12 abril 2013

Frederico Füllgraf - O chofer de Pablo Neruda


Foto Manuel Araya: F.Füllgraf




Pablo Neruda´s driver


Semanas atrás, na casa do líder pescador, Cosme Caracciolo - personagem principal do filme “Camarada Océano”, que está sendo rodando no Chile, Equador e Espanha - foi-me apresentado um senhor que, encontrado na ruas de São Paulo, de Lima ou de Santiago do Chile, não chamaria atenção: moreno, de estatura abaixo da mediana, calvo, com expressão ligeiramente tímida no rosto, ele se confundiria com milhões de latino-americanos à sua semelhança.

Contudo, quando Manuel Araya, que não tem qualquer parentesco com seu duplo - o “Loco Araya”, lendário goleiro do futebol chileno - começa a falar, sua expressão contida se revela mera defesa diante do desconhecido, e dela brotam a espontaneidade e jovialidade sincera que os campesinos trazem no sangue. Não, diz ele, “a mi no me gustaba el campo, porque los dueños de fundos maltrataban mucho a los campesinos, y yo no quería ser maltratado, por eso mi familia se mudó para la ciudad”.

Ele foi chofer, segurança e mensageiro do Prêmio Nobel de Literatura, Neftalí Ricardo Reyes Basoalto, popularmente conhecido por Pablo Neruda, por obséquio do Partido Comunista chileno, do qual Neruda era membro histórico e candidato à Presidência; candidatura da que abriu mão para favorecer Allende.

Araya mora a poucas quadras da casa de Caracciolo, em San Antonio, tradicional “caleta” (baía) de pescadores, distante 100 km de Santiago e
60 km de Valparaíso, hoje, o mais importante porto de contêineres do Chile.

Um pescador pede que escrevam um livro

Então Araya juntou-se à mesma mesa de almoço, onde, dois anos atrás, Caracciolo o convencera de “botar pra fora” a estória de sua solitária luta: a exumação dos restos mortais de Pablo Neruda – ou “el compañero Don Pablo”, como diria Don Manuel, para, finalmente, provar que o poeta não morrera de morte morrida e, sim, matada.

Caracciolo conhecia o jornalista investigativo Francisco Marín, correspondente no Chile do jornal “Proceso”, do México e, juntando Araya e Marín em torno da mesma mesa, escreveram o livro de reportagem "El doble asesinato de Neruda" (vide capa), que prontamente recomendei à Geração Editorial, de Luis Fernando Emediato.

O livro é uma denúncia contundente contra a Clínica Santa María, onde desapareceu a ficha médica de Neruda, lá internado no dia 18 de setembro de 1973, uma semana após o sanguinário golpe do general Augusto Pinochet, que deprimira o poeta.

Golpe militar, prisão de Araya e morte de Neruda

Em companhia da ex-bailarina de Chillán e terceira esposa de Neruda, Matilde Urrutía, no 18 de setembro de 1973, Araya subira de Isla Negra para Santiago trazendo a bordo a Neruda, que não se sentia bem. Em trama paralela, o embaixador do México no Chile articulara entre seu governo e os golpistas chilenos a saída de Neruda para o exílio no México. Neruda aceitara, relutante, a saída do Chile “porque no quería abandonar a su pueblo”, me contou Araya, ali à mesa. Finalmente, Neruda acabou aceitando a ideia do exílio, afinal de contas em frente à praia de Isla Negra estacionara uma nave da marinha chilena e apontara seus canhões para a casa do poeta. Canhões contra a poesia - inacreditável!

Com o telefone cortado, isolado e ameaçado, Neruda resolvera internar-se na clínica de Santiago, para exames, porque no dia 22 de setembro, aterrissaria um avião do Governo Mexicano, especialmente fretado para buscá-lo e decolar no dia 24 de setembro. Na tarde do dia 23, o médico que atendia Neruda, pediu a Araya que fosse comprar alguns medicamentos. Araya partiu rumo a uma farmácia e nunca mais voltou: no caminho, o Citroën de Neruda foi fechado, Araya arrancado dele aos pontapés e coronhadas e, depois de levar um tiro na perna esquerda, conduzido ao famigerado Estádio Nacional, onde permaneceu durante longos meses. No dia seguinte, 24 de setembro, um párroco lhe contou que Neruda havia morrido.

Quando reconquistou a liberdade, em 1974, iniciou seu mergulho nas circunstâncias da morte de seu patrão e protetor (Araya é filho de camponeses pobres) e foi documentando tudo o que lhe parecera estranho: o estranho pedido para que fosse comprar medicamentos, o laudo médico apontando o câncer de próstata em estágio benigno como causa-mortis, o desaparecimento da ficha médica de Neruda, e tantas, tantas outras irregularidades e mistérios. E pasmemos: assombrosamente, na mesma clínica, faleceria 8 anos mais tarde o ex-presidente democrata-cristão, Eduardo Frei Montalva. Transcorridos 30 anos, seus familiares pressionaram a Justiça e conseguiram sua exumação. Esta confirma que Frei foi mesmo assassinado; o Presidente, por envenenamento, Neruda com uma injeção letal no estômago. Ambos nas mãos do mesmo médico. Somando 2+ 2, então Araya convenceu-se de um atentado.

O Partido adere à causa de Araya

Observadores incrédulos, mas também o jornalista investigativo, perguntam-se, por que Araya demorou 40 anos para fazer a denúncia. Mas a pergunta não procede, ele vem denunciando o suposto assassinato do poeta desde 1974. Que não tenha tido o respaldo necessário, deve-se à ditadura que durou até 1991, e depois dela, ao medo ainda persistente, pois no Chile não é como na Argentina: salvo algumas exceções, os assassinos estão soltos. Mas houve também dois antagonistas que barraram as revelações de Araya: Matilde Urrutía, mulher avessa à militância na esquerda, e a Fundação Neruda, que detém todos os direitos sobre a obra do Nobel e é acusada gravemente de corrupção e mercantilização do nome de Neruda.

Em 2011, finalmente, a luta de Araya ganhou a adesão do PC, cujo advogado, Eduardo Contreras, é autor da ação criminal presidida pelo Juiz Mario Carroza, que determinou a exumação ocorrida no último dia 7 de abril.

Nesta data, junto à casa de Neruda em Isla Negra, iniciamos as filmagens de “O chofer de Neruda”, com estreia prevista para 2014.



Nerudas Fahrer 
German version 


Während der Drehvorbereitungen für einen Dokumentarfilm über nachhaltige Fischerei in Chile, im Hause Cosme Caracciolos, der Hauptfigur des Films, lernte ich vor einigen Monaten in der Hafenstadt San Antonio, ca. 100 km von Santiago entfernt, Nobelpreisträger Pablo Nerudas ehemaligen Fahrer und Bodyguard, Don Manuel Araya, kennen.

Araya ist die Schlüsselfigur Nerudas neuerlicher Exhumierung; die dritte seit seinem Tode im September 1973.

Als Spross einer armen Landarbeiterfamilie, die in den 1950er der Zukunftslosigkeit entgegen blickte und sich mit einem UmzugJahren in den Fischereihafen San Antonio bess´re Tage erhoffte, wuchs er wenige Kilometer entfernt von Nerudas Domäne in Isla Negra auf.

Nach zweijähriger Amtszeit als Botschafter Chiles in Paris, kehrte Pablo Neruda 1972 überraschend nach Chile zurück, wo er enger mit der Regierung Salvador Allendes, dem er 1970 seine eigene Präsidentschafts-Kandidatur geopfert hatte, zusammen arbeiten wollte.

Manuel Araya war damals gerade 26 Jahre alt, diente dem chilenischen Parlament und wurde Ende 1972 in dieser Fuktion von der Kommunistischen Partei Chiles ihrem erlauchtesten Mitglied, Pablo Neruda, zugestellt.

Die Begegnung von Fahrer und inzwischen vielübersetztem und weltberühmten Dichter war schnell von einer Verbundenheit geprägt: Die gemeinsame Herkunft aus armen Verhältnissen. Neftalí Ricardo Reyes Basoalto war als Sohn eines einfachen Bahnarbeiters, José del Carmen Reyes Morales, 1904 im zentralchilenischen Parral geboren worden und ohne Mutter, der kurz nach seiner Geburt verstorbenen Volksschullehrerin Rosa Basoalto Opazo, aufgewachsen. Als Hommage an den Prager Novellisten des XIX. Jh., Jan Nepomuk Neruda, hatte er sich bereits als Heranwachsender den Pseudonym „Pablo Neruda“ zugelegt und später als offiziellen Namen urkundlich gemacht. 1906 zogen Vater und Sohn nach Temuco, in Araukanien, wo Neruda seine ersten Gedichte schrieb. Doch auch die Rückehr in die Provinz Maule verbesserte das Leben der Reyes nicht, Aussichten auf eine verdientere Zukunft beseelten Neruda erst im fernen Santiago.

Als nun der junge Araya zu ihm stiess, wusste Neruda wovon sein Fahrer sprach, wenn er sagte, „a mí no me gustaban las humillaciones – ich liebte die Demütigungen nicht“. Die Armut als gemeinsame Jugendgefährtin förderte ihre Freundschaft.

Und dann passierte es: Am 14. September 1973, einen Tag nach dem Militärputsch, überfielen sie Nerudas Haus; zuerst das Heer, dann die Marine. Jede Menge teurer Mitbringseln aus dem Ausland liessen die Militärs mitgehen, Nerudas Eigentum wurde geplündert. “Angeblich suchten sie nach Waffen und Führern der KP, die Neruda vesteckt haben sollte“, erzählt Araya im Ton der Aufregung, so als wäre er gerade erst aus dem Albtraum erwacht. „Als Nobelpreisträger und Diplomat, dachte ich, sei Neruda unantastbar, aber das Vorgehen der Militärs belehrte mich eines Neuen!“.

Am 18. September 1973, bekamen Matilde Urrutía, Nerudas dritte Ehefrau, und Araya es mit der Angst zu tun: Ein Kanonenboot hatte vor dem Strand von Isla Negra Position bezogen und seine Geschütze auf des Dichters Haus gerichtet. „Da er ausserdem deprimiert war über Allendes und des Sängers Victor Jaras Tod, beschlossen wir ihn in die Prestigeklinik Santa María, in Santiago, einzuliefern.“

In einer Nebenhandlung, hatte Mexikos Botschafter, Gonzalo Martínez Corbalá, Vorbereitungen für Nerudas Exil getroffen: am 22.September landete eine offizielle Maschine der mexikanischen Regierung auf dem Santiagoer Flughafen Pudahuel, um Neruda am nächsten Tag auszufliegen; das Unternehmen war offenbar mit den Putschisten abgesprochen. „Zunächst wollte der Dichter nicht, er sagte, er könne doch nicht  sein Volk im Stich lassen“, erinnert sich Araya. Doch am 21.September willigte Neruda ein und bat Matilde, sie möge nochmal nach Isla Negra fahren, um Bücher, Bilder und Garderobe einzupacken. Matilde fuhr mit Araya die Sierra herunter. Doch schon am nächsten Morgen liess Neruda sie ans Telefon eines Nachbars rufen, sie sollten umgehend zurück in die Klinik kommen, es ginge ihm schlecht.Apúrese Manuel que la inyección le hizo mal a Pablo – Beeilen Sie sich, Manuel, die Spritze ist Pablo schlecht bekommen", drängte Matilde Urrutía den Fahrer auf der überstürzten Rückfahrt nach Santiago.

Ausser Atem vor dem Bett Nerudas stehend, habe der Dichter Araya einen Spritzeneinstich auf Magenhöhe gezeigt und gesagt, die Spritze habe Schmerzintensivierend gewirkt. War es Dipirona? Man weiss es bis heute nicht, Nerudas Behandlungsschein ist spurlos verschwunden – der Ungereitmheiten blosse Vorgeschichte, die Arayas Misstrauen schärfte.

Doch der Fahrer wurde vom wachhabenden Arzt in eine Apotheke geschickt, um neue Medikamente zu holen. Kaum war er wenige Häuserblocks abgefahren, wurde Nerudas Citroën von zwei Zivilfahrzeugen gerammt, Araya unter Fusstritten und Kolbenschlägen aus dem Wagen gezerrt und, auf  dem Boden liegend, ins linke Bein geschossen. Blutend, wurde er zum Massen-KZ improvisierten Estadio Nacional in Santiago verschleppt. Am nächsten Tag, den 24. September, erzählte ihm ein  Kirchenmann, Neruda sei tot. Araya wurde indes mehrere Monate lang weiter misshandelt.

Als er 1974 seine Freiheit erlangte, stürzte er sich in die Untersuchung der Umstände vom Tod seines Arbeitgebers. Die Verdachtsindizien verdichteten sich: Nerudas Behandlungsakte war in der Klinik verschwunden, der nach der Spritze angetroffene Arzt, Dr. Sergio Draper, hatte die Spritze aber nicht selbst verabreicht, die Anwesenheitsliste des am 23.September 1973 in der Klinik tätigen Personals war nicht mehr aufzufinden, der Name des eingespritzten Medikaments blieb ein Rätsel, und einen gewissen „Dr.Price“, der Neruda die Injektion verabreicht haben soll, gab es weder in der Klinik, noch im gesamten  Chile. „Dr.Price“ war das Neruda-Phantom.

Den Höhepunkt der Ungereimtheiten bildete der Sterbeschein der Klinik: Neruda habe nur noch 40 Kg gewogen, hiess es in der Urkunde. „Völliger Irrsinn!“, entgegnet Araya: „Neruda wog in jenen Tagen 123 Kg, so  habe ich ihn in Erinnerung - wie sollte er in wenigen Stunden 80 Kg ´abgenommen´ haben!“. Dann meldete sich der damalige Botschafter Gonzalo Martínez Corbalá zu Wort und attestierte Pablo Neruda während seinem Besuch in der Klinik exzellente Laune und gute körperliche Verfassung, von einer akuten Entwicklung des Prostata-Krebses könne keine Rede sein.

Doch Chile wurde hellhörig, als im Januar 1982 in der gleichen Klinik und in den Händen des gleichen Arzets, der christdemokratische, von der Konrad-Adenauer-Stiftung gestützte, ex-Staatspräsident Eduardo Frei Montalva auf unerklärlkiche Weise verstarb.
Matilde Urrutía aber schlug Arayas Attentats-These in den Wind, und kündigte sein Arbeitsverhältnis. „Sie schenkte mir Nerudas Citroën und sagte, ´auf daß Sie nie wieder behaupten, Pablo sei ermordet worden!´.  Vielleicht fürchtete sie um ihr Leben“. Matilde Urrutía verstarb 1985 im unfesten Glauben, Neruda sei an den Folgen des bereits in Paris diagnostizierten, doch kontrollierten Prostata-Krebs´ gestorben. Es war unfester Glaube, auch sie war inzwischen skeptisch geworden. Achtmal habe er dann die KP auf seine Vermutungen angesprochen, seufzt Araya, doch selbst dort wollte ihm keiner so recht folgen.

Für Araya verstrichen die Jahre in einsamer Pein.

Doch der Fischer Cosme Caraciollo hatte einen plötzlichen Einfall: Er brachte seinen Nachbar Araya mit dem Journalisten Francisco Marín, Korrespondent der mexikanischen Wochenzeitung „Proceso“, zusammen, und Marín schrieb jenen Artikel vom 31.Mai 2011 – „¿Mataron a Neruda?“ – der mit dem Buch „El doble asesinato de Neruda“ (Ocholibros, 2012) den Stein ins Rollen brachte.
Nun wurde auch der Santiagoer Anwalt Eduardo Contreras hellhörig und erstattete bereits nach seinem ersten Gespräch mit Araya Anzeige wegen Mordverdacht. Dem schlossen sich auch Nerudas Verwandte aus der väterlichen Reyes-Linie an und forderten von Richter Mario Carroza, der bereits die Umstände Salvador Allendes´ Tod aufzuklären versuchte, die Exhumierung des Dichters.

Neruda war im September 1973 sofort auf dem Zentralfriedhof in Santiago beigesetzt worden – ohne jegliche Autopsie. Siebzehn Jahre später wurden seine angeblichen, sterblichen Reste von Santiago nach Isla Negra umgebettet.

Die These Arayas - der sich Marín, Contreras und Rodolfo Reyes, Anwalt und Neffe Nerudas, anschlossen - besagt, die Militärs um Pinochet hatten es sich anders überlegt als sie begriffen, daß Neruda eine Exil-Regierung mit weltweiter Unterstützung ausrufen würde, die das rasche Ende der blutigen Diktatur besiegelt hätte. „In vier Monaten ist Pinochet von der Macht weggefegt!“ - dieses Szenario habe ihm Neruda selbst noch auf dem Krankenbett zugeflüstert, behauptet Araya.

Der Kampf Manuel Arayas hatte es an sich, er ist der Wahrheit einen gewaltigen Schritt näher gekommen. Jedoch, daß es nach all diesen Jahren und Umbettungen technisch möglich sein dürfte, festzustellen, ob Chiles grossem Dichter  Medizin oder Todesmittel – und sei es die Überdosis eines Schmerzlindernden Mittels – injiziert wurde, scheint kaum noch eine realistische Hoffnung zu sein.

15 março 2013

John Wight - Argentina's Claim Over the Falkland Islands Is Legitimate



The longstanding dispute over the sovereignty of the Falkland Islands in the South Atlantic between Britain and Argentina is once again in the news; this time as a result of an open letter to David Cameron from Argentina's president Cristina Fernandez de Kirchner,published in the Guardian. In her letter, the Argentinian president accuses Britain of having taken possession of the islands - known in Argentina as Las Malvinas - in a "blatant exercise of 19th century colonialism."

Any objective rendering of the history of the Falklands reveals that she is right.
Located 300 miles from Argentina and over 8,000 miles from Britain, the Falkland Islands have long been the subject of territorial dispute. At the beginning of the 19th-century Spain held sovereignty over the islands, occupying them for 40 years up until 1811, after which its former colony of Argentina asserted sovereignty. The islands came under British control in 1833, when seized by force, and have remained a British territory ever since.
Britain's act of colonialism over its seizure of the islands has been admitted to in private by various British officials over time. For example, John Troutbeck, then head of the FCO's American department, outlined the problem surrounding Britain's control of the Falklands in a memo in 1936. He wrote that "our seizure of the Falkland Islands in 1833 was so arbitrary a procedure as judged by the ideology of the present day. It is therefore not easy to explain our possession without showing ourselves up as international bandits."
In 1982 the war against the then Argentinian government's attempt to seize back the islands by force cost the lives of 258 British and over 600 Argentinian servicemen. It proved a turning point in the fortunes of the nascent and up to then deeply unpopular Tory government led by Margaret Thatcher. Jingoism swept the country, allowing Thatcher to press ahead with the structural adjustment of the UK economy, which in the process devastated working class communities and delivered a resounding defeat to the trade union movement over the course of a series of hard fought strikes and industrial disputes throughout the early and mid 1980s.
Yet what we know now, thanks to recently released government papers, is that Thatcher's projection of steely determination when it came to asserting Britain's right to the islands by force in truth belied a willingness to seek a diplomatic solution with the Argentinians prior to their military assault.

The argument against British sovereignty of the Falklands was harder to make in 1982. Back then Argentina was governed by a brutal military junta which had ruthlessly suppressed any and all dissent to its authority at home. Three decades on, however, the situation is markedly different. Argentina is now a centre-left democracy, one of a series of progressive governments that have swept the region over the past decade or so, and is pursuing its claim via diplomatic means. Moreover, her claim is supported by its neighbours and fellow members of Mercosur, the trading bloc of South American states.
Regardless, the current British government refuses to negotiate, citing the democratic rights of the 3,000 British citizens who currently inhabit them. It should be noted here that according to a census carried out on the Falkland Islands in 2006 only a third of its residents were born there. It should also be noted that the same rights were not granted to the inhabitants of another distant British colony, the islands of Diego Garcia in the Indian Ocean. The islanders in question, Chagossians, were forcibly repatriated to Mauritius, a thousand miles away from their home, to make way for a US airbase in the mid 1960s. Subsequently, the islanders and their dependants fought and won a historic High Court judgement in 2000, declaring their expulsion illegal.
However, in response the then Blair government promptly rejected any possibility of them being allowed to return to the island, citing Britain's treaty with the US which had handed the islands over for use as a military airbase. That the former inhabitants of Diego Garcia happen to have dark skin while the 3,000 residents of the Falkland Islands are white, English speaking colonists, is of course completely irrelevant.
The truth is that when it comes to the Falklands self determination is being used as a smokescreen. The real issue is the sizeable oil and gas deposits located in waters close to the islands, where drilling began by British oil companies in 2011. In 1995 both countries signed a joint declaration to cooperate on off shore oil explorations in the South Atlantic. In 2007 Argentina voided the declaration because Britain refused to view it as a step towards meaningful negotiations over sovereignty.
Any British government must be aware that it risks precipitating a South American trade embargo if it continues with an obdurate and intransigent stance of refusing to budge from the status quo. This is a region which has emerged from centuries of European and North American domination and is determined to assert its rights accordingly. Seen in this light the ability of 3000 people living on a tiny group of islands in the South Atlantic to dictate the foreign policy of a nation of 60 million over 8000 miles away, up to and including war, is surely absurd.

The Falkland Islands constitute one of the last remnants of British colonialism, part of a history of economic piracy stained with the blood of millions who suffered as a consequence. The sooner this history is brought to a close the better.

Fonte: The Huffington Post,  04/01/2013

Londres sabe desde 1910 que no tiene derecho sobre las Malvinas




En 1910 y en 1936, funcionarios y abogados el Foreign Office emitieron dictámenes que ponían en duda los títulos británicos para retener las Malvinas. “No es fácil explicar nuestra posición sin quedar como bandidos internacionales”, decía un memorando de 1936. Gran Bretaña nunca aceptó un arbitraje porque su posición tenía “ciertas debilidades”, y las islas debían ser conservadas “por razones estratégicas”.

A poco de planteada la crisis de las Malvinas, el gobierno británico removió todos los documentos sobre las Falklands que se hallaban en el Public Record Office: un archivo de papeles oficiales accesibles al público.

El Sunday Times reveló el 20 de junio de 1982 que, entre los documentos trasladados al Foreign Office, figuran varios en que los funcionarios de la propia cancillería británica pusieron en duda el derecho del Reino Unido sobre el archipiélago.

Ésta es una lista de los papeles que prueban las “dudas secretas” de la diplomacia inglesa acerca de ese derecho, invocado por el gobierno de Margaret Thatcher para librar la guerra del Atlántico Sur:

Memorando De Bernhardt (1910). A pedido del jefe del Departamento Americano del Foreign Office, Sidney Spicer, el investigador Gastón De Bernhardt preparó un memorando que condensaba la historia de las islas y los argumentos jurídicos de Gran Bretaña y la Argentina. Ese memorando sirvió como guía interna del Foreign Office hasta 1938. De Bernhardt dejó sentado lo siguiente:
  • “La cuestión de la soberanía fue específicamente excluida del acuerdo celebrado con España en 1771.” Este acuerdo contenía una cláusula secreta por la cual Gran Bretaña se obligaba a abandonar las islas, cosa que hizo en 1774.
  • “Durante 55 años, hasta 1829 (es decir, hasta 13 años después de proclamada la independencia de la Argentina), Gran Bretaña no mostró interés en las islas.”
  • “Gran Bretaña comenzó a reclamar la isla oriental sólo en 1829” (nunca la había reclamado durante el dominio español; ésta es la isla donde está Puerto Argentino).
Carta de Spicer (1910). En carta al propio De Bernhardt, Spicer confesó: “Es difícil evitar la conclusión de que la actitud del gobierno argentino no es enteramente injustificada, y que nuestra acción ha sido algo despótica”.

Memorando Fitzmaurice (1936). En febrero de 1936, el asesor legal George Fitzmaurice desaconsejó que Gran Bretaña sometiera la cuestión de las Malvinas a un arbitraje internacional: “Nuestra posición tiene ciertas debilidades. Pero nosotros hemos ocupado las islas durante más de un siglo (aunque sea ilegalmente, como dice la Argentina) y por razones estratégicas no podemos renunciar a ellas. De manera que lo más indicado es adoptar una línea dura”.

Memorando Troutbeck (1936). Ese mismo año, el jefe del departamento americano del Foreign Office, John Troutbeck, dejó sentada por escrito su opinión: “La dificultad [para sostener] nuestra posición es que la captura de las islas Falkland en 1833 fue un procedimiento arbitrario, si se lo juzga con los criterios de hoy en día. No es, por lo tanto, fácil explicar nuestra posición sin quedar como bandidos internacionales”.

Propuesta de devolver las islas a la Argentina (1940). Este documento figura en el índice del Public Record Office pero permanecerá secreto hasta el año 2015. El título, sin embargo, es suficientemente explícito: “Oferta hecha por el gobierno de Su Majestad para reunificar las islas Falkland con la Argentina y aceptarlas en arriendo”.

Memorando del Departamento de Investigaciones (1946). Este documento describe la ocupación británica de las islas, en 1833, como “un acto de injustificable agresión”.

Al margen de estos antecedentes, están los actos públicos, reveladores de que Gran Bretaña había abandonado toda pretensión de soberanía sobre las  Malvinas.

Constituida la Organización de las Naciones Unidas, registró el archipiélago como “territorio sin gobierno propio, bajo administración británica”: un modo elíptico de aludir a una colonia.
El Comité Especial de Descolonización (ONU) declaró que las Malvinas estaban sujetas al proceso descolonizador, urgido en 1960 por la Asamblea General de las Naciones Unidas.

En 1965, Gran Bretaña y la Argentina comenzaron a negociar el futuro de las islas en el marco de la ONU: Londres reconoció, de hecho, el status colonial de las Malvinas, su único argumento para demorar la reintegración del archipiélago a la Argentina era la voluntad de los isleños. La Corona ya no invocaba títulos sobre las islas.

El derecho a la autodeterminación, planteado por Gran Bretaña a favor de los isleños, sólo surge en el caso de una población que reclama su independencia: algo que nunca hicieron ni podrían hacer los 1800 habitantes de la colonia británica.

Ése era el último argumento del gobierno británico, que desde 1910 venia retrocediendo en sus posiciones –inauguradas en 1833 por Lord Palmerston con una firme defensa del derecho de soberanía de la Corona- hasta llegar al punto en que se hallaba el conflicto cuando, el 2 de abril, la Argentina ocupó las islas.

Fue entonces cuando Margaret Thatcher revivió la idea según la cual “the Falklands are British”: algo que, como lo revelan los documentos internos, nunca fue creído ni por el Foreign Office.


04 março 2013

Manoel de Andrade - Mariano Melgar, el primer peruano en la literatura indigenista

Ilustrações: divulgação


          Se ha contado que Arequipa nació sobre las ruinas de una antigua ciudad incaica y que fue fundada en 1540 por el propio conquistador del Perú, Francisco Pizarro. Cuna de nombres notables de la política peruana, en ella nació Mario Vargas Llosa, en el año 1936. Sin embargo, su celebridad literaria, coronada con el Nobel en el 2010, dispensa aquí cualquier comentario. Pero debo decir que cuando por allá pasé, a la vuelta de los años sesenta, el nombre de Vargas Llosa, a pesar de sus cuatro libros ya publicados, todavía no era tan ilustre como el del poeta Mariano Melgar, uno de los hijos más queridos de la ciudad. Hablo de un poeta libertario, combatiente por la independencia del Perú, quien inaugura el Romanticismo y el Indigenismo en la literatura peruana y, como nuestro Castro Alves, también libertario por el abolicionismo, muere igualmente a los veinticuatro años.

          Mariano Lorenzo Melgar Valdivieso, nació en Arequipa el 10 de agosto 1790 y por su precocidad fue un verdadero prodigio intelectual. A los tres años ya leía y escribía, a los ocho hablaba latín y a los nueve años dominaba el inglés y el francés. Profundamente identificado con el pueblo en su expresión indígena, encontró en el lirismo sencillo de las canciones quechuas la motivación poética para gran parte de sus versos compuestos en forma de yaravíes, género musical de origen inca, de composición breve y con un carácter elegíaco, amoroso y melancólico. Es lo que el poeta expresa en este su poema llamado Yaraví:

¡Ay, amor!, dulce veneno,
ay, tema de mi  delírio,
solicitado martirio
y de todos males lleno.

¡Ay, amor! lleno de insultos,
centro de angustias mortales,
donde los bienes son males
y los placeres tumultos.

¡Ay, amor! ladrón casero
de la quietud más estable.
¡Ay, amor, falso y mudable!
¡Ay, que por causa muero
¡Ay, amor! glorioso infierno
y de infernales injurias,
león de celosas furias,
disfrazado de cordero.

¡Ay, amor!, pero ¿qué digo,
que conociendo quién eres,
abandonando placeres.
soy yo quien a ti te sigo?
[2]

          José Carlos Mariátegui, en sus Siete ensayos de interpretación de la realidad peruana, al analizar la poesía de Melgar hace hincapié  al  "extremo centralismo"  con que Lima dominó la literatura colonial, considerada como un "producto urbano", y añade:
          (...) Por  culpa de esta hegemonía absoluta de Lima,  no ha podido  nuestra literatura nutrirse de savia indígena. Lima ha sido la capital española primero. Ha sido la capital criolla después. Y su literatura ha tenido esta marca.
          El sentimiento indígena no ha carecido totalmente de expresión en este período de nuestra historia literaria. Su primer expresador de categoría es Mariano Melgar. (...)[3]

          Es esclarecedor referir aquí al ejemplo de la poesía de Melgar, para evaluar, en un determinado momento histórico, las dos partes con que la crítica peruana encara su propia literatura: una desde el punto de vista colonial y culturalmente con prejuicios, y otra del punto de vista legítimamente peruano, es decir, indigenista, explicitada por dos figuras tan emblemáticas de la historia de la intelectualidad  peruana, como Mariátegui y el historiador José de la Riva Agüero (1885-1944), con opiniones tan diversas sobre la imagen literaria de Melgar:

"Para Riva Agüero, el poeta de los yaravíes no es sino "un momento curioso de la literatura peruana". Rectifiquemos su juicio, diciendo que es el primer momento peruano de esta literatura.”
[4]

          Comenta Mariátegui el desprecio con que la crítica limeña trató la poesía popular e indígena de Melgar, con un arraigado prejuicio colonial que, un siglo más tarde, alcanzaría aún, con la daga de la indiferencia, el corazón poético y indígena de César Vallejo, al punto de hacerlo abandonar el Perú para no volver jamás. Vallejo es ahora reconocido como el más grande poeta del Perú y, como poeta universal, comparte con Pablo Neruda la grandeza de la poesía hispanoamericana. Mariano Melgar tuvo su imagen poética y libertaria reconocida oficialmente por el gobierno peruano sólo en junio de 1964. Sólo en dos casos aquí citados, esa es una justa, necesaria y tardía penitencia, pero preguntamos si la cultura limeña ya limpió el alma de este antiguo pecado, ya que continúa, hasta el día de hoy, dictando sus sentencias culturales en el ejercicio de su explícita hegemonía intelectual, a expensas de los valores literarios de las provincias.


          Mariátegui es quien mejor expone la dimensión del poeta de Arequipa, sea como mártir de la independencia, sea por la potencialidad de su poesía, si no hubiera muerto tan temprano. Abordando el lado romántico de Melgar, resalta la gran renuncia del joven poeta por la causa libertaria, comparándolo con el cacique cusqueño Mateo Pumacahua, que en 1815 se convirtió en uno de los líderes de la rebelión contra los españoles, siendo arrestado y fusilado por las tropas coloniales.

          (…)"Melgar es un romántico. Lo es no sólo en su arte, sino también en su vida. El romanticismo no había llegado, todavía, oficialmente a nuestras letras. En Melgar no es,  por ende, como más tarde en otros, un gesto imitativo; es un arranque espontáneo. Y este es un dado de su sensibilidad artística. Se ha dicho que debe a su muerte heróica una parte de su renombre literario. Pero esta valorización disimula mal la antipatía desdeñosa que la inspira. La muerte creó el héroe,  frustró al artista. Melgar murió muy joven. Y aunque resulta siempre un poco aventurada toda hipótesis sobre la probable trayectoria de un artista, sorprendido prematuramente por la muerte, no es excesivo suponer que Melgar, maduro, habría producido un arte más purgado de retórica clásica y amaneramiento clásicos y, por consiguiente, más nativo, más puro.

        (…)Los que se duelen de la vulgaridad de su léxico y sus imágenes, parten de un prejuicio aristrocratista  y academicista. El artista que en el lenguaje del pueblo escribe un poema de perdurable emoción  vale, en todas las literaturas, mil veces más que el que, en lenguaje académico, escribe una acrisolada pieza de antología. De otra parte, como lo observa Carlos Octavio Bunge en un estudio sobre la literatura argentina, la poesía popular ha precedido siempre a la poesía artística. Algunos yaravíes de Melgar viven sólo como fragmentos de poesía popular. Pero, con este título, han adquirido sustancia inmortal.”[5]

           No es diferente la opinión del crítico italiano Giuseppe Bellini, considerado como el más calificado estudioso europeo de la literatura hispanoamericana. Comentando la poesía gaucha del poeta de la independencia uruguaya José Bartolomé Hidalgo (1788-1822), Bellini afirma:

"Junto con Hidalgo, cabe recordar Mariano Melgar (1791-1815), cultivador también de la poesía popular en los "yaravíes" y "palomitas". El poeta peruano, sin duda más culto que Hidalgo, traductor e imitador de Horacio y de Virgilio, manifestó, tal vez por su carácter de mestizo, un profundo apego al elemento popular quechua y a la naturaleza, anticipando un indigenismo que dará resultados consistentes durante el Romanticismo y en el siglo XX.”[6]

          Mariano Melgar adhiere a las tropas del cacique Mateo Pumacahua, que en el pasado era aliado de los españoles, pero que a partir del 1814 empuñó a la bandera de la independencia en Cuzco. Derrotados en la batalla de Umachiri, el poeta es aprisionado y mantenido en cautiverio hasta el amanecer del día 12 de marzo del 1815, cuando lo ejecutan. Cara a cara con el pelotón de fusilamiento, Melgar escribió una nota a los oficiales españoles, con las siguientes palabras:

"¡Cubran sus ojos, ya que ustedes son quienes necesitarán misericordia porque América será libre en menos de diez años!"

Y así sucedió.

El 9 de diciembre del 1824, un ejército con 6.879 patriotas de varios países hispanoamericanos, comandado por el general venezolano, Antonio José de Sucre, impone la derrota al ejército español, con 10.000 soldados, sellando en Ayacucho la independencia del Perú y  de América del Sur.



[1] Este artículo integra el texto de un libro que el autor está escribiendo sobre los años que pasó en América Latina , en las décadas del 1960/1970. Las notas y la versión para el castellano son del autor.
[3] MARIÁTEGUI, José Carlos. Siete ensayos de interpretación de la realidad peruana. Lima: Amauta, 1967, 11ª ed. p. 230.
[4] MARIÁTEGUI, José Carlos. Op. Cit. p.231.
[5] Iden, pp. 230-231.
[6] BELLINI, Giuseppe. Nueva historia de la literatura hispanoamericana. Madrid. Editorial Castalia, 1997, p. 209.

Los fusilamientos del 2 de mayo, de Goya

14 fevereiro 2013

Frederico Füllgraf - "Esqueceram" de Dona Aracy, a salvadora de judeus

Aracy e João Guimarães Rosa, Hamburgo, 1939


Carta Aberta ao Paraná
– Via Coluna Aroldo Murá

O que segue, é uma triste evocação do que o poeta e dramaturgo alemão, de origem dinamarquesa, Friedrich Hebbel, dizia da insuficência e parvidade humanas: "Toda... mediocridade na poesia acarreta hipocrisia no caráter e na vida."

A rigor, a descrição do episódio caía como luva sobre a cerimônia de distinções a personalidades do Paraná com a medalha da Araucária, ocorrida em dezembro passado, que acompanhei em sua coluna, mas daqui, da orla do Pacífico. Decidi, então, esperar a poeira baixar e, principalmente, não afugentar os good spirits, pois era dia de festa e você, um dos galardoados. Nesse meio tempo, renasceu o Senhor, nos quatro cantos do planeta acabam de esbaldar-se em bacanais dionisíacos e, fiel aos dislikes da Quaresma, já estando prestes a crucificá-Lo de novo, mando-lhe minha estocada no imperdoável.

Faltou uma figura humana insubstituível naquele pódio de bravos paranaenses, Aroldo, que, como você, foram vestidos pelo governador de turno, com a Comenda da Araucária. Faltou Aracy Moebius Tess de Carvalho, “ Ara”, a esposa do mestre Guimarães Rosa, que lhe teria arrancado lágrimas de ternura. Mas não poderia ter faltado sob qualquer pretexto, por isso, há exatos dois (!) anos, sugeri ao governo do Paraná, que não perdesse tempo em trazê-la a Curitiba e homenageá-la como a rara e emblemática Heroína, mundo afora conhecida como o “Anjo de Hamburgo”. Contudo, Curitiba traz nas entranhas a maldição, não dos anjos caídos, que são estóicos, mas dos santos pequenos da mediaria, sempre de costas para os Tempos e a História, deformação congênita que seus administradores tentam encobrir com ícones ladinos de capital de muitas mentiras; “primeiro-mundistas”, “europeias”, “ecológicas”, o escambau.

Como você sabe, em 2010 a editora Record me encomendara o romance “O Caminho de Tula”, narrativa sobre o pano de fundo histórico do nazismo, que se desloca entre a Alemanha, a União Soviética e o Brasil, e temperada pelo olhar de um jovem que após a morte de seu pai, descobre sua verdadeira trajetória, com o acesso aos autos de um processo de “des-nazificação”, de 1948. O livro, embora em nada datado, exigiu-me pesquisa que editor nenhum vai me pagar, e umas das tramas paralelas brinca com a estória de um personagem algo mítico, que segundo o próprio Guimarães Rosa, realizou a “mãe de todas as traduções”, para o Alemão, do clássico “Grandes Sertões. Veredas”: Curt Meyer-Clason.

Conheci-o em 1975, eu, estudante de Cinema em Berlim, “visitando” a “Revolução dos Cravos”, ele, então diretor do Instituto Goethe, em Lisboa. Em 1976, a Rádio SFB, de Berlim, enviou-me novamente a Lisboa, desta vez para gravar um programa sobre o papel dos escritores durante a derrubada do fascismo. O programa foi ao ar com o título “Motim no Café Lusitânia”, pontilhado de longas entrevistas com três Josés, todos já saudosos: o imperdível José Cardoso Pires (“O Defilm”), o titânico poeta José Gomes Ferreira, e José Saramago, ainda algo desconhecido, a quem entrevistei em sua própria casa. Os contatos e a articulação, todos, me foram auspiciados por Meyer-Clason, que, como tradutor genial de “Cem anos de solidão”, de García Márquez, estava traduzindo para o Alemão e divulgando Europa afora  a poderosa plêiade de escritores portugueses censurados pela ditadura fascista – com esses repentes de solidariedade aos “comunistas”, estaria Mayer-Clason exorcizando seus próprios fantasmas?

Mas o que essas tramas paralelas da ficção têm a ver com a figura de Aracy, como filha de pai brasileiro e mãe alemã, nascida em 1908, em Rio Negro? Ocorre que a História real acabou unindo indissoluvelmente os caminhos de Aracy e de Meyer-Clason: ela, fugindo ao preconceito da mal vista “mulher separada”, abandonando o Brasil em 1935, com destino a Hamburgo, e, em sentido inverso, Meyer-Clason, deixando o norte da Alemanha no final da década de 1930, para fixar-se no Brasil como corretor de commodities brasileiros e argentinos, que exportava para a Alemanha. Até que, no início da Segunda Guerra, a polícia política de Getúlio Vargas flagrou Meyer-Clason em atividade ilícita: ele se desempenhava como agente da espionagem alemã! Atividade nunca provada em seus detalhes, mas que lhe custou cinco anos em um campo de concentração na Ilha Grande, Rio de Janeiro, onde outro intelectual alemão – homossexual e esquerdista, a policia de Filinto Müller não fazia distinção entre seguidores e opositores do nazismo, prendia todos! – o despertou para a Literatura. Em “Äquator”(Debaixo do Equador, 1986), M.Clason narra sua metamorfose, de corretor de cereais para amante da Literatura, e de suposto agente nazista, para apaixonado pelo Brasil; não guardara rancores. Em 1995, publica “Die große Insel“ [A Ilha Grande], como indifarçadas memórias do cárcere, elégico título do romance de Graciliano Ramos, outro “hóspede” da grande ilha, libertado em 1937.

E Aracy, o que fazia? Morando com uma tia alemã, conseguira emprego como secretária biligue no Consulado Geral do Brasil em Hamburgo. A famigerada “Noite dos Cristais” desencadeara o progrom anti-semita dos sicários de Hitler, e a despolitizada, mas nada boba, Aracy, não teve dúvidas: começou a ajudar os judeus que batiam à porta do consulado, em busca de um visto para o Brasil. Sua “ajuda” tinha um pequeno problema: o cônsul brasileiro era simpatizante dos nazistas e o Itamaraty seguia à risca a Circular Secreta 1.127, que proibia a concessão de vistos a "semitas" . A Aracy ocorreu um ardil: recebia os judeus na ausência do cônsul e contrabandeava os formulários dos vistos para a pilha da papelada a assinar pelo cônsul, sempre faltando poucos minutos para encerramento do expediente; pelo qual o cônsul já ansiava, desatento. À atividade subversiva veio somar-se o novo cônsul adjunto que chegara a Hamburgo em 1938, logo se apaixonara pela bela secretária com sotaque de “lêite quênte”, e abandonara sua esposa, deixada no Brasil: João Guimarães Rosa. Como a maioria de seus colegas do Itamaraty, escritor nas horas vagas.

Juntos, Aracy e o Rosa acabaram salvando a vida de dezenas (há quem estime, centenas) de judeus alemães, que então emigraram ao Brasil. Única mulher a ter seu nome escrito, em 1982, no Jardim dos Justos entre as Nações, no Museu do Holocausto (Yad Vashem), em Israel, alguém já disse que a historiografia brasileira não contempla esta mulher, conhecida pela comunidade judaica por “Anjo de Hamburgo”, lembrada oportuna, mas tardiamente, pela Presidente Dilma Rousseff em evento ocorrido no final de 2012.

Dona Aracy é uma personagem comovente da História, mas também da Literatura por excelência, pois encarna exemplarmente a tríade espiritual da heroína de mil faces: destemor, aventura e romance. Heroína que não perdera o hábito, depois de retornar ao Brasil e perder o Rosa: vivendo no apartamento do casal no Rio, em 1968, teve a pachorra de nele esconder o compositor Geraldo Vandré, perseguido pela ditadura por causa de “Caminhando (Pra não dizer que não falei de flores)”. Aracy era mesmo uma doida, na melhor acepção do termo: no mesmo prédio moravam vários oficiais do exército, mas enquanto a repressão, desorientada, caçava Vandré nas ruas, este compunha, incólume, no sofá de Aracy. Foi o Dr. Eduardo Tess Filho, seu neto, que levou Vandré para São Paulo numa Kombi. E de lá para o exílio.

Minha advertência ao governo Beto Richa, como você e seus leitores podem inferir, foi feita mediante Ofício de 8 de fevereiro de 2011, entregue ao então Secretário da Cultura, Paulino Viapiana (vide anexo), através da Diretora Geral da SEC, Valéria Marques Teixeira, que então me explicou, que a SEC com muita honra acolhia e intermediaria, mas que o Palácio Iguaçu era o destinarário formal da sugestão.

Escrevíamos o início de fevereiro. Em São Paulo, Dona Aracy beirava os 103 anos, em Munique, Meyer-Clason, nascido em 1910, os 101 anos de idade.

Avisei ao Dr. Eduardo Tess Filho, neto de Dona Aracy, minha sugestão e o deixei de sobreaviso para a resposta do governo Richa. Passaram-se semanas, quando recebi um telefonema de uma funcionária subalterna da SEC, sugerindo que a Federação Israelita do Paraná “encabeçasse” o evento e avisando que me chamariam da federação. Reagi estupefato: obviamente, como representação da etnia mais vilipendiada em todo o séc. XX, a federação deveria participar do evento, sentada em cadeira de honra. Vaticinei: por que será que os judeus do Paraná tinham esquecido Dona Aracy. Me perguntei: será que um cidadão independente tem que pedir “autorização” para entidade judaica, para homenagear um amigo dos judeus? Por que essa competição imbecil por um assunto da máxima seriedade? Questionamentos, todos, que, ainda por cima, poderiam detonar sobre minha cabeça - na qual perdura a memória de uma avó judia! - a tão desgastada e ridícula borduna do “anti-semitismo”, para quem ousa criticar Israel ou as associaçõs judaicas, mundo afora.

Trocado em miúdos: a federação jamais ligou, a SEC se esquivou, a Prefeitura de Rio Negro pediu “um tempo” (um tempo?)... – enfim, o Paraná “esqueceu” da grande mulher, a provinciana de Rio Negro, que tecera fios da Humanidade, pela primeira vez, unindo pelo cordão umbelical, o Paraná ao ventre da História Universal. Mas para isso oferecendo sua própria cabeça a prêmio.

Dona Aracy morreu no mês seguinte, março de 2011, como amigo até o último suspiro do Rosa, Meyer-Clason passou em janeiro de 2012.

Indigna-me essa mediocridade de governo e instituições do Paraná.
Indigna-me a preguiça e a indiferença do servidor público.
Indigna-me terem “esquecido” de Aracy.
Indigna-me o pouco caso, a obstrução, a agressão à memória coletiva.
Por isso, um filme, tão logo seja possível.

Fotos: ilustração