10 novembro 2017

Frederico Füllgraf - Muro de Berlim: o ato falho que o derrubou


Crônica


Berlim, primavera de 1989.


De passagem pela cidade onde havia feito a faculdade, me formado e residido durante dez anos de minha vida, em companhia de Leticia Vota, minha então namorada, celebrei o 1º. de Maio junto à colorida multidão convocada pela central sindical DGB aos gramados do antigo Reichstag, naquela oportunidade ainda funcionando como museu, colado ao Muro. 

Atrás dele, nos saudava o Portal de Brandenburgo, com suas colunas dóricas, em réplica neoclássica, solidamente fincadas em solo da RDA – a República Democrática Alemã, como era conhecida oficialmente a Alemanha Oriental. 

No lugar da quadriga greco-romana, que a encimava desde seus primórdios, a bandeira da RDA, e outra, com o vermelho-sangue da utopia, tremulavam alegremente sob um céu de brigadeiro.

O Muro

Onde nos encontrávamos, a Avenida 17 de Junho, de Berlim Ocidental – que na verdade começa na Praça Theodor Heuss, com o nome de Bismarck Strasse, em seguida mudando para Kaiserdamm, e que até o fim da Segunda Guerra Mundial, mas só depois da Ernst Reuter Platz, se chamava Charlottenburger - ali, pois, a interminável avenida, rebatizada de 17 de Junho – mais uma vez desviada pelo Obelisco da Vitória, que entrou para a história do Cinema com o anjo coruscante eternizado em “Asas do desejo”, de Wim Wenders - era contida por um muro com três metros de altura, sobrecabado com tubos cem por cento esféricos para impedir que mãos o agarrassem. 

Depois desse primeiro muro estava um corredor, chamado Niemandsland – literalmente “terra de ninguém”, também conhecida por “corredor da morte”, com a largura de uma rua estreita, por onde circulavam as patrulhas motorizadas da RDA. Por sua vez, o acesso à terra de ninguém era protegida por uma barreira de obstáculos antitanque, fundidos em aço e cruzados em “x”. E atrás (ou dependendo do ponto de vista, em sentido oeste: à frente) deles, outro muro com medidas comparáveis ao primeiro. 

Uma “linha Maginot” com seus 80 metros de espessura e armada até os dentes – eis a compleição de um “muro”, que muita gente imaginava ser aquele tapume furado dos velhos estádios de futebol brasileiros.

Nesta geografia de Guerra Fria, o Portal de Brandenburgo se situava em “terra de ninguém”, uma ironia que vai se explicar seis meses mais tarde. 

"Tudo o que é sólido se desmancha no ar"

Erguido em agosto de 1961, para proteger a RDA da infiltração pelo fascismo e do assalto pelo imperialismo (aqui explicando que jargões oficiais nunca usam aspas), do outro lado do muro a grande avenida, cortada, retomava seu curso, atravessando boa parte do antigo centro histórico, até a Alexanderplatz, com seu nome original: Unter den Linden. 

Foi ali perto e naquela mesma manhã de 1º. de Maio, que na Karl-Marx-Allee (alameda que os camaradas, depois arrependidos, em 1945 haviam batizado de Josef-Stalin-Allee), um amigo - então Secretário da Agricultura do Paraná e marxista in petto – presenciava a versão de um 1º. de Maio que todo esquerdista que se preze sempre sonhara em passar em revista: a marcha da classe operária, sua juventude vestindo o azul da fidelidade, seguidos pelos Kampfgruppen – unidades paramilitares de defesa das fábricas - tudo coroado pelo desfile das forças armadas de defesa do socialismo. Mas - just in case! - com uma retaguarda de 400 mil soldados soviéticos acantonados nos velhos quartéis nazistas da hinterland da ex-capital do Reich.

Assim me descreveu a apoteose o amigo deleitado, e eu citei seu ingênuo fascínio numa reportagem para o Caderno B do Jornal do Brasil, com uma licença poética maldosamente emprestada do livro de Marshall Bermann: “Tudo o que é sólido, se desmancha no ar” (na verdade uma ironia de Karl Marx, usada por Berman para vender seu livro). 

O que o amigo e eu não sabíamos, é que naqueles dias o povo da RDA já fazia reuniões de protesto nas igrejas do país, o caldo começando a engrossar. Mas se alguém naquele 1º. de Maio do lado ocidental me perguntasse, se o Muro fora construído para ficar, eu teria respondido que sim, apesar de não acreditar na eternidade, 

Verão de 1989: o SED e as fugas em massa da RDA


Detalhe geralmente ofuscado pelo frenesi na cobertura sobre a queda do Muro, é que no verão de 1989 em torno de 100 mil alemães orientais em férias nos países do Leste, não queriam mais retornar, buscando asilo nas embaixadas da Alemanha Ocidental na Tchecoslováquia, Bulgária e Hungria. Milhares, ao alcançarem a fronteira da Hungria com a Áustria, simplesmente ignoraram as barreiras da fronteira, desembestando Áustria adentro; os guardas húngaros apenas bocejando de tédio. 

Esse era o pano de fundo de uma reunião de emergência do Comitê Central (CC) do SED (Partido Socialista Unificado da Alemanha), que decidira liberar viagens aos cidadãos da RDA para qualquer país do mundo. 

A pedido do CC, a autorização fora redigida por oficiais do ministério do Interior e do serviço de espionagem StaSi, a famigerada “polícia de segurança do Estado”. Aprovadas em brancas nuvens, diante dos “fósseis” da velha guarda, Egon Krenz - o novo czar do partido, que um mês antes destronara Erich Honnecker e a velha guarda com um golpe de mestre há muito programado - pediu que o porta-voz Günter Schabowski divulgasse as novas revolucionárias na coletiva à imprensa internacional, programada para o final da reunião.

O lance de Krenz era uma aposta: a dívida externa do país beirava os 25 bilhões de dólares e a Economia da RDA estava há muito pendurada no soro da odiada Alemanha Ocidental. Com a liberação das viagens, Krenz pretendia aliviar a pressão popular, sobretudo ganhar tempo, salvar a RDA do mergulho no abismo.

O ato falho de Schabowski que derrubou o Muro


Mas o que acontece, então? 

Estória virtualmente desconhecida no exterior, e até há pouco tempo mal contada, o Muro de Berlim caiu como efeito-dominó numa cadeia de conspirações, armações, mas também de um imprevisto. 

Quando Schabowski, mais tropeçando no texto do que realmente lendo o bilhete para a imprensa internacional, que resumia as deliberações do CC sobre a permissão de viagens, subitamente o jornalista Ricardo Ehrman, correspondente da agência italiana, ANSA, o interpela, perguntando (veja o vídeo ao final do presente texto): - Já está valendo a permissão?

- Perdão? - replica Schaboswki. E quando Ehrmann repete a pergunta, insistindo no prazo para a entrada em vigor das novas medidas, Schabowski procura a resposta no bilhete, e não a encontrando, responde: “Olha....que eu saiba, é pra já!”. 

Foi a bomba! 

Mas de seu efeito Schaboswki apenas tomaria conhecimento em casa, acomodado diante da TV, onde assistia, atônito, ao assalto e à abertura do Muro, depois que a população havia recebido a notícia pelas TVs ocidentais.

Eram pouco mais de nove horas da noite, e a notícia tinha se espalhado aos quatro ventos.

Sacudido por telefonemas, reclamações e ameaças, foi quando Schabowski se dá conta da tremenda burrada que cometera, porque o bilhete levava um aviso explícito: “Divulgação vetada até às 4 da manhã de 10 de novembro de 1989”. 

O porta-voz simplesmente atropelara a instrução, provocando a corrida ao Muro.

Ato falho ou armação?

Rosto crispado, em uma entrevista gravada um ano após a queda do Muro, Günter Schabowski admite que recorrera a um psicólogo para tentar explicar (-se), o que lhe tinha dado nos miolos naquele final de tarde de 9 de novembro de 1989. 

Nesta altura já expulso do SED, e vagueando desempregado pelas ruas da Berlim, sem muro, diz, sem vergonha alguma: “Vá saber, talvez foi mesmo um ato falho, porque um regime daqueles não merecia outro desfecho”. 

Hoje, o comunista de carteirinha Günter Schabowski é filiado ao CDU - o partido democrata-cristão, conservador, de sua ex-arqui-inimiga na RDA, a Chanceler Angela Merkel. 

Mais de vinte anos depois, novos fatos sobre aquele fatídico e delirante 9 de novembro de 1989 emergem dos bastidores da História. 

Um deles é que o jornalista Ricardo Ehrman foi efetivamente “cutucado” por Günter Pötschke a interpelar Schabowski. Pötschke, que não pode mais confirmar o lance, porque morreu recentemente, era editor-chefe da agência oficial ADN, da RDA, e também membro do comitê central do SED. 

Uma cópia do bilhete que resumia as novas instruções de liberação de viagens descansava sobre o tampo de sua escrivaninha, mas também vetada para divulgação antes das 10 da manhã do dia 10 de novembro. Sendo velho conhecido de Ehrman, Pötschke o encorajou para furar o bloqueio noticioso, com isso abrindo espaço para sua própria divulgação.


Mas a noite prometia outros imprevistos.

Uma equipe de TV da Alemanha Ocidental, não identificada, mas a serviço do canal a cabo da revista Der Spiegel, embrenhara-se “território adentro”, em Berlim Oriental, tomando conhecimento da notícia dada por Schabowski, num boteco do bairro rebelde de Prenzlauer Berg. 

E “seguindo o povo, para onde o povo vai”, os documentaristas subvertem aquela máxima do partido, captando cenas dignas de um Moisés dividindo ao meio as águas do mar bravio, para dar passagem ao povo escolhido.

No posto Bornholmer Strasse, de entrada (mas nunca de saída) da RDA, a multidão já se aglomerava, cobrando em coros altissonoros “Wir wollen raus!” (Queremos sair!) e “Macht auf das Tor”! (Abram os portões!). 

E diante da câmera deslinda-se a História.


Com movimentos ainda imperceptíveis na guarita de controles, oficiais das tropas de fronteira e da temível StaSi estão confusos. Ligam para seus superiores, que não conseguem dar-lhes instruções objetivas, porque não estão menos desnorteados. 

Sentindo-se protegida pela presença da mídia ocidental, a massa começa a levantar o tom de voz, o caldo atingindo o ponto de fervura. É quando entra em cena outro “traidor” daquela noite: Tenente-Coronel Harald Jäger, da Stasi, que reúne os subordinados em sua sala, para calçar-se na decisão que vai tomar. Vinte anos depois, diz em entrevista: - Eu queria saber deles, o que deveria fazer. E eles responderam: ´Você é que tem que saber, ora essa, o chefe é você!´ E eu respondo: ´Devo permitir que os cidadãos da RDA saiam? Ou devo abrir fogo? – pelo amor de Deus!” (...) Depois pensei: "já encheu o saco, agora vou agir por conta própria."


E Jäger toma sua decisão, sozinho, sem ordens superiores: manda erguer a cancela, melhor: a eclusa – e sem qualquer controle a torrente humana desembesta rumo a Berlim Ocidental.

 Naquele momento, diz Stefan Aust, diretor do documentário, com o Muro cai também a RDA, e desfaz-se em frangalhos um sistema autoritário que reinava de Berlim a Moscou, de Vilna a Bucareste, declarando página virada da História aquela ordem mundial, obsoleta, do pós-guerra – instante histórico em que, quarenta e quatro anos após o silêncio das armas, a 2a. Guerra Mundial termina de fato.


Centro de uma trama até hoje só parcialmente explicada, Schabowski e seu bilhete ganharam a aura do mitológico. 

Schabowski sabia mesmo o que estava lendo para os jornalistas? E os jornalistas: quantos tinham aceitado fazer perguntas previamente combinadas? Um baralho marcado para atropelar a “turma” de Egon Krenz, recém-chegada ao poder? Por acaso Schabowski tentou jogar seu próprio jogo, entrando para a História como o herói que detonou o Muro? E se Krenz sabia do bloqueio da notícia até as 4 da manhã - por que insistiu em divulgá-la? Aquilo, tudo, foi mero “acaso”, ou uma traição coletiva do inconsciente também coletivo?


Um ano mais tarde, o cáustico, esquerdista e saudoso dramaturgo Heiner Müller, empossado como diretor do teatro Volksbühme, me convidaria para participar do primeiro aniversário da queda do Muro, com um programa assaz irônico.

Ao escolher a leitura dramática de “A missão”, para celebrar à sua maneira o evento, Müller estava interessado em discutir o lado trash, a nota de rodapé verdadeiramente esdrúxula, hilariante, da História. 

Personagem central da peça “A missão”, Dubuisson é enviado ao Caribe para exportar a revolução de 1789. Mas quando seu barco se aproxima da costa exuberante, bordejada por aquele mar cor de esmeralda, Dubuisson, que também é dono de engenho de açúcar e de escravos africanos, muda de idéia; perpetuando-se como novo governador da ilha. Daí a frase corrosiva de Muller: “Onde a paisagem é bonita, espreita a traição!”.


Como paisagem bonita, o cartão-postal coruscante de um “supermercado” chamado Berlim Ocidental certamente exerceu fascínio inconfessável em não poucos camaradas da liderança da RDA. 

A ironia dessa noite, já na Kurfürstendamm – a rebrilhosa Champs Elisées prussiana – é que os orientais não correram atrás das roupas de griffe, mas das ordinárias bananas da marca Chiquita, exportadas pela famigerada United Fruit. - para Muller e outros, prova ilustrativa de que a fome dos orientais era por uma sórdida “República de Bananas” (algumas pessoas não gostaram da comparação).

O bilhete de Schabowski

O ato falho de Sahabowski




Fotos: divulgação

27 setembro 2017

Walter Benjamin - Morte em Portbou


La muerte de Walter Benjamin



FERRAN BONO 27/09/2005, EL PAÍS
 
Un 26 de septiembre, como ayer, murió Walter Benjamin. Corría el año 1940. El pensador alemán, judío y marxista, había traspasado los Pirineos con el objeto de embarcar hacia EE UU. Llevaba varios años de exilio en Francia. Huía de los nazis. Y encontró la muerte en el pueblo catalán de Port Bou. En una fonda de la frontera, bajo la vigilancia de tres policías del régimen fascista que tenían las órdenes de deportarlo en la Francia colaboracionista de Vichy al día siguiente. Un día como el de hoy.

     Sus allegados hablaron de suicidio; el parte médico tipificó el deceso de muerte natural. Nunca se han esclarecido completamente las circunstancias que rodearon la muerte de este pensador, uno de los más influyentes de la primera mitad del siglo XX, el autor de La obra de arte en la época de la reproductibilidad técnica.

     El documental Quién mató a Walter Benjamin... aporta nuevos datos sobre los hechos. Es el fruto del trabajo de investigación de tres años de su director, el francés David Mauas, que se ha entrevistado con personas implicadas en el caso en Alemania, Francia y España. También ha consultado en archivos de Israel, Estados Unidos e Inglaterra.

     "Con la intención de realizar la primera investigación coordinada entre los tres países, complementar los puntos de vista de sus autoridades y explorar a fondo el mito del suicidio, el director creó este film noir, híbrido entre el documental clásico y el video art. El director dice que Quién mató a Walter Benjamin... "no supone sólo la reconstrucción de una muerte, sino el retrato del escenario de un crimen", señala la nota informativa del Instituto Goethe de Barcelona, que ha apoyado la producción del documental junto al IVAM, y otras instituciones como European Association for Jewish Culture. La producción ha corrido ha cargo de Medianimación y Milagros Producción, con la coproducción de Televisió Catalana y Nik Media (Países Bajos).

     El documental se estrenará el 6 de octubre en el Instituto Francés de Barcelona. Luego se proyectará en el Festival Internacional de Cine de Sitges y a finales del mes de octubre, está prevista su emisión en el IVAM. La TVC estrenará una versión televisiva.

     La película pretende responder a las siguientes preguntas: ¿Encubrió el médico la verdadera causa de la muerte? ¿Adónde fue a parar su último manuscrito? ¿Tenían conocimiento las autoridades españolas acerca de la importancia de este "viajero extranjero" que fue enterrado según rito católico y bajo un nombre equivocado? ¿Se trató realmente de un suicidio?

     El documental es, también, un retrato de un pueblo de frontera, anclado entre dos frentes, "testigo de evasiones, persecuciones y falsas esperanzas", añade la nota del Instituto Goethe. Un pueblo en el que el artista judío Dani Karavan, que expuso en el IVAM de la mano del anterior director, Kosme de Barañano, instaló un monumento en memoria de Benjamin, nacido en Berlín en 1891.

     La muerte del gran pensador ha provocado numerosas especulaciones. Incluso el episodio ha sido tratado por la novela El pasajero Walter Benjamin (Igitur) de Ricardo Cano Gaviria, una "elegante y muy sutil recreación de las últimas horas que precedieron a la muerte por morfina del escritor, que oficialmente murió de hemorragia cerebral en aquel hotel de frontera de Portbou", en opinión de Enrique Vila-Matas. El escritor catalán comenzaba así un texto del 26 de septiembre de 2000: "Prefiero pensar que hace 60 años en Port Bou, en las horas que precedieron a su muerte por morfina, Walter Benjamin conoció cierta lucidez mientras sufría las tinieblas y, en la desgracia final, conoció la pasión de no tener nada; una pasión que no deja de ser un buena compañía a la hora de vivir y también a la hora de morir".

Ilustrações: divulgação

Frederico Füllgraf - Walter Benjamin em Ibiza



Nota
Frederico Füllgraf

De 1932 a 1933, Walter Benjamin  viveu na ilha mediterrânea, espanhola, de Ibiza. Naqueles anos, o escritor e pensador berlinense atravessava uma grave crise existencial, defrontando-se com mudanças que pareciam questionar a continuidade de sua obra e de sua vida, pois ali cometeu sua primeira tentativa de suicídio.
Pano de fundo de sua depressão foram o descalabro econômico e a conseqüente eleição dos  nazistas na Alemanha, que agravaram ainda mais sua precária situação financeira e a falta de  perspectivas profissionais.
Sua decisão de estabelecer um interregno em Ibiza, escolher a ilha balear como  uma dos primeiros destinos de seu exílio,  surpreendeu amigos e convivas, e ocorreu sem grandes preparativos. Apesar disso, alguns de seus mais destacados escritos autobiográficos datam exatamente desta estância – o primeiro verão do fatal exílio de Benjamin.

Julia Radt-Cohn despertara em Benjamin sentimentos de raro romantismo, mas do sisudo intelectual dizia a jovem Julia que ele era tão travado e esquisito, que não conseguiria despertar nenhum desejo sexual em qualquer mulher. Apesar da rejeição de Julia, Walter prosseguiu insistindo...
Já Gretel Karplus era uma dinâmica empresária de Berlim, que se casou com Theodor Adorno,  amiga fiel de Benjamin até sua morte.
Dos cartas de Walter Benjamin
(Traducción: Germán Cano)
A Julia Radt-Cohn
San Antonio, Ibiza, 24 de julio de 1933
Querida Jula:

Me ha causado una gran alegría recibir tu carta: apareció justamente el día de mi cumpleaños, y por esa razón, como comprenderás, fue más bonito que si lo hubieras pensado a propósito. Lo que sucedió fue como si tu inconsciente hubiera trabajado en mi honor bajo la mano del servicio postal.

Pero es que además tus noticias han sido gratas, pues es tan loable ver cómo vosotros en estos tiempos trabajáis por enraizaros en las arenas movedizas de la región de Brandenburgo como poco recomendable para cualquier otro. Pero si tú quizá miraras o pudieses mirar por encima de mis hombros mientras te escribo, verías jugar sobre este papel parisino que me gusta utilizar en casa desde hace tiempo sombras de las agujas de los pinos que no serías capaz de diferenciar de las que ves allí, y si miraras delante de ti no verías el mar, aun cuando sólo está alejado apenas tres minutos de mi escondite veraniego.



A un sitio como éste me he trasladado con mi tumbona desde que, tras un comienzo poco afortunado en la orilla edificada opuesta de la bahía, conseguí volver a la parte apenas edificada del año pasado. Hasta llegar aquí, mi forma de vida ha sido más inestable, dividida entre las posibilidades de trabajo insatisfactorias que encontraba en San Antonio y los entretenimientos en cierto modo bastante significativos que podían encontrarse en Ibiza. Pero un viaje de negocios necesario a Palma introdujo una cesura en mi estancia aquí. He conocido Mallorca este año mucho mejor dando largos paseos y viajando en coche. Ahora bien, por bonita que sea la isla, lo que pude ver allí no hizo sino reforzar mi apego a Ibiza que posee un paisaje incomparablemente más reservado y misterioso. Las imágenes más bellas de este paisaje quedan remarcadas por las ventanas sin cristal de mi habitación. Éste es el único espacio por ahora habitable de una casa en estado bruto en la que todavía hay que trabajar durante mucho tiempo y de la que yo seré el único habitante hasta que la finalicen. Al instalarme en este cuarto he reducido a un mínimo difícilmente superable los límites vitales de mis necesidades y gastos. Lo fascinante de todo el asunto es que todo sigue siendo lo bastante digno, y lo que echo en falta aquí no proviene tanto del lado del confort como de la ausencia de relaciones humanas.


Las relaciones que constituyen la crónica de la isla son para mí en su mayoría fascinantes, pero algunas veces también decepcionantes e insatisfactorias. Cuando se da esto, el peor de los casos, ellas al menos me dejan más tiempo para desarrollar mis proyectos y estudios. Mi ‘Infancia en Berlín hacia 1900’, de la que tú has entendido desgraciadamente tan poco y en la que hay tanto que comprender, sigue creciendo en escasos pero importantes fragmentos. (…) Sigo leyendo a Bennett, y reconozco en él cada vez más a un hombre no sólo cuya actitud es actualmente similar a la mía, sino que además sirve para reforzarla: un hombre en realidad en el que una absoluta falta de ilusiones y una desconfianza radical respecto al curso del mundo no conducen ni al fanatismo moral ni a la amargura, sino a la configuración de un arte de la vida extremadamente astuto, inteligente y refinado que le lleva a sacar de su propio infortunio oportunidades y de su propia vileza algunos de los comportamientos decentes que competen a la vida humana. Deberías llegar a tus manos la novela ‘Clayhanger’, que ha aparecido en dos volúmenes en la editorial Rhein.

Podrás imaginarte fácilmente que mi correo apenas contiene noticias agradables. Gracias a Dios, lo mejor de todo ello tiene que ver con Stefan, que en este momento hace un viaje en coche con mi mujer que le llevará por Austria y Hungría hasta Siebenbürgen y Rumanía. Las noticias de los amigos de París son desmoralizadoras, pues la situación es tan desesperanzadora por un lado o por otro que ellos han dejado completamente de escribir. Lo que pueda esperarme en París por lo tanto es extremadamente problemático. En cualquier caso, un comienzo no del todo desfavorable es una magistral traducción de Infancia en Berlín que está llevando a cabo aquí un amigo parisino con mi ayuda. Pero ella avanza muy lentamente. Es posible leer entre líneas en tu carta que Alfred aún se mantiene firme al viejo estilo. Me gustaría tenerle aquí; él es uno de los pocos que yo me podría imaginar bajo estas difíciles pero fructíferas circunstancias de la isla. Pero mejor no le digas nada y salúdale de todo corazón, como también a Fritz.

Por lo que respecta a nosotros, las cartas son quizá la mejor oportunidad para estar juntos. Por eso recibe esta afectuosa carta, rogándote la próxima tuya.

Cenas da vida privada - a casa de Puntas des Moli
Abaixo: Benjamin jogando xadrês com B. Brecht


A Gretel Karplus


San Antonio, 19 de septiembre de 1933

Querida Felizitas:



Recibí tu carta del día 13, y ello me ha llevado a pensar que me habría gustado haber tenido al menos otra tuya. En realidad, ya no es mi salud la causante del aplazamiento de mi viaje, sino la situación misma —y desconocida además para mí— de ese lugar parisino en el que esperaba encontrar alojamiento. De hecho han transcurrido ya más de ocho días desde que se me envió un telegrama en el que se me pedía que no viajara sin recibir antes una confirmación del asunto. Como hasta la fecha no he recibido aún esta carta, no sé con qué me encontraré cuando finalmente llegue.

He tenido que abandonar mi cuarto de almacén si no quería contraer un nuevo compromiso a largo plazo y oponerme a la prescripción del médico, quien no esperaba una curación rápida en San Antonio. En realidad experimenté una evidente mejoría ya dos o tres días después de mi traslado. Ahora puedo, aunque con precaución, regresar.



Te doy mil gracias por la foto en Rügen: es cariñosa e incita a reflexionar; pienso, por ejemplo, que ni siquiera en Berlín no te faltan del todo este tipo de momentos. En todo caso, he entendido como mensaje uno de ellos, lo que me escribiste con tanto cariño sobre La luna. Me he sentido muy contento con él. Por mis dolores he perdido para el trabajo dos semanas, tal vez más. Ahora me estoy atreviendo a escribir un fragmento de ‘Infancia en Berlín’ que recree la atmósfera de la escuela. Este trabajo y, más que cualquier otra cosa, el asunto del traslado están absorbiendo todo mi tiempo, por lo que tengo que hacerte la confesión de que aún no he leído la ópera de Wiesengrund. Pero será algo que haga enseguida. ¿Dónde? Probablemente pienso que en París; creo que incluso en el caso de que no reciba pronto ninguna información de allí, viajaré aproximadamente dentro de ocho días para examinar a fondo cuáles son las posibilidades reales que existen. Sumando una serie de papeles oficiales que he logrado reunir, he intentado dejar la puerta abierta en todo caso a la posibilidad de una retirada a mi asilo de aquí, una puerta, dicho sea de paso, que cada vez es más difícil que se abra a los alemanes.



Desde la carta que tú me confirmaste has tenido que recibir, al menos, una nueva. A mí, entretanto, me ha llegado a las manos tu último envío. No puedo sino darte las gracias por todo. Piensa, por favor, en París con perspectivas más convincentes. Incluso en el peor de los casos no pienso salir de allí sin haberte visto antes. ¿Después de Musil has planeado leer algo mejor?

Leo actualmente a la ‘Princesa de Cléyes’, de Madame de Lafayette. Además, mientras esté en Ibiza seguiré alentando la traducción de ‘Infancia en Berlín’. Una traducción muy correcta de Logias está ya casi preparada. Ernst, naturalmente, no ha escrito. Moras, naturalmente, tampoco ha enviado ningún número de la ‘Europäische Revue’. Ça ne fait rien.
Hazme saber cómo te va. Escríbeme pronto; yo por mi parte cuidaré de contestarte. Todo mi cariño.


(’Cartas de la época de Ibiza’, Ed. Pre-textos, 2008)

23 setembro 2017

Frederico Füllgraf - Ela tinha um astro no lábio


"Nu deitado", 1917 - Amedeo Modigliani 




Conto

Quando, esparramada de costas, recolhia suas pernas fortes contra os peitos bem-conformados, ainda rijos, com mamilos eriçados, suas ancas simetricamente esculpidas, de fêmea quarentona, alcançavam a plenitude da forma (provavelmente a intenção do Criador): duas grandes peras de alabastro abauladas na base com volúpia, e que limite não tinham, pois (outra intenção do Criador) suas curvaturas eram a abóbada de uma capela, o número 8, a sinuosidade da Via Láctea, uma alegoria do firmamento.

            Assim retesada, empinada para as alturas - posição que poderia insinuar a ascensão da alma, e que na verdade era alçapão do desejo, ou ambas as coisas - sua brotação ostentava um vale em alto relevo: nas cumeeiras, na direção do umbigo, vicejava relva ligeiramente desbastada, espécie de orla para dobras e refolhamentos carnudos, em cuja extremidade superior pulsava uma greta úmida, bordejada por lábios rosados e encimada por um broto, cuja fragrância era de maresia. Na extremidade inferior escondia-se, sombreada, uma espécie de roseta da cor do cacau, entretecida de pregas, que ao mais leve toque latejava e exsudava um buquê almiscarado.

            E assim obsequiosa ela o espreitava, tentando adivinhar a latitude por onde sua geografia seria assaltada e penetrada. Algumas vezes, em espaços como a cozinha, provocava-o, arregaçando a camiseta, como única peça que cobria sua nudez, abrindo suas coxas roliças até o completo desvelo de um pássaro emplumado – que segundo o ângulo da contemplação também poderia ser um às de copas, um ninho de garças, ou ainda o cálice de uma flor, cujos lábios apartados e dobrados para fora, insinuavam uma borboleta em repouso. 

As asas já transbordadas de néctar, ela o montava e cavalgava, arquejando - a fronte crispada, cabelos esvoaçados, os olhos embotados de fúria e prazer. Possuída e posseira, esporava sua montaria, galgando morros imaginários e galopando encosta abaixo, abandonada à vertigem; esvaída até o alagamento.

            Certa noite, quando ele dedilhou suavemente aquela roseta, como fosse a corda de um violino, ela sussurrou-lhe palavras cujo intimismo aqui não pode ser sem mais nem menos franqueado. Disse que ser assim... “tomada”, “embrenhada”, era o que mais desejara desde a leitura daquela luxuriante crônica dele, sobre a apimentada vizinhança da culinária com o erotismo. Então ele a beijou nos lábios e nos seios, retirou-se de sua fenda inchada e viscosa, e pressionou seu bordão contra o broto chocolatado, pulsante. Cochichou meiguices no ouvido dela, e sentiu uma leve dilatação sobre a cabeça de seu membro. À primeira estocada, deteve-se para não machucá-la, mas sentiu um aperto, um insistente abraço por um anel imaginário, carnudo e latejante. Deslizou suas mãos sob as ancas da mulher, e, uma em cada mão, embutiu-se em seu centro; visitando-a, explorando-a, invadindo-a, e a cada cutilada, deflorando-a. Conquistando territórios dela nunca dantes tocados, enrabando-a, arrombando sua intimidade, alagando-a, sentindo o apossamento de cada milímetro de seu báculo ereto e duro, pela flor carnívora dela. E ela aspirando faminta, confrangendo, supliciando, gozando-o. Não pensou até o final a pergunta, se a mulher gozaria, ali possuída, porque ela sacudiu-se num sem número de raptos, espasmos e fonemas arfantes; o tronco enraizado até o âmago de sua fêmea.  E foi então que ele sentiu e, incrédulo, tocou e viu o encharcadiço, o enxurro melado e adocicado transbordando por seus anéis cintilantes, que repousavam feitos coroa sobre seu abismo apaixonado e esbraseado – um prodígio da natureza, o vaso proibido transbordado de desconhecido mel, derramado para o seu pássaro. Mel dela!

            Ela era sua geografia e ele seu cartógrafo. Com a bússola do instinto explorava-a. Com o teodolito do olhar media-a, mapeava-lhe os relevos e concavidades. Dois vagabundos da noite em busca da ilha do tesouro. E ela tinha um astro no lábio...

            Quando ela resfolegava de bruços sobre os lençóis, parecia derramar o território da poesia. E então as formas se invertiam. No sul nasciam e alongavam-se duas colunas simetricamente torneadas, fortemente dilatadas e alombadas ao norte – as tais peras de alabastro, em repouso. Confluindo em sentido oposto, sobre a crista lombar, corria a linha, ao mesmo tempo tributária do vale e das duas colinas contíguas. Agora a relva jazia na extremidade inferior da gruta, suspensa sobre o nada. Acima dela desenhava-se um fruto do mar na vertical; concha entreaberta pelos trancos da maré, entreluzindo folhamentos viscosos, que friccionavam delicadamente um contra o outro, quando ela corrigia a posição das pernas. E coroando o abrigo, o segredo à imagem da teia: um embuço de gruta estreita e sinuosa, apenas separada da concha por uma delicada película, acariciada ora num, ora noutro lado de seu arremate.

            E ali jazia ela, ofertando coxas, concavidades e grutas, a meseta de suas costas estendida até seus ombros, que debruçados sobre seu peito, expulsavam para os lados algumas curvas de suas mamas. Lá no umbral da espécie, a mulher descobrira-se femina erecta, e soerguendo-se, recolhera suas retro-eminências, compensando-as na altura do peito com dois frutos - e conta-se que seriam uma réplica fiel, esculpida pelas mãos da natureza, das curvas de um tralalá, ou popô.

            E como explicar, então, este fascínio do macho pelo traseiro de sua amada? Com a catequese velho-testamentária da cópula, o sex between mountains, praticado na sábia e requintada Babel, recebeu o agravo indevido de "sodomização”. Para os abramitas, certamente uma geográfica heresia, porque noves fora o Ararat, na Turquia, naqueles desertos, mountains não havia. E a transição ao Cristianismo deu-se com a mesma pregação, de tabu horripilante, designação de carnalidade demoníaca. Mas isto porque aqueles hebreus fundamentalistas afirmaram ter flagrado alguns homens na indecorosa posição... Todavia, de Babel, pela reprodução do ato nas ânforas helênicas e nos afrescos de Pompéia, a pergunta, há muito respondida, não queria calar: a mera paisagem não enfeitiça o macho, e a incursão ambilátera não faz a fêmea sentir-se poderosa?

Suspenso o ritual milenar de acasalamento pela esfregação das cavidades odoríferas, dela, no nariz do macho, logo enquadrado e punido o livre coito, estabeleceu-se a teoria dos vasos, condenando-se à crispação no fogo eterno a jubilosa (e pela fêmea, ansiada) penetração de seu vaso condenado, mas pedinte. Signo da cruzada hipócrita, indexou-se toda sua melodiosa nomenclatura (coitus more ferarum, coitus a posteriori, coitus from behind), instituindo-se, finalmente, a ditadura e a melancolia do vaso único – Desde então Post coitum triste omni est...

            Mas a desforra da natureza não demorou, pois a libido represada voltou a impor-se através da pintura e de mal-dotadas damas parisinas. É a estória do “traseiro barroco”, por exemplo, sabendo-se que barroco foi sempre um eufemismo generoso para excessos transbordantes, como as bundas das "Três Graças“, do pintor Peter Paul Rubens; bundas, que de tanta fartura jogavam faldas e sulcos, já se confundindo com as dunas do Magreb... Já os faux culs, do final do séc.19, aquela diatribe (sempre francesa!) das falsas bundas, foi um artifício para apreender o olhar masculino pelas tournures; um acolchoado de nádegas, prótese de ancas (em falta), armação de arame afivelada debaixo das anáguas, que conferia à sua usuária aquele porte de cisne, com notável rabo empinado.

            Pois, como dizia, ali jazia ela: bela como a imperfeição dionisíaca... Mas então, como resistir, não desejar penetrar e de-vastar essa paisagem venusina?

            Numa carta escrita em 1909, à sua amada, suspirava o garanhão, James Joyce: ”Minha doce, pequena puta Nora (...) Estou encantado em saber que você gosta de ser comida por trás. Senti tuas grandiosas nádegas banhadas em suor roçando minha barriga, e deparei com teu rosto ardendo febrilmente, e o desvario nos teus olhos”.

Consta que uma mulher que não tem acesso à fantasia da puta, não teria acesso ao gozo. Condição desse acesso seria entregar seu corpo, digamos, “com segundas intenções” – libertinagem reprimida, assaz curiosa... A propósito, James: a palavra “puta” não produz efeitos que vão da excitação à ofensa? Mais que grande mal-entendido, o mito masculino (e feminino) não reside na crença de que a realização de fantasias é prerrogativa da cortesã, fadista ou dadeira? E o pior: estabelecida sobre o primado do dinheiro, que compra pedaços de corpo (quanto mais recônditos e “proibidos”, mais caros), a putaria expulsou do encontro dos corpos a confluência dos sentimentos. E como divisórias entre as almas, espreitam bilhetes usados, numerados pelo Banco Central.

            E ele pergunta-se, sem preconceito algum: o que faria uma "puta", que essa mulher fagueira não fez por entrega, nele aninhada? 

Talvez da geografia brote o amor, como é mais provável ainda que do amor rebente a desavergonhada exploração da geografia.

18 julho 2017

Frederico Füllgraf - A visitadeira




Conto


Hoje ela não veio. 

Distraí-me com o mundo durante o dia, mas à noite senti sua falta. 


Não, não é em A. que estou pensando, dela não sinto falta. Libertei-me de seus arroubos frívolos de falsa transparência, suas conspirações e fingimentos. Deve pensar que a forma mais insidiosa de vingança seja meu silêncio, que a oclusão do amor é viver a mortal indiferença do outro. Mal sabe ela, que os que abrem mão do lar, são melhores adivinhos dos pensamentos alheios; os de Deus inclusive. 


Mas onde andará a"outra"? 


Ainda vagará pelas ruas nestas horas do recolhimento? 


Seu desaparecimento me humilha: e se estiver dividindo sua intimidade com outra pessoa? 


Na verdade preocupa-me seu bem-estar: poderia ter sido atropelada, ferida – e se estiver morta? Estou aflito: não há como procurá-la, não sei o seu nome, que deriva de sua compleição e hábitos. 


Vou esperá-la.


Convivemos por várias semanas, e apesar de seus modos discretos, só infra-minimamente perceptíveis, sinto máxima ausência.


Introduziu-se sem aviso, mas com delicadeza. De repente estava.

Não que fosse invasora. Ao contrário, alegrou-me muito sua presença.

Inopinadamente, graciosamente, brindou-me sua companhia, neste refúgio onde não se falava a não ser em pensamento. Obsessiva no início, ela corria desnorteada de um lado para outro, como se estivesse seguindo o traçado confuso do mapa esfarrapado de um tesouro escondido em local secreto. Depois foi se aquietando.

Quase nos tornamos íntimos, afirmação, reconheço, algo leviana, ligeira projeção do meu afeto: era eu quem a saudava, com ela conversava enquanto passava um café. 

Egoísta, não prestei atenção aos seus sinais, dei a tagarelar, confortado pela companhia. 


E então aconteceu aquele terrível acidente, por minha culpa. 


Permito-me reproduzi-lo, com a perspectiva dela: de repente ela perdeu o chão, tenebroso marulho de placas tectônicas. Aflita, agarrou-se à ponta de uma rocha esférica e esbranquiçada, já transbordada por gigantescas ondas de espuma peçonhenta. Sentiu o fim dos tempos, manipulado por garras hiperbólicas, que baixavam dos altos. Só então a descobri suspensa entre a vida e o precipício: a seus pés, o buraco negro aguardando sua queda e a deglutição pelas entranhas da cidade. Aliviado, consegui salvá-la. Toquei-a com suavidade e ela desempenou-se com aquela cerimônia da mulher que oferece a face, para atrasar o primeiro beijo na boca, amuando-se em outro canto, mas sem pavor nem histeria. 


Comoveu-me seu respeito por minha solidão eletiva, à qual talvez estivesse associando a sua própria, dando, finalmente, algum sentido àquela genuína oferta do coração, soletrada para apenas duas (sabendo que ela jamais seria a terceira destas) mulheres em minha vida: sinta-se em casa, quero aconchegar a tua solidão. 


Senti genuína compaixão por ela.


Não que este lugar fosse um ermo ou o desterro. Digamos que seja um intermúndio orbital, cuja flamância lembraria aqueles excessos de luz no umbral da criação, embotando-lhe a vista frágil. Evitou a imensa tela rutilante, aberta sobre infinito livro de areia, com incontáveis palavras e línguas dessemelhantes, agrupadas em milhões de páginas, número sem fim de manuscritos conservados em arquivos virtuais. Aleatório, mas íntimo terminal da babélica biblioteca de J.L.Borges, que lhe devolveu a insignificância de sua minúscula estatura. 


Contudo, imenso jardim suspenso entre o passado e o espanto, seus ancestrais já se deslocavam em missões exploratórias de suas raízes, troncos e folhas. Mas elas não têm percepção do tempo, nem consciência da História - simplesmente são. 


Poupada, ela ignora meu horror à metáfora do Angelus Novus de Benjamin: História, como amontoado de ruínas; corpo enterrado vivo, sedimentado em camadas de esquecimento; Vida como tempo esvaído, irrecuperável. Relógios derretidos de Dalí.


Tempo. 


Surpreendo-me contando os dias de sua ausência. 


Abobado, converso comigo mesmo. Suportar a solidão é preparar-se para a partilha da intimidade (como é verdade também, que a solidão sói ser mais intensa em companhia de certos outros: o narcisista egóico oculta, sequestra, foge da angústia alheia).


Às vezes sou Winfried Georg Sebald, que caminha pelo litoral do sudeste inglês, numa pausada meditação sobre fenômenos tão dissimiles como Rembrandt; o acima e o abaixo das guerras aéreas; tempestades de fogo em Hiroshima, Dresden; o ciclo de vida dos arenques; a devastação das grandes florestas do mundo; a imaginação paranoica dos cartógrafos renascentistas e seu cosmo sirênico: peixes-elefante, peixes-coelho, polvos-giganta engolfando galeras nos Mares do Sul. 


Infâmia na Amazônia profunda: é JC Aranã quem pratica o holocausto de Putumayo, mas é Sir Roger Casement, o investigador, que morre na forca em Londres. 


No entanto, a melancolia é a prima criativa da depressão, e com as matérias-primas do luto histórico WG Sebald escreve a literatura da compaixão. Não concluiu suas andaduras: no verão de 2001 tem um mal-estar ao volante, o carro mergulha frontalmente num caminhão e WG emerge atônito no mundo do outro lado do mundo. O mundo do lado de cá chora a partida prematura do mais forte candidato ao Nobel, mas eu lhe invejo somente as caminhadas, nas quais trocaria Norfolk e Suffolk, pelo Namib e o deserto patagônico em Sarmiento. 


Mas agora tenho que aligeirar este peso, esta enorme responsabilidade.


E feita salva-vidas da minha borrasca, eis que ela reaparece, dissimulando a reaproximação. 


Quantas avenidas terá percorrido, evitando elefânticos pisantes, escapando da teia de quasímodos aracnídeos, do bico voraz de monstros alados, galgando muros, escalando paredes, não escolhendo outro, senão a mim? 


Ela se aproxima e se detém, alonga as patinhas traseiras, como fosse sinal de saudação e retro-agradecimento por sua salvatagem naquela tormenta: distraído, quase a mandei para o ralo com a sujeira dos pratos - o tsunami na pia!


Caminhando e despencando entre as letras, baixa e perscruta o porão alfa-numérico do teclado, brincando de esconder, bisbilhotando a combinação das minhas palavras, impedindo-me a escritura, sob pena de esmagá-la debaixo de um p de pressão ou um q. Que para sua carnadura grácil é mais que um quilograma: é t de tonelada.



Paciência esgotada, acendo um cigarro e desato o jogo de guerra dos carniceiros, no qual vale tudo: feito lança-chamas em Gaza, sopro a fumaça acre para desalojá-la dos espaços do alfabeto – e nada! 

Ela mimetizou-se, já é parte do teclado. 


Impotente, declaro o cessar-fogo unilateral e abro com delicadeza o arquivo das revelações, tentando adivinhar sua genealogia: há as açucareiras, as caçadoras, as doceiras. Divertem-me as astecas, as cabeçudas e mineiras (quando criança esmagava com o pé as odiadas cortadeiras e as proletárias carregadeiras!). 


Sentem-se irresistíveis a argentina, a cuiabana e a paraguaia. Já a formiga fatal é a saca-saia! A formiga-correição, a guaju-guaju, a morupeteca e a taioca são as guerreiras. O piolho-de-onça é sarna que não pára de coçar, e a feiticeira e a cigana leem a sorte, portanto são alvissareiras. 


E tentando imaginar o som da chiadeira, ei-la, triunfante - Margarida, minha formiga visitadeira - emergindo no canto superior esquerdo do teclado, debaixo da letra q.


Não fosse piegas e eu diria que é de querença. 

Importa que me devolveu a leveza.



15 junho 2017

Frederico Füllgraf - O dia em que a V-2 de Hitler caiu em Ciudad Juárez

Excerto de "O caminho de Tula"
romance em construção

Naqueles dias de deambulações de Albert George pelas ruínas de Nassau, ocorria um episódio insólito no deserto do Novo México, do outro lado do mundo.
Porfírio Contreras, capataz de uma herdade localizada junto à fronteira com o Texas, tem a prova de que foi o dia 29 de maio de 1947, porque se percebendo a distância segura, apeara de seu cavalo, e com a ponta de seu punhal, que levava embainhado às costas, entre o cinturão e as ceroulas, no lado esquerdo inferior da cela de couro gravara a data daquela aparição, para que no futuro nem seus netos duvidassem do que vira!
Contou-me Contreras que, enquanto cavalgava de volta à estância, vaquejando mil e quinhentas cabeças de boi com seus peões, foram surpreendidos pelo bramido ensurdecedor de um objeto voador com forma imprecisa, mas apetrechado com aletas, e que a baixa altura, estimada em quatrocentos pés, descrevera uma elipse sobre suas cabeças, desaparecendo por trás de uma quebrada, de onde logo os alcançara o estrépito e a restolhada de ferros retorcidos. 

Ajuntou o mayoral que a primeira reação de seus homens foi perguntarem-lhe se depois de roubarem o Texas, o Novo México e o Arizona, desta vez os americanos invadiriam a capital do país - tal seu pavor e indignação! 


A notícia fizera eco em toda a região fronteiriça, mas instruído por um despacho recebido pelo telégrafo, com a advertência, “ultra-secreto!”, o cônsul americano em Juárez reunira os diretores do único jornal e da única estação de rádio da cidade (obviamente estranhando que fossem da mesma família), ordenando-lhes you guys shut up!, o que traduzido queria dizer "em boca fechada não entra mosquito!" - enfim, que seus repórteres calassem suas matracas sobre o sucedimento impronunciável.



Este era “o mais infame lançamento”, nas palavras de Wayne Mattson, antigo pesquisador dos esfíngicos movimentos ocorridos no deserto de White Sands desde a rendição da Alemanha, referindo-se ao incidente internacional causado pela estranha "arma voadora" que despencara sobre os jazigos de um cemitério de Ciudad Juárez.
Ainda bem que no México não sabiam do que ocorrera do outro lado da fronteira, uma semana antes – sairiam correndo de suas casas para não mais retornar!
Trama paralela. 

Em sua edição de 22 de maio de 1947, o "Alamogordo News" alardeara o susto da população da localidade de mesmo nome, “tocada por incipiente pavor”, quando uma sorte de objeto voador irrompeu em voo errático nos céus sobre a pequena cidade encravada no deserto, explodindo estrepitosamente ao chocar-se contra as montanhas de Sacramento.


Seu lançamento ocorrera às 4h08 da tarde, no Complexo 33 de White Sands. O propelente líquido fora programado para queimar durante 63,6 segundos, acelerando o foguete, com 9.827 libras de peso, à velocidade de 4.696 pés por segundo, ou 3.202 milhas por hora, elevando-o até uma altitude de 76 milhas nos céus do Novo México. Subitamente, porém, o engenho começara a cambalear, a pressão partindo ao meio o míssil, cujos destroços despencaram nas proximidades da 13ª. Rua com a Cuba Avenue, e também sobre os trilhos das Ferrovias da South Pacific.
Mas do que, diabos, estavam falando?
Alguns malucos saltaram em seus carros, relatava o jornal, apressando-se em alcançar o local do choque, localizado a mais de trinta milhas da base do disparo. 

Bob Calloway, que jogava bola com alguns garotos entre a Avenida Michigan e a 15ª. Rua, conta que os fios elétricos estendidos entre os postes naquelas ruas começaram a vibrar violentamente.
Montados num caminhão, ele e seus amigos acudiram ao local da queda, onde apanharam alguns destroços como troféus. Eram fiações e tanques metálicos que usaram para montar aeromodelos, merendeiras e caixas de ferramentas portáteis.
Eis o fim do misterioso "lançamento" ocorrido no dia 15 de maio, estranhamente noticiado apenas no dia 22, uma semana depois.
Os tais "lançamentos" eram top secret.
Por isso, poucas horas após o bombardeio do cemitério em Ciudad Juárez, um destacamento do ministério do ar americano cruzara a fronteira para inspecionar o local do sinistro, encontrando-se com uma turba de mexicanos já empenhada em saquear e vender a sucata que caíra do céu.

Só então o cônsul gringo e os nativos ficaram sabendo que a invasão do espaço aéreo do México fora um acidente, pois, como tratara de elucidar Monte Marlin, oficial de relações públicas do campo de provas balísticas de White Sands, "ao invés de obedecer à trajetória programada, navegando para norte, a engenhoca se desgovernara, e sobrevoando El Paso, do outro lado da fronteira, rumara ao sul..."

- Luckily, no one was injured! – tratou de contemporizar o porta-voz diante das carrancas varadas dos hispânicos.

Ao próprio cônsul, pasmado, confidenciou que em meados de 1945, nada menos que trezentos vagões de trem haviam descarregado em Las Cruces o mais fantástico butim de guerra de todos os tempos!

Eram motores das bombas voadoras alemãs V-2, como essa que acabara de espatifar-se nos ermos. Era mais: ali abundavam fuselagens, tanques de propelentes, giroscópios e outros equipamentos com funções a adivinhar.

De Las Cruces, fim da malha ferroviária, as super-armas alemãs seguiram em caminhões - centenas de caminhões! - para a base de White Sands. 

Lá estava funcionando um programa, explicou Marlin, para treinar americanos em operações de lançamento com armas teleguiadas, artifício até ali sobejamente desconhecido na América.

Infelizmente, ajuntara o oficial, apesar de operadas pelos cento e setenta e sete cientistas e técnicos que as tinham desenvolvido na Alemanha, nem todos os disparos com essas armas eram exitosos, embora estimasse que sua margem de acerto fosse de sessenta e oito por cento. Portanto, somente aqueles trinta e dois por cento errantes – ehhmm... restantes!, corrigiu-se rapidamente - explicavam o desvio imprevisto daquela V-2 para Ciudad Juárez.

E arrumando num caminhão militar, fortemente guarnecido, os destroços que restavam da arma futurista, que não deixaram fotografar pelos mexicanos, os americanos retornaram à fronteira e desapareceram.


Fotos: divulgação