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27 maio 2021

Frederico Füllgraf - O dia em que a V-2 de Hitler caiu em Ciudad Juárez

Excerto de "O caminho de Tula"
romance em construção

Naqueles dias de deambulações de Albert George pelas ruínas de Nassau, ocorria um episódio insólito no deserto do Novo México, do outro lado do mundo.
Porfírio Contreras, capataz de uma herdade localizada junto à fronteira com o Texas, tem a prova de que foi o dia 29 de maio de 1947, porque se percebendo a distância segura, apeara de seu cavalo, e com a ponta de seu punhal, que levava embainhado às costas, entre o cinturão e as ceroulas, no lado esquerdo inferior da cela de couro gravara a data daquela aparição, para que no futuro nem seus netos duvidassem do que vira!
Contou-me Contreras que, enquanto cavalgava de volta à estância, vaquejando mil e quinhentas cabeças de boi com seus peões, foram surpreendidos pelo bramido ensurdecedor de um objeto voador com forma imprecisa, mas apetrechado com aletas, e que a baixa altura, estimada em quatrocentos pés, descrevera uma elipse sobre suas cabeças, desaparecendo por trás de uma quebrada, de onde logo os alcançara o estrépito e a restolhada de ferros retorcidos. 

Ajuntou o mayoral que a primeira reação de seus homens foi perguntarem-lhe se depois de roubarem o Texas, o Novo México e o Arizona, desta vez os americanos invadiriam a capital do país - tal seu pavor e indignação! 


A notícia fizera eco em toda a região fronteiriça, mas instruído por um despacho recebido pelo telégrafo, com a advertência, “ultra-secreto!”, o cônsul americano em Juárez reunira os diretores do único jornal e da única estação de rádio da cidade (obviamente estranhando que fossem da mesma família), ordenando-lhes you guys shut up!, o que traduzido queria dizer "em boca fechada não entra mosquito!" - enfim, que seus repórteres calassem suas matracas sobre o sucedimento impronunciável.




Este era “o mais infame lançamento”, nas palavras de Wayne Mattson, antigo pesquisador dos esfíngicos movimentos ocorridos no deserto de White Sands desde a rendição da Alemanha, referindo-se ao incidente internacional causado pela estranha "arma voadora" que despencara sobre os jazigos de um cemitério de Ciudad Juárez.
Ainda bem que no México não sabiam do que ocorrera do outro lado da fronteira, uma semana antes – sairiam correndo de suas casas para não mais retornar!
Trama paralela. 

Em sua edição de 22 de maio de 1947, o "Alamogordo News" alardeara o susto da população da localidade de mesmo nome, “tocada por incipiente pavor”, quando uma sorte de objeto voador irrompeu em voo errático nos céus sobre a pequena cidade encravada no deserto, explodindo estrepitosamente ao chocar-se contra as montanhas de Sacramento.



Seu lançamento ocorrera às 4h08 da tarde, no Complexo 33 de White Sands. O propelente líquido fora programado para queimar durante 63,6 segundos, acelerando o foguete, com 9.827 libras de peso, à velocidade de 4.696 pés por segundo, ou 3.202 milhas por hora, elevando-o até uma altitude de 76 milhas nos céus do Novo México. Subitamente, porém, o engenho começara a cambalear, a pressão partindo ao meio o míssil, cujos destroços despencaram nas proximidades da 13ª. Rua com a Cuba Avenue, e também sobre os trilhos das Ferrovias da South Pacific.
Mas do que, diabos, estavam falando?
Alguns malucos saltaram em seus carros, relatava o jornal, apressando-se em alcançar o local do choque, localizado a mais de trinta milhas da base do disparo. 

Bob Calloway, que jogava bola com alguns garotos entre a Avenida Michigan e a 15ª. Rua, conta que os fios elétricos estendidos entre os postes naquelas ruas começaram a vibrar violentamente.
Montados num caminhão, ele e seus amigos acudiram ao local da queda, onde apanharam alguns destroços como troféus. Eram fiações e tanques metálicos que usaram para montar aeromodelos, merendeiras e caixas de ferramentas portáteis.
Eis o fim do misterioso "lançamento" ocorrido no dia 15 de maio, estranhamente noticiado apenas no dia 22, uma semana depois.
Os tais "lançamentos" eram top secret.
Por isso, poucas horas após o bombardeio do cemitério em Ciudad Juárez, um destacamento do ministério do ar americano cruzara a fronteira para inspecionar o local do sinistro, encontrando-se com uma turba de mexicanos já empenhada em saquear e vender a sucata que caíra do céu.

Só então o cônsul gringo e os nativos ficaram sabendo que a invasão do espaço aéreo do México fora um acidente, pois, como tratara de elucidar Monte Marlin, oficial de relações públicas do campo de provas balísticas de White Sands, "ao invés de obedecer à trajetória programada, navegando para norte, a engenhoca se desgovernara, e sobrevoando El Paso, do outro lado da fronteira, rumara ao sul..."

- Luckily, no one was injured! – tratou de contemporizar o porta-voz diante das carrancas varadas dos hispânicos.

Ao próprio cônsul, pasmado, confidenciou que em meados de 1945, nada menos que trezentos vagões de trem haviam descarregado em Las Cruces o mais fantástico butim de guerra de todos os tempos!

Eram motores das bombas voadoras alemãs V-2, como essa que acabara de espatifar-se nos ermos. Era mais: ali abundavam fuselagens, tanques de propelentes, giroscópios e outros equipamentos com funções a adivinhar.

De Las Cruces, fim da malha ferroviária, as super-armas alemãs seguiram em caminhões - centenas de caminhões! - para a base de White Sands. 

Lá estava funcionando um programa, explicou Marlin, para treinar americanos em operações de lançamento com armas teleguiadas, artifício até ali sobejamente desconhecido na América.

Infelizmente, ajuntara o oficial, apesar de operadas pelos cento e setenta e sete cientistas e técnicos que as tinham desenvolvido na Alemanha, nem todos os disparos com essas armas eram exitosos, embora estimasse que sua margem de acerto fosse de sessenta e oito por cento. Portanto, somente aqueles trinta e dois por cento errantes – ehhmm... restantes!, corrigiu-se rapidamente - explicavam o desvio imprevisto daquela V-2 para Ciudad Juárez.

E arrumando num caminhão militar, fortemente guarnecido, os destroços que restavam da arma futurista, que não deixaram fotografar pelos mexicanos, os americanos retornaram à fronteira e desapareceram.


Fotos: divulgação

03 fevereiro 2021

Frederico Füllgraf - Matou a família e foi p´ro motel, ou: Suzanne e as duas mortes do Barão Vermelho

 

(Fotos - Bundesarchiv, divulgação)

Ensaio


Quando a barra de ferro, pétrea e fria, golpeou a cabeça de Manfred von Richthofen, matando-o, naquela madrugada de novembro de 2002, um outro Manfred, também Von Richthofen, sentiu uma fisgada em sua própria cabeça, percebeu sangue brotando da cicatriz do tiro de raspão que o atingira em 1918, e revirou-se no caixão, em sua terceira cova; a de Wiesbaden. Afinal, heróis não morrem, apenas descansam, ensina a mitologia... Assim imaginei, quando li, pela primeira vez, a notícia do duplo assassinato do engenheiro alemão e sua esposa Marísia, pelas mãos de sua própria filha, Suzane von Richthofen.


Ao matar seus próprios pais, Suzane teria também assassinado a tradição cavalheiresca que adere à linhagem paterna ? Talvez Suzane estivesse farta da prosápia, contada e recontada pelo pai, que exibia suas azuladas origens na reprodução do galhario de uma frondosa árvore genealógica pendurada em uma das paredes da sala da casa do Brooklyn. Talvez Susane jamais se interessara pela estranha saga do pai, talvez lhe tenha sido ganz egal – “completamente indiferente”, como se diz em Alemão. 

Talvez...

E, se o alegado parentesco com o lendário Barão Vermelho tivesse sido apenas um delírio do pai homônimo ? Uma farsa, uma “cripta” ? Logo após o crime, a imprensa alemã – incluindo o investigativo e cáustico Der Spiegel – apressou-se em tomar por palavra final o desmentido oficial na Alemanha: “Um estudioso da saga dos Richthofen declarou que toda essa história seria uma trama urdida pela imprensa ´sensacionalista´do Brasil", escreveu, perplexo, o jornalista Cláudio Julio Tognolli, do Jornal da Tarde. Perplexo, porque, entre 1996 e 1997, árvore genealógica em punho (noblesse oblige !), o engenheiro convencera Tognolli de que, apesar de habitante da paulicéia empedrada, era sobrinho-neto do lendário e homônimo ás da aviação e pertencia de berço e de jure ao clã dos Von Richthofen, surgidos no séc. 16 nas planícies do Báltico.

Concluiu, então, Tognolli: “Do exposto, podem racionalmente pairar no ar as seguintes indagações: 1) este repórter inventou a história; 2) Manfed, num acesso delirante, daqueles que os psicanalistas chamam de delusão, inventou a história; 3) a imprensa alemã errou em dizer que a história é mentira e o especialista alemão em Barão Vermelho está mal-informado (ou: propositalmente, semeou contra-informação da família Von Richthofen, envergonhada)”.

Regredindo aos primórdios da Literatura, o psicanalista Sérgio Telles, do Instituto Sedes Sapientiae de São Paulo, foi buscar na matriz trágica do Édipo de Sófocles (e sua metáfora freudiana para o parricídio) elementos para a constituição do sujeito em uma “família disfuncional”. Seria “impossível conceber que a garota Von Richtofen tenha uma patologia mental tão grave, a ponto de quebrar todos os limites e expressar-se num assassinato, sem levantar a hipótese de que sua família também apresentasse grandes e graves disfunções”, argumentou Telles.

Apoiando-se no desmentido do clã, o doutor de almas precipitou-se em defender a teoria da “cripta”, para explicar o provável desvio patológico da parricida Suzane. Isto é: padecendo sob a realidade insuportável da outorga de uma falsa identidade aristocrática do pai (um segredo familiar tornado “falha”, “buraco negro”), a moça teria sido um sujeito/médium da Übertragung - a transferência da patologia paterna, segundo Freud. Telles: “No caso do engenheiro Von Richthofen, poderíamos pensar que não tolerava as próprias origens - talvez humildes, constituída de emigrantes pobres alemães, talvez colonos agrícolas - e delirava com a nobreza teutônica?” ... “Esse pai, com possíveis delírios de nobreza, receberia o fato de ter a filha um namorado pobre e humilde?”.

Da teoria da “cripta” à “apetitosa brecha defensória” para Suzane, o lapso especulativo se ampliaria: supôs Tognolli que, se os estudiosos e imprensa alemães estivessem certos ao afirmar que não havia a mínima possibilidade de parentesco entre “o nosso Manfred” e o Manfred "Barão Vermelho", os advogados da filha do engenheiro e mentora dos crimes, teriam (tido) uma carta na manga para a defesa derrubar o in dubio pro societate da promotoria. Porque, nesse caso, o engenheiro Manfred seria um psicopata, delirante a ponto de inventar uma história de vida que nunca foi sua; trauma, vilanias mentais suficientes para alterar o comportamento da filha...

“Pai com amante, mãe lésbica” ... Mais que vilãs, foram sórdidas as imputações da defesa de Suzane, para justificar o injustificável: as alterações comportamentais da parricida e matricida confessa. Contudo, os dúbios advogados evitaram puxar da carta na manga, porque não a tinham. Condenada a ré, caladas as vozes da indignação, a imprensa recolheu-se à filtragem do varejo e o “caso Richthofen” foi, literalmente, para o arquivo morto. Nele repousam, agora, dois cadáveres, duplamente assassinados, real e virtualmente: o Barão Vermelho, como paradigma da arte cavalheiresca do aviador zen, e seu parente abrasileirado, o engenheiro homônimo, colocado sob suspeita, ofendido post mortem.

No entanto, Tognolli pensou na direção correta: a imprensa alemã errou, ao dizer que a história é mentira. Mas, e o puro-sangue Karl-Friedrich Freiherr von Richthofen, “especialista alemão em Barão Vermelho”, citado por Der Spiegel: estava apenas “mal informado” ou propositalmente semeou contra-informação da família Von Richthofen (envergonhada) ? Contudo, nas praias rasas da Internet, onde apenas é requerido talento medíocre para combinar informações, pousava a esfinge que devorou o jornalismo investigativo: o site com o brasão da dinastia Richthofen (www.richthofen.de/allgemein/startseite.html)

Três anos e meio após o veemente distanciamento do Barão Karl-Friedrich, escrevi uma carta para o livro de visitas do site, perguntando, se Manfred von Richthofen, “o nosso” , era, de fato, parente legítimo da linhagem do brasão. A resposta fez-se esperar, veio de viés. Um dos von Richthofen argüiu-me por e-mail, sobre o motivo do meu interesse; “se para um romance, peça de teatro ou filme ... Menos de duas semanas depois, porém, obtive do administrador do site a confirmação da pertença do engenheiro assassinado à linhagem lendária.

Diz o e-mail de 24 de abril de 2006: Sehr geehrter Hr. Füllgraf, Bezug nehmend auf Ihre Anfrage möchte ich Ihnen mitteilen, dass Manfred Freiherr v. Richthofen Mitglied unserer Familie ist und somit auch mit dem gleichnamigen Kampfflieger des Ersten Weltkrieges verwandt ist. Den Verwandtschaftsgrad können Sie auf unserer Homepage dem Stammbaum entnehmen. Diese Stellungnahme ist vertraulich zu behandeln. Mit freundlichen Grüßen (...)

Para os incrédulos, a tradução:

“Prezado Sr. Füllgraf, com referência à sua pergunta, tenho a lhe informar que Manfred Barão von Richthofen é membro de nossa família e, com isso, também parente do homônimo aviador combatente da Primeira Guerra Mundial, ...”. E, agora a pérola: “O grau de parentesco o senhor pode deduzir da árvore genealógica que consta em nossa Homepage. A presente informação requer sigilo. Saudações cordiais (...)”.

Decidi manter em sigilo o nome do gentil informante, graduada figura do clã, reproduzir, no entanto, sua própria indicação da árvore genealógica, onde repousa a memória do engenheiro assassinado e que dispensa qualquer dúvida – genealogia por vezes glamurosa, onde figura Frieda von Richthofen, que casou com o autor de O Amante de Lady Chatterley, D.H. Lawrence, e por outras, desconcertante, na companhia do Marechal de infantaria Wolfram von Richthofen, comandante da Legião Condor, a que foi socorrer Franco durante a Guerra Civil espanhola, açougueiro de Guernica, imortalizada pelo horror das imagens de Picasso.

Campeão de equitação artística, Manfred von Richthofen, nascido em Breslau em 1892, viu na aviação do início do século passado, um sucedâneo à altura para seus anseios de glória. Trocou o cavalo pelo triplano Albatroz da Fokker. Em tempos de transição acelerada para a sociedade industrial, nada heróica, a aeronáutica logo tornou-se a arma predileta da juventude aristocrática européia. Repugnava-lhe a imagem da infantaria, do convívio, ombro a ombro, com a soldadesca nas trincheiras, em meio à lama, ao sangue, aos excrementos. Horror dos horrores, era a fantasia da morte anônima, reles número em meio à multidão de cadáveres produzidos em escala industrial.

Se Nietzsche pensou no céu como limite para seu “super-homem” (alegoria da auto-superação, nada nazista, diga-se), então os aviadores da 1ª. Guerra Mundial eram nietzscheanos do “bom combate”; aquela, herdada através das sagas medievais. Descreve um aficionado: “Os Fokker, os Sopwith Camel, os Havilland, os Nieuport que pilotavam, substituíam em definitivo as cavalgaduras. O ronco dos motores faziam com que esquecessem os relinchos. Versões modernas de Lancelote, de Orlando Furioso ou de Götz von Berlichingen, sentiam-se cavalgar Pégaso, o ginete alado”.

Em menos de três anos de guerra, a Luftwaffe do Kaiser derrubaria mais de 400 aviões ingleses. Destes, Lothar, o irmão de Manfred, piloto de um Albatroz amarelo, destruiu 40 aeronaves em apenas 70 dias de combate, por isso condecorado com a cobiçada Ordem Blauer Max (o Max em Azul). A bordo de seu Albatroz pintado de vermelho – fonte de inspiração para o personagem Snoopy e, por tabela, da banda de rock brasileira, Barão Vermelho - Manfred von Richthofen abateu 80 aviões ingleses apenas no primeiro trimestre de 1918. Comandante da esquadrilha Jasta 11 – apelidada de “O Circo Voador” , outra reverência carioca ! - von Richthofen foi idolatrado pela imprensa e o povo alemães, fazendo jus à Grande Cruz Pour le Mérite, a ordem que Frederico o Grande criara para honrar Voltaire.

Tanta idolatria por Tanatos ? Frios, quase tranquilos, Suzane e o namorado acalentaram o assassinato do casal Manfred e Marísia com um mês de antecedência, optando pelos golpes com barra de ferro depois de um teste, barulhento demais, com arma de fogo. Já o Barão Vermelho ancestral, gozou de popularidade por sua ética, traduzindo para a guerra aérea a matriz respeitosa dos cavalheiros. Jamais atirava num rival abatido que saltasse de pára-quedas, em aparelho em chamas ou embicado para o solo, dilacerado; não perseguia o piloto. “Ferido o cavalo”, deixava que o destino cuidasse do cavaleiro. Fez fama de ser leal e generoso adversário.

A “suavidade” do Barão Vermelho estimulou a fantasia no campo do inimigo, a boataria chegou a imaginar uma mulher no comando do manche do Albatroz vermelho... A propósito, um trecho do Der Rote Kampfflieger / The red air fighter, de Manfred von Richthofen, que ilustra a liça como jogo, perigoso jogo com a morte, mas respeitoso, guerra “humanizada” , longe da artilharia pesada, da metralhadora, do lança-chamas e do gás mostarda, praticada sem traição ou perfídia:

“Depois de termos baixado mais de dois mil metros em nossa altitude, o que não mudou nada nossa situação, meu adversário finalmente teve que admitir que já passava da hora escafede-ser, pois o vento favorável me transportava cada vez mais perto das nossas posições, fazendo-me planar quase sobre Bapaume, distante um quilômetro do nosso front. Quando nos encontrávamos já a apenas mil metros acima do chão, meu adversário ainda teve tempo de me acenar, muito divertido, como se quisesse dizer: „Well, well, how do you do?" (Tudo beleza, como vai você ?).

Como questiona Geoffrey Miller, em "Sabretache", the Journal and Proceedings of the Military History Society of Australia, Vol. XXXIX, No. 2, junho de 1998, quase noventa anos após a morte do Barão Vermelho, em 21 de abril de 1818, nos céus da França, os descendentes de soldados ingleses, canadenses e australianos ainda discutem, quem foi o autor do disparo, que derrubou o lendário Fokker Albatroz.

Manfred von Richthofen foi sepultado por seus inimigos. Reservaram uma grande barraca de campanha, em cujo centro ergueram um pedestal e, sobre este, repousaram o caixão do barão, vestindo o mesmo uniforme do regimento l -Ulanen, que trajava quando caiu no buraco negro que o arrancou da vida. Seis oficiais da aeronáutica inglesa, todos capitães de esquadrilha, dinstinguidos por sua bravura diante do inimigo, penetraram na barraca, alçaram o caixão ao ombro e o carregaram até sua primeira sepultura, no cemitério de Fricourt. Seguindo o caixão, marchavam doze homens da guarda de luto, olhos derramados sobre o chão, segurando seus mosquetões com o cano virado para baixo.

Depois desta formação, marchavam oficiais e suboficiais, entre eles cinqüenta aviadores. E todos caminharam atrás do féretro, em silêncio, olhos para o chão. Fechando a coluna, um dos oficiais carregava uma grande coroa com a saudação do quartel-general da aeronáutica inglesa para o barão: „ Ao Cavalheiro von Richthofen, o valente e digno inimigo“. Sobre o caixão, martelaram uma placa metálica, com dístico em Inglês e Alemão: "Aqui, sobre o campo da Honra, descansa o Cavaleiro Manfred, Barão von Richthofen, na idade dos 25 anos, caído em batalha aérea em 21 de abril de 1918“. Enquanto o caixão descia à terra, aviões ingleses fizeram formação de honra, com rasantes sobre o cemitério. Em 1925 os restos mortais do Barão Vermelho foram transferidos por sua família para o aristocrático cemitério dos Inválidos, no coração de Berlim, onde Manfred jazia exatamente debaixo do Muro, erguido em 1961, motivo pelo qual em 1976 seus descendentes o transladaram mais uma vez de morada; desta última, para Wiesbaden, às margens do Reno.

Já a louraça bandida (Alberto Dines) confessou que estava “emaconhada” na noite em que matou a mãe e o pai. Não era cocaína, era uma droga "leve", dessas disponíveis em qualquer festa, não fora a primeira vez. 

Matou a família e foi ao motel...

25 março 2018

Frederico Füllgraf - Um copião para Alexander Kluge - notas sobre um desencontro produtivo

Fotos de cima para baixo: Theodor Adorno
com Alexander Kluge (1958); Fritz Lang (anos 1960);
A. Kluge (anos 2000).





                                                                                                  Para Luciana Vilas Boas


Neste momento, ele deverá ter lido a carta que lhe mandei; uma versão ligeiramente personalizada da estória que vou contar, e que começa assim: 


“Lieber Alexander, você não é culpado pelo rumo que minha vida tomou...”

No início da narrativa de “O caminho de Tula”, romance em construção, meu personagem, Hannes, filho de emigrantes europeus, criado no Brasil, relembra sua passagem pela agitada Frankfurt do pós-1968.

Um belo dia pedira licença na distribuidora de livros, seu primeiro emprego naquele território das descobertas, pretextando uma consulta urgente ao dentista. Era uma mentira que encobria sua ansiedade por ver e ouvir, em carne e osso, uma aula do mítico filósofo, Theodor Adorno, cujos livros estavam entre os mais solicitados nas encomendas diárias das livrarias. Contudo, ao baixar do bonde, à entrada da Universidade Johann Wolfgang von Goethe, deparara-se com uma curiosa barreira policial que o impedia de realizar seu sonho. O que acontecia ali? O célebre autor da “Dialética do Esclarecimento” e crítico feroz da moral impostora mandara chamar os homens da lei porque um grupo de moças interrompera seu vôo semanal para esferas do elevado pensamento com um atentado bastante mundano e ardiloso, cujas armas foram alguns pares de peitos nus; nus e belos advertira um dos policiais, mas não concedendo a Hannes o estatuto da dúvida, porque não o deixara cruzar a barreira
.


O atentado


Início de primavera com maus presságios, nem bem iniciara sua “Introdução ao pensamento dialético”, Theodor W. Adorno fora interrompido por um de seus estudantes, que lhe exigia uma “autocrítica”. Autocrítica - eu? – indignara-se o velho professor, marxista da mais fina cepa. Uma resma de panfletos fora lançada aos ares da sala, cujo título decretava: “Adorno está morto!” Tumulto nas galerias! Facção radical do movimento estudantil, o “Grupo de Base da Sociologia” cobrava de Adorno e seu ex-aluno, Jürgen Habermas, que “abraçassem a luta de classes”. Para não deixar barato, um engraçadinho rabiscara no quadro negro um verso rimado: “Enquanto o Adorno, querido, repetir sua eterna mesmice, pro resto da vida teremos capitalismo e burrice!“. E então o atentado carnal: quando algumas moças despiram blusas e sutiãs, exibindo seus bem talhados seios, ameaçando beijar e bombardeando o distinto pensador com uma chuva de flores, o ex-colega de Herbert Marcuse e patrocinador de Walter Benjamin juntara seus livros e agendas, esparramados sobre o púlpito e, protegendo o rosto com sua bolsa de couro, deixara o anfiteatro sob lágrimas.

Poster do SDS: "Todos falam sobre o tempo, nós não!"
(queriam dizer:"falamos na luta de classes")

Este é o relato póstumo de uma das moças que durante trinta e quatro anos mantiveram segredo de suas identidades, até que Hannah Weitemeier, uma delas, hoje respeitável marchand e senhora muito bem casada, admitiu em sua primeira entrevista sobre o incidente, que nem aluna de Adorno era, mas pau mandado do SDS, a federação de estudantes socialistas. Incidente do qual inicialmente se suspeitara, fosse o despertar do feminismo, ele foi execrado como “grande sacanagem com o venerável professor”, até pelas mais aguerridas mentoras do movimento – por acaso os provocadores do tumulto tinham se esquecido que Adorno era descendente de judeus, perseguido pelo nazismo?

No meio da confusão, tudo o que Hannes conseguira distinguir naquela fatídica manhã de 22 de abril de 1969, foram a calva e a pancinha proeminente do incensado pensador, que em entrevista aos meios de comunicação queixava-se da traição de seus estudantes, principalmente aquelas... “amazonas, loiras” – logo ele, o Catilina libertador dos grilhões do capitalismo e da libido reprimida!

E esse foi o primeiro contato esbanjando carnalidade, mas destituído de toda aura acadêmica, de Hannes com a lendária “Escola de Frankfurt”, cujas luzes naquela manhã piscavam como neon profano de um castelinho de striptease, anunciando, debochado, a “dialética do insuspeitado nu”.

O café com Adorno

O que Hannes não poderia imaginar é que, tivesse sido mais persistente, cativando os policiais com um pouco de charme latino, e se aproximado do laureado mestre, teria ganhado aquele dia duas vezes, registrando para a posteridade o insólito encontro com Adorno, e redescobrindo a pista de seu herói, do qual se tinha desgarrado.

Com sua auto-estima em baixa, tudo o que Adorno precisava naqueles momentos era um abraço que lhe brindasse afeto e não a rude luta de classes.  Kommen Sie – venha comigo! Sem pestanejar, o aplaudido professor o teria conduzido até sua sala no Instituto de Pesquisas Sociais, pedido à sua secretária que lhes servisse um café e, dando-se conta que tinha diante de si um admirador, sul-americano e simplório, ali mesmo teria derramado seu desabafo – essa esquerda, de classe média e boquirrota, é um porre, meu jovem! Quer dizer então que o sr. veio à Alemanha para “estudar cinema”? – Adorno o teria acuado na poltrona, mas para já emendar que, fazia uns doze anos, naquela sala entulhada até o teto de livros e manuscritos, fora padrinho de um ritual de iniciação que todo aspirante à sétima arte celebraria como intercessão divina, um delicado mimo dos anjos, porque apresentara seu amigo, Fritz Lang - IMDb – aquele mesmo, o diretor de Metropolis (1927) - IMDb - a um jovem doutorando, chamado Alexander Kluge. Doutorando em Direito, teria então ressaltado Adorno, que não pensava grande coisa do cinema, e por isso recomendara a Kluge que tratasse de construir uma sólida carreira de jurista, com direito a um provento idem. Aquela prosa de pai ou mentor, bem intencionado, que sabe muito bem: quando seu tutelado diz, “jawohl, Herr Professor!”, está mentindo, porque, atravessada a porta, sai à rua para fazer exatamente o contrário. E foi o que Kluge fez: sequer pendurou as chuteiras da jurisprudência, porque jamais chegou a usá-las, nem num escritório de advocacia, quanto mais num tribunal, e jogou-se de corpo e alma na arena do cinema – que os leões o estraçalhassem!

Sem saber que ele tinha mandado às favas o Direito, quinze anos mais tarde eu fiz o mesmo, traindo a família e chutando para o alto a carreira de geólogo. Com uma ligeira diferença: a frase imaginária arremessada ao universo por Kluge, assim, de bobeira, teve efeito demolidor; mas com a disciplina como causa, que eu não tive. Nela é possível enxergar uma dupla de trocadilhos. O primeiro emprego de Kluge foi como assistente de Fritz Lang, que em 1958 retornava à Alemanha após vinte e cinco anos de exílio, para filmar “O tigre de Eshnapur” e “O sepulcro indiano”. Contrariando todas as expectativas, o tigre dos estúdios em Berlim não o estraçalhara, mas lhe infundira imenso “tédio”, Kluge confessaria anos mais tarde; talvez porque Lang já fosse um tigre desdentado, sem a garra dos tempos da gloriosa UFA. O segundo trocadilho ocorre com a volta do leão à carreira do cineasta, que não era o leão da Metro e, sim, de Veneza, em cujos festivais Kluge tornara-se o matador, amansando várias estatuetas do felino, de prata e de ouro, com as quais, ao final dos anos 1970 sua carreira estava consolidada.

As camas art-déco


Contudo, nesta flexão da espiral de causos narrados com grande noção de responsabilidade cabe perguntar qual era, afinal, a missão de Hannes? Como ensaio de resposta, permito-me alertar minha querida editora, mulher a quem devo um balaio de oportunidades, a um incidente de percurso: feito Leopold Bloom tupiniquim durante sua labiríntica odisséia por Frankfurt, o personagem Hannes se esquece de perseguir Alexander Kluge, a cujos rastros se aferrara desde que, na Curitiba do final dos anos 1960, assistira aquele filme emblemático, “Despedida de ontem” (Yesterday Girl, 1967), protagonizado por Alexandra Kluge, irmã e xará do diretor, dublê de médica e atriz de ocasião, com aquela expressão de beleza desolada em seu rosto.




Alexandra Kluge

Diz Hannes que se esquecera de Kluge porque, cheio de curiosidade e dispersivo, fora abduzido para suas primeiras lições na arte da contemplação do belo, fora das telas: mulheres bonitas, porém assaz determinadas, cuja cartilha embruxada rezava que fazia mal à alma feminina dormir duas vezes com o mesmo homem. Sem dar-se conta Hannes deambulara por Frankfurt como personagem de um lerdo e brumoso sonho de noite de verão, sempre abandonando o Club Voltaire de madrugada como pupilo de um muito peculiar e solitário curso de iniciação artística, que consistia em decifrar os estilos de época das camas das suas amantes – jugendstil, art-déco, tatamis, colchões plebeus estirados no chão - quando estas desfaleciam nuas ao seu lado após se embebedarem com a Taça de Circe. Aquilo o confundira pra valer, mas era o Zeitgeist de suas educadoras.
Então, o inevitável conflito, não com as donas das camas, mas entre o personagem e seu autor: Hannes queria estender-se na descrição de sua luxúria, inventando pretextos que o redimissem do fracasso de sua missão já estabelecida no Brasil - encontrar Alexander Kluge a qualquer preço. Tudo muito constrangedor! Por isso interferi quando, subitamente, dei-me conta de que o relacionamento com Kluge e sua arte, antes de nada mais, pertencem a mim: até segunda ordem suspendi as inferências frívolas do personagem, e matutei se meu herói desrespeitado por Hannes não mereceria um livro à parte – eis a elipse com segundas intenções cochichada, quase inaudível, para minha querida editora (aqui advertida para a publicação, pela concorrência que não dorme em serviço, de “O quinto ato”, de Kluge).

Mas a crônica ainda não faz sentido – o que esses causos, todos, têm a ver com o título? O que eu precisava ter esclarecido é que a estória dentro desta estória começa em um final de tarde friorento, em Curitiba, quando Christo Dickoff me levou até a Cinematográfica Guaíra, ao pé de cujas salas localizadas num pavimento elevado de um sobradão, antigo, se descortinava a Praça Tiradentes, em sua babélica quadratura.

Mauro Alice



Eu trazia nas mãos um punhado de cartazes do Jovem Cinema Alemão que me tinham sido confiados pelo diretor do Instituto Goethe para divulgar uma mostra. Em nossos corações e mentes de cinéfilos, Godard, Truffaut e Resnais eram nomes e endereços devidamente assimilados como ícones da Nouvelle Vague. Mas Junger deutscher Film – o que era aquilo? Lembro-me do espanto ao soletrarmos nomes tão infreqüentes como Volker Schlöndorff, Jean-Marie Straub e um tal Alexander Kluge. E estudando-os com olhos lampejantes, Mauro Alice, aquele senhor elegante e montador da Vera Cruz, em férias na sua Curitiba natal, decolara para uma viagem na memória, pontificando sobre o Expressionismo Alemão, Fritz Langs e Caligaris, tudo para mim tão fantástico e intangível, que meus olhos não queriam desgrudar dos lábios do italiano.

Mauro não vacilou um instante: com uma velha Arriflex, 35 mm, montada sobre um tripé, desafiou-me para dividir com ele a “direção”. Na verdade, mero ensaio de “natureza morta”, umas pinceladas da câmera sobre uma superfície de papel, sem cenário vivo, ou atores para orientar - e estavam filmados os cartazes dos filmes alemães. Aquele fora um ato batismal: minha iniciação técnica no cinema. O que era um “close”, um “tilt”, um “contra-plongée”, um “travelling” foram noções que a partir daquela tarde reforcei com a leitura de um livrinho de “primeiros passos”, de Maurício Rittner, que eu teimava em decodificar a bordo do ônibus sacolejante, rumo à escola. Sim, eu não passava de um garoto.


Freqüentador assíduo dos “filmes de arte” do Colégio Santa Maria, o Cinema definitivamente me seduzira como promissão, embora em casa todos apostassem em meu futuro como geólogo da Petrobras. Por um fio fui desviado do chamamento, não fosse o movimento estudantil e a decisão do meu pai, assustado com a UNE, de me “tirar de circulação”. E embarcado num cargueiro de minérios, no porto de Vitória, fui circular na margem boreal do Atlântico.


A lata de negativo


Na bagagem eu trazia um talismã: o copião com os poucos metros de película 35 mm, que estampavam aqueles cartazes generosamente filmados e revelados por Mauro Alice. Deslumbrado por dois de seus filmes – “Despedida de ontem” e “Os artistas na cúpula do circo: perplexos” - eu me obstinara que algum dia presentearia aquela lata a Alexander Kluge como prova de minha devoção, mas também com a segunda intenção de cavar uma vaga em sua equipe de produção.


No fundo, quero dizer, na esfera do subconsciente, essa intenção era um pouco mais torta: eu precisava de um mestre, mas não tivera um pai presente; possivelmente estava à procura dos dois em um só.


Uma bela noite, em Kassel, fui ao cinema, e na sala de espera deparei-me com o cartaz de “Os artistas na cúpula do circo...” – aquilo seria uma piada? Como quem não quer nada me aproximei do gerente que afixava cartazes das próximas estréias e, comendo pelas bordas, perguntei se ele sabia onde morava o Kluge. E me lembro perfeitamente que não conseguia fechar minha boca quando o gerente disse, “olha, é fácil encontrá-lo, porque ele mora aqui, em Kassel!”. Ao despedir-me, dei meia volta e perguntei se ele tinha de sobra aquele pôster de “Os artistas...”. Mas claro, respondeu aquele homem gentil, e o presenteou-me.


Meu coração batia forte: o espectro do meu guru parecia ganhar corpo – seria o magnetismo da latinha de 35 mm? Invadido por uma alegria nunca antes sentida, jubilosa e devastadora, já me percebia estendendo cabos elétricos na próxima filmagem d “o cara”, mestre sonhado, mas intangível. Contudo, o sonho que na ante-sala do cinema prometera materializar-se foi bruscamente interrompido dias depois por minha mudança para Frankfurt. E nunca mais vi Alexander Kluge. Que não morava mais, ou jamais morara em Kassel, e que por ironia filmava um filme atrás do outro - em Frankfurt! Nosso encontro nunca aconteceu. Não em Frankfurt. Ocorreu por acaso, oito anos mais tarde, num pequeno cinema de Berlim, onde fui assistir ao lançamento de “A Patriota” (1978).


Terminada a projeção do filme e acendidas as luzes, havia uns setenta, talvez oitenta espectadores na platéia. E lá estava Kluge, à frente da tela, vestindo seu indefectível terno escuro, sempre de elegante corte, mas sem a gravata, com a qual dirigira seus primeiros filmes. Acho que com o passar dos anos passara a detestá-la, e então disse, rindo: “Bem vindos ao meu cineminha privado!” Queria dizer: eu faço mesmo filmes para meu clube do bolinha – um surto de falsa modéstia, porque a maioria de seus filmes, ou foram aplaudidos em cena aberta, ou ovacionados em pé pelo público em festivais internacionais.


O que é, e como narrar a História?


Em “A Patriota”, a ingênua, mas determinada professora de história, Gabi Teichert, investiga as raízes da História alemã. Alta madrugada, uma pá na mão, ela é flagrada pelo porteiro ao cavar buracos no jardim de seu prédio. Alertada ao estrago que está fazendo ela responde com a maior cara dura que “é preciso cavar fundo para descobrir a verdade histórica“. Obviamente, diante de tal disparate o porteiro entende que tem diante de si uma doida varrida, mas trinta anos depois, aquela metáfora e a imagem insólita diante da câmera continuam impregnadas em minha memória.




Na última cena do curta-metragem, “Amor cego” (2001), no qual Kluge entrevista Jean Luc Godard, após a estréia de seu longa, “Ode ao amor” (2001), o diretor suíço-francês diz: “A história jamais foi bem reproduzida pelo cinema, apenas de modo espetacular. Para isso, o cinema teria de ter se tornado adulto e ter se tornado maior, e agora está muito tarde, agora acabou”. Essa crença de Godard é romântica, e por incorporar excesso de páthos é falsa.

Com o passar dos anos, percebi que as personagens, Gabi Teichert e Leni

Peickert, que povoam alguns filmes do diretor nas décadas de 1980 e 1990, eram na verdade alter-egos do próprio Kluge. Este concebe a História real como vasta coletânea de estórias dispersas, e adaptou para sua técnica narrativa o modelo exitoso dos Irmãos Grimm, autores da frase emblemática, “mergulhamos na História alemã e descobrimos um monte de contos de fada”. Por isso os filmes de Alexander Kluge são colchas de retalho extravagantes, que se alimentam de cenas ficcionais, reportagens, figurinhas de gibi, fotos, recortes de jornal, cinejornais históricos, entrevistas e textos; recursos para ativar a própria capacidade do espectador em estabelecer nexos entre imagens vastamente disparatadas.


O resultado da aplicação dessa técnica está sintetizado numa frase do diretor no quinto capítulo de seu livro making-of sobre a produção do filme, “O Capital”, onde resume sua proposta bem-sucedida para uma “renovação radical do cinema”. Diz Kluge: “O cinema antigo rodava uma trama a partir de vários pontos de vista. O novo cinema, em oposição, monta um ponto de vista a partir de várias tramas”. Essa concepção remete a Sergei Eisenstein, que cunhou o conceito de “montagem de atrações”, segundo Kluge, “o grande circo - é isso o que o cinema sabe fazer”.


Quinze anos após sua estréia no cinema com filmes de narrativa convencional, ali Kluge iniciava seu projeto da gradual desconstrução do discurso cinematográfico antigo com a firme intenção de re-educar parcelas do público cinéfilo, mas sem a petulância que adere ao verbo, o que fez com muita criatividade e bom humor. Digamos que ali Kluge estreava sua cruzada estética contra a síndrome da cegueira diagnosticada vinte anos mais tarde por José Saramago em seu romance, com uma furiosa metáfora noir.  Para acirrar ainda mais essa metáfora percebida por artistas e gêneros tão dissimiles, mundo afora, em “O ataque do presente contra o resto do tempo” (1985), Alexander Kluge nos conta a estória de um diretor de cinema, cego, que durante uma filmagem obstinada roda seu mais belo filme. “O presente se enfatua. Mas sem a história pregressa e o futuro, sobretudo sob forma de oportunidade, não existe realidade – este é o ataque do presente contra o resto do tempo”, adverte Kluge na sinopse.


Spanner, o espião voyeur

Uma das estorinhas de “A Patriota” é a do personagem hilário, “Spanner” (“o tenso”), agente dos serviços de inteligência infiltrado nas multidões para espionar “atos potencialmente subversivos”. Ocorre que, à noite, Spanner atua como voyeur, bisbilhotando janelas de apartamentos à procura de mulheres nuas. Tranquila, ao invés de condenar suas práticas perversas, a heroína Gabi Teichert empresta seus ouvidos às confissões do dedo-duro. Ele lhe conta que seu grande problema é sua incapacidade de relaxar, descontrair-se. E, exatamente porque não conseguia relaxar, infelizmente, não conseguia extrair prazer do voyeurismo enquanto observava mulheres com a mesma tensão adotada durante suas missões policiais.


Hannelore Hoger em A Patriota

Qual é a graça desse personagem? Numa leitura alegórica, “tenso” é o apelido de todos nós, espectadores de cinema, que não conseguimos relaxar diante da tela e permitindo que aluviões de imagens e sons arrebentem sobre nossos sentidos, anestesiando-os. Por isso, a perspicaz Gabi Teichert sugere ao agente, dublê de voyeur, um sutil exercício de relaxamento, que consiste em certo número de piscadelas, de pestanejos, ora breves, ora mais demorados – exercício que corresponde exatamente ao processo de montagem de Kluge, quando insere espaços em preto e branco entre as cenas coloridas de um filme, por átimos rompendo a continuidade e, com a rápida brecha criada, convida o espectador para ali enxertar sua própria imaginação, que pode ser outra imagem, ou a retomada do roteiro por outras calendas.

”Somos nossa memória, esse quimérico museu de formas inconstantes, esse montão de espelhos rotos”, dizia Montaigne.

Garrafas ao mar


Não me lembro exatamente sobre o que Kluge e eu conversamos após aquela projeção. Recordo obviamente de seus modos educados, da “técnica socrática” de perguntar, curiosa e atenta ao que seu interlocutor tem para lhe contar, com personalidade aberta a tudo, ao mesmo tempo humilde e comedido, com intervenções sempre terminadas com seu imperecível “ja?” – um “não é?”, respeitoso, que pede licença para a aceitação de suas opiniões.


Estas são minhas recordações daquele encontro, mas na boca um desagradável sabor a culpa e um buraco negro em meu coração – onde estava a maldita lata com o copião, que eu não conseguira mais encontrar?


Mas então aquele telefonema - ninguém vai acreditar!


Era um sábado pela manhã, acho que foi em 2005. Alexander Kluge ligou para meu celular enquanto eu flanava pela feira do Alto da Glória, em Curitiba, o nariz enfiado, ora no meio de couves-flores, ora em pastas de berinjela... Ninguém vai acreditar, mas minha namorada de então foi minha incorruptível testemunha – Kluge ligou, sim. Ligou para lamentar que não poderia colocar no ar um filme de minha autoria (se bem recordo, era sobre a morte do marinheiro, Wilmer, nos Andes), porque, por meses, seu programa estava tomado por discussões sobre óperas, no qual o debochado e terno Heiner Müller foi um de seus entrevistados. Explicando: naqueles dias, Kluge era dono de seu muito particular canal de televisão, Dctp, sediado em Düsseldorf, de onde, como dizia, “envio mensagens em garrafas”. Frase que novamente evocou o paradeiro da lata com o copião...


À moda dos produtores tupiniquins, petulantes e soberbos, Kluge poderia sobejamente ter ignorado minha oferta, mas ligou-me num sábado pela manhã, e para o celular – não apenas o grande iluminista, mas um doce de pessoa!




12 fevereiro 2015

Frederico Füllgraf - Oskar Huth, el falsario de Berlín - Una crónica de Año Nuevo


Con mi agradecimiento a Louis Casado por la revisión del Español.



Nota de Louis Casado en POLITIKA CHILE, 6 de enero 2015:                     
Ya lo hemos dicho, POLITIKA tiene el privilegio de contar con colaboradores de buena pluma. Frederico Füllgraf es uno de ellos. El texto que presentamos aquí, con el subtítulo "Una crónica de año nuevo", es notable. Notable por el personaje descrito, por la calidad de la escritura, por las referencias musicales, literarias y lingüísticas, por el tono, por la justicia que le rinde a un perdulario heroico que, en medio de la guerra, jugó a salvar vidas, olvidando la suya...


Los poetas mueren de sobredosis: de versos, droga o locura; en casos extremos, de hambre o de un tiro de revólver del marido de la amante.

Ya Oskar Huth, el ebrio virtuoso, patinó sobre una partitura y se cayó en un foso, entre una clave y un si-bemol. En vida fue lo que los berlineses llaman un
Original: viajado, erudito, amante de la buena tertulia, y, sobre todo, vagabundo; subentendido no como una transgresión criminal, sino un atributo de persona, digamos, algo adversa al trabajo.

Bohemio, Huth era una especie de Baudelaire prusiano. Llevaba en sus venas el mapa de avenidas y alamedas, de las columnas y de las estatuas, de los arcos y viaductos y, sobre todo, de los Kneipen, los bares y botiquínes.

No andaba, parecía deslizarse sobre la ciudad, con los ojos cerrados.

Lo conocí cuando ya bordeaba los sesenta años de edad. Una noche Irrumpió en el bar Litfass, del también nostálgico portugués Antonio, trajeado de modo incombinable, chillona corbata color naranja sobre una camisa de color verde, desaliño acentuado por la chaqueta violeta, desgastada por el uso.

Le gustaba espolvorear mala educación, moda anti-autoritaria de la época, con implacable protocolo, pero sin soberbia: no se resistía al hábito de saludar a las damas, besándoles las manos – actitud extemporánea, que en ellas rescataba al despreciado (pero, ¡Ay!, tan deseado) Caballero a la moda antigua – reforzando la colorida, etílica y divertida decadencia de la entonces ciudad intramuros.

Contumaz, en este mismo tono fin-de-siglo (del XIX, porque estábamos en 1980), a pesar de mi irritación, Oskar me saludaba como “mein Freund vom Oberen Orinoco” (mi amigo del alto Orinoco), rudo equívoco territorial que recordaba aquella ignorancia geográfica de las películas de serie B de Hollywood, en los que chiquitas-bananas bailaban rumba en Coupakébéna...

¿Carmen Miranda? – ¡Oh, nein, gringos jamás!

En aquel chispeante momento bolivariano Herr Huth reincorporaba la odisea del noble Humboldt a las “regiones equinocciales del nuevo continente”.

Con todo, su embrujo no brotaba sólo de sus modos educados, fuera de orden, sino de su aura de alemán marginal, cuyo coraje era cuchicheado en prosa y en verso, en aquellos tiempos (fuera de Ché Guevara ) tan carentes de héroes.

Cuando, inspirado, se ponía al sebiento piano de teclas amarillentas por el humo de los cigarros de muchos años, parecía una réplica perfecta del “El Borracho”, vinilo muy tocado en las fiestas de mi país, en mi infancia, ilustrado en la carátula con un pianista ebrio junto a un piano ídem. Del cual Oskar conseguía arrancar armonías oblicuas para asombro de la platea: solemnes fugas de Bach, aquellos estertores de Billie Holiday (“He is my maaaan…”), una lacrimosa chanson de la Piaf.

En estos concerti buffi jamás faltaba una rubia cuasi fatal, derramada sobre el piano, como un falsete de Greta Garbo trazando con los ojos John Gilbert al piano, en Flesh and the Devil.

Aposté que un día se adentraría en el bar en medio de una depresión astral y – de staccato a furioso – atacaría algo de Hindemith; sólo para contrariar.

El “borracho con arte”

Pero Oskar era movido por un inquebrantable buen humor. Cuando llegaba recién despierto, con profundas ojeras oscuras, despeinado y con barba de tres días, se disculpaba con deferencia, recuperando en el cielo de plomo los tormentos de la noche anterior : “me pasé de la cuenta, Brüderchen (“hermanito”), me bebí el río entero, me encharqué hasta el alma”, alegoría emprestada del Spree, río que corría de este a oeste, por debajo del Muro, imperturbable ante la división de la ciudad. Y saber beber para Huth era un arte, que por eso se definía como Kunsttrinker, un “borracho con arte”.

Antes de mi regreso a Brasil teníamos acordada una entrevista para un semanario brasileño, que tendría lugar en la gavia del Obelisco de la Victoria (victoria sobre Francia, en 1870), una columna bismarckiana que culminaba en un gigantesco y brillante ángel dorado, que Wim Wenders llevó a la historia del cine como ícono de “Las alas del deseo”.

Indisciplinado, alemán al revés, Herr Huth no llegó. Me dejó baboseando por la narrativa hasta el próximo encuentro - en el bar. Ciertamente porque el ángel no servía bebidas, sólo unos excelsos, insípidos hálitos, sin alcohol, sobre el arte de elevarse a las alturas; esas bizantinidades aleteantes de querubines y aeronautas.

Hijo de músico, acompañaba al padre a bordo de una carreta, desde la más tierna edad en misión profesional. Viajaban por Berlín y la provincia de Brandenburgo, reparando y afinando órganos de iglesias, devolviéndole la alegría a padres y pastores, recibiendo a cambio su pro-labore y la promesa de una vida eterna.

Fue así que la música entró en el paso terrenal de Oskar, quién sabía como pocos que la eternidad, pues, ¡se arrebata en el instante!


El falsario eternizado por la Literatura

Lo que haría su biografía digna de un largo metraje fue la 2ª guerra mundial, que silenció sus Lieder, sustituyéndolos por el silbido tenebroso de los bazucas, tanques y bombarderos, cubriendo el cielo sobre Berlín.

Periodistas y escritores alemanes ya compararon su aventura y sus modales a la de “El valeroso soldado Švejk”, es decir: hacerse el tonto, idiota, como táctica astuta para la sobrevivencia.

Huth venia estudiando artes plásticas y técnicas de impresión en Berlín, entre 1936 y 1939, cuando explotó la II Guerra Mundial y el debería presentarse para el frente de batalla. Pero burló al alistamiento militar con el pretexto de “disturbios motores” y se escapó.

Era el año 1941, cuando más y más amigos judíos de Oskar eran apresados y deportados para campos de concentración y el pintor bohemio decidió desaparecer, ingresando a la clandestinidad, en la que sobrevivió con astucia hasta el final de la guerra, en 1945.

Equipado con una imprenta, alegaba producir importantes documentos de guerra, pero en realidad imprimía documentos sí importantes para la sobrevivencia de clandestinos: carnés de identidad, pasaportes, bónus alimentarios – todo falsificado gracias a su perícia como artista plástico y diseñador.

No trabajaba por dinero apenas, se desempeñaba como activista dedicado a judíos perseguidos y combatientes de la resistencia anti-hitlerista. Para evitar preguntas inoportunas y controlos en el metro y trenes de Berlín, el falsario los evitaba, preferiendo entregar su “mercancia en domicilio”, lo que hacía sacrificándose y caminando interminables horas, a veces en círculos, a través de la capital del Reich.

Su “cliente” quizás el más celebre de todos fue el general Ludwig von Hammerstein, que había participado del fracasado atentado del 20 de julio 1944 contra Hitler, y que por eso vivía clandestino en la residencia de la farmaceutica Hertha Kerp, en Oranienstraße 33. Alli Oskar Huth y el general demócrata compartieron algunos días como enemigos cazados por la Gestapo de Hitler. Cuando Huth le ofreció algunos de sus bónus alimentarios, que permitían comprar comida racionada, el militar no las quizo acceptar, pero al final el impostor lo convenció, diciendo, "tómelos tranquilo, yo mismo los fabriqué”, a lo que se siguió tremenda carcajada – así se lee en “Hammerstein o el tesón” (Anagrama, 2012), la biografía fictícia del poeta Hans Magnus Enzensberger sobre el padre del general Ludwig, Kurt von Hammerstein, ex Jefe del Ejército Alemán, anti-fascista como su hijo.

Uno que siempre estuvo fascinado por su historia fue el Premio Nobel, Günter Grass, que finalmente lo inmortalizó en su novela “Años de Perro” (reeditada por Alfaguara en 2013), la monumental disecación del nazismo por el autor-personaje.

Oskar Huth sobrevivió a los seis años de guerra como falsario, emergiendo de su bunker el día de la conquista de Berlín por las fuerzas aliadas. Interrogado por norteamericanos, les habría recomendado una “receta” para su país en ruinas: ¡divídanlo en cuarenta partes y nunca más habrá guerra!

Los yanquis se miraron, rieron abrumados y prometieron pensar en la propuesta: en 1948 Alemania estaba dividida en dos y Berlín “en cuatro patas”, digo: dividida en cuatro “zonas” de dominio militar – geografía e historia, hoy superadas – pero de autoría reivindicada por Oskar, que reía, mañoso, ajustándose la corbata torcida, insinuando solemnidad. Se divertía con el pasmo de los cristianos ante sus fanfarronerías y apostaba a su perpetuación como mito.

El teclado aerodinámico

E intentando arrancar de la música el inmortal Oskar, el Airoso, tramó un invento inmejorable, primoroso: un piano con “teclado aerodinámico”.

Revolucionario porque profundamente ergonómico, su concepto se basaba en la observación de que, durante un concierto de una duración media de noventa minutos, un pianista aplica varios centenares de kilos de fuerza en el teclado.

El recital fue una apoteosis, ¡aunque el pianista estaba hecho mierda! – Protestaba, el cabello despeinado.

Sustituyendo el teclado convencional, fijo, por otro, acostado sobre un colchón de aire, el espirituoso borracho pretendía imprimirle la “sostenible levedad del toque” al arte de conducir el piano.

Patentó su idea, y una confraternidad de amigos creó el “Fondo Oskar Huth”, dotado de 10 mil marcos, destinado al desarrollo tecnológico de la creativa artimaña. Había, no obstante, una condición: ningún centavo del fondo debía ser malversado, ni usado para fines que no fuesen “estrictamente pianísticos”

Crónica ebria, anunciada hace mucho tiempo, la subversión del teclado murió en la cáscara, digo: en el trago.

Mal interpretando la clausula del contrato, Oskar confundió fondos con fondo de botella: cierta noche buceó en el lecho abisal de una botella de caña y de allí nunca volvió. Se inmortalizó en el arte de la fuga…

Publicado originalmente em: http://www.politika.cl/2015/01/04/una-cronica-de-ano-nuevo/