22 outubro 2015

Manoel de Andrade: UMA NOITE EM MACHU PICCHU





Na memória de Cusco

A cidade de Cusco ficou na memória dos meus anos. Milenar e sagrada, reservada e cosmopolita, a cidade engastada qual uma concha geológica num rico vale entre montanhas de mais de três mil metros, foi a capital de um reino que durou trezentos anos, e cujas obras foram construídas para a eternidade. Pachacútec, Túpac Yupanqui e Waina Cápac marcam a glória de um século em que o império se estendeu da Colômbia até as fronteiras meridionais com o Chile e a Argentina, abarcando parte da selva amazônica, numa extensão maior do que o império romano. Cusco era a capital desse colosso territorial, o ventre da pátria peruana e o berço da sua infância nacional. Era a cidade viril, máscula, monumental. Quando Lima nasceu, parida pela estratégia, a ambição e a vaidade espanhola, representava a imagem da cidade feminina, moldada pelos caprichos e a sensualidade dos conquistadores. Cusco, encravada nas alturas, simbolizava a resistência, o palco espartano das grandes batalhas, a imagem rebelde de dois comandantes: Túpac Amaru I e Túpac Amaru II, ambos ali martirizados, em 1572 e 1781, respectivamente.

Aquí unificó pueblos y enseñó técnicas Manco Cápac, personaje escapado de la leyenda que puso los cimientos del más grande imperio de la América india.  En Cusco nació y vivió “el más grande hombre que há producido la raza aborigen americana” a decir de Markham, refiriéndose al “transformador del mundo” a Pachacútec. En esta cuidad se aposentaron los Pizarro y los Almagro y varios de ellos dejaron sus huesos. Aquí también sucumbió el incanato con el asesinato “legal” de Túpac Amaru en 1572 bajo la mirada del duro virrey Toledo. Aquí nació la idea y la lucha independentista peruana con Manco Inca que levantó al Perú contra los españoles en 1536, y con José Gabriel Túpac Amaru en 1780.  En Cusco se gestó la idea y se organizó la expedición que descubrió Chile, jefaturada por Almagro “el viejo”, (…); en Cusco se organizó la expedición de Pedro de Valdivia para colonizar Chile; en esta ciudad se organizó la expedición que partió hacia Quito y luego el País de la Canela, descubriendo el Amazonas; (…) La ciudad aclamó a Simón Bolívar después de la batalla de Ayacucho.”[1]

Parecia inacreditável estar finalmente em Cusco, a cidade atemporal e histórica, lendária e real, fundada por Manco Cápac há mil anos, capital de um império teocrático, cuja misteriosa origem pairava em cada vestígio do tempo, no espírito da cultura, sobrevivendo nos monumentos portentosos, nas imensas pedras lavradas, adornando os grandes portais, pátios e arcadas. Depois chegaram os “deuses” da Espanha, violentando seus santuários e abrindo seu relicário de artes sagradas, construindo a catedral majestosa com seus dois campanários, dominando toda a praça adornada internamente com a simbologia da fé cristã. As demais igrejas, os altares dourados, o esplendor dos vitrais da Igreja da Companhia, o Convento de Santo Domingo, construído e reconstruído, depois do terremoto de 1950, sobre as ruínas de  Corikancha, o Templo do Sol. Eu agora estava ali, no “umbigo” do mundo, refletindo a glória do período de Pachacútec, seu filho Túpac Yupanki e a extensão do imenso império, depois da grande vitória de Yahuarpampa sobre os Chancas e a anexação do Reino Chimú. Um lustro de esplendor, domínio e conciliação de tantas tribos. Cusco era a capital sagrada de um mundo construído ao longo de cinco mil quilômetros de montanhas e tudo ali, para mim, era magia, um poder sagrado encravado na paisagem imóvel e eloquente da cidade, pronunciada pelo tempo como a mais antiga da América e espiritualmente envolvida por uma secreta religiosidade vinda não da religião dogmática dos conquistadores, mas do passado panteísta do Tawatinsuyo, onde o céu e a terra são representados na cosmovisão inca da Pachamama, a Mãe Terra, e onde a política e a religião, o templo e o palácio, o Sol e o Inca se identificavam no mesmo sentimento, na mesma fé e na mesma submissão. Para o habitante do Império, a religiosidade era vivenciada, diária e incondicionalmente, na sua ética e na sua conduta social, muito mais voltadas para o sentido agrário e material da vida, do que para qualquer forma de transcendência. Mariátegui [2] que penetrou, com precocidade histórica e, também, com  genial precocidade intelectual, no âmago cultural do problema indígena peruano afirma, ao analisar o Fator Religioso que:

 “O povo incaico ignorou toda a separação entre a religião e a política, toda diferença entre Estado e Igreja. Todas  suas instituições, como todas suas crenças, coincidiam estritamente com sua economia de povo agrícola e com seu espírito de povo sedentário. A teocracia apoiava-se sobre o comum e o empírico; não na virtude taumatúrgica de um profeta nem de seu verbo. A religião era o Estado.” [3].

Machu Picchu. “Acreditará alguém no que encontrei?

Dia 29 de outubro dce 1969, saí de viagem para Machu Picchu. O trem correu a manhã inteira pelo Vale Sagrado, ziguezagueando, sempre subindo, passando por regiões agrícolas, pomares, mostrando os frutos negros do capuli, vales povoados de lhamas, salgueiros debruçados sobre os cursos de água, altas encostas rochosas, o estreito caminho beirando os precipícios, assustadoras gargantas, corredeiras.  Depois..., a descida para o vale do Vilcanota e a exuberante vegetação que já anuncia a flora amazônica. No decorrer da viagem viam-se caminhos e trilhas abandonadas, onde corriam, séculos atrás, os chasquis, os mensageiros do correio inca que atravessavam todo o império, do sul da Colômbia até o norte da Argentina.  A dois terços do caminho passamos pelas ruínas da Fortaleza de Ollantaytambo e chegamos a Águas Calientes, onde todos descem para almoçar e comprar lanches e onde desembarcam quase todos os indígenas. Poucos quilômetros adiante, por volta de treze horas, o trem chegouem Machu Picchu, com uns trinta turistas. Tudo era muito precário. Pagava-se uma pequena taxa e subia-se uma longa e empinada escadaria até o plano das ruínas, onde um jovem recebia o boleto num pequeno portão de entrada, dizendo que a visita se encerraria às dezessete horas. Não havia guia para explicar a disposição dos monumentos, mas eu trazia de Cusco alguns postais legendados e um folheto explicativo. Os passageiros de Cusco, e alguns mochileiros que haviam embarcado em Ollantaytambo, espalharam-se pelas ruínas da entrada. Juntei-me a três mochileiros argentinos e um deles já conhecia o local. Era emocionante dar os primeiros passos em Machu Picchu, “o grande pico” e começamos perambulando pelas ruínas da entrada, seguimos para a íngreme subida do Wayna Picchu numa cansativa caminhada de  uma hora, por uma difícil trilha de pedras. A recompensa estava lá, nas alturas: uma visão deslumbrante de toda a paisagem montanhosa e dentro dela a visão lá embaixo, distante e completa, das  ruínas da Cidade Sagrada, sobre o dorso planificado da montanha. Hoje, na distância de quatro décadas e com outras visões do mundo, posso dizer que foi o que de mais deslumbrante entrou pelos meus olhos. O historiador Arnold Toynbee, que no início de 1956 passou pela região em sua viagem em torno do mundo, conta, em seu livro De Leste a Oeste, do seu espanto ao chegar em Machu Picchu. Sobre “o pequeno pico” diz ele:

Wayna Picchu! Ele se ergue para o céu como a agulha da torre de uma catedral gigantesca. E a cidade pousada entre os dois picos equipara-se em grandeza ao seu ambiente natural, embora o supere em mistério. Jamais atingida pelos conquistadores espanhóis do Império Inca, ela foi posta a nu por um explorador norte-americano, Hiram Bingham. Este irrompeu através da selva que protegia a cidade e trouxe-a  para a luz como uma bela adormecida.” [4].

Depois descemos o Wayna Picchu e entramos por um desvio aonde se chega ao pequeno Templo da Lua. Lá pelas quatro e meia da tarde muitos já saíam para pegar o trem. Mas eu  decidi me ocultar para  passar a noite dormindo nas ruínas.

Guardo muitas lembranças que me encheram os olhos nas paisagens dos caminhos: Canyons gigantescos, precipícios profundos, altas passagens no centro-sul dos Andes, densas florestas, verdes vales cultivados, as travessias do Atacama e do Chaco paraguaio, baías deslumbrantes, rios imensos, lagos escondidos na intimidade das montanhas e a visão inesquecível do Titicaca. Mas Machu Picchu era magicamente diferente. Tudo ali era solene e sagrado. Circundada pelo rio Vilcanota, cujas águas ligeiras correm em torno dos picos de Machu Picchu e Huayna Picchu e cercado de altas montanhas, a cidade é única em majestade, isolamento e beleza. “Acreditará alguém no que encontrei?”, foi com essa frase que o antropólogo Hiram Bingham registrou seu espanto, no livro “A Cidade Perdida dos Incas”, ao descobrir as ruínas de Machu Picchu, em 24 de julho de 1911.

Minha noite solitária em Machu Picchu

No fim da tarde, quando o trem já havia partido, apareceram outros mochileiros, descendo apressados do Wayna Picchu e me disseram que iam acampar lá embaixo. Perguntaram se eu não iria descer, porque era proibido ficar à noite entre as ruínas. Depois disso, eu me encaminhei para a parte alta da entrada, onde ficava o local das moradias. Abri minha mochila, escrevi no meu diário e quando a penumbra invadiu o ambiente, estendi meu saco de dormir no canto de uma peça, para ali passar a noite. Era primavera e estava fresco, quase frio a2.400 metros de altitude. E ali estive muito tempo, envolvido pelo entardecer e debruçado sobre a parte baixa das paredes do meu “aposento”, olhando o perfil das montanhas, a silhueta vertical do Wayna Picchu. Sentia que algo faltava no meu íntimo e o que faltava era a ansiada experiência da noite que me propus passar na solidão das ruínas. Ali fiquei, esperando que a lua aparecesse. Guimarães Rosa escreveu que: “esperar é reconhecer-se incompleto”. E era assim que minha expectativa fazia-me sentir: incompleto, perante a expectativa daquela experiência noturna em Machu Picchu e incompleto até hoje, porque o conhecimento, quanto maior, mostra-nos que muito maior se torna a consciência do que ignoramos. As primeiras estrelas que surgiam e toda aquela paisagem noturna passava a ser só minha e parecia existir somente pela minha consciência sobre ela. Lembro-me que havia uma passagem no romanceA Náusea, de Jean Paul Sartre em que o personagem -- Antoine Roquetin  -- estava sentado diante de um amplo vale e achava que tudo aquilo somente existia pela sua consciência e que se aparecesse outra pessoa tomando consciência do ambiente, a paisagem já não era só sua. Bem, era assim que eu me sentia, porque sabia que estava absolutamente sozinho naquele lugar fantástico. A lua surgiu, iluminando a vaga escuridão e uma onda de mistério começou a rondar minha mente.

Imaginava como teria sido a vida dos habitantes que ali viveram nos dias doTawatinsuyo. A sua anímica religiosidade povoada de deuses, os rituais sagrados, as cerimônias no Templo do Sol e da Lua. Ali tudo se pronunciava em silêncio: as ruas, as praças, as escadarias, o caminho que levava ao Wayna Picchu. Ali tudo era uma “saudade de pedra”, embora não fosse o cais a que se referiu Fernando Pessoa em sua Ode Marítima. A memória histórica de tantos fatos era conduzida por minha excessiva imaginação e algo estranho me acontecia aquela noite. Era como se minhas evocações mentais abrissem uma sintonia com outro plano de pensamento.

Eu era, naquela época, um incrédulo, com uma visão materialista do mundo e a vaga noção de transcendência vinha dos diálogos de Platão, de Fédon, sobretudo, do conceito socrático de imortalidade e do mundo platônico das ideias. E me perguntava se a minha consciência era a única presença mental naquele espaço. Ou haveria um ambiente paralelo, um outro plano, ou seja, se por trás da realidade objetiva e da nossa limitada visualidade, haveria o que alguns filósofos chamaram de um mundo fantasma de percepções, ou de energias distintas, como estabeleceu a ciência nas muitas faixas de ondas no espectro eletromagnético!? [5] Haveria uma Machu Picchu invisível, uma Cidade Sagrada paralela, nas ruínas de um plano astral, com presenças espirituais ao meu lado? Quem sabe as almas dos que ali viveram no passado ou talvez o espírito protetor e “ciumento” do Imperador Pachacútec[6] --- que, em 1452, colocara a primeira pedra e convocara o arquiteto Apomayta para construir Machu Picchu, fundada com o nome mítico de Huiñaymarca (Cidade Eterna) e que depois, estrategicamente, passou a denominar-se Vitcos, para iludir a ganância dos espanhóis na sua busca do El Dourado. Onde estariam as almas das duzentas sacerdotisas, as virgens que cultuavam o sol, trazidas às pressas de Ajjllahuasi, a residência das vestais, em Cusco, antes que lá chegassem os sanguinários e depravados espanhóis?










Quem sabe a Cidade Numinosa ainda existisse, alimentada pela possível imortalidade dos seus “mortos”, reconstruída incessantemente pela paisagem mental dos seus arquitetos, sacerdotes, vestais, amautas e haravicus (poetas)! Medo do invisível? Não, nenhum... Enquanto escrevia meu diário, uma ideia se impunha em minha mente, como a dizer que eu era bem-vindo e esperado ali, que eu fora mentalmente induzido àquela casa e que eu não poderia ter ido dormir nos templos. Que isso teria sido uma profanação. Depois, tudo foi substituído por um imenso bem-estar, por uma inexplicável confiança e a isso sobreveio a sublime catarse daquela absoluta solidão, do silêncio perfeito e a imaginação, buscando a vida e os rastros indeléveis dos que viveram um dia no cotidiano encantado daquele fantástico local. Quantas preces e rituais, quantos amores, quantos dramas, quantas danças e cantares, quantos sonhos se sucederam atrás daquelas ruínas, ali sepultadas pelo tempo!?

Meu espírito bebia o mistério de um tempo que eliminava seus próprios limites. Um tempo que a memória tornou mágico, aleatório, fora da linearidade cronológica, um tempo permanente, sustentado pelo encanto e onde havia a beleza de uma grande literatura, embora não fosse escrita, porque os incas não conheciam a escrita, fonética ou pictográfica. “Escreviam” nas páginas da memória com a expressão da oralidade.[7]. Os poetas escreviam seus “jailli” ao Sol, à Lua, à Wiracocha e à Pachamama. Havia um teatro de tragédias e comédias composta pelos amautas, filósofos do império, cujas cenas eram dramatizadas diante da nobreza inca. Havia uma prosa quíchua, composta de fábulas e lendas e suas preces ao Senhor da vida chegam a lembrar a beleza da Prece de Cáritas. Diziam eles, com fervor:

Oh Fazedor, felicíssimo, venturoso Fazedor, que tens misericórdia e piedade dos homens; olha teus servos, pobres desventurados, que tu criaste, e a quem deste o ser; tem piedade deles, vivam com saúde e salvos com seus filhos e descendentes, caminhando pelo reto caminho sem pensar na maldade! Vivam longo tempo, que não morram em sua juventude, que não passem fome e vivam em paz.”

Minha alma de poeta buscava, naquela abstração, um “encontro” com o lirismo panteísta dos haravicos, os jograis que levavam a tradição oral do povo pelos quatro cantos do império e por certo ali passaram declamando seus poemas, cantando os huaynos, contando os mitos e as lendas dos antepassados. Quem sabe seus gestos e suas vozes estivessem e ainda estejam ali registrados numa tela misteriosa que as filosofias orientais chamam de registros acásicos, uma memória universal contendo todo o conhecimento do passado.

Intihuatana , a pedra que amarrava o sol

Tudo o que eu havia lido sobre os Incas borbulhava aquela noite, atropelando-se no torvelinho incessante da memória. Ali fora a capital sagrada de um império que possuía uma organização político-religiosa e social perfeita. A produção agrícola partilhada como uma devoção à Terra, e as misteriosas construções do seu gigantesco império. Que fatores astronômicos ou geográficos determinaram as localizações de Macchu Picchu, de Cusco e Ollantaytambo, assim como o platô de Nazca e suas estranhas figuras? Que misteriosos significados havia por trás daquela famosa pedra de Intihuatana, ali em Macchu Picchu, um relógio solar, por onde se chegava através de uma escadaria, tido como um poderoso centro de energias cósmicas, cultuada ainda hoje pelos indígenas e por místicos e esotéricos? Lavrada num único bloco e embora não fosse grande, a forma enigmática e sua posição soberana no terraço mais alto das ruínas, sugeria-me uma inesgotável e mística curiosidade. Decompondo seu significado, inti significa sol e huatama significa amarrar. E daí a pergunta: Estaria aquela pedra posicionada em função dos pontos cardeais do mundo? Seria ali o lugar onde os incas pensavam “amarrar” o sol? Seria ela o centro energético e teocrático do Império? Suas profundas relações com o além são surpreendentemente cada vez maiores, à medida que sucessivas investigações são feitas pelos pesquisadores e, muitos livros, alguns interessantes, outros exagerados, têm procurado interpretar o significado espiritual da pedra deIntihuatana e os desenhos de Nazca.

Como teria sido composta a família e a quem pertencera aquela casa onde eu me “hospedaria” aquela noite? As informações históricas afirmam que na Cidade Sagrada viviam cerca de três mil pessoas e que a grande maioria eram mulheres: as sacerdotisas . Nunca se soube ao certo sobre a vida social de Machu Picchu e há quem afirme que muitos morreram de uma epidemia, ou que os sobreviventes abandonaram o local em 1572, depois da execução do último inca.

En toda La Ciudad Oculta, la noticia de la muerte de Túpac Amaru corrió de casa en casa y, de inmediato, se oyeron grandes lamentaciones de dolor y voces duras que recriminaban  a los bárbaros y a sus crueles divinidades de madera. (...) Todos cantaram con la misma voz del corazón el Phuluya Phuluya Huila o “La Canción de los Difuntos”, (...)
Anda, señor mio, derecho a la luz
                        no te inquiete el rayo de la muerte
                        ni te hostiguen las voces perversas
                        tu cuerpo que fue de hueso noble
                        ahora es filamento de niebla.

                        Que tu viaje sea guiado por la luna
                        que te cubra de amor el arco iris
                        no mires el vacío de los abismos
                        ni hagas caso de los rencores
                        anda nomás, nobilísimo difunto,
                        derecho al país de los ancestros.

  (...) Durante todo ese tiempo, Vitcos (a pesar de los vientos de guerra y de la viruela) fue la activa y numinosa Ciudad de los Ritos, pero a partir de mañana debería convertirse, inevitablemente. En la Ciuda de los Muertos, una estancia privativa de los antepasados y de sus maneras de pasar la eternidad. (...)

Muchísimo tiempo después el nombre de la ciudad sería olvidado. Las nuevas generaciones terminarían atribuyéndola solo la denominación del cerro que la cobija: Machu Picchu” [8].

Naquela noite, relata ainda o autor, acenderam-se fogueiras para iluminar, com o clarão das chamas e os gestos do coração, a glória final do Tawantinsuyo. Era o grande ato religioso no final do império. O último suspiro do longo estertor político do incário. Foi a derradeira noite habitada na Cidade Sagrada, e no dia seguinte, tudo seria abandono. O que ficou, seria encontrado somente 339 anos depois, retirando do silêncio o grande segredo dos incas. As ruínas contariam, com sua mudez, a história fascinante do sacrário de um povo, construído nas montanhas. A história de uma civilização abatida pela cobiça e pelo fanatismo, mas que renasceria de suas cicatrizes, sublimada, nos séculos seguintes, nas grandes expressões da arte, da música e na literatura.

Naquele momento, Machu Picchu ali estava, impassível e enigmática diante do meu espírito. Mesmo os arqueólogos ainda não decifraram o mistério que envolveu a vida naquele local. E eu, um mero viandante do tempo, chegara ali 397 anos depois, e ousava perguntar, mentalmente, quem teria sido a última pessoa que dormiu naquela peça onde eu iria passar a noite. Quem sabe naquele quarto ela tivesse agonizado de varíola ou tivesse derramado suas lágrimas pela cruel execução de Túpac Amaru. Quem sabe seus restos repousassem ainda no grande cemitério à direita, na parte baixa das ruínas. Eu observava aquelas pedras perfeitamente encaixadas. Eram os documentos “vivos”, as silenciosas testemunhas de tantos seres que ali conviveram. Lembrei-me dos meus estudos de história e de Cecília Westphalen, aquela fantástica professora e historiadora que me motivou a ler Fernand Braudel, e ele dizia que a história não é apenas a ciência do que muda, mas também daquilo que ficou e permanece imutável. Sim, permanecia ali uma legião imutável de testemunhas. E era assim que eu me sentia, no irreal torvelinho de minha consciência, cercado por uma “nuvem de testemunhas” como afirmou Paulo de Tarso. E era preciso “ver” o que havia atrás, muito atrás das aparências, porque agora eram meras paredes. Já não havia abrigo, nem fogo, nem calor humano. Já não havia teto. E se chovesse? Mas não, o céu estivera azul durante todo o dia e a lua começava a surgir na parte oriental do cenário.

Um ateu na Cidade Sagrada

O frio foi chegando e finalmente entrei em meu saco de dormir. Acendi minha pequena lanterna e li algumas páginas de Walt Whitman. Mas eu estava muito inquieto e não me concentrava na leitura. Apaguei a luz e fiquei de frente para as estrelas. Que outros mundos habitados haveria no universo, ou aqueles minúsculos faróis acesos diante dos meus olhos eram apenas a luz que chegava de estrelas que já haviam se apagado há milhões de anos? Mas, naquele momento, que lugar era mais real que o meu leito no topo de uma montanha, no meio da Cordilheira e onde o andino e o amazônico estendiam seus braços para me amparar naquela noite? Creio que adormeci envolvido por esse enredo mágico e não sei onde me levaram e com quem estive em meus sonhos, porque nada interrompeu meu sono e somente acordei com os passos de algumas lhamas que, ao amanhecer, pastavam a poucos metros da “minha casa”. Elas vinham dos inúmeros terraços agrícolas. Era muito cedo e não havia ainda ninguém em toda a região urbana das ruínas. Levantei-me deslumbrado e a luz do sol ainda não havia transposto as montanhas do leste. Tinha a impressão que tudo renascia com a luz do sol e todo aquele mágico recanto do mundo parecia a imagem maternal da vida. Desci, caminhando descalço sobre a grama umedecida pelo rocio da madrugada, até uma fonte de água corrente que brotava das ruínas, e me lavei. Depois, acariciado pelo ar matutino das montanhas, subi lentamente para a parte superior, onde ficavam as grandes edificações e, sentado sobre a rocha sagrada do Templo do Sol, presenciei seus raios chegarem sobre o pico do Wayna Picchu, invadindo aos poucos todo o vale, envolto ainda numa bruma transparente. Ao redor da praça principal, a luz chegou afastando as sombras entre as paredes dos santuários, das torres e das tumbas. Ali fiquei por quase duas horas. Quanta subjetividade! Um ateu numa silenciosa prece, o olhar passeando respeitoso por um cenário de encanto, entre a praça e as ruínas ou sobrevoando o distante perfil das montanhas. Diante de uma paisagem que se iluminava sempre mais, o meu permanente espanto. Sentado sobre a lateral da grande pedra circular, majestosa e única, ali estive, na aldeia inesquecível do tempo, hipnotizado por tanta beleza, imaginando os dias em que, em seus jardins, as flores recendiam seu perfume pelo ambiente e as crianças corriam alegres pela praça.

Ollantaytambo, habitada desde o Império

Por volta das dez horas chegaram os primeiros mochileiros e espantaram-se com a minha presença, por estarem seguros que eram os primeiros que subiam, porque não havia hotéis nem casas lá embaixo. Somente a estação de trem e a casa dos poucos empregados. Disseram-me que haviam acampado perto da entrada da escadaria e ninguém subira antes deles. Eram os dois casais chilenos que desceram apressados o Wayna Picchu e disseram que sabiam que eu dormira nas ruínas, porque ninguém desceu depois deles. Perguntaram curiosos sobre minha experiência.

Aquele segundo e último dia revisitei e vasculhei outros recantos da cidade. Ainda pela manhã fui ao cemitério, andei pelos terraços agrícolas, descobri novas fontes e espreitei as encostas, os precipícios, observando de todos os ângulos o curso do Vilcanota, correndo em torno dos dois picos e serpenteando no sopé do Wayna Picchu. Eu sabia que aquelas águas um dia chegariam ao Brasil, através dos cursos do rios Ucaiali, Urubamba e Marañon e que ao entrar no território brasileiro passa a chamar-se Solimões. Mas só então, perto de Manaus, ao encontrar-se com o Rio Negro, e que recebe o nome de Amazonas. Em alguns momentos reencontrei os chilenos e foram eles que mataram a minha fome. No fim da tarde, desci para tomar o trem de volta a Cusco.

Quando o trem parou na estação de Ollantaytambo, subiram vários mochileiros. Um deles sentou-se ao meu lado e logo começamos a conversar. Acampara por dois dias em suas ruínas, onde estivera em missão de estudo. Estudava antropologia na Universidade de São Marcos, em Lima, e fora aluno do escritor José Maria Arguedas. Muito versado em cultura e arqueologia peruanas, falou-me da importância da arquitetura incaica do local, que na época todos chamavam de Fortaleza de Ollanta, dizendo que o que se via, através das janelas do trem, não dava a ideia da grandiosidade das suas ruínas interiores. Comentou que Garcilaso de la Vega referira-se a ela em seus Comentários Reales..., que aquelas fortificações foram construídas sob as ordens do Inca Wiraquocha  e que era, além de Cusco, a única cidade da época do Incário que ainda continuava habitada por mais de seiscentos anos. Em outras fontes da história de Cusco me inteirei que Simon Bolívar, no auge de sua glória de Libertador, depois das vitórias de Junín e Ayacucho, em viagem pelas províncias do sul, chegou a Cusco em 25 de junho de 1825 e visitou, dias depois, a fortaleza de Ollantaytambo.  Diante de sua grandeza, recomendou, por carta, a Hipólito Unanue,[9] as providências para sua conservação, afirmando que “a glória destes monumentos ainda em ruínas reclamam a favor dos seus autores, e não deve ser esquecida”.

(*) Este texto consta do livro NOS RASTROS DA UTOPIA: Uma memória crítica da América Latina nos anos 70, publicado por Escrituras em 2014.

[1] VARGAS, Víctor  Angles. Historia del Cusco Incaico. Cusco: Edição do autor, 1988, t. I, p.19-20.

[2] José Carlos Mariátegui (Moquegua, 1894 – Lima, 1930) Apesar de ter vivido apenas 35 anos, foi, por certo, o mais brilhante pensador peruano e o mais lúcido intérprete do marxismo latino-americano. Autodidata, jornalista, ensaísta e poeta, celebrizou-se através dos seus Sete ensaios de interpretação da realidade peruana, livro pelo qual tornou-se uma referência intelectual e política em todo o Continente e onde  analisa com clareza e originalidade o problema da terra e do indígena peruano e latino-americano.

[3] MARIÁTEGUI, José Carlos. Siete ensayos de interpretación de la realidad peruana.Lima: Amauta,   11ª ed., 1967, p. 146.

[4] TOYNBEE, Arnold J. De Leste a Oeste. Tradução de Aydano Arruda. São Paulo: Ibrasa, 1959, p.28.

[5] A ciência mostrou que a realidade perceptível ao olho humano é vista somente pela estreita “janelinha” das ondas de luz que compõem  parte do espectro eletromagnético, e que somos cegos a uma vasta faixa de radiação que se estende das altas frequências dos raios cósmicos, cujo comprimento de onda é de apenas um trilionésimo de centímetro, até as ondas de rádio, infinitamente longas.  

[6] Pachacútec (1.400? - 1471) foi a figura mais notável do Império inca antes da chegada dos espanhóis. Foi seu nono governante e o fundador do Império. Sábio e legislador, aboliu os sacrifícios humanos nos atos religiosos e pelo elevado espírito público reconstruiu Cusco, canalizando os rios que cruzavam a cidade e construindo calçadas, monumentos e palácios, num tempo em que a capital do Império tinha mais de cem mil habitantes. Instituiu o sistema de cultivo de terraços, com que se notabilizou o sistema comunista da agricultura inca.
Visionário e destemido guerreiro, defendeu o Império quando os ferozes Chancas estiveram a ponto de tomar Cusco. Posteriormente expandiu o Império até o Equador, chegando a ter o domínio de mais de quinhentas tribos com línguas, costumes e religiões diferentes.
Deixou seu nome imortalizado pela construção da cidadela de Sacsayhuaman, a cidade fortaleza de Macchu Picchu e a reconstrução, em Cusco, do Coricancha (Templo do Sol).

[7] Em seu livro Muchas Lunas en Machu Picchu, o escritor cusquenho Enrique Rosas Paravicino, conta que o astrônomo Sapan Huillcanina apresentou  ao inca Huayna Ccápac sua invenção de um sistema de escrita, baseado em setenta e nove signos pintados em pranchas de madeira, representando imagens de aves, plantas, montanhas, astros, flores, mãos humanas , garras de águia,  figuras do sol e da lua, etc.. Os signos representavam  o som da voz humana que, associados equivaliam a palavras, frases e pensamentos. Seu invento, no entanto, foi rejeitado pelos sábios do Imperador e as suas  tábuas da memória foram queimadas, posteriormente, por  um sacerdote espanhol como uma obra do diabo.

[8] PARAVICINO,  Enrique Rosas Muchas Lunas em Machu Pucchu, Lima: Huaca Prieta e Lluvia Editores. 2006, p. 216-218.

[9] José Hipólito Unanue y Pavón (1755-1833), médico, naturalista e político, foi um precursor da independência peruana. Amigo de Simon Bolívar, a quem atendeu como médico, revolucionou a medicina em seu país e, como presidente do Primeiro Congresso Constituinte do Peru, esteve à frente da comissão que redigiu a sua Constituição Republicana.



6 comentários:

Frederico Füllgraf disse...

Uma dos mais fascinantes textos que li sobre Machu Picchu - ao mesmo tempo ancho e preciso, histórico e ideologicamente correto. E alado! Bate asas, decola, ensaia rasantes e, feito Condor (a ave!), nos sequestra para um adejo com perspectiva celestial. O que se desvela então à perspectiva de voo do pássaro, por assim dizer, é essa colossal e tocante narrativa incaica com apoteose trágica, aqui magistralmente lapidada por Manoel de Andrade.
Parabéns, Maneco!

Graça Larcher disse...

É realmente fascinante este relato sobre Machu Picchu, assim como todos esses caminhos que Manoel de Andrade marcou com sua saga aventureira, descrevendo uma América Latina pelo olhar da história, da arte, da literatura e das bandeiras que marcaram as lutas sociais na década de 70. Estou nas últimas páginas deste livro maravilhoso, e li, há algum tempo, no Jornal Rascunho, um ótimo texto sobre Nos rastros da utopia, comentando, também, essa passagem do poeta por Machu Picchu como “momentos mágicos, sensacionais, únicos” e onde o autor da resenha – o jornalista e escritor Roberto Casarin -- afirma que “não há como deixar de comparar a obra com As veias abertas da América Latina (1971), de Eduardo Galeano."

Parabéns Manoel

LAERCIO FURLAN disse...

"Uma colossal e tocante narrativa incaica" é o que muito bem anotou Frederico Füllgraf, comentando este instigante relato sobre Machu Picchu. Mas há outro fato que, ainda que seu significado seja meramente pessoal, aproveito para registrar. Quando do lançamento de "NOS RASTROS DA UTOPIA", em março do ano passado, aqui em Curitiba, fui a primeira pessoa a ter este livro excepcional autografado pelo Manoel. Como admirador incondicional de sua poesia, quero dizer que esta obra, - cujos ensaios sobre retratos humanos, como a descrição fascinante sobre os vaqueiros e jangadeiros do nordeste, a história heroica dos índios Mapuches, no Chile e a biografia de grandes poetas latino-americanos, como o peruano Cesar Vallejo e a barroca mexicana Juana Inés de La Cruz, - consagra também seu talento e sua originalidade como prosador.
Amigo Manoel, parabenizo-o pelo seu talento nesta obra tão expressiva e marcante.

Rita de Cássia Miranda Diogo disse...

Esse livro é um maravilhoso testemunho, podemos considerá-lo como parte da "contra-conquista" latino-americana, nas palavras de C. Fuentes.
Parabéns, amigo-poeta.

Monica Alves disse...

Posso afirmar com ênfase ter estado nas plagas belamente descritas por meu amigo e poeta lá do Sul, posto que são pinturas de suas experiências retratadas com o pincel das palavras, coloridas pela paleta das emoções! Obrigada, querido amigo! Fortaleza, 12 dez 2015

Anônimo disse...

Adorei essa descrição de Machu Pichu!