04 novembro 2010

Frederico Füllgraf - O beijo de Bóreas, Parte II

Isabella Miranha,Yuri Comás: morte em Munique


"Pai da Botânica Brasileira"
Cento e setenta anos após a aventura de seu tetravô, o advogado Alexander Von Martius, instalado em endereço nobre do Odeonsviertel, setor histórico de Munique, incumbiu-se da administração do acervo biblio e iconográfico da expedição, recolhido em regime de comodato à Biblioteca do Estado da Baviera. Emocionado com a eventual imortalização de seu ilustre ancestral em telas e monitores, abre o acervo para a pesquisa de pré-produção do filme que eu queria fazer.
Manusear os manuscritos originais, rabiscados, de uma obra clássica, é uma experiência emocionante, e sua monumentalidade inibe. Após a morte de Spix, ocorrida em 1825, provavelmente por causa de uma malária mal-curada, Martius dedicou com persistência avassaladora os dois terços restantes de sua vida à tabulação de dados científicos e à publicação do imenso acervo coletado no Brasil. E ei-lo, sistematizado. Em "Passado e Futuro do Homem Americano" (Munique, 1838), Martius ousou traçar um perfil antropológico do índio brasileiro, mas com olhar europeu, fatalista. Já com a  "Natureza, Doenças, Medicina e Remédios dos Índios Brasileiros" (Munique, 1844) compilou o primeiro receituário fito-terapêutico e de medicina popular do Brasil, constituído de aprox. 130 plantas medicinais em uso no início do séc. 19.

Do ponto de vista estético, porém, suas duas obras mais exuberantes são a "Historia Naturalis Palmarum" - atlas em três tomos e ilustrações in folio, no qual o botânico inventariou mais de 120 espécies palmáceas brasileiras - e a "Flora Brasiliensis", cuja edição completa o próprio D. Pedro II ajudou a financiar, e que entre 1840 e 1906 contou com a participação de aproximadamente 60 especialistas internacionais, tais como o desenhista de plantas, Johann Buchberger. A instituição das "províncias botânicas brasileiras" – estabelecidas em  nova ordem taxonômica, e agrupadas em 40 famílias - além da publicação de mais de 20 obras científicas nos terrenos da Botânica, Zoologia, Medicina, Antropologia, Geografia e Lingüística, certamente faz de Martius o maior brasilianista do séc. 19, logo celebrizado como "pai da Botânica brasileira.".

Através de sua obra geográfica e botânica, Martius soe apresentar-se como cientista - objetivo, sisudo, quase frio. Ao longo da expedição, no entanto, irromperá em cena, mas como tímido personagem coadjuvante, o Martius-pessoa; subjetivo e apaixonado. Emocionantes são suas cartas, cujos originais, trocadas com Goethe, manuseio em Munique, e numa delas ele informa ao autor de "O Jovem Werther" que em território da atual Bahia acabara de batizar de Goethea Cauliflora uma plantinha da família das malvas - um  gesto de gratidão pelas informações contidas na  “Morfologia das Plantas”, da autoria de Goethe, que participa desta expedição como correspondente entusiasmado.

A música e uma história de amor

Ana Maria Kieffer

Jovem com formação e um excelente ouvido musical, Martius tocava violino, que o teria acompanhado durante a expedição. É bem possível que tenha atravessado o Brasil, vez por outra executando um Mozart ou alguma obra sacra, mas sentiu-se seduzido pelos Lundus e as Modinhas, nativos, cantados em arraiais e saraus, nas fazendas. Memorizava as melodias populares, muitas delas de autores anônimos, e de ouvido escreveu suas respectivas partituras, contribuindo para sua eternização: “Eu nem suspirar sabia, Antes de te conhecer, Mas depois que vi teus olhos, Sei suspirar, sei morrer...” Algumas foram anexadas à edição alemã da "Viagem pelo Brasil", e pela primeira vez adaptadas e gravadas em CD (2) pela cantora lírica, paulistana, Ana Maria Kieffer, e seu conjunto de música popular do Brasil-Império. Fundadora de certa “Confraria Von Martius”, grupo de artistas e intelectuais brasileiros, apaixonados pela Viagem pelo Brasil, Ana Maria recebeu como se fosse um presente, meu convite para compor a trilha sonora do filme, cuja produção foi interrompida porque em 1992 seus principais investidores alemães resolveram empatar seu dinheiro na ex-Alemanha Oriental, sucatada.

Outra janela subjetiva prevista no roteiro do filme foi a revelação dos originais de “Frei Apolônio” (3), romance que Martius escreveu como espécie de “interface entre a divulgação científica e a imaginação literária” (4). Enredo fortemente autobiográfico, seu personagem central é um naturalista estrangeiro em visita à Amazônia, apaixonado por uma índia brasileira. “Frei Apolônio” nasce durante a caminhada de Martius pela selva, onde presta atenção aos afazeres das mulheres; brancas, mestiças e índias. Sendo médico, observa sua manipulação de plantas medicinais, sua capacidade de cura de variadas doenças, mas é sobre a intimidade das mulheres índias que recai o olhar furtivo do personagem do romance; e quase sempre com o recorte psicológico do buraco da fechadura; certamente porque Martius era luterano, devoto, ou porque sua antropologia rudimentar já lhe exigia distanciamento do objeto do desejo. Os originais do livro foram trancados a sete chaves pela Família Von Martius, mas descobertos na mesma Biblioteca por pesquisadores bávaros, em 1967. A decisão de esconder o livro do público não se deveu ao temor da devassa da intimidade de Martius, mas aos próprios defeitos de composição literária, na qual, segundo Nicodemos Senna “o contexto invadiu o texto...abrindo-se um abismo entre a imagem e sua expressão”


O beijo de morte de Bóreas

Spix, Martius e os dois curumins chegaram a Munique debaixo de espessa nevada, a poucos dias do Natal de 1820, e foram a grande atração das colunas sociais bávaras. Os castelos e casarões não tinham calefação, mas os indiozinhos foram obrigados a tirar a roupa,  expostos à curiosidade pública e à sanha dos pintores, como “os calados selvagens do Prof. Martius”. O paroxismo: como a garota Isabela pertencia à tribo Miranha, do Alto Rio Negro, e o menino Iuri, ao grupo dos Comás, das margens do Rio Purus, sequer conseguiam comunicar-se, recolhendo-se em terrível sentimento de desproteção e mutismo.

Martius, contudo, exultava: havia conseguido apresentar a Sua Majestade, Max, o Rei Maximiliano, dois selvagens em carne e osso, admiração tributada pelo rei com a concessão dos títulos de nobreza - "von" - aos dois viajantes. A índia Isabela foi rapidamente “adotada”  pelas jovens filhas do rei. Deram-lhe roupas finas e tentaram ensinar-lhe alemão e a etiqueta - “Guten Tag, mein Name ist Isabella!“. Mais isolado, Iuri adoeceu antes que Isabella também caísse com febre. Questionava-se a velha copeira de Martius, se era o frio ou, por acaso, a tristeza que estavam deixando as crianças doentes. 

Compassiva, a  escritora Henrique Leonhardt (5), colocou-se no lugar dos curumins, imaginando a perspectiva: tudo era assustador para as crianças, sempre acocoradas ao lado de suas camas. Leonhardt  preencheu com emocionante tentativa de reconstituição ficcional o silêncio reservado por Martius aos dois índios. Iuri e Isabella nunca tinham visto uma casa, não estavam habituados aos móveis, estranhavam os cheiros e o sabor das comidas. E o que dizer desse pesado sotaque bávaro, desafiando o seu jejum - Essen, ihr müsst essen, Kinder, sonst ruf’ ich die böse Hex’! (Comer, vocês tem que comer, crianças, senão eu chamo a bruxa malvada!).

- Abram estas malditas janelas!, vociferava Martius, toda vez que acedia ao quarto, gelado, em que definhava o menino Iuri. O professor  atribuía seu mau estado de saúde “à falta de ar fresco”. Muito pelo contrário, era o excesso de elementos em perigoso ponto de glaciação, que estava matando o índio brasileiro. O estado de Iuri piorou e Martius mandou chamar o médico da família. Tarde demais: feito um gravatá, colhido nos trópicos e transplantado para o canteiro das tulipas de neve, não resistiu ao beijo de Bóreas, deus dos gélidos ventos do norte: Iuri morreu no inverno de 1821.

Isabella sobreviveu mais um ano. No verão, as meninas brincaram com ela o jogo da amarelinha, e os adultos levaram-na, com aquele chapéu de renda branca, até o Chiemsee, o belo lago aos pés dos Alpes, azulados. Mas Isabella não suportou o terceiro inverno da Baviera, falecendo no final de 1822, e foi sepultada com Iuri no Südfriedhof, onde Martius veio fazer-lhes companhia, após sua morte ocorrida em 1868. 
"Como se deve escrever a História do Brasil"
Em 1844, Von Martius publicou um interessante ensaio, intitulado "Como se deve escrever a História do Brasil". Constatando que a historiografia oficial era totalmente permeada pelo discurso colonialista português, esboçou a matriz de um projeto historiográfico, que segundo seu entendimento seria capaz de conferir uma identidade à Nação, em processo de construção. Segundo Von Martius, seria desejável que os futuros historiadores centrassem seu foco na missão específica reservada ao Brasil, enquanto Nação, e estimulando a idéia da mescla das três raças, assegurassem sua identidade.

Traçando um esboço do país, cuja evolução obedeceria a certa "lei das forças diagonais", cada uma dessas raças seria um motor da História do Brasil. Mas com reservas, porque segundo a concepção de Von Martius, devido à sua maior experiência civilizatória, o branco deveria ser contemplado com maior interesse na liderança nesse processo. Já os negros são enfocados sob o prisma, contraditório, da depreciação, pois representariam um obstáculo ao processo civilizatório - olhar que hoje só pode causar espanto, dada sua conotação racista, mas completamente "natural" no contexto de uma etnografia apenas emergente, em meados do séc. 19. Os indígenas, enfim, apesar de enquadrados sob o ponto de vista de "ruínas de povos antigos", mereceram a valorização do naturalista, que encoraja sua integração à História Nacional sob a perspectiva dos conhecimentos que propiciaram à História Natural do país.

O vôo filosófico e humanista do botânico não agradou à elite da época, que rejeitou, até o início do século XX, a miscigenação que Martius identificava como pilar da identidade nacional. Apesar de suas próprias restrições, a reflexão de Martius “foi uma ante-sala do discurso da miscigenação, fundamental para definir a identidade nacional”, afirma Karen Lisboa, autora de uma das narrativas brasileiras sobre a expedição.

Escravos e natureza de Rugendas

Martius, Langsdorff e Rugendas
Exatamente um ano depois do regresso de Spix e Martius a Munique, Hans Lorenz Rugendas participava da redação do contrato entre seu filho, Hans Moritz (ou João Maurício) Rugendas, e o Barão Von Langsdorff, que na qualidade de emissário do czar, Alexandre I, e de Cônsul da Rússia no Rio de Janeiro, contratava naturalistas e artistas para sua própria expedição ao interior do Brasil, a ser iniciada em maio de 1824.
O mesmo rei Max Josef, ou Maximiliano José I, da Baviera, um grande entusiasta do Brasil, foi informado sobre o projeto de Rugendas, já que havia apoiado a expedição de Martius e Spix, e ali mesmo combinaram que João Mauricio Rugendas deveria ampliar os contatos já existentes no país. Martius acompanhou os preparativos da viagem, e da mesma forma como Humboldt, que residia em Paris e estava debruçado sobre o texto da sua "Nova genera et species plantarum" (7 vols. in fólio, escritos entre 1815 e 1825), ele também solicitou a Rugendas que lhe enviasse desenhos e aquarelas para ilustrar suas obras de botânica.

No início de janeiro de 1822, Rugendas tomou um navio no porto de Bremen, rumo ao Brasil, desembarcando em 5 de março de 1822 no Rio de Janeiro, onde o esperava Langsdorff. Nascido em 1802, quando desembarcou, Rugendas mal completava 20 anos de idade, celebrando seu aniversário em 29 de março de 1822, na Fazenda Mandioca, de Langsdorff.

A fazenda, localizada no hinterland do Porto da Estrela, nos fundos da Baía da Guanabara, se estendia por uma zona de grande diversidade botânica, e já servira como refúgio para Auguste Saint Hilaire, Spix, Martius e outros. Apesar da pujança tropical, o artista plástico não consegue desfrutar relaxadamente dessas belezas naturais, pois ali mesmo começaram seus enfrentamentos ideológicos com Langsdorff; aspecto da permanência de Rugendas no Brasil muito raramente enfocado por autores nacionais.

Ocorre que em sua fazenda o Barão mantinha 200 escravos, negros, por quem Rugendas logo se afeiçoou vivamente. Langsdorff era um homem carismático, mas certamente não um re-descobridor das Américas, na linha iluminista, pró-abolicionista e independentista, recém-inaugurada por Humboldt, e, sim, um empreendedor que apostava na longevidade do sistema colonial. Já Rugendas chegava ao Brasil, marcado pelo espírito do Romantismo alemão e a rebeldia ideológica do movimento "Sturm und Drang" (literalmente:agitação e impulso), de precoce matiz republicano.

O artista se compadeceu das condições de vida cruéis dos escravos, e devido aos seus duros agravos ao regime escravagista, a relação do barão e do jovem artista plástico ficou estremecida antes mesmo que a expedição partisse. Quando atravessavam as Minas Gerais, deixando para trás Barbacena, São João del Rei, Ouro Preto e Sabará, Rugendas e Langsdorff se enfrentaram numa última disputa.

Concluído o trabalho de ilustrador, ao qual estava obrigado por contrato, Rugendas desligou-se da expedição, tomando uma decisão que se pode considerar acertada, pois já era previsível que nem de longe o empreendimento de Langsdorff teria o êxito da expedição de Spix e Martius, realizada cinco anos antes. Adrien-Aimé Taunay, substituto de Rugendas como desenhista da expedição, morreu afogado num rio, e foram tantas as doenças e mortes durante a malfadada aventura, que Langsdorff se viu obrigado a interrompê-la e regressar à Europa, onde ele mesmo desembarcou em estado mental próximo à demência.

Final feliz (para a Ciência...)
Comparados com o verdadeiro saque biológico, perpetrado durante o período colonial pelas potências européias contra os países e povos colonizados, com esta viagem e esta obra, monumentais, Spix e Martius legaram à memória nacional muito mais do que efetivamente levaram do país - missão científica, da qual desgraçadamente o translado doidivanas dos dois indiozinhos da Amazônia resta como esmaecida nota de rodapé da História.

Frederico Füllgraf - Peregrinações pelas ruínas de W.G. Sebald


Ensaio


Ao invés de sair caminhando, como de costume, para um de seus passeios (muitas vezes tornados demoradas peregrinações) pelas paisagens ermas e entrosviscadas da Anglia Oriental, junto ao golfo de Norfolk, neste 14 de dezembro Max subiu ao seu carro para buscar sua filha em Norwich e não mais retornou: disseram tê-lo visto mergulhar no trânsito em sentido contrário... Sofrera um ataque cardíaco ao volante, bateu de frente, desapareceu entre as ferragens, morte instantânea.  Hospitalizada em estado grave, sua filha sobreviveu. Max morreu justamente quando tinha alcançado o topo. Ia receber o importante prêmio literário National Book Critics Circle por Austerlitz, seu último livro.

A morte de Max, apelido para os mais íntimos, do escritor alemão W.G. (de Winfried Georg Maximilian) Sebald, naquele dezembro de 2001, enredou no luto os entes mais queridos mas também os leitores, do mundo todo. Dos apenas iniciados em sua densa e impenetrável obra, até a crítica, todos  entenderam-se órfãos. Ao ler a notícia do acidente de Sebald, Rui Tavares, crítico português, sentiu "que o mundo físico se comprimira e afunilara momentaneamente, talvez como sinal da aridez que sempre se acrescenta quando desaparece alguém que, como Sebald, consegue pensar e enriquecer o mundo".

"Será possível, ainda, a grandeza literária? Ante a decadência implacável da ambição literária, a convergente ascensão de desengano, a verborréia e a crueldade insensível como assuntos normativos da ficção, o que seria na atualidade um projeto literário centrado na nobreza? A obra de W. G. Sebald é uma das poucas respostas disponíveis aos leitores do idioma inglês", desabafou Susan Sontag, antes de despedir-se, ela também, e fazer-lhe companhia no silente além.

Nascido em 18 de maio de 1944 em Wertach, distrito do Allgäu, região alpina alemã, Sebald levou a vida viandante e perscrutativa do personagem central, o alter-ego que conduz a narrativa em todos os seus livros. Filho de um ex-combatente alemão nas fileiras da Wehrmacht de Hitler, deixa a terra natal para estudar Literatura em Freiburg/Breisgau, curso que abandona após o segundo ano, transferindo-se para a Suíça francesa, onde se habilita com uma licenciatura em 1966. Da Suíça migra para Manchester, onde atua como docente até 1969, quando retorna à Suíça. Depois de um ano como professor em escola secundária em St. Gallen, volta à Inglaterra, para tornar-se professor-assistente de literatura comparada na Universidade de East Anglia, em Norwich; desde 1984 como professor - titular.

Autor de refinada prosa ensaística que dialoga virtuosamente com a literatura universal (O mito da destruição na obra de Döblin, 1980; Descrição do acidente – sobre a literatura austríaca de Stifter a Handke, 1985; Pátria Mal-Assombrada, 1991; Hóspedes em uma casa de campo – perfis autorais de Gottfried Keller, Johann Peter Hebel, Robert Walser ee.oo, 1998; Guerra aérea e Literatura, 1999 – todos inéditos em Português), é no Romance, contudo, onde irrompe seu inerrante e melancólico olhar sobre a História e o desgarramento humano na geografia dos sonhos e dos acidentes de percurso individuais.
Sebald começa a escrever tarde, aos 47 anos. Em menos de dez anos, porém, consegue construir uma obra tão consistente e de esmeradas traduções para o Inglês (inspecionadas pelo autor), que seus livros repercutem primeiramente no universo cultural anglófono antes de seu reconhecimento na própria Alemanha. A revista The New Yorker o aclama como o mais importante escritor europeu da virada do milênio e a crítica norte-americana arrisca propô-lo ao Nobel de Literatura.

Durante a leitura de seus dos textos, duas inevitáveis associações impõem-se: o parentesco espiritual, fatalista, de seu olhar sobre a História, com a fatalidade histórica codificada na metáfora do Angelus Novus de Walter Benjamin – História como tragédia, amontoado de ruínas, que insiste em ser decifrado pelo contemplador; e Humanidade incorrigível que insiste em ser devorada. À obsessão pelo esquecimento Sebald opõe o imperativo da memória; lembrança como didática da tomada de consciência. História como corpo enterrado vivo, sedimentado em camadas de esquecimento, não-resolvido. E História como tempo derretido, simbolizado pelos relógios moles de Dali, lava que abre feridas na paisagem, que não cicatriza; a dor que persevera.

Primeiro livro de Sebald, Nach der Natur (Do natural, 1988, ainda inédito) é um tríptico sobre o amor e o temor à Natureza, na forma de "poema elementar", como o legendou o autor. Pérola de linguagem, nela Sebald discorre sobre a vida de três homens que experimentaram dolorosamente o conflito com a Natureza.


No primeiro painel desfila Matthias Grünewald, pintor de santos, crucificações, eclipses e catástrofes, que viveu os horrores de um tempo em que já se perseguia aos judeus e nas guerras se arrancava os olhos aos vencidos. O segundo, traça o perfil do botânico W. Steller, que se une à malfadada expedição russa de Vitus Behring em busca do Alaska. No último, Sebald empreende uma viagem à Pinacoteca de Munique, com o único objetivo da contemplação  do quadro "A batalha de Alexandre" de Altdorfer. A intenção de Sebald é induzir uma reflexão sobre a condição humana e a História – fábula que nos encara através do olhar desconcertante de alquimistas convertidos ao cartesianismo, e de suas criaturas quiméricas em corpos de peixes-coelhos, unicórnios e ornitorrincos.

Mas, é comovido que o alter-ego narrador se aproxima de seus anti-heróis, desgarrados todos, e desmemoriados, como Austerlitz; a maioria constitui-se de judeus que não se sabem... Em Schwindel Gefühle (Vertigem, 1990, inédito em Português), o narrador na primeira pessoa deambula pela Áustria, Itália e pelo Sul da Alemanha "na tentativa de preencher o vazio que de mim se apodera, toda vez que chego ao final de uma grande jornada de trabalho". Perde e recupera o juízo,  reflete sobre o amor, garimpa vestígios da passagem de Kafka pela Itália e tenta resgatar e dar sentido à sua própria infância no seio de uma família pós-nazi, quando o manto do silêncio dos anos 50 cobriu a memória da negra noite da guerra e do holocausto – matéria-prima do ensaio Die Unfähigkeit zum Trauern (A inaptidão para o luto) do psicanalista Alexander Mitscherlich; obra epistolar da Escola de Frankfurt sobre a sublimação coletiva do 3º. Reich.
No intrigante Os Anéis de Saturno (Record, 2004), o narrador caminha pelo litoral inglês, entre Norfolk e Suffolk, numa pausada meditação intercalada por breves ensaios tão dessemelhantes quanto impagáveis sobre Rembrandt, o caráter das guerras, o ciclo de vida dos arenques, a melancolia e a destruição das grandes florestas do mundo – numa tradução rasa de Lya Luft, desprovida de enlevo e uso criativo da palavra, que o autor muitas vezes vai buscar em densos e melodiosos arcaísmos germânicos e que têm sua correspondência no riquíssimo léxico luso-brasileiro de Camões por Machado a Guimarães Rosa; incompreensivelmente desprezado pela autora e tradutora gaúcha.
Em Os Emigrantes (Record, 2002), Sebald sai no encalço de parentes emigrados no pós-guerra dos Alpes para os EUA, de um professor primário para a Suíça e de um artista plástico para Manchester. É com desmedida compaixão, que o narrador tenta reanudar a saga negativa de sua família, alfinetando com sarcasmo, que a toda genealogia adere a fantasia e o mito dos seus contadores. Sebald garimpa na subjetividade de seus personagens e nas razões da História, o ímpeto irrefreável da imigração, da partida para territórios desconhecidos – cujo pano de fundo é aquela "pátria mal-assombrada" descrita em seu ensaio, e mãe de todo os medos, que fez do próprio autor um viandante, saltador de cancelas.
São exílios do corpo, pois a alma, mortificada, carrega seu sofrimento para além-fronteiras, em evocações magistrais e copiosas que transportam e arrebatam. E sobre os exilados soe pairar o espectro da perda irreparável; das posses materiais, do juízo e da vida. Para alguns a colônia psiquiátrica é estação terminal, para outros, o suicídio.

Ao mesmo tempo noir e luminoso, é o conto que encerra o volume d´Os Emigrantes - a estória do artista plástico Max Aurach, que aporta em Londres em 1908 para estudar arte, passando a morar na mesma casa antes ocupada pelo filósofo austríaco Wittgenstein, e que mais tarde se refugia, anônimo, em Manchester. Magistral é o imbricamento de dois grandes temas construído pela imaginação de Sebald: para falar da "solução final" de Hitler, ficciona um diário escrito pela mãe do já famoso pintor, e, simultaneamente, infiltra a história de Manchester que,  de grande centro do comércio mundial, agora jaz em escombros; História como escavadeira e moto-niveladora, galera ciclópica afundada pelo tsunami das tecnologias e do desperdício.

Enquanto nossas narinas inspiram o odor fétido e aziago das águas do decadente porto, que penetra pelas frestas das docas onde o pintor instalou seu ateliê (toda boa literatura é olfativa!), Sebald, cauteloso, vai ao encontro de Aurach como uma zoom de aproximação, até trazê-lo ao primeiro plano e apresentar-se. Enquanto conversam, Aurach trava dilacerante luta com sua obra, aplicando formas e cores, logo raspadas rudemente com a espátula, ao ponto de ferir a tela que lhe serve de sustentação. O olhar do narrador recai sobre o monte de tinta raspada que vai se acumulando, da manhã até o entardecer, ao pé do cavalete – metáfora de Sísifo, o herói trágico do mito sobre a eterna repetição do esforço vão, e alegoria da busca obsessiva de Aurach pela "imagem ideal", descartada, de sua própria identidade ainda não aceita; a de um judeu, mas sobretudo alemão, cuja memória continua grudada à terra natal.

Prosa de densa sutileza, que adia a revelação apressada com mistério perseverante, a obra de Sebald é um caleidoscópio que dialoga, sem saber, com a Alma Atômica de Guy Hocquenghem e René Schérer - "o remédio para o desencanto, o medo, [a angústia face ao mundo unipolar, à hegemonia do Império], a dispersão trivializada dos egoísmos, só pude ser a ressurreição da alma... Entregar a alma, o prazer de especular, à maneira dos bem-aventurados, a nosso universo contraído, significa vivê-lo esteticamente, com as categorias melancólicas e visionárias de aura, do barroco, da alegoria e do sublime".
O mundo sem Max ficou mais pobre e desolado, mas W.G. Sebald, o alter-ego, "ou ainda um homem sem nome, um molde de gesso vazio, mas pensante, um fantasma solitário e sensitivo, que caminha quase sem rumo e que é o eixo que une o leitor ao mundo" (R. Tavares), sobrevive nas nossas próprias peregrinações às praias dos nossos próprios naufrágios, às  ruínas das nossas genealogias, aos territórios da ancestralidade onírica, onde mora a melancolia.

A obra

1) Nach der Natur. Ein Elementargedicht (Sobre a Natureza, um poema elementar, 1988, inédito em Português);
2) Schwindel.Gefühle (Vertigens,1990, inédito);
3) Die Ausgewanderten (Os Emigrantes, 1993, Record, 2003)
4) Die Ringe des Saturn (Os Anéis de Saturno, 1995, Record, 2004)
5) Austerlitz, 2001 (inédito)
6) Unerzählt 33 Texte, 2003, inédito)
7) Campo Santo, Prosa, Essays, 2003, inédito).
Premiações- Prêmio de Literatura de Berlim, 1994,
- Medalha Johannes Bobrowski, 1997,
- Prêmio Möricke da cidade de Feldbach 1997,
- Prêmio Joseph Breitbach 2000,
- Prêmio Henrich Heine 2000 (Gov. Federal),
- National Book Critics Circle Award, 2002
- e Prêmio de Literatur da Prefeitura de Bremen, 2002.