01 julho 2014

Frederico Füllgraf - Roberto Arlt, Cármen e Baía Creek

Fotos: bafilm.com.ar, R. Haussmann

Cármen de Patagones
Roberto Arlt

Imposibilitado de utilizar diez definiciones para calificar al pueblo de Patagones escalonaré unas cuantas. El público puede quedarse con la que más le agrade. Ahí van:

Patagones es un pueblo donde uno se puede morir de muerte romántica.
Patagones es una niña bien. Aspira.

Patagones podría ser una ciudad costera de Brasil. Es más quieto y denso que una de aquellas ciudades del trópico donde José Mojica y la Rubia Platinada se desvanecen escuchando una rumba ejecutada por la orquesta de Don Aspiazu.
Patagones es bonito como un beso de novia. (En días de lluvia).

En Patagones se puede escribir una novela de amor tan amoroso, que después de leerla, los amantes no escojan sino entre el suicidio o la felicidad.

Patagones es noble, rústico y severo y, al mismo tiempo, dulce como un “menino”.

Para escribir sobre Patagones hay que ponerse una mano sobre el corazón y entornar dulcemente los ojos. Y no tener miedo del ridículo al afirmar que es diez veces más bonito que Bahía Blanca, que Rosario y que Tandil, a pesar de ser diez veces más pequeño que la parroquia de Caballito.

Todas estas y otras innumerables virtudes se le pueden descubrir a Patagones en un día nublado. (in: En el país del viento, Editorial Sigmur, 1996.)


Baía Creek

Frederico Füllgraf


Quando o arrependimento dói, é preciso reinventar-se.

Mal lembrado, era meio-dia, sol a pino, quando atravessaram, apressados, Patagones, porque pretendiam atingir San Antonio Oeste antes do anoitecer. Mas não pelo caminho mais curto, a Ruta Nacional 3 e, sim, bordejando o Golfo de San Matías, sobre uma estrada de rípio, feita de cascalho e muito pó, porque ali, assim alertara o Guia YPF, se ocultavam duas atrações: a lobería Punta Bermeja e, depois dela, a Baia Creek.

Rumo à Patagônia e ao fim do mundo, estavam imersos numa paisagem localizada mil quilômetros ao sul de Buenos Aires, onde o Rio Negro separa sua província homônima da de Buenos Aires, ato continuo desfazendo-se no Atlântico, em El Pesadero.

Navegando sob colunas de pó de cor ocre, que penetrava pelas frestas do carro hermeticamente fechado, e levitava em câmera lenta diante de seus olhos, como plumas à brisa, sobre o primeiro segmento da estrada de rípio, atingiram Punta Bermeja, para apreciar os primeiros lobos marinhos em suas vidas. Que têm primos maiores, chamados leões, e que são todos muito belos, mas de pouca conversa, logo mostrando suas presas afiadas e amareladas de maresia, sal e tanto peixe, e prontos para o ataque. E têm toda razão: não têm nada a ganhar com essas fotos, todas, tiradas às suas custas, mas tudo a perder com a importunação de sua siesta ao sol, que por ali é disputado a rosnaduras e mordidas; de tão infrequente.

E então se descortinou Bahia Creek - paisagem escarpada com praias desertas, de areia negra, vulcânica, feito refúgio que incitava ao recolhimento contemplativo. 

No horizonte, o dia já sangrava em texturas alaranjadas e purpúreas que, refletidas pela superfície das águas, faziam do mar a casa dos espelhos gelatinosos e ondeantes. 

Vento áspero varria a praia, levantando areia em espirais de furta-cores. 

Ela se acocorara, buscando proteção ao lado de um arbusto, que tanto tremia, dando sentido literal àquele provérbio da vara verde. Tiritando sob as rajadas de vento, tirou a roupa. Era o primeiro nu feminino, dela. E dele! 


Silente, os olhos pregados naquele mar de prata e sangue, ela não percebia que sobre seu seios serpenteavam os pincéis do crepúsculo. Tinha aquele abandono de Vera Broido nas fotos de Raoul Haussmann. E ele sentiu-se enternecido. 




Quando o vento foi se tornando gélido e o mar, mais negro, agasalharam-se com beijos de hálito quente e seguiram para San Antonio. Mas seus pensamentos estavam em Cármen - Cármen de Patagones.

Em parte, isso soa a imaginação, um devaneio incitado por aquela paisagem primeva e metálica, cuja beleza excessiva fazia doer os olhos. Mas só em parte.

Só muitos anos depois descobri a crônica de Roberto Arlt.
E quando a li, senti imenso remorso.
Arrependimento por tê-la atravessado com tanta pressa.
Então decidi-me: voltaria a Cármen!
Para rebobinar o filme e esperar o dia esvair-se em novo crepúsculo. 
Nos braços daquela que disse, "contigo me me voy hasta el fin del mundo".


Um comentário: