a comenda de Cavaleiro, mas não sem antes reviver o exílio do poeta Ovídio na costa do Adriático. Com louros nos cachos, tocando cítara? Disso jamais saberemos... Após a morte do marido, Isabel Arundell chamou o jardineiro, Massimo Gotti, e ordenou-lhe um auto-de-fé dos textos e traduções lúbricos de Burton, para tornar mais apetecível à sociedade vitoriana a versão da vida em companhia de Sir Richard Francis que então se pôs a escrever.
É que poucos anos antes, entre 1883 y 1888, Burton publicara suas traduções das “Mil e uma noites”, de “O Jardim das delícias” e do “Kama Sutra” (o “Tratado do prazer”). Dizia-se que chegara a comunicar-se em trinta e cinco idiomas e cinco línguas orientais. Estudava-as, brincava com elas, mas seu maior divertimento, como disse, encontrara nas salas de esgrima - touché! Mas estampar no rosto uma cicatriz das presas de um estúpido javali, ao invés do fio de um florete... – oh shit, que enorme constrangimento!

O Islã como reinvenção de si mesmo

"Meu corpo está no Ocidente
E minha alma está no Oriente;
Meu corpo está nos países infiéis,
Meu coração está em Istambul
E meu coração está em Orã!”

Estes versos algo primários não foram escritos por Burton, eles são de autoria de Isabelle Eberhardt, a russa germânica, “noiva do deserto” – lasciva, depravada e mortificada como o inglês, que na corcova de um camelo sai em busca do sentido da vida nas escaldantes areias do Maghreb.

Foi o que Burton fez meio século antes de Eberhardt, mediante a constante busca do ausente, não raras vezes com a ajuda do ópio, do haxixe, ou jogando cabala, incursionando na alquimia e toda sorte de manifestações místicas e esotéricas, até converter-se ao Sufismo, vertente gnóstica do lslamismo que, como la Eberhardt, praticou devoto até o fim de seus dias.                     

Sua obsessão em reinventar-se continuamente incomodou seus biógrafos. Não há dúvida que o Oriente foi sua melhor encarnação; se preferirmos, seu melhor papel.

Mas afinal, qual impulso foi o mais marcante na construção dos personagens de Burton: o espião a serviço do imperialismo britânico, ou a alma aflita do aventureiro europeu que em sua busca espiritual viu-se obrigado ao disfarce nas duas direções, do Oriente e do Ocidente? Em “The Devil Drives: A Life of Sir Richard Burton”, sua biógrafa, Fawn M. Brodie, adverte que Richard Francis foi “a man perpetually at war with himself, a man of action opposed to a man of letters, a man of the sword and a poet, a bawdy swashbuckler, a libertine a seeker tormented by the secrets of sexual vigour”.  Michel Le Bris, prefaciador da edição francesa da biografia, adverte para “o talento latente como nenhum outro, de disfarçar-se, assumindo diferentes personalidades, assimilando outras culturas, penetrando estruturas sociais alheias”.

Em sua angústia existencial, Richard Francis Burton valeu-se de seu talento para a interpretação, a reinvenção de si mesmo, seus personagens na vida real. Desse talento aproveitou-se o Império Britânico. Contudo, a ironia pungente dos travestimentos de Burton, iniciados na condição de espião, é que resultam quase sempre em tiro pela culatra para o Império: como explorador autocrata ele odiava a escravidão, como herói da hipocrisia vitoriana acreditava nos benefícios da poligamia e, pelas vias do erotismo tântrico, emerge o Burton sufista. Mas sem jamais deixar de admitir que a idéia de um Deus – essa entidade severa e monoteísta, urdida na solidão dos desertos – fosse mesmo uma idéia fora de ordem.

Por isso, em Revelações, o último capítulo de “O colecionador de mundos”, o vigário italiano resiste em dar a extrema unção e os óleos ao moribundo e, antes de autorizar seu sepultamento no cemitério cristão, assedia o jardineiro com intermináveis interrogatórios sobre a conduta espiritual daquele que abraçara o mundo e tinha a expressão do demônio. Não o demônio da luxúria, mas o temível satã simbolizado pela meia lua flutuando sobre o Levante, ruminava o vigário.

Charada: por que as bandeiras do Islã são de cor verde? Talvez porque o verde seja a cor da ausência. Ele simboliza o vasto oásis, o frágil e fértil Ocidente a conquistar – mas nisto o orientalista Burton não tinha pensado. Nem Muhamar Gadhafi.