27 março 2010

Frederico Füllgraf - As duas mortes do Barão Vermelho

 

(Fotos - Bundesarchiv, divulgação)

Ensaio


Quando a barra de ferro, pétrea e fria, golpeou a cabeça de Manfred von Richthofen, matando-o, naquela madrugada de novembro de 2002, um outro Manfred, também Von Richthofen, sentiu uma fisgada em sua própria cabeça, percebeu sangue brotando da cicatriz do tiro de raspão que o atingira em 1918, e revirou-se no caixão, em sua terceira cova; a de Wiesbaden. Afinal, heróis não morrem, apenas descansam, ensina a mitologia... Assim imaginei, quando li, pela primeira vez, a notícia do duplo assassinato do engenheiro alemão e sua esposa Marísia, pelas mãos de sua própria filha, Suzane von Richthofen.


Ao matar seus próprios pais, Suzane teria também assassinado a tradição cavalheiresca que adere à linhagem paterna ? Talvez Suzane estivesse farta da prosápia, contada e recontada pelo pai, que exibia suas azuladas origens na reprodução do galhario de uma frondosa árvore genealógica pendurada em uma das paredes da sala da casa do Brooklyn. Talvez Susane jamais se interessara pela estranha saga do pai, talvez lhe tenha sido ganz egal – “completamente indiferente”, como se diz em Alemão. 

Talvez...

E, se o alegado parentesco com o lendário Barão Vermelho tivesse sido apenas um delírio do pai homônimo ? Uma farsa, uma “cripta” ? Logo após o crime, a imprensa alemã – incluindo o investigativo e cáustico Der Spiegel – apressou-se em tomar por palavra final o desmentido oficial na Alemanha: “Um estudioso da saga dos Richthofen declarou que toda essa história seria uma trama urdida pela imprensa ´sensacionalista´do Brasil", escreveu, perplexo, o jornalista Cláudio Julio Tognolli, do Jornal da Tarde. Perplexo, porque, entre 1996 e 1997, árvore genealógica em punho (noblesse oblige !), o engenheiro convencera Tognolli de que, apesar de habitante da paulicéia empedrada, era sobrinho-neto do lendário e homônimo ás da aviação e pertencia de berço e de jure ao clã dos Von Richthofen, surgidos no séc. 16 nas planícies do Báltico.

Concluiu, então, Tognolli: “Do exposto, podem racionalmente pairar no ar as seguintes indagações: 1) este repórter inventou a história; 2) Manfed, num acesso delirante, daqueles que os psicanalistas chamam de delusão, inventou a história; 3) a imprensa alemã errou em dizer que a história é mentira e o especialista alemão em Barão Vermelho está mal-informado (ou: propositalmente, semeou contra-informação da família Von Richthofen, envergonhada)”.

Regredindo aos primórdios da Literatura, o psicanalista Sérgio Telles, do Instituto Sedes Sapientiae de São Paulo, foi buscar na matriz trágica do Édipo de Sófocles (e sua metáfora freudiana para o parricídio) elementos para a constituição do sujeito em uma “família disfuncional”. Seria “impossível conceber que a garota Von Richtofen tenha uma patologia mental tão grave, a ponto de quebrar todos os limites e expressar-se num assassinato, sem levantar a hipótese de que sua família também apresentasse grandes e graves disfunções”, argumentou Telles.

Apoiando-se no desmentido do clã, o doutor de almas precipitou-se em defender a teoria da “cripta”, para explicar o provável desvio patológico da parricida Suzane. Isto é: padecendo sob a realidade insuportável da outorga de uma falsa identidade aristocrática do pai (um segredo familiar tornado “falha”, “buraco negro”), a moça teria sido um sujeito/médium da Übertragung - a transferência da patologia paterna, segundo Freud. Telles: “No caso do engenheiro Von Richthofen, poderíamos pensar que não tolerava as próprias origens - talvez humildes, constituída de emigrantes pobres alemães, talvez colonos agrícolas - e delirava com a nobreza teutônica?” ... “Esse pai, com possíveis delírios de nobreza, receberia o fato de ter a filha um namorado pobre e humilde?”.

Da teoria da “cripta” à “apetitosa brecha defensória” para Suzane, o lapso especulativo se ampliaria: supôs Tognolli que, se os estudiosos e imprensa alemães estivessem certos ao afirmar que não havia a mínima possibilidade de parentesco entre “o nosso Manfred” e o Manfred "Barão Vermelho", os advogados da filha do engenheiro e mentora dos crimes, teriam (tido) uma carta na manga para a defesa derrubar o in dubio pro societate da promotoria. Porque, nesse caso, o engenheiro Manfred seria um psicopata, delirante a ponto de inventar uma história de vida que nunca foi sua; trauma, vilanias mentais suficientes para alterar o comportamento da filha...

“Pai com amante, mãe lésbica” ... Mais que vilãs, foram sórdidas as imputações da defesa de Suzane, para justificar o injustificável: as alterações comportamentais da parricida e matricida confessa. Contudo, os dúbios advogados evitaram puxar da carta na manga, porque não a tinham. Condenada a ré, caladas as vozes da indignação, a imprensa recolheu-se à filtragem do varejo e o “caso Richthofen” foi, literalmente, para o arquivo morto. Nele repousam, agora, dois cadáveres, duplamente assassinados, real e virtualmente: o Barão Vermelho, como paradigma da arte cavalheiresca do aviador zen, e seu parente abrasileirado, o engenheiro homônimo, colocado sob suspeita, ofendido post mortem.

No entanto, Tognolli pensou na direção correta: a imprensa alemã errou, ao dizer que a história é mentira. Mas, e o puro-sangue Karl-Friedrich Freiherr von Richthofen, “especialista alemão em Barão Vermelho”, citado por Der Spiegel: estava apenas “mal informado” ou propositalmente semeou contra-informação da família Von Richthofen (envergonhada) ? Contudo, nas praias rasas da Internet, onde apenas é requerido talento medíocre para combinar informações, pousava a esfinge que devorou o jornalismo investigativo: o site com o brasão da dinastia Richthofen (www.richthofen.de/allgemein/startseite.html)

Três anos e meio após o veemente distanciamento do Barão Karl-Friedrich, escrevi uma carta para o livro de visitas do site, perguntando, se Manfred von Richthofen, “o nosso” , era, de fato, parente legítimo da linhagem do brasão. A resposta fez-se esperar, veio de viés. Um dos von Richthofen argüiu-me por e-mail, sobre o motivo do meu interesse; “se para um romance, peça de teatro ou filme ... Menos de duas semanas depois, porém, obtive do administrador do site a confirmação da pertença do engenheiro assassinado à linhagem lendária.

Diz o e-mail de 24 de abril de 2006: Sehr geehrter Hr. Füllgraf, Bezug nehmend auf Ihre Anfrage möchte ich Ihnen mitteilen, dass Manfred Freiherr v. Richthofen Mitglied unserer Familie ist und somit auch mit dem gleichnamigen Kampfflieger des Ersten Weltkrieges verwandt ist. Den Verwandtschaftsgrad können Sie auf unserer Homepage dem Stammbaum entnehmen. Diese Stellungnahme ist vertraulich zu behandeln. Mit freundlichen Grüßen (...)

Para os incrédulos, a tradução:

“Prezado Sr. Füllgraf, com referência à sua pergunta, tenho a lhe informar que Manfred Barão von Richthofen é membro de nossa família e, com isso, também parente do homônimo aviador combatente da Primeira Guerra Mundial, ...”. E, agora a pérola: “O grau de parentesco o senhor pode deduzir da árvore genealógica que consta em nossa Homepage. A presente informação requer sigilo. Saudações cordiais (...)”.

Decidi manter em sigilo o nome do gentil informante, graduada figura do clã, reproduzir, no entanto, sua própria indicação da árvore genealógica, onde repousa a memória do engenheiro assassinado e que dispensa qualquer dúvida – genealogia por vezes glamurosa, onde figura Frieda von Richthofen, que casou com o autor de O Amante de Lady Chatterley, D.H. Lawrence, e por outras, desconcertante, na companhia do Marechal de infantaria Wolfram von Richthofen, comandante da Legião Condor, a que foi socorrer Franco durante a Guerra Civil espanhola, açougueiro de Guernica, imortalizada pelo horror das imagens de Picasso.

Campeão de equitação artística, Manfred von Richthofen, nascido em Breslau em 1892, viu na aviação do início do século passado, um sucedâneo à altura para seus anseios de glória. Trocou o cavalo pelo triplano Albatroz da Fokker. Em tempos de transição acelerada para a sociedade industrial, nada heróica, a aeronáutica logo tornou-se a arma predileta da juventude aristocrática européia. Repugnava-lhe a imagem da infantaria, do convívio, ombro a ombro, com a soldadesca nas trincheiras, em meio à lama, ao sangue, aos excrementos. Horror dos horrores, era a fantasia da morte anônima, reles número em meio à multidão de cadáveres produzidos em escala industrial.

Se Nietzsche pensou no céu como limite para seu “super-homem” (alegoria da auto-superação, nada nazista, diga-se), então os aviadores da 1ª. Guerra Mundial eram nietzscheanos do “bom combate”; aquela, herdada através das sagas medievais. Descreve um aficionado: “Os Fokker, os Sopwith Camel, os Havilland, os Nieuport que pilotavam, substituíam em definitivo as cavalgaduras. O ronco dos motores faziam com que esquecessem os relinchos. Versões modernas de Lancelote, de Orlando Furioso ou de Götz von Berlichingen, sentiam-se cavalgar Pégaso, o ginete alado”.

Em menos de três anos de guerra, a Luftwaffe do Kaiser derrubaria mais de 400 aviões ingleses. Destes, Lothar, o irmão de Manfred, piloto de um Albatroz amarelo, destruiu 40 aeronaves em apenas 70 dias de combate, por isso condecorado com a cobiçada Ordem Blauer Max (o Max em Azul). A bordo de seu Albatroz pintado de vermelho – fonte de inspiração para o personagem Snoopy e, por tabela, da banda de rock brasileira, Barão Vermelho - Manfred von Richthofen abateu 80 aviões ingleses apenas no primeiro trimestre de 1918. Comandante da esquadrilha Jasta 11 – apelidada de “O Circo Voador” , outra reverência carioca ! - von Richthofen foi idolatrado pela imprensa e o povo alemães, fazendo jus à Grande Cruz Pour le Mérite, a ordem que Frederico o Grande criara para honrar Voltaire.

Tanta idolatria por Tanatos ? Frios, quase tranquilos, Suzane e o namorado acalentaram o assassinato do casal Manfred e Marísia com um mês de antecedência, optando pelos golpes com barra de ferro depois de um teste, barulhento demais, com arma de fogo. Já o Barão Vermelho ancestral, gozou de popularidade por sua ética, traduzindo para a guerra aérea a matriz respeitosa dos cavalheiros. Jamais atirava num rival abatido que saltasse de pára-quedas, em aparelho em chamas ou embicado para o solo, dilacerado; não perseguia o piloto. “Ferido o cavalo”, deixava que o destino cuidasse do cavaleiro. Fez fama de ser leal e generoso adversário.

A “suavidade” do Barão Vermelho estimulou a fantasia no campo do inimigo, a boataria chegou a imaginar uma mulher no comando do manche do Albatroz vermelho... A propósito, um trecho do Der Rote Kampfflieger / The red air fighter, de Manfred von Richthofen, que ilustra a liça como jogo, perigoso jogo com a morte, mas respeitoso, guerra “humanizada” , longe da artilharia pesada, da metralhadora, do lança-chamas e do gás mostarda, praticada sem traição ou perfídia:

“Depois de termos baixado mais de dois mil metros em nossa altitude, o que não mudou nada nossa situação, meu adversário finalmente teve que admitir que já passava da hora escafede-ser, pois o vento favorável me transportava cada vez mais perto das nossas posições, fazendo-me planar quase sobre Bapaume, distante um quilômetro do nosso front. Quando nos encontrávamos já a apenas mil metros acima do chão, meu adversário ainda teve tempo de me acenar, muito divertido, como se quisesse dizer: „Well, well, how do you do?" (Tudo beleza, como vai você ?).

Como questiona Geoffrey Miller, em "Sabretache", the Journal and Proceedings of the Military History Society of Australia, Vol. XXXIX, No. 2, junho de 1998, quase noventa anos após a morte do Barão Vermelho, em 21 de abril de 1818, nos céus da França, os descendentes de soldados ingleses, canadenses e australianos ainda discutem, quem foi o autor do disparo, que derrubou o lendário Fokker Albatroz.

Manfred von Richthofen foi sepultado por seus inimigos. Reservaram uma grande barraca de campanha, em cujo centro ergueram um pedestal e, sobre este, repousaram o caixão do barão, vestindo o mesmo uniforme do regimento l -Ulanen, que trajava quando caiu no buraco negro que o arrancou da vida. Seis oficiais da aeronáutica inglesa, todos capitães de esquadrilha, dinstinguidos por sua bravura diante do inimigo, penetraram na barraca, alçaram o caixão ao ombro e o carregaram até sua primeira sepultura, no cemitério de Fricourt. Seguindo o caixão, marchavam doze homens da guarda de luto, olhos derramados sobre o chão, segurando seus mosquetões com o cano virado para baixo.

Depois desta formação, marchavam oficiais e suboficiais, entre eles cinqüenta aviadores. E todos caminharam atrás do féretro, em silêncio, olhos para o chão. Fechando a coluna, um dos oficiais carregava uma grande coroa com a saudação do quartel-general da aeronáutica inglesa para o barão: „ Ao Cavalheiro von Richthofen, o valente e digno inimigo“. Sobre o caixão, martelaram uma placa metálica, com dístico em Inglês e Alemão: "Aqui, sobre o campo da Honra, descansa o Cavaleiro Manfred, Barão von Richthofen, na idade dos 25 anos, caído em batalha aérea em 21 de abril de 1918“. Enquanto o caixão descia à terra, aviões ingleses fizeram formação de honra, com rasantes sobre o cemitério. Em 1925 os restos mortais do Barão Vermelho foram transferidos por sua família para o aristocrático cemitério dos Inválidos, no coração de Berlim, onde Manfred jazia exatamente debaixo do Muro, erguido em 1961, motivo pelo qual em 1976 seus descendentes o transladaram mais uma vez de morada; desta última, para Wiesbaden, às margens do Reno.

Já a louraça bandida (Alberto Dines) confessou que estava “emaconhada” na noite em que matou a mãe e o pai. Não era cocaína, era uma droga "leve", dessas disponíveis em qualquer festa, não fora a primeira vez. 

Matou a família e foi ao motel...

26 março 2010

Frederico Füllgraf - Nazistas na Amazônia

(Fotos: O. Schulz-Kampfhenkel, "Rätsel der Urwaldhölle", Dt.Vlg. 1938)


A história dos alemães que desembarcaram no Jari em 1935 para uma confusa e misteriosa expedição científica



Publicãção original in: Revista Brasileiros, Nazistas na Amazônia - Edição 21 - (Abril/2009) - http://www.revistabrasileiros.com.br/edicoes/21/.../554/

 Entre a foz do Rio Jari, no Amazonas, e sua deslumbrante Cachoeira de Santo Antônio, há uma cruz de madeira, medindo três metros de altura por dois metros de largura, que há alguns anos é explorada como atração turística no Amapá. Debaixo dela jaz o teuto-brasileiro Joseph Greiner, ali sepultado em janeiro de 1936, vitimado pela selva. Feita sacrário, hoje a cruz é protegida por um telhado e encabeçada pelo entalhe de uma suástica - a cruz gamada de origens indo-tibetanas, popularizada como ícone incendiário do nazismo. Lápide improvisada, o necrológio da cruz explica: "Joseph Greiner morreu aqui em 2/1/36, a serviço da pesquisa alemã, vitimado pela febre - Expedição Alemã do Jary, 1935-1937".

Setenta anos de intempérie se encarregaram de esmaecer um dos pouquíssimos marcos de uma insondável aventura na Amazônia.


Meu envolvimento com a história que segue começou em 2003, por meio de uma página encontrada por acaso nas profundezas da internet, intitulada "A rota do nazismo na Amazônia", em referência ao livro sobre uma misteriosa expedição alemã. Minha primeira reação foi a lembrança da teoria da conspiração tramada no livro A crônica de Akakor (Editora Bertrand, 1977) do correspondente da rádio alemã no Brasil, Karl Brugger - assaltado e assassinado no final de 1983 à saída de um restaurante no Leblon, Rio de Janeiro. Nele Brugger ecoava a invencionice contada nos anos 1970 por um falso índio, de uma "expedição nazista à Amazônia", ocorrida no final da 2ª. Guerra Mundial - crônica esdrúxula reciclada em 2007 por Steven Spielberg. Plágio bilionário, o cenário apoteótico de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal é a "cidade perdida" de Akator, supostamente uma "base subterrânea de nazistas na Amazônia". No curso destes anos resisti à publicação do que sabia sobre o Jari para não comprometer um projeto cinematográfico há muito acalentado. Contudo, o episódio atraiu o interesse da revista alemã Der Spiegel, cujo correspondente no Brasil resolveu adiantar-se, publicando o livro Das Guyana-Projekt (O Projeto Guiana). Resisti em lê-lo para não me deixar influenciar, mas a publicidade dada ao assunto na Alemanha justifica, agora, a abertura de uma modesta janela no Brasil.


No inferno das selvas


Num sebo da internet encontrei o tal livro sobre a expedição. Folheando-o, dei-me conta que tinha nas mãos a encomenda errada, porque sua edição era a de 1953. Demorei em entender que são duas as versões sobre a aventura no Amapá: uma oficial, de 1953, e outra, de 1938, nem tanto. Publicado pela Deutscher Verlag em 1938, plena ditadura nazista, o livro original "Rätsel der Urwaldhölle" - Mistérios do inferno da selva, que eu adquiri mais tarde, tem 60 fotografias a mais que a versão pós-guerra. Suas ilustrações mais escancaradas são duas suásticas: uma, na cabeça da cruz, e outra, tremulando alegremente na popa de uma canoa, sobre o Jari. Símbolo proibido pela constituição democrática alemã, do pós-guerra, as fotos com as suásticas nazistas foram banidas da edição de 1953.


Capricho germânico, o livro é um diário making of do filme homônimo, estreado e distribuído pela Universum Film AG (UfA) em 1938, depois misteriosamente desaparecido. Em seu lugar, surge na década de 1970 o inofensivo documentário Sobre o cotidiano dos índios da selva amazônica - relatos de uma viagem de pesquisas, 1935 - 1937, distribuído pela WBU, produtora de filmes educativos, fundada na década de 1960 pelo geógrafo dublê de documentarista, Otto Schulz-Kampfhenkel.


O apoio brasileiro


Conta a versão oficial da aventura que em outubro de 1935 desembarcam em Belém do Pará três jovens aviadores alemães, acompanhados de 11 toneladas de bagagem, cuja lista e sofisticação extrapolam abusivamente os limites desta crônica. Risível nota de rodapé é que além do inexplicável arsenal trazido, os alemães não abriram mão do conforto, em plena selva amazônica, de cobertores de pelo de camelo e roupa de cama. Eram eles Gerd Kahle, Gerhard Krause e o líder da expedição, Otto Schulz-Kampfhenkel. Ao contrário da informação, falsa, veiculada pela imprensa internacional, Joseph Greiner, sepultado sob a cruz do Jari, não foi integrante do Esquadrão de Pesquisas Schulz-Kampfhenkel, vindo da Alemanha, mas, provavelmente, contratado no Rio de Janeiro. Explica o líder da expedição: "Neste meio tempo Gerd (Kahle) manda um cabo do Pará, informando que lá não é possível encontrar nenhum 'capataz'. Mas já que eu estou no Rio de Janeiro, tento encontrar algum landsmann (patrício), criado no País e versado em Português. Depois de muito procurar, eis que encontro o sujeito certo: Joseph Greiner, auslandsdeutscher (alemão criado no exterior), jovem marinheiro, empreendedor e confiável, que se soma como quarto integrante ao nosso grupo expedicionário, onde terá a função de mestre-bagageiro, capataz e encarregado das provisões. Contratado, ele embarca no primeiro navio de cabotagem rumo ao norte, no Pará". (Rätsel der Urwaldhölle, Berlim, 1953.)


Antes de receber a permissão para subir o Jari, Schulz-Kampfhenkel gastou mais de dois meses com extenuantes despachos aduaneiros e expedientes burocráticos no Rio de Janeiro. Credenciado pelos mais prestigiados institutos de pesquisa e museus de história natural da Alemanha, Schulz-Kampfhenkel conseguiu facilmente a adesão do Instituto Emilio Goeldi, em Belém, e do Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Contudo, o apoio mais importante seria o das Forças Armadas brasileiras, que em 1935 ainda não estavam divididas em facções pró-Alemanha e pró-EUA. Por isso, em Belém, o governador José Carneiro da Gama Malcher e o general Manuel de Cerqueira Daltro Filho prestigiaram o comando alemão com sua visita.


Os alemães retribuíram a gentileza com um teste do hidroavião modelo "Seekadett", burlescamente batizado de "Águia Marinha", especialmente equipado com flutuadores de compensado e instrumentos de navegação, tudo inédito para os embasbacados dignatários brasileiros. Talvez o entusiasmo brasileiro se devesse à expectativa de lucrar com o componente mais importante da missão: o levantamento topográfico da bacia do Jari até suas cabeceiras, mapeamento até então inédito, mas previsto nos mínimos detalhes pelo geógrafo Schulz-Kampfhenkel.

Expedições da SS


A expedição ao Jari coincidiu com um capítulo insólito da história do nazismo. Chefe de um "Estado dentro do Estado" - o famigerado Departamento Central de Segurança do Reich, subordinado à SS -, o sombrio e esotérico Heinrich Himmler tinha uma obsessão: acreditava na fantástica "civilização de Atlântida", cujos descendentes, "de raça pura", presumiu no Tibet e na América do Sul. Na origem de seu esoterismo estavam "ariósofos" sinistros, antissemitas e também seu fascínio pelas pesquisas do mitologista Otto Rahn, sobre as fabulações do Santo Graal. Reciclando o Santo Graal como mistério pagão para a SS, Himmler inaugurara uma série de expedições para os recônditos do planeta, onde seus homens deveriam encontrar vestígios genéticos da "raça ariana".


Em 1934 Himmler indica o jovem geógrafo Otto Schulz-Kampfhenkel, recém-filiado ao partido nazista NSDAP, como participante da primeira expedição alemã ao Tibet. Otto não embarcou e safou-se de uma tragédia, pois a maioria dos integrantes morreu na Nanga Parbat, depois do Everest, a nona montanha mais alta do mundo. A terceira expedição alemã, ocorrida em 1939, celebrizou-se com o livro Sete anos no Tibet, de Heinrich Harrer, oficial da SS (protagonizado por Brad Pitt, no filme de Jean Jacques Annaud). Outra expedição de Himmler teria como destino a Amazônia, mas ocorreu apenas na imaginação fértil das confrarias esotéricas. Himmler e Schulz-Kampfhenkel voltariam a se encontrar, mas quem patrocinou a expedição ao Jari, como mentor do geógrafo, foi Hermann Göring, aviador durante a Primeira Guerra Mundial na esquadrilha de Manfred von Richthofen, o Barão Vermelho, logo promovido a ministro da Aeronáutica de Hitler. Muito bem articulado com o complexo industrial-militar e os grandes bancos alemães, Göring já apadrinhara expedições anteriores de Schulz-Kampfhenkel, aviador como ele, e mais uma vez abriu-lhe as portas para a expedição ao Rio Jari.


Berlinense de origem abastada, Schulz-Kampfhenkel estudara geografia e ciências naturais, especializando-se na caça de animais africanos para jardins zoológicos alemães. Mas do que gostava mesmo era de voar. Com sua paixão pela zoologia, em 1934 participou ativamente da "arianização" ocorrida na DGS (Sociedade Alemã de Pesquisas em Mamíferos) - centro de excelência mundial. Como a maioria dos militares alemães, o geógrafo se insurgiu contra o Tratado de Versalhes, imposto aos alemães por sua derrota na Primeira Guerra Mundial, e que, entre outras retaliações, lhes proibia pesquisas científicas no exterior. Schulz-Kampfhenkel não via a hora de violar o tratado com sua expedição ao Jari.


Contra a correnteza


Jari, final de 1935. Apesar da contratação de uns 30 caboclos-mateiros, familiarizados com a selva, foi uma operação tumultuada. Que o Jari era um imenso tapete pedregoso, repleto de cachoeiras, sem superfície de pouso para o hidroavião, era detalhe que os alemães já intuíam, apostando em condições mais apropriadas rio acima.


Enquanto Gerd Kahle, no comando da expedição, desafiava a lei da gravidade, forcejando contra a correnteza, na retaguarda Schulz-Kampfhenkel e Gerhard Krause chocaram os flutuadores do "Águia Marítima" contra toras de árvores submersas, entre Gurupá e Arumanduba, e o hidroavião espatifou-se sobre o Amazonas. Agarrados a um dos flutuadores, a mais de um quilômetro da margem amapaense do Amazonas, os dois alemães estavam sendo arrastados pela maré. Foram salvos por remadores caboclos, que Schulz-Kampfhenkel louva como "heróis da selva". Estava gravemente comprometido o principal objetivo da expedição: o mapeamento aéreo da bacia do Jari.


Barcos sobrecarregados e rio raso demais, o geógrafo determina a instalação de subacampamentos, dividindo sua equipe. O inverno amazônico se aproximava, chovia copiosamente. Explorando um rio, Schulz-Kampfhenkel foi surpreendido por uma súbita enchente, perdendo seu barco com todo o equipamento - câmeras, material de cartografia, armas, provisões e roupa. Durante uma semana errou sozinho pela selva. Foi resgatado e safou-se da morte pela segunda vez.


Em janeiro de 1936 alcançaram a grande aldeia dos índios Aparaí, no médio Jari. O capataz e mestre-bagageiro Joseph Greiner desce novamente o rio, para apanhar as provisões guardadas em Santo Antônio. Mas os índios que o acompanhavam retornaram sozinhos. Krause, o mecânico do avião e operador de som, saiu em seu encalço, mas não conseguiu salvá-lo. Então Krause o sepulta, ergue aquela cruz de madeira e faz os entalhes legíveis até hoje. Depois envia uma mensagem ao comando da expedição, na aldeia Aparaí, informando que, surpreendentemente, o estoque de quinina de Greiner estava intocado. Ele não havia tomado um comprido sequer, obviamente confiando exageradamente na "imunidade" do seu organismo.


No "inferno verde"


Tudo indicava que o lendário Curt Nimuendaju Unkel, alemão que vivia em Belém e era ligado ao Instituto Emilio Goeldi, havia sido convidado para guiar a expedição, e neste caso poderia ter evitado grande parte do descalabro. Mas Schulz-Kampfhenkel menciona com frieza seu encontro com o indigenista conterrâneo, provavelmente porque Nimuendaju desprezava o nazismo. Desde 1910 ele atuava no recém-fundado Serviço de Proteção ao Índio (SPI), mas entraria para a história do cinema como consultor de pelo menos quatro produções cinematográficas na Amazônia.


Aliás, o "inferno verde" parecia dar o troco, cobrar tributos por velhos pecados alemães, jamais expiados. Como o caso dos índios levados em 1820 para a Alemanha pelo naturalista Carl Friedrich Phillip von Martius: três adultos faleceram durante a travessia do Atlântico, e os dois curumins Isabella Miranha e Yuri Comás estão sepultados no Cemitério Sul de Munique. Morreram de frio durante o inverno de 1820 /21. Outra aberração: os crânios dos índios Botocudos, caçados por exploradores alemães, entre eles o príncipe Maximilian zu Wied, para compor o macabro acervo dos darwinistas de plantão - prática absolutamente dentro da etiqueta, pois ninguém menos que D. Pedro II, durante uma visita à Alemanha, tirou da bagagem, de presente, um crânio de silvícola.


Mas eram exatamente esses melindres que atiçavam o frenesi alemão, atraindo mais de 20 produções cinematográficas alemãs à Amazônia, entre 1920 e 1941. Sua maioria explorava a forte demanda por enredos exóticos. Com uma exceção: o longa-metragem de ficção Kautschuk / O inferno verde, inspirado no emblemático episódio do contrabando de 70 mil sementes de seringueira pelo agente britânico Henry Wickham, em 1870. Com um set de mais de 60 pessoas em plena selva amazônica, a produção ocorreu na mesma época em que Schulz-Kampfhenkel se penitenciava no Jari.


Os Aparaí do "Führer"


Era 1936, ano das Olimpíadas em Berlim, Schulz-Kampfhenkel não estava interessado em cultura, apenas em "raça". Insensíveis à religiosidade Aparaí, os alemães abateram e descarnaram uma enorme sucuri, que nadava à flor d'água e não os ameaçava, juntando seu couro ao butim de centenas de peles, crânios, ossos, dentes, plumagens e órgãos conservados em álcool, prometidos aos museus de ciências naturais da Alemanha. Mas não havia ali ciência alguma, o galpão "científico" dos alemães mais se assemelhava a um gigantesco açougue. Apesar disso, o relacionamento com os hospitaleiros Aparaí foi mais do que pacífico: índios e alemães tornaram-se muito bons amigos. Os indígenas naturalmente não entendiam os objetivos do alemão. A sexualidade brotou entre hóspedes e anfitriões. Mas, obviamente, não há nos livros de Schulz-Kampfhenkel qualquer pista de seu envolvimento com a formosa Macarrani, filha do cacique Aocapotu. Assumi-la teria significado admitir a inadmissível fraqueza da carne germânica, "superior", e uma traição da doutrina racial, cujo rosário o alemão desfiava com fervor. Ao despedir-se dos Aparaí em 1937, o alemão deixou para trás uma mulher grávida. Sua filha, nascida entre 1937 e 1938, foi batizada de Cessé, também conhecida por "alemoa": tinha a tez clara e os olhos azuis de seu pai "ariano". Contou-me Cristóvão Lins, ilustre pesquisador e autor da História do Jari, que pouco tempo atrás morreu José Pinheiro, líder dos caboclos de Schulz-Kampfhenkel. Com isso foi-se a última testemunha viva do nascimento de Cessé.


Operação Guiana


Início de 1937, perto da Guiana Francesa. Os alemães não tinham cruzado o Atlântico com toda aquela parafernália para testar bobagens. O que Schulz-Kampfhenkel queria experimentar era a aerofotogrametria, técnica que revolucionou a cartografia moderna. Já com o avião fora de combate, teve de se contentar com suas medições feitas em terra. Apesar de extenuados "seus" índios e caboclos, o alemão insistiu teimosamente em mapear as cabeceiras do Jari, a pouca distância da Guiana Francesa. O mapa da fronteira era a chave de ouro para fechar seu plano da colonização do território francês por grandes contingentes alemães, apoiados numa forte "coluna indígena". Com a invasão da França pela Alemanha, em junho de 1940, o geógrafo não teve dúvidas: submeteu-o a Heinrich Himmler. Recomendou a selva (do Amapá e da Guiana Francesa) como território privilegiado pela natureza, com baixíssima densidade demográfica, excelente para a exploração como "colônia tropical", que "não deveria ficar nas mãos de povos, que, comparados à Alemanha ou à Inglaterra, são inferiores, do ponto de vista racial e civilizatório". Porém, o chefe da SS repeliu a idéia com uma aritmética muito simples: para quê todo o esforço hercúleo, de subir o Jari, se a França estava sendo ocupada e a Guiana Francesa seria "alemã" por tabelinha?


O espião do Saara


No início dos anos 1940 a "operação Guiana" era página virada da história. O "Esquadrão Schulz-Kampfhenkel" - integrado por geólogos, geógrafos, hidrólogos e botânicos, e devidamente incorporado à SS - leva a cabo uma missão especial no norte da África. O grupo deverá produzir mapas para a avaliação de terreno, o que faz com incursões rápidas e mediante a cartografia aérea. É quando o expedicionário do Jari vive seus dias de glória: da cabine de seu avião, Schulz-Kampfhenkel mapeia o relevo do Saara, para determinar as trilhas apropriadas aos pesados blindados do Afrika-Korps do marechal Erwin Rommel.


Chamado de volta à Alemanha e promovido a capitão da SS em maio de 1943, Otto é nomeado "Delegado Especial para Missões Geocientíficas do Conselho de Pesquisas do Reich", executando operações de inteligência geográfica sobre o território da União Soviética. Mas, perdida a guerra, ele foi preso pelas tropas norte-americanas e duramente interrogado pela OSS, precursora da CIA. Com o "desmanche" da Alemanha, os EUA levaram consigo milhares de técnicos e cientistas. E apesar de liberado em 1946, o geógrafo-aviador continuou figurando como "nazista a serviço da inteligência militar norte-americana", na letra "S" do arquivo "Top Secret decimal file, Records of Army General Staff, RG 319, NA", tornado público há poucos anos.


Otto Schulz-Kampfhenkel, o "nazista da Amazônia", terminou seus dias levando a vida que tinha pedido a Deus. Viajando, dirigiu dezenas de documentários educativos e científicos. Conta-me Falko Ahsendorf - diretor de fotografia em várias produções de Otto sobre a África e o Oriente Médio, nas décadas de 1960 e 1970 - que Mistérios do inferno selvagem, o filme sobre a expedição do Jari, estreado em 1938, tornou "próspero" o geógrafo-aviador, morto em 1989, aos 78 anos de idade. Mas de seu pai rico, a índia Cessé Schulz-Kampfhenkel nada sabia. 


E é onde começa outro filme sobre a aventura, agora contada de trás para frente.

23 março 2010

Bruce Eder - Brigitte Helm, a musa de Metropolis



Brigitte Helm is one of a unique group of iconic actresses; like Greta_Garbo, Marlene_Dietrich, and Louise_Brooks, her face and image are recognized across generations, and in most corners of the world, and all for one movie, and two roles: Maria, the Madonna-like (as in biblical Madonna, not the singer/actress) teacher, and her robot counterpart, in Fritz_Lang's Metropolis (1927). Helm was born Brigitte Eva Gisela Schittenhelm in Berlin, in 1908, the daughter of a Prussian army officer, who left his wife a widow not long after. Although she was never entirely comfortable as an actress, or as a performer, Helm was a striking beauty from an early age, and her mother sent photos of the girl to director Fritz_Lang and his wife, screenwriter Thea von Harbou, in the early '20s. Helm was invited to the set of Die_Nibelungen, and was given a screen test, which led to her being cast in the dual role of Maria and her evil robot double in Lang's Metropolis (1927). The 17-year-old Helm put up with more than her share of aches and pains during shooting, and even risked some serious burns in the scene in which the evil Maria twin is burned at the stake -- all of that in addition to hours of difficult and painful makeup sequences involving the creation of the robot. Her efforts and patience paid off, however, as her image became one of the most striking out of German cinema of the 1920s, and one of the most enduring in screen history, familiar to audiences 80 years later.



Though Metropolis wasn't a commercial success, Helm got a career coming out of the movie, and she starred in more than three dozen subsequent movies between 1928 and 1935. She did turn down the lead role in The_Blue_Angel, however, which opened the way for Marlene_Dietrich to take the part and shoot to stardom; and Helm's refusal to travel to Hollywood reportedly cost her the role of the monster's bride in The Bride of Frankenstein.


In the mid-'30s, Helm married Hugo Von Kunheim, a German industrialist of Jewish descent; in addition to no longer needing to pursue her acting, with which she was never 100-percent comfortable, she was repelled by the takeover of the German movie industry by the Hitler government. Her marital status, coupled with her anti-Nazi political views, made it impossible for Helm to continue working in movies or living in Germany. From 1935 onward, the couple lived in Switzerland. After the war, they divided their time between Germany and Switzerland, but Helm chose to live quietly and remain anonymous, never actively recalling her movie work and refusing all requests to discuss her screen career. She passed away in 1996, at age 88, some 60 years after the role that had immortalized her onscreen.

Bruce Eder, All Movie Guide

(Fotos: Friedrich Murnau Stiftung, divulgação)

22 março 2010

Tributo a Fritz Lang


Versão original de "Metrópolis", de Fritz Lang, descoberta na Argentina  


"Mais de um quarto do filme se extraviou", indicam as atuais cópias de "Metrópolis". Oitenta anos após a versão original de Fritz Lang ter sido compactada, cenas desaparecidas são achadas em Buenos Aires.


O legendário filme expressionista Metropólis (1927), dirigido por Fritz Lang, foi a mais dispendiosa produção cinematográfica alemã da época, rodada pela Ufa como desafio a Hollywood. No entanto, o efeito esperado não se concretizou.


Após o lançamento ter desagradado crítica e público, representantes da distribuidora norte-americana Paramount encurtaram o filme e simplificaram o enredo radicalmente, cortando cenas fundamentais do original. A versão director's cut ficou nas telas somente até maio de 1927 – e desde então foi considerada extraviada.


Cenas desconhecidas e mais dramáticas


Uma descoberta inédita no Museo del Cine, em Buenos Aires, trouxe à tona a versão original dada por perdida, segundo relatou o semanário alemão Die Zeit. A cópia – um quarto mais longa que a versão conhecida hoje – foi submetida pela diretora do museu ao parecer de três especialistas e confirmada como o original de Fritz Lang.


O filme sobre a cidade do futuro Metrópolis, cujos trabalhadores são condenados a viver no subterrâneo, narra a história de amor entre o filho de um industrial e uma operária, enfocando a luta de classes e o totalitarismo com imagens que se tornaram emblemáticas.


Segundo o relato do Die Zeit, Metropolis ganha uma outra dimensão com as cenas posteriormente cortadas. O papel dos protagonistas, por exemplo, só se tornaria realmente compreensível no contexto original. Outras cenas, como a do resgate das crianças da cidade subterrânea, seriam muito mais dramáticas.


A cópia recém-descoberta foi parar em Buenos Aires através da distribuidora argentina Terra, em 1928. Logo depois, um crítico de cinema adquiriu-a para seu arquivo pessoal, onde ela ficou guardada até a década de 1960.


A odisséia da cópia perdida


Com a venda dos rolos do filme ao Fundo Nacional das Artes da Argentina, a versão original de Metrópolis chegou a uma instituição pública, mas ninguém suspeitava de sua importância.


Em 1992, os rolos foram incorporados à coleção do Museo del Cine, cuja direção foi assumida por Paula Félix-Didier em janeiro passado. Seu ex-marido, diretor do departamento de cinema do Museu de Arte Latino-Americano, foi quem aventou a hipótese de tratar-se de uma cópia desconhecida de Metrópolis, após ter ouvido o diretor de um cineclube dizer quanto tempo a projeção do filme havia durado. Ao assistirem a essa versão, Félix-Didier e seu ex-marido descobriram cenas desconhecidas até então.


A película do Metrópolis reencontrado está arranhada e, após 80 anos, carece de restauração. Mas os especialistas garantiram que todas as cenas ainda estão perfeitamente visíveis. (sm)


Concluída a restauração da versão original do clássico "Metrópolis"

A descoberta de uma versão original do clássico Metrópolis, de 1927, causou furor entre cinéfilos de todo o mundo há cerca de dois anos. A cópia guardada num museu de Buenos Aires continha uma versão completa do clássico do diretor alemão Fritz Lang, incluindo 25 minutos até então dados como perdidos.


O processo de restauração do material encontrado começou logo em seguida e já foi concluído. Mais de 80 anos depois de sua estreia, Metrópolis poderá novamente ser visto como Lang o havia imaginado. A re-estreia acontecerá no próximo dia 12 de fevereiro, na abertura da Berlinale, o Festival Internacional de Cinema de Berlim. A exibição acontecerá ao ar livre, diante do Portão de Brandemburgo.


Quem não quiser esperar até lá tem outra opção: 10 dos 25 minutos adicionais podem ser vistos numa exposição aberta nesta quinta-feira (21/01) no Museu Berlinense do Filme e da Televisão. Intitulada The Complete Metropolis, a mostra apresenta ainda objetos relacionados ao clássico do cinema mudo.


Objetos em exposição


Podem ser vistos também todos os documentos originais disponíveis sobre o filme. Entre os cerca de 200 objetos estão material de cena, desenhos, excertos do roteiro, projetos de arquitetura e figurinos e as partituras que compunham o fundo sonoro.


Também é explicado como foram criados os famosos anéis de luz que circundam a robô Maria, interpretada por Brigitte Helm, numa das cenas mais conhecidas de Metrópolis. Em torno de duzentas fotos mostram Lang e sua equipe durante as filmagens do clássico.


O figurino original do filme não foi preservado, mas duas roupas da personagem masculina Freder foram recriadas pela empresa Kostümhaus Theaterkunst, responsável pelo figurino original.


A versão original


Com cerca de 145 minutos na versão restaurada, Metrópolis está praticamente completo. Segundo a curadora da exposição, Kristina Jaspers, faltam apenas algumas poucas imagens.


Um dos desenhos exibidos na mostra do Museu Berlinense do Filme e da Televisão


Entre as "novas" cenas estão um passeio de carro pela cidade futurista que dá nome ao filme e uma estátua da personagem Hel sendo descoberta. Algumas figuras secundárias ganham mais importância, diz Jaspers. A restauração digital foi feita imagem por imagem, e as cenas adicionais foram incluídas com ajuda das partituras para o acompanhamento musical.


Metrópolis estreou no cinema Zoo Palast de Berlim em 10 de janeiro de 1927, na versão original. O filme foi na época apresentado como o mais caro já produzido no mundo, ao custo de 6 milhões de Reichsmark, a moeda alemã de então. E foi um fiasco de bilheteria.


A distribuidora norte-americana Paramount, responsável pela distribuição mundial, fez cortes radicais na versão entregue por Lang. E, com o fracasso inicial, essa versão reduzida passou a ser exibida também na Alemanha.


Metrópolis foi restaurado pela Fundação Friedrich Wilhelm Murnau. A exposição The Complete Metropolis prossegue até o dia 25 de abril na capital alemã.


AS/dpa/epd/deutsche welle world/f.füllgraf


Multidões assistem Metropolis restaurado
em telão a céu aberto


Versão restaurada e quase completa do clássico do cinema foi exibida para mais de 6 mil pessoas em três locais, entre eles o Portão de Brandemburgo. Cerca de 710 mil espectadores acompanharam o filme pela televisão.


O astro Leonardo DiCaprio também não resistiu à tentação e se acomodou entre os cerca de 2 mil convidados que acompanharam a estreia da versão restaurada de Metrópolis no Friedrichstadtpalast, em Berlim, na noite desta sexta-feira (13/02). A exibição foi parte do programa oficial do Festival de Cinema de Berlim, a Berlinale.


A música de acompanhamento original do filme, composta por Gottfried Huppertz, foi executada ao vivo pela Rundfunk-Sinfonieorchester Berlin, regida pelo maestro Frank Strobel.


Paralelamente, mais duas mil pessoas assistiram ao clássico do cinema mudo na casa de espetáculos Alte Oper de Frankfurt. Outras duas mil foram até o Portão de Brandemburgo, na região central de Berlim, para acompanhar a exibição ao ar livre, apesar da neve e do intenso frio.


Metrópolis foi ainda transmitido pela emissora de televisão Arte, que registrou uma audiência três vezes acima da média para o horário, a partir das 20h50 desta sexta. Segundo números da empresa Media Control, 710 mil espectadores sintonizaram o canal para acompanhar a exibição do clássico, o equivalente a 2,4% do público televisivo do horário.


Pela primeira vez após mais de 80 anos, Metrópolis pôde ser visto praticamente na íntegra, graças à uma cópia do filme encontrada na Argentina há cerca de dois anos. Trechos antes dados como perdidos foram retirados desta cópia, restaurados e acrescentados à versão conhecida do filme.


Mesmo a nova versão ainda não é completa, faltando algumas poucas imagens. A versão exibida nesta sexta-feira na Alemanha tem 147 minutos, cerca de meia hora a mais que a versão tradicional.


Metrópolis foi dirigido pelo austríaco Fritz Lang e estreou em 1927 em Berlim. Na época, foi anunciado como o filme mais caro já produzido. O fracasso nas bilheterias levou a distribuidora Paramount a fazer cortes na obra.


www.dw-world.de
© Deutsche Welle.

Curitiba, 29 de janeiro de 2010


 (fotos: F.Füllgraf)

La chimenea del Rio de la Plata - Montevideo


(fotos: F.Füllgraf, 03/2010)