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30 dezembro 2023

Frederico Füllgraf - A história perversa do biquini

Mosaico Dieci Ragazze, Villa Romana del Casale, Sicília - séc. III DC


Ensaio

Um ano depois do silêncio das armas da II Guerra Mundial, Louis Reard, estilista francês, teve o que a infiltração anglicizante do nosso vernáculo chama de insight: lançaria uma peça de vestuário de encher os olhos com as prendas do corpo feminino: curvas, saliências, altiplanos e vales, preservando, s´il vous plais!, as fagueiras e vaporosas vergonhas venusinas. 

Discreto, passou madrugadas em vigília, desenhando maquetes de seu invento revolucionário, mas sentiu que lhe faltava um nome forte com apelo exótico. Eis que, em julho de 1946, faltando quatro dias para o lançamento da nova criação, explodem as bombas atômicas “Baker” e “Abel” no Atol de Bikini, centro do Pacífico Sul, e de bandeja os EUA oferecem a Reard o nome que rasgaria a boca do balão, do jeito que as bombas tinham rasgado ao meio o atol – la mode du terreur!

A aventura nuclear de Antony Guarisco

Deparei-me com esta estória intrigante anos atrás, durante a pesquisa para o roteiro do telefilme Burning Sand, para o qual tinha entrevistado em Nova York, Antony Guarisco, marine norte-americano durante os testesa nucleares no Pacífico, que em 1987 liderava o movimento nacional dos Atomic Veterans. 

Desde a década dos anos 70, estes soldados reclamavam reparações dos sucessivos governos em Washington - reparações pela morte de aprox. 200 mil veteranos que participaram dos testes nucleares entre as décadas de 1940 e 1960, porque tinham sido enganados pelas autoridades, forçados a assinar “salvo-condutos”, cheques em branco, isentando o Pentágono de “todas e quaisquer responsabilidades por eventuais danos à saúde”. A malícia infernal já estava subentendida na própria declaração, mas os rapazes assinaram; alguns por patriotismo, outros por ingenuidade, outros ainda por esdruxularias equivalentes.
42 mil marines norte-americanos usados e irradiados como ratos de laboratório
durante os testes no Pacífico
A sound of frying eggs was in the air and for minutes I could see my own 
bones trough the flesh of my hands.. – um som de ovos fritos crispava o ar 
e por minutos pude ver meus próprios ossos através da carne da minha mão …” 

 
Campanha por reparações: Antony Guarisco diante 
da Corte Internacional de Justiça, Haia.

Quando conheci Guarisco, ele já se arrastava pelos corredores do hotel apoiado numa bengala, os ossos triturados pela doença terminal que matara a maioria de seus camaradas. Impossível esquecer sua frase dirigida para a câmera, com seu testemunho sobre a explosão da bomba Baker, no atol de Bikini: “A sound of frying eggs was in the air and for minutes I could see my own bones trough the flesh of my hands.. – um som de ovos fritos crispava o ar e por minutos pude ver meus próprios ossos através da carne da minha mão …”. 

Um dos navios que se vê ao largo, literalmente foi aos ares, por segundos suspenso no céu, devido à onda de pressão da explosão da bomba, detonada 30 m abaixo da superfície da água.

A cena de terror fora vivida por Guarisco e seus companheiros numa praia do Atol de Bikini, sem proteção física alguma contra o “grande raio-X”, o eclipse da luz e das trevas. O objetivo da missão era “testar as condições de combate da tropa após um ataque nuclear soviético" (sic!)

Ficção? História, e das escalafriantes! 

Nunca mais vi Guarisco. Há poucos anos liguei para sua esposa e soube que ele tinha morrido de leucemia.

Revisionismo atômico

O filme, com financiamento inicial do Film Office Hamburg e roteiro premiado pela finada Embrafilme, baseado em meu livro A bomba pacífica (Brasiliense, 1988), há anos aguarda conclusão, porque a Fundação do Cinema Brasileiro pagou apenas a primeira parcela do contrato e literalmente afundou em 1989. Depois, a Guerra Fria deixava de ser fashion, as usinas nucleares e seus gêmeos siameses, as bombas, também atômicas, caíram em desuso em escala global, e a estória do filme mofa no limbo. Mas talvez o projeto seja salvo pelo gongo da História. Mas, o que interessa aqui, é a "sacada" de Louis Reard.

Relação macabra

Nos anos 1950, a relação macabra entre a fonte inspiradora e o trapinho homônimo – a bomba e o biquíni – repercutiu desfavoravelmente para Reard. Mas argumentando pela tangente, ele afirmou que havia emprestado o nome do sumário traje de banho ao atol, e não à bomba. A verdade é que ele tirou enorme vantagem dos testes com a arma terminal, cuja devastação parecia pescar no inconsciente coletivo fantasias associadas ao imperativo histórico de uma urgente devastação da moral vitoriana. Com a reprodução em algodão, de fac-símiles da cobertura de imprensa sobre os testes nucleares, Reard promoveu um marketing literalmente bombástico.

 
 
Acima, à direita, Louis Reard; à esquerda, Brigittte Bardot;
embaixo, fio dental: a deserotização pelo escancaramento

Mas o inventor do biquíni necessitava de um trunfo adicional, pois outro francês, Jacques Heim, havia chegado às passarelas com uma criação semelhante – a do maiô partido em dois, assumidamente batizado de “L’atome”. Reard contra-atacou, promovendo seu biquíni como “o traje menor que o mundialmente menor dos trajes”, e ganhou a guerra dos nomes e das torcidas. 

Se Reard conhecia o mosaico Villa Romana del Casale, apropriou-se da fonte de inspiração sem jamais revelá-la, porque o biquíni de fato não foi sua invenção: o traje já era usado pelas moças sicilianas no séc. III DC.



Economia e libido

Contudo, garimpadas nas lixeiras da História as segundas intenções, eis que uma insólita explicação econômica parece varrer todo o encanto, substituindo nossas fantasias por fatos da fria economia. 

O pano de fundo histórico do biquíni, que aqui funciona como perfeito trocadilho, foi a falta de pano para a confecção de fundilhos. 

Em 1943, em plena II Guerra Mundial, o governo norte-americano obrigou a indústria têxtil ao racionamento de matérias-primas, provocando a redução de 10 por cento de algodão na confecção de trajes de banho femininos. 

O resultado desta operação militar foi uma espécie de “ventre livre” patriótico para o corpo feminino, e foi Reard quem lhe daria a forma no Velho Continente. Sua inovação mercadológica consistiu em reduzir o traje para 30 polegadas de malha, desmembradas em bustier top e um triângulo invertido, down, conectados por um cordão. O biquíni de Reard era tão sumário para a moral da época, que nenhuma modelo parisiense ousou subir à passarela.

Nos EUA, certa “Liga pela Decência” pressionou os produtores de Hollywood para banir o biquíni das telas. Porta-vozes da cruzada vitoriana questionaram a reputação das moças convertidas à moda, afirmando que “o biquíni revela tudo no corpo de uma mulher, menos o nome da mãe dela “. Como eram amáveis as madames 

Impávido, Reard manteve a classe e a ousadia a serviço do marketing, contratando Micheline Bernardini, em cuja cabeça e corpo o biquíni caiu como uma luva, pois atuava como dançarina de nus no Cassino de Paris: após uma sessão de fotos dela em poses reclinantes, a imprensa ajoelhou-se diante dela, embasbacada, e a musa foi soterrada sob uma avalanche de 50 mil cartas de fãs ensandecida/os.

Mas la Bernardini não foi capaz de impor a capitulação aos vitorianos EUA. Desesperado, melhor: de olho grande no mercado yankee, Reard incorporou a carta do eremita do tarô, e teve seu segundo insight: uma femme fatale mal conhecida por “BB”- a estreante Brigitte Bardot. 

Deslocou para o campo de batalha sua mal disfarçada inocência de "E Deus fez a mulher", acentuada pelo trapinho, et voilá! 

O biquíni precisava de curvas para ser valorizado, e BB impôs a queda das últimas barricadas norte-americanas. Entrava em cena em Hollywood o vitorioso trapo que matava a cobra e escondia o… principal. 

Das passarelas para a tela e o vinil, foi um passo. O biquíni foi cantado em prosa e verso, imortalizado no rock de Brian Hyland, do final dos anos 50, “Itsy-Bitsy-Teenie-Weenie/Yellow-Polka-Dot Bikini”.

A empresa de Reard conseguiu manter-se no mercado até 1988. Uma versão sobre os motivos de seu fechamento insinua que Reard perdera a guerra pela miniaturização para o fio-dental brasileiro; aberração, vingança dos inventivos trópicos e golpe fatal nos planos do estilista.

Cinqüenta anos depois é oportuno indagar se a vinculação proposital do maiô partido em dois com a arma de extermínio em massa, não abriga códigos de significados convergentes. 

O primeiro deles é a “onda Shumpeteriana”: em conjunturas de abertura democrática e crescimento econômico, a moda (e a libido) abre-se, liberando o corpo do “supérfluo” (no inconsciente coletivo pós-guerra, masculino, era enorme a demanda pela “abertura do pano” sobre o corpo feminino). 

O segundo, é seu significante profundamente pós-moderno: a visão de Reard é a alegoria do êxtase ilimitado, cujo pêndulo sempre oscila entre Eros e Tanatos, entre o prazer e a morte – o signo marcante de toda a cultura iconográfica e moda militarizadas e ferozmente midiatizadas neste início de Terceiro Milênio.

Por fim, uma pitada de pimenta tupiniquim: as bombas atômicas norte-americanas lançadas sobre o paradisíaco atol de Polinésia – imortalizado nos quadros de Paul Gauguin – foram construídas, durante e depois da 2ª Guerra Mundial, com matéria-prima brasileira: milhões de toneladas de areia monazítica, contendo urânio e tório, das praias de Guarapari, no Espírito Santo, Mãe Ubá e outros costões do sul nordestino. Quem aguardar o filme, verá.

 
(Ilustrações: Bikini Atoll.com; Villa Romana del Casale)
Recomendado:
BIKINIS AND BOMBS A Senior Project Exhibition, 
The Library Art Gallery at the Florida Gulf Coast University

02 agosto 2014

Frederico Füllgraf - Agosto en 長崎市 Nagasaki




Español


Todos los años el recuerdo me persigue. Seis de agosto: la bomba de uranio barre del mapa a Hiroshima. Nueve de agosto: la bomba de plutonio oblitera a Nagasaki.

Anos atrás, en el més de julio, en un café de Curitiba, sur de Brasil, la portada de un diaro acuñaba la notícia de que Charles W. Sweeney había dado su último suspiro.

Chuck Sweeney, como era más conocido, fue el comandante del escuadrón norte-americano que en 9 agosto de 1945 - tres dias después de la explosión de la bomba “Little boy” sobre Hiroshima – había detonado la bomba “Fat man” sobre Nagasaki.

Una frase memorable del aviador me llamó la atención: “Cualquier vida es preciosa. Pero no senti ningún remordimiento o culpa por haber bombardeado a la ciudad en la que me encontraba” (“Every life is precious. But I felt no remorse or guilt that I had bombed the city where I stood.'') - dijo Sweeney cuando pisó por primeira vez al suelo de Nagasaki devastada.


Entonces sumergí en el tunel del tiempo. Primero, en mís recuerdos imborrables de agosto del 1986, alto verano en Hiroshima y Nagasaki.

Era la hora del almuerzo de un sábado esplendoroso, cuando pusimos los piés en el restaurant con deslumbrante vista panorámica sobre el inmenso Mar de China, con el Profesor Ichiro Moritaki – físico teórico, filósofo y mi anfitrión del movimiento pacifista Gensuikin.


Despúes de Toquio, muchas centenas de quilómetros rodados a bordo del tren-bala, mi doble misión de guionista, que recolectaba imágenes de archivo, y conferencista, alcanzaba a su final en la gran isla de Kyushu.


Como único latinoamericano invitado a las jornadas anuales por la paz y el desarme nuclear, para los atónitos japoneses diserté sobre asuntos tan adventícios como los físicos de Hitler, que secretamente construyeron las primeiras ultracentrifugadoras de uranio para el gobierno Getúlio Vargas en Brasil – un espectro de la narrativa de ciencia-ficción, que contrastó con la alelada imágen de los miserables colectadores de basura en Goiânia que, al encontrar un aparato radioterápico desactivado, cuyo núcleo emitía una instigante radiación azul, exultaron como milionários cazadores de safiras, para todo el siempre emancipados de su penúria, pero que igual murieron insalvables como las primeras víctimas de radiación nuclear del continente latinoamericano.

Entonces, alli sobre un promontorio de Nagasaki, con gestos ensayados de etiqueta oriental, el protocolo pedia que tomáramos asiento y probáramos de las iguarías que nos aguardaban a la mesa.


Mis sentidos todavía continuaban embotados, intentando metabolizar la visita al inferno de Hiroshima, que quedara atrás – hoy día, un infierno virtual, reproducido en un museo, pero con algunas ruínas originárias, de las que la imaginación absorbe olor acre de humo, fierro fundido y piel derretida. Los visitantes más sensibles suelen escuhar gritos, aullidos y el llanto de niños desesesperados.

Ichiro Moritaki me observaba con una sonrisa paciente, tal vez intuyendo mí travesía del túnel del tiempo, mientras contemplaba lo que un día fue el Bajo de Nagasaki.


Mañana primaveril del 6 de agosto de 1945, partida al medio por el hilo más claro de luz que de mil soles simultáneos. Un sol encendido por Paul Tibbets, piloto del “Enola Gay”. Onda de presión, edifícios tambaleantes, chafarices de fuego, y del cielo cae una lluvia negra de gotas gosmentas, ácidas - noventa mil muerrtos instantáneos, un tercio de la población!

Entre los cuerpos humeantes arrastranse harrapos humanos, sobrevivientes más muertos que vivos. Una imágen de singular terror es la de la ropa, impresa a fierro, tatuada con fuego, e impregnada de urânio sobre la sedosa piel del torso de una joven mujer.



Sobreviviente casual de ese holocausto, que en aquel 6 de agosto explicaba a sus alumnos la Ley de Newton, Moritaki intenta en vano retomar el hilo conductor de nuestra conversa interrumpida en Hiroshima, sobre Kyudu, el “arte caballeresco del Arquero Zen”, haciendo chispear la mirada del único ojo que la bomba atómica le dejó, quando la onda de presión aplastó el edifício de la escuela.

Yo le había hablado de la crónica de un profesor que va a enseñar literatura alemana en el Japón, y que necesita de largos y penosos ejercícios para aprender que, solamente la actitud del desapego, el abandono de la obsesión por acertar el blanco, conducirá, figurativamente dicho, sus flechas al blanco predestinado: su propio corazón.


Mientras Moritaki hablaba de los arqueros, mi imaginación deseñaba samurays caminando sobre el mar, apuntando sus arcos contra las fortalezas voladoras B-29, que se aproximan de la costa japonesa.

El viejo professor, con abundante y encanecida cabellera, no se contuvo, intentando agradar. Con desmedida ternura derramada en su ojo mareado, abrió una larga sonrisa que desnudó el gran número de prótesis dentárias doradas y, a quema-ropa, se adelantó hospitalario: - Mantenemos una pagoda Zen con algunos amigos intelectuales y monjes, cerca de Hiroshima. Cuando quiera, venga, que ya tiene su mestre!


Gratificado, disimulé mí conmoción, desviando la mirada del rostro plácido del profesor - ahora un Buda incorporado - para la vastidud del Mar de China, cuya belleza y paz querían hacerme olvidar por que me encontraba en Nagasaki.

Entonces alguien pronuncia la palabra “batera” - un lusitanismo en Nagasaki?
¡Si pués! Por esta isla infiltraronse cultura y religión chinas en el Japón, pero sus fundadores fueron navegadores portugueses, en 1571 – adviertenme.

Mientras, los mozos van sirviendo Mentaiko – ovas de pescado con generosa dosis de pimientos – y Champon, un exótico plato de pastas, frutos del mar y vegetales, todo cocido en la misma olla.

Recogí la mirada del horizonte y focalicé el Bajo a mis piés, que por sua ubicación, clima tropical, olores y escalinatas para la ciudad-alta, tejía asociaciones con Salvador de Bahía.

Percibí entonces que debería haber dos miradas sobre Nagasaki: una de abajo para arriba, y otra, al revés – la primera, la mirada de los extinguidos, la segunda, la mirada de los exterminadores. Alli, a menos de mil metros de distancia, estaba el marco cero - epicentro de lo que algún dia fue el movido Bajo de Nagasaki, ahora envuelto por inmenso vacío territorial, como espécie de monumento virtual, hecho de ruínas y viento, para recordar aquel 9 de agosto de 1945.

Sin pedir permiso, de la memória saltó la imágen del Angelus Novus – aquel ángel cubista de Paul Klee, que inspiró Benjamin a escribir su aterrorizante “El Concepto de Historia”.

El ángel me abrazó y despegamos del suelo. Muerto de miedo, grité, pero fingiendose de sordo, el ángel ganó a las alturas. Alli el foco se amplificó en grande angular y el paisaje se descortinó. En esa perspectiva, decía Benjamin, la Historia se insinúa apenas como amontonado de ruínas humeantes.

Después, cerré los olhos e me sentí aterrizar imperceptiblemente en la silla al lado del profesor, que ya saboreaba su postre portugués.

Sin embargo, fue durante el demorado vuelo del retorno a Brasil, por territórios celestes sobre el vasto Pacifico, que volvi al tunel del tempo, ahora con la mirada invertida, de arriba para abajo.


Entonces leí que en la madrugada de aquel 9 de agosto de ´45, en una base militar americana del Pacífico, una centúria de hombres participó del último briefing, examinando blancos en los mapas, haciendo apuntes y recibiendo la bendición del capelán con una oración monocordia y burocrática.

Con sus instrumentos de navegación apuntados al Mar de China, una escuadra alzó vuelo a las 3h50 de la mañana.


Volando por el noroeste al império del naciente, vários aviones avanzaron por cielo nublado, en cuyas grietas negras se veía algunas pocas estrellas.


A bordo del “Bock’s Car”, el bombardero que comandaba a el operativo, William L. Laurence, articulista de ciencias del New York Times, miró a “Fat Man”, la bomba, y apuntó en su agenda: “Es una cosa bonita de mirarse, este regalo!” (textualmente gadget, en el original).

Eran palabras de un reportero tonto y patriotero, demasiadamente jóven como todos los tripulantes de la misión genocida. Su comandante, Cap. Frederick C. Bock, tiene 27; el bombardero y 1er Ten. Charles Levy, mal completó 26; el piloto y Ten. 2do, Hugh C. Fergus, tiene solamente 21, y el navegador y Ten. 2do. Leonard A. Godfrey, no más que 24 años de edad. El comando de la misión pertenece al Mayor Charles W. Sweeney, de apenas 25 años.


A las 5 de la mañana, la luz penetró por algunas grietas de nubes.

Laurence recuerda que todavia faltan cuatro horas para el encuentro pactado entre los tres aviones bajo el cielo de Isla Yakoshima, a suroeste de Kyushu. El saca su lápis de la chaqueta de cuero y anota: “En algún lugar, a los piés de las vastas montañas de blancas nubes, está Japón, nuestro inimigo. Dentro de cuatro horas, una de sus ciudades, que fabrica armas para atacarnos, será barrida del mapa por el arma más poderoso hecho por el hombre. En un décimo de milésimo de segundo - una fracción de tiempo incomensurable por un reloj - una tempestad bajará de los cielos y pulverizará miles de edifícios y decenares de miles de sus habitantes”.

En las cabinas de los B-29, los minutos corrían con desprendimiento, bromas y muchos chistes. Cerca de la hora coincidida, el “Bock’s Car” comenzó a describir círculos en el cielo. Después, juntos, los tres aviones sobrevuelaron la costa, escudriñando a su blanco. “Los vientos del destino parecen favorecer ciertas ciudades japonesas, cuyos nomes deben permanecer en secreto...” - divagaba Laurence sobre el aleatorio, y fulminó: “Sentir alguna pena o compasión por los pobres diablos destinados a morirse? No, si recordamos Pearl Harbor y la muerte en Battan!”.

Eran las 11h01 cuando las nubes se disiparon y la escuadra ganó el cielo de una gran ciudad portuaria. Los chicos a bordo de los trés B-29 ya no tenían dudas: “El destino eligió a Nagasaki como el último de los blancos...”.

Acto seguido, sintonizaron una señal de rádio acordada y vistieron sus anteojos de protección ARC. Eran las 11h02, cuando el atirador ordenó: "There she goes!" - y las entrañas del B-29 “Artiste” dieron a la luz a una criatura metálica, negra y blindada, bajando velozmente sobre Nagasaki.

Segundos después, un tenebroso flash de luz blanca sumergió el cielo y por instantes cegó a los americanos dentro de las naves en desesperada fuga.

Los americanos miran hacia trás y para los lados, y ven crecer un monstruo: 40 mil, 50 mil, 60 mil piés! Entonces una nube de hongo con 20 quilómetros de altura los asombra como una de las bestias del apocalipsis.

En tierra mueren instantáneamente 74 mil personas y, depués que Laurence ganó el Pulitzer, otros 75 mil nagasakianos entraron para la História como hibakushas – los “sobrevivientes” - en cuyos cuerpos el plutonio escribe desde 1945 la crónica de la muerte anunciada por quemaduras, leucemia, cáncer linfático y demencia.

Miro el inmenso Mar de China y percibo la silueta del ángel de Benjamin esbozada sobre la línea del horizonte. Mientras se afasta, las ruínas crecen sin parar.

A unas docientas millas del holocausto, aún mirando para trás, Laurence anota: “No hay dudas: sobre la cabeza del monstruo decapitado, están naciendo nuevas cabezas...”.
Pensandolo bien, la figura de la hidra, referida por Laurence, sonaba como bien tallado juego de palabras: História como narrativa descabezada, repleta de gestos obscenos y frases doentías. Como la de Sweeney que, años después, frente a frente con las ruínas de Nagasaki, dijo con pavoroso cinismo:”Pero no senti ningún remordimiento o culpa ...”.
En Nagasaki nació la serpente de Juno, que comandó atrocidades en Corea y Vietnam, que torturó prisioneros y meó sobre sus cuerpos en Fallujah; que limpió sus hezes con páginas del Corán en las montañas de Afganistán e imoló con bombas de fósforo blanco a los niños de Gaza.

Son cabezas en el corazón de las tinieblas que, desde el Congo de Joseph Conrad, hacen rodar cabezas mundo afuera - cabezas adiestradas por el espíritu del coronel Kurtz, sedientas de Apocalypse, now!
Agosto de 2014: en la Cordilleira del Alto Biobío, viento gélido azota mi cara, pero una vieja fotografía de 1945 - “Man Walks Through Nagasaki” - resume dramaticamente lo que mil páginas escritas no consiguen expresar: en la memória colectiva, veinte mil grados centígrados continúan a arder en Nagasaki. 

 
Portugués

Agosto qualquer. 

Vento encapelado, gélido, varre as calçadas, vareja as árvores, ofende o rosto das gentes. Corpo contraído, passos apressados, olhar desviado, rumo ao único Café da cidade, protegido por portas fechadas e por isso aconchegante.  

Devaneio sobre a sublimação coletiva de nossa latitude quase austral, neste Sul brasileiro, enquanto perscruto o ambiente enfumaçado em busca de uma cadeira vaga. Tomo assento a uma mesa nos fundos do Café, munido já do primeiro caderno do jornal preso em cabide. Chamada de primeira página: morreu Charles (Chuck) W. Sweeney, comandante da esquadrilha norte-americana, que despejou uma das duas bombas atômicas sobre o Japão, em agosto de 1945. 

A imaginação me assalta: Nagasaki iluminada pela luz de dez mil sóis, incendiados por Sweeney.

Então embarco no túnel do tempo. Primeiro, minhas recordações inapagáveis de agosto de 1986: verão em Nagasaki. 

É hora do almoço de um sábado tropical, esplendoroso, quando eu e o professor Moritaki, meu anfitrião do movimento pacifista Gensuikin, colocamos os pés no restaurante com deslumbrante vista panorâmica sobre o imenso Mar da China. 


Depois de Tóquio, muitas centenas de quilômetros rodados a bordo do trem-bala, minha missão de roteirista-dublê-de-palestrante - sobre o acidente do Césio em Goiânia e o lixo radioativo que cresce em Angra dos Reis - aproxima-se do final, na grande ilha de Kyushu. 


Com gestos ensaiados de etiqueta oriental, o protocolo pede que tomemos assento e degustemos as iguarias que nos aguardam à mesa.



Meus sentidos, porém, continuam embotados. Tentam ainda metabolizar a visita ao inferno de Hiroshima, que ficou para trás. Inferno agora virtual, reproduzido em museu, mas com algumas ruínas originais, das quais a imaginação apreende odor acre a fumaça, ferro fundido, pele derretida. Gritos, berros, queixumes de crianças espavoridas!


Recuando no túnel do tempo: manhã primaveril de 6 de agosto de 1945, partida ao meio pelo fio da luz de um sol desconhecido. Sol incendiado por Paul Tibbets, piloto do Enola Gay. Onda de pressão, prédios cambaleantes, chafarizes de fogo, e do céu a chuva negra de gotas pegajosas, ácidas - noventa mil mortos instantâneos, um terço da população!


Entre os corpos fumegantes, andejam farrapos humanos, sobreviventes zumbizados. Imagem do horror que me perseguirá para sempre: estamparia de roupa impressa a ferro, tatuada com fogo, impregnada com urânio sobre a sedosa pele do torso de uma jovem e bonita mulher. 


Hiroshima, meu amor, agora são muitos filmes em minha cabeça.

Sobrevivente desse holocausto, o professor, físico aposentado e militante pacifista, tenta em vão retomar o fio de nossa conversa interrompida em Hiroshima, sobre o Kyudo, a “arte cavalheiresca do Arqueiro Zen”, fazendo faiscar a mirada do único olho que a bomba atômica legara a Moritaki. 

Eu tinha lhe falado da crônica de Herrigel - o professor que vai ensinar literatura alemã no Japão, e que necessita de longos e dolorosos meses para aprender que, somente a atitude do desapego, o abandono da obsessão em acertar o alvo externo, conduzirá a flecha ao seu alvo predestinado: o coração humano. 


Arte marcial como alegoria do aprimoramento espiritual. Guerra contra o ego para a pacificação do homem. Sabedoria milenar assimilada durante a travessia de tantos mares de sangue e lágrimas. 


Minha imaginação desenha samurais caminhando sobre o mar, apontando seus arcos contra as fortalezas voadoras B-29, que se aproximam da costa japonesa...


Resisto, sinto-me irresponsável e deselegante, mas o tema se insinua como guarnição amoral, diante da contemplação de Nagasaki devastada, que meus sentidos tentam apreender. 

O velho professor, de abundante e embranquecida cabeleira, não se contém, tenta agradar. Com desmedida ternura derramada no olho mareado, ele abre um largo sorriso que desnuda o grande número de suas próteses dentárias douradas e, à queima-roupa, adianta-se, convidativo: - Mantenho um pagode Zen com alguns amigos intelectuais e monges, perto de Hiroshima. Quando quiser, venha, que já tem o seu mestre! 

Gratificado, dissimulo minha comoção, desviando o olhar do rosto plácido do professor, agora um Buda incorporado, para a vastidão do Mar da China, cuja beleza e paz tentam fazer-me esquecer por que estou em Nagasaki.


Lusitanismos, rastros de Camões: por esta ilha infiltraram-se cultura e religião chinesas no Japão, mas batera é um nome de embarcação que sobrevive no sotaque nativo como relíquia da passagem por Nagasaki de caravelas portuguesas, no séc. XVI

Por momentos, imagino Camões preso em Goa.






Recolho o olhar do horizonte e focalizo a Cidade-Baixa a meus pés, que por sua localização, clima tropical, odores, ladeiras e escadarias para a Cidade-Alta, tece associações com Salvador da Bahia. 

Dou-me conta da exceção aterrorizante: o Baixo de Nagasaki não reflete mais nenhuma correspondência orgânica com as ruas, o casario e o estilo arquitetônico da colina sobre a qual me encontro.


Subitamente, invade-me a percepção de que deveria haver dois olhares sobre Nagasaki: um, de cima para baixo e, outro, em sentido inverso. Lá, a menos de um quilômetro de distância, está o marco zero, o epicentro do que um dia foi a Cidade-Baixa, cercado, agora, de imenso vazio territorial, espécie de monumento virtual, feito de ruínas e vento, para lembrar o dia 9 de agosto de 1945. 

Sem pedir licença, da memória salta a imagem do Angelus Novus de Walter Benjamin. 


O anjo me abraça, decolamos do solo, eu grito de medo, mas, fingindo-se de surdo, o anjo ganha as alturas. O foco se amplia, em grande angular a paisagem se descortina a nossos pés. A História, toda ela, se revela, colunas de fumaça negra ascendem ao céu, a Terra insinua-se apenas como amontoado de ruínas incandescentes. Depois, fecho os olhos e sinto-me pousar delicadamente na cadeira ao lado do professor.


Túnel do tempo, trama paralela. 

Madrugada numa base militar americana, em algum lugar do Pacífico. Uma centúria de homens participa do último briefing: alvos em potencial são examinados nos mapas em seus mínimos detalhes. Em seguida, a missão é abençoada com uma prece burocrática do capelão. 

Com os instrumentos de navegação apontados  ao Mar da China, uma esquadrilha alça vôo às 3h50 da manhã. Voando pelo noroeste, direto para o império do nascente, deslizam por um céu nublado, cujas janelas negras revelam apenas algumas poucas estrelas. 


A bordo do Bock’s Car, um dos três bombardeiros B-29 da missão, William L. Laurence, jornalista de ciência do New York Times, olha para Fat Man, a bomba, e anota em sua agenda: “É uma coisa bonita de se olhar, este presente!” (textualmente gadget, no original). 


São palavras de um garoto tolo e orgulhoso do caráter patriótico da missão, jovem como todos os integrantes da esquadra, que nesta madrugada rasga o céu do Pacífico, rumo à missão genocida. Seu comandante, Cap. Frederick C. Bock, tem 27, o bombardeiro e 1º. Ten. Charles Levy, mal completou 26, o piloto e 2º. Ten. Hugh C. Fergus tem somente 21 e o navegador e 2º. Ten. Leonard A. Godfrey, não mais que 24. O comando da esquadra e de toda a missão no ar pertence ao major Charles W. Sweeney, de apenas 25 de idade.


Às 5 da manhã, a luz penetra por algumas janelas de nuvens dissipadas. Laurence lembra que ainda faltam quatro horas para o encontro combinado dos três bombardeiros sob o céu da pequena ilha de Yakoshima, a sudoeste de Kyushu. Ele tira a caneta do bolso do casaco de couro e anota: “Em algum lugar, aos pés das vastas montanhas de brancas nuvens, à minha frente, está o Japão, o país do nosso inimigo. Dentro de quatro horas, uma de suas cidades, que fabrica armas para nos atacar, será varrida do mapa pela arma mais poderosa feita pelo homem. Em um décimo de milésimo de segundo, uma fração de tempo incomensurável por um relógio, uma tempestade descerá dos céus e pulverizará milhares de edifícios e dezenas de milhares de seus habitantes”.


O tempo transcorre com surpreendente desprendimento e muitas piadas. Perto da hora combinada, o Bock’s Car começa a descrever círculos no céu, à espera da formação com os outros dois aviões. Agora juntos, os três sobrevoam a costa, perscrutando seu alvo ainda inidefinido, mas não encontram a saída da densa coluna de nuvens na qual estão imersos. “Os ventos do destino parecem ter favorecido certas cidades japonesas, cujos nomes devem permanecer em segredo...” - divaga Laurence sobre o aleatório, poucos minutos depois, e fulmina: “Sentir alguma pena ou compaixão pelos pobres diabos prestes a morrer? Não, se nos lembrarmos de Pearl Harbor e da morte em Battan!”. 

São 12h01 quando as nuvens se abrem em clareira e a esquadra ganha o céu da bonita cidade tropical. Os garotos a bordo dos três B-29 não têm mais dúvidas: “O destino escolheu Nagasaki como o último dos alvos...”. Sintonizam um sinal de rádio combinado, colocam seus óculos de proteção ARC e, quando um deles avisa, "There she goes!", as entranhas do B-29 “Artiste” dão à luz uma criatura negra, blindada, deslocando-se velozmente sobre o centro de Nagasaki.


Segundos depois, um tenebroso flash de luz branca inunda o céu e cega os homens dentro dos aviões em fuga. Olham para trás, para os lados e miram o monstro crescer, os altímetros acusando primeiro 40 mil, depois 60 mil pés; um cogumelo de 20 quilômetros de altura. 

Em terra morrem instantaneamente 74 mil pessoas e, depois de Laurence ganhar o Pulitzer, outros 75 mil nagasakianos entrarão para a História como hibakushas, em cujos corpos o plutônio escreve desde 1945, a crônica da morte anunciada por queimaduras, leucemia, câncer linfático e demência.


Olho para o imenso Mar da China e percebo a silhueta do anjo de Benjamin esboçada sobre a linha do horizonte. Enquanto ele se afasta, as ruínas crescem sem cessar...

Já a duzentas milhas do holocausto, olhando para trás, Laurence anotara: “Não há dúvida: sobre a cabeça do monstro decapitado, estão nascendo novas cabeças...” 

A figura da hidra, referida por Laurence, soava como espécie de marco referencial, melhor dizendo, como bem talhado trocadilho sobre a História do pós-guerra: História como narrativa descabeçada, pontilhada de gestos obscenos e frases doentias, como a de Sweeney que, anos depois, de volta ao Japão, posando no meio das ruínas de Nagasaki, disse com pavoroso cinismo: But I felt no remorse or guilt that I had bombed the city where I stood!

Em Nagasaki renascia a serpente de Juno que depois comandou atrocidades na Coréia e em My Lai, que torturou prisioneiros e mijou sobre seus corpos em  Fallujah, que limpou suas fezes com páginas do Alcorão nas montanhas do Afeganistão e imolou com bombas de fósforo branco as crianças de Gaza - cabeças que desde o Congo fazem rolar cabeças No Coração das Trevas - cabeças adestradas pelo espírito do Cel. Kurtz, sedentas de Apocalypse, now!

Agosto de 2014: na Cordilheira do Alto Biobío, vento gélido açoita minha espinha, mas vinte mil graus centígrados continuam a arder em Nagasaki.

Fotos: divulgação

08 abril 2012

What The Guardian said long before Grass said it - "Israel's nuclear weapons: Time to come clean"

Reportagem The Sunday Times, 05/10/1986


Israel must abandon its obfuscations on nuclear weapons to move towards a true nuclear settlement in the Middle East

Editorial
The Guardian, Tuesday 25 May 2010

Israel has long based its security policy on the preservation of its monopoly of nuclear weapons in the Middle East. It seems to regard this monopoly as an entitlement so self-evident as to need no examination, whether at home or abroad, and has invented a doctrine of ambiguity, under which it neither denies nor confirms its nuclear status, as a means of preventing, or at least staying aloof from, any discussion. Among the many matters which Israel has concealed, documents suggest, was a readiness to consider the transfer of nuclear weapons to apartheid South Africa, something at variance with Israel's insistence that it has always been a responsible state.

But the great value of the research into the dealings between Israel and South Africa which the Guardian has published this week is not simply that it puts on the record that Israel does indeed have nuclear weapons, nor that it might in the past have thought about handing such weapons to another state, but that it allows us to get beyond the "do they or don't they?" questions to look at the fundamentals of both Israeli and American policy. In the negotiations this month on the nuclear non-proliferation treaty, the United States has shown some flexibility in the face of demands from states who want progress toward a nuclear-free zone in the Middle East, progress which would at some stage have to include a clear Israeli acknowledgment of its nuclear weapons holdings and some degree of readiness to discuss safeguards, such as signing the non-proliferation treaty, as well as a clarification of Iran's nuclear ambitions.
Israel, on the other hand, has been angered by these pressures, with prime minister Binyamin Netanyahu cancelling a visit to Washington earlier this month to avoid having to deal with them. Whether the other Middle Eastern states actually believe a nuclear-free region is attainable is unclear, but what most do believe is that highlighting and questioning Israel's nuclear monopoly is worth doing in itself, and that it might also alter for the better the context in which negotiations with Iran take place.

Both America and Israel believe that Israel should retain its nuclear weapons while Iran should not be allowed to acquire them. With the Brazilian and Turkish scheme for the transfer of nuclear material spurned and tougher UN sanctions against Iran on the way, this is an unexamined contradiction which undermines much Middle Eastern diplomacy and cannot be for ever skirted. It is impossible to imagine even the first steps towards a true nuclear settlement in the Middle East without Israel abandoning its obfuscations on nuclear weapons and admitting, as other nuclear powers do, that security is a collective as well as an individual matter.

05 fevereiro 2012

Frederico Füllgraf - Sobre Gauguin, Charlie Ching e a bomba


Crônica

Era 5 de setembro de 1993, ensolarado, como soem ser quase sempre os dias na Micronésia. Teste número 124: a terra treme no Taiti. No subsolo, o ventre do vulcão se contorce, acima dele o mar se agita, deita espuma branca pela boca. Jovens ensandecidos lançam coquetéis-molotov e bradam: "Franceses, go home !". Atravesso a madrugada navegando por controle remoto entre CNN, DW-TV, TV5, TV-E... à procura de imagens, de novidades de Mururoa. Dá-me vontade de ligar para Charlie, em Papeete, mas a agenda  com seu número de telefone está em alguma caixa da mudança, ainda não desembalada. 

Conheci Charlie Ching, um taitiano de descendência chinesa, em 1987, em Nova York. Ele tinha acabado de sair da prisão em Papeete, por motivos semelhantes aos de Gauguin, em 1901: "conspiração contra a ordem colonial" - a do chicote e da escopeta de 1890, e a da bomba atômica do final do séc. 20. 


O que segue são apenas devaneios, imagino-os como nota de rodapé subversiva dos
manuais de História da Arte, ou talvez da arte de contar a História de reverso: a crescente identificação do homem Gauguin com o modo de vida natural dos nativos, sua solidariedade com os direitos naturais dos taitianos, pelos quais, quase cem anos depois, Charlie Ching continua a lutar. Durante seus últimos dois anos de vida Gauguin encoraja-os  a boicotarem a Igreja (a imposição da moral branca, colonialista) e a administração colonial francesa, que começara exigir o  pagamento de impostos. Em 1901, Gauguin  choca-se frontalmente com as autoridades francesas, é  preso e condenado a pagar uma pesada multa.

Trama paralela: Em 1987, Charlie Ching atravessa o Pacífico e os EUA, de costa a costa, para dar seu testemunho sobre trinta anos de testes nucleares franceses em Mururoa, na 1a. Conferencia Global das Vítimas da Radiação, realizada nos salões do nobre e decadente Hotel Roosevelt, do Big Apple. O depoimento de Charlie com  mais de 45 minutos de duração, inaugura as filmagens de "Burning Sand" (Areia de Fogo) - uma co-produção entre Fundação do Cinema Brasileiro, Filmoffice Hamburg e minha produtora. O filme, interrompido e reescrito várias vezes e por vários anos, não tem prazo para estréia.

A Mururoa de Charlie é como a Pounaouia de Gauguin: uma praia idílica, onde estão sentadas suas "Duas Mulheres ... ", pintadas em 1891. Não me canso de olhar para elas...

- Parto com dois anos a mais, mas vinte anos mais jovem... mais bárbaro... Sim, os selvagens ensinaram muitas coisas ao velho civilizado, muita coisa sobre a ciência de viver e a arte de ser feliz ! - escreve Gauguin a um marchand de Paris, ao deixar o Taiti pela primeira vez. Mas no cais do porto de Papete, Tehura,  uma bela vahiné (nativa) e amante abandonada por Gauguin, chora noites sem parar. 
Na praia, as "Duas Mulheres"... 
A da direita, mais à frente, cruza as pernas na posição de Lotus. Aperta um lenço de seda cor-de-rosa entre as mãos cruzadas, como se fosse o único elo que a mantém amarrada ao mundo material; o olhar ligeiramente desviado para o buraco negro no infinito. Ou para a perda infinita? A cabeça da mulher da esquerda está ligeiramente inclinada, os lábios apertados um contra o outro. Os olhos, semi-cerrados, fitam a areia; eles parecem medir o tamanho da perda. Adivinho sua pergunta, silenciosa: -  O que é que eles trazem, que nos faz sentir tão tristes ? E por que nos sentimos tão vazios, de repente?



Mururoa está chegando ao fim,  afirmava Roger Clark, geólogo da Universidade de Leeds/Inglaterra. Enquanto isso, em Tóquio, Jacques Custeau fazia coro com Chirac e a´escroquerie nucleaire", passeando "fatos" numa coletiva de imprensa: - O fato é que os testes subterrâneos não contaminam absolutamente nada ! 


Fato...
Le grand seigneur perde uma rara oportunidade para ficar calado. Repete a dose de 1992, quando navegou pela Amazônia, onde afirmou ter visto "a floresta intacta", enquanto Rondônia ardia em chamas... 

C'est la vie: le vieux ecologiste, fatigué de la guerre... - ou já teria mudado de lado?

Aliás, a França sempre teve um olhar esquizóide para a realidade. Lembro-me bem, era um sábado ensolarado, em abril de 1986. Estava em turnê pela Alemanha, com outro filme, quando ocorreu o acidente nuclear em Chernobyl (ironicamente, o título do meu filme era "Dose Diária Aceitável"...). Freiburg, na margem oriental do Reno, parecia uma cidade deserta. As pessoas não abandonaram suas casas devido à perigosa nuvem que despejava  césio, estrôncio e outros elementos radioativos sobre a natureza. As vacas estavam presas nos estábulos, estava proibido beber leite fresco, e na fronteira com a França batalhões de guardas, que pareciam ter saltado de um set futurista, barravam os carros sem falar palavra e scannerizavam pessoas e animais de corpo inteiro com seus contadores Geiger, dos quais pipocava um estranho ruído. Seleção darwiniana na era nuclear: "liberar os sadios, os contaminados para o camburão!" (ordem de um oficial do exército, durante exercício de simulação de acidente na usina nuclear em Angra dos Reis, 1990).

Explosão de 1968, Opération Canopus, atoll de Fangataufa

O "Day After" nos apanhara de surpresa, muitos anos antes do que tínhamos imaginado. Mas do outro lado do Reno, em Colmar, a festa continuava, uma estranha festa: feiras de hortigranjeiros, queijos e vinhos,  a população flanando ao ar livre... Então o prefeito rosnou para uma câmera de TV: - Radioatividade ?! Onde ? Eu não vi, cést l'hysterie des allemands, monsieur..


Minha última lembrança de Colmar foi um beco, um acordeão e uma canção, acho que era do Jacques Dutronc, cuja letra  dizia assim: "Les temps sont flous, les gens sont fous  // Ils sont la comme des toutous de Paris a Tombouctou // Quand il s'agit de faire joujou avec des v-new(?)

Segunda trama paralela: os usos ditos pacíficos da energia nuclear... Bielorussia. Estatísticas oficiais admitem pelo menos 200 mil pessoas contaminadas, seis anos após o acidente de Chernobyl


Agora, nos habituaremos a conviver com um novo quadro mental, o retrato das crianças de Chernobyl com a moldura da pós-modernidade: pele coberta por eczemas, pruridos, cabeças sem cabelos, feridas pelo corpo todo, escondidas, é claro, que ninguém gosta de exibir a lepra, radioativa. E este terror ambulante fez Chirac empreender a fuga, atacando os críticos e adversários de testes nucleares: - Estas reações contra a França são histéricas, a verdade ... é que os testes nucleares não oferecem perigo!... 

A verdade...

Charlie Ching em Nova York, 1987: - Temos indicadores, de que no Taiti há milhares de pessoas contaminadas pela radioatividade. Papete, setembro de 1995: líder do movimento separatista confirma a morte de 1.200 taitianos por câncer linfático.

Pounaouia, 1899. 
Da mata exuberante que dá para a praia,  vêm caminhando duas jovens, formosas, daquelas que habitam o imaginário exótico masculino e que atraíram Marlon Brando para uma ilha vizinha. São de uma beleza selvagem, bárbara. Talvez tenham inspirado Gauguin a pendurar aquela plaqueta no pequeno estúdio da Rue Vergintorix, em Paris, onde expôs, em 1894, suas primeiras cinqüenta telas sobre o Taiti: "Te Faruru" (= Aqui se faz amor!). Mas o  rosto delas expressa aquela melancolia de todas as nativas: os olhos desviados ligeiramente para algum lado, fitando um ponto no infinito, os pensamentos "descolados" do presente... Oferecem seus "Seios com flores vermelhas" (tela de 1899) com desprendimento, espécie de última dádiva ao invasor, antes que... 


Então Gauguin decide colocar na vitrine seu quadro definitivo, o daquela mulher estendida sobre um divã à imagem da gata, felina, de pele eriçada, ardendo, esperando o toque, mas em vão:  "Nevermore O. Tahiti", Gauguin fica em Paris, para nunca mais voltar.