10 novembro 2017

Frederico Füllgraf - Muro de Berlim: o ato falho que o derrubou


Crônica


Berlim, primavera de 1989.


De passagem pela cidade onde havia feito a faculdade, me formado e residido durante dez anos de minha vida, em companhia de Leticia Vota, minha então namorada, celebrei o 1º. de Maio junto à colorida multidão convocada pela central sindical DGB aos gramados do antigo Reichstag, naquela oportunidade ainda funcionando como museu, colado ao Muro. 

Atrás dele, nos saudava o Portal de Brandenburgo, com suas colunas dóricas, em réplica neoclássica, solidamente fincadas em solo da RDA – a República Democrática Alemã, como era conhecida oficialmente a Alemanha Oriental. 

No lugar da quadriga greco-romana, que a encimava desde seus primórdios, a bandeira da RDA, e outra, com o vermelho-sangue da utopia, tremulavam alegremente sob um céu de brigadeiro.

O Muro

Onde nos encontrávamos, a Avenida 17 de Junho, de Berlim Ocidental – que na verdade começa na Praça Theodor Heuss, com o nome de Bismarck Strasse, em seguida mudando para Kaiserdamm, e que até o fim da Segunda Guerra Mundial, mas só depois da Ernst Reuter Platz, se chamava Charlottenburger - ali, pois, a interminável avenida, rebatizada de 17 de Junho – mais uma vez desviada pelo Obelisco da Vitória, que entrou para a história do Cinema com o anjo coruscante eternizado em “Asas do desejo”, de Wim Wenders - era contida por um muro com três metros de altura, sobrecabado com tubos cem por cento esféricos para impedir que mãos o agarrassem. 

Depois desse primeiro muro estava um corredor, chamado Niemandsland – literalmente “terra de ninguém”, também conhecida por “corredor da morte”, com a largura de uma rua estreita, por onde circulavam as patrulhas motorizadas da RDA. Por sua vez, o acesso à terra de ninguém era protegida por uma barreira de obstáculos antitanque, fundidos em aço e cruzados em “x”. E atrás (ou dependendo do ponto de vista, em sentido oeste: à frente) deles, outro muro com medidas comparáveis ao primeiro. 

Uma “linha Maginot” com seus 80 metros de espessura e armada até os dentes – eis a compleição de um “muro”, que muita gente imaginava ser aquele tapume furado dos velhos estádios de futebol brasileiros.

Nesta geografia de Guerra Fria, o Portal de Brandenburgo se situava em “terra de ninguém”, uma ironia que vai se explicar seis meses mais tarde. 

"Tudo o que é sólido se desmancha no ar"

Erguido em agosto de 1961, para proteger a RDA da infiltração pelo fascismo e do assalto pelo imperialismo (aqui explicando que jargões oficiais nunca usam aspas), do outro lado do muro a grande avenida, cortada, retomava seu curso, atravessando boa parte do antigo centro histórico, até a Alexanderplatz, com seu nome original: Unter den Linden. 

Foi ali perto e naquela mesma manhã de 1º. de Maio, que na Karl-Marx-Allee (alameda que os camaradas, depois arrependidos, em 1945 haviam batizado de Josef-Stalin-Allee), um amigo - então Secretário da Agricultura do Paraná e marxista in petto – presenciava a versão de um 1º. de Maio que todo esquerdista que se preze sempre sonhara em passar em revista: a marcha da classe operária, sua juventude vestindo o azul da fidelidade, seguidos pelos Kampfgruppen – unidades paramilitares de defesa das fábricas - tudo coroado pelo desfile das forças armadas de defesa do socialismo. Mas - just in case! - com uma retaguarda de 400 mil soldados soviéticos acantonados nos velhos quartéis nazistas da hinterland da ex-capital do Reich.

Assim me descreveu a apoteose o amigo deleitado, e eu citei seu ingênuo fascínio numa reportagem para o Caderno B do Jornal do Brasil, com uma licença poética maldosamente emprestada do livro de Marshall Bermann: “Tudo o que é sólido, se desmancha no ar” (na verdade uma ironia de Karl Marx, usada por Berman para vender seu livro). 

O que o amigo e eu não sabíamos, é que naqueles dias o povo da RDA já fazia reuniões de protesto nas igrejas do país, o caldo começando a engrossar. Mas se alguém naquele 1º. de Maio do lado ocidental me perguntasse, se o Muro fora construído para ficar, eu teria respondido que sim, apesar de não acreditar na eternidade, 

Verão de 1989: o SED e as fugas em massa da RDA


Detalhe geralmente ofuscado pelo frenesi na cobertura sobre a queda do Muro, é que no verão de 1989 em torno de 100 mil alemães orientais em férias nos países do Leste, não queriam mais retornar, buscando asilo nas embaixadas da Alemanha Ocidental na Tchecoslováquia, Bulgária e Hungria. Milhares, ao alcançarem a fronteira da Hungria com a Áustria, simplesmente ignoraram as barreiras da fronteira, desembestando Áustria adentro; os guardas húngaros apenas bocejando de tédio. 

Esse era o pano de fundo de uma reunião de emergência do Comitê Central (CC) do SED (Partido Socialista Unificado da Alemanha), que decidira liberar viagens aos cidadãos da RDA para qualquer país do mundo. 

A pedido do CC, a autorização fora redigida por oficiais do ministério do Interior e do serviço de espionagem StaSi, a famigerada “polícia de segurança do Estado”. Aprovadas em brancas nuvens, diante dos “fósseis” da velha guarda, Egon Krenz - o novo czar do partido, que um mês antes destronara Erich Honnecker e a velha guarda com um golpe de mestre há muito programado - pediu que o porta-voz Günter Schabowski divulgasse as novas revolucionárias na coletiva à imprensa internacional, programada para o final da reunião.

O lance de Krenz era uma aposta: a dívida externa do país beirava os 25 bilhões de dólares e a Economia da RDA estava há muito pendurada no soro da odiada Alemanha Ocidental. Com a liberação das viagens, Krenz pretendia aliviar a pressão popular, sobretudo ganhar tempo, salvar a RDA do mergulho no abismo.

O ato falho de Schabowski que derrubou o Muro


Mas o que acontece, então? 

Estória virtualmente desconhecida no exterior, e até há pouco tempo mal contada, o Muro de Berlim caiu como efeito-dominó numa cadeia de conspirações, armações, mas também de um imprevisto. 

Quando Schabowski, mais tropeçando no texto do que realmente lendo o bilhete para a imprensa internacional, que resumia as deliberações do CC sobre a permissão de viagens, subitamente o jornalista Ricardo Ehrman, correspondente da agência italiana, ANSA, o interpela, perguntando (veja o vídeo ao final do presente texto): - Já está valendo a permissão?

- Perdão? - replica Schaboswki. E quando Ehrmann repete a pergunta, insistindo no prazo para a entrada em vigor das novas medidas, Schabowski procura a resposta no bilhete, e não a encontrando, responde: “Olha....que eu saiba, é pra já!”. 

Foi a bomba! 

Mas de seu efeito Schaboswki apenas tomaria conhecimento em casa, acomodado diante da TV, onde assistia, atônito, ao assalto e à abertura do Muro, depois que a população havia recebido a notícia pelas TVs ocidentais.

Eram pouco mais de nove horas da noite, e a notícia tinha se espalhado aos quatro ventos.

Sacudido por telefonemas, reclamações e ameaças, foi quando Schabowski se dá conta da tremenda burrada que cometera, porque o bilhete levava um aviso explícito: “Divulgação vetada até às 4 da manhã de 10 de novembro de 1989”. 

O porta-voz simplesmente atropelara a instrução, provocando a corrida ao Muro.

Ato falho ou armação?

Rosto crispado, em uma entrevista gravada um ano após a queda do Muro, Günter Schabowski admite que recorrera a um psicólogo para tentar explicar (-se), o que lhe tinha dado nos miolos naquele final de tarde de 9 de novembro de 1989. 

Nesta altura já expulso do SED, e vagueando desempregado pelas ruas da Berlim, sem muro, diz, sem vergonha alguma: “Vá saber, talvez foi mesmo um ato falho, porque um regime daqueles não merecia outro desfecho”. 

Hoje, o comunista de carteirinha Günter Schabowski é filiado ao CDU - o partido democrata-cristão, conservador, de sua ex-arqui-inimiga na RDA, a Chanceler Angela Merkel. 

Mais de vinte anos depois, novos fatos sobre aquele fatídico e delirante 9 de novembro de 1989 emergem dos bastidores da História. 

Um deles é que o jornalista Ricardo Ehrman foi efetivamente “cutucado” por Günter Pötschke a interpelar Schabowski. Pötschke, que não pode mais confirmar o lance, porque morreu recentemente, era editor-chefe da agência oficial ADN, da RDA, e também membro do comitê central do SED. 

Uma cópia do bilhete que resumia as novas instruções de liberação de viagens descansava sobre o tampo de sua escrivaninha, mas também vetada para divulgação antes das 10 da manhã do dia 10 de novembro. Sendo velho conhecido de Ehrman, Pötschke o encorajou para furar o bloqueio noticioso, com isso abrindo espaço para sua própria divulgação.


Mas a noite prometia outros imprevistos.

Uma equipe de TV da Alemanha Ocidental, não identificada, mas a serviço do canal a cabo da revista Der Spiegel, embrenhara-se “território adentro”, em Berlim Oriental, tomando conhecimento da notícia dada por Schabowski, num boteco do bairro rebelde de Prenzlauer Berg. 

E “seguindo o povo, para onde o povo vai”, os documentaristas subvertem aquela máxima do partido, captando cenas dignas de um Moisés dividindo ao meio as águas do mar bravio, para dar passagem ao povo escolhido.

No posto Bornholmer Strasse, de entrada (mas nunca de saída) da RDA, a multidão já se aglomerava, cobrando em coros altissonoros “Wir wollen raus!” (Queremos sair!) e “Macht auf das Tor”! (Abram os portões!). 

E diante da câmera deslinda-se a História.


Com movimentos ainda imperceptíveis na guarita de controles, oficiais das tropas de fronteira e da temível StaSi estão confusos. Ligam para seus superiores, que não conseguem dar-lhes instruções objetivas, porque não estão menos desnorteados. 

Sentindo-se protegida pela presença da mídia ocidental, a massa começa a levantar o tom de voz, o caldo atingindo o ponto de fervura. É quando entra em cena outro “traidor” daquela noite: Tenente-Coronel Harald Jäger, da Stasi, que reúne os subordinados em sua sala, para calçar-se na decisão que vai tomar. Vinte anos depois, diz em entrevista: - Eu queria saber deles, o que deveria fazer. E eles responderam: ´Você é que tem que saber, ora essa, o chefe é você!´ E eu respondo: ´Devo permitir que os cidadãos da RDA saiam? Ou devo abrir fogo? – pelo amor de Deus!” (...) Depois pensei: "já encheu o saco, agora vou agir por conta própria."


E Jäger toma sua decisão, sozinho, sem ordens superiores: manda erguer a cancela, melhor: a eclusa – e sem qualquer controle a torrente humana desembesta rumo a Berlim Ocidental.

 Naquele momento, diz Stefan Aust, diretor do documentário, com o Muro cai também a RDA, e desfaz-se em frangalhos um sistema autoritário que reinava de Berlim a Moscou, de Vilna a Bucareste, declarando página virada da História aquela ordem mundial, obsoleta, do pós-guerra – instante histórico em que, quarenta e quatro anos após o silêncio das armas, a 2a. Guerra Mundial termina de fato.


Centro de uma trama até hoje só parcialmente explicada, Schabowski e seu bilhete ganharam a aura do mitológico. 

Schabowski sabia mesmo o que estava lendo para os jornalistas? E os jornalistas: quantos tinham aceitado fazer perguntas previamente combinadas? Um baralho marcado para atropelar a “turma” de Egon Krenz, recém-chegada ao poder? Por acaso Schabowski tentou jogar seu próprio jogo, entrando para a História como o herói que detonou o Muro? E se Krenz sabia do bloqueio da notícia até as 4 da manhã - por que insistiu em divulgá-la? Aquilo, tudo, foi mero “acaso”, ou uma traição coletiva do inconsciente também coletivo?


Um ano mais tarde, o cáustico, esquerdista e saudoso dramaturgo Heiner Müller, empossado como diretor do teatro Volksbühme, me convidaria para participar do primeiro aniversário da queda do Muro, com um programa assaz irônico.

Ao escolher a leitura dramática de “A missão”, para celebrar à sua maneira o evento, Müller estava interessado em discutir o lado trash, a nota de rodapé verdadeiramente esdrúxula, hilariante, da História. 

Personagem central da peça “A missão”, Dubuisson é enviado ao Caribe para exportar a revolução de 1789. Mas quando seu barco se aproxima da costa exuberante, bordejada por aquele mar cor de esmeralda, Dubuisson, que também é dono de engenho de açúcar e de escravos africanos, muda de idéia; perpetuando-se como novo governador da ilha. Daí a frase corrosiva de Muller: “Onde a paisagem é bonita, espreita a traição!”.


Como paisagem bonita, o cartão-postal coruscante de um “supermercado” chamado Berlim Ocidental certamente exerceu fascínio inconfessável em não poucos camaradas da liderança da RDA. 

A ironia dessa noite, já na Kurfürstendamm – a rebrilhosa Champs Elisées prussiana – é que os orientais não correram atrás das roupas de griffe, mas das ordinárias bananas da marca Chiquita, exportadas pela famigerada United Fruit. - para Muller e outros, prova ilustrativa de que a fome dos orientais era por uma sórdida “República de Bananas” (algumas pessoas não gostaram da comparação).

O bilhete de Schabowski

O ato falho de Sahabowski




Fotos: divulgação

27 setembro 2017

Walter Benjamin - Morte em Portbou


La muerte de Walter Benjamin



FERRAN BONO 27/09/2005, EL PAÍS
 
Un 26 de septiembre, como ayer, murió Walter Benjamin. Corría el año 1940. El pensador alemán, judío y marxista, había traspasado los Pirineos con el objeto de embarcar hacia EE UU. Llevaba varios años de exilio en Francia. Huía de los nazis. Y encontró la muerte en el pueblo catalán de Port Bou. En una fonda de la frontera, bajo la vigilancia de tres policías del régimen fascista que tenían las órdenes de deportarlo en la Francia colaboracionista de Vichy al día siguiente. Un día como el de hoy.

     Sus allegados hablaron de suicidio; el parte médico tipificó el deceso de muerte natural. Nunca se han esclarecido completamente las circunstancias que rodearon la muerte de este pensador, uno de los más influyentes de la primera mitad del siglo XX, el autor de La obra de arte en la época de la reproductibilidad técnica.

     El documental Quién mató a Walter Benjamin... aporta nuevos datos sobre los hechos. Es el fruto del trabajo de investigación de tres años de su director, el francés David Mauas, que se ha entrevistado con personas implicadas en el caso en Alemania, Francia y España. También ha consultado en archivos de Israel, Estados Unidos e Inglaterra.

     "Con la intención de realizar la primera investigación coordinada entre los tres países, complementar los puntos de vista de sus autoridades y explorar a fondo el mito del suicidio, el director creó este film noir, híbrido entre el documental clásico y el video art. El director dice que Quién mató a Walter Benjamin... "no supone sólo la reconstrucción de una muerte, sino el retrato del escenario de un crimen", señala la nota informativa del Instituto Goethe de Barcelona, que ha apoyado la producción del documental junto al IVAM, y otras instituciones como European Association for Jewish Culture. La producción ha corrido ha cargo de Medianimación y Milagros Producción, con la coproducción de Televisió Catalana y Nik Media (Países Bajos).

     El documental se estrenará el 6 de octubre en el Instituto Francés de Barcelona. Luego se proyectará en el Festival Internacional de Cine de Sitges y a finales del mes de octubre, está prevista su emisión en el IVAM. La TVC estrenará una versión televisiva.

     La película pretende responder a las siguientes preguntas: ¿Encubrió el médico la verdadera causa de la muerte? ¿Adónde fue a parar su último manuscrito? ¿Tenían conocimiento las autoridades españolas acerca de la importancia de este "viajero extranjero" que fue enterrado según rito católico y bajo un nombre equivocado? ¿Se trató realmente de un suicidio?

     El documental es, también, un retrato de un pueblo de frontera, anclado entre dos frentes, "testigo de evasiones, persecuciones y falsas esperanzas", añade la nota del Instituto Goethe. Un pueblo en el que el artista judío Dani Karavan, que expuso en el IVAM de la mano del anterior director, Kosme de Barañano, instaló un monumento en memoria de Benjamin, nacido en Berlín en 1891.

     La muerte del gran pensador ha provocado numerosas especulaciones. Incluso el episodio ha sido tratado por la novela El pasajero Walter Benjamin (Igitur) de Ricardo Cano Gaviria, una "elegante y muy sutil recreación de las últimas horas que precedieron a la muerte por morfina del escritor, que oficialmente murió de hemorragia cerebral en aquel hotel de frontera de Portbou", en opinión de Enrique Vila-Matas. El escritor catalán comenzaba así un texto del 26 de septiembre de 2000: "Prefiero pensar que hace 60 años en Port Bou, en las horas que precedieron a su muerte por morfina, Walter Benjamin conoció cierta lucidez mientras sufría las tinieblas y, en la desgracia final, conoció la pasión de no tener nada; una pasión que no deja de ser un buena compañía a la hora de vivir y también a la hora de morir".

Ilustrações: divulgação

Frederico Füllgraf - Walter Benjamin em Ibiza



Nota
Frederico Füllgraf

De 1932 a 1933, Walter Benjamin  viveu na ilha mediterrânea, espanhola, de Ibiza. Naqueles anos, o escritor e pensador berlinense atravessava uma grave crise existencial, defrontando-se com mudanças que pareciam questionar a continuidade de sua obra e de sua vida, pois ali cometeu sua primeira tentativa de suicídio.
Pano de fundo de sua depressão foram o descalabro econômico e a conseqüente eleição dos  nazistas na Alemanha, que agravaram ainda mais sua precária situação financeira e a falta de  perspectivas profissionais.
Sua decisão de estabelecer um interregno em Ibiza, escolher a ilha balear como  uma dos primeiros destinos de seu exílio,  surpreendeu amigos e convivas, e ocorreu sem grandes preparativos. Apesar disso, alguns de seus mais destacados escritos autobiográficos datam exatamente desta estância – o primeiro verão do fatal exílio de Benjamin.

Julia Radt-Cohn despertara em Benjamin sentimentos de raro romantismo, mas do sisudo intelectual dizia a jovem Julia que ele era tão travado e esquisito, que não conseguiria despertar nenhum desejo sexual em qualquer mulher. Apesar da rejeição de Julia, Walter prosseguiu insistindo...
Já Gretel Karplus era uma dinâmica empresária de Berlim, que se casou com Theodor Adorno,  amiga fiel de Benjamin até sua morte.
Dos cartas de Walter Benjamin
(Traducción: Germán Cano)
A Julia Radt-Cohn
San Antonio, Ibiza, 24 de julio de 1933
Querida Jula:

Me ha causado una gran alegría recibir tu carta: apareció justamente el día de mi cumpleaños, y por esa razón, como comprenderás, fue más bonito que si lo hubieras pensado a propósito. Lo que sucedió fue como si tu inconsciente hubiera trabajado en mi honor bajo la mano del servicio postal.

Pero es que además tus noticias han sido gratas, pues es tan loable ver cómo vosotros en estos tiempos trabajáis por enraizaros en las arenas movedizas de la región de Brandenburgo como poco recomendable para cualquier otro. Pero si tú quizá miraras o pudieses mirar por encima de mis hombros mientras te escribo, verías jugar sobre este papel parisino que me gusta utilizar en casa desde hace tiempo sombras de las agujas de los pinos que no serías capaz de diferenciar de las que ves allí, y si miraras delante de ti no verías el mar, aun cuando sólo está alejado apenas tres minutos de mi escondite veraniego.



A un sitio como éste me he trasladado con mi tumbona desde que, tras un comienzo poco afortunado en la orilla edificada opuesta de la bahía, conseguí volver a la parte apenas edificada del año pasado. Hasta llegar aquí, mi forma de vida ha sido más inestable, dividida entre las posibilidades de trabajo insatisfactorias que encontraba en San Antonio y los entretenimientos en cierto modo bastante significativos que podían encontrarse en Ibiza. Pero un viaje de negocios necesario a Palma introdujo una cesura en mi estancia aquí. He conocido Mallorca este año mucho mejor dando largos paseos y viajando en coche. Ahora bien, por bonita que sea la isla, lo que pude ver allí no hizo sino reforzar mi apego a Ibiza que posee un paisaje incomparablemente más reservado y misterioso. Las imágenes más bellas de este paisaje quedan remarcadas por las ventanas sin cristal de mi habitación. Éste es el único espacio por ahora habitable de una casa en estado bruto en la que todavía hay que trabajar durante mucho tiempo y de la que yo seré el único habitante hasta que la finalicen. Al instalarme en este cuarto he reducido a un mínimo difícilmente superable los límites vitales de mis necesidades y gastos. Lo fascinante de todo el asunto es que todo sigue siendo lo bastante digno, y lo que echo en falta aquí no proviene tanto del lado del confort como de la ausencia de relaciones humanas.


Las relaciones que constituyen la crónica de la isla son para mí en su mayoría fascinantes, pero algunas veces también decepcionantes e insatisfactorias. Cuando se da esto, el peor de los casos, ellas al menos me dejan más tiempo para desarrollar mis proyectos y estudios. Mi ‘Infancia en Berlín hacia 1900’, de la que tú has entendido desgraciadamente tan poco y en la que hay tanto que comprender, sigue creciendo en escasos pero importantes fragmentos. (…) Sigo leyendo a Bennett, y reconozco en él cada vez más a un hombre no sólo cuya actitud es actualmente similar a la mía, sino que además sirve para reforzarla: un hombre en realidad en el que una absoluta falta de ilusiones y una desconfianza radical respecto al curso del mundo no conducen ni al fanatismo moral ni a la amargura, sino a la configuración de un arte de la vida extremadamente astuto, inteligente y refinado que le lleva a sacar de su propio infortunio oportunidades y de su propia vileza algunos de los comportamientos decentes que competen a la vida humana. Deberías llegar a tus manos la novela ‘Clayhanger’, que ha aparecido en dos volúmenes en la editorial Rhein.

Podrás imaginarte fácilmente que mi correo apenas contiene noticias agradables. Gracias a Dios, lo mejor de todo ello tiene que ver con Stefan, que en este momento hace un viaje en coche con mi mujer que le llevará por Austria y Hungría hasta Siebenbürgen y Rumanía. Las noticias de los amigos de París son desmoralizadoras, pues la situación es tan desesperanzadora por un lado o por otro que ellos han dejado completamente de escribir. Lo que pueda esperarme en París por lo tanto es extremadamente problemático. En cualquier caso, un comienzo no del todo desfavorable es una magistral traducción de Infancia en Berlín que está llevando a cabo aquí un amigo parisino con mi ayuda. Pero ella avanza muy lentamente. Es posible leer entre líneas en tu carta que Alfred aún se mantiene firme al viejo estilo. Me gustaría tenerle aquí; él es uno de los pocos que yo me podría imaginar bajo estas difíciles pero fructíferas circunstancias de la isla. Pero mejor no le digas nada y salúdale de todo corazón, como también a Fritz.

Por lo que respecta a nosotros, las cartas son quizá la mejor oportunidad para estar juntos. Por eso recibe esta afectuosa carta, rogándote la próxima tuya.

Cenas da vida privada - a casa de Puntas des Moli
Abaixo: Benjamin jogando xadrês com B. Brecht


A Gretel Karplus


San Antonio, 19 de septiembre de 1933

Querida Felizitas:



Recibí tu carta del día 13, y ello me ha llevado a pensar que me habría gustado haber tenido al menos otra tuya. En realidad, ya no es mi salud la causante del aplazamiento de mi viaje, sino la situación misma —y desconocida además para mí— de ese lugar parisino en el que esperaba encontrar alojamiento. De hecho han transcurrido ya más de ocho días desde que se me envió un telegrama en el que se me pedía que no viajara sin recibir antes una confirmación del asunto. Como hasta la fecha no he recibido aún esta carta, no sé con qué me encontraré cuando finalmente llegue.

He tenido que abandonar mi cuarto de almacén si no quería contraer un nuevo compromiso a largo plazo y oponerme a la prescripción del médico, quien no esperaba una curación rápida en San Antonio. En realidad experimenté una evidente mejoría ya dos o tres días después de mi traslado. Ahora puedo, aunque con precaución, regresar.



Te doy mil gracias por la foto en Rügen: es cariñosa e incita a reflexionar; pienso, por ejemplo, que ni siquiera en Berlín no te faltan del todo este tipo de momentos. En todo caso, he entendido como mensaje uno de ellos, lo que me escribiste con tanto cariño sobre La luna. Me he sentido muy contento con él. Por mis dolores he perdido para el trabajo dos semanas, tal vez más. Ahora me estoy atreviendo a escribir un fragmento de ‘Infancia en Berlín’ que recree la atmósfera de la escuela. Este trabajo y, más que cualquier otra cosa, el asunto del traslado están absorbiendo todo mi tiempo, por lo que tengo que hacerte la confesión de que aún no he leído la ópera de Wiesengrund. Pero será algo que haga enseguida. ¿Dónde? Probablemente pienso que en París; creo que incluso en el caso de que no reciba pronto ninguna información de allí, viajaré aproximadamente dentro de ocho días para examinar a fondo cuáles son las posibilidades reales que existen. Sumando una serie de papeles oficiales que he logrado reunir, he intentado dejar la puerta abierta en todo caso a la posibilidad de una retirada a mi asilo de aquí, una puerta, dicho sea de paso, que cada vez es más difícil que se abra a los alemanes.



Desde la carta que tú me confirmaste has tenido que recibir, al menos, una nueva. A mí, entretanto, me ha llegado a las manos tu último envío. No puedo sino darte las gracias por todo. Piensa, por favor, en París con perspectivas más convincentes. Incluso en el peor de los casos no pienso salir de allí sin haberte visto antes. ¿Después de Musil has planeado leer algo mejor?

Leo actualmente a la ‘Princesa de Cléyes’, de Madame de Lafayette. Además, mientras esté en Ibiza seguiré alentando la traducción de ‘Infancia en Berlín’. Una traducción muy correcta de Logias está ya casi preparada. Ernst, naturalmente, no ha escrito. Moras, naturalmente, tampoco ha enviado ningún número de la ‘Europäische Revue’. Ça ne fait rien.
Hazme saber cómo te va. Escríbeme pronto; yo por mi parte cuidaré de contestarte. Todo mi cariño.


(’Cartas de la época de Ibiza’, Ed. Pre-textos, 2008)

23 setembro 2017

Frederico Füllgraf - Ela tinha um astro no lábio


"Nu deitado", 1917 - Amedeo Modigliani 




Conto

Quando, esparramada de costas, recolhia suas pernas fortes contra os peitos bem-conformados, ainda rijos, com mamilos eriçados, suas ancas simetricamente esculpidas, de fêmea quarentona, alcançavam a plenitude da forma (provavelmente a intenção do Criador): duas grandes peras de alabastro abauladas na base com volúpia, e que limite não tinham, pois (outra intenção do Criador) suas curvaturas eram a abóbada de uma capela, o número 8, a sinuosidade da Via Láctea, uma alegoria do firmamento.

            Assim retesada, empinada para as alturas - posição que poderia insinuar a ascensão da alma, e que na verdade era alçapão do desejo, ou ambas as coisas - sua brotação ostentava um vale em alto relevo: nas cumeeiras, na direção do umbigo, vicejava relva ligeiramente desbastada, espécie de orla para dobras e refolhamentos carnudos, em cuja extremidade superior pulsava uma greta úmida, bordejada por lábios rosados e encimada por um broto, cuja fragrância era de maresia. Na extremidade inferior escondia-se, sombreada, uma espécie de roseta da cor do cacau, entretecida de pregas, que ao mais leve toque latejava e exsudava um buquê almiscarado.

            E assim obsequiosa ela o espreitava, tentando adivinhar a latitude por onde sua geografia seria assaltada e penetrada. Algumas vezes, em espaços como a cozinha, provocava-o, arregaçando a camiseta, como única peça que cobria sua nudez, abrindo suas coxas roliças até o completo desvelo de um pássaro emplumado – que segundo o ângulo da contemplação também poderia ser um às de copas, um ninho de garças, ou ainda o cálice de uma flor, cujos lábios apartados e dobrados para fora, insinuavam uma borboleta em repouso. 

As asas já transbordadas de néctar, ela o montava e cavalgava, arquejando - a fronte crispada, cabelos esvoaçados, os olhos embotados de fúria e prazer. Possuída e posseira, esporava sua montaria, galgando morros imaginários e galopando encosta abaixo, abandonada à vertigem; esvaída até o alagamento.

            Certa noite, quando ele dedilhou suavemente aquela roseta, como fosse a corda de um violino, ela sussurrou-lhe palavras cujo intimismo aqui não pode ser sem mais nem menos franqueado. Disse que ser assim... “tomada”, “embrenhada”, era o que mais desejara desde a leitura daquela luxuriante crônica dele, sobre a apimentada vizinhança da culinária com o erotismo. Então ele a beijou nos lábios e nos seios, retirou-se de sua fenda inchada e viscosa, e pressionou seu bordão contra o broto chocolatado, pulsante. Cochichou meiguices no ouvido dela, e sentiu uma leve dilatação sobre a cabeça de seu membro. À primeira estocada, deteve-se para não machucá-la, mas sentiu um aperto, um insistente abraço por um anel imaginário, carnudo e latejante. Deslizou suas mãos sob as ancas da mulher, e, uma em cada mão, embutiu-se em seu centro; visitando-a, explorando-a, invadindo-a, e a cada cutilada, deflorando-a. Conquistando territórios dela nunca dantes tocados, enrabando-a, arrombando sua intimidade, alagando-a, sentindo o apossamento de cada milímetro de seu báculo ereto e duro, pela flor carnívora dela. E ela aspirando faminta, confrangendo, supliciando, gozando-o. Não pensou até o final a pergunta, se a mulher gozaria, ali possuída, porque ela sacudiu-se num sem número de raptos, espasmos e fonemas arfantes; o tronco enraizado até o âmago de sua fêmea.  E foi então que ele sentiu e, incrédulo, tocou e viu o encharcadiço, o enxurro melado e adocicado transbordando por seus anéis cintilantes, que repousavam feitos coroa sobre seu abismo apaixonado e esbraseado – um prodígio da natureza, o vaso proibido transbordado de desconhecido mel, derramado para o seu pássaro. Mel dela!

            Ela era sua geografia e ele seu cartógrafo. Com a bússola do instinto explorava-a. Com o teodolito do olhar media-a, mapeava-lhe os relevos e concavidades. Dois vagabundos da noite em busca da ilha do tesouro. E ela tinha um astro no lábio...

            Quando ela resfolegava de bruços sobre os lençóis, parecia derramar o território da poesia. E então as formas se invertiam. No sul nasciam e alongavam-se duas colunas simetricamente torneadas, fortemente dilatadas e alombadas ao norte – as tais peras de alabastro, em repouso. Confluindo em sentido oposto, sobre a crista lombar, corria a linha, ao mesmo tempo tributária do vale e das duas colinas contíguas. Agora a relva jazia na extremidade inferior da gruta, suspensa sobre o nada. Acima dela desenhava-se um fruto do mar na vertical; concha entreaberta pelos trancos da maré, entreluzindo folhamentos viscosos, que friccionavam delicadamente um contra o outro, quando ela corrigia a posição das pernas. E coroando o abrigo, o segredo à imagem da teia: um embuço de gruta estreita e sinuosa, apenas separada da concha por uma delicada película, acariciada ora num, ora noutro lado de seu arremate.

            E ali jazia ela, ofertando coxas, concavidades e grutas, a meseta de suas costas estendida até seus ombros, que debruçados sobre seu peito, expulsavam para os lados algumas curvas de suas mamas. Lá no umbral da espécie, a mulher descobrira-se femina erecta, e soerguendo-se, recolhera suas retro-eminências, compensando-as na altura do peito com dois frutos - e conta-se que seriam uma réplica fiel, esculpida pelas mãos da natureza, das curvas de um tralalá, ou popô.

            E como explicar, então, este fascínio do macho pelo traseiro de sua amada? Com a catequese velho-testamentária da cópula, o sex between mountains, praticado na sábia e requintada Babel, recebeu o agravo indevido de "sodomização”. Para os abramitas, certamente uma geográfica heresia, porque noves fora o Ararat, na Turquia, naqueles desertos, mountains não havia. E a transição ao Cristianismo deu-se com a mesma pregação, de tabu horripilante, designação de carnalidade demoníaca. Mas isto porque aqueles hebreus fundamentalistas afirmaram ter flagrado alguns homens na indecorosa posição... Todavia, de Babel, pela reprodução do ato nas ânforas helênicas e nos afrescos de Pompéia, a pergunta, há muito respondida, não queria calar: a mera paisagem não enfeitiça o macho, e a incursão ambilátera não faz a fêmea sentir-se poderosa?

Suspenso o ritual milenar de acasalamento pela esfregação das cavidades odoríferas, dela, no nariz do macho, logo enquadrado e punido o livre coito, estabeleceu-se a teoria dos vasos, condenando-se à crispação no fogo eterno a jubilosa (e pela fêmea, ansiada) penetração de seu vaso condenado, mas pedinte. Signo da cruzada hipócrita, indexou-se toda sua melodiosa nomenclatura (coitus more ferarum, coitus a posteriori, coitus from behind), instituindo-se, finalmente, a ditadura e a melancolia do vaso único – Desde então Post coitum triste omni est...

            Mas a desforra da natureza não demorou, pois a libido represada voltou a impor-se através da pintura e de mal-dotadas damas parisinas. É a estória do “traseiro barroco”, por exemplo, sabendo-se que barroco foi sempre um eufemismo generoso para excessos transbordantes, como as bundas das "Três Graças“, do pintor Peter Paul Rubens; bundas, que de tanta fartura jogavam faldas e sulcos, já se confundindo com as dunas do Magreb... Já os faux culs, do final do séc.19, aquela diatribe (sempre francesa!) das falsas bundas, foi um artifício para apreender o olhar masculino pelas tournures; um acolchoado de nádegas, prótese de ancas (em falta), armação de arame afivelada debaixo das anáguas, que conferia à sua usuária aquele porte de cisne, com notável rabo empinado.

            Pois, como dizia, ali jazia ela: bela como a imperfeição dionisíaca... Mas então, como resistir, não desejar penetrar e de-vastar essa paisagem venusina?

            Numa carta escrita em 1909, à sua amada, suspirava o garanhão, James Joyce: ”Minha doce, pequena puta Nora (...) Estou encantado em saber que você gosta de ser comida por trás. Senti tuas grandiosas nádegas banhadas em suor roçando minha barriga, e deparei com teu rosto ardendo febrilmente, e o desvario nos teus olhos”.

Consta que uma mulher que não tem acesso à fantasia da puta, não teria acesso ao gozo. Condição desse acesso seria entregar seu corpo, digamos, “com segundas intenções” – libertinagem reprimida, assaz curiosa... A propósito, James: a palavra “puta” não produz efeitos que vão da excitação à ofensa? Mais que grande mal-entendido, o mito masculino (e feminino) não reside na crença de que a realização de fantasias é prerrogativa da cortesã, fadista ou dadeira? E o pior: estabelecida sobre o primado do dinheiro, que compra pedaços de corpo (quanto mais recônditos e “proibidos”, mais caros), a putaria expulsou do encontro dos corpos a confluência dos sentimentos. E como divisórias entre as almas, espreitam bilhetes usados, numerados pelo Banco Central.

            E ele pergunta-se, sem preconceito algum: o que faria uma "puta", que essa mulher fagueira não fez por entrega, nele aninhada? 

Talvez da geografia brote o amor, como é mais provável ainda que do amor rebente a desavergonhada exploração da geografia.

12 fevereiro 2017

Frederico Füllgraf - Ventanas


Fotos: F. Füllgraf

Mini-contos montevideanos

Quando vi pela primeira vez aquele terraço emoldurado, imaginei que o quarto dela estivesse escondido atrás da veneziana da direita, com suas asas ligeiramente encostadas; apenas o suficiente para iluminar sempre os traços do rosto dele no escuro das cobertas.

Às vezes ouve-se algumas notas tocadas ao piano, provavelmente oculto atrás da veneziana do meio. Quando as notas resvalam pelo gradeado do terraço e caem na calçada, elas se transformam em outra nota - um si, um fá, um ré menor, por exemplo. 

Quando as pessoas as ajuntam do chão, elas voltam a vibrar como as notas tocadas pelas mãos dela. Então as mulheres e os homens as levam para casa. Para tocá-las para suas namoradas, ou seus maridos.


Já este gradeado contava outra estória. 

Enquanto faziam amor, deixaram aberta a porta. Ela queria enxergar o céu enquanto desfrutava o êxtase. As frestas da veneziana filtraram uma nesga de sol que cindiu a coxa direita dela em zonas de claro-escuro no momento da pequena morte. 

A trepadeira no vaso, que testemunhara tudo, estrebuchou.

E ela foi regá-la.

Ciudad Vieja.


Aqui a estória é sussurrada pelas cortinas.

Quando ele e ela se casaram, sempre que fazia lua-cheia sobre o rio, eles se beijavam na sacada, repleta de begônias e amores-perfeitos. Hoje, a sacada é um depósito de entulho como seu amor. 

No canto direito, jaz o cabo de uma antena do rádio, silenciado, que às sextas lhes enchia a sala de tangos, que eles bailavam, ida e volta, sempre até a varanda.

Agora, junto à porta escancarada para o nada, tudo são paredes descoradas, cortinas encardidas de pó e sonhos murchos.

"Vai se vivendo".


Aquela janela ali poderia ser de "Ulisses". 

Desde que a mulher partiu, ele não sai da cama, colocada no centro geográfico da mansarda, cujas janelas não abrem, e cujas cortinas continuam atadas em tranças. Do jeito que ela deixou. 

Em certos dias, o frio e a luz macilenta que se infiltram pelas frestas, lhe fazem lembrar Dublin. 

No inverno, as noites do Prata são compridas. Mas quem sabe Molly se arrependa...


Esta sacada poderia ser Madrid. Quem sabe, Barcelona.
Também podia ser Gênova.

Buenos Aires? Podia ser.


Palermo é que não poderia ser: quando o último capo tomou o navio para a América, todas as mulheres foram para a capela, rezar.
Aqui, no dia da chegada, essas lembranças, todas, se misturaram ao Prata.

Uma vez por dia, há vinte e três anos, a mulher espreita da varanda, por cima dos telhados contíguos.

Quem sabe hoje conseguiria denotar no rio a silhueta do barco desaparecido, aproximando-se do porto! Do qual baixaria então seu homem, que foi ao mar e nunca mais lhe escreveu.

Ela tem esperanças. Ainda não se deixa chamar viúva, mas a pensão intocada se avoluma na conta do banco.


Nesta, daqui debaixo, me senti em casa. Poderia ter sido assim: Ela me convidou para avizinhar nossos sentimentos debaixo de um só teto - minha escrivaninha encaixada na nave desta sala, iluminada pelos três lados, para que em nenhuma hora do dia o escuro caia sobre as palavras.



25 dezembro 2016

Frederico Füllgraf - O teatro e a tragédia no fim do mundo



Reportagem sobre o Festival Cielos del Infinito, 
que no Estreito de Magalhães desafia o centralismo cultural de Santiago do Chile.

Embora Concepción, a segunda maior cidade do Chile, seja equipada com um moderno e movimentado aeroporto, fui obrigado a viajar 450 quilômetos ao norte, até Santiago, para embarcar em um voo ao extremo sul do país. Enquanto pedia desculpas a Concepción desde as alturas, durante o sobrevoo fiz as contas: tivesse embarcado ali, a passagem teria custado um terço a menos e me poupado umas desesseis horas, que o trajeto para Santiago, ida e volta, me cobraria a bordo de um ônibus. Não fazia sentido algum, mas foram as condições impostas pela empresa aérea ao Serviço Nacional de Turismo, o patrocinador da minha viagem.

A fonte deste desconcerto é o confuso centralismo geográfico, político e administrativo do Chile. O governo Ricardo Lagos (2000-2006) prometeu acabar com o anacronismo, mas não o fez. Sua sucessora e atual presidenta em seu segundo mandato, Michelle Bachelet, acolheu a proposta, mas a descentralização parece uma utopia à mercê da inalcançável linha do horizonte.

A cobra “aleijada”

Meu destino era Punta Arenas, derradeira urbe em território chileno, lcoalizada no Estreito de Magalhães, ligeiramente a noroeste de Ushuaia, na Argentina, a cidade mais austral das Américas. Com a duração de três - na volta foram quatro – horas, o trecho Santiago-Estreito teve um quê de voo internacional, pois cobre virtualmente a mesma distância de 3.000 quilômetros, que separa a capital do Chile de São Paulo.

No Estreito desaparece a Cordilheira dos Andes, acabam a Patagônia e o continente americano, contribuindo para a percepção do “fim do mundo”, ilustrada em 1520 com os apontamentos de Antonio Pigafetta, escrivão de bordo de Fernão de Magalhães, quem cravou palavras tão exóticas quanto remotas, como “patagones” e “tierra del fuego”.

Se mal recordo, foi John Steinbeck quem estranhou a espichada e sinuosa geografia chilena, comparando: “it´s a country like a snake – é um país semelhante a uma cobra”.

Porém, a analogia de Steinbeck tem um aspecto insólito: a cobra é “aleijada”, sua cauda está isolada do resto do corpo.

Pendurada no extremo sul dos 4.260 quilômetros de costa, a Terra do Fogo chilena não tem conexão terrestre com o resto do país. A RN5, que ao norte desemboca na Panamericana, ao sul termina em Coyhaique, no coração da Patagônia. Quem viaja de carro, terá que abandonar o Chile e percorrer aprox. 1.200 quilömetros em território da Argentina, retornando ao território chileno à altura de Puerto Natales, e de lá percorrer os 250 quilômetros restantes até Punta Arenas. Este percurso cobra três dias de viagem, com uma segunda opção “mochileira” - de ônibus, via Villa O´Higgins y El Chaltén (Argentina) – que leva pelo menos seis dias.

O que os motoristas experimentam em pleno séc. XXI, é uma irônica repetição da História à cavalo, pois quando o conquistador do Chile, Pedro de Valdivia, foi morto na Batalha de Tucapel, em 1553, os colonizadores espanhóis curvaram-se à assinatura de um tratado com os vitoriosos Mapuches, que em suas expedições rumo à Patagônia proibiu-lhes a travessia da Araucânia. Durante trezentos anos os espanhóis respeitaram o acordo, contornando a Araucânia por via marítima, mas bastou a proclamação da independência, em 1818, e a oligarquia chilena violou o trato, invadindo e loteando o território Mapuche para colonos europeus.

Em seu breve poema, “Patagonia”, Gabriel Mistral, Prêmio Nobel chilena de Literatura, escreveu: "à Patagônia/ seus filhos chamam de Mãe Branca/ Dizem que Deus não a quis/ por tão congelada e tão remota".

¡Santiago no es Chile!”

Santiago mais é problema do que solução para o Chile, que não é uma república federativa, mas espécie de obsoleto “Estado unitário”, com predomínio absoluto da capital.

Durante a ditadura Pinochet o país foi dividido em 15 Regiões administrativas, respectivamente subdivididas em províncias. Legado sem dúvida da era colonial, os “intendentes” - como são chamados os governadores regionais – não são eleitos pelo voto popular, mas nomeados pelo presidente de turno no palácio La Moneda. Espécie de “capitães hereditários” tardios, executam à risca os planos do governo central, sem espaço para ideias e projetos, quem dirá orçamento próprio.

Com aproximadamente 7,0 milhões de habitantes, a região metropolitana de Santiago é a menor, mas a que concentra 42% da população do país, e que gera 44,0 % do PIB nacional, com taxas de crescimento que têm superado os 6,0 % anuais. Enquanto o anacrônico cenário não muda, Santiago também concentra mais de 41,0% dos investimentos públicos em saúde, 34,2 % para a moradia popular e mais de 30,0 % para infraestrutura viária.


Antonio Altamirano

Contra ventos e maré”: o festival “Cielos del Infinito”

Promessa não cumprida pelos governos da era pós-Pinochet, a descentralização ganhou as ruas com ruidoso movimento social no Chile profundo, que cobra investimentos e valorização da identidade regional, com a palavra de ordem “¡Santiago no es Chile!”, querendo dizer, o Chile não é apenas Santiago.

Estas distorções despertaram uma ideia em quatro jovens, liderados pelo ator Antonio Altamirano e a jornalista e produtora Lorena Álvarez: naturais do extremo sul da Patagônia chilena, marcada por enorme dificuldade de acesso a bens culturais, resolveram desafiar o centralismo de Santiago com um expressivo evento cultural na Terra do Fogo.

Em 2008, assim nascia o Festival de Artes Cielos del Infinito, um evento com características internacionais, empenhado em espantar, durante uma semana ao ano, as intempéries neste fim de mundo – seus ventos inclementes, temperaturas gélidas e a neve - que de janeiro a dezembro açoitam o rosto de suas gentes. Ambicioso, o projeto oferece mostras de teatro, cinema e fotografia e shows musicais, Mas seu forte são as artes cênicas, em palco e na rua.

Licenciado em Artes pela Universidade do Chile, com a iniciativa Altamirano granjeou reconhecimentos e honrarias além-fronteiras, tais como o título de “uma das 100 mais influentes jovens lideranças do Chile” (revista El Mercurio, 2010) e um prêmio da International Youth Foundation, em 2011.

Em entrevista que me concedeu em um café de Punta Arenas, Altamirano lamenta que, apesar de sua 9a. edição, todos os anos a produção do festival volta à estaca zero financeira.

Como de resto na América Latina, salvo a Argentina, também no Chile o quesito “cultura” escreve-se com letra minúscula. Sua parcela no orçamento do Estado é de pífios 0,4 %, dos quais 37,7 % estão reservados para fundos concursáveis, com a maior parte das inscrições concentradas em Santiago, sede de museus, galerias, teatros e salas de espetáculos. Enfrentando esse centralismo, todos os anos, o Cielos del Infinito deve submeter-se ao edital do Conselho Nacional da Cultura e das Artes, seu principal patrocinador, e solicitar ao Serviço Nacional do Turismo (Sernatur) o financiamento de passagens e alojamento das companhias de teatro e dos jornalistas convidados.



Teatro sobre um mundo insuportável e de outro, possível, mas utópico

Em 2015, o evento contou com um público notável de 15.000 visitantes, Embora impressionadas com o êxito, as mãos das autoridades locais estão atadas para o patrocínio. Porém, os problemas se estendem à infraestrutura. Como exemplo da precariedade, Altamirano cita o caso do Teatro Municipal de Punta Arenas. Apesar dos 5,3 milhões de dólares investidos em 2014 pelo erário para sua remodelação, tornou-se um elefante branco com “mais de 90 pontos cegos”, eufemismo que designa zonas de alto risco. O jeito foi escapar para palcos de colégios, tais como o Liceu Público ou a British School de Punta Arenas, com aproximadamente 400 lugares cada.

Contando com o apoio simbólico de 42 organismos governamentais e privados, na prática o evento é colocado em cena pela generosidade de 50 voluntários locais, sobretudo jovens estudantes de Punta Arenas. Como sofrivel “sede” serviu-lhe em 2016 um restaurante improvisado, emprestado pelo sindicato local dos pescadores artesanais, no qual o chef chileno Rodrigo Urízar, que em Valparaíso dirige o pitoresco restaurante El Peral, deslumbrou artistas e o staff com seus quitutes e iguarias, tirados da cartola culinária com passes de mágica.

Em sua 9a. edição, em novembro de 2016, o Cielos del Infinito deu um passo audaz, expandindo seus eventos para as localidades de Puerto Natales e Puerto Williams – a 50 minutos de voo de Punta Arenas – e inaugurando uma parceria com Ushuaia, na vizinha Argentina.

A segunda proeza consistiu na atração até o Estreito de Magalhães de uma dezena de companhias nacionais e estrangeiras. Com “Tú”(França), “Kamchatka” e “Fugit” (Espanha), “Capitán” (Argentina), “Los Niños de Winnipeg” e “Nómadas” (co-produções Chile-Espanha), “Clase” (Chile), “El Rey Mono” (China) e “A Casa Vaga” (Portugal), o festival escolheu um elenco de montagens do teatro contemporâneo não-comercial, que dialoga com o parto, a História e a solidariedade humanas, mas dramatizam sobretudo o modo de vida imposto pela doutrina neoliberal, os desajustes e as decepções com a democracia formal, e as tentativas de escapar à armadilha capitalista; encenações todas muitos aplaudidas. Apesar do estranhamento de outro idioma no palco, o público parecia conhecer por experiência própria essas vozes de um mundo insuportável e de outro, possível, mas ainda utópico.




O TEP e Gonçalo Amorim em Punta Arenas - Fotos: F.Füllgraf

Teatro português revisita o “Estreito”

Muito bem recebida foi a peça “A Casa Vaga”, montada pelo Teatro Experimental do Porto (TEP), a companhia em atividade mais antiga de Portugal, fundada na década de 1950 por artistas e intelectuais anti-fascistas, que desafiaram a ditadura Salazar com arrojadas montagens de Arthur Miller e John Osborne, mas que jamais conseguiram driblar a censura portuguesa com uma peça do “maldito” Bertolt Brecht.

Com ideia e figurino insólitos, “A Casa Vaga” narra a emigração de três portugueses ao faroeste norte-americano, por volta de 1840, em busca de melhores condições de vida e de trabalho. Politizados e entusiasmados com a pregação das primeiras ideias libertárias, os três vaqueiros lusitanos – entre eles uma personagem feminina – ensaiam sua utopia, forçando um modo de vida livre do jugo capitalista e das estreitas fronteiras territoriais. Mas então entra em cena um pesonagem inusitado, vestindo terno e gravata , fumando charuto e dizendo: “Isto aqui tem dono, e o dono sou eu!”. O conflito é inevitável e culmina na morte do que reivindica a propriedade. Que não por coincidência também é português, o que pode ser entendido como metáfora nem tão sutil da luta de classes em Portugal sob a égide do Capital e das instituições da União Europeia. Porém, ainda que se insinue como acidental, a peça termina com uma advertência grave: a morte do predador pode sujar de sangue as mãos dos revolucionários bem intencionados!

Precursor do moderno teatro português, o
TEP sobreviveu o fascismo e a consolidação da democracia. Entre 1998 e 2009, foi dirigido por Norberto Barroca, sucedido por Júlio Gago. Em 2012, a direção artística foi assumida por Gonçalo Amorim, encenador residente desde 2010, um dos atores e diretor de “A Casa Vaga”, com quem conversei em Punta Arenas.

Amorim deverá retornar ao Chile em 2020, com um conjunto de obras em co-produção com Altamirano, sobre os 500 anos do descobrimento do Estreito.

Julio Popper, os "caçadores" e suas vítimas, Onas


Os senhores do fim do mundo

Um mês antes da estreia do festival, Christine Barthe, conservadora do Museu Quai Branly de Paris, deu palestras em Punta Arenas e Puerto Williams sobre a exposição “Los espíritus de la Patagonia Austral”, que reuniu 150 fotos do sacerdote salesiano e antropólogo alemão, Martin Gusinde (1886-1969), documentando os últimos dias na Terra do Fogo dos povos Selknam (Ona), Kawésqar e Yagán, no início do séc. XX.

As imagens em preto-e-branco de Gusinde, expostas de outubro a dezembro de 2016 no Museu de Belas Artes de Santiago, têm o poder de fazer sorrir e chorar a alma, diante da beleza em estado bruto e os estertores dos povos do fim do mundo. Autor do clássico “Los Fueguinos” (1937), Gusinde não foi oportunista, registrando e “roubando” as imagens aos fotografados, mas tornou-se amigo deles e engajou-se em uma vã tentativa de salvá-los do extermínio.

O extermínio tornara-se crônica anunciada desde 1867, quando o presidente José Joaquín Pérez decide acabar com a colônia penal de Punta Arenas, declarar a vila como "porto livre" e atrair imigrantes europeus. A chegada ao Estreito do português José Nogueira, do judeu lituano Elias Braun Fucks, e do espanhol José Menéndez, mudaria para sempre a paisagem da Terra do Fogo e selaria o destino de seus milenares povos originários; um capítulo da História jamais pesquisado e virtualmente desconhecido em Portugal.

Com mais de 4 milhões de hectares de terras concedidas gratuitamente pelos governos argentino e chileno, o trio Nogueira-Braun-Menéndez expandiu no sul da Patagônia o maior rebanho de ovelhas do mundo, foi proprietário de empresas de mineração, navegação e importação, e excerceu o monopólio da exportação de lã à Europa. Durante cinquenta anos, até a Segunda Guerra Mundial, com sua Sociedad Explotadora de Tierra del Fuego, foram os senhores do fim do mundo.


José Nogueira e Sara Braun


José Nogueira e o “Estreito do extermínio”

Deambulando por Punta Arenas, depara-se com profuso número de símbolos da opulência do novecento fueguino que emolduram a Plaza de Armas. Sua edificação mais exuberante é sem dúvida o Palácio Sara Braun, sede atual do Hotel José Nogueira, o mais requintado da cidade.


Em 1887, um casamento por iinteresse unira Sara Braun Hamburguer, filha de Elias, com José Nogueira, viúvo de sua esposa portuguesa. O interesse girava em torno da Sociedad Explotadora de Tierra del Fuego, fundada por Nogueira, e serviu de pano de fundo para nova união de Sara com José Menéndez, após o falecimento de Nogueira, em 1893. Herdeira da fortuna de Nogueira, em 1905 Sara Braun inaugura o palácio construído pelo arquiteto francês Numa Meyer como símbolo-mor do clã Braun-Menéndez e seu poder sobre as vastidões da Patagônia.

Em data incerta, estima-se que o marujo José Nogueira, natural de Vila Nova de Gaia, vizinha do Porto, tenha desembarcado em Punta Arenas em 1866, após aventurar-se pelo Rio de Janeiro, Montevidéu e Callao, no Peru.

Como Braun y Menéndez, pisou o chão da Patagônia sem capital nem outras posses. Porém, atento à movimentação de naves baleeiras inglesas, além de chalupas, das que saltavam legiões de homens armados com paus e escopetas para trucidar animais sobre o pedral do Estreito, sua perspicácia farejou um exelente negócio: a caça às focas e aos lobos marinhos.

É como lobero que Nogueira faz sua primeira fortuna, exportando para a Europa peles finas e azeites animais.

Estima-se que entre meados e final do séc. XIX foram chacinados à pauladas e tiros, mais de 300.000 lobos marinhos pelos caçadores ingleses, aos quais Nogueira servira antes de abrir seu próprio negócio.

O que o português certamente observara, mas dera de ombros, é que os animais constituíam a principal dieta marinha dos povos Ona e Yagán, que, desesperados, resistiam com seus arcos e flechas contra as armas automáticas do faunicídio.

Direto e feroz, o extermínio de Onas, Yagánes e dos Tehuelches, em terra firme, completou-se com o ciclo ovino. Milhões de ovelhas invadiam os pastos dos camelídeos nativos, como o Guanaco, subitamente cercados por arame farpado a perder de vista e reduzindo a pó e vento os rebanhos de carne dos povos originários.

Sem outra alternativa à inanição que derrubar as cercas e apoderar-se de alguma ovelha, agora Onas, Yagánes e Tehuelches tornavam-se objetos de caça das milícias de sicários contratados por Nogueira, Braun e Menéndez. Sua crueldade não desprezou requintes como a violação em massa de mulheres, o envenenamento de iscas de carne com estricnina e os fuzilamentos.

Caçador de ouro e índios, o imigrante romeno Julio Popper (vide foto) celebrizou-se como um dos comandantes do genocídio na Terra do Fogo em dezenas de documentos, mas sobretudo através da magistral novela “Corazón a contraluz”, do músico, poeta e escritor chileno, Patricio Manns.

Entre 1850 e 1916, foram executados a sangue frio 3.000 Yaganes e 3.500 Onas. Os poucos sobreviventes vegetaram em barracos da Igreja Salesiana da Ilha Dawson, usados em 1973 pela ditadura Pinochet como campo de concentração para altos funcionários do governo de Salvador Allende.

Conhecida como “a última Ona”, em 1966 faleceu na Argentina a xamã, cantora e contadora de estórias, Lola Kiepja. No entanto, muitos anos depois, durante a pesquisa para seu premiado documentário “El botón de nácar”, o cineasta Patricio Guzmán descobriu mais uma sobrevivente do genocídio em um pobre fiorde de pescadores do Chile: Cristina Calderón, cujo nome original perdeu-se no esquecimento.

Em uma cena sublime e enternecedora - The Pearl Button (El botón de nácar) - Language - a câmera focaliza a velha senhora produzindo um novelo de lã. Poderia ser uma metáfora do resgate da memória, que ela volta a desfiar, traduzindo para seu idioma nativo os nomes das coisas em espanhol.

É para ver e não parar de chorar.