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14 dezembro 2019

Frederico Füllgraf - Patagônia, viagem ao começo e ao fim de mundo - Parte 1

 
(fotos: divulgação)

Crônica de viagem


Para Liége dos Santos, 
companheira dessa inspiradora jornada austral.



A Patagônia é um mito, foi e será território alimentador de mitos. Para mim, até o dia da minha primeira incursão, foi sempre território imaginário, tão distante, misterioso e intangivel como o Grande Deserto da Austrália ou a Ferrovia Transsiberiana, com alguma aura mal afamada de Velho Oeste, isto é: natureza em estado bruto, terra de ninguém, terra sem lei, arrancada aos povos autóctones ao custo de desmedida truculência. E com uma história escrita pelos vencedores. Há muito tempo eu sentia uma espécie de "chamamento", e à medida que fui me internando no território que o espelha, o das narrativas, entendi que esse "chamamento" impulsionou todos os que baixaram a estas terras inóspitas. Como diz Guillermo Saccomano, ensaísta argentino (Narrar al sur) exploradores espanhóis e holandeses, naturalistas ingleses e franceses, religiosos italianos, colonos galeses, estrategistas argentinos e milionários norte-americanos parecem ter coincidido, ao longo de quase cinco séculos, de que ali está o que buscavam: um território geo-estratégico, a chave para desvendar uma charada científica, um recurso natural e uma beleza extasiante que vão se extinguindo no resto do planeta, uma "cidade encantada", na qual abunda o ouro, e também certa noção da "eternidade", que já não espanta mais ninguém.


Embora os 700 mil km2 da Patagônia oriental (argentina) atualmente não abriguem mais de 1,0 milhão de moradores, seu território-país já é citado por Antonio Pigafetta, escrivão-de-bordo de Fernão de Magalhães, durante a circunavegação do estreito homônimo, menos de trinta anos após a “descoberta” do Brasil. E o apressado Pigafetta é o (ir)responsável por grande parte da mistificação etnográfica e paisagística que definirá a historiografia deste mundo finis terre, já que o nome Patagônia remonta à etimologia “patagones” (= pés grandes), que o cronista italiano concedeu aos primeiros índios avistados. Melhor: imaginados pelos espanhóis, porque das grandes pegadas, marcadas na areia de algumas praias, os navegadores teceram logo associações com o tamanho dos pés, e outros membros de seus titulares.

Quando, porém, o primeiro índio Tehuelche subiu a bordo de uma das caravelas, desatando os nós do grande pedaço de couro de camelídeo que usava para proteger-se do frio, o estrago já estava feito, digo, Caliban já estava incorrigivelmente descaracterizado e batizado. Daí, à crença de que neste fim de mundo as árvores nasciam com as raízes para o céu, e os rios corriam cordilheira acima, foi um passo no imaginário quinhentista - motivo pelo qual nos mapas renscentistas o mundo ao sul do Equador figurava de ponta-cabeça, e o Papa relutava em aceitar a humanidade de seus habitantes bárbaros - vai ver, tinham as vergonhas fora do lugar!




E começa a viagem
Naturalmente, de qualquer parte do planeta pode-se alcançar distintos pontos da Patagônia de avião, mas neste caso ela se se esconde. não se revela. Eu fiz a viagem de carro, a partir de Buenos Aires, descendo a costa atlântica, e retornando pela Cordilheira dos Andes. 

Geógrafos e geólogos brigaram durante um século inteiro, até definirem o mapa da atual Patagônia, compartilhada pela Argentina e pelo Chile. 

Do ponto de vista físico, ela compreende, na Argentina, o imenso território de 800 mil km2 ao sul dos Rios Limay e Colorado, estabelecendo uma fronteira ecossistêmica com a pampa, ao norte e, em sentido oposto, derramando-se até a Terra do Fogo e o Canal de Beagle, no sul. Em sentido leste-oeste, a Patagônia Argentina, ou Oriental, esparrama-se desde o Oceano Atlântico (com 1.770 km de costa) até a Cordilheira dos Andes (com 1.920 km de cadeias montanhosas), sobre o território das províncias de Neuquén, Rio Negro, Chubut, Santa Cruz e Terra do Fogo & Antártida. Em território chileno, a Patagônia estende-se da província de Aysén, ao norte, até o Estreito de Magalhães, no extremo sul. Geograficamente, portanto, aproximadamente dois terços da Patagônia encontram-se em território argentino e um terço em território chileno.


Nas pistas de Darwin, Tschifelly e Chatwin


Aimé Tschiffelly

Meu primeiro olhar sobre a Patagônia foi guiado por Liége Santos - namorada, com quem dividi o volante do carro - e um estrangeiro, o escocês Bruce Chatwin. 

Depois de ler sua crônica "In Patagonia" – espécie de narrativa “cubista”, como pretendia seu autor, mas aceita com muitas reservas na Argentina - a viagem para o subcontinente fantástico era apenas uma questão de tempo. Apesar da abordagem "novelesca" e deformadora do observado por Chatwin, emocionou-me seu despojamento, determinado a percorrer o inóspito a bordo de desconfortáveis trens, ônibus, ou como carona de caminhoneiros, em meados da década dos 70.

Nesta primeira incursão, Liége e eu iniciamos nosso roteiro a bordo de um atrevido fordinho Fiesta (o jeep 4x4 que havíamos encomendado por fax, já havia sido alugado), baixando a costa atlântica pela Ruta Nacional (RN3), que desde Buenos Aires cruza 700 km do pampa até Bahia Blanca. E aqui, sem sabê-lo ainda, nos internamos no território de um viajante mais antigo: a rota costeira descrita em "Sur" (This way southward;: A journey through Patagonia and Tierra de Fuego), do suíço Aimée Félix Tschiffely. 


Professor de matemática em escolas britânicas na Argentina da década dos anos 20, e viajante obsessivo, Tschiffely quebrara o recorde mundial com uma cavalgada com duração de três anos, de Buenos Aires até o centro de Manhattan, em Nova York. De volta daquela odisseia, já em 1936 decidiu embrenhar-se em sentido oposto, rumo à Patagônia.



Contudo, a "monotonia estranhamente maravilhosa" do pampa de Tschiffely estava fora de lugar. 

Os românticos boliches (botequins) foram substituídos pelos Cafés ou lojas de conveniência 24 horas, arranjados e decorados segundo o figurino globalizado, mas permanecera o hábito dos nativos de comer uma parillada, o churrasco argentino, que à beira da RN3 é servido ao lado de quase todos os postos de gasolina, como em Azul. Aqui, debruçado sobre o mapa rodoviário, cujo labirinto tentávamos decifrar, fomos invadidos pela doce indiscrição de um nativo e sua família que, preocupados em apontar-nos o caminho correto, enterrariam para sempre o preconceito brasileiro do "argentino descortês": em seu carro nos "escoltaram" até o primeiro cruzamento, para evitar que fôssemos desviados para Bariloche. E nos mandaram abraços e beijos; obviamente retribuídos.


O aprendizado das cores


Até a Sierra de la Ventana, tudo parece encaixar ou perder-se harmonicamente no imenso tapete verde, até que numa curva inopinada surge do nada um grande "remendo" amarelo de girassóis translúcidos, dando as costas ao poente - Van Gogh que nos perdoe, mas os girassóis do pampa são mais luminosos que os da Holanda! Principalmente quando projetados contra a abóbada celeste, de matiz azul diáfano, com suas bizarras formações de nuvens comprimidas ou rasgadas pelo vento, que já sopra forte. 

Gaviões e falcões são freqüentes companheiros de estrada, voando em círculos elegantes até - pasme-se! - serem caçados por bandos de valentes andorinhas. 

Bahia Blanca, ruidoso centro provinciano de 500 mil habitantes, no extremo sudoeste da província de Buenos Aires, mantém abertas as feridas de uma Argentina outrora pujante. Seu mais alto índice de desemprego do país, e a miséria em sua periferia escondem gloriosos tempos que não voltam mais. No decadente, mas charmoso salão do Hotel Muñiz, ainda é possível respirar lufadas imaginárias das glamourosas décadas de 1930 e 1940, quando este era o ponto de animadas tertúlias de ricos estancieiros e exportadores de lã e frutas; as “manzanas de Rio Negro” de nossas infâncias.

De Bahia Blanca a Viedma são outros 300 km, com a travessia da província de Buenos Aires para a de Rio Negro, e o cruzamento da desembocadura do Rio Colorado; a fronteira molhada do norte da Patagônia. 

Aqui o viajante tem duas opções: seguir pela RN 3, cortando caminho até San Antonio Oeste, no Golfo de San Matias, ou tomar a Ruta Provincial (RP) 1, acompanhando o Rio Negro até sua desembocadura no Atlântico, em El Pesadero. 

Foi o que fizemos. Distante 65 km de Viedma, alcança-se a lobería (reserva de leões ou lobos marinhos) Punta Bermeja, onde termina o asfalto da RP 1, devendo-se percorrer aproximadamente 180 km de estrada de rípio (cascalho e muito pó) para chegar-se ao trevo rodoviário de San Antonio Oeste, com o reingresso na RN 3.

E no meio do caminho, lá estava a deslumbrante Bahia Creek, paisagem escarpada com praias desertas de areia negra, vulcânica. Refúgio que incita ao recolhimento contemplativo, Bahia Creek é a iniciação do viajante no aprendizado das cores da Patagônia, cujos espectro e matizes não existem sob o céu tropical. A magia do pôr-do-sol insistia em deixar marcas para o resto da vida. Ela, a namorada, tirou a roupa, desnudando-se; sua pele acariciada pelos últimos raios de sol, beijada pela maresia gelada e pintada com as cores de um arco-íris austral - olhos grandes e suspiros de deslumbramento no meio do público admirador das fotos...

Percorridos à noite e sem a devida atenção ao nível do combustível, os 180 km restantes da RP 1, podem transformar-se em pesadelo, pois até San Antonio Oeste não há postos de gasolina, nem mesmo viv'alma que possa prestar auxílio. 

A única atração desta pacata cidadezinha de 11 mil habitantes é a Praia de Las Grutas, que por sua localização no saco do Golfo San Matias, tem as águas oceânicas mais quentes e transparentes da Argentina, próprias para o mergulho. A curiosidade histórica é que em seu apogeu San Antonio Oeste foi o entroncamento da Rede Ferroviária Federal Argentina (Km Zero: Plaza Constitución, Buenos Aires) com a Ferrovia da Patagônia, iniciada aqui em 1908, e concluída em San Carlos de Bariloche em 1934, tornando-se o principal porto de exportação da cobiçada lã dos rebanhos ovinos da Argentina.


El Desierto

O ingresso na Estepe Arbustiva Patagonica, popularmente conhecida por el desierto, é um vislumbre de eternidade. 

Contudo, quando a viu em 1832, Charles Darwin disse: “terra maldita!”. Muito depois admitiu seu arrebatamento. Já Guillermo H. Hudson, argentino de origem também inglesa, visita a Patagônia em 1860. Em seu livro, "Días de ocio en la Patagonia", tenta fazer Darwin entender "que viajantes do deserto descobrem em si mesmos uma calma primordial (familiar ao mais simples dos selvagens), que talvez seja o mesmo que a Paz de Deus..."


Partindo de San Antonio Oeste rumo a Puerto Madryn, 250 Km ao sul, é esta a paisagem majestosa, misteriosa e sobretudo digna, que acompanha o contorno do Golfo San Matias. 

É o fim da tonalidade verde. Em seu lugar, desdobra-se um infindável tapete incendiado de manchas, nas tonalidades amarela, mostarda, salmão, ocre, bordô e sépia, refletidas por plantas de nomes exóticos como molinum spinosum, xerófilos, poa , festuca e stipa. São as únicas espécies vegetais capazes de oferecer resistência às brutais intempéries da estepe; o sol inclemente, as nevascas do longo inverno, as rajadas do vento incessante.


A "península grávida"


A 20 Km de Puerto Madryn está o acesso à Península Valdés, santuário da fauna marinha, único no mundo. Valdés é uma experiência inesquecível, que rompeu as fronteiras da Argentina e ganhou continentes. As baleais Franca Austral (12-16m), os elefantes marinhos (machos: até 4.0 t de peso), os leões marinhos de um e dois pelos, e os pinguins magalhânicos adotaram-na como refúgio de reprodução, acasalando, parindo, alimentando suas crias, e transformando Valdés na "península sempre grávida". 

O ponto de concentração dos elefantes marinhos é a praia alcantilada de Caleta Valdés Sur. Antes das alterações climáticas em curso, manadas de elefantes marinhos dirigiam-se para Valdés em outubro, agora já se pode vê-los em setembro, ou até mesmo em agosto. 

Seu comportamento no mar é freqüentemente monitorado por uma fundação argentina conveniada com a ONU. Exímios nadadores e mergulhadores (submergem até 800 m de profundidade e têm fôlego para 40 minutos), os elefantes marinhos de Valdés constituem a única colônia da espécie no mundo, cuja população está aumentando. Sua perda de peso chamou a atenção da fundação, e constatou-se que nadam e mergulham muito mais tempo na caça às lulas, depredadas por armadas de barcos de pesca piratas em águas continentais argentinas.

Em companhia de meu filho Jan, com quatro anos de idade, visitei a península pela primeira vez em outubro de 1996, em missão de pré-produção de um filme documentário para a TV Suíça. Seu tema era a observação científica do comportamento destes textuais paquidermes, que além dos leões marinhos constituem um dos pratos prediletos das baleais Orca. 

Espetáculo raro, porque de duração alucinantemente rápida, e já transformado em atração turística de forte apelo voyeurista, pode-se testemunhar aqui o ataque das Orcas aos filhotes dos elefantes. Mas comparado à matança, a pauladas, de 250 mil a 300 mil lobos marinhos pelos caçadores ingleses na Terra do Fogo, entre 1910 e 1960, o ataque de uma Orca pode ser definido como exemplo cruelmente ecológico de desenvolvimento auto-sustentado das espécies. 

Em Puerto Pirámide, na entrada da península, floresce um segmento turístico comercial para a observação de baleias. Vendida ao visitante como "turismo ecológico", a observação ou "avistagem" ameaça reverter-se no seu oposto anti-ecológico, por constituir-se em assédio estressante para os animais.


Biombos na praia


A chegada a Puerto Madryn (45 mil habitantes) mexe com os emoções. 

A tintura aveludada do seu mar azul e dos alcantilados de pátina beje-amarelada não têm registro em nossa memória espectral, e nos deixa psicologicamente desarmados; experiência que se repetirá no contato com os grandes lagos da Cordilheira dos Andes. 

Madryn foi onde começou a colonização galesa, em 1865, graças à qual a Argentina ganhou territórios na Cordilheira dos Andes, até então virtualmente dominada pelo Chile; mais exatamente por um punhado de fazendeiros chilenos.

Localizada no Golfo Novo, ao sul da Península Valdés, a pequenina cidade costeira é formada por enseadas com formosas praias de areia negra (mas águas de temperaturas polares!), e tem excelente estrutura hoteleira. Uma curiosidade que incita às gargalhadas, mas capaz de rapidamente adaptar brasileiros aos costumes nativos, são os biombos armados na praia pelos veranistas argentinos, para proteger-se do vento, que sopra sem parar, levando de roldão guarda-sóis, cadeiras de praia, chapéus e o próprio veranista... 

Em 1997, a secretária de turismo de Madryn comprara uma briga feia com o governo federal, ao denunciar publicamente o polêmico plano do presidente contraventor, Carlos Menem, de instalar um depósito internacional de lixo nuclear, fortemente radiativo, em Gastre, no interior da província. Celebrizado por suas “relações carnais” com os EUA, Menem pretendia granjear a simpatia do primeiro mundo, ao receber dele, o que suas populações rejeitavam. Mas a população da Patagônia solenemente repeliu o lixo dos outros, e resistiu com sucesso contra o conluio.

A despedida de Madryn, de sua gente, seu mar e suas cores, é um aperto no coração, que na Patagônia não tem tempo de preparar-se para emoções em cascata. 

A próxima chamar-se-á Gaiman, distante 110 km de Madryn. Por indicação dos índios Tehuelches, o lugar (4.000 habitantes) foi fundado em 1865 pelos primeiros colonos galeses no vale do Rio Chubut, por constituir-se no único manancial de água; recurso hoje cada vez mais escasso na região. 

Relaxar no final de uma tarde, acompanhado do chá galês, guarnecido de uma infinidade de pães e tortas caseiros, como a mundialmente famosa e imperdível Torta Galesa, numa casa de chá como "Plads & Coeds", é combustível apropriado para uma emocionante viagem à ré no tempo, e comprometer o tempo e a continuidade da própria viagem, rumo ao sul; principalmente se a dona da casa, como dueña Marta, for descendente das linhagens fundadoras dos Lewis, Edwards ou Jones.


Os galeses de Friedrich Engels



Algum mestre taoista disse certa vez, que o sentido de qualquer viagem é o próprio caminho, e na expectativa da experiência romântica, frequentemente nesta trilha o caminhante se depara com uma matéria-prima da História: a tragédia. 

É o caso de Gaiman e das outras colônias galesas na Patagônia. Coube a Guillermo Saccomano lembrar-se de um clássico da Economia Política, que no séc. XIX descrevia o trabalho semi-escravo na minas inglesas de carvão, ferro, chumbo e estanho, que consumiram as vidas de milhares de homens, mulheres e crianças. 

Aos sete anos de idade, os meninos já penetravam nos túneis, e entre os trinta e cinco e quarenta, suas vidas desvaneciam. Morriam de doenças respiratórias, atrofias musculares, e acidentes. O horário excedia as doze horas por turno, nas profundezas de uma passagem estreita e úmida, transportando nas costas os metais extraídos das galerias. Quando os garotos chegavam em casa, anota o célebre cronista, se atiravam no chão de pedra, junto à chaminé, e desfaleciam em sono profundo. Não tinham forças nem para levar a comida à boca. Seus pais banhavam-nos enquanto dormiam, e dormindo arrastavam-nos para a cama. Febris, esgotados, quando tinham o domingo de folga, permaneciam deitados. Eram poucos os que freqüentavam igrejas e escolas. As meninas sofriam dupla opressão, enquanto trabalhadoras e porque eram mulheres, escorraçadas do trabalho depois de darem à luz a uma criança...

O cronista chamava-se Friedrich Engels – amigo, mentor e co-autor de Karl Marx -, e sua crônica é a tristemente famosa pesquisa intitulada "A situação da classe operária na Inglaterra", publicada em 1845 - narrativa tão fria quanto arrepiante, cujos protagonistas eram estes galeses. “É demasiado tarde para uma solução pacífica”, diagnosticava Engels. Contudo, ao invés da rebelião violenta, os galeses deram as costas à exploração brutal, à perseguição religiosa e à mutilação cultural, como a proibição de sua língua, o Gaélico celta, dos mais antigos do mundo. Optando pelo exílio, aportaram na costa da Patagônia em 1865, em busca da terra prometida.

Paradigma de amizade entre colonos europeus e índios americanos


Mal se instalavam na Patagônia, e testemunharam, pasmos, a perseguição dos nativos pelo exército argentino. 

E aqui talvez ocorra a única experiência de convívio pacífico e até mesmo afetivo, entre brancos e índios, em toda a América; crônica na qual índios salvaram a vida de galeses e, inversamente, galeses protegeram os índios das matanças. 

Acima: Exército do Gal. Julio Roca na Patagônia, 1865
Inferior: Cacique Casimiro e chefes Tehuelches em Buenos Aires, 1865.

Emociona-se dueña Marta, contagiando seus ouvintes, quando pesca no pó do deserto de Chubut  o espectro de Sayhueque, elégico chefe Tehuelche, que costumava levar seus antepassados galeses para a caça ao guanaco e ao ñandú, ensinando-lhes a técnica milenar da boladera. 

Enquanto fala, o vento assovia em bemol, parecendo recompor a trilha da Campaña del Desierto - eufemismo do holocausto indígena, de 1879, comandado pelo General Julio Roca. 

Explica o Guia Turístico YPF (a ex- Petrobrás argentina): "Dá-se este nome à ofensiva militar... que rompeu o nervo da sociedade indígena, pampeana-patagônica, e o correlacionado desfecho violento de um ciclo histórico...". 

Leio num jornal argentino, que a população de Bariloche exigia a derrubada do monumento de Roca, cujo bronze está definitivamente maculado por grafites acusatórios e indeléveis: "Roca, el carrasco de la Patagonia!".

O próprio Tschiffely admite que se sentira envergonhado de ser europeu, ao referir-se às façanhas truculentas de seus anfitriões, originários das ilhas britânicas, no sul da Patagônia. 

De Chubut à Terra do Fogo, a maioria das fazendas patagônias foi amealhada por uma “troca” perversa: “uma légua de terras por cada orelha de índio!" (Gen. Roca). Nem tão nobres farmers ingleses e irlandeses trucidaram índios, amarrando-os sobre blocos de gelo, flutuando nos rios da cordilheira, praticando tiro ao alvo em suas cabeças. Outros, mais sutis, convidavam os nativos ingênuos para um churrasco de ovelha; regado à estricnina. A nação Tehuelche foi extinta, obliterada da paisagem: os homens sobreviventes, integrados ao exército branco, as mulheres tornadas domésticas semi-escravas, e os filhos, separados dos pais.



Poema industrial

De volta à RN3, o segmento Trelew - Comodoro Rivadavia exige cuidado especial com o nível de combustível, pois só existem postos de gasolina a cada 150km. 

Com sorte, cruza-se com algum carro ou caminhão a cada meia hora. Punta Tombo, a maior reserva natural de pingüins do Hemisfério Sul, encontra-se no final da estrada de rípio que conduz à costa, e pode ser imperceptível. Quem a perdeu, deverá intercalar uma pausa no posto de gasolina de Camarones, e seu bar, atendido por alguns descendentes de índios Mapuche, que batizei de "Patagonia Café" - desértico, sujo, esculhambado, mas comoventemente acolhedor como o "Bagdad Café", no filme de Percy Adlon.

Estranhas aves mecânicas - bombas extratoras de petróleo, chamadas de "cegonhas" - sinalizam ao viajante sua aproximação de Comodoro Rivadavia (150 mil habitantes.). 

Em 1997, aqui o litro de gasolina custava apenas ¼ do preço de Buenos Aires, e a medida fora adotada há muitos anos pelo governo argentino para estimular o aumento demográfico da Patagônia. Projetado contra o sol poente, o sobe-e-desce e o grasnar metálico das "cegonhas" silhuetadas, compõem um fascinante poema industrial sobre o deserto amarelo e a seiva negra que corre em suas veias.

Comodoro Rivadavia é a grande encruzilhada do viandante motorizado, e a última oportunidade de tomar uma decisão sábia. Para quem tem pressa, seguir os 700 km pela RN3 até Rio Gallegos, e de lá até a Ilha da Terra do Fogo (mais 900 km), pode significar a perda de vários dias preciosos de viagem, através de uma paisagem monótona, com estrada perigosamente retilínea. As opções são tomar a RP 148, asfaltada, que cruza Chubut em direção a Esquel e Bariloche, nos Andes, ou seguir de carro pela RN3 até Rio Gallegos, e de lá - nova encruzilhada - aprumar na direção sul, para a Terra do Fogo; ou, finalmente, no sentido sudoeste, para o Lago Argentino e o Glaciar Perito Moreno.

Decidimos tomar o avião para Rio Gallegos, e de lá seguimos de ônibus para El Calafate, às margens do deslumbrante Lago Argentino, onde fizemos nossa primeira aproximação com a Cordilheira dos Andes. 


Com seus 3 mil residentes fixos, El Calafate é o portal de acesso ao Parque Nacional dos Glaciares, cujas 47 geleiras se entrelaçam com florestas selvagens, lagos, montanhas e rios caudalosos. Sua principal atração turística é a Geleira Perito Moreno, localizada a aproximadamente 80 km do centro da cidade. Diversas empresas de El Calafate transportam turistas até o parque, mas perde-se muito tempo a bordo dos ônibus, ganhando-se agilidade ao alugar um carro, uma motocicleta ou até mesmo um cavalo. 

O encontro com a geleira Perito Moreno, desparramando-se dos picos andinos sobre o Lago Argentino, proporciona sensações próximas da vivência mística. 

Aqui se aprende que em épocas remotas os lagos gigantescos foram geleiras que retrocederam sob o impacto de antigas alterações climáticas. As geleiras atuais são, portanto, modestos cartões de visita do Período Quaternário. Espetáculo ímpar: a cada 48 ou 72 horas, a comporta de gelo do Perito Moreno estacionada no meio do lago, rompe-se sob a pressão exercida pela água na parede principal, de 60 m de altura e 4,5 km de largura, e desaba... 

Agora as geleiras andinas retrocedem sob os impactos do efeito-estufa; desta vez de origem indiscutivelmente antropogênica.

Creio falar também em nome de Liége: uma das experiências mais memoráveis dessa viagem foi nossa caminhada sobre a areia negra das margens do Lago Argentino; distantes dos ruidosos treckings e outros anglicismos da moda. 


Cercado por aves raras e oníricas - cauquenes, patos selvagens, cisnes do pescoço negro e flamingos - tem-se aqui um dos encontros mais desafiadores com as intempéries patagônicas. As rajadas de vento que sopram dos Andes, aqui chegam a atingir mais de 100 km horários e a produzir dor de ouvidos; de frio, em pleno verão. Mas a recompensa não tardará, pois Júlio Gutierrez, do "Rick's Café", em El Calafate - que guardava um cartaz original de Casablanca , e que adorava posar para uma foto com seu chapéu à la Humphrey Bogart - prontamente servirá um submarino ou um vinho de boa cepa, acompanhado de jamón crudo.


19 agosto 2019

Frederico Füllgraf - Roberto Arlt, Cármen e Baía Creek

Fotos: bafilm.com.ar, R. Haussmann

Cármen de Patagones
Roberto Arlt

Imposibilitado de utilizar diez definiciones para calificar al pueblo de Patagones escalonaré unas cuantas. El público puede quedarse con la que más le agrade. Ahí van:

Patagones es un pueblo donde uno se puede morir de muerte romántica.
Patagones es una niña bien. Aspira.

Patagones podría ser una ciudad costera de Brasil. Es más quieto y denso que una de aquellas ciudades del trópico donde José Mojica y la Rubia Platinada se desvanecen escuchando una rumba ejecutada por la orquesta de Don Aspiazu.
Patagones es bonito como un beso de novia. (En días de lluvia).

En Patagones se puede escribir una novela de amor tan amoroso, que después de leerla, los amantes no escojan sino entre el suicidio o la felicidad.

Patagones es noble, rústico y severo y, al mismo tiempo, dulce como un “menino”.

Para escribir sobre Patagones hay que ponerse una mano sobre el corazón y entornar dulcemente los ojos. Y no tener miedo del ridículo al afirmar que es diez veces más bonito que Bahía Blanca, que Rosario y que Tandil, a pesar de ser diez veces más pequeño que la parroquia de Caballito.

Todas estas y otras innumerables virtudes se le pueden descubrir a Patagones en un día nublado. (in: En el país del viento, Editorial Sigmur, 1996.)


Baía Creek

Frederico Füllgraf


Quando o arrependimento dói, é preciso reinventar-se.

Mal lembrado, era meio-dia, sol a pino, quando atravessaram, apressados, Patagones, porque pretendiam atingir San Antonio Oeste antes do anoitecer. Mas não pelo caminho mais curto, a Ruta Nacional 3 e, sim, bordejando o Golfo de San Matías, sobre uma estrada de rípio, feita de cascalho e muito pó, porque ali, assim alertara o Guia YPF, se ocultavam duas atrações: a lobería Punta Bermeja e, depois dela, a Baia Creek.

Rumo à Patagônia e ao fim do mundo, estavam imersos numa paisagem localizada mil quilômetros ao sul de Buenos Aires, onde o Rio Negro separa sua província homônima da de Buenos Aires, ato continuo desfazendo-se no Atlântico, em El Pesadero.

Navegando sob colunas de pó de cor ocre, que penetrava pelas frestas do carro hermeticamente fechado, e levitava em câmera lenta diante de seus olhos, como plumas à brisa, sobre o primeiro segmento da estrada de rípio, atingiram Punta Bermeja, para apreciar os primeiros lobos marinhos em suas vidas. Que têm primos maiores, chamados leões, e que são todos muito belos, mas de pouca conversa, logo mostrando suas presas afiadas e amareladas de maresia, sal e tanto peixe, e prontos para o ataque. E têm toda razão: não têm nada a ganhar com essas fotos, todas, tiradas às suas custas, mas tudo a perder com a importunação de sua siesta ao sol, que por ali é disputado a rosnaduras e mordidas; de tão infrequente.

E então se descortinou Bahia Creek - paisagem escarpada com praias desertas, de areia negra, vulcânica, feito refúgio que incitava ao recolhimento contemplativo. 

No horizonte, o dia já sangrava em texturas alaranjadas e purpúreas que, refletidas pela superfície das águas, faziam do mar a casa dos espelhos gelatinosos e ondeantes. 

Vento áspero varria a praia, levantando areia em espirais de furta-cores. 

Ela se acocorara, buscando proteção ao lado de um arbusto, que tanto tremia, dando sentido literal àquele provérbio da vara verde. Tiritando sob as rajadas de vento, tirou a roupa. Era o primeiro nu feminino, dela. E dele! 


Silente, os olhos pregados naquele mar de prata e sangue, ela não percebia que sobre seu seios serpenteavam os pincéis do crepúsculo. Tinha aquele abandono de Vera Broido nas fotos de Raoul Haussmann. E ele sentiu-se enternecido. 




Quando o vento foi se tornando gélido e o mar, mais negro, agasalharam-se com beijos de hálito quente e seguiram para San Antonio. Mas seus pensamentos estavam em Cármen - Cármen de Patagones.

Em parte, isso soa a imaginação, um devaneio incitado por aquela paisagem primeva e metálica, cuja beleza excessiva fazia doer os olhos. Mas só em parte.

Só muitos anos depois descobri a crônica de Roberto Arlt.
E quando a li, senti imenso remorso.
Arrependimento por tê-la atravessado com tanta pressa.
Então decidi-me: voltaria a Cármen!
Para rebobinar o filme e esperar o dia esvair-se em novo crepúsculo. 
Nos braços daquela que disse, "contigo me me voy hasta el fin del mundo".


30 setembro 2014

Frederico Füllgraf - Elogio de Jorge Luis Borges - Susan Sontag


Fotos: divulgação


Todas as lições de um mestre
Tradução: Frederico Füllgraf


Nota: de sua casa, em Nova York, onde se recuperava de um acidente automobilístico, a falecida escritora e ensaísta norte-americana, Susan Sontag, não queria ficar ausente dos debates, da inquietação. Sua admiração e seu respeito por Jorge Luís Borges se traduzem neste texto espirituoso, escrito em homenagem ao já então finado escritor argentino sob forma de carta. Desde 2002, Sontag faz companhia a Borges na “Biblioteca Total Celeste”.

12 de junho de 1996

Querido Borges:

Dado que sempre contemplaram sua literatura sob o signo da eternidade, não parece demasiado estranho enviar-lhe uma carta (Borges, faz dez anos). Se alguma vez algum contemporâneo pareceu destinado à imortalidade literária, este era o senhor. O senhor era em grande medida o produto de seu tempo, de sua cultura e, no entanto, sabia como transcender seu tempo, sua cultura, de uma forma que resulta bastante mágica. Isto tinha algo a ver com a abertura e a generosidade, próprias de sua atenção. Era o menos egocêntrico, o mais transparente dos escritores... e também o  mais artístico. Também tinha algo a ver com uma pureza natural de espírito. Ainda que tenha vivido entre nós durante um tempo bastante prolongado, aperfeiçoou as práticas do fastio e da indiferença, que também o converteram num viajante-especialista mental em outras eras. Tinha um sentido do tempo diferente dos demais. As idéias comuns de passado, presente e futuro pareciam banais sob seu olhar. O senhor gostava de dizer que cada momento do tempo contém o passado e o futuro, citando (se bem me lembro) o poeta Browning, que escreveu algo assim como "o presente é o instante no qual o futuro se derruba no passado". Isso, sem dúvida, era expressão de sua modéstia: seu contentamento em encontrar suas idéias nas idéias de outros escritores.

Essa modéstia se inseria na segurança de sua presença. O senhor era um descobridor de novas alegrias. Um pessimismo tão profundo, tão sereno como o seu, não necessitava da indignação. Melhor fosse inventivo... e o senhor era, sobretudo, inventivo. A serenidade e a transcendência do ser que o senhor encontrou, são para mim exemplares. O senhor demonstrou de que maneira a infelicidade não precisa ser uma necessidade, ainda que a perspicácia e o esclarecimento não nos livrem do terror de tudo isso. Em algum momento o senhor disse que um escritor - acrescentando delicadamente: todas as pessoas - deve pensar que qualquer coisa que lhe suceda, será um recurso. 
(Estava falando da sua própria cegueira).

O senhor foi um grande recurso para outros escritores. Em 1982 – quer dizer, quatro anos antes de morrer (Borges, faz dez anos!) – eu disse numa entrevista: "Hoje não existe nenhum outro escritor vivente que importe mais a outros escritores que Borges. Muitos diriam que é o maior escritor vivente... São muito poucos escritores de hoje que dele não aprenderam ou o não o imitaram". E isso continua sendo assim.  Ainda continuamos aprendendo com o senhor. 
Ainda continuamos a imitá-lo. O senhor ofereceu às pessoas novas maneiras de imaginar, ao mesmo tempo que reiterava, aqui e acolá, nossa dívida com o passado, sobretudo com a  literatura. O senhor disse que devemos à literatura praticamente tudo o que somos e o que fomos. Se os livros desaparecerem, desaparecerão a história e também os seres humanos.Estou convencida de que tem razão. Os livros não são apenas a soma arbitrária de nossos sonhos e de nossa memória. Também nos fornecem o modelo da autotranscendência. Alguns pensam que a leitura é somente uma forma de escapismo: um escape do cotidiano "real" a um mundo imaginário, o mundo dos livros. Os livros são muito mais do que isso.

Lamento ter de dizer-lhe que a sorte do livro jamais esteve tão ameaçada por semelhante decadência. São cada vez mais os que alardeiam o grande projeto contemporâneo da destruição das condições que tornam a leitura capaz de repudiar o livro e seus efeitos. Imagine-se aconchegado na cama ou sentado num canto tranqüilo de uma biblioteca, folheando lentamente às páginas de um livro à luz de uma lâmpada,  e à queima-roupa lhe dizem que daqui para a frente é nos “livros-tela”  que deverá  descarregar qualquer "texto" a pedido, e que poderá mudar  sua aparência, formular perguntas, "interagir" com esse texto. Quando os livros se convertam em "textos", com os que "interagiremos" segundo os critérios de utilidade, a palavra escrita se terá convertido simplesmente em mais um aspecto de nossas realidades televisivas, regidas pela publicidade. Este é o glorioso futuro que se está criando – e que nos prometem - como algo mais "democrático". Obviamente o senhor e eu sabemos que isso não significa nada menos que a morte da introspecção... e do livro.

Esses tempos sequer exigem uma grande conflagração. Os bárbaros não têm que queimar os livros. O tigre está na biblioteca. Querido Borges, entenda, por favor, que não me dá prazer queixar-me. Mas: a quem melhor poderiam estar dirigidas estas queixas sobre o destino dos livros - da leitura em si – senão ao senhor? (Borges, faz dez anos!) Tudo o que quero dizer é que sentimos sua falta. Sinto saudades do senhor. O senhor continua fazendo a diferença. Estamos ingressando em uma era estranha, o século XXI. Porá à prova a alma de maneiras inusitadas. Contudo, lhe prometo: entre nós alguns não abandonarão a Grande Biblioteca. E o senhor seguirá sendo nosso exemplo e nosso herói.

24 agosto 2014

Frederico Füllgraf - Aquele sábado com Emilie Schindler


Fotos: divulgação


Janeiro de 2012.

Foi há dezenove anos, e fazia um sábado sombrio nas planuras argentinas. 

Estávamos a caminho da cidadezinha de San Vicente, 70 km ao sul de Buenos Aires. Eu me sentia excitado, tinha marcado um encontro com uma personagem mitológica da História, tentando adivinhar o motivo de sua mudança da longínqua Europa para aqueles recônditos.

Marcelo Cantelmi, um dos editores do Clarín, me ligara para o Rio de Janeiro, dizendo, "che, te tengo una historia fascinante!". A referência atingira-me feito raio e em questão de dois dias eu pousava em Buenos Aires; no bolso, a encomenda da TV Alemã. 

Contudo, para localizar a a famosa, mas arcana personagem, fizeram-se necessários alguns lances detetivescos. Meu primeiro contato fora Raúl Colman, repórter do Pagina 12, que descobrira o paradeiro de Emilie, mas me aconselhara pedir a intercessão de um terceiro jornalista. Quem fez a ponte e me anunciou por telefone, foi Max Finkelstein, judeu berlinense que, fugindo dos nazistas, alcançara a América Latina através do Expresso Transsiberiano, via Rússia e Japão, e que depois de caçar onças e animais exóticos na selva boliviana para exportadores de peles, aportara em Buenos Aires na década dos anos 1950, trabalhando para ae agência de notícias DPA, antes de tornar-se o editor do “Semanário Israelita”, em língua alemã.


Com o mapa rodoviário no colo, eu tentava dar indicações para Leticia Vota, minha companheira, que ao volante ziguezagueava pela paisagem. Pela estrada que segue a La Plata, cortando em linha reta o início da pampa, entediante e tristonha, finalmente alcançamos San Vicente. Jan Pablo, nosso filho, com ano e meio de idade, dormia o sono dos justos em sua cadeirinha sobre o banco traseiro do carro.

De repente, lá estava o endereço, Calle San Martín 353; uma casa muito simples (essa da foto), num bairro humilde. 

Baixei do carro, aproximei-me do portão e toquei a campainha. O sangue martelava em minhas têmporas... Passados alguns segundos, uma anciã, cabelos grisalhos, curtos, de estatura baixa, corpo encurvado, apareceu na soleira da porta da casa, baixou os poucos degraus para a calçada e veio abrir o portão. Cumprimentou-me com um ligeiro sorriso, estendeu-me a mão  calejada, e seus olhos faiscavam um estranho brilho aconchegante.


Reparei que Dona Emilie arquejava ao caminhar e quando ela  abriu a porta da sala, espantei-me com a turba de dezoito gatos, que me apresentou, nome por nome, e que, miando e ronronando, enroscavam-se em suas pernas, dificultando ainda mais seus passos pela casa. 

Contou-me que vinha padecendo de uma inclemente osteoporose que lhe triturava as articulações e principalmente os ossos da coluna. Mas não se deteve em ir à cozinha várias vezes, para servir-nos café e um farto prato com pão e frios, que os gatos, já gordos mas desavergonhados, insistiam em devorar, o que eu, constrangido,  não queria comer. 

Chamou-me atenção a modéstia de seus aposentos, hermeticamente fechados, para isolar as fatais correntes de ar para a octogenária , mas era forte o odor do xixi dos gatos, mesclado com os gases do óleo diesel da estufa, que aquecia sofrivelmente a sala, na qual estávamos sentados naquele sábado, frio e chuvoso. 

Percebi que, apesar da fama internacional, Emilie Schindler levava a vida de uma mulher pobre. 

Eu trazia nas mãos um exemplar de “Schindler’s List”, do australiano Thomas Keneally, imaginando que, tanto a edição do livro, quanto a compra dos direitos do mesmo por Steven Spielberg para a roteirização do filme homônimo, lhe tivessem rendido uma polpuda reserva. Boquiaberto, ouvi seu relato queixoso de que o bestseller de Keneally, que já vendera centenas de milhares de exemplares mundo afora, lhe rendera míseros 25 mil dólares, com os quais estava pagando tratamento médico. Pior: Spielberg argumentara ao advogado de Emilie que, com a aquisição dos direitos cinematográficos pagos a Keneally, teria "quitado" sua conta com os Schindler. Emilie não deixou barato, anos mais tarde processando Spielberg.


Mas por que a Argentina - e por que exatamente a mudança para San Vicente?


- Porque não tínhamos mais a cidadania alemã e porque as únicas pessoas dispostas a apoiar-nos eram uns poucos judeus alemães que viviam na Argentina - explica, ajuntando: - E nos deram uma granja de presente, com um pequeno aviário. Mas Oskar protestou, a última coisa que faria na vida era criar galinhas, não tinha nascido pra aquilo! Vivia chateado, entediado, disse que precisava voltar a rodar o mundo, e ao cabo de uns oito anos aqui, um dia me surpreendeu: - "vou me embora!". Despediu-se e nunca mais voltou...

Cinqüenta anos para emergir da sombra de Oskar

Apesar dos dezenove anos que transcorrem desde minha visita, impossível esquecer alguns detalhes: a pintura descascada das paredes da casa, os móveis velhos e mal conservados, as roupas de Emilie, surradas e puídas, seu cabelo desgrenhado e o rosto profundamente vincado por rugas – a tudo aderia a fuligem pastosa da dor feita indiferença, incorporada com resignação. 

Pareceu-me ansiosa em contar sua história, com frases repetitivas e um olhar fixo, perdido no aparente nada, talvez cravado naquele pátio de fábrica em Cracóvia, capaz de aprisionar o tempo nos objetos que a cercavam; tempo que eludia das fotos que, com emoção reprimida, ia retirando de uma caixa de sapatos, estendendo-as sobre a mesa. As fotos remontavam ao final dos anos 1930, na Morávia, República Tcheca, revelando uma jovem mulher vencedora, filha de pais ricos, que apostara todas suas fichas para ser feliz ao lado de Oskar.

Mas o depois, assim insinuavam as duas rugas de amargura nos cantos de sua bonita boca, dilatara-se em intermináveis dias, meses, anos, décadas de espera. Naqueles cantos da boca refugiara-se a pergunta que não queria calar: "por que Oskar me deixou?"

Quando eu lhe disse que uma foto em preto e branco, abraçada ao galã Oskar, batida em frente de sua casa na Morávia, com o carimbo do ano de 1938 ainda legível, me arrancara suspiros, pois era acachapante sua semelhança com Lauren Bacall, Emilie esboçou um sorriso fugaz, logo espantado por um aceno de desdém. - Mas ele sempre viveu pendurado em outras saias! - grunhiu.


Oskar Schindler e "outras saias"

Ao despedir-me daquele primeiro encontro, já parado do lado de fora do portão, perguntei-lhe se poderíamos gravar seu memorável depoimento, que semanas depois seria transmitido pela Deutsche Welle TV mundo afora, em alguma estação de trens de San Vicente. Expliquei-lhe que eu tinha imaginado a despedida de Oskar, em 1957, em uma plataforma de trem. Além do mais, eu guardava em minha memória as fantasmagóricas imagens de estações de trem e o ranger metálico, gritado, das rodas dos vagões carregados de judeus, em lento movimento, rumo aos campos de extermínio. Terror à parte, eu lhe disse: nos filmes antigos os amantes não costumavam despedir-se numa estação de trem? A octogenária sorriu cinicamente, destruindo meu roteiro: - Não foi nada romântico, não. Ele apenas acenou, aí do lado de fora do portão, onde o sr. está parado, virou as costas e partiu! Foi assim que eu o vi pela última vez.

Disse isto com um esgar no canto esquerdo da boca, onde sangravam  cinquenta anos de espera pela volta de seu amor. 

Voltei ao carro e, enquanto rumávamos de volta a Buenos Aires, esforcei-me em dissimular, reclamando do “vento” que debaixo dos óculos escuros me arrancava lágrimas dos olhos. 

A imagem dos trens se instalara de forma tão insistente em meu imaginário que, ao retornar a San Vicente, três dias depois, com minha equipe de TV, teimei em documentar a única estação, onde há anos já não circulavam trens, cujo sino estava enlaçado por uma imensa teia de aranha e cujos trilhos pareciam vir do nada e ir para lugar nenhum.

No filme, usei esta imagem como metáfora de Emilie, la olvidada, cujo ilimitado amor, há muito amalgamado com indignação e fel, escapou-lhe dos lábios, quando mal nos tínhamos acomodado debaixo de um pessegueiro em flor, para gravar a entrevista em seu jardim. 

Apontando para uma pequena elevação de terra coberta de grama, no fundo do pomar, disparou, secamente: - Sabe o que é aquilo? Aquela é a cova do meu cachorro, mais digna e florida que o túmulo de Oskar em Jerusalém. Lhe garanto: ele não merecia outra coisa ! - blasfema.




J.L.Godard: "Spielberg ganhou milhões, mas a sra. Schindler continuou pobre!"

A heroína omitida

Uma por uma, Emilie espinafrou as afirmações do livro de Keneally, que eu mantinha no colo e folheava para as perguntas, que ela respondia diante da câmera. 

O que mais me impressionou e repercutiu mundo afora, foi sua descrição dos enfrentamentos verbais que afirmou ter tido com Amon Göth, o comandante SS do campo de concentração de Cracóvia:  - Certa noite, durante um jantar em nossa casa, quando ele falou aquela baboseira toda, com aquela empáfia patrioteira, sobre a necessidade de sermos ‘bons alemães e esquecermos os judeus’ etc. e tal, pedi-lhe que fosse embora, caso contrário eu lhe meteria a mão na cara, ali mesmo – e ele levantou-se e foi ! - disse, olhando para a câmera, desafiadora, ajuntando:  - O Oskar comia pelas bordas, mas eu não tinha medo daqueles caras, eu os enfrentava! - advertiu.

Com atitudes assim destemidas, Emilie protegeu e salvou, inicialmente, 330 judeus – homens, mulheres e crianças – do extermínio na Polônia ocupada. É que lhe coube decidir, se um grupo de 330 judeus, que já se encontravam presos num trem, deveria seguir para um campo de extermínio, ou ficar com ela, "para trabalhar na fábrica", um subterfúgio contrabandeado para a negociação com os hierarcas nazistas:  - Na realidade, eles estavam muito fracos para trabalhar, mas eu disse aos guardas que precisava deles, assim mesmo, e daí começamos a enterrar os mortos e a tratar dos que estavam esgotados e doentes.

Diante do avanço das tropas soviéticas sobre a Polônia, Oskar e Emilie desarmaram sua fábrica em Cracóvia e a reergueram em Brünnlitz, atual República Tcheca. Remontando em sua memória um cenário de filme de mocinho e bandido, Emilie descreve de forma divertida, como corrompeu com jóias a oficiais e guardas da Wehrmacht e da SS em Brünnlitz, e como conseguiu contrabandear cereais para alimentar os judeus que trabalhavam na fábrica:
- Quando as jóias acabaram, usei vodca para corromper o próprio dono do moinho de cereais, vodca que tínhamos trazido de Cracóvia ! - excitou-se, como se as cenas tivessem ocorrido na noite anterior. 

Com muita persuasão, a justificativa perante a SS “colou” e assim os Schindler conseguiram salvar “seus” judeus da morte.


A impostura de Spielberg

É vã, porém, a tentativa de encontrar estas cenas protagonizadas por Emilie Schindler na “Lista” de Spielberg. Simplesmente porque o diretor hollywoodiano não realizou nenhuma pesquisa adicional ao livro de Keneally, e foi o escritor quem cometeu as graves omissões, limitando-se a entrevistar Oskar, enquanto vivo na Alemanha, e seu ex-assistente em Cracóvia, o judeu Isaac Stern, que elaborara a famosa lista, e que depois da 2a. Guerra emigrara para os EUA. Pior: não tivesse sido Stern - em cuja loja Keneally comprara uma mala e que o seduziu para escrever o livro, para o qual Stern e Oskar tanto buscavam um autor - e Emilie não teria recebido um tostão furado de direitos autorais da venda do livro – por decisão de Oskar - daí sua grande amargura.



Disse-nos Emilie diante da câmera da Deutsche Welle TV:  - Oskar ‘privatizou’ a história da lista, como se tivesse sido seu único protagonista. Nunca me informou que um livro estava sendo escrito e foi graças à decência do Sr. Stern, que advertiu a editora sobre a minha pobre vida na Argentina, que acabei recebendo 20 mil dólares. 

Muito antes de Spielberg, um grande diretor, de fato,  estava apaixonado pela estória, e esta, assim como a vida de Emilie, poderiam ter tomado um rumo completamente diferente. O diretor chamava-se Fritz Lang, o lendário criador de "Metropolis".


Só com muito esforço consegui evitar, pouco antes da estréia do filme de Spielberg, que da entrevista televisiva com Emilie fosse suprimida (censurada, por temor a pressões) sua explosiva denúncia, de que até o final de 1993 não havia recebido nenhum níquel de direitos autorais de Spielberg – acusação renovada contra Spielberg no Festival de Cannes de 2001, pelo cineasta Jean Luc Godard, através de um personagem de seu filme “Elogio do Amor”. 

Pressionado, em 1996 Spielberg resolvera remeter 50 mil dólares à anciã, mas esta levou adiante sua denúncia, que ganhou os foros da Justiça, quando Emilie passou a reivindicar 6% de participação na exploração comercial internacional d’ “A Lista”, que faturou US$ 417,3 milhões de dólares de bilheteria, mundo afora. 

O processo, porém, nunca progrediu e Spielberg ficou lhe devendo até a morte, o que constitui um dos episódios mais antiéticos da história de Hollywood. Não teria custado nada ao oportunista e mais rico dos diretores norte-americanos, gratificar com justiça a grande, porque – comparativamente a Oskar Schindler - modesta e arredia heroína da lendária “Lista”, que durante décadas vegetou socialmente no anonimato de San Vicente, e que continuava pobre, enquanto a “Lista” enriquecia Spielberg. 

São comoventes, por outro lado, as formas através das quais a Argentina, seu país anfitrião, a tratou do primeiro ao último dia sua permanência. Durante mais de 20 anos a comunidade judaica de Buenos Aires custeou suas necessidades básicas com habitação. Foi o Congresso argentino quem a declarou “Cidadã Ilustre da República Argentina” em 1999, foram os jogadores do River Plate quem lhe ofertaram uma cadeira de rodas, quando Emilie já não podia mais caminhar, e foi na Argentina, finalmente, onde Emilie conseguiu publicar seu livro de memórias.

É hilariante que, apesar d’ ”A Lista” de Spielberg e do cerco televisivo, Emilie só tenha conseguido quebrar o anonimato com sua autobiografia - “Eu, Emilie Schindler” - redigida por Erika Rosenberg e lançado internacionalmente na Feira do Livro de Frankfurt de 2001. 


O que fez Emilie retornar à Alemanha, alguns meses antes, foi aquele instinto de animal moribundo, que busca o chão da infância para seu último suspiro. Nos bastidores, entretanto, voltara a travar uma batalha jurídica inteiramente nova: a posse da Mala de Schindler, encontrada no sótão de uma casa na cidade alemã de Hildesheim, pelos filhos de uma “confidente” de Oskar, falecida em 1999. 

A mala havia sido presenteada por Oskar à “amiga”, e continha nada mais e nada menos que os originais da famosa Lista, datilografados por Stern, várias cópias do valioso documento, mapas, fotos e intensa correspondência trocada ao longo de quase vinte anos, desde que deixara a Argentina. Como a mala fora entregue ao jornal Stuttgarter Zeitung, que publicou o material em forma de série, sem consulta a Emilie, esta processou o jornal e reivindicou tanto a posse da mala, como uma indenização no valor de 100 mil Marcos. Através de um acordo, conseguiu um acerto sobre 25 mil, mas a mala já estava depositada no Memorial Jad Vashem, em Israel. 

Até o final de setembro de 2001, Emilie Schindler lutou pela transferência definitiva da lendária mala para a Casa da História da República Federal da Alemanha, em Bonn, mas um derrame a fulminou antes que se regozijasse pelo resgate – de sua própria história e de seus adereços.

Faz onze anos que Emilie Schindler morreu. Faleceu poucos dias antes de seu 94o.  aniversário, numa clínica na cidade de Strausberg, a poucos km de Berlim. Morreu realizando um sonho fragmentado, o do retorno à sua pátria; amarga pátria de ontem. Não a via desde 1949, e quando chegou, disse, fascinada:  “Deutschland ist sehr schön, ich möchte hier bleiben! - A Alemanha é muito bonita, quero ficar aqui”. 

Seu projeto mais importante, porém, o resgate de seu verdadeiro papel histórico na salvação de 1.700 judeus virtualmente condenados à morte, só lentamente emergia das sombras, para as quais “historiadores”, cronistas e Hollywood a haviam empurrado.