17 dezembro 2015

Frederico Füllgraf - A história perversa do biquini

Mosaico Dieci Ragazze, Villa Romana del Casale, Sicília - séc. III DC


Ensaio

Um ano depois do silêncio das armas da II Guerra Mundial, Louis Reard, estilista francês, teve o que a infiltração anglicizante do nosso vernáculo chama de insight: lançaria uma peça de vestuário de encher os olhos com as prendas do corpo feminino: curvas, saliências, altiplanos e vales, preservando, s´il vous plais!, as fagueiras e vaporosas vergonhas venusinas. 

Discreto, passou madrugadas em vigília, desenhando maquetes de seu invento revolucionário, mas sentiu que lhe faltava um nome forte com apelo exótico. Eis que, em julho de 1946, faltando quatro dias para o lançamento da nova criação, explodem as bombas atômicas “Baker” e “Abel” no Atol de Bikini, centro do Pacífico Sul, e de bandeja os EUA oferecem a Reard o nome que rasgaria a boca do balão, do jeito que as bombas tinham rasgado ao meio o atol – la mode du terreur!

A aventura nuclear de Antony Guarisco

Deparei-me com esta estória intrigante anos atrás, durante a pesquisa para o roteiro do telefilme Burning Sand, para o qual tinha entrevistado em Nova York, Antony Guarisco, marine norte-americano durante os testesa nucleares no Pacífico, que em 1987 liderava o movimento nacional dos Atomic Veterans. 

Desde a década dos anos 70, estes soldados reclamavam reparações dos sucessivos governos em Washington - reparações pela morte de aprox. 200 mil veteranos que participaram dos testes nucleares entre as décadas de 1940 e 1960, porque tinham sido enganados pelas autoridades, forçados a assinar “salvo-condutos”, cheques em branco, isentando o Pentágono de “todas e quaisquer responsabilidades por eventuais danos à saúde”. A malícia infernal já estava subentendida na própria declaração, mas os rapazes assinaram; alguns por patriotismo, outros por ingenuidade, outros ainda por esdruxularias equivalentes.
42 mil marines norte-americanos usados e irradiados como ratos de laboratório
durante os testes no Pacífico
A sound of frying eggs was in the air and for minutes I could see my own 
bones trough the flesh of my hands.. – um som de ovos fritos crispava o ar 
e por minutos pude ver meus próprios ossos através da carne da minha mão …” 

 
Campanha por reparações: Antony Guarisco diante 
da Corte Internacional de Justiça, Haia.

Quando conheci Guarisco, ele já se arrastava pelos corredores do hotel apoiado numa bengala, os ossos triturados pela doença terminal que matara a maioria de seus camaradas. Impossível esquecer sua frase dirigida para a câmera, com seu testemunho sobre a explosão da bomba Baker, no atol de Bikini: “A sound of frying eggs was in the air and for minutes I could see my own bones trough the flesh of my hands.. – um som de ovos fritos crispava o ar e por minutos pude ver meus próprios ossos através da carne da minha mão …”. 

Um dos navios que se vê ao largo, literalmente foi aos ares, por segundos suspenso no céu, devido à onda de pressão da explosão da bomba, detonada 30 m abaixo da superfície da água.

A cena de terror fora vivida por Guarisco e seus companheiros numa praia do Atol de Bikini, sem proteção física alguma contra o “grande raio-X”, o eclipse da luz e das trevas. O objetivo da missão era “testar as condições de combate da tropa após um ataque nuclear soviético" (sic!)

Ficção? História, e das escalafriantes! 

Nunca mais vi Guarisco. Há poucos anos liguei para sua esposa e soube que ele tinha morrido de leucemia.

Revisionismo atômico

O filme, com financiamento inicial do Film Office Hamburg e roteiro premiado pela finada Embrafilme, baseado em meu livro A bomba pacífica (Brasiliense, 1988), há anos aguarda conclusão, porque a Fundação do Cinema Brasileiro pagou apenas a primeira parcela do contrato e literalmente afundou em 1989. Depois, a Guerra Fria deixava de ser fashion, as usinas nucleares e seus gêmeos siameses, as bombas, também atômicas, caíram em desuso em escala global, e a estória do filme mofa no limbo. Mas talvez o projeto seja salvo pelo gongo da História, melhor: por sua versão Bonapartista, aquela, cuja repetição Marx tão espirituosamente chamou de farsa. É que o fogo fátuo da Guerra Fria se reacende com a desconfiança ocidental do programa nuclear do Irã (o de Israel obviamente é tabu), mas também porque, atento às graves alterações climáticas e a desesperada busca por fontes geradoras de energia de baixo impacto ambiental, um poderoso lobby (l´escroquerie nucleaire, como diz um amigo gallo-romano) arma esperto revisionismo histórico dos perigos das instalações nucleares, agora vendidas ao distinto público como “as menos poluentes e mais seguras”.

Esse revisionismo fez a cabeça de nosso ex-timoneiro, Luis Inácio Lula da Silva, e sua então Ministra da Energia, hoje sua sucessora plenipotenciária. Como é sabido, aprovou-se a conclusão de Angra-3 e a construção de outras seis usinas nucleares. Dizem línguas afiadas que o Brasil precisa de assento no Conselho de Segurança da ONU, onde meras usinas nucleares rimam com bombas. Mas, o que interessa aqui, é que das seis usinas planejadas, duas ou três operarão no litoral do Nordeste – cujas praias badaladas nos remetem novamente à iluminação de Louis Reard.

Relação macabra

Nos anos 1950, a relação macabra entre a fonte inspiradora e o trapinho homônimo – a bomba e o biquíni – repercutiu desfavoravelmente para Reard. Mas argumentando pela tangente, ele afirmou que havia emprestado o nome do sumário traje de banho ao atol, e não à bomba. A verdade é que ele tirou enorme vantagem dos testes com a arma terminal, cuja devastação parecia pescar no inconsciente coletivo fantasias associadas ao imperativo histórico de uma urgente devastação da moral vitoriana. Com a reprodução em algodão, de fac-símiles da cobertura de imprensa sobre os testes nucleares, Reard promoveu um marketing literalmente bombástico.

 
 
Acima, à direita, Louis Reard; à esquerda, Brigittte Bardot;
embaixo, fio dental: a deserotização pelo escancaramento

Mas o inventor do biquíni necessitava de um trunfo adicional, pois outro francês, Jacques Heim, havia chegado às passarelas com uma criação semelhante – a do maiô partido em dois, assumidamente batizado de “L’atome”. Reard contra-atacou, promovendo seu biquíni como “o traje menor que o mundialmente menor dos trajes”, e ganhou a guerra dos nomes e das torcidas. 

Se Reard conhecia o mosaico Villa Romana del Casale, apropriou-se da fonte de inspiração sem jamais revelá-la, porque o biquíni de fato não foi sua invenção: o traje já era usado pelas moças sicilianas no séc. III DC.



Economia e libido

Contudo, garimpadas nas lixeiras da História as segundas intenções, eis que uma insólita explicação econômica parece varrer todo o encanto, substituindo nossas fantasias por fatos da fria economia. 

O pano de fundo histórico do biquíni, que aqui funciona como perfeito trocadilho, foi a falta de pano para a confecção de fundilhos. 

Em 1943, em plena II Guerra Mundial, o governo norte-americano obrigou a indústria têxtil ao racionamento de matérias-primas, provocando a redução de 10 por cento de algodão na confecção de trajes de banho femininos. 

O resultado desta operação militar foi uma espécie de “ventre livre” patriótico para o corpo feminino, e foi Reard quem lhe daria a forma no Velho Continente. Sua inovação mercadológica consistiu em reduzir o traje para 30 polegadas de malha, desmembradas em bustier top e um triângulo invertido, down, conectados por um cordão. O biquíni de Reard era tão sumário para a moral da época, que nenhuma modelo parisiense ousou subir à passarela.

Nos EUA, certa “Liga pela Decência” pressionou os produtores de Hollywood para banir o biquíni das telas. Porta-vozes da cruzada vitoriana questionaram a reputação das moças convertidas à moda, afirmando que “o biquíni revela tudo no corpo de uma mulher, menos o nome da mãe dela “. Como eram amáveis as madames 

Impávido, Reard manteve a classe e a ousadia a serviço do marketing, contratando Micheline Bernardini, em cuja cabeça e corpo o biquíni caiu como uma luva, pois atuava como dançarina de nus no Cassino de Paris: após uma sessão de fotos dela em poses reclinantes, a imprensa ajoelhou-se diante dela, embasbacada, e a musa foi soterrada sob uma avalanche de 50 mil cartas de fãs ensandecida/os.

Mas la Bernardini não foi capaz de impor a capitulação aos vitorianos EUA. Desesperado, melhor: de olho grande no mercado yankee, Reard incorporou a carta do eremita do tarô, e teve seu segundo insight: uma femme fatale mal conhecida por “BB”- a estreante Brigitte Bardot. 

Deslocou para o campo de batalha sua mal disfarçada inocência de "E Deus fez a mulher", acentuada pelo trapinho, et voilá! 

O biquíni precisava de curvas para ser valorizado, e BB impôs a queda das últimas barricadas norte-americanas. Entrava em cena em Hollywood o vitorioso trapo que matava a cobra e escondia o… principal. 

Das passarelas para a tela e o vinil, foi um passo. O biquíni foi cantado em prosa e verso, imortalizado no rock de Brian Hyland, do final dos anos 50, “Itsy-Bitsy-Teenie-Weenie/Yellow-Polka-Dot Bikini”.

A empresa de Reard conseguiu manter-se no mercado até 1988. Uma versão sobre os motivos de seu fechamento insinua que Reard perdera a guerra pela miniaturização para o fio-dental brasileiro; aberração, vingança dos inventivos trópicos e golpe fatal nos planos do estilista.

Cinqüenta anos depois é oportuno indagar se a vinculação proposital do maiô partido em dois com a arma de extermínio em massa, não abriga códigos de significados convergentes. 

O primeiro deles é a “onda Shumpeteriana”: em conjunturas de abertura democrática e crescimento econômico, a moda (e a libido) abre-se, liberando o corpo do “supérfluo” (no inconsciente coletivo pós-guerra, masculino, era enorme a demanda pela “abertura do pano” sobre o corpo feminino). 

O segundo, é seu significante profundamente pós-moderno: a visão de Reard é a alegoria do êxtase ilimitado, cujo pêndulo sempre oscila entre Eros e Tanatos, entre o prazer e a morte – o signo marcante de toda a cultura iconográfica e moda militarizadas e ferozmente midiatizadas neste início de Terceiro Milênio.

Por fim, uma pitada de pimenta tupiniquim: as bombas atômicas norte-americanas lançadas sobre o paradisíaco atol de Polinésia – imortalizado nos quadros de Paul Gauguin – foram construídas, durante e depois da 2ª Guerra Mundial, com matéria-prima brasileira: milhões de toneladas de areia monazítica, contendo urânio e tório, das praias de Guarapari, no Espírito Santo, Mãe Ubá e outros costões do sul nordestino. Quem aguardar o filme, verá.

 
(Ilustrações: Bikini Atoll.com; Villa Romana del Casale)
Recomendado:
BIKINIS AND BOMBS A Senior Project Exhibition, 
The Library Art Gallery at the Florida Gulf Coast University

04 novembro 2015

Frederico Füllgraf - Muro de Berlim: o ato falho que o derrubou



Crônica


Berlim, primavera de 1989.


De passagem pela cidade onde havia feito a faculdade, me formado e residido durante dez anos de minha vida, em companhia de Leticia Vota, minha então namorada, celebrei o 1º. de Maio junto à colorida multidão convocada pela central sindical DGB aos gramados do antigo Reichstag, naquela oportunidade ainda funcionando como museu, colado ao Muro. 

Atrás dele, nos saudava o Portal de Brandenburgo, com suas colunas dóricas, em réplica neoclássica, solidamente fincadas em solo da RDA – a República Democrática Alemã, como era conhecida oficialmente a Alemanha Oriental. 

No lugar da quadriga, greco-romana, que a encimava desde seus primórdios, a bandeira da RDA, e outra, com o vermelho-sangue da utopia, tremulavam alegremente sob um céu de brigadeiro.

O Muro

Onde nos encontrávamos, a Avenida 17 de Junho, de Berlim Ocidental – que na verdade começa na Praça Theodor Heuss, com o nome de Bismarck Strasse, em seguida mudando para Kaiserdamm, e que até o fim da Segunda Guerra Mundial, mas só depois da Ernst Reuter Platz, se chamava Charlottenburger - ali, pois, a interminável avenida, rebatizada de 17 de Junho – mais uma vez desviada pelo Obelisco da Vitória, que entrou para a história do Cinema com o anjo coruscante eternizado em “Asas do desejo”, de Wim Wenders - era contida por um muro com três metros de altura, sobrecabado com tubos cem por cento esféricos para impedir que mãos o agarrassem. 

Depois desse primeiro muro estava um corredor, chamado Niemandsland – literalmente “terra de ninguém”, também conhecida por “corredor da morte”, com a largura de uma rua estreita, por onde circulavam as patrulhas motorizadas da RDA. Por sua vez, o acesso à terra de ninguém era protegida por uma barreira de obstáculos antitanque, fundidos em aço e cruzados em “x”. E atrás (ou dependendo do ponto de vista, em sentido oeste: à frente) deles, outro muro com medidas comparáveis ao primeiro. 

Uma “linha Maginot” com seus 80 metros de espessura e armada até os dentes – eis a compleição de um “muro”, que muita gente imaginava ser aquele tapume furado dos velhos estádios de futebol brasileiros.

Nesta geografia de Guerra Fria, o Portal de Brandenburgo se situava em “terra de ninguém”, uma ironia que vai se explicar seis meses mais tarde. 

"Tudo o que é sólido se desmancha no ar"

Erguido em agosto de 1961, para proteger a RDA da infiltração pelo fascismo e do assalto pelo imperialismo (aqui explicando que jargões oficiais nunca usam aspas), do outro lado do muro a grande avenida, cortada, retomava seu curso, atravessando boa parte do antigo centro histórico, até a Alexanderplatz, com seu nome original: Unter den Linden. 

Foi ali perto e naquela mesma manhã de 1º. de Maio, que na Karl-Marx-Allee (alameda que os camaradas, depois arrependidos, em 1945 haviam batizado de Josef-Stalin-Allee), um amigo - então Secretário da Agricultura do Paraná e marxista in petto – presenciava a versão de um 1º. de Maio que todo esquerdista que se preze sempre sonhara em passar em revista: a marcha da classe operária, sua juventude vestindo o azul da fidelidade, seguidos pelos Kampfgruppen – unidades paramilitares de defesa das fábricas - tudo coroado pelo desfile das forças armadas de defesa do socialismo. Mas - just in case! - com uma retaguarda de 400 mil soldados soviéticos acantonados nos velhos quartéis nazistas da hinterland da ex-capital do Reich.

Assim me descreveu a apoteose o amigo deleitado, e eu citei seu ingênuo fascínio numa reportagem para o Caderno B do Jornal do Brasil, com uma licença poética maldosamente emprestada do livro de Marshall Bermann: “Tudo o que é sólido, se desmancha no ar” (na verdade uma ironia de Karl Marx, usada por Berman para vender seu livro). 

O que o amigo e eu não sabíamos, é que naqueles dias o povo da RDA já fazia reuniões de protesto nas igrejas do país, o caldo começando a engrossar. Mas se alguém naquele 1º. de Maio do lado ocidental me perguntasse, se o Muro fora construído para ficar, eu teria respondido que sim, apesar de não acreditar na eternidade, 

Verão de 1989: o SED e as fugas em massa da RDA


Detalhe geralmente ofuscado pelo frenesi na cobertura sobre a queda do Muro, é que no verão de 1989 em torno de 100 mil alemães orientais em férias nos países do Leste, não queriam mais retornar, buscando asilo nas embaixadas da Alemanha Ocidental na Tchecoslováquia, Bulgária e Hungria. Milhares, ao alcançarem a fronteira da Hungria com a Áustria, simplesmente ignoraram as barreiras da fronteira, desembestando Áustria adentro; os guardas húngaros apenas bocejando de tédio. 

Esse era o pano de fundo de uma reunião de emergência do Comitê Central (CC) do SED, que decidira liberar viagens aos cidadãos da RDA para qualquer país do mundo. A pedido do CC, a autorização fora redigida por oficiais do ministério do Interior e do serviço de espionagem Stasi, a famigerada “polícia de segurança do Estado”. Aprovadas em brancas nuvens, diante dos “fósseis” da velha guarda, Egon Krenz - o novo czar do partido, que um mês antes destronara Erich Honnecker e a velha guarda do partido, com um golpe de mestre há muito programado - pediu que Schabowski divulgasse as novas revolucionárias na coletiva à imprensa internacional, programada para o final da reunião.

A cartada de Krenz era subliminar: a dívida externa do país beirava os 25 bilhões de dólares e a Economia da RDA estava há muito pendurada no soro da odiada Alemanha Ocidental. Com a liberação das viagens, Krenz pretendia aliviar a pressão popular, sobretudo ganhar tempo, salvar a RDA do mergulho no abismo.

O ato falho de Günter Schabowski que derrubou o Muro


Mas o que acontece, então? 

Estória virtualmente desconhecida no exterior, e até há pouco tempo mal contada, o Muro de Berlim caiu como efeito-dominó, numa cadeia de conspirações, armações, mas também de um imprevisto. 

Quando Schabowski, mais tropeçando no texto do que realmente lendo o bilhete que resumia as deliberações do CC sobre a permissão de viagens, para a imprensa internacional, subitamente o jornalista Ricardo Ehrman, correspondente da agência italiana, ANSA, o interpela, perguntando (veja o vídeo ao final do presente texto!): - Já está valendo a permissão?

- Perdão? - replica Schaboswki, e quando Ehrmann repete a pergunta, insistindo qual o prazo para a entrada em vigor das novas medidas, Schabowski procura a resposta no bilhete, e não a encontrando, responde: “Olha....que eu saiba, é pra já!”. 

Foi a bomba! 

Mas de seu efeito Schaboswki apenas tomaria conhecimento em casa, acomodado diante da TV, onde assistia, atônito, ao assalto e à abertura do Muro, depois que a população havia recebido a notícia pelas TVs ocidentais.

Eram pouco mais de nove horas da noite, e a notícia tinha se espalhado aos quatro ventos.

Sacudido por telefonemas, reclamações e ameaças, foi quando Schabowski se dá conta da tremenda burrada que cometera, porque o bilhete levava um aviso explícito: “Divulgação vetada até às 4 da manhã de 10 de novembro de 1989”. 

Schabowski simplesmente atropelara a instrução, provocando a corrida ao Muro.

Ato falho ou armação?

Rosto crispado, em uma entrevista gravada um ano após a queda do Muro, Günter Schabowski admite que recorrera a um psicólogo para tentar explicar (-se), o que lhe tinha dado nos miolos naquele final de tarde de 9 de novembro de 1989. Nesta altura já expulso do SED, e vagueando desempregado pelas ruas da Berlim, sem muro, diz, sem vergonha alguma: “Vá saber, talvez foi mesmo um ato falho, porque um regime daqueles não merecia outro desfecho”. 

Hoje, o comunista de carteirinha Günter Schabowski é filiado ao CDU - o partido democrata-cristão, conservador, de sua ex-arqui-inimiga na RDA, a Chanceler Angela Merkel. 

Vinte anos depois, novos fatos sobre aquele fatídico e delirante 9 de novembro de 1989 emergem dos bastidores da História. 

Um deles é que o jornalista Ricardo Ehrman foi efetivamente “cutucado” por Günter Pötschke a interpelar Schabowski. Pötschke, que não pode mais confirmar o lance, porque morreu recentemente, era editor-chefe da agência oficial ADN, da RDA, e também membro do comitê central do SED. 

Uma cópia do bilhete que resumia as novas instruções de liberação de viagens descansava sobre o tampo de sua escrivaninha, mas também vetada para divulgação antes das 10 da manhã do dia 10 de novembro. Sendo velho conhecido de Ehrman, Pötschke o encorajou para furar o bloqueio noticioso, com isso abrindo espaço para sua própria divulgação.


Outro exemplo. Uma equipe de TV da Alemanha Ocidental, não identificada, mas a serviço do canal a cabo da revista Der Spiegel, embrenhara-se “território adentro”, em Berlim Oriental, tomando conhecimento da notícia dada por Schabowski, num boteco do bairro rebelde de Prenzlauer Berg. E “seguindo o povo, para onde o povo vai”, subvertem aquela máxima do partido, os documentaristas captando cenas dignas de um Moisés dividindo ao meio as águas do mar bravio, para dar passagem ao povo escolhido: no posto Bornholmer Strasse, de entrada (mas nunca de saída) da RDA, a multidão já se aglomerava, cobrando em coros altissonoros “Wir wollen raus!” (Queremos sair!) e “Macht auf das Tor”! (Abram os portões!). 

E diante da câmera deslinda-se a História.


Com movimentos ainda imperceptíveis na guarita de controles, oficiais das tropas de fronteira e da temível Stasi estão confusos. Ligam para seus superiores, que não conseguem dar-lhes instruções objetivas, porque não estão menos desnorteados. 

Sentindo-se protegida pela presença da mídia ocidental, a massa começa a levantar o tom de voz, o caldo atingindo o ponto de fervura. É quando entra em cena outro “traidor” daquela noite: Tenente-Coronel Harald Jäger, da Stasi, que reúne os subordinados em sua sala, para calçar-se na decisão que vai tomar. Vinte anos depois, diz em entrevista: - Eu queria saber deles, o que deveria fazer. E eles responderam: ´Você é que tem que saber, ora essa, o chefe é você! E eu respondo: ´Devo permitir que os cidadãos da RDA saiam? Ou devo abrir fogo? – pelo amor de Deus!” (...) Depois pensei: "já encheu o saco, agora vou agir por conta própria."


E Jäger toma sua decisão, sozinho, sem ordens superiores: manda erguer a cancela, melhor: a eclusa – e sem qualquer controle a torrente humana desembesta rumo a Berlim Ocidental.

 Naquele momento, diz Stefan Aust, diretor do documentário, com o Muro cai também a RDA, e desfaz-se em frangalhos um sistema autoritário que reinava de Berlim a Moscou, de Vilna a Bucareste, declarando página virada da História aquela ordem mundial, obsoleta, do pós-guerra – instante histórico em que, quarenta e quatro anos após o silêncio das armas, a 2a. Guerra Mundial termina de fato.


Centro de uma trama até hoje só parcialmente explicada, Schabowski e seu bilhete ganharam a aura do mitológico. 

Schabowski sabia mesmo o que estava lendo para os jornalistas? E os jornalistas: quantos tinham aceitado fazer perguntas previamente combinadas? Um baralho marcado para atropelar a “turma” de Egon Krenz, recém-chegada ao poder? Por acaso Schabowski tentou jogar seu próprio jogo, entrando para a História como o herói que detonou o Muro? E se Krenz sabia do bloqueio da notícia até as 4 da manhã - por que insistiu em divulgá-la? Aquilo, tudo, foi mero “acaso”, ou uma traição coletiva do inconsciente também coletivo?


No dia 4 de novembro de 1989, cinco dias antes da queda do Muro, o dramaturgo Heiner Müller tinha discursado na enorme manifestação da oposição, que levara meio milhão de pessoas ao centro de Berlim Oriental - finalmente tinha tomado partido!

Mas ao escolher a leitura dramática de “A missão”, para celebrar à sua maneira o 1o. aniversário da queda do Muro, Müller estava interessado em discutir o lado trash, a nota de rodapé verdadeiramente esdrúxula, hilariante, da História. 

Personagem central da peça “A missão”, Dubuisson é enviado ao Caribe para exportar a revolução de 1789. Mas quando seu barco se aproxima da costa exuberante, bordejada por aquele mar cor de esmeralda, Dubuisson, que também é dono de engenho de açúcar e de escravos africanos, muda de idéia; perpetuando-se como novo governador da ilha. Daí a frase corrosiva de Muller: “Onde a paisagem é bonita, espreita a traição!”.


Como paisagem bonita, o cartão-postal coruscante de um “supermercado” chamado Berlim Ocidental certamente exerceu fascínio inconfessável em não poucos camaradas da liderança da RDA. A ironia dessa noite, já na Kurfürstendamm – a rebrilhosa Champs Elisées prussiana – é que os orientais não correram atrás das roupas de griffe, mas das ordinárias bananas da marca Chiquita. Para Muller e outros, prova ilustrativa de que a fome dos orientais era por uma sórdida “República de Bananas” (algumas pessoas não gostaram da comparação).

O bilhete de Schabowski

O ato falho de Sahabowski



Fotos: divulgação

22 outubro 2015

Manoel de Andrade: UMA NOITE EM MACHU PICCHU





Na memória de Cusco

A cidade de Cusco ficou na memória dos meus anos. Milenar e sagrada, reservada e cosmopolita, a cidade engastada qual uma concha geológica num rico vale entre montanhas de mais de três mil metros, foi a capital de um reino que durou trezentos anos, e cujas obras foram construídas para a eternidade. Pachacútec, Túpac Yupanqui e Waina Cápac marcam a glória de um século em que o império se estendeu da Colômbia até as fronteiras meridionais com o Chile e a Argentina, abarcando parte da selva amazônica, numa extensão maior do que o império romano. Cusco era a capital desse colosso territorial, o ventre da pátria peruana e o berço da sua infância nacional. Era a cidade viril, máscula, monumental. Quando Lima nasceu, parida pela estratégia, a ambição e a vaidade espanhola, representava a imagem da cidade feminina, moldada pelos caprichos e a sensualidade dos conquistadores. Cusco, encravada nas alturas, simbolizava a resistência, o palco espartano das grandes batalhas, a imagem rebelde de dois comandantes: Túpac Amaru I e Túpac Amaru II, ambos ali martirizados, em 1572 e 1781, respectivamente.

Aquí unificó pueblos y enseñó técnicas Manco Cápac, personaje escapado de la leyenda que puso los cimientos del más grande imperio de la América india.  En Cusco nació y vivió “el más grande hombre que há producido la raza aborigen americana” a decir de Markham, refiriéndose al “transformador del mundo” a Pachacútec. En esta cuidad se aposentaron los Pizarro y los Almagro y varios de ellos dejaron sus huesos. Aquí también sucumbió el incanato con el asesinato “legal” de Túpac Amaru en 1572 bajo la mirada del duro virrey Toledo. Aquí nació la idea y la lucha independentista peruana con Manco Inca que levantó al Perú contra los españoles en 1536, y con José Gabriel Túpac Amaru en 1780.  En Cusco se gestó la idea y se organizó la expedición que descubrió Chile, jefaturada por Almagro “el viejo”, (…); en Cusco se organizó la expedición de Pedro de Valdivia para colonizar Chile; en esta ciudad se organizó la expedición que partió hacia Quito y luego el País de la Canela, descubriendo el Amazonas; (…) La ciudad aclamó a Simón Bolívar después de la batalla de Ayacucho.”[1]

Parecia inacreditável estar finalmente em Cusco, a cidade atemporal e histórica, lendária e real, fundada por Manco Cápac há mil anos, capital de um império teocrático, cuja misteriosa origem pairava em cada vestígio do tempo, no espírito da cultura, sobrevivendo nos monumentos portentosos, nas imensas pedras lavradas, adornando os grandes portais, pátios e arcadas. Depois chegaram os “deuses” da Espanha, violentando seus santuários e abrindo seu relicário de artes sagradas, construindo a catedral majestosa com seus dois campanários, dominando toda a praça adornada internamente com a simbologia da fé cristã. As demais igrejas, os altares dourados, o esplendor dos vitrais da Igreja da Companhia, o Convento de Santo Domingo, construído e reconstruído, depois do terremoto de 1950, sobre as ruínas de  Corikancha, o Templo do Sol. Eu agora estava ali, no “umbigo” do mundo, refletindo a glória do período de Pachacútec, seu filho Túpac Yupanki e a extensão do imenso império, depois da grande vitória de Yahuarpampa sobre os Chancas e a anexação do Reino Chimú. Um lustro de esplendor, domínio e conciliação de tantas tribos. Cusco era a capital sagrada de um mundo construído ao longo de cinco mil quilômetros de montanhas e tudo ali, para mim, era magia, um poder sagrado encravado na paisagem imóvel e eloquente da cidade, pronunciada pelo tempo como a mais antiga da América e espiritualmente envolvida por uma secreta religiosidade vinda não da religião dogmática dos conquistadores, mas do passado panteísta do Tawatinsuyo, onde o céu e a terra são representados na cosmovisão inca da Pachamama, a Mãe Terra, e onde a política e a religião, o templo e o palácio, o Sol e o Inca se identificavam no mesmo sentimento, na mesma fé e na mesma submissão. Para o habitante do Império, a religiosidade era vivenciada, diária e incondicionalmente, na sua ética e na sua conduta social, muito mais voltadas para o sentido agrário e material da vida, do que para qualquer forma de transcendência. Mariátegui [2] que penetrou, com precocidade histórica e, também, com  genial precocidade intelectual, no âmago cultural do problema indígena peruano afirma, ao analisar o Fator Religioso que:

 “O povo incaico ignorou toda a separação entre a religião e a política, toda diferença entre Estado e Igreja. Todas  suas instituições, como todas suas crenças, coincidiam estritamente com sua economia de povo agrícola e com seu espírito de povo sedentário. A teocracia apoiava-se sobre o comum e o empírico; não na virtude taumatúrgica de um profeta nem de seu verbo. A religião era o Estado.” [3].

Machu Picchu. “Acreditará alguém no que encontrei?

Dia 29 de outubro dce 1969, saí de viagem para Machu Picchu. O trem correu a manhã inteira pelo Vale Sagrado, ziguezagueando, sempre subindo, passando por regiões agrícolas, pomares, mostrando os frutos negros do capuli, vales povoados de lhamas, salgueiros debruçados sobre os cursos de água, altas encostas rochosas, o estreito caminho beirando os precipícios, assustadoras gargantas, corredeiras.  Depois..., a descida para o vale do Vilcanota e a exuberante vegetação que já anuncia a flora amazônica. No decorrer da viagem viam-se caminhos e trilhas abandonadas, onde corriam, séculos atrás, os chasquis, os mensageiros do correio inca que atravessavam todo o império, do sul da Colômbia até o norte da Argentina.  A dois terços do caminho passamos pelas ruínas da Fortaleza de Ollantaytambo e chegamos a Águas Calientes, onde todos descem para almoçar e comprar lanches e onde desembarcam quase todos os indígenas. Poucos quilômetros adiante, por volta de treze horas, o trem chegouem Machu Picchu, com uns trinta turistas. Tudo era muito precário. Pagava-se uma pequena taxa e subia-se uma longa e empinada escadaria até o plano das ruínas, onde um jovem recebia o boleto num pequeno portão de entrada, dizendo que a visita se encerraria às dezessete horas. Não havia guia para explicar a disposição dos monumentos, mas eu trazia de Cusco alguns postais legendados e um folheto explicativo. Os passageiros de Cusco, e alguns mochileiros que haviam embarcado em Ollantaytambo, espalharam-se pelas ruínas da entrada. Juntei-me a três mochileiros argentinos e um deles já conhecia o local. Era emocionante dar os primeiros passos em Machu Picchu, “o grande pico” e começamos perambulando pelas ruínas da entrada, seguimos para a íngreme subida do Wayna Picchu numa cansativa caminhada de  uma hora, por uma difícil trilha de pedras. A recompensa estava lá, nas alturas: uma visão deslumbrante de toda a paisagem montanhosa e dentro dela a visão lá embaixo, distante e completa, das  ruínas da Cidade Sagrada, sobre o dorso planificado da montanha. Hoje, na distância de quatro décadas e com outras visões do mundo, posso dizer que foi o que de mais deslumbrante entrou pelos meus olhos. O historiador Arnold Toynbee, que no início de 1956 passou pela região em sua viagem em torno do mundo, conta, em seu livro De Leste a Oeste, do seu espanto ao chegar em Machu Picchu. Sobre “o pequeno pico” diz ele:

Wayna Picchu! Ele se ergue para o céu como a agulha da torre de uma catedral gigantesca. E a cidade pousada entre os dois picos equipara-se em grandeza ao seu ambiente natural, embora o supere em mistério. Jamais atingida pelos conquistadores espanhóis do Império Inca, ela foi posta a nu por um explorador norte-americano, Hiram Bingham. Este irrompeu através da selva que protegia a cidade e trouxe-a  para a luz como uma bela adormecida.” [4].

Depois descemos o Wayna Picchu e entramos por um desvio aonde se chega ao pequeno Templo da Lua. Lá pelas quatro e meia da tarde muitos já saíam para pegar o trem. Mas eu  decidi me ocultar para  passar a noite dormindo nas ruínas.

Guardo muitas lembranças que me encheram os olhos nas paisagens dos caminhos: Canyons gigantescos, precipícios profundos, altas passagens no centro-sul dos Andes, densas florestas, verdes vales cultivados, as travessias do Atacama e do Chaco paraguaio, baías deslumbrantes, rios imensos, lagos escondidos na intimidade das montanhas e a visão inesquecível do Titicaca. Mas Machu Picchu era magicamente diferente. Tudo ali era solene e sagrado. Circundada pelo rio Vilcanota, cujas águas ligeiras correm em torno dos picos de Machu Picchu e Huayna Picchu e cercado de altas montanhas, a cidade é única em majestade, isolamento e beleza. “Acreditará alguém no que encontrei?”, foi com essa frase que o antropólogo Hiram Bingham registrou seu espanto, no livro “A Cidade Perdida dos Incas”, ao descobrir as ruínas de Machu Picchu, em 24 de julho de 1911.

Minha noite solitária em Machu Picchu

No fim da tarde, quando o trem já havia partido, apareceram outros mochileiros, descendo apressados do Wayna Picchu e me disseram que iam acampar lá embaixo. Perguntaram se eu não iria descer, porque era proibido ficar à noite entre as ruínas. Depois disso, eu me encaminhei para a parte alta da entrada, onde ficava o local das moradias. Abri minha mochila, escrevi no meu diário e quando a penumbra invadiu o ambiente, estendi meu saco de dormir no canto de uma peça, para ali passar a noite. Era primavera e estava fresco, quase frio a2.400 metros de altitude. E ali estive muito tempo, envolvido pelo entardecer e debruçado sobre a parte baixa das paredes do meu “aposento”, olhando o perfil das montanhas, a silhueta vertical do Wayna Picchu. Sentia que algo faltava no meu íntimo e o que faltava era a ansiada experiência da noite que me propus passar na solidão das ruínas. Ali fiquei, esperando que a lua aparecesse. Guimarães Rosa escreveu que: “esperar é reconhecer-se incompleto”. E era assim que minha expectativa fazia-me sentir: incompleto, perante a expectativa daquela experiência noturna em Machu Picchu e incompleto até hoje, porque o conhecimento, quanto maior, mostra-nos que muito maior se torna a consciência do que ignoramos. As primeiras estrelas que surgiam e toda aquela paisagem noturna passava a ser só minha e parecia existir somente pela minha consciência sobre ela. Lembro-me que havia uma passagem no romanceA Náusea, de Jean Paul Sartre em que o personagem -- Antoine Roquetin  -- estava sentado diante de um amplo vale e achava que tudo aquilo somente existia pela sua consciência e que se aparecesse outra pessoa tomando consciência do ambiente, a paisagem já não era só sua. Bem, era assim que eu me sentia, porque sabia que estava absolutamente sozinho naquele lugar fantástico. A lua surgiu, iluminando a vaga escuridão e uma onda de mistério começou a rondar minha mente.

Imaginava como teria sido a vida dos habitantes que ali viveram nos dias doTawatinsuyo. A sua anímica religiosidade povoada de deuses, os rituais sagrados, as cerimônias no Templo do Sol e da Lua. Ali tudo se pronunciava em silêncio: as ruas, as praças, as escadarias, o caminho que levava ao Wayna Picchu. Ali tudo era uma “saudade de pedra”, embora não fosse o cais a que se referiu Fernando Pessoa em sua Ode Marítima. A memória histórica de tantos fatos era conduzida por minha excessiva imaginação e algo estranho me acontecia aquela noite. Era como se minhas evocações mentais abrissem uma sintonia com outro plano de pensamento.

Eu era, naquela época, um incrédulo, com uma visão materialista do mundo e a vaga noção de transcendência vinha dos diálogos de Platão, de Fédon, sobretudo, do conceito socrático de imortalidade e do mundo platônico das ideias. E me perguntava se a minha consciência era a única presença mental naquele espaço. Ou haveria um ambiente paralelo, um outro plano, ou seja, se por trás da realidade objetiva e da nossa limitada visualidade, haveria o que alguns filósofos chamaram de um mundo fantasma de percepções, ou de energias distintas, como estabeleceu a ciência nas muitas faixas de ondas no espectro eletromagnético!? [5] Haveria uma Machu Picchu invisível, uma Cidade Sagrada paralela, nas ruínas de um plano astral, com presenças espirituais ao meu lado? Quem sabe as almas dos que ali viveram no passado ou talvez o espírito protetor e “ciumento” do Imperador Pachacútec[6] --- que, em 1452, colocara a primeira pedra e convocara o arquiteto Apomayta para construir Machu Picchu, fundada com o nome mítico de Huiñaymarca (Cidade Eterna) e que depois, estrategicamente, passou a denominar-se Vitcos, para iludir a ganância dos espanhóis na sua busca do El Dourado. Onde estariam as almas das duzentas sacerdotisas, as virgens que cultuavam o sol, trazidas às pressas de Ajjllahuasi, a residência das vestais, em Cusco, antes que lá chegassem os sanguinários e depravados espanhóis?










Quem sabe a Cidade Numinosa ainda existisse, alimentada pela possível imortalidade dos seus “mortos”, reconstruída incessantemente pela paisagem mental dos seus arquitetos, sacerdotes, vestais, amautas e haravicus (poetas)! Medo do invisível? Não, nenhum... Enquanto escrevia meu diário, uma ideia se impunha em minha mente, como a dizer que eu era bem-vindo e esperado ali, que eu fora mentalmente induzido àquela casa e que eu não poderia ter ido dormir nos templos. Que isso teria sido uma profanação. Depois, tudo foi substituído por um imenso bem-estar, por uma inexplicável confiança e a isso sobreveio a sublime catarse daquela absoluta solidão, do silêncio perfeito e a imaginação, buscando a vida e os rastros indeléveis dos que viveram um dia no cotidiano encantado daquele fantástico local. Quantas preces e rituais, quantos amores, quantos dramas, quantas danças e cantares, quantos sonhos se sucederam atrás daquelas ruínas, ali sepultadas pelo tempo!?

Meu espírito bebia o mistério de um tempo que eliminava seus próprios limites. Um tempo que a memória tornou mágico, aleatório, fora da linearidade cronológica, um tempo permanente, sustentado pelo encanto e onde havia a beleza de uma grande literatura, embora não fosse escrita, porque os incas não conheciam a escrita, fonética ou pictográfica. “Escreviam” nas páginas da memória com a expressão da oralidade.[7]. Os poetas escreviam seus “jailli” ao Sol, à Lua, à Wiracocha e à Pachamama. Havia um teatro de tragédias e comédias composta pelos amautas, filósofos do império, cujas cenas eram dramatizadas diante da nobreza inca. Havia uma prosa quíchua, composta de fábulas e lendas e suas preces ao Senhor da vida chegam a lembrar a beleza da Prece de Cáritas. Diziam eles, com fervor:

Oh Fazedor, felicíssimo, venturoso Fazedor, que tens misericórdia e piedade dos homens; olha teus servos, pobres desventurados, que tu criaste, e a quem deste o ser; tem piedade deles, vivam com saúde e salvos com seus filhos e descendentes, caminhando pelo reto caminho sem pensar na maldade! Vivam longo tempo, que não morram em sua juventude, que não passem fome e vivam em paz.”

Minha alma de poeta buscava, naquela abstração, um “encontro” com o lirismo panteísta dos haravicos, os jograis que levavam a tradição oral do povo pelos quatro cantos do império e por certo ali passaram declamando seus poemas, cantando os huaynos, contando os mitos e as lendas dos antepassados. Quem sabe seus gestos e suas vozes estivessem e ainda estejam ali registrados numa tela misteriosa que as filosofias orientais chamam de registros acásicos, uma memória universal contendo todo o conhecimento do passado.

Intihuatana , a pedra que amarrava o sol

Tudo o que eu havia lido sobre os Incas borbulhava aquela noite, atropelando-se no torvelinho incessante da memória. Ali fora a capital sagrada de um império que possuía uma organização político-religiosa e social perfeita. A produção agrícola partilhada como uma devoção à Terra, e as misteriosas construções do seu gigantesco império. Que fatores astronômicos ou geográficos determinaram as localizações de Macchu Picchu, de Cusco e Ollantaytambo, assim como o platô de Nazca e suas estranhas figuras? Que misteriosos significados havia por trás daquela famosa pedra de Intihuatana, ali em Macchu Picchu, um relógio solar, por onde se chegava através de uma escadaria, tido como um poderoso centro de energias cósmicas, cultuada ainda hoje pelos indígenas e por místicos e esotéricos? Lavrada num único bloco e embora não fosse grande, a forma enigmática e sua posição soberana no terraço mais alto das ruínas, sugeria-me uma inesgotável e mística curiosidade. Decompondo seu significado, inti significa sol e huatama significa amarrar. E daí a pergunta: Estaria aquela pedra posicionada em função dos pontos cardeais do mundo? Seria ali o lugar onde os incas pensavam “amarrar” o sol? Seria ela o centro energético e teocrático do Império? Suas profundas relações com o além são surpreendentemente cada vez maiores, à medida que sucessivas investigações são feitas pelos pesquisadores e, muitos livros, alguns interessantes, outros exagerados, têm procurado interpretar o significado espiritual da pedra deIntihuatana e os desenhos de Nazca.

Como teria sido composta a família e a quem pertencera aquela casa onde eu me “hospedaria” aquela noite? As informações históricas afirmam que na Cidade Sagrada viviam cerca de três mil pessoas e que a grande maioria eram mulheres: as sacerdotisas . Nunca se soube ao certo sobre a vida social de Machu Picchu e há quem afirme que muitos morreram de uma epidemia, ou que os sobreviventes abandonaram o local em 1572, depois da execução do último inca.

En toda La Ciudad Oculta, la noticia de la muerte de Túpac Amaru corrió de casa en casa y, de inmediato, se oyeron grandes lamentaciones de dolor y voces duras que recriminaban  a los bárbaros y a sus crueles divinidades de madera. (...) Todos cantaram con la misma voz del corazón el Phuluya Phuluya Huila o “La Canción de los Difuntos”, (...)
Anda, señor mio, derecho a la luz
                        no te inquiete el rayo de la muerte
                        ni te hostiguen las voces perversas
                        tu cuerpo que fue de hueso noble
                        ahora es filamento de niebla.

                        Que tu viaje sea guiado por la luna
                        que te cubra de amor el arco iris
                        no mires el vacío de los abismos
                        ni hagas caso de los rencores
                        anda nomás, nobilísimo difunto,
                        derecho al país de los ancestros.

  (...) Durante todo ese tiempo, Vitcos (a pesar de los vientos de guerra y de la viruela) fue la activa y numinosa Ciudad de los Ritos, pero a partir de mañana debería convertirse, inevitablemente. En la Ciuda de los Muertos, una estancia privativa de los antepasados y de sus maneras de pasar la eternidad. (...)

Muchísimo tiempo después el nombre de la ciudad sería olvidado. Las nuevas generaciones terminarían atribuyéndola solo la denominación del cerro que la cobija: Machu Picchu” [8].

Naquela noite, relata ainda o autor, acenderam-se fogueiras para iluminar, com o clarão das chamas e os gestos do coração, a glória final do Tawantinsuyo. Era o grande ato religioso no final do império. O último suspiro do longo estertor político do incário. Foi a derradeira noite habitada na Cidade Sagrada, e no dia seguinte, tudo seria abandono. O que ficou, seria encontrado somente 339 anos depois, retirando do silêncio o grande segredo dos incas. As ruínas contariam, com sua mudez, a história fascinante do sacrário de um povo, construído nas montanhas. A história de uma civilização abatida pela cobiça e pelo fanatismo, mas que renasceria de suas cicatrizes, sublimada, nos séculos seguintes, nas grandes expressões da arte, da música e na literatura.

Naquele momento, Machu Picchu ali estava, impassível e enigmática diante do meu espírito. Mesmo os arqueólogos ainda não decifraram o mistério que envolveu a vida naquele local. E eu, um mero viandante do tempo, chegara ali 397 anos depois, e ousava perguntar, mentalmente, quem teria sido a última pessoa que dormiu naquela peça onde eu iria passar a noite. Quem sabe naquele quarto ela tivesse agonizado de varíola ou tivesse derramado suas lágrimas pela cruel execução de Túpac Amaru. Quem sabe seus restos repousassem ainda no grande cemitério à direita, na parte baixa das ruínas. Eu observava aquelas pedras perfeitamente encaixadas. Eram os documentos “vivos”, as silenciosas testemunhas de tantos seres que ali conviveram. Lembrei-me dos meus estudos de história e de Cecília Westphalen, aquela fantástica professora e historiadora que me motivou a ler Fernand Braudel, e ele dizia que a história não é apenas a ciência do que muda, mas também daquilo que ficou e permanece imutável. Sim, permanecia ali uma legião imutável de testemunhas. E era assim que eu me sentia, no irreal torvelinho de minha consciência, cercado por uma “nuvem de testemunhas” como afirmou Paulo de Tarso. E era preciso “ver” o que havia atrás, muito atrás das aparências, porque agora eram meras paredes. Já não havia abrigo, nem fogo, nem calor humano. Já não havia teto. E se chovesse? Mas não, o céu estivera azul durante todo o dia e a lua começava a surgir na parte oriental do cenário.

Um ateu na Cidade Sagrada

O frio foi chegando e finalmente entrei em meu saco de dormir. Acendi minha pequena lanterna e li algumas páginas de Walt Whitman. Mas eu estava muito inquieto e não me concentrava na leitura. Apaguei a luz e fiquei de frente para as estrelas. Que outros mundos habitados haveria no universo, ou aqueles minúsculos faróis acesos diante dos meus olhos eram apenas a luz que chegava de estrelas que já haviam se apagado há milhões de anos? Mas, naquele momento, que lugar era mais real que o meu leito no topo de uma montanha, no meio da Cordilheira e onde o andino e o amazônico estendiam seus braços para me amparar naquela noite? Creio que adormeci envolvido por esse enredo mágico e não sei onde me levaram e com quem estive em meus sonhos, porque nada interrompeu meu sono e somente acordei com os passos de algumas lhamas que, ao amanhecer, pastavam a poucos metros da “minha casa”. Elas vinham dos inúmeros terraços agrícolas. Era muito cedo e não havia ainda ninguém em toda a região urbana das ruínas. Levantei-me deslumbrado e a luz do sol ainda não havia transposto as montanhas do leste. Tinha a impressão que tudo renascia com a luz do sol e todo aquele mágico recanto do mundo parecia a imagem maternal da vida. Desci, caminhando descalço sobre a grama umedecida pelo rocio da madrugada, até uma fonte de água corrente que brotava das ruínas, e me lavei. Depois, acariciado pelo ar matutino das montanhas, subi lentamente para a parte superior, onde ficavam as grandes edificações e, sentado sobre a rocha sagrada do Templo do Sol, presenciei seus raios chegarem sobre o pico do Wayna Picchu, invadindo aos poucos todo o vale, envolto ainda numa bruma transparente. Ao redor da praça principal, a luz chegou afastando as sombras entre as paredes dos santuários, das torres e das tumbas. Ali fiquei por quase duas horas. Quanta subjetividade! Um ateu numa silenciosa prece, o olhar passeando respeitoso por um cenário de encanto, entre a praça e as ruínas ou sobrevoando o distante perfil das montanhas. Diante de uma paisagem que se iluminava sempre mais, o meu permanente espanto. Sentado sobre a lateral da grande pedra circular, majestosa e única, ali estive, na aldeia inesquecível do tempo, hipnotizado por tanta beleza, imaginando os dias em que, em seus jardins, as flores recendiam seu perfume pelo ambiente e as crianças corriam alegres pela praça.

Ollantaytambo, habitada desde o Império

Por volta das dez horas chegaram os primeiros mochileiros e espantaram-se com a minha presença, por estarem seguros que eram os primeiros que subiam, porque não havia hotéis nem casas lá embaixo. Somente a estação de trem e a casa dos poucos empregados. Disseram-me que haviam acampado perto da entrada da escadaria e ninguém subira antes deles. Eram os dois casais chilenos que desceram apressados o Wayna Picchu e disseram que sabiam que eu dormira nas ruínas, porque ninguém desceu depois deles. Perguntaram curiosos sobre minha experiência.

Aquele segundo e último dia revisitei e vasculhei outros recantos da cidade. Ainda pela manhã fui ao cemitério, andei pelos terraços agrícolas, descobri novas fontes e espreitei as encostas, os precipícios, observando de todos os ângulos o curso do Vilcanota, correndo em torno dos dois picos e serpenteando no sopé do Wayna Picchu. Eu sabia que aquelas águas um dia chegariam ao Brasil, através dos cursos do rios Ucaiali, Urubamba e Marañon e que ao entrar no território brasileiro passa a chamar-se Solimões. Mas só então, perto de Manaus, ao encontrar-se com o Rio Negro, e que recebe o nome de Amazonas. Em alguns momentos reencontrei os chilenos e foram eles que mataram a minha fome. No fim da tarde, desci para tomar o trem de volta a Cusco.

Quando o trem parou na estação de Ollantaytambo, subiram vários mochileiros. Um deles sentou-se ao meu lado e logo começamos a conversar. Acampara por dois dias em suas ruínas, onde estivera em missão de estudo. Estudava antropologia na Universidade de São Marcos, em Lima, e fora aluno do escritor José Maria Arguedas. Muito versado em cultura e arqueologia peruanas, falou-me da importância da arquitetura incaica do local, que na época todos chamavam de Fortaleza de Ollanta, dizendo que o que se via, através das janelas do trem, não dava a ideia da grandiosidade das suas ruínas interiores. Comentou que Garcilaso de la Vega referira-se a ela em seus Comentários Reales..., que aquelas fortificações foram construídas sob as ordens do Inca Wiraquocha  e que era, além de Cusco, a única cidade da época do Incário que ainda continuava habitada por mais de seiscentos anos. Em outras fontes da história de Cusco me inteirei que Simon Bolívar, no auge de sua glória de Libertador, depois das vitórias de Junín e Ayacucho, em viagem pelas províncias do sul, chegou a Cusco em 25 de junho de 1825 e visitou, dias depois, a fortaleza de Ollantaytambo.  Diante de sua grandeza, recomendou, por carta, a Hipólito Unanue,[9] as providências para sua conservação, afirmando que “a glória destes monumentos ainda em ruínas reclamam a favor dos seus autores, e não deve ser esquecida”.

(*) Este texto consta do livro NOS RASTROS DA UTOPIA: Uma memória crítica da América Latina nos anos 70, publicado por Escrituras em 2014.

[1] VARGAS, Víctor  Angles. Historia del Cusco Incaico. Cusco: Edição do autor, 1988, t. I, p.19-20.

[2] José Carlos Mariátegui (Moquegua, 1894 – Lima, 1930) Apesar de ter vivido apenas 35 anos, foi, por certo, o mais brilhante pensador peruano e o mais lúcido intérprete do marxismo latino-americano. Autodidata, jornalista, ensaísta e poeta, celebrizou-se através dos seus Sete ensaios de interpretação da realidade peruana, livro pelo qual tornou-se uma referência intelectual e política em todo o Continente e onde  analisa com clareza e originalidade o problema da terra e do indígena peruano e latino-americano.

[3] MARIÁTEGUI, José Carlos. Siete ensayos de interpretación de la realidad peruana.Lima: Amauta,   11ª ed., 1967, p. 146.

[4] TOYNBEE, Arnold J. De Leste a Oeste. Tradução de Aydano Arruda. São Paulo: Ibrasa, 1959, p.28.

[5] A ciência mostrou que a realidade perceptível ao olho humano é vista somente pela estreita “janelinha” das ondas de luz que compõem  parte do espectro eletromagnético, e que somos cegos a uma vasta faixa de radiação que se estende das altas frequências dos raios cósmicos, cujo comprimento de onda é de apenas um trilionésimo de centímetro, até as ondas de rádio, infinitamente longas.  

[6] Pachacútec (1.400? - 1471) foi a figura mais notável do Império inca antes da chegada dos espanhóis. Foi seu nono governante e o fundador do Império. Sábio e legislador, aboliu os sacrifícios humanos nos atos religiosos e pelo elevado espírito público reconstruiu Cusco, canalizando os rios que cruzavam a cidade e construindo calçadas, monumentos e palácios, num tempo em que a capital do Império tinha mais de cem mil habitantes. Instituiu o sistema de cultivo de terraços, com que se notabilizou o sistema comunista da agricultura inca.
Visionário e destemido guerreiro, defendeu o Império quando os ferozes Chancas estiveram a ponto de tomar Cusco. Posteriormente expandiu o Império até o Equador, chegando a ter o domínio de mais de quinhentas tribos com línguas, costumes e religiões diferentes.
Deixou seu nome imortalizado pela construção da cidadela de Sacsayhuaman, a cidade fortaleza de Macchu Picchu e a reconstrução, em Cusco, do Coricancha (Templo do Sol).

[7] Em seu livro Muchas Lunas en Machu Picchu, o escritor cusquenho Enrique Rosas Paravicino, conta que o astrônomo Sapan Huillcanina apresentou  ao inca Huayna Ccápac sua invenção de um sistema de escrita, baseado em setenta e nove signos pintados em pranchas de madeira, representando imagens de aves, plantas, montanhas, astros, flores, mãos humanas , garras de águia,  figuras do sol e da lua, etc.. Os signos representavam  o som da voz humana que, associados equivaliam a palavras, frases e pensamentos. Seu invento, no entanto, foi rejeitado pelos sábios do Imperador e as suas  tábuas da memória foram queimadas, posteriormente, por  um sacerdote espanhol como uma obra do diabo.

[8] PARAVICINO,  Enrique Rosas Muchas Lunas em Machu Pucchu, Lima: Huaca Prieta e Lluvia Editores. 2006, p. 216-218.

[9] José Hipólito Unanue y Pavón (1755-1833), médico, naturalista e político, foi um precursor da independência peruana. Amigo de Simon Bolívar, a quem atendeu como médico, revolucionou a medicina em seu país e, como presidente do Primeiro Congresso Constituinte do Peru, esteve à frente da comissão que redigiu a sua Constituição Republicana.