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25 dezembro 2016

Frederico Füllgraf - O teatro e a tragédia no fim do mundo



Reportagem sobre o Festival Cielos del Infinito, 
que no Estreito de Magalhães desafia o centralismo cultural de Santiago do Chile.

Embora Concepción, a segunda maior cidade do Chile, seja equipada com um moderno e movimentado aeroporto, fui obrigado a viajar 450 quilômetos ao norte, até Santiago, para embarcar em um voo ao extremo sul do país. Enquanto pedia desculpas a Concepción desde as alturas, durante o sobrevoo fiz as contas: tivesse embarcado ali, a passagem teria custado um terço a menos e me poupado umas desesseis horas, que o trajeto para Santiago, ida e volta, me cobraria a bordo de um ônibus. Não fazia sentido algum, mas foram as condições impostas pela empresa aérea ao Serviço Nacional de Turismo, o patrocinador da minha viagem.

A fonte deste desconcerto é o confuso centralismo geográfico, político e administrativo do Chile. O governo Ricardo Lagos (2000-2006) prometeu acabar com o anacronismo, mas não o fez. Sua sucessora e atual presidenta em seu segundo mandato, Michelle Bachelet, acolheu a proposta, mas a descentralização parece uma utopia à mercê da inalcançável linha do horizonte.

A cobra “aleijada”

Meu destino era Punta Arenas, derradeira urbe em território chileno, lcoalizada no Estreito de Magalhães, ligeiramente a noroeste de Ushuaia, na Argentina, a cidade mais austral das Américas. Com a duração de três - na volta foram quatro – horas, o trecho Santiago-Estreito teve um quê de voo internacional, pois cobre virtualmente a mesma distância de 3.000 quilômetros, que separa a capital do Chile de São Paulo.

No Estreito desaparece a Cordilheira dos Andes, acabam a Patagônia e o continente americano, contribuindo para a percepção do “fim do mundo”, ilustrada em 1520 com os apontamentos de Antonio Pigafetta, escrivão de bordo de Fernão de Magalhães, quem cravou palavras tão exóticas quanto remotas, como “patagones” e “tierra del fuego”.

Se mal recordo, foi John Steinbeck quem estranhou a espichada e sinuosa geografia chilena, comparando: “it´s a country like a snake – é um país semelhante a uma cobra”.

Porém, a analogia de Steinbeck tem um aspecto insólito: a cobra é “aleijada”, sua cauda está isolada do resto do corpo.

Pendurada no extremo sul dos 4.260 quilômetros de costa, a Terra do Fogo chilena não tem conexão terrestre com o resto do país. A RN5, que ao norte desemboca na Panamericana, ao sul termina em Coyhaique, no coração da Patagônia. Quem viaja de carro, terá que abandonar o Chile e percorrer aprox. 1.200 quilömetros em território da Argentina, retornando ao território chileno à altura de Puerto Natales, e de lá percorrer os 250 quilômetros restantes até Punta Arenas. Este percurso cobra três dias de viagem, com uma segunda opção “mochileira” - de ônibus, via Villa O´Higgins y El Chaltén (Argentina) – que leva pelo menos seis dias.

O que os motoristas experimentam em pleno séc. XXI, é uma irônica repetição da História à cavalo, pois quando o conquistador do Chile, Pedro de Valdivia, foi morto na Batalha de Tucapel, em 1553, os colonizadores espanhóis curvaram-se à assinatura de um tratado com os vitoriosos Mapuches, que em suas expedições rumo à Patagônia proibiu-lhes a travessia da Araucânia. Durante trezentos anos os espanhóis respeitaram o acordo, contornando a Araucânia por via marítima, mas bastou a proclamação da independência, em 1818, e a oligarquia chilena violou o trato, invadindo e loteando o território Mapuche para colonos europeus.

Em seu breve poema, “Patagonia”, Gabriel Mistral, Prêmio Nobel chilena de Literatura, escreveu: "à Patagônia/ seus filhos chamam de Mãe Branca/ Dizem que Deus não a quis/ por tão congelada e tão remota".

¡Santiago no es Chile!”

Santiago mais é problema do que solução para o Chile, que não é uma república federativa, mas espécie de obsoleto “Estado unitário”, com predomínio absoluto da capital.

Durante a ditadura Pinochet o país foi dividido em 15 Regiões administrativas, respectivamente subdivididas em províncias. Legado sem dúvida da era colonial, os “intendentes” - como são chamados os governadores regionais – não são eleitos pelo voto popular, mas nomeados pelo presidente de turno no palácio La Moneda. Espécie de “capitães hereditários” tardios, executam à risca os planos do governo central, sem espaço para ideias e projetos, quem dirá orçamento próprio.

Com aproximadamente 7,0 milhões de habitantes, a região metropolitana de Santiago é a menor, mas a que concentra 42% da população do país, e que gera 44,0 % do PIB nacional, com taxas de crescimento que têm superado os 6,0 % anuais. Enquanto o anacrônico cenário não muda, Santiago também concentra mais de 41,0% dos investimentos públicos em saúde, 34,2 % para a moradia popular e mais de 30,0 % para infraestrutura viária.


Antonio Altamirano

Contra ventos e maré”: o festival “Cielos del Infinito”

Promessa não cumprida pelos governos da era pós-Pinochet, a descentralização ganhou as ruas com ruidoso movimento social no Chile profundo, que cobra investimentos e valorização da identidade regional, com a palavra de ordem “¡Santiago no es Chile!”, querendo dizer, o Chile não é apenas Santiago.

Estas distorções despertaram uma ideia em quatro jovens, liderados pelo ator Antonio Altamirano e a jornalista e produtora Lorena Álvarez: naturais do extremo sul da Patagônia chilena, marcada por enorme dificuldade de acesso a bens culturais, resolveram desafiar o centralismo de Santiago com um expressivo evento cultural na Terra do Fogo.

Em 2008, assim nascia o Festival de Artes Cielos del Infinito, um evento com características internacionais, empenhado em espantar, durante uma semana ao ano, as intempéries neste fim de mundo – seus ventos inclementes, temperaturas gélidas e a neve - que de janeiro a dezembro açoitam o rosto de suas gentes. Ambicioso, o projeto oferece mostras de teatro, cinema e fotografia e shows musicais, Mas seu forte são as artes cênicas, em palco e na rua.

Licenciado em Artes pela Universidade do Chile, com a iniciativa Altamirano granjeou reconhecimentos e honrarias além-fronteiras, tais como o título de “uma das 100 mais influentes jovens lideranças do Chile” (revista El Mercurio, 2010) e um prêmio da International Youth Foundation, em 2011.

Em entrevista que me concedeu em um café de Punta Arenas, Altamirano lamenta que, apesar de sua 9a. edição, todos os anos a produção do festival volta à estaca zero financeira.

Como de resto na América Latina, salvo a Argentina, também no Chile o quesito “cultura” escreve-se com letra minúscula. Sua parcela no orçamento do Estado é de pífios 0,4 %, dos quais 37,7 % estão reservados para fundos concursáveis, com a maior parte das inscrições concentradas em Santiago, sede de museus, galerias, teatros e salas de espetáculos. Enfrentando esse centralismo, todos os anos, o Cielos del Infinito deve submeter-se ao edital do Conselho Nacional da Cultura e das Artes, seu principal patrocinador, e solicitar ao Serviço Nacional do Turismo (Sernatur) o financiamento de passagens e alojamento das companhias de teatro e dos jornalistas convidados.



Teatro sobre um mundo insuportável e de outro, possível, mas utópico

Em 2015, o evento contou com um público notável de 15.000 visitantes, Embora impressionadas com o êxito, as mãos das autoridades locais estão atadas para o patrocínio. Porém, os problemas se estendem à infraestrutura. Como exemplo da precariedade, Altamirano cita o caso do Teatro Municipal de Punta Arenas. Apesar dos 5,3 milhões de dólares investidos em 2014 pelo erário para sua remodelação, tornou-se um elefante branco com “mais de 90 pontos cegos”, eufemismo que designa zonas de alto risco. O jeito foi escapar para palcos de colégios, tais como o Liceu Público ou a British School de Punta Arenas, com aproximadamente 400 lugares cada.

Contando com o apoio simbólico de 42 organismos governamentais e privados, na prática o evento é colocado em cena pela generosidade de 50 voluntários locais, sobretudo jovens estudantes de Punta Arenas. Como sofrivel “sede” serviu-lhe em 2016 um restaurante improvisado, emprestado pelo sindicato local dos pescadores artesanais, no qual o chef chileno Rodrigo Urízar, que em Valparaíso dirige o pitoresco restaurante El Peral, deslumbrou artistas e o staff com seus quitutes e iguarias, tirados da cartola culinária com passes de mágica.

Em sua 9a. edição, em novembro de 2016, o Cielos del Infinito deu um passo audaz, expandindo seus eventos para as localidades de Puerto Natales e Puerto Williams – a 50 minutos de voo de Punta Arenas – e inaugurando uma parceria com Ushuaia, na vizinha Argentina.

A segunda proeza consistiu na atração até o Estreito de Magalhães de uma dezena de companhias nacionais e estrangeiras. Com “Tú”(França), “Kamchatka” e “Fugit” (Espanha), “Capitán” (Argentina), “Los Niños de Winnipeg” e “Nómadas” (co-produções Chile-Espanha), “Clase” (Chile), “El Rey Mono” (China) e “A Casa Vaga” (Portugal), o festival escolheu um elenco de montagens do teatro contemporâneo não-comercial, que dialoga com o parto, a História e a solidariedade humanas, mas dramatizam sobretudo o modo de vida imposto pela doutrina neoliberal, os desajustes e as decepções com a democracia formal, e as tentativas de escapar à armadilha capitalista; encenações todas muitos aplaudidas. Apesar do estranhamento de outro idioma no palco, o público parecia conhecer por experiência própria essas vozes de um mundo insuportável e de outro, possível, mas ainda utópico.




O TEP e Gonçalo Amorim em Punta Arenas - Fotos: F.Füllgraf

Teatro português revisita o “Estreito”

Muito bem recebida foi a peça “A Casa Vaga”, montada pelo Teatro Experimental do Porto (TEP), a companhia em atividade mais antiga de Portugal, fundada na década de 1950 por artistas e intelectuais anti-fascistas, que desafiaram a ditadura Salazar com arrojadas montagens de Arthur Miller e John Osborne, mas que jamais conseguiram driblar a censura portuguesa com uma peça do “maldito” Bertolt Brecht.

Com ideia e figurino insólitos, “A Casa Vaga” narra a emigração de três portugueses ao faroeste norte-americano, por volta de 1840, em busca de melhores condições de vida e de trabalho. Politizados e entusiasmados com a pregação das primeiras ideias libertárias, os três vaqueiros lusitanos – entre eles uma personagem feminina – ensaiam sua utopia, forçando um modo de vida livre do jugo capitalista e das estreitas fronteiras territoriais. Mas então entra em cena um pesonagem inusitado, vestindo terno e gravata , fumando charuto e dizendo: “Isto aqui tem dono, e o dono sou eu!”. O conflito é inevitável e culmina na morte do que reivindica a propriedade. Que não por coincidência também é português, o que pode ser entendido como metáfora nem tão sutil da luta de classes em Portugal sob a égide do Capital e das instituições da União Europeia. Porém, ainda que se insinue como acidental, a peça termina com uma advertência grave: a morte do predador pode sujar de sangue as mãos dos revolucionários bem intencionados!

Precursor do moderno teatro português, o
TEP sobreviveu o fascismo e a consolidação da democracia. Entre 1998 e 2009, foi dirigido por Norberto Barroca, sucedido por Júlio Gago. Em 2012, a direção artística foi assumida por Gonçalo Amorim, encenador residente desde 2010, um dos atores e diretor de “A Casa Vaga”, com quem conversei em Punta Arenas.

Amorim deverá retornar ao Chile em 2020, com um conjunto de obras em co-produção com Altamirano, sobre os 500 anos do descobrimento do Estreito.

Julio Popper, os "caçadores" e suas vítimas, Onas


Os senhores do fim do mundo

Um mês antes da estreia do festival, Christine Barthe, conservadora do Museu Quai Branly de Paris, deu palestras em Punta Arenas e Puerto Williams sobre a exposição “Los espíritus de la Patagonia Austral”, que reuniu 150 fotos do sacerdote salesiano e antropólogo alemão, Martin Gusinde (1886-1969), documentando os últimos dias na Terra do Fogo dos povos Selknam (Ona), Kawésqar e Yagán, no início do séc. XX.

As imagens em preto-e-branco de Gusinde, expostas de outubro a dezembro de 2016 no Museu de Belas Artes de Santiago, têm o poder de fazer sorrir e chorar a alma, diante da beleza em estado bruto e os estertores dos povos do fim do mundo. Autor do clássico “Los Fueguinos” (1937), Gusinde não foi oportunista, registrando e “roubando” as imagens aos fotografados, mas tornou-se amigo deles e engajou-se em uma vã tentativa de salvá-los do extermínio.

O extermínio tornara-se crônica anunciada desde 1867, quando o presidente José Joaquín Pérez decide acabar com a colônia penal de Punta Arenas, declarar a vila como "porto livre" e atrair imigrantes europeus. A chegada ao Estreito do português José Nogueira, do judeu lituano Elias Braun Fucks, e do espanhol José Menéndez, mudaria para sempre a paisagem da Terra do Fogo e selaria o destino de seus milenares povos originários; um capítulo da História jamais pesquisado e virtualmente desconhecido em Portugal.

Com mais de 4 milhões de hectares de terras concedidas gratuitamente pelos governos argentino e chileno, o trio Nogueira-Braun-Menéndez expandiu no sul da Patagônia o maior rebanho de ovelhas do mundo, foi proprietário de empresas de mineração, navegação e importação, e excerceu o monopólio da exportação de lã à Europa. Durante cinquenta anos, até a Segunda Guerra Mundial, com sua Sociedad Explotadora de Tierra del Fuego, foram os senhores do fim do mundo.


José Nogueira e Sara Braun


José Nogueira e o “Estreito do extermínio”

Deambulando por Punta Arenas, depara-se com profuso número de símbolos da opulência do novecento fueguino que emolduram a Plaza de Armas. Sua edificação mais exuberante é sem dúvida o Palácio Sara Braun, sede atual do Hotel José Nogueira, o mais requintado da cidade.


Em 1887, um casamento por iinteresse unira Sara Braun Hamburguer, filha de Elias, com José Nogueira, viúvo de sua esposa portuguesa. O interesse girava em torno da Sociedad Explotadora de Tierra del Fuego, fundada por Nogueira, e serviu de pano de fundo para nova união de Sara com José Menéndez, após o falecimento de Nogueira, em 1893. Herdeira da fortuna de Nogueira, em 1905 Sara Braun inaugura o palácio construído pelo arquiteto francês Numa Meyer como símbolo-mor do clã Braun-Menéndez e seu poder sobre as vastidões da Patagônia.

Em data incerta, estima-se que o marujo José Nogueira, natural de Vila Nova de Gaia, vizinha do Porto, tenha desembarcado em Punta Arenas em 1866, após aventurar-se pelo Rio de Janeiro, Montevidéu e Callao, no Peru.

Como Braun y Menéndez, pisou o chão da Patagônia sem capital nem outras posses. Porém, atento à movimentação de naves baleeiras inglesas, além de chalupas, das que saltavam legiões de homens armados com paus e escopetas para trucidar animais sobre o pedral do Estreito, sua perspicácia farejou um exelente negócio: a caça às focas e aos lobos marinhos.

É como lobero que Nogueira faz sua primeira fortuna, exportando para a Europa peles finas e azeites animais.

Estima-se que entre meados e final do séc. XIX foram chacinados à pauladas e tiros, mais de 300.000 lobos marinhos pelos caçadores ingleses, aos quais Nogueira servira antes de abrir seu próprio negócio.

O que o português certamente observara, mas dera de ombros, é que os animais constituíam a principal dieta marinha dos povos Ona e Yagán, que, desesperados, resistiam com seus arcos e flechas contra as armas automáticas do faunicídio.

Direto e feroz, o extermínio de Onas, Yagánes e dos Tehuelches, em terra firme, completou-se com o ciclo ovino. Milhões de ovelhas invadiam os pastos dos camelídeos nativos, como o Guanaco, subitamente cercados por arame farpado a perder de vista e reduzindo a pó e vento os rebanhos de carne dos povos originários.

Sem outra alternativa à inanição que derrubar as cercas e apoderar-se de alguma ovelha, agora Onas, Yagánes e Tehuelches tornavam-se objetos de caça das milícias de sicários contratados por Nogueira, Braun e Menéndez. Sua crueldade não desprezou requintes como a violação em massa de mulheres, o envenenamento de iscas de carne com estricnina e os fuzilamentos.

Caçador de ouro e índios, o imigrante romeno Julio Popper (vide foto) celebrizou-se como um dos comandantes do genocídio na Terra do Fogo em dezenas de documentos, mas sobretudo através da magistral novela “Corazón a contraluz”, do músico, poeta e escritor chileno, Patricio Manns.

Entre 1850 e 1916, foram executados a sangue frio 3.000 Yaganes e 3.500 Onas. Os poucos sobreviventes vegetaram em barracos da Igreja Salesiana da Ilha Dawson, usados em 1973 pela ditadura Pinochet como campo de concentração para altos funcionários do governo de Salvador Allende.

Conhecida como “a última Ona”, em 1966 faleceu na Argentina a xamã, cantora e contadora de estórias, Lola Kiepja. No entanto, muitos anos depois, durante a pesquisa para seu premiado documentário “El botón de nácar”, o cineasta Patricio Guzmán descobriu mais uma sobrevivente do genocídio em um pobre fiorde de pescadores do Chile: Cristina Calderón, cujo nome original perdeu-se no esquecimento.

Em uma cena sublime e enternecedora - The Pearl Button (El botón de nácar) - Language - a câmera focaliza a velha senhora produzindo um novelo de lã. Poderia ser uma metáfora do resgate da memória, que ela volta a desfiar, traduzindo para seu idioma nativo os nomes das coisas em espanhol.

É para ver e não parar de chorar.

08 novembro 2016

Frederico Füllgraf - Carne trêmula

Ilustração: divulgação

Conto

Um dia teria que confessar. Contar tudo a ela. 

Desconcertada, ela tenta acalmá-lo. Abraça-o, beija-o, aninha-o. Não sabe que na raíz do 
estremecimento dele está certa síndrome de placas tectônicas. Tenebroso tremor dos umbrais, capaz de empalidecer a carne, amarelar os heróis de Almodóvar; credor desta leviana licença poética. 

Placas, o quê? 


Comovida, ela tenta se aproximar, pergunta que “visões” são aquelas. Não entende o extremismo dele, o salto para fora da cama. Depois brinca: vai ver, é encosto de vidas passadas… 


E sempre acontece em pleno êxtase. Mas só em apartamentos. Quanto mais alto o prédio, mais pavorosa a vertigem. 


Será rejeição? 


Sentindo-se culpada, ela testa seu próprio hálito com a palma da mão aberta em concha, à frente da boca – hálito que continua perfumado como todo seu corpo; quente, aconchegante. 


Ele a consola: nada a ver contigo, querida!


E ela o recompensa. Diz que ele foi “maravilhoso” (mal sabe ela daquele vai-e-vem!). 


Mas então, o que é? 


Vendo-o agora, pálido, estático, debaixo do caixilho da porta do quarto, lhe recomenda, já aflita, um telefonema para o terapeuta – e ele ali com a expressão dos possessos, carranca de Kaspar Hauser, os pés milimetricamente retraídos à soleira, a cabeça cuidadosamente protegida pelo vão; olhos esbugalhados fixando a janela!

Mergulhado em silêncio indecifrável, ele recolhe os fragmentos, encaixa os estilhaços, acomoda as sensações de sua carne estremecida, para tornar plausível aquele episódio inenarrável. Que na verdade dispensa terapeuta. Este, apenas irá divertir-se às suas custas, cobrar-lhe honorários por seus risinhos pudicos – que definhe em sua angústia Lacaniana, pois!

Então refaz a viagem. 

Desembaraçado do controle de passaportes, arrastando a mala e buquê de flores em punho, anos atrás viajara até os Andes, onde vivia sua promessa de amor. Mas 
alcançara o portão de chegada com muita apreensão. 

Naquele átimo que o separava do desejado abraço com ela, a “ex” (expressão que, verdade seja dita, soa sórdida, lembra veredicto de execução sumária), em seqüência descontrolada, na tela da memória espocara aquele filme - uma estória dentro da estória dessa estória.

Fazia vinte e três anos, quando, pela primeira vez, levantara voo de Santiago, coração latejando na boca, pulmão esbraseado. Enquanto a aeromoça servira um drinque, sobre as nuvens pressentia que, em terra, em poucas horas estariam em seu encalço, atrás das trinta latas de filme não revelado em sua bagagem. Imagens proibidas, sobre a resistência contra o tirano, filmadas à sorrelfa, driblando a mais feroz das ditaduras. Aquela espera pelo embarque, vinte e três anos atrás, fora das mais excruciantes em sua vida! Por isso,  dias atrás, quando ousara repisar o chão desse país, o que mais esperava era o abraço e as boas vindas dela, e desse modo enterrar seus fantasmas.

Mas, que droga e decepção! Desembarcara e ela não viera recebê-lo!

O coração outra vez disparado, agora, machucado. 

Um dia inteiro em viagem, de escala em escala, de país em país – e dela nem sombra.

De repente lembrou-se: ela era reincidente. Já o tinha feito esperar hora e meia num bar, no Brasil. 

Então sentiu um pequeno terremoto nas estranhas. Não pensou duas vezes e jogou as flores de ponta-cabeça numa lata de lixo. Ato contínuo, informou-se sobre os voos de regresso ao Brasil. Para aquela mesma noite? Nenhum!, balbuciou a morena do balcão da empresa aérea, entregando-lhe uma lista de hotéis. Ligou ao primeiro, reservou um quarto e sentou-se para fumar um cigarro, já fazendo planos.

Então o segundo ato. Surgindo do nada, vestida de preto e aflita, ela irrompeu no grande saguão. Já tinha perdido o bronzeado da Ilha do Mel, mas estava esbelta. 

Mantendo-se encoberto pela multidão, ele acompanhou os olhares desesperados dela à procura do seu. Vingou-se, deixou-a sofrer. Só quando, já resignada, se preparava para fazer um telefonema, ele a chamou. E ali mesmo tiveram sua primeira briga. 

Tinha tomado o caminho errado para o aeroporto, ela mentiu, invertendo os papéis. Mas, diabos!, quem ali era o estrangeiro desnorteado? Não me fales assim, sou pessoa pública, ela aprumou-se – e ele vaticinou que tinha desembarcado no aeroporto errado. 

Subiram ao carro dela. Ela tentou desconversar. Na verdade se atrasara na casa de uma amiga (informação da mãe dela, no primeiro telefone dele). 


Ele fumou mais dois cigarros com raiva e disparou: quem ama, chega adiantado ao aeroporto! Riu-se às escondidas, era frase com sonoridade desses aforismos de auto-ajuda.

No meio da estrada, pediu a ela que o deixasse descer. Ela resistiu, chorou. Mas ele engoliu duas lágrimas secas para não vacilar, e seguiu de táxi. 

E naquela primeira noite no hotel, ela lhe ligou dezessete vezes.

No dia seguinte, depois de deixá-la sangrar, e ainda relutante, aceitara instalar-se no apartamento dela, em Providencia.

Domingo, céu de brigadeiro, chamejando com as cores da reconciliação, comeram um asado na casa do futuro sogro. Beberam vinho das boas cepas do Valle Central. Falaram abobrinhas, contaram piadas, buscaram alguma afinidade. Ela o apresentara como compañero, mas evitaram o passado; a prisão, as torturas, o exílio do pai e antigo colaborador do presidente caído em combate no Palácio La Moneda. 

Estranhamente, no brilho dos objetos e nas frestas entre as palavras, ele percebeu a acomodação de um deslumbramento; inicialmente algo insondável, e depois mais e mais desvelado. Era o dinheiro. 


E enquanto ela cumpria seu protocolo de vereadora da capital do país, ele reencontrava-se com Santiago, a néscia: apressada, sufocada por chumbo e fumaça, a Cordilheira sangrando neve com lágrimas de fuligem.

Quando ela finalmente se desvencilhou do cerimonial, escaparam para o norte, via Panamericana, onde os nativos parecem imitar os suíços, em obsessivo aproveitamento de cada nesga dos minúsculos vales férteis. 

Embrenharam-se no Valle del Elqui, embebedaram-se de pisco. Instalaram-se em Puerto Velero, recortado por azul veludíneo. Fartaram-se de polvos, lulas e peixes sirênicos das águas profundas. Amaram-se na banheira muito pequena para aquela luxúria sem tamanho, deitando água na sala, inundando a casa. 


Depois, a foto perfeita: ela riu de braços abertos, quando ele urrou, mergulhando nas águas geladas daquele mar do poente. 


E sentados na praia, na última noite tentaram socorrer-se de seus abalos sísmicos, contando as estrelas do poeta de Isla Negra, ancoradas sob o céu do Pacífico.

Então sobreveio aquele dia mal-nascido. 

Até a hora do almoço o país assistira atônito à domesticação da hiena, à investidura do ditador sanguinário no cargo de senador da República. Honraria vitalícia em desonra da Nação. O povo saíra às ruas, contra Calígula protegido pela guarda pretoriana. Cerco, ameaças, soldados com os olhos colados na mira das armas. !Vayan-se todos! Indignação e asco, palavras e pedras. Porém, no meio da fúria, as mãos dele e dela perderam o toque. Reencontraram-se no apartamento dela, noite já alta.

Famélicos, deitaram-se e enrolaram-se na cortina de tisne que escondia a cidade. E quando seus corpos alagados já se confundiam, a cama começou a mover-se. Um misterioso ritmo, que não era deles, infiltrara-se. 

Agarrado ao silêncio, ele estancou seu movimento, e ela se enfureceu. Nela nenhum espasmo, nele apenas respiração contida. 


Fechou os olhos, creditando a estranha sensação à reverberação do dia já consumido. 

Subitamente sentiu mais que um tranco – era balanço. 

Olhou para a mulher a seu lado, com a expressão do prazer interrompido nos lábios: como é que te moves, se eu não te toco? 

Mas quando ergueu o olhar, pensou ver a cordilheira atravessando a janela, feito pêndulo...

Não acreditou! 

Tomado de pânico, acotovelou a mulher já adormecida, advertindo-a: o prédio treme! 


Espreguiçando-se, ela desdenhou com desprezo mais que indolente: 
Terremoto? No, es apenas un temblorcito…   !temblorrrr! 

Insultado pela escala Richter, cujas nuanças lhe pareciam cínicas, ele saltou da cama, bateu de frente com o guarda-roupa, reincorporando-se sem saber para onde correr. 


Ela instruiu-o desde a cama abandonada: não seja idiota! Mas já que você quer se salvar, o único lugar recomendado pelos sismólogos é o caixilho da porta. 

E enquanto refletia sobre a piada de hilariante realismo, imaginando-se despencar do décimo quinto andar, emoldurado por uma porta que não o salvaria da desdita, no alto do 15º andar daquele prédio do bairro de Providencia, a cordilheira saudava sua carne trêmula com imperturbável vai-e-vem diante da janela.




Nota para mis lectores de idioma español:

Les solicito unos pocos días de paciencia, porque aqui disfrutarán
de la versión del cuento en Español, pero también los invito
para publicar sus comentários.
Saludos a todos y gracias por sus visitas!
FF

23 setembro 2016

Frederico Füllgraf - „Villa Baviera ist obszön!“



Frederico Füllgraf berichtet für unsere Leser aus Santiago de Chile über den Kampf chilenischer Opferverbände gegen das Wellness-Resort Colonia Dignidad auf den Massengräbern ihrer Toten. Lesen Sie heute den ersten Teil. Die Fortsetzung erscheint morgen.

Foto: F. Füllgraf







04 novembro 2014

Frederico Füllgraf- A bela e o matador

Ivette Vergara, animadora de Mega TV, Chile

Santiago do Chile                                                                                                               Exclusivo para Jornal GGN 

Ivette Vergara é um dos mais belos rostos do Chile, e os fotógrafos indiscretos costumam registrar closes de suas pernas cruzadas, não menos esculturais. Faz parte do tititi, Ivette gosta.
Ex-modelo, “Miss Paula 1990” (organizado pela revista homônima) e animadora do programa de variedades "Mucho Gusto", no canal privado Mega TV, nestes dias de outubro estourou uma bomba nos meios de comunicação, salpicando com seus destroços a imagem do símbolo sexual chileno: a Corte Suprema sentenciou a três anos e um dia de reclusão o capitão reformado do exército, Aquiles Vergara Muñoz , como autor de homicídio qualificado, perpetrado em 1973 no interior de uma delegacia de polícia de Puerto Aysén, na Patagônia. Além deste, o ex-militar pinochetista foi indiciado por outros dois assassinatos de simpatizantes do então presidente Salvador Allende, fuzilados a sangue frio e enterrados clandestinamente em valas anônimas. A falta de sorte de Ivette Vergara: o militar sentenciado é seu pai. Sua primeira reação à notícia foi: “Estamos tranquilos, porque sabemos que meu pai é inocente”.
Retronarrativa: fuzilamentos na Patagônia
Outubro de 1973.
Poucas semanas após o golpe militar contra o governo Salvador Allende, chega a Puerto Aysén – que à altura mal contava 5.000 habitantes, mas hoje é o principal núcleo de aquicultura de salmão do Chile, localizado 2.300 quilômetros ao sul de Santiago - um batalhão de artilharia comandado pelo capitão do exército Aquiles Vergara Muñoz, “para contribuir à manutenção da ordem interna ante eventuais insubordinações e violações do toque de recolher”, segundo a linguagem eufemística da ditadura Pinochet.
Acima: Presos executados em Aysén
Abaixo: Capitão do exército (R) Aquiles Vergara Muñoz
Fotos: divulgação

A rigor, naquelas semanas estava aberta a “temporada de caça” aos simpatizantes allendistas. Realizar prisões arbitrárias, torturar e matar estavam na ordem do dia. Foi em suas rondas ostensivas que no dia 2 de outubro de 1973, o capitão prendeu o jovem Julio Cárcamo e seu amigo apelidado “Cachorro [filhote] Alvarado”, que supostamente teriam insultado e ameaçado o funcionário da polícia, Oscar Carrasco Leiva.
Debaixo de coronhadas de fuzil e chutes em todo o corpo, ambos foram arrastados à segunda delegacia de Carabineiros de Aysén e jogados numa cela imunda.
Madrugada alta, os dois presos foram retirados da cela e conduzidos a uma baia de cavalos, onde os esperava Vergara Muñoz. Primeiro, o capitão descarregou sua pistola nos presos, em seguida formou um pelotão irregular e ordenou fogo, que crivou de balas Cárcamo e o “Filhote” - em flagrante assassinato a sangue frio de dois presos ilegais, sem acusação formal, sem tribunal nem direito à defesa.
Completada a chacina, os corpos das vítimas foram levados para a morgue, onde um médico emitiu o laudo sem qualquer autópsia. Porém, o atestado de óbito de 20 de outubro de 1973 atesta “anemia aguda” e “ferida de projétil” como causas mortis dos dois patagoneses, que foram colocados nus em um jipe, conduzidos até o cemitério local e jogados em uma vala anônima, devidamente preparada.
A selvageria do “Caso Aysén” é emblemática porque tortura, fuzilamento e ocultação de cadáveres foi o modus operandi da repressão não apenas pinochetista, mas da posterior Operação Condor, em todo o continente.
Negando evidências durante 40 anos
Ninón Neira de Órdenes, uma senhora em provecta idade e presidente da Comissão de DDHH da Região de Aysén, protestou em alto e bom som contra a sentença dos ministros da segunda turma do Supremo, por considerá-la tímida: o septuagenário Muñoz Vergara é notório assassino e merecia pena mais drástica do que três anos de liberdade vigiada.
Embora muito mais criativa e eficiente do que a brasileira, a Justiça chilena tem sabido contornar e esvaziar a Lei da Anistia pinochetista ainda em vigor, julgando violadores de DDHH pelo viés dos “crimes comuns”, tais como formação de quadrilha, sequestro e homicídio, contudo, em casos como o de Muñoz Vergara, atropelando a jurisprudência internacional, ao reduzir a pena em primeira instância, alegando “meia prescrição”. Tanto a Corte Internacional de Justiça como a Corte Interamericana de Direitos Humanos estabeleceram que crimes de lesa-humanidade não prescrevem.
Detido pela primeira vez em 2009, o ex-capitão Aquiles Vergara negou tudo. Afirmou que não teve “faculdade legal para determinar nenhuma detenção”, não constituiu pelotões de fuzilamento e que, ademais, sequer teve conhecimento do nome ou da fisionomia dos executados.
“¡Yo no sé de nada!”, insistiu o ex-capitão pinochetista - simples assim.
Inesperadamente, em setembro de 2014, o ministro Sepúlveda Coronado o indiciaria em novo processo, desta vez pelo homicidio qualificado de Elvin Alfonso Altamirano Monje, “detido à margem de qualquer processo legal” e também assassinado em uma delegacia dos Carabineiros de Puerto Aysén.
Como você reagiria, se seu pai fosse condenado por violação de DDHH?
No início de 2014, um caso semelhante ao de Ivette Vergara derrubou a recém-nomeada Subsecretária do ministério da Defesa do governo Michelle Bachelet, Carolina Echeverría Moya. Em 2009, durante a primeira administração Bachelet (2006-2010), a funcionária já articulara o arquivamento de um processo por violação de DDHH, iniciado por ex-marinheiros allendistas, e em janeiro de 2014 omitiu em seu currículo o parentesco com o coronel da reserva do exército, Víctor Echeverría Henríquez, seu pai. Vivendo em liberdade impune, Echeverría Henríquez foi reconhecido por ex-presos políticos como comandante do famigerado Regimento de Infantería N°1 “Buin”, que durante a ditadura Pinochet funcionou como centro clandestino de detenção e tortura.
A sublimação dos crimes paternos por Ivette Vergara e Carolina Moya pode ser considerada uma síndrome.
Indagado sobre a reação de familiares de militares processados por violações de DDHH, o psicólogo chileno Marco Antonio Grez aponta um curiosa racionalização: ”Quando familiares diretos são confrontados com fatos acobertados por mentiras, delitos ou ilícitos envolvendo seus pais, em sua mente costuma ocorrer uma contradição. Quando crescemos, habituando-nos a justificar uma situação que nos faz sofrer, tratamos de dar um sentido às justificativas, inventando o pretexto de que o pai teve que cumprir ordens, deste modo conseguindo restabelecer um estado de equilíbrio".
Somente arrependimento redime imagem dos filhos
Em entrevista ao semanário Cambio21, o sociólogo Manuel Antonio Garretón adverte contra generalizações: “A única solução para estas coisas são sociedades  mais educadas, menos familísticas, menos fechadas em grupos estanques, até mesmo religiosamente, já que a tendência é atribuir aos filhos as características que têm os pais ou parentes”.
Contudo, até quando mulheres como a musa da TV ou a secretária de Estado continuarão a tampar o sol com a peneira, escondendo-se onde não há mas refúgio?
Garretón é taxativo:”A única maneira de superar esta situação é que os que cometeram os crimes os admitam, peçam perdão e deem mostra de seu arrependimento. Só assim ninguém mais poderá insinuar que´tal pai, tal filho´".
Talvez não seja exatamente este o ponto: se o capitão assassino admitisse a verdade, talvez aliviasse a dor de sua filha Ivette Vergara e ela não precisasse mais encobri-lo.
Talvez.

 Publicado originalmente em:
http://jornalggn.com.br/blog/frederico-fuellgraf/chile-condenacao-de-pai-violador-de-direitos-humanos-atinge-apresentadora-de-tv