28 novembro 2018

Frederico Füllgraf - A Nebulosa de Magalhães - Um mini-conto cósmico

Imagem inferior: Estátua à F. de Magalhães, Punta Arenas, Chile.
Frederico Füllgraf

Miniconto

Depois que o fidalgo Fernão, a quem em terras castelhanas chamavam de Hernán, descobriu o Estreito no calcanhar do Novo Mundo, que leva seu nome, aprumou sua nau e tomou o rumo das Ilhas Molucas, das quais, sempre teimosamente, quis tomar posse em nome de El Rey. Mas os nativos não o deixaram – trituram-lhe o crânio com uma borduna. Magalhães não resistiu e nunca mais o viram em Portugal.

Após desencarnar, sua nau tomou direção desconhecida.

Quatrocentos e oitenta anos mais tarde, Fernão encontrava-se no umbral do Mundo das Luzes. 

Na passagem por Alfa Centauri, seu escrivão genovês, Pigafetta, despencara de estibordo em plena infinitude do Criador. Cheio de dor, a Fernão não restou outra que velejar sozinho. E então registrou em seu diário uma avistagem de tirar o fôlego. 

Distraído não se sabe por quê fenômeno celestial, repousou seu diário sobre o peitoril do convés, e ali o esqueceu. O diário também despencou no Cosmo, serpejando em direção a um grande Buraco Negro.

Captada por um possante radiotelescópio fincado nas escarpas do Valle del Elqui, nos Andes, a mensagem na página aberta dizia: “Este sol brilha mil, multiplicado por mil vezes mais do que nossa velha lamparina da Via Láctea. Sua luz cegou-me. Tudo são brumas”.

“Imagine-se a seguinte imagem”, escreveu ele: “Em Calicuta das Índias alguém suspende uma torrada com geleia diante de uma vela. No mesmo instante, mas em Portugal, mediríamos os restos das chamas da vela, sendo com isso capazes de determinar o tipo de marmelada que em Calicuta fora aplicada à fatia do pão!”

Fernão não sabia que sua velha nau, com rachaduras no madeirame e velas estropiadas, tinha navegado 150 mil anos-luz.

Sempre distraído, como naquela manhã, à entrada do labirinto da Terra do Fogo, agora acabara de descobrir a Nebulosa de Magalhães.

Por fugazes instantes, foi divagação que capturou meu atrevido imaginário, enquanto flanava ao longo da costanera do Estreito, o rosto varrido por ventos errantes no literal fim do mundo.






19 julho 2018

Frederico Füllgraf - Sedex aos sábados



Conto 

Enquanto observava, pela primeira vez, o sobrado antigo, de dois pavimentos, bem conservado, com janelões altos e porta gradeada, cercado baixo, de frente para a calçada, varreu a quadra com o rabo do olho, pois sentiu vontade em demorar-se, mas sem chamar atenção. 

Nesses tempos, parar no meio da calçada e observar uma casa, sem outro motivo que não o estético, poderia desencadear reações algo surpreendentes na vizinhança, tais como chamar a polícia.

Pois, que se danassem! Ele gostava de contemplar aquela casa. 

O reboco cinza-escuro do frontispício lhe conferia uma tonalidade soturna, apenas ligeiramente ateada pelo verde das bananeiras adultas que impregnava suas venezianas, fechadas. Apesar disso o conjunto lhe transmitia aconchego.

Mas aquela casa não queria caber ali.
Ela, sim, cercada de más companhias, numa babel de traçados que constituíam o terceiro estilo, como o descrevera Alejo Carpentier: um convívio de edificações dessemelhantes nas ruas do Novo Mundo, que era ao mesmo tempo tudo e nada, do bom ao péssimo gosto. A falta, enfim, de qualquer estilo.

Não, a casa não pertencia àquela rua! Essa certeza verdadeiramente atiçou sua obsessão em desvelar seus interiores.


Duas semanas depois, caminhando pela redondeza, sentiu saudades da casa e decidiu-se pelo trajeto mais tortuoso, apenas para desfrutar aqueles momentos fugazes de lembrança embaciada. Lembrança daquela casa pendurada em algum alcantilado do Mediterrâneo.

Mas então ouviu tossidas na calçada, e era uma tosse feminina. 

Intrigado, percebeu que os soluços emanavam do interior do próprio sobrado, cujos janelões agora estavam abertos sobre o dia. 

Deteve-se ao lado de um poste, dissimulando e, pensando naqueles pratos parabólicos que cavalgavam os ângulos mais inusitados das casas, ajustou ao máximo suas orelhas ao eixo de uma das janelas. 

Podia jurar que era mesmo Violetta acometida por um de seus surtos de tuberculose, no primeiro ato! Obviamente, Alfredo aproveitaria sua fragilidade para aproximar-se dela e declarar-se. E ela o desencorajaria, dizendo que nem sabe como é amar, quanto mais lidar com sentimentos fortes...

Não cabia dúvida, aquela era a Callas! 

Se lhe dessem mais um minuto, apostaria que era a montagem de Luchino Visconti, de 1955, no Scala de Milão, com Giuseppe Di Stefano no papel de Alfredo... 

Tivesse trazido a máquina fotográfica e poderia despistar com um bom motivo para atrasar seus passos na calçada. Mas tinha que seguir caminho, afinal ele não era da Avon, nem das Testemunhas de Jeová, muito menos tinha uma Enciclopédia Britânica para anunciar à porta e empurrar goela abaixo de alguma dona de casa desprevenida!

Imaginou que suspeitassem que fosse algum tarado - ou "assediador sexual", como diz o jargão em moda - riu-se e, a contragosto, saiu caminhando, mas não sem virar-se e lançar um olhar furtivo à porta da entrada. Não era preciso decorar o número, era apenas uma obsessão.

Acendeu um cigarro e tomou o rumo da esquina.

A verdade é que ele estava perigosamente apaixonado por aquela casa. E começou a passear suas fantasias.

Em sua terceira passagem, manhã de sábado - desses finais de maio, aprazíveis, com céu azul espelhado - percebe que a confeitaria, localizada do outro lado da rua, colocara mesas e cadeiras na calçada. 

E decide abancar-se, mas de tal modo, que seu campo de visão emoldura perfeitamente a sonhosa vivenda. 

Pede um café e um Domecq, e também a enfastiante gazeta.

Dissimulando leitura, mas vazando a borda do jornal com um olhar de esguelha, não lhe escapa o instante em que uma mulher – ele apostaria que teria seus trinta e sete, no máximo, quarenta anos – coloca alguns vasos de plantas no peitoril de uma das janelas, que se põe a regar.

Enquanto a observa, por um átimo ela ergue a cabeça, olhando vagamente em sua direção. 

Entre duas, três miradas furtivas, ela se afasta da janela - será que percebeu sua indiscrição? 

Ele volta a acoitar-se atrás do jornal, mas não se contém e, mirando de soslaio, percebe a mulher atravessando rapidamente os fundos da sala, com uma toalha enrolada na cabeça, mas vestindo apenas uma calcinha – santo Deus, que escultura! 

Contudo, minutos depois, já vestida, ela reaparece na rotura e recolhe os vasos. 

Da sala, atrás dela, seu ouvido apurado distingue o coro dos mascarados, do 3º. Ato. Em La Traviata, o coro dos mascarados era uma cena de festa - será que ela estava lhe mandando uma senha? 

Teriam passado dez minutos, excruciantes, e ela retorna uma terceira vez, mas apenas para fechar a janela. 

Jururu, o sujeito dobra o jornal, ergue-se da cadeira, paga sua conta, vira a esquina e desaparece no turbilhão.

(Aqui impõe-se um corte da cena para um fast motion, recurso de dramaturgia barata, como nas novelas daquela nefasta rede da Lopes Quintas: crepúsculo, nuvens rápidas, escuridão, luzes na cidade...).

E faz-se noite de uma sexta-feira. 

Mal recortado contra a luz bacenta de um poste, o vulto de um homem se aproxima da entrada do tal sobrado onde canta a Callas.

A poucos passos do cercado, a figura hesita, acende um cigarro, dá algumas pitadas, nervosas, e joga fora a guimba. Ato contínuo salta o cercado e aproxima-se da porta. 

Estaria delirando? Do interior da casa alcançam-no fragmentos de Fredegunda, na inconfundível partitura de Gasparini...

Mas a voz de Galsuinda...  Não, aquela era uma voz ao vivo! 

Apertando um embrulho avantajado contra o peito esquerdo, o espectro estende o braço direito à campainha. Lembrou-se do título do filme, reprimiu o riso e tocou duas vezes.

Lá dentro, o volume da música se encolhe. 

Sente-se ridículo, mas colando o ouvido esquerdo à porta, denota passos aproximando-se. 

A luminosidade do olho mágico se dissipa; alguém tenta observá-lo do lado de dentro.

- Quem é? - pergunta uma voz de mulher.
- É um Sedex, senhora! – responde o vulto.
- A essa hora! – reage a voz , já virando a chave na fechadura.

Pela fresta da porta entreaberta, a primeira imagem que se impõe ao campo de visão da mulher é a de uma grande caixa. 

Mal a registra e a caixa desliza ao chão, Mas o que a mulher vê, agora, é uma arma apontada para sua cabeça. 

Seu gritinho estridente quebra-se entre a soleira e a sala atrás dela, enredando-se nos queixumes de Fredegunda.

Mas então é a vez do assaltante assombrar-se.

- Não pode ser! Malizia... - você, aqui?
- Malícia?
- Quieta, já explico! 

Com a mão esquerda enfiada numa luva de lã escura, o assaltante tapa a boca do belo rosto estatelado na soleira da porta.

- O que foi Clarice – machucou?      
                                        
Uma voz feminina ecoava dos fundos da casa. E não era Maria Callas!

- Clarice, pois sim! E quem é essa outra? – cobra-lhe, apavorado, o assaltante, brandindo seu revólver. – Responda, mas nenhum pio a mais, ouviu!

- É minha mãe, mora comigo, está tomando banho, é uma senhora de 70 anos... – diz, quase implorando, a mulher que, virando-se, choraminga na direção do corredor: - Está tudo bem, mãe, é uma entrega que chegou de repente. Está tudo bem!

Ainda brandindo sua arma, o assaltante ordena.

- Agora, pegue o pacote!
- Entrega? – questiona a rezinga que se espreme atrasada através da porta entreaberta do banheiro, no fundo do corredor: – Quando o correio era do governo, era ordem do Getúlio pra não importunar as famílias depois da missa das seis, mas hoje... – crendiospadre!

Ela o contempla, incrédula, se abaixa, apanha o pacote com as duas mãos e o carrega até a primeira poltrona da sala. 

Mas detém-se, e só agora presta atenção na figura do homem que se completa à sua frente: veste calças jeans, uma camisa escura, bem passada, e por cima dela um paletó marrom, de marca. É alto, deverá ter a idade dela, talvez um pouco menos, tem porte atlético. Seu rosto é de traços retangulares, bonito, seu nariz é suave, mas seu queixo é decidido, e em seus olhos escuros cintila uma chispa de cinismo que a qualquer momento poderia desatar alguma maldade.

- E agora, o que deseja? Pode levar o que quiser, mas vá embora, por favor! – implora a mulher, virtualmente cochichando, mas de esguelha pescando o telefone em cima do console.

Atento aos olhares dela, ele a encurrala, manda-a desconectar o telefone fixo e entregar-lhe o celular, cuja luz azul já cintilou três vezes no bolso da blusa dela. “A bela terá marido ou namorado?”, pergunta-se.

- Não quero nada da sua tralha! Não vai abrir? – ele insiste com um aceno impreciso do revólver ao misterioso pacote em cima da poltrona.

- O que significa tudo isso? – ela espanta-se, recuando de costas até o sofá. E abrindo a embalagem, o que salta de seu interior é a ramagem de uma bela orquídea plantada num vaso de cor ocre. 

Com o vaso nas mãos, o encara com lábios trêmulos, que esboçam um sorriso interrogante.

- É um presente! Achei que iria gostar, outro dia vi você regando orquídeas no peitoril da janela...

- Você anda me seguindo, é? Quem é você, afinal? Eu vou quebrar a janela e chamar a polícia, viu!    

- Nossa, que surpresa! – diz a anciã que se aproxima pelo corredor, com a mão na boca, sinalizando vergonha diante do desconhecido, porque veste apenas um penhoar .   
       

Com gesto imperceptível, a arma escorrega para os fundilhos da calça e o visitante inusitado já vai estendendo a mão à idosa, perplexa.

- Este é o ... – titubeia Clarice.

- Léo! – ele atalha a mulher, emendando uma mentira descarada. – Léo, amigo da Sandra, amiga da Clarice... Eu vinha para a cidade, e a Sandra pediu que eu entregasse aquela orquídea, ali, à sua filha... Desculpe a hora, mas é que, com uma flor ali dentro... Poderia murchar, sabe como é...

Clarice mantém os olhos pregados no sujeito. É uma expressão ambígua. Sente vontade de estraçalhá-lo. Mas por outro lado...

- Não quer servir uma água, ou um cafezinho para o... – é Léo, né? – assevera-se a idosa, parada na soleira do corredor, mirando a filha, e já ajuntando – O sr. me dá licença, que eu vou botar um agasalho... 

E despede-se, retornando ao corredor.              
                                        
Clarice não cabe em si de ódio pela ousadia do intruso, mas fazendo vistas grossas, encaminha-se à cozinha. 

Ele a segue, atento a todos seus movimentos.

Aquela pausa do cafezinho era a mais angustiante na vida de Clarice, que deixa intocado o seu. 

– Não vai tomar, filha? 

A velha bebe um chá de cidreira e logo se despede porque vai viajar pela manhã, cedo; a outra filha mora fora da capital, explica ela ao gentil entregador da orquídea. 

Derrubada numa das poltronas, a Clarice não escapa um esgar triunfal no canto esquerdo da boca de “Léo”, quando sua mãe se retira para dormir.

- Então era você quem cantava a Fredegunda? – ele alfineta, ajuntando um elogio: - Que bela voz!

- De onde conhece essas óperas, todas? – ela indaga, dissimulando interesse, na verdade tentando ganhar tempo.

- Ah, nem queira saber! – responde o sujeito, com um bafejo de aborrecimento: - Foram três anos de internação...     

Olhos esbugalhados, ela se oprime apavorada contra o espaldar da poltrona, cravando as unhas da mão esquerda na palma da direita.         
       
O assaltante ajunta: - Um dia, meu psiquiatra, cansado das longas sessões inócuas, trouxe uma coleção de óperas, dessas promoções de jornal à cata de leitor, e disse, “tome, vê se descobre aí o seu arquétipo!”. Ele era Jungiano... - diz, com humor corrosivo.

Por momentos, Clarice cogita se o sujeito não lhe estava mentindo, mas volta a assombrar-se quando, educado, ele pede licença para olhar a coleção de discos dela, na qual descobre “O rapto de Lucrécia”. 

Desculpando-se por lhe ter mentido, porque na verdade se chamava Tarquínio, diz: - Minha ópera preferida! 

Apavorada, ela deduz  com seus botões, conferindo as horas no relógio de pulso"Bingo! Logo imaginei! O Tarquínio estuprador da ópera! Este é o mote, o prelúdio do meu assassinato!”.

– Mulherzinha venenosa, a Fredegunda! Interesseira como a maioria dessas que andam por aí... Piranha, se me perdoa a expressão! E barraqueira! – graceja “Léo-Tarquínio”.                
- E quem é… Malícia? – Clarice o interrompe, bombeando coragem com a lembrança de Laura Antonelli naquele filme homônimo, no qual, perseguida por um filho de seu senhorio, vira o jogo, arrebatando-lhe aquela lanterna de luz cegante...

– Malizia com “z”! – ele corrige-a.

E ajunta: - Foi um susto! Ela é uma mulher virtual, com um rosto igualzinho ao seu, e seios com esse mesmo contorno de pêssegos dadivosos...   

- O que está querendo dizer? – abespinha-se Clarice.

- Brincadeirinha, desculpe! – desconversa “Léo-Tarquínio”.

“Pêssegos dadivosos!”.

De soslaio, ela percorre o próprio decote em busca de algum chamariz que justificasse o rude atrevimento daquela frase. Obviamente, aquele sujeito andava espiando. E se fosse um voyeur agressivo? Mas seus seios... 
Por acaso os teria achado pequenos demais? – rumina com seus botões, enquanto reluta em responder-lhe por que costumava cantarolar aquelas óperas. Quem sabe, respondendo, ganharia sua confiança, e nem que tivesse que manter a vigília durante aquela noite insana, o venceria pelo cansaço. 

– Sou mezzo soprano, metade do ano trabalho em Sevilha – ela resmunga, finalmente.

- Sevilha? Eu sabia, eu sabia! – “Léo-Tarquínio” desopila-se, visivelmente regozijado, mirando de soslaio o corredor, com medo de acordar a respeitável senhora.

- Andou bisbilhotando até mesmo o meu trabalho? – Clarice se enfeza.

- Não, nada disso, é a casa! Mas você não vai entender, pelo menos hoje não vai... –   responde com um olhar que se projeta para muito além do rosto dela. 

Agora, pastoreando-o nas guirlandas da fumaça de seu cigarro, entretém Clarice com a cínica moral da história de Lucrécia, a bela esposa de Colatino: Tarquínio tivera que violá-la porque ela resistira à sua corte... E era de fato a única mulher fiel em toda a Roma antiga!

E sobrevêm instantes de mortificante tensão. 

Resolvida a despertar daquele pesadelo, Clarice vai ao banheiro. Quando retorna, na cozinha apanha dois cálices e uma garrafa de vinho. 

“Léo-Tarquínio” continua a deblaterar sobre “Lucrécia” e a fidelidade das mulheres. Distraído, não percebe quando Clarice dissolve um poderoso sonífero em seu vinho, mas no momento do brinde ela se confunde, troca a ordem dos cálices, e é Clarice quem desaba na poltrona.

Por momentos, “Léo” a contempla e culpa o vinho por seu súbito decaimento, mas também sua brutal invasão da privacidade daquela mulher, por quem começava a sentir imensa ternura. Termina de ouvir “Lucrécia” e culpa-se. Depois toma Clarice nos braços, carrega-a até seu quarto e cobre-a delicadamente com a manta de lã negra, que serve de colcha.

“Léo-Tarquínio” retorna à sala, mas então voltam a assaltá-lo aquelas recordações lavadas pelo tempo. 

Medindo passos entre o corredor e o vestíbulo, estuda as linhas nas tábuas corridas do assoalho, perscruta os caixilhos das janelas, a disposição do pé direito. 

Observando-a atentamente, podia perceber-se no acabamento daquela casa intenções que ora diluíam, ora somavam fronteiras: poderia repousar sobre os penhascos do bairro espanhol de Nápoles, por exemplo. Também era possível imaginá-la como o último teto de uma ladeira de Barcelona, com intenção de afogar-se no mar defronte. Talvez vigiasse solitária sobre as areias de Saint Jean de Luz. Nem espantaria os pescadores de San Sebastián, do outro lado do golfo, se lhes mostrasse a foto, pois diriam no es por azar, porque constituía cópia perfeita da taberna do contramestre Facundo, com vista sobre o porto, onde se bebe o brandy e se fazem longas pausas de silêncio entre as conversas. 

Com seu acabamento de intenção hispânica, por cujas fendas espreitavam inspirações afrancesadas e toscanas, ninguém se surpreenderia se dissesse que era a casa de infância de Jorge Luís Borges, em Palermo Viejo. Não era a imagem frívola do tal chateau en Espagne, mas se tivesse que descrevê-la em atitude discreta, eu diria que a casa habitava certo páramo de sonho, sem dúvida, mediterrâneo.

E agora ele sorria com a recordação daquele jogo de tarô-bêbado, na noite do ano novo, em Búzios. Porque Sevilha se encaixava na descrição da amiga francesa que o surpreendera, dizendo, “Ouuulalá! Em vidas passadas você foi um magicien, algo assim. E viveu em algum lugar poderoso do Mediterrâneo, mas foi expulso do reino, pas que...- Oulalá, seduziu a mulher do sultão?”.

"Desterro", "vidas passadas"... Não conteve o riso. 

Na mente, nenhuma lembrança consciente! Mas por quê essa anamnese, essa certeza excruciante daqueles finais de tarde no terraço sobre o imenso mar? Tânger, Faro, Málaga, ou Siracusa? Que tal se...

Estirado sobre o sofá. encafifado, se fora a casa, apenas, que o incitara à loucura do assalto, adormeceu.

Despertou ao raiar do dia.

No banheiro tentou expungir as olheiras violáceas com a água gelada da torneira. Em seguida, foi à cozinha e preparou o café da manhã. 

Aturdida, a velha senhora o surpreendeu, pondo a mesa. Percebendo o sofá algo desarrumado, perguntou por Clarice. 

Sem aguardar a resposta, correu ao quarto da filha, mas percebendo que ela continuava vestida e maquiada do jeito que estivera na noite anterior, aquietou-se, reincorporada em seu pudor.

Então soou a campainha. Era o táxi.

Constrangido, “Léo-Tarquínio” também esboçou movimento de quem já estava indo, mas a anciã insinuou que ficasse à vontade, e se despediu.

Sonada, Clarice apareceu na sala, escorando-se no vão da porta, descalça.

Depois, abancados, cada um em uma poltrona, sentindo o olhar dela, que alternava severidade com lenta suavidade, “Léo-Tarquínio” disse, jocoso: - Viu, não precisou se suicidar como a Lucrécia! 

Toma! – ajuntou, com novo sorriso macarrônico, apontando o revólver ao rosto da mulher, em cujas bochechas começavam a escorrer pérolas de água da arma de brinquedo.    

Rindo-se, apanhou sua jaqueta dobrada sobre o espaldar de uma das poltronas e vestiu-a.

Quando lhe deu o beijo de despedida, à porta, disse com expressão brejeira: 
- Talvez sua amiga volte a lhe enviar um Sedex urgente no próximo sábado. 
Despachada, ela provocou com um sorriso malicioso: 
- O carteiro sempre toca duas vezes?

E ele sumiu domingo afora.


Fotos: tmpMaroccan_Castle_6, divulgação


18 junho 2018

Frederico Füllgraf - Diário da Namíbia

Reinhard Maack, Schutztruppe, 1914

Crônica de viagem


Quando meu guia Siegphried - prenome hilário, grafado com “ph”, mais para Otelo que para personagem de Wagner – com sua estampa de rastafari, parou à entrada de uma gruta informativa, colada às paredes rochosas ao pé do Monte Dâures, intuí que estávamos próximos dela. 

Caminhando pelas trilhas do vale, ao lado do bravo Siegphried, eu tentava aprender o estalo de língua (simbolizado por exclamação que antecede certas  palavras, característico dos idiomas bosquímanos), para pronunciar corretamente seu sobrenome (“!Karuchab”), quando ele acenou para um painel redigido em Inglês, advertindo os caminhantes para a transcendência histórica e a imperativa preservação daquele patrimônio da Humanidade, que a poucos passos dali costuma desafiar olhos e mentes, extasiados, com silente beleza milenar.

À sombra do anteparo rochoso, bebi o resto da água mineral prestes a ferver no fundo da garrafa aquecida pelo sol, acendi um cigarro e despistei minha ansiedade. 

Fazia um ano que iniciara minha pesquisa sobre ela, e me preparara para este encontro. Mas, qual o significado de “Don’t pour / spray liquid on them” ? 

Quando o guia aludiu aos atentados de turistas ocidentais contra as pinturas rupestres, com restos de Coca Cola, para “realçar” cores consideradas esmaecidas demais para suas máquinas fotográficas canibais, não me contive e, pela primeira vez desde tempos imemoriais, as pedras avermelhadas do vale de Tsisab ecoaram um sonoro palavrão em Português.

Segui os vinte passos do guia até o refúgio de pedra, como quem ingressa em território sagrado e, de repente, ela se desvelou muito maior e bonita do que eu havia imaginado: a mitológica White Lady. 

Exultei, tremi dos pés à cabeça. 

Obstinado, eu tinha conseguido alcançá-la! Apesar dos obstáculos, da pressão de agenda e do orçamento de produção apertado demais para aquela travessia de Curitiba até o deserto de Namib; via Congonhas, caos aeroportuário, enchente na Marginal, Cumbica, Johannesburgo e Windhoek...

Os quatrocentos quilômetros de estrada da capital até a incandescente Omukuruwaro, Dâures ou Brandberg (“montanha incendiada”, em dialeto Herero, Damara e Alemão, respectivamente), em parte rodados debaixo de sol com 45 graus, foram motivos para festa. Eu não os sentira mais, já estava sob o efeito do transe do deserto, a alma entregue à trilha sonora de certa ancestralidade que transpira da paisagem esculpida; ora doce, ora inclemente. Mas, com uma intrigante sensação de “Walt Disney was here!” Depois, enquanto caminhávamos pela paisagem tórrida, subitamente me lembrei: claro, “Rei Leão”! Como o castelo de Neuschwanstein, do doidivanas Ludwig, plagiado integralmente para cenário de Cinderela, passaram o scanner em toda a Namíbia - dos bichos, pelas montanhas, ao céu, sempre azul - para o storyboard de um filme hollywoodiano que faturou bilhões em todo o mundo.

Mas preciso alertar que eu não viajara até aqui por interesse arqueológico e, sim, por obstinação cinematográfica, a tudo decidido para fechar uma estória – a aventura do topógrafo, dublê de geógrafo e geólogo, alemão, Reinhard Maack, iniciada aqui, entre o Namib e o Kalahari, na África Austral, durante a 1ª. Guerra Mundial, e concluída na década dos anos 60 nos sertões do Paraná; agora reconstruída fragmentariamente em filme para o DOC TV.

Homem, cuja biografia sinaliza a passagem de várias mulheres por sua intimidade, parece ter dormido sempre com seu teodolito ao lado – tão forte sua atração por montanhas; e por quedas, no sentido mais metafórico da palavra. 

Suas conquistas mais famosas estarão sempre contextualizadas por situações extremas: enfrentamentos, prisões, fugas. Teimoso, já vivendo no Brasil, em 1941 duvidou que o Pico Marumby fosse o ponto orográfico mais elevado do Paraná e enfrentou uma escalada de dezesseis dias com chuva, espinheiras, a vertigem das escarpas, barro e tombos, até conquistar o pico por ele batizado de Paraná; o “Kilimandjaro do sul” na acepção de “Vitamina”, o “papa” do montanhismo paranaense. 

A epopéia de Maack custou-lhe três anos de prisão na Ilha Grande, acusado, segundo o prontuário policial paranoico da época, de “espionagem para o 3º. Reich", mediante a “transmissão de sinais de lanterna de mão para submarinos alemães, na baía de Paranaguá”. Convenhamos, uma teoria da conspiração muito pobre em figurinos e contra-regra.

Vinte e três anos antes, Maack fugira de um campo de prisioneiros inglês, na então colônia, que antes de "Namíbia" se chamava “África Alemã do Sudoeste”, assumindo a identidade falsa de “Hans Ritter”, passando à clandestinidade, e no final de 1917 entrincheirando-se no Monte Brandberg, que esquadrinhou em seus mínimos detalhes, com a pachorra de agrimensor das Schutztruppen do Kaiser.

Durante o mapeamento desta montanha mais elevada do sul da África, descrita pelos bushmen como milenar “montanha dos deuses”, ocorre o imprevisto: uma patrulha inglesa topa com Maack e três companheiros armados, balas dançam e ricocheteiam pela garganta do Tsisab. Os alemães conseguem escapar e, entre tombos e rachaduras de chapas fotográficas, ao pé da montanha incendiada, Maack depara-se com a gruta misteriosa.

Sem nenhuma chapa fotográfica inteira para seu lambe-lambe, o topógrafo esboça a lápis o gigantesco painel de 5,5 m de largura por 2,0 m de altura. 

Em seu diário de campo especula intensamente sobre o significado desta mais exuberante pintura rupestre de toda a África. Seus desenhos inspirarão uma editora alemã a publicar, em 1930, o primeiro livro sobre arte rupestre bosquímana. 

Em 1947, o abade francês Henri Breuil visita a já então famosa « Gruta de Maack » e batizará seu personagem central com o controvertido nome de «Dama Branca ». Breuil identifica traços « egípcios » e até « cretenses » (minóicos) na técnica do painel, sabichando que a pintura só poderia ser de origem "extra-africana", talvez da mão de « pintores-viajantes » - eurocentrismo rasteiro, fácil de entender, pois Breuil atuava como perito a convite do Apartheid sul-africano, capaz de negar a existência de uma alma em corpo de africano negro.

Sítio característico de cerimônias sagradas dos bosquímanos, com uma idade estimada entre 4 mil a 2 mil anos, a «Dama Branca » é uma vibrante coreografia. Seu centro é ocupado por uma figura dançante, rodeada por um círculo de três caçadores e vários animais. Seus realces em branco contrastam as cores básicas do ocre, vermelho e preto, utilizadas na fase ainda monocromática da pintura rupestre. Na mão esquerda segura um arco e um punhado de flechas, mas na direita, em atitude de invocação, ostenta uma espécie de cetro – o cálice do enigma jamais desvendado...

Em uma cena ficcional, por mim escrita e gravada para o DOC TV, Maack, já vivendo no Brasil, ironiza o abandono de sua dama : «intocada, luxuriante mulher fatal... ». No entanto, através de leituras prévias à expedição ao deserto, eu já desconfiava que tinha que experimentar a desilusão in situm e transferir a decepção ao espectador excitado, rasgando o véu de mistério, que encobre a desejada africana: é que a « dama », apesar de teimosas fantasias europeias, é um cabra macho!

A mortificante revelação é um detalhe observado por arqueólogos mais atentos que Breuil: um discreto cinto, cuja parte frontal sustenta uma bolsa de proteção escrotal. 

Concorre para a desmistificação da burla (Dama Branca, uma Drag Queen do deserto??) o imperativo histórico, segundo o qual, mulheres não eram toleradas no centro dramático de um ritual de caça (aqui explícito), tido, durante milênios, como enclave exclusivamente masculino. Já, na periferia, também da « Dama Branca », abundam seios fartos, de mulheres em papel de meras figurantes da ação.

De volta do deserto, mas ainda intrigado, leio que « damas brancas », como as de Castle Huntly, Branch Brook Park, Durand-Eastman Park, Willow Park e a esfinge de Metedeconk, são todas e, literalmente, miragens femininas para inglês ver. 

Até desenlaçar-se um cinto viril, que não é o da castidade...

(Fotos:  Frederico Füllgraf; divulgação)