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11 fevereiro 2025

Pablo Neruda - Ode à tipografia


Ilustrações: divulgação



Tradução: Frederico Füllgraf (2011)




Letras amplas, severas,
verticais,
feitas
de linha pura,
erguidas
como o mastro
do navio
no meio
da página
cheia
de confusão e turbulência,
Bodonis
algébricos,
letras
cabais,
finas
como lebréis,
submetidas
ao retângulo branco
da geometria,
vogais
elzevires
cunhadas
no miúdo aço
da oficina junto à água,
em Flandres, no norte
traçado por canais,
cifras
da âncora
caracteres de Aldus,
firmes como
a estatura
marinha
de Veneza
em cujas águas-mães
como vela
inclinada,
navega a cursiva
curvando o alfabeto:
o ar
dos descobridores
oceânicos
agachou
para sempre o perfil da escritura.

Desde
as mãos medievais
avançou até teus olhos
este
N
este 8
duplo
este
J
este
R
de rei e de rocio.
Ali
se lavraram
como se fossem
dentes, unhas,
metálicos martelos
do idioma.
Golpearam cada letra,
erigiram-na
pequena estátua negra
na alvura,
pétala
do pensamento que tomava forma
do caudaloso rio
e que ao mar dos povos navegava
com todo
o alfabeto
iluminando
a desembocadura.

O coração, os olhos
dos homens
se encheram de letras,
de mensagens,
de palavras,
e o vento passageiro
ou permanente
levantou livros
loucos
ou sagrados.

Debaixo
das novas pirâmides escritas
a letra
estava viva,
o alfabeto ardendo,
as vogais,
as consoantes como
flores curvas.

Os olhos
do papel, os que miraram
nos homens
buscando
seus presentes, 
sua história, seus amores,
estendendo
o tesouro
acumulado,
espargindo prontamente
a lentidão da sabedoria
sobre a mesa
como um baralho,
todo
o húmus
secreto
dos séculos
o canto, a memória,
a revolta,
a parábola cega,
pronto
foram
fecundidade,
celeiro,
letras,
letras
que caminharam
e se acenderam
letras
que navegaram
e venceram,
letras
que despertaram
e subiram,
letras
que libertaram,
letras
em forma de pomba
que voaram,
letras
vermelhas sobre a neve,
pontuações,
caminhos,
edifícios
de letras
e Villon e Bercéo,
trovadores
da memória
apenas
escrita sobre o couro
e também sobre o tambor
da batalha,
chegaram
à espaçosa nave
dos livros,
à tipografia
navegante.


Mas
a letra
não foi só beleza, 
e sim, vida,
foi paz para o soldado,
baixou às soledades
da mina
e o mineiro
leu
o panfleto duro
e clandestino,
ocultou-o nos recônditos
do segredo
coração
e acima
sobre a terra,
foi outro
e outra
foi sua palavra.

A letra
foi a mãe
das novas bandeiras,
as letras
procriaram,
as estrelas
terrestres
e o canto, o hino ardente
que reúne
aos povos
de
uma
letra
agregada
a outra
letra
e a outra
de povo em povo foi sobrelevando
sua autoridade sonora
e cresceu na garganta dos homens
até impor a claridade do canto.


Mas
tipografia,
deixe-me
celebrar-te
na pureza
de teus
puros perfis,
na redoma
da letra
O,
no viçoso
alguidar
do
Y,
no
Q
de Quevedo
(como poderia passar
minha poesia
em frente dessa letra
sem sentir o antigo arrepio
do sábio moribundo?),
à açucena
multi
multiplicada
do
V
de vitória,
no
E
escalonado
para subir ao céu,
no
Z
com seu rosto de raio,
no P
alaranjado.


Amor,
amo
as letras
de teu cabelo,
o
U
de teu olhar,
os
S
de tuas curvas.




Nas folhas
da jovem primavera
refulge o alfabeto
diamantino,
as esmeraldas
escrevem teu nome
com iniciais frescas do rocio.


Meu amor,
tua cabeleira profunda
como selva ou dicionário
me cobre
com sua totalidade
de idioma
vermelho.

Em tudo,
no estalão
do verme
se lê,
na rosa se lê,
as raízes
estão cheias de letras
retorcidas
pela umidade do bosque
e no céu
de Isla Negra, à noite,
leio,
leio
no firmamento frio
da costa,
intenso,
diáfano de formosura,
despregado,
com estrelas capitais
e minúsculas
e exclamações
de diamante gelado,
leio, leio
na noite do Chile
austral, perdido
nas celestes solitudes
do firmamento,
como em um livro
leio
todas
as aventuras
e na erva
leio,
leio
a verde, a arenosa
tipografia
da terra agreste,
leio
os navios, os rostos
e as mãos,
leio
em teu coração
onde
vivem
entrelaçados
a inicial
provinciana
de teu nome
e
o arrecife
de meus sobrenomes.


Leio
tua fronte,
leio
teu cabelo
e no jasmim
as letras
escondidas
elevam
a incessante
primavera
até que eu decifro
a enterrada
pontuação
da papoula
e a letra
escarlate
do estio:
são as exatas flores do meu canto.


Contudo
quando
desfralda
seus rosais
a escritura,
a letra
sua essencial
jardinaria,
quando lês
as velhas e as novas
palavras, as verdades
e as explorações,
te peço
um pensamento
para quem as ordena
e as levanta,
para o que separa
o tipo,
para o linotipista
com sua lâmpada
como um piloto
sobre
as ondas da linguagem
ordenando
os ventos na espuma,
a sombra e as estrelas
no livro:
o homem
e o aço
uma vez mais reunidos
contra as asas noturnas
do mistério,
navegando,
hora dando,
compondo.


Tipografia,
sou
apenas um poeta
e és
o florido
jogo da razão,
o movimento
do cerzir
da inteligência.
Não descansas
de noite
nem no inverno
circulas
nas veias
de nossa anatomia
e se dormes
voando
durante
alguma noite ou greve
ou fadiga ou ruptura
de linotipia
baixas de novo ao livro
ou ao jornal
como nuvem
de pássaros ao ninho.
Regressas
ao sistema
à ordem
inapelável
da inteligência.


Letras
continuai caindo
como precisa chuva
em meu caminho.
Letras de tudo
o que vive
e morre,
letras de luz, de lua,
de silêncio,
de água,
amo-vos,
e em vós
recolho
não apenas pensamento
e o combate,
mas também vossos vestidos,
sentidos
e sonoridades:
A

de gloriosa aveia,
T
de trigo y de torre
e
M
como teu nome
de maçã.



16 dezembro 2014

Frederico Füllgraf - Brecht em duas versões



An die Nachgeborenen 
de Bertold Brecht
(em traduções de Frederico Füllgraf e Manuel Bandeira)

1. Aos nascidos depois de mim
Versão de Frederico Füllgraf

Wirklich, ich lebe in finsteren Zeiten!
Das arglose Wort ist töricht. Eine glatte Stirn
Deutet auf Unempfindlichkeit hin. Der Lachende
Hat die furchtbare Nachricht
Nur noch nicht empfangen.
Realmente, eu vivo em tempos sombrios!
A palavra melindrosa é pusilânime. Uma fronte sem rugas
É a expressão da indiferença - o folgazão
Apenas não recebeu em tempo
a terrível notícia.
Was sind das für Zeiten, wo
Ein Gespräch über Bäume fast ein Verbrechen ist.
Weil es ein Schweigen über so viele Untaten einschließt!
Der dort ruhig über die Straße geht
Ist wohl nicht mehr erreichbar für seine Freunde
Die in Not sind?
Que tempos são estes, quando
Uma conversa sobre abobrinhas é quase um crime.
Porque encerra o silêncio sobre indizíveis atentados!
Aquele que cruza a rua impassível
Já se tornou impiedoso para os amigos
Caídos em desgraça ?

Es ist wahr: ich verdiene noch meinen Unterhalt
Aber glaubt mir: das ist nur ein Zufall. Nichts
Von dem, was ich tue, berechtigt mich dazu, mich sattzuessen.
Zufällig bin ich verschont. (Wenn mein Glück aussetzt, bin ich verloren.)

É verdade: ainda ganho para o meu sustento
Mas acreditem: é mera coincidência. Nada
do que faço dá-me o direito de saciar-me.
Sou poupado por distração. (Se minha sorte me abandonar,
estarei perdido).

Sie sagen mir: iss und trink du! Sei froh, daß du hast!
Aber wie kann ich essen und trinken, wenn
Ich dem Hungernden entreiße, was ich esse, und
Mein Glas Wasser einem Verdurstenden fehlt?
Und doch esse und trinke ich.


Dizem-me: come, tu, e bebe, dá graças que tens o quê!
Mas como poderei comer e beber, se
Ao faminto surrupio a comida e
Se o que faz falta ao sedento é meu copo d´água?
Apesar disso, como e bebo.

Ich wäre gerne auch weise.
In den alten Büchern steht, was weise ist:
Sich aus dem Streit der Welt halten und die kurze Zeit
Ohne Furcht verbringen.

 Eu também gostaria de ser  douto.
A sabedoria está descrita nos livros antigos:
"Furtar-se às contendas do mundo e desfrutar
Sem medo o tempo exíguo."

Auch ohne Gewalt auskommen
Böses mit Gutem vergelten
Seine Wünsche nicht erfüllen, sondern vergessen
Gilt für weise.
Alles das kann ich nicht:
Wirklich, ich lebe in finsteren Zeiten!
Mais: renunciar à violência
Pagar o mal com o bem
Não satisfazer seus desejos, melhor esquecê-los
Sabedoria seria isso.
E é tudo o que não posso:
Deveras, eu vivo em tempos sombrios!


In die Städte kam ich zur Zeit der Unordnung
Als da Hunger herrschte.
Unter die Menschen kam ich zu der Zeit des Aufruhrs
Und ich empörte mich mit ihnen.
So verging meine Zeit
Die auf Erden mir gegeben war.


Cheguei às cidades quando lá campeava a desordem
E imperava a fome.
Juntei-me às pessoas no instante da revolta
E indignei-me com elas.
Assim passou o tempo
Que me foi dado na Terra.



Mein Essen aß ich zwischen den Schlachten
Schlafen legte ich mich unter die Mörder
Der Liebe pflegte ich achtlos
Und die Natur sah ich ohne Geduld.
So verging meine Zeit
Die auf Erden mir gegeben war.


Comi meu pão entre uma e outra batalha
Para dormir deitei-me entre os assassinos
Indelicado cultivei o amor
Impaciente contemplei a natureza.
Assim feneceu o tempo
Que meu foi dado na Terra.

Die Straßen führten in den Sumpf zu meiner Zeit.
Die Sprache verriet mich dem Schlächter.
Ich vermochte nur wenig. Aber die Herrschenden
Saßen ohne mich sicherer, das hoffte ich.
So verging meine Zeit
Die auf Erden mir gegeben war.


No meu tempo as ruas conduziam ao atoleiro
E a palavra delatou-me ao verdugo.
Consegui fazer pouco. Mas sem mim
Os poderosos sentiam-se mais seguros; essa era a minha idéia.
Assim passou o tempo
Que me foi dado na Terra.



Die Kräfte waren gering. Das Ziel
Lag in großer Ferne
Es war deutlich sichtbar, wenn auch für mich
Kaum zu erreichen.
So verging meine Zeit
Die auf Erden mir gegeben war.


Eram poucas as forças. A causa
longe de ser conquistada.
Jazia ali com nitidez, mas para mim
Mal-e-mal à mão.
Assim passou o tempo
Que meu foi dado na Terra.

Ihr, die ihr auftauchen werdet aus der Flut
In der wir untergegangen sind
Gedenkt
Wenn ihr von unseren Schwächen sprecht
Auch der finsteren Zeit
Der ihr entronnen seid.

Vós, que emergireis da maré
Na qual naufragamos
Relembrai
Quando falardes de nossas fraquezas
Também os tempos sombrios
Dos quais vos livrastes.

Gingen wir doch, öfter als die Schuhe die Länder wechselnd
Durch die Kriege der Klassen, verzweifelt
Wenn da nur Unrecht war und keine Empörung.
Pois, trocando mais de países que de sapatos
Caminhávamos através das guerras das classes, angustiados
Bastava lá reinar a injustiça e nenhuma indignação.

Dabei wissen wir doch:
Auch der Haß gegen die Niedrigkeit
verzerrt die Züge.
Auch der Zorn über das Unrecht
Macht die Stimme heiser. Ach, wir
Die wir den Boden bereiten wollten für Freundlichkeit
Konnten selber nicht freundlich sein.

Ora pois, sabemos muito bem que:
O ódio contra a vileza
Endurece as feições.
A ira contra a injustiça
Deixa rouca a voz. Diabos!, nós
Que queríamos semear a amabilidade
Já não conseguíamos ser amáveis.

Ihr aber, wenn es so weit sein wird
Daß der Mensch dem Menschen ein Helfer ist
Gedenkt unserer
Mit Nachsicht.

Vós, porém, quando chegar a hora
Em que o homem for o amparo do homem
Lembrai-nos
E sede indulgentes.





 

II - Aos que vierem depois de nós
(Tradução de Manuel Bandeira)


Realmente, vivemos muito sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.

Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranqüilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?

É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
[(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: "Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!"

Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.

Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.

E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.

Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

As forças eram escassas. E a meta
achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.

Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.

E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.

30 setembro 2014

Frederico Füllgraf - Elogio de Jorge Luis Borges - Susan Sontag


Fotos: divulgação


Todas as lições de um mestre
Tradução: Frederico Füllgraf


Nota: de sua casa, em Nova York, onde se recuperava de um acidente automobilístico, a falecida escritora e ensaísta norte-americana, Susan Sontag, não queria ficar ausente dos debates, da inquietação. Sua admiração e seu respeito por Jorge Luís Borges se traduzem neste texto espirituoso, escrito em homenagem ao já então finado escritor argentino sob forma de carta. Desde 2002, Sontag faz companhia a Borges na “Biblioteca Total Celeste”.

12 de junho de 1996

Querido Borges:

Dado que sempre contemplaram sua literatura sob o signo da eternidade, não parece demasiado estranho enviar-lhe uma carta (Borges, faz dez anos). Se alguma vez algum contemporâneo pareceu destinado à imortalidade literária, este era o senhor. O senhor era em grande medida o produto de seu tempo, de sua cultura e, no entanto, sabia como transcender seu tempo, sua cultura, de uma forma que resulta bastante mágica. Isto tinha algo a ver com a abertura e a generosidade, próprias de sua atenção. Era o menos egocêntrico, o mais transparente dos escritores... e também o  mais artístico. Também tinha algo a ver com uma pureza natural de espírito. Ainda que tenha vivido entre nós durante um tempo bastante prolongado, aperfeiçoou as práticas do fastio e da indiferença, que também o converteram num viajante-especialista mental em outras eras. Tinha um sentido do tempo diferente dos demais. As idéias comuns de passado, presente e futuro pareciam banais sob seu olhar. O senhor gostava de dizer que cada momento do tempo contém o passado e o futuro, citando (se bem me lembro) o poeta Browning, que escreveu algo assim como "o presente é o instante no qual o futuro se derruba no passado". Isso, sem dúvida, era expressão de sua modéstia: seu contentamento em encontrar suas idéias nas idéias de outros escritores.

Essa modéstia se inseria na segurança de sua presença. O senhor era um descobridor de novas alegrias. Um pessimismo tão profundo, tão sereno como o seu, não necessitava da indignação. Melhor fosse inventivo... e o senhor era, sobretudo, inventivo. A serenidade e a transcendência do ser que o senhor encontrou, são para mim exemplares. O senhor demonstrou de que maneira a infelicidade não precisa ser uma necessidade, ainda que a perspicácia e o esclarecimento não nos livrem do terror de tudo isso. Em algum momento o senhor disse que um escritor - acrescentando delicadamente: todas as pessoas - deve pensar que qualquer coisa que lhe suceda, será um recurso. 
(Estava falando da sua própria cegueira).

O senhor foi um grande recurso para outros escritores. Em 1982 – quer dizer, quatro anos antes de morrer (Borges, faz dez anos!) – eu disse numa entrevista: "Hoje não existe nenhum outro escritor vivente que importe mais a outros escritores que Borges. Muitos diriam que é o maior escritor vivente... São muito poucos escritores de hoje que dele não aprenderam ou o não o imitaram". E isso continua sendo assim.  Ainda continuamos aprendendo com o senhor. 
Ainda continuamos a imitá-lo. O senhor ofereceu às pessoas novas maneiras de imaginar, ao mesmo tempo que reiterava, aqui e acolá, nossa dívida com o passado, sobretudo com a  literatura. O senhor disse que devemos à literatura praticamente tudo o que somos e o que fomos. Se os livros desaparecerem, desaparecerão a história e também os seres humanos.Estou convencida de que tem razão. Os livros não são apenas a soma arbitrária de nossos sonhos e de nossa memória. Também nos fornecem o modelo da autotranscendência. Alguns pensam que a leitura é somente uma forma de escapismo: um escape do cotidiano "real" a um mundo imaginário, o mundo dos livros. Os livros são muito mais do que isso.

Lamento ter de dizer-lhe que a sorte do livro jamais esteve tão ameaçada por semelhante decadência. São cada vez mais os que alardeiam o grande projeto contemporâneo da destruição das condições que tornam a leitura capaz de repudiar o livro e seus efeitos. Imagine-se aconchegado na cama ou sentado num canto tranqüilo de uma biblioteca, folheando lentamente às páginas de um livro à luz de uma lâmpada,  e à queima-roupa lhe dizem que daqui para a frente é nos “livros-tela”  que deverá  descarregar qualquer "texto" a pedido, e que poderá mudar  sua aparência, formular perguntas, "interagir" com esse texto. Quando os livros se convertam em "textos", com os que "interagiremos" segundo os critérios de utilidade, a palavra escrita se terá convertido simplesmente em mais um aspecto de nossas realidades televisivas, regidas pela publicidade. Este é o glorioso futuro que se está criando – e que nos prometem - como algo mais "democrático". Obviamente o senhor e eu sabemos que isso não significa nada menos que a morte da introspecção... e do livro.

Esses tempos sequer exigem uma grande conflagração. Os bárbaros não têm que queimar os livros. O tigre está na biblioteca. Querido Borges, entenda, por favor, que não me dá prazer queixar-me. Mas: a quem melhor poderiam estar dirigidas estas queixas sobre o destino dos livros - da leitura em si – senão ao senhor? (Borges, faz dez anos!) Tudo o que quero dizer é que sentimos sua falta. Sinto saudades do senhor. O senhor continua fazendo a diferença. Estamos ingressando em uma era estranha, o século XXI. Porá à prova a alma de maneiras inusitadas. Contudo, lhe prometo: entre nós alguns não abandonarão a Grande Biblioteca. E o senhor seguirá sendo nosso exemplo e nosso herói.

01 julho 2012

Frederico Füllgraf - Chegar não é preciso: "O Barco da Selva" de Richard A. Bermann



Duas semanas após zarpar de Liverpool, com destino a Manaus, o navio de carga escocês, "Hildebrand", que também leva 150 passageiros a bordo, penetra na foz do Amazonas, mas é desviado de sua rota para o porto de Belém do Pará. O jornalista e escritor, Richard A. Bermann, que investira pequena fortuna naquela viagem, cujo destino são as profundezas da Amazônia de além-Manaus, vive a maior decepção de sua vida: com o nome de “Comuna de Manaus”, um movimento tenentista sublevou-se, suspendendo a navegação sobre o rio-mar. O barco fica retido em Belém e então se inverte o tal dito popular do “ficar a ver navios” - desta vez é o navio e seus passageiros que ficam a ver o rio. “Fiquei louco da vida. Que, depois de viajar para tão longe, chegar até o umbral da fantástica selva sul-americana, não me restasse mais do que vegetar no ´Grand Hotel´ e, no máximo, dar um passeio pelo parque da cidade, isso me deixou desvairado”, confessou Bermann.

Com vinte dias de penosa espera pelo fim da rebelião, o capitão dá meia-volta e retorna à Europa, sem que seus passageiros, entre eles alguns nobres e ingleses, endinheirados, tivessem sentido uma nesga de sabor da Amazônia profunda.

O hilariante episódio é real, aconteceu em 1924.

Três anos depois, Bermann surpreende o público com o romance Das Urwaldschiff
(O barco da selva) - estrondoso sucesso no mercado livreiro de 1927 (300 mil exemplares vendidos nos dois primeiros meses da publicação) e, oitenta anos após seu lançamento na Alemanha, ainda inédito no Brasil. Mas por pouco tempo: tive o imenso prazer de recomendar sua tradução e finalmente receber o convite para traduzi-lo.

A dialética do viajar

O barco da selva narra a estória do professor ginasial, Dr. Bernhard Schwarz, morador dos Sudetos alemães (atual República Tcheca), que após ler “800 milhas sobre o Amazonas”, de Jules Verne, sente-se consumido por imensa “saudade” da Amazônia, e embarca num cruzeiro, rumo à terra da promissão da literatura. Mas então ocorre a revolta tenentista e a retenção do „Hildebrand“ em Belém, que mergulham Schwarz na mais profunda depressão, porque o impedem de realizar o sonho de sua vida.                                         

Debruçado sobre um mapa, no salão do navio, enlouquece com aquela profusão de “manchas brancas” – unexplored! – da cartografia, e é como espécie de consolo ou ironia, quando Hillary, um dos passageiros ingleses, metido a escritor-viajante, começa a narrar a uma pequena platéia de passageiros entediados com o navio paralisado em Belém, a insana odisséia do insensato fidalgo, Francisco Orellana, que em 1541 se juntara à expedição de Gonzalo Pizarro, em busca do mitológico El Dorado.

Febril de gana pelo ouro, a tropa dos espanhóis ensandecidos se despeja dos altiplanos andinos para os baixios da bacia amazônica. Já atacado por outra febre, a da maleita, e encalhado na selva, Pizarro manda construir um barco e ordena a Orellana avançar com pequeno destacamento, com o objetivo de vasculhar saídas do mortífero abraço da floresta. Porém, ao invés de retornar ao acampamento-base, de Pizarro, Orellana sucumbe aos cochichos de seu intérprete Inca, Miguelito, trai Pizarro e embrenha-se cada vez mais na jungla profunda. Na verdade, a traição não foi intencional, pois Orellana manda lavrar em ata solene sua nomeação para Adelantado, justificando a medida a Carlos V com a inviabilidade de sua volta, corredeiras acima, até o acampamento-base de Pizarro - tudo muito correto!



À semelhança do equatoriano, Leopoldo Benítez Vinueza, autor do fantástico Argonautas de la selva (1945), também Bermann conduz seus leitores através das errâncias de Orellana, guiado pelos relatos do Frei Gaspar de Carvajal (Relación del nuevo descubrimiento del famoso río grande… - Quito, 1942), companheiro de viagem de Orellana em sua primeira expedição amazônica, a quem o rio deve seu nome, pois foram guerreiras, “amazonas”, que o cura temente a Deus e letrado em mitos gregos, avistara na margem do rio, antes que uma das flechas delas cravara e vazara um de seus olhos.

Estória(s) dentro da estória, em sua ânsia narrativa, Hillary, que deseja escrever o livro definitivo sobre a Amazônia, intercala a aventura de Orellana com outras crônicas desatinadas, tais como o desgraçado extravio de Isabel Casa-Mayor, mais conhecida por Godin des Odonais, que, separada há mais de quinze anos do marido francês, que partira para Caiena, em 1769 resolve ir ao seu encontro, abandonando Quito e precipitando-se mata adentro com quatro familiares, dos quais apenas ela sobrevive, graças ao seu resgate por um casal indígena.

Contrariando a História real, no romance de Bermann, Orellana finalmente alcança seu destino – o El Dorado. Rastejando de fome e delirando de febre, então se pergunta: só isso? Era isso, apenas, o que eu procurava? Provavelmente, foi também o que se perguntou Isabel Godin, ao reencontrar o marido, Jean Godin des Odonais, ex-integrante da expedição geodésica de monsieur de La Condamine, que já dilapidara o patrimônio do sogro e da esposa, agora acomodado em Caiena; e talvez fosse mesmo essa a razão dele para sua fuga do Equador.

Mas voltando ao eixo da narrativa, o “Hildebrand”.
Na véspera do retorno a Liverpool, todos os passageiros já a bordo – melhor: quase todos – alguém encontra o chapéu de explorador e o binóculo do Dr. Schwarz, pendurados na parede de bombordo. Procuram, vasculham o navio da proa à popa, da casa de máquinas ao convés, durante um dia inteiro mandam mergulhadores realizar buscas nas águas turvas do Amazonas, e nenhuma pista do professor alemão – ele havia desaparecido, ou nas profundezas do rio-mar, ou na mata cerrada, onde jamais seria encontrado.

O barco da selva é uma ironia que se insurge contra o ato de viajar, melhor dizendo: contra a chegada. Quando a aventura de Orellana se completa com sua morte, o romance de Bermann revela a moral de sua estória: navigare necesse, chegar não é preciso!


O Autor

Richard Arnold Bermann, que também escreveu sob o pseudônimo, Arnold Höllriegel, nasceu em Viena, em 1883, e faleceu em Saratoga Springs (EUA), em 1939, durante seu exílio como refugiado do nazismo. Jornalista e contista, Bermann iniciara sua carreira durante a Primeira Guerra Mundial como correspondente em Viena do jornal "Berliner Tageblatt" e colaborador de diversos diários locais. Com a anexação da Áustria pelo regime nazista, Berman deixou o país, estabelecendo-se nos EUA, somando-se ao American Guild for German Cultural Freedomà colônia de artistas exilados, conhecida como Yaddo.

Fora da Alemanha, Bermann ganhou fama como autor de narrativas sobre Hollywood e os bastidores da indústria cinematográfica, e cronista de viagens. Porém, nenhum de seus textos escritos nos EUA, jamais atingiu a marca d´ O barco da selva. Em 1921, a editora S. Fischer Verlag reeditou o Barco..desta vez sob o pseudônimo Arnold Höllriegel; sobrenome hilário que traduzido ao português significa “tranca do inferno”. Curiosidade à parte: Bermann foi o primeiro tradutor alemão das obras de Eça de Queiroz. 

 Contra o tédio a bordo, baile à fantasia e a errância de Orellana...

06 junho 2012

Bertolt Brecht / Frederico Füllgraf - Balada dos Aventureiros




Ballade von den Abenteurern
Text und Musik: Bertolt Brecht

Von Sonne krank und ganz von Regen zerfressen
Geraubten Lorbeer im zerrauften Haar
Hat er seine ganze Jugend, nur nicht ihre Träume vergessen
Lange das Dach, nie den Himmel, der drüber war.

O ihr, die ihr aus Himmel und Hölle vertrieben
Ihr Mörder, denen viel Leides geschah
Warum seid ihr nicht im Schoß eurer Mütter geblieben
Wo es stille war und man schlief und man war da?

Er aber sucht noch in absinthenen Meeren
Wenn er schon seine Mutter vergißt
Grinsend und fluchend und zuweilen nicht ohne Zähren
Immer das Land, wo es besser zu leben ist.

Schlendernd durch Höllen und gepeitscht durch Paradiese
Still und grinsend, vergehenden Gesichts
Träumt er gelegentlich von einer kleinen Wiese
Mit blauem Himmel drüber und sonst nichts.

Español
Balada de los aventureros

Enfermo de sol, todo comido por las lluvias
en el pelo revuelto laureles robados
olvidó su juventud, pero no sus sueños,
hace rato olvidó el techo, nunca el cielo sobre él desplegado.

Oh, vosotros que fuístes expulsados del cielo y del infierno
Uds. los asesinos que fueron tocados por mucho sufrimiento
Por que no se quedaron en el vientre de sus madres
En donde habitaba la quietud y se dormía y uno estaba presente?

Ya olvidandose de su propia madre
Él sigue buscando océanos de anjenjo,
sonriendo y puteando y no sin privaciones
ese país de siempre, en el que se vive mejor.

Arrastrandose por infiernos, azotado por paraísos,
Quieto, sonriente y expresión ausente,
de vez en cuando sueña con un jardincito
cubierto de cielo azul y nada más.

Português
Balada dos aventureiros

Doente de sol, todo comido pelas chuvas
No cabelo revolto, louros roubados
Esqueceu sua juventude, mas não os seus sonhos,
Faz tempo esqueceu o teto, nunca porém o céu acima dele estendido.

Oh, vós que fostes expulsos do céu e do inferno
Vocês, os assassinos atingidos por muito sofrimento
Por que não se mantiveram no ventre de suas mães
Onde habitava a quietude e se dormia e se estava presente?

Já se esquecendo da própria mãe
Ele busca ainda em oceanos de absinto,
Sorrindo e blasfemando e não sem privações
Este país de sempre, no qual se vive melhor.

Arrastando-se por infernos, açoitado por paraísos,
Quieto, sorrindo e expressão ausente,
Por vezes sonha com um jardinzinho
Coberto de céu azul e nada mais.

Copyright versões Español e Português: Frederico Füllgraf
Fotos: divulgação



07 abril 2012

Günter Grass - O que tem que ser dito

Prêmio Nobel de Literatura, Günter Grass
Foto: divulgação



O que tem que ser dito
Günter Grass

Por que guardo silêncio, faz tempo demais me calo,
sobre o que é manifesto e se ensaiava
com simulacros de guerra à qual sobreviveremos,
quando muito, como reles notas de rodapé.

Falo do suposto direito ao ataque preventivo:
este que poderia exterminar o povo iraniano,
subjugado e conduzido à exultação conchavada
por um fanfarrão
porque em sua jurisdição se suspeita
da fabricação de uma bomba atômica.

Mas por que, diabos, furto-me em citar o nome
daquele outro país no qual
 — apesar de mantido em segredo—
há muito cresce um potencial nuclear,
mas fora de controle, já que
é inacessível a toda inspeção?
A supressão generalizada desse fato
ao qual se submeteu meu próprio silêncio,
eu a sinto como mentira opressiva
e coação que ameaça castigar
quem não a respeite;
cá entre nós, o veredicto do “antissemitismo” é assaz popular.

Agora, porém, porque meu país,
a cada tanto chamado para dar satisfações
de crimes imputados
e que não tinham precedentes,
volta e meia renovadas com leviano sotaque comercial, ainda que
qualificadas de reparação,
entregará a Israel outro submarino cuja especialidade
é direcionar ogivas aniquiladoras
a alvo onde não se provou
a existência de uma bomba sequer,
e ainda que se pretenda aportar como prova o reles temor...
Digo o que tem que ser dito.

Por que, contudo, me calei até agora?
Porque acreditava que minha origem,
marcada por um estigma inapagável,
me proibia atribuir este fato, como evidente,
ao país Israel, ao qual me sinto unido
e desejo continuar estando.

Por que só o digo agora,
envelhecido e com derradeiras tintas:
- Israel, potência nuclear, põe em perigo
uma paz mundial já quebradiça?
Digo porque tem que ser dito 
o que dito amanhã poderia ser tarde demais,
e porque —suficientemente incriminados como alemães—
poderíamos ser cúmplices de um crime
que é imprevisível, e vai daí que nossa parcela de culpa
não se poderia apagar
com nenhuma das escusas recorrentes.

E cá entre nós: rompo meu silêncio
porque estou farto
da hipocrisia do Ocidente; cabe esperar ademais
que muitos outros se libertem do silêncio, exijam
ao causador desse perigo que salta à vista
que renuncie ao uso da força e insistam também
em que os governos de ambos países permitam
o controle permanente e sem travas
do potencial nuclear israelita
e das instalações nucleares iranianas
por uma autoridade internacional.

Somente assim poderemos ajudar a todos, israelitas e palestinos,
mais ainda, a todos os seres humanos que naquela região
ocupada pela demência
vivem, cotovelo contra cotovelo, em inimizade 
odiando-se mutuamente,
e finalmente também ajudar-nos a nós mesmos.
Tradução: Frederico Füllgraf, a partir do original alemão, publicado no Süddeutsche Zeitung, 04/04/2012

Was gesagt werden muss
Warum schweige ich, verschweige zu lange,
was offensichtlich ist und in Planspielen
geübt wurde, an deren Ende als Überlebende
wir allenfalls Fußnoten sind.


Es ist das behauptete Recht auf den Erstschlag,
der das von einem Maulhelden unterjochte
und zum organisierten Jubel gelenkte
iranische Volk auslöschen könnte,
weil in dessen Machtbereich der Bau
einer Atombombe vermutet wird.


Doch warum untersage ich mir,
jenes andere Land beim Namen zu nennen,
in dem seit Jahren - wenn auch geheimgehalten -
ein wachsend nukleares Potential verfügbar
aber außer Kontrolle, weil keiner Prüfung
zugänglich ist?


Das allgemeine Verschweigen dieses Tatbestandes,
dem sich mein Schweigen untergeordnet hat,
empfinde ich als belastende Lüge
und Zwang, der Strafe in Aussicht stellt,
sobald er mißachtet wird;
das Verdikt "Antisemitismus" ist geläufig.


Jetzt aber, weil aus meinem Land,
das von ureigenen Verbrechen,
die ohne Vergleich sind,
Mal um Mal eingeholt und zur Rede gestellt wird,
wiederum und rein geschäftsmäßig, wenn auch
mit flinker Lippe als Wiedergutmachung deklariert,
ein weiteres U-Boot nach Israel
geliefert werden soll, dessen Spezialität
darin besteht, allesvernichtende Sprengköpfe
dorthin lenken zu können, wo die Existenz
einer einzigen Atombombe unbewiesen ist,
doch als Befürchtung von Beweiskraft sein will,
sage ich, was gesagt werden muß.


Warum aber sch
wieg ich bislang?
Weil ich meinte, meine Herkunft,
die von nie zu tilgendem Makel behaftet ist,
verbiete, diese Tatsache als ausgesprochene Wahrheit
dem Land Israel, dem ich verbunden bin
und bleiben will, zuzumuten.


Warum sage ich jetzt erst,
gealtert und mit letzter Tinte:
Die Atommacht Israel gefährdet
den ohnehin brüchigen Weltfrieden?
Weil gesagt werden muß,
was schon morgen zu spät sein könnte;
auch weil wir - als Deutsche belastet genug -
Zulieferer eines Verbrechens werden könnten,
das voraussehbar ist, weshalb unsere Mitschuld
durch keine der üblichen Ausreden
zu tilgen wäre.


Und zugegeben: ich schweige nicht mehr,
weil ich der Heuchelei des Westens
überdrüssig bin; zudem ist zu hoffen,
es mögen sich viele vom Schweigen befreien,
den Verursacher der erkennbaren Gefahr
zum Verzicht auf Gewalt auffordern und
gleichfalls darauf bestehen,
daß eine unbehinderte und permanente Kontrolle
des israelischen atomaren Potentials
und der iranischen Atomanlagen
durch eine internationale Instanz
von den Regierungen beider Länder zugelassen wird.


Nur so ist allen, den Israelis und Palästinensern,
mehr noch, allen Menschen, die in dieser
vom Wahn okkupierten Region
dicht bei dicht verfeindet leben
und letztlich auch uns zu helfen.