17 dezembro 2015

Frederico Füllgraf - A história perversa do biquini

Mosaico Dieci Ragazze, Villa Romana del Casale, Sicília - séc. III DC


Ensaio

Um ano depois do silêncio das armas da II Guerra Mundial, Louis Reard, estilista francês, teve o que a infiltração anglicizante do nosso vernáculo chama de insight: lançaria uma peça de vestuário de encher os olhos com as prendas do corpo feminino: curvas, saliências, altiplanos e vales, preservando, s´il vous plais!, as fagueiras e vaporosas vergonhas venusinas. 

Discreto, passou madrugadas em vigília, desenhando maquetes de seu invento revolucionário, mas sentiu que lhe faltava um nome forte com apelo exótico. Eis que, em julho de 1946, faltando quatro dias para o lançamento da nova criação, explodem as bombas atômicas “Baker” e “Abel” no Atol de Bikini, centro do Pacífico Sul, e de bandeja os EUA oferecem a Reard o nome que rasgaria a boca do balão, do jeito que as bombas tinham rasgado ao meio o atol – la mode du terreur!

A aventura nuclear de Antony Guarisco

Deparei-me com esta estória intrigante anos atrás, durante a pesquisa para o roteiro do telefilme Burning Sand, para o qual tinha entrevistado em Nova York, Antony Guarisco, marine norte-americano durante os testesa nucleares no Pacífico, que em 1987 liderava o movimento nacional dos Atomic Veterans. 

Desde a década dos anos 70, estes soldados reclamavam reparações dos sucessivos governos em Washington - reparações pela morte de aprox. 200 mil veteranos que participaram dos testes nucleares entre as décadas de 1940 e 1960, porque tinham sido enganados pelas autoridades, forçados a assinar “salvo-condutos”, cheques em branco, isentando o Pentágono de “todas e quaisquer responsabilidades por eventuais danos à saúde”. A malícia infernal já estava subentendida na própria declaração, mas os rapazes assinaram; alguns por patriotismo, outros por ingenuidade, outros ainda por esdruxularias equivalentes.
42 mil marines norte-americanos usados e irradiados como ratos de laboratório
durante os testes no Pacífico
A sound of frying eggs was in the air and for minutes I could see my own 
bones trough the flesh of my hands.. – um som de ovos fritos crispava o ar 
e por minutos pude ver meus próprios ossos através da carne da minha mão …” 

 
Campanha por reparações: Antony Guarisco diante 
da Corte Internacional de Justiça, Haia.

Quando conheci Guarisco, ele já se arrastava pelos corredores do hotel apoiado numa bengala, os ossos triturados pela doença terminal que matara a maioria de seus camaradas. Impossível esquecer sua frase dirigida para a câmera, com seu testemunho sobre a explosão da bomba Baker, no atol de Bikini: “A sound of frying eggs was in the air and for minutes I could see my own bones trough the flesh of my hands.. – um som de ovos fritos crispava o ar e por minutos pude ver meus próprios ossos através da carne da minha mão …”. 

Um dos navios que se vê ao largo, literalmente foi aos ares, por segundos suspenso no céu, devido à onda de pressão da explosão da bomba, detonada 30 m abaixo da superfície da água.

A cena de terror fora vivida por Guarisco e seus companheiros numa praia do Atol de Bikini, sem proteção física alguma contra o “grande raio-X”, o eclipse da luz e das trevas. O objetivo da missão era “testar as condições de combate da tropa após um ataque nuclear soviético" (sic!)

Ficção? História, e das escalafriantes! 

Nunca mais vi Guarisco. Há poucos anos liguei para sua esposa e soube que ele tinha morrido de leucemia.

Revisionismo atômico

O filme, com financiamento inicial do Film Office Hamburg e roteiro premiado pela finada Embrafilme, baseado em meu livro A bomba pacífica (Brasiliense, 1988), há anos aguarda conclusão, porque a Fundação do Cinema Brasileiro pagou apenas a primeira parcela do contrato e literalmente afundou em 1989. Depois, a Guerra Fria deixava de ser fashion, as usinas nucleares e seus gêmeos siameses, as bombas, também atômicas, caíram em desuso em escala global, e a estória do filme mofa no limbo. Mas talvez o projeto seja salvo pelo gongo da História, melhor: por sua versão Bonapartista, aquela, cuja repetição Marx tão espirituosamente chamou de farsa. É que o fogo fátuo da Guerra Fria se reacende com a desconfiança ocidental do programa nuclear do Irã (o de Israel obviamente é tabu), mas também porque, atento às graves alterações climáticas e a desesperada busca por fontes geradoras de energia de baixo impacto ambiental, um poderoso lobby (l´escroquerie nucleaire, como diz um amigo gallo-romano) arma esperto revisionismo histórico dos perigos das instalações nucleares, agora vendidas ao distinto público como “as menos poluentes e mais seguras”.

Esse revisionismo fez a cabeça de nosso ex-timoneiro, Luis Inácio Lula da Silva, e sua então Ministra da Energia, hoje sua sucessora plenipotenciária. Como é sabido, aprovou-se a conclusão de Angra-3 e a construção de outras seis usinas nucleares. Dizem línguas afiadas que o Brasil precisa de assento no Conselho de Segurança da ONU, onde meras usinas nucleares rimam com bombas. Mas, o que interessa aqui, é que das seis usinas planejadas, duas ou três operarão no litoral do Nordeste – cujas praias badaladas nos remetem novamente à iluminação de Louis Reard.

Relação macabra

Nos anos 1950, a relação macabra entre a fonte inspiradora e o trapinho homônimo – a bomba e o biquíni – repercutiu desfavoravelmente para Reard. Mas argumentando pela tangente, ele afirmou que havia emprestado o nome do sumário traje de banho ao atol, e não à bomba. A verdade é que ele tirou enorme vantagem dos testes com a arma terminal, cuja devastação parecia pescar no inconsciente coletivo fantasias associadas ao imperativo histórico de uma urgente devastação da moral vitoriana. Com a reprodução em algodão, de fac-símiles da cobertura de imprensa sobre os testes nucleares, Reard promoveu um marketing literalmente bombástico.

 
 
Acima, à direita, Louis Reard; à esquerda, Brigittte Bardot;
embaixo, fio dental: a deserotização pelo escancaramento

Mas o inventor do biquíni necessitava de um trunfo adicional, pois outro francês, Jacques Heim, havia chegado às passarelas com uma criação semelhante – a do maiô partido em dois, assumidamente batizado de “L’atome”. Reard contra-atacou, promovendo seu biquíni como “o traje menor que o mundialmente menor dos trajes”, e ganhou a guerra dos nomes e das torcidas. 

Se Reard conhecia o mosaico Villa Romana del Casale, apropriou-se da fonte de inspiração sem jamais revelá-la, porque o biquíni de fato não foi sua invenção: o traje já era usado pelas moças sicilianas no séc. III DC.



Economia e libido

Contudo, garimpadas nas lixeiras da História as segundas intenções, eis que uma insólita explicação econômica parece varrer todo o encanto, substituindo nossas fantasias por fatos da fria economia. 

O pano de fundo histórico do biquíni, que aqui funciona como perfeito trocadilho, foi a falta de pano para a confecção de fundilhos. 

Em 1943, em plena II Guerra Mundial, o governo norte-americano obrigou a indústria têxtil ao racionamento de matérias-primas, provocando a redução de 10 por cento de algodão na confecção de trajes de banho femininos. 

O resultado desta operação militar foi uma espécie de “ventre livre” patriótico para o corpo feminino, e foi Reard quem lhe daria a forma no Velho Continente. Sua inovação mercadológica consistiu em reduzir o traje para 30 polegadas de malha, desmembradas em bustier top e um triângulo invertido, down, conectados por um cordão. O biquíni de Reard era tão sumário para a moral da época, que nenhuma modelo parisiense ousou subir à passarela.

Nos EUA, certa “Liga pela Decência” pressionou os produtores de Hollywood para banir o biquíni das telas. Porta-vozes da cruzada vitoriana questionaram a reputação das moças convertidas à moda, afirmando que “o biquíni revela tudo no corpo de uma mulher, menos o nome da mãe dela “. Como eram amáveis as madames 

Impávido, Reard manteve a classe e a ousadia a serviço do marketing, contratando Micheline Bernardini, em cuja cabeça e corpo o biquíni caiu como uma luva, pois atuava como dançarina de nus no Cassino de Paris: após uma sessão de fotos dela em poses reclinantes, a imprensa ajoelhou-se diante dela, embasbacada, e a musa foi soterrada sob uma avalanche de 50 mil cartas de fãs ensandecida/os.

Mas la Bernardini não foi capaz de impor a capitulação aos vitorianos EUA. Desesperado, melhor: de olho grande no mercado yankee, Reard incorporou a carta do eremita do tarô, e teve seu segundo insight: uma femme fatale mal conhecida por “BB”- a estreante Brigitte Bardot. 

Deslocou para o campo de batalha sua mal disfarçada inocência de "E Deus fez a mulher", acentuada pelo trapinho, et voilá! 

O biquíni precisava de curvas para ser valorizado, e BB impôs a queda das últimas barricadas norte-americanas. Entrava em cena em Hollywood o vitorioso trapo que matava a cobra e escondia o… principal. 

Das passarelas para a tela e o vinil, foi um passo. O biquíni foi cantado em prosa e verso, imortalizado no rock de Brian Hyland, do final dos anos 50, “Itsy-Bitsy-Teenie-Weenie/Yellow-Polka-Dot Bikini”.

A empresa de Reard conseguiu manter-se no mercado até 1988. Uma versão sobre os motivos de seu fechamento insinua que Reard perdera a guerra pela miniaturização para o fio-dental brasileiro; aberração, vingança dos inventivos trópicos e golpe fatal nos planos do estilista.

Cinqüenta anos depois é oportuno indagar se a vinculação proposital do maiô partido em dois com a arma de extermínio em massa, não abriga códigos de significados convergentes. 

O primeiro deles é a “onda Shumpeteriana”: em conjunturas de abertura democrática e crescimento econômico, a moda (e a libido) abre-se, liberando o corpo do “supérfluo” (no inconsciente coletivo pós-guerra, masculino, era enorme a demanda pela “abertura do pano” sobre o corpo feminino). 

O segundo, é seu significante profundamente pós-moderno: a visão de Reard é a alegoria do êxtase ilimitado, cujo pêndulo sempre oscila entre Eros e Tanatos, entre o prazer e a morte – o signo marcante de toda a cultura iconográfica e moda militarizadas e ferozmente midiatizadas neste início de Terceiro Milênio.

Por fim, uma pitada de pimenta tupiniquim: as bombas atômicas norte-americanas lançadas sobre o paradisíaco atol de Polinésia – imortalizado nos quadros de Paul Gauguin – foram construídas, durante e depois da 2ª Guerra Mundial, com matéria-prima brasileira: milhões de toneladas de areia monazítica, contendo urânio e tório, das praias de Guarapari, no Espírito Santo, Mãe Ubá e outros costões do sul nordestino. Quem aguardar o filme, verá.

 
(Ilustrações: Bikini Atoll.com; Villa Romana del Casale)
Recomendado:
BIKINIS AND BOMBS A Senior Project Exhibition, 
The Library Art Gallery at the Florida Gulf Coast University

22 outubro 2015

Manoel de Andrade: UMA NOITE EM MACHU PICCHU





Na memória de Cusco

A cidade de Cusco ficou na memória dos meus anos. Milenar e sagrada, reservada e cosmopolita, a cidade engastada qual uma concha geológica num rico vale entre montanhas de mais de três mil metros, foi a capital de um reino que durou trezentos anos, e cujas obras foram construídas para a eternidade. Pachacútec, Túpac Yupanqui e Waina Cápac marcam a glória de um século em que o império se estendeu da Colômbia até as fronteiras meridionais com o Chile e a Argentina, abarcando parte da selva amazônica, numa extensão maior do que o império romano. Cusco era a capital desse colosso territorial, o ventre da pátria peruana e o berço da sua infância nacional. Era a cidade viril, máscula, monumental. Quando Lima nasceu, parida pela estratégia, a ambição e a vaidade espanhola, representava a imagem da cidade feminina, moldada pelos caprichos e a sensualidade dos conquistadores. Cusco, encravada nas alturas, simbolizava a resistência, o palco espartano das grandes batalhas, a imagem rebelde de dois comandantes: Túpac Amaru I e Túpac Amaru II, ambos ali martirizados, em 1572 e 1781, respectivamente.

Aquí unificó pueblos y enseñó técnicas Manco Cápac, personaje escapado de la leyenda que puso los cimientos del más grande imperio de la América india.  En Cusco nació y vivió “el más grande hombre que há producido la raza aborigen americana” a decir de Markham, refiriéndose al “transformador del mundo” a Pachacútec. En esta cuidad se aposentaron los Pizarro y los Almagro y varios de ellos dejaron sus huesos. Aquí también sucumbió el incanato con el asesinato “legal” de Túpac Amaru en 1572 bajo la mirada del duro virrey Toledo. Aquí nació la idea y la lucha independentista peruana con Manco Inca que levantó al Perú contra los españoles en 1536, y con José Gabriel Túpac Amaru en 1780.  En Cusco se gestó la idea y se organizó la expedición que descubrió Chile, jefaturada por Almagro “el viejo”, (…); en Cusco se organizó la expedición de Pedro de Valdivia para colonizar Chile; en esta ciudad se organizó la expedición que partió hacia Quito y luego el País de la Canela, descubriendo el Amazonas; (…) La ciudad aclamó a Simón Bolívar después de la batalla de Ayacucho.”[1]

Parecia inacreditável estar finalmente em Cusco, a cidade atemporal e histórica, lendária e real, fundada por Manco Cápac há mil anos, capital de um império teocrático, cuja misteriosa origem pairava em cada vestígio do tempo, no espírito da cultura, sobrevivendo nos monumentos portentosos, nas imensas pedras lavradas, adornando os grandes portais, pátios e arcadas. Depois chegaram os “deuses” da Espanha, violentando seus santuários e abrindo seu relicário de artes sagradas, construindo a catedral majestosa com seus dois campanários, dominando toda a praça adornada internamente com a simbologia da fé cristã. As demais igrejas, os altares dourados, o esplendor dos vitrais da Igreja da Companhia, o Convento de Santo Domingo, construído e reconstruído, depois do terremoto de 1950, sobre as ruínas de  Corikancha, o Templo do Sol. Eu agora estava ali, no “umbigo” do mundo, refletindo a glória do período de Pachacútec, seu filho Túpac Yupanki e a extensão do imenso império, depois da grande vitória de Yahuarpampa sobre os Chancas e a anexação do Reino Chimú. Um lustro de esplendor, domínio e conciliação de tantas tribos. Cusco era a capital sagrada de um mundo construído ao longo de cinco mil quilômetros de montanhas e tudo ali, para mim, era magia, um poder sagrado encravado na paisagem imóvel e eloquente da cidade, pronunciada pelo tempo como a mais antiga da América e espiritualmente envolvida por uma secreta religiosidade vinda não da religião dogmática dos conquistadores, mas do passado panteísta do Tawatinsuyo, onde o céu e a terra são representados na cosmovisão inca da Pachamama, a Mãe Terra, e onde a política e a religião, o templo e o palácio, o Sol e o Inca se identificavam no mesmo sentimento, na mesma fé e na mesma submissão. Para o habitante do Império, a religiosidade era vivenciada, diária e incondicionalmente, na sua ética e na sua conduta social, muito mais voltadas para o sentido agrário e material da vida, do que para qualquer forma de transcendência. Mariátegui [2] que penetrou, com precocidade histórica e, também, com  genial precocidade intelectual, no âmago cultural do problema indígena peruano afirma, ao analisar o Fator Religioso que:

 “O povo incaico ignorou toda a separação entre a religião e a política, toda diferença entre Estado e Igreja. Todas  suas instituições, como todas suas crenças, coincidiam estritamente com sua economia de povo agrícola e com seu espírito de povo sedentário. A teocracia apoiava-se sobre o comum e o empírico; não na virtude taumatúrgica de um profeta nem de seu verbo. A religião era o Estado.” [3].

Machu Picchu. “Acreditará alguém no que encontrei?

Dia 29 de outubro dce 1969, saí de viagem para Machu Picchu. O trem correu a manhã inteira pelo Vale Sagrado, ziguezagueando, sempre subindo, passando por regiões agrícolas, pomares, mostrando os frutos negros do capuli, vales povoados de lhamas, salgueiros debruçados sobre os cursos de água, altas encostas rochosas, o estreito caminho beirando os precipícios, assustadoras gargantas, corredeiras.  Depois..., a descida para o vale do Vilcanota e a exuberante vegetação que já anuncia a flora amazônica. No decorrer da viagem viam-se caminhos e trilhas abandonadas, onde corriam, séculos atrás, os chasquis, os mensageiros do correio inca que atravessavam todo o império, do sul da Colômbia até o norte da Argentina.  A dois terços do caminho passamos pelas ruínas da Fortaleza de Ollantaytambo e chegamos a Águas Calientes, onde todos descem para almoçar e comprar lanches e onde desembarcam quase todos os indígenas. Poucos quilômetros adiante, por volta de treze horas, o trem chegouem Machu Picchu, com uns trinta turistas. Tudo era muito precário. Pagava-se uma pequena taxa e subia-se uma longa e empinada escadaria até o plano das ruínas, onde um jovem recebia o boleto num pequeno portão de entrada, dizendo que a visita se encerraria às dezessete horas. Não havia guia para explicar a disposição dos monumentos, mas eu trazia de Cusco alguns postais legendados e um folheto explicativo. Os passageiros de Cusco, e alguns mochileiros que haviam embarcado em Ollantaytambo, espalharam-se pelas ruínas da entrada. Juntei-me a três mochileiros argentinos e um deles já conhecia o local. Era emocionante dar os primeiros passos em Machu Picchu, “o grande pico” e começamos perambulando pelas ruínas da entrada, seguimos para a íngreme subida do Wayna Picchu numa cansativa caminhada de  uma hora, por uma difícil trilha de pedras. A recompensa estava lá, nas alturas: uma visão deslumbrante de toda a paisagem montanhosa e dentro dela a visão lá embaixo, distante e completa, das  ruínas da Cidade Sagrada, sobre o dorso planificado da montanha. Hoje, na distância de quatro décadas e com outras visões do mundo, posso dizer que foi o que de mais deslumbrante entrou pelos meus olhos. O historiador Arnold Toynbee, que no início de 1956 passou pela região em sua viagem em torno do mundo, conta, em seu livro De Leste a Oeste, do seu espanto ao chegar em Machu Picchu. Sobre “o pequeno pico” diz ele:

Wayna Picchu! Ele se ergue para o céu como a agulha da torre de uma catedral gigantesca. E a cidade pousada entre os dois picos equipara-se em grandeza ao seu ambiente natural, embora o supere em mistério. Jamais atingida pelos conquistadores espanhóis do Império Inca, ela foi posta a nu por um explorador norte-americano, Hiram Bingham. Este irrompeu através da selva que protegia a cidade e trouxe-a  para a luz como uma bela adormecida.” [4].

Depois descemos o Wayna Picchu e entramos por um desvio aonde se chega ao pequeno Templo da Lua. Lá pelas quatro e meia da tarde muitos já saíam para pegar o trem. Mas eu  decidi me ocultar para  passar a noite dormindo nas ruínas.

Guardo muitas lembranças que me encheram os olhos nas paisagens dos caminhos: Canyons gigantescos, precipícios profundos, altas passagens no centro-sul dos Andes, densas florestas, verdes vales cultivados, as travessias do Atacama e do Chaco paraguaio, baías deslumbrantes, rios imensos, lagos escondidos na intimidade das montanhas e a visão inesquecível do Titicaca. Mas Machu Picchu era magicamente diferente. Tudo ali era solene e sagrado. Circundada pelo rio Vilcanota, cujas águas ligeiras correm em torno dos picos de Machu Picchu e Huayna Picchu e cercado de altas montanhas, a cidade é única em majestade, isolamento e beleza. “Acreditará alguém no que encontrei?”, foi com essa frase que o antropólogo Hiram Bingham registrou seu espanto, no livro “A Cidade Perdida dos Incas”, ao descobrir as ruínas de Machu Picchu, em 24 de julho de 1911.

Minha noite solitária em Machu Picchu

No fim da tarde, quando o trem já havia partido, apareceram outros mochileiros, descendo apressados do Wayna Picchu e me disseram que iam acampar lá embaixo. Perguntaram se eu não iria descer, porque era proibido ficar à noite entre as ruínas. Depois disso, eu me encaminhei para a parte alta da entrada, onde ficava o local das moradias. Abri minha mochila, escrevi no meu diário e quando a penumbra invadiu o ambiente, estendi meu saco de dormir no canto de uma peça, para ali passar a noite. Era primavera e estava fresco, quase frio a2.400 metros de altitude. E ali estive muito tempo, envolvido pelo entardecer e debruçado sobre a parte baixa das paredes do meu “aposento”, olhando o perfil das montanhas, a silhueta vertical do Wayna Picchu. Sentia que algo faltava no meu íntimo e o que faltava era a ansiada experiência da noite que me propus passar na solidão das ruínas. Ali fiquei, esperando que a lua aparecesse. Guimarães Rosa escreveu que: “esperar é reconhecer-se incompleto”. E era assim que minha expectativa fazia-me sentir: incompleto, perante a expectativa daquela experiência noturna em Machu Picchu e incompleto até hoje, porque o conhecimento, quanto maior, mostra-nos que muito maior se torna a consciência do que ignoramos. As primeiras estrelas que surgiam e toda aquela paisagem noturna passava a ser só minha e parecia existir somente pela minha consciência sobre ela. Lembro-me que havia uma passagem no romanceA Náusea, de Jean Paul Sartre em que o personagem -- Antoine Roquetin  -- estava sentado diante de um amplo vale e achava que tudo aquilo somente existia pela sua consciência e que se aparecesse outra pessoa tomando consciência do ambiente, a paisagem já não era só sua. Bem, era assim que eu me sentia, porque sabia que estava absolutamente sozinho naquele lugar fantástico. A lua surgiu, iluminando a vaga escuridão e uma onda de mistério começou a rondar minha mente.

Imaginava como teria sido a vida dos habitantes que ali viveram nos dias doTawatinsuyo. A sua anímica religiosidade povoada de deuses, os rituais sagrados, as cerimônias no Templo do Sol e da Lua. Ali tudo se pronunciava em silêncio: as ruas, as praças, as escadarias, o caminho que levava ao Wayna Picchu. Ali tudo era uma “saudade de pedra”, embora não fosse o cais a que se referiu Fernando Pessoa em sua Ode Marítima. A memória histórica de tantos fatos era conduzida por minha excessiva imaginação e algo estranho me acontecia aquela noite. Era como se minhas evocações mentais abrissem uma sintonia com outro plano de pensamento.

Eu era, naquela época, um incrédulo, com uma visão materialista do mundo e a vaga noção de transcendência vinha dos diálogos de Platão, de Fédon, sobretudo, do conceito socrático de imortalidade e do mundo platônico das ideias. E me perguntava se a minha consciência era a única presença mental naquele espaço. Ou haveria um ambiente paralelo, um outro plano, ou seja, se por trás da realidade objetiva e da nossa limitada visualidade, haveria o que alguns filósofos chamaram de um mundo fantasma de percepções, ou de energias distintas, como estabeleceu a ciência nas muitas faixas de ondas no espectro eletromagnético!? [5] Haveria uma Machu Picchu invisível, uma Cidade Sagrada paralela, nas ruínas de um plano astral, com presenças espirituais ao meu lado? Quem sabe as almas dos que ali viveram no passado ou talvez o espírito protetor e “ciumento” do Imperador Pachacútec[6] --- que, em 1452, colocara a primeira pedra e convocara o arquiteto Apomayta para construir Machu Picchu, fundada com o nome mítico de Huiñaymarca (Cidade Eterna) e que depois, estrategicamente, passou a denominar-se Vitcos, para iludir a ganância dos espanhóis na sua busca do El Dourado. Onde estariam as almas das duzentas sacerdotisas, as virgens que cultuavam o sol, trazidas às pressas de Ajjllahuasi, a residência das vestais, em Cusco, antes que lá chegassem os sanguinários e depravados espanhóis?










Quem sabe a Cidade Numinosa ainda existisse, alimentada pela possível imortalidade dos seus “mortos”, reconstruída incessantemente pela paisagem mental dos seus arquitetos, sacerdotes, vestais, amautas e haravicus (poetas)! Medo do invisível? Não, nenhum... Enquanto escrevia meu diário, uma ideia se impunha em minha mente, como a dizer que eu era bem-vindo e esperado ali, que eu fora mentalmente induzido àquela casa e que eu não poderia ter ido dormir nos templos. Que isso teria sido uma profanação. Depois, tudo foi substituído por um imenso bem-estar, por uma inexplicável confiança e a isso sobreveio a sublime catarse daquela absoluta solidão, do silêncio perfeito e a imaginação, buscando a vida e os rastros indeléveis dos que viveram um dia no cotidiano encantado daquele fantástico local. Quantas preces e rituais, quantos amores, quantos dramas, quantas danças e cantares, quantos sonhos se sucederam atrás daquelas ruínas, ali sepultadas pelo tempo!?

Meu espírito bebia o mistério de um tempo que eliminava seus próprios limites. Um tempo que a memória tornou mágico, aleatório, fora da linearidade cronológica, um tempo permanente, sustentado pelo encanto e onde havia a beleza de uma grande literatura, embora não fosse escrita, porque os incas não conheciam a escrita, fonética ou pictográfica. “Escreviam” nas páginas da memória com a expressão da oralidade.[7]. Os poetas escreviam seus “jailli” ao Sol, à Lua, à Wiracocha e à Pachamama. Havia um teatro de tragédias e comédias composta pelos amautas, filósofos do império, cujas cenas eram dramatizadas diante da nobreza inca. Havia uma prosa quíchua, composta de fábulas e lendas e suas preces ao Senhor da vida chegam a lembrar a beleza da Prece de Cáritas. Diziam eles, com fervor:

Oh Fazedor, felicíssimo, venturoso Fazedor, que tens misericórdia e piedade dos homens; olha teus servos, pobres desventurados, que tu criaste, e a quem deste o ser; tem piedade deles, vivam com saúde e salvos com seus filhos e descendentes, caminhando pelo reto caminho sem pensar na maldade! Vivam longo tempo, que não morram em sua juventude, que não passem fome e vivam em paz.”

Minha alma de poeta buscava, naquela abstração, um “encontro” com o lirismo panteísta dos haravicos, os jograis que levavam a tradição oral do povo pelos quatro cantos do império e por certo ali passaram declamando seus poemas, cantando os huaynos, contando os mitos e as lendas dos antepassados. Quem sabe seus gestos e suas vozes estivessem e ainda estejam ali registrados numa tela misteriosa que as filosofias orientais chamam de registros acásicos, uma memória universal contendo todo o conhecimento do passado.

Intihuatana , a pedra que amarrava o sol

Tudo o que eu havia lido sobre os Incas borbulhava aquela noite, atropelando-se no torvelinho incessante da memória. Ali fora a capital sagrada de um império que possuía uma organização político-religiosa e social perfeita. A produção agrícola partilhada como uma devoção à Terra, e as misteriosas construções do seu gigantesco império. Que fatores astronômicos ou geográficos determinaram as localizações de Macchu Picchu, de Cusco e Ollantaytambo, assim como o platô de Nazca e suas estranhas figuras? Que misteriosos significados havia por trás daquela famosa pedra de Intihuatana, ali em Macchu Picchu, um relógio solar, por onde se chegava através de uma escadaria, tido como um poderoso centro de energias cósmicas, cultuada ainda hoje pelos indígenas e por místicos e esotéricos? Lavrada num único bloco e embora não fosse grande, a forma enigmática e sua posição soberana no terraço mais alto das ruínas, sugeria-me uma inesgotável e mística curiosidade. Decompondo seu significado, inti significa sol e huatama significa amarrar. E daí a pergunta: Estaria aquela pedra posicionada em função dos pontos cardeais do mundo? Seria ali o lugar onde os incas pensavam “amarrar” o sol? Seria ela o centro energético e teocrático do Império? Suas profundas relações com o além são surpreendentemente cada vez maiores, à medida que sucessivas investigações são feitas pelos pesquisadores e, muitos livros, alguns interessantes, outros exagerados, têm procurado interpretar o significado espiritual da pedra deIntihuatana e os desenhos de Nazca.

Como teria sido composta a família e a quem pertencera aquela casa onde eu me “hospedaria” aquela noite? As informações históricas afirmam que na Cidade Sagrada viviam cerca de três mil pessoas e que a grande maioria eram mulheres: as sacerdotisas . Nunca se soube ao certo sobre a vida social de Machu Picchu e há quem afirme que muitos morreram de uma epidemia, ou que os sobreviventes abandonaram o local em 1572, depois da execução do último inca.

En toda La Ciudad Oculta, la noticia de la muerte de Túpac Amaru corrió de casa en casa y, de inmediato, se oyeron grandes lamentaciones de dolor y voces duras que recriminaban  a los bárbaros y a sus crueles divinidades de madera. (...) Todos cantaram con la misma voz del corazón el Phuluya Phuluya Huila o “La Canción de los Difuntos”, (...)
Anda, señor mio, derecho a la luz
                        no te inquiete el rayo de la muerte
                        ni te hostiguen las voces perversas
                        tu cuerpo que fue de hueso noble
                        ahora es filamento de niebla.

                        Que tu viaje sea guiado por la luna
                        que te cubra de amor el arco iris
                        no mires el vacío de los abismos
                        ni hagas caso de los rencores
                        anda nomás, nobilísimo difunto,
                        derecho al país de los ancestros.

  (...) Durante todo ese tiempo, Vitcos (a pesar de los vientos de guerra y de la viruela) fue la activa y numinosa Ciudad de los Ritos, pero a partir de mañana debería convertirse, inevitablemente. En la Ciuda de los Muertos, una estancia privativa de los antepasados y de sus maneras de pasar la eternidad. (...)

Muchísimo tiempo después el nombre de la ciudad sería olvidado. Las nuevas generaciones terminarían atribuyéndola solo la denominación del cerro que la cobija: Machu Picchu” [8].

Naquela noite, relata ainda o autor, acenderam-se fogueiras para iluminar, com o clarão das chamas e os gestos do coração, a glória final do Tawantinsuyo. Era o grande ato religioso no final do império. O último suspiro do longo estertor político do incário. Foi a derradeira noite habitada na Cidade Sagrada, e no dia seguinte, tudo seria abandono. O que ficou, seria encontrado somente 339 anos depois, retirando do silêncio o grande segredo dos incas. As ruínas contariam, com sua mudez, a história fascinante do sacrário de um povo, construído nas montanhas. A história de uma civilização abatida pela cobiça e pelo fanatismo, mas que renasceria de suas cicatrizes, sublimada, nos séculos seguintes, nas grandes expressões da arte, da música e na literatura.

Naquele momento, Machu Picchu ali estava, impassível e enigmática diante do meu espírito. Mesmo os arqueólogos ainda não decifraram o mistério que envolveu a vida naquele local. E eu, um mero viandante do tempo, chegara ali 397 anos depois, e ousava perguntar, mentalmente, quem teria sido a última pessoa que dormiu naquela peça onde eu iria passar a noite. Quem sabe naquele quarto ela tivesse agonizado de varíola ou tivesse derramado suas lágrimas pela cruel execução de Túpac Amaru. Quem sabe seus restos repousassem ainda no grande cemitério à direita, na parte baixa das ruínas. Eu observava aquelas pedras perfeitamente encaixadas. Eram os documentos “vivos”, as silenciosas testemunhas de tantos seres que ali conviveram. Lembrei-me dos meus estudos de história e de Cecília Westphalen, aquela fantástica professora e historiadora que me motivou a ler Fernand Braudel, e ele dizia que a história não é apenas a ciência do que muda, mas também daquilo que ficou e permanece imutável. Sim, permanecia ali uma legião imutável de testemunhas. E era assim que eu me sentia, no irreal torvelinho de minha consciência, cercado por uma “nuvem de testemunhas” como afirmou Paulo de Tarso. E era preciso “ver” o que havia atrás, muito atrás das aparências, porque agora eram meras paredes. Já não havia abrigo, nem fogo, nem calor humano. Já não havia teto. E se chovesse? Mas não, o céu estivera azul durante todo o dia e a lua começava a surgir na parte oriental do cenário.

Um ateu na Cidade Sagrada

O frio foi chegando e finalmente entrei em meu saco de dormir. Acendi minha pequena lanterna e li algumas páginas de Walt Whitman. Mas eu estava muito inquieto e não me concentrava na leitura. Apaguei a luz e fiquei de frente para as estrelas. Que outros mundos habitados haveria no universo, ou aqueles minúsculos faróis acesos diante dos meus olhos eram apenas a luz que chegava de estrelas que já haviam se apagado há milhões de anos? Mas, naquele momento, que lugar era mais real que o meu leito no topo de uma montanha, no meio da Cordilheira e onde o andino e o amazônico estendiam seus braços para me amparar naquela noite? Creio que adormeci envolvido por esse enredo mágico e não sei onde me levaram e com quem estive em meus sonhos, porque nada interrompeu meu sono e somente acordei com os passos de algumas lhamas que, ao amanhecer, pastavam a poucos metros da “minha casa”. Elas vinham dos inúmeros terraços agrícolas. Era muito cedo e não havia ainda ninguém em toda a região urbana das ruínas. Levantei-me deslumbrado e a luz do sol ainda não havia transposto as montanhas do leste. Tinha a impressão que tudo renascia com a luz do sol e todo aquele mágico recanto do mundo parecia a imagem maternal da vida. Desci, caminhando descalço sobre a grama umedecida pelo rocio da madrugada, até uma fonte de água corrente que brotava das ruínas, e me lavei. Depois, acariciado pelo ar matutino das montanhas, subi lentamente para a parte superior, onde ficavam as grandes edificações e, sentado sobre a rocha sagrada do Templo do Sol, presenciei seus raios chegarem sobre o pico do Wayna Picchu, invadindo aos poucos todo o vale, envolto ainda numa bruma transparente. Ao redor da praça principal, a luz chegou afastando as sombras entre as paredes dos santuários, das torres e das tumbas. Ali fiquei por quase duas horas. Quanta subjetividade! Um ateu numa silenciosa prece, o olhar passeando respeitoso por um cenário de encanto, entre a praça e as ruínas ou sobrevoando o distante perfil das montanhas. Diante de uma paisagem que se iluminava sempre mais, o meu permanente espanto. Sentado sobre a lateral da grande pedra circular, majestosa e única, ali estive, na aldeia inesquecível do tempo, hipnotizado por tanta beleza, imaginando os dias em que, em seus jardins, as flores recendiam seu perfume pelo ambiente e as crianças corriam alegres pela praça.

Ollantaytambo, habitada desde o Império

Por volta das dez horas chegaram os primeiros mochileiros e espantaram-se com a minha presença, por estarem seguros que eram os primeiros que subiam, porque não havia hotéis nem casas lá embaixo. Somente a estação de trem e a casa dos poucos empregados. Disseram-me que haviam acampado perto da entrada da escadaria e ninguém subira antes deles. Eram os dois casais chilenos que desceram apressados o Wayna Picchu e disseram que sabiam que eu dormira nas ruínas, porque ninguém desceu depois deles. Perguntaram curiosos sobre minha experiência.

Aquele segundo e último dia revisitei e vasculhei outros recantos da cidade. Ainda pela manhã fui ao cemitério, andei pelos terraços agrícolas, descobri novas fontes e espreitei as encostas, os precipícios, observando de todos os ângulos o curso do Vilcanota, correndo em torno dos dois picos e serpenteando no sopé do Wayna Picchu. Eu sabia que aquelas águas um dia chegariam ao Brasil, através dos cursos do rios Ucaiali, Urubamba e Marañon e que ao entrar no território brasileiro passa a chamar-se Solimões. Mas só então, perto de Manaus, ao encontrar-se com o Rio Negro, e que recebe o nome de Amazonas. Em alguns momentos reencontrei os chilenos e foram eles que mataram a minha fome. No fim da tarde, desci para tomar o trem de volta a Cusco.

Quando o trem parou na estação de Ollantaytambo, subiram vários mochileiros. Um deles sentou-se ao meu lado e logo começamos a conversar. Acampara por dois dias em suas ruínas, onde estivera em missão de estudo. Estudava antropologia na Universidade de São Marcos, em Lima, e fora aluno do escritor José Maria Arguedas. Muito versado em cultura e arqueologia peruanas, falou-me da importância da arquitetura incaica do local, que na época todos chamavam de Fortaleza de Ollanta, dizendo que o que se via, através das janelas do trem, não dava a ideia da grandiosidade das suas ruínas interiores. Comentou que Garcilaso de la Vega referira-se a ela em seus Comentários Reales..., que aquelas fortificações foram construídas sob as ordens do Inca Wiraquocha  e que era, além de Cusco, a única cidade da época do Incário que ainda continuava habitada por mais de seiscentos anos. Em outras fontes da história de Cusco me inteirei que Simon Bolívar, no auge de sua glória de Libertador, depois das vitórias de Junín e Ayacucho, em viagem pelas províncias do sul, chegou a Cusco em 25 de junho de 1825 e visitou, dias depois, a fortaleza de Ollantaytambo.  Diante de sua grandeza, recomendou, por carta, a Hipólito Unanue,[9] as providências para sua conservação, afirmando que “a glória destes monumentos ainda em ruínas reclamam a favor dos seus autores, e não deve ser esquecida”.

(*) Este texto consta do livro NOS RASTROS DA UTOPIA: Uma memória crítica da América Latina nos anos 70, publicado por Escrituras em 2014.

[1] VARGAS, Víctor  Angles. Historia del Cusco Incaico. Cusco: Edição do autor, 1988, t. I, p.19-20.

[2] José Carlos Mariátegui (Moquegua, 1894 – Lima, 1930) Apesar de ter vivido apenas 35 anos, foi, por certo, o mais brilhante pensador peruano e o mais lúcido intérprete do marxismo latino-americano. Autodidata, jornalista, ensaísta e poeta, celebrizou-se através dos seus Sete ensaios de interpretação da realidade peruana, livro pelo qual tornou-se uma referência intelectual e política em todo o Continente e onde  analisa com clareza e originalidade o problema da terra e do indígena peruano e latino-americano.

[3] MARIÁTEGUI, José Carlos. Siete ensayos de interpretación de la realidad peruana.Lima: Amauta,   11ª ed., 1967, p. 146.

[4] TOYNBEE, Arnold J. De Leste a Oeste. Tradução de Aydano Arruda. São Paulo: Ibrasa, 1959, p.28.

[5] A ciência mostrou que a realidade perceptível ao olho humano é vista somente pela estreita “janelinha” das ondas de luz que compõem  parte do espectro eletromagnético, e que somos cegos a uma vasta faixa de radiação que se estende das altas frequências dos raios cósmicos, cujo comprimento de onda é de apenas um trilionésimo de centímetro, até as ondas de rádio, infinitamente longas.  

[6] Pachacútec (1.400? - 1471) foi a figura mais notável do Império inca antes da chegada dos espanhóis. Foi seu nono governante e o fundador do Império. Sábio e legislador, aboliu os sacrifícios humanos nos atos religiosos e pelo elevado espírito público reconstruiu Cusco, canalizando os rios que cruzavam a cidade e construindo calçadas, monumentos e palácios, num tempo em que a capital do Império tinha mais de cem mil habitantes. Instituiu o sistema de cultivo de terraços, com que se notabilizou o sistema comunista da agricultura inca.
Visionário e destemido guerreiro, defendeu o Império quando os ferozes Chancas estiveram a ponto de tomar Cusco. Posteriormente expandiu o Império até o Equador, chegando a ter o domínio de mais de quinhentas tribos com línguas, costumes e religiões diferentes.
Deixou seu nome imortalizado pela construção da cidadela de Sacsayhuaman, a cidade fortaleza de Macchu Picchu e a reconstrução, em Cusco, do Coricancha (Templo do Sol).

[7] Em seu livro Muchas Lunas en Machu Picchu, o escritor cusquenho Enrique Rosas Paravicino, conta que o astrônomo Sapan Huillcanina apresentou  ao inca Huayna Ccápac sua invenção de um sistema de escrita, baseado em setenta e nove signos pintados em pranchas de madeira, representando imagens de aves, plantas, montanhas, astros, flores, mãos humanas , garras de águia,  figuras do sol e da lua, etc.. Os signos representavam  o som da voz humana que, associados equivaliam a palavras, frases e pensamentos. Seu invento, no entanto, foi rejeitado pelos sábios do Imperador e as suas  tábuas da memória foram queimadas, posteriormente, por  um sacerdote espanhol como uma obra do diabo.

[8] PARAVICINO,  Enrique Rosas Muchas Lunas em Machu Pucchu, Lima: Huaca Prieta e Lluvia Editores. 2006, p. 216-218.

[9] José Hipólito Unanue y Pavón (1755-1833), médico, naturalista e político, foi um precursor da independência peruana. Amigo de Simon Bolívar, a quem atendeu como médico, revolucionou a medicina em seu país e, como presidente do Primeiro Congresso Constituinte do Peru, esteve à frente da comissão que redigiu a sua Constituição Republicana.



20 outubro 2015

Frederico Füllgraf - La Surfistinha, ou um bordel chamado Brasil


Crônica

Primeira semana do ano, a das ambigüidades entre aquilo que foi e o que ainda não é, a cidade murcha de trânsito insano e corrida consumista idem, flano aliviado pelas calçadas sem rostos conhecidos. 

Olhar fixo na livraria do outro lado da rua, com a duração de um cafezinho, questiono o silêncio do asfalto, o do mercado editorial sobre o assalto ao trem pagador da República, perpetrado desde 2003, mas descoberto apenas em 2005 - quem sabe, agora, alguma edição-relâmpago com o sugestivo título "Como nasci disléxico e se fiz celebridade" (Delúbio Soares, sem licença poética do Jamil Snege) ou "The truth - how I turned rowdy leftists into trustfull payers" (Duda Mendonça, "in exile"). Ou ainda a variante esotérica, o jornalismo destro sem provas em terra, apelando ao Além: "Os dólares de Fidel para o PT – Veja entrevista da testemunha morta em exclusiva sessão de psicografia".

Retorno à livraria já visitada antes do Natal, mas, nada, nada de realmente novo.


Lá dentro, o olhar distraído tenta evitar totens e torres com os "mais lidos" e os "recomendados" – em vão, pois o campo visual é fatalmente invadido pelos onipresentes Crichtons e quetais, das letras de aeroporto, e é quando Salinger e Updike costumam esconder-se... Na estante junto à parede percebo o valente fidalgo Quixote prensado por uma coletânea mix de auto-ajuda, e Quincas Borba pedindo socorro à beira de outra, da qual fatalmente será jogado ao chão por uma falange de entidades do Paulo Coelho.

Casais garimpam na estante de guias de viagem, a criançada folheia entediada o último volume de Harry Potter, até descobrir o presépio ainda armado na livraria. 


De repente, o inusitado: juntos, deparamos com ela, alojada entre Santa Claus, suando em bicas, e a guirlanda de anjos bochechudos, soprando fagotes, oboés e clarins d’anunciação do Cristo parido em Belém: Bruna Surfistinha, ostentando um piercing labial ! 

– Mãe, meteram um prego na boca dela, que nem no Jesus ? 
– Não, minha filha, ela não é santa, pregos são... ah, sai daí, menina, vam’bora ! 

Desconcertados diante do insólito, os pais arrastam seus filhotes para longe do execrável altar, mas não sem lançar um furtivo olhar àquela torre de exemplares com capa negra e o culto ao signo das águas turvas, tatuado no ombro direito da autora: "O doce veneno do escorpião – O diário de uma garota de programa"; rosto sem beleza, algo frio. E  vulgar.

Bruna, contudo, é a face assumida do bordel chamado Brasil, cuja carranca enrustida bate o pé teimosamente e não se revela, mesmo flagrado com as verdinhas na cueca – "nada está provado !".


Mas, não é por esse nobre motivo que os livreiros a posicionam na entrada e, sim, porque Bruna vende. Sempre vendeu(-se) bem e este é o primeiro "recado" da crônica de Raquel Pacheco, a jovem cuja persona atende por Bruna Surfistinha: "mulheres, a putaria é dinheiro fácil !, o cansaço e o arrependimento vêm depois, mas isto já é outra história" (associação nada forçada: terá sido remorso o motivo da peregrinação do "Fristão" José Dirceu até o "bruxo" Paulo Coelho, aos pés dos Pirineus? By the way, Mônica Bergamo: belas fotos, adorei o chapéu do Paulo, sempre elegante, mas o do Dirceu está ao contrário – alguma senha??).

Senhas!

Durante minha deambulação pela livraria desconfio que o novo ano nasce sob o signo da comunicação elíptica, por senhas. Ou qual teria sido o motivo da visibilidade dada às putas de García Márquez na vizinhança de Bruna ? Putas pero nobles, parecem querer dizer. Mas, Bruna as interrompe, com toda a brutalidade: o Brasil é uma imensa casa de tolerância e o que importa é ser "vencedor/a". 

E descreve seu ofício com a frieza de uma máquina registradora: corpo é igual a mercadoria, mero objeto de troca a serviço da acumulação – uma epifania do capitalismo...

Sem comentários

A trajetória de Bruna não é o conto da carochinha da "mulher pobre, puta por obrigação". A sua é a crônica da bad girl de classe média, com raízes fincadas no tecido emocional da família brasileira desestruturada. 

Raquel Pacheco não conheceu seus pais sanguíneos. Na adolescência descobriu-se filha adotiva de uma família de classe média paulistana. Parecem tê-la amado como se fosse legítima, amor, no entanto, insuficiente (ou impotente) para consertar sua identidade fraturada. Aluna de colégios da classe média alta de São Paulo, como o Dante Alighieri, Raquel aprontou; com notas baixas, mau comportamento, uma irrefreável pulsão por comprar e acumular futilidades. Daí o dinheiro furtado da carteira dos pais adotivos e depois as drogas. Espancada pelo pai (até aí descrito como um homem bonachão), recolhe alguns trapinhos, a mãe se esquiva ao seu abraço de despedida, mortificada coloca sua mochilinha nas costas - e cai na vida.

Após sujeitar-se ao "vintão" (sistema altamente rotativo de prostíbulos da Boca do Lixo, ao preço de 20 Reais por quinze minutos), aluga o flat de sua consagração. Depois de plantar um blog na Internet (que no portal iBest atingiu o ápice de visitação e, com isso, a reverberação e celebrização nas mídias escrita e eletrônica, de Vogue ao Programa do Jô), já encarnando o personagem de Bruna e mal completando dezoito anos, Raquel liberta-se do domínio por cafetinas e leões-de-chácara, criando seu próprio "negócio". 


O viril metal Bruninha o acumula com frenesí e eficiência de encabular os cruéis capitalistas fundacionais de Manchester. Lá, teares primitivamente mecanizados, aqui hi-tech da virtualidade. Criativa, usa um CD com uma hora de música romântica como temporizador, mas é rigorosa na aplicação da lei No. 1 do meretrício (ou da acumulação ?): o prazer tem seus minutos contados, é de vida curta !! São cinco programas por noite, a uma hora cada, vezes 200 Reais em média, sem direito a pechincha. Calculadora, para quê ? Dá um pau redondão, quer dizer, um mil Reais por noite, cinco mil Reais por semana (de cinco dias úteis, porque nem a Bruna é de ferro e pausa seus músculos... profissionais nos finais de semana), o que totaliza vinte mil Reais por mês – índice de produtividade de enrubescer tecnocratas do recessivo ministério da fazenda.

Raridade meritória do livro é sua revelação de uma espécie de "história da vida privada inconfessável" dos brasileiros, machos: edipianos doentios, quarentões ainda fantasiando em fazer sexo com a própria mãe, pedófilos, perversões masculinas diversas (objetos de respeitável tamanho e periculosidade, introduzidos em lugar impróprio..) – uma clientela voraz, setenta por cento dela de homens casados. Sem pudor, Bruna Surfistinha expõe taras, variantes do inimaginável repertório de posições e acrobacias, que transformaram o leito dos amantes em esteira de performances neuróticos. Ah, e as fantasias inconfessas, agora tornadas rito de iniciação da própria narradora.

Sempre ri muito quando um amigo, ex-guia turístico e agora tradutor simultâneo em Bruxelas, dizia, jocoso e envaidecido, para seus amigos estrangeiros: "O Brasil é o único país do mundo onde as prostitutas gozam !", sinalizando a presença proibitiva do desejo no ato comercial da prostituta. A exposição de Bruna por Raquel cai como uma luva na tese do amigo: sua persona é uma furiosa máquina registradora, mas seu alter-ego uma mulher que gosta de sexo, de troca de casais em swing-clubes, de orgasmos que lhe são ditados pela empatia alquímica em taras migratórias do corpo masculinos para o de uma mulher. Raquel é bissexual, Bruna sua ferramenta. 


A voracidade alterna com ternura e vice-versa. Maternal, Bruna estima que cinqüenta por cento de sua clientela masculina usa grande parte do tempo do programa, para babar suas confissões e desabafos (de mal amados, mal compreendidos, mal resolvidos) no decote dela, antes que Bruna desnude suas carnes alugáveis. Enternecedor não fosse irritante, é seu flerte com a Psicologia. Vende-se como o último grito do gênero auto-ajuda, com direito a "conselhos" para homens e mulheres casados: quem transa bem, não precisa do serviço das "primas" (pensando bem, uma observação absolutamente correta..).

 "Encarei como se fosse uma ‘missão’. Um dia, encontrarei a resposta disso", escreve Raquel em outubro de 2005, despedindo-se de sua personagem Bruna Surfistinha e da prostituição. Anjo caído do signo de escorpião, seu arquétipo reverbera na ironia do mito de Demétria e sua filha Core, que nos descreve um rito de iniciação feminina.  Virgem, Core é raptada por Plutão, o deus das profundezas, e levada ao Hades, o mundo dos mortos. Inicialmente, é toda susto e pavor, seus gritos sacodem as montanhas. No Hades, contudo, sente-se atraída pelo "homem escuro", come o caroço do romã e celebra simbolicamente seu casamento.

Demétria, no entanto, desespera-se de tal forma com a perda da filha, que amaldiçoa a terra com completa esterilidade, até os deuses dela se compadecerem: permitirão que Core conviva dois terços do ano com sua mãe, o terço restante, porém, deverá partilhar com seu marido nas escuras profundezas. Fiel ao roteiro de todo herói, Core saberá usar da astúcia e driblar o destino, retornando ao mundo de sua mãe com o novo nome de Perséfone. Quer sinalizar a estorinha, que Core transmutou-se durante sua estada no Hades (a inconsciência ?), morrendo como filha, nascendo como mulher; consciente, madura.

Prostituere em Latim é colocar-se na frente, expor-se, prostituição significa fantasia de entrega. 


É essa fantasia de expor o corpo que movimenta homens e mulheres. Dando voz ao cochicho sussurrado nos travesseiros das melhores famílias, mas raramente admitido por homens e mulheres (a fantasia da "puta na cama"), a psicanalista gaúcha Eliana dos Reis Calligaris ("Prostituição: o eterno feminino") afirma com voz bifronte que a palavra puta produz efeitos, que vão da excitação à ofensa. E essa duplicidade significa para uma mulher administrar um malabarismo, quando ela tem que sair do olhar do pai e dirigir-se a outros homens. A advertência: se uma mulher não tem acesso a essa fantasia, não terá acesso ao gozo sexual porque, se ela não puder entregar seu corpo de uma forma digamos "sem segundas intenções", não terá acesso ao gozo.

Raquel Pacheco parece não ter conseguido administrar o malabarismo e Bruna mergulhou de corpo na transgressão. Três anos depois, de alma  machucada (ou lavada?), Raquel ajoelha diante da nação como a sacerdotisa hindu, que fez sexo por dinheiro, para preservar a sacralidade do templo, ou prostituta respeitosa, que se descobre esposa e pilar da sagrada família. A frase lapidar da "vitoriosa" em um jogo, cujos fins, no Brasil, sempre justificam os meios ("Não me arrependo de nada. Era para eu ter sido prostituta! E fui"), ouve-se cínica como "PT, saudações" – soa familiar? O balanço de 2005 parece ser essa vulgaridade exposta: a pátria como casa de tolerância. Mas, sejamos generosos: afinal, Cristo lavou os pés de Maria Madalena...


* publicado originalmente na revista eletrônica Cronópios, 05/01/2006

22 julho 2015

Frederico Füllgraf - O Papa, a Pachamama e o Mar Boliviano