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30 setembro 2024

Frederico Füllgraf - Diário da Namíbia

Reinhard Maack, Schutztruppe, 1914

Crônica de viagem


Quando meu guia Siegphried - prenome hilário, grafado com “ph”, mais para Otelo que para personagem de Wagner – com sua estampa de rastafari, parou à entrada de uma gruta informativa, colada às paredes rochosas ao pé do Monte Dâures, intuí que estávamos próximos dela. 

Caminhando pelas trilhas do vale, ao lado do bravo Siegphried, eu tentava aprender o estalo de língua (simbolizado por exclamação que antecede certas  palavras, característico dos idiomas bosquímanos), para pronunciar corretamente seu sobrenome (“!Karuchab”), quando ele acenou para um painel redigido em Inglês, advertindo os caminhantes para a transcendência histórica e a imperativa preservação daquele patrimônio da Humanidade, que a poucos passos dali costuma desafiar olhos e mentes, extasiados, com silente beleza milenar.

À sombra do anteparo rochoso, bebi o resto da água mineral prestes a ferver no fundo da garrafa aquecida pelo sol, acendi um cigarro e despistei minha ansiedade. 

Fazia um ano que iniciara minha pesquisa sobre ela, e me preparara para este encontro. Mas, qual o significado de “Don’t pour / spray liquid on them” ? 

Quando o guia aludiu aos atentados de turistas ocidentais contra as pinturas rupestres, com restos de Coca Cola, para “realçar” cores consideradas esmaecidas demais para suas máquinas fotográficas canibais, não me contive e, pela primeira vez desde tempos imemoriais, as pedras avermelhadas do vale de Tsisab ecoaram um sonoro palavrão em Português.

Segui os vinte passos do guia até o refúgio de pedra, como quem ingressa em território sagrado e, de repente, ela se desvelou muito maior e bonita do que eu havia imaginado: a mitológica White Lady. 

Exultei, tremi dos pés à cabeça. 

Obstinado, eu tinha conseguido alcançá-la! Apesar dos obstáculos, da pressão de agenda e do orçamento de produção apertado demais para aquela travessia de Curitiba até o deserto de Namib; via Congonhas, caos aeroportuário, enchente na Marginal, Cumbica, Johannesburgo e Windhoek...

Os quatrocentos quilômetros de estrada da capital até a incandescente Omukuruwaro, Dâures ou Brandberg (“montanha incendiada”, em dialeto Herero, Damara e Alemão, respectivamente), em parte rodados debaixo de sol com 45 graus, foram motivos para festa. Eu não os sentira mais, já estava sob o efeito do transe do deserto, a alma entregue à trilha sonora de certa ancestralidade que transpira da paisagem esculpida; ora doce, ora inclemente. Mas, com uma intrigante sensação de “Walt Disney was here!” Depois, enquanto caminhávamos pela paisagem tórrida, subitamente me lembrei: claro, “Rei Leão”! Como o castelo de Neuschwanstein, do doidivanas Ludwig, plagiado integralmente para cenário de Cinderela, passaram o scanner em toda a Namíbia - dos bichos, pelas montanhas, ao céu, sempre azul - para o storyboard de um filme hollywoodiano que faturou bilhões em todo o mundo.

Mas preciso alertar que eu não viajara até aqui por interesse arqueológico e, sim, por obstinação cinematográfica, a tudo decidido para fechar uma estória – a aventura do topógrafo, dublê de geógrafo e geólogo, alemão, Reinhard Maack, iniciada aqui, entre o Namib e o Kalahari, na África Austral, durante a 1ª. Guerra Mundial, e concluída na década dos anos 60 nos sertões do Paraná; agora reconstruída fragmentariamente em filme para o DOC TV.

Homem, cuja biografia sinaliza a passagem de várias mulheres por sua intimidade, parece ter dormido sempre com seu teodolito ao lado – tão forte sua atração por montanhas; e por quedas, no sentido mais metafórico da palavra. 

Suas conquistas mais famosas estarão sempre contextualizadas por situações extremas: enfrentamentos, prisões, fugas. Teimoso, já vivendo no Brasil, em 1941 duvidou que o Pico Marumby fosse o ponto orográfico mais elevado do Paraná e enfrentou uma escalada de dezesseis dias com chuva, espinheiras, a vertigem das escarpas, barro e tombos, até conquistar o pico por ele batizado de Paraná; o “Kilimandjaro do sul” na acepção de “Vitamina”, o “papa” do montanhismo paranaense. 

A epopéia de Maack custou-lhe três anos de prisão na Ilha Grande, acusado, segundo o prontuário policial da época, de “espionagem para o 3º. Reich", mediante a “transmissão de sinais de lanterna de mão para submarinos alemães, na baía de Paranaguá”. Que Maack alimentava simpatia pelo "Führer" e seu "Reich" nazista era notório, mas que manifestara aquela simpatia de modo tão primário e risível, mais soava como  teoria da conspiração, pobre em figurinos e contra-regra.

Vinte e três anos antes, Maack fugira de um campo de prisioneiros inglês, na então colônia, que antes de "Namíbia" se chamava “África Alemã do Sudoeste”, assumindo a identidade falsa de “Hans Ritter”, passando à clandestinidade, e no final de 1917 entrincheirando-se no Monte Brandberg, que esquadrinhou em seus mínimos detalhes, com a pachorra de agrimensor das Schutztruppen do Kaiser.

Durante o mapeamento desta montanha mais elevada do sul da África, descrita pelos bushmen como milenar “montanha dos deuses”, ocorre o imprevisto: uma patrulha inglesa topa com Maack e três companheiros armados, balas dançam e ricocheteiam pela garganta do Tsisab. Os alemães conseguem escapar e, entre tombos e rachaduras de chapas fotográficas, ao pé da montanha incendiada, Maack depara-se com a gruta misteriosa.

Sem nenhuma chapa fotográfica inteira para seu lambe-lambe, o topógrafo esboça a lápis o gigantesco painel de 5,5 m de largura por 2,0 m de altura. 

Em seu diário de campo especula intensamente sobre o significado desta mais exuberante pintura rupestre de toda a África. Seus desenhos inspirarão uma editora alemã a publicar, em 1930, o primeiro livro sobre arte rupestre bosquímana. 

Em 1947, o abade francês Henri Breuil visita a já então famosa « Gruta de Maack » e batizará seu personagem central com o controvertido nome de «Dama Branca ». Breuil identifica traços « egípcios » e até « cretenses » (minóicos) na técnica do painel, sabichando que a pintura só poderia ser de origem "extra-africana", talvez da mão de « pintores-viajantes » - eurocentrismo rasteiro, fácil de entender, pois Breuil atuava como perito a convite do Apartheid sul-africano, capaz de negar a existência de uma alma em corpo de africano negro.

Sítio característico de cerimônias sagradas dos bosquímanos, com uma idade estimada entre 4 mil a 2 mil anos, a «Dama Branca » é uma vibrante coreografia. Seu centro é ocupado por uma figura dançante, rodeada por um círculo de três caçadores e vários animais. Seus realces em branco contrastam as cores básicas do ocre, vermelho e preto, utilizadas na fase ainda monocromática da pintura rupestre. Na mão esquerda segura um arco e um punhado de flechas, mas na direita, em atitude de invocação, ostenta uma espécie de cetro – o cálice do enigma jamais desvendado...

Em uma cena ficcional, por mim escrita e gravada para o DOC TV, Maack, já vivendo no Brasil, ironiza o abandono de sua dama : «intocada, luxuriante mulher fatal... ». No entanto, através de leituras prévias à expedição ao deserto, eu já desconfiava que tinha que experimentar a desilusão in situm e transferir a decepção ao espectador excitado, rasgando o véu de mistério, que encobre a desejada africana: é que a « dama », apesar de teimosas fantasias europeias, é um cabra macho!

A mortificante revelação é um detalhe observado por arqueólogos mais atentos que Breuil: um discreto cinto, cuja parte frontal sustenta uma bolsa de proteção escrotal. 

Concorre para a desmistificação da burla (Dama Branca, uma Drag Queen do deserto??) o imperativo histórico, segundo o qual, mulheres não eram toleradas no centro dramático de um ritual de caça (aqui explícito), tido, durante milênios, como enclave exclusivamente masculino. Já, na periferia, também da « Dama Branca », abundam seios fartos, de mulheres em papel de meras figurantes da ação.

De volta do deserto, mas ainda intrigado, leio que « damas brancas », como as de Castle Huntly, Branch Brook Park, Durand-Eastman Park, Willow Park e a esfinge de Metedeconk, são todas e, literalmente, miragens femininas para inglês ver. 

Até desenlaçar-se um cinto viril, que não é o da castidade...

(Fotos:  Frederico Füllgraf; divulgação)

27 maio 2021

Frederico Füllgraf - O dia em que a V-2 de Hitler caiu em Ciudad Juárez

Excerto de "O caminho de Tula"
romance em construção

Naqueles dias de deambulações de Albert George pelas ruínas de Nassau, ocorria um episódio insólito no deserto do Novo México, do outro lado do mundo.
Porfírio Contreras, capataz de uma herdade localizada junto à fronteira com o Texas, tem a prova de que foi o dia 29 de maio de 1947, porque se percebendo a distância segura, apeara de seu cavalo, e com a ponta de seu punhal, que levava embainhado às costas, entre o cinturão e as ceroulas, no lado esquerdo inferior da cela de couro gravara a data daquela aparição, para que no futuro nem seus netos duvidassem do que vira!
Contou-me Contreras que, enquanto cavalgava de volta à estância, vaquejando mil e quinhentas cabeças de boi com seus peões, foram surpreendidos pelo bramido ensurdecedor de um objeto voador com forma imprecisa, mas apetrechado com aletas, e que a baixa altura, estimada em quatrocentos pés, descrevera uma elipse sobre suas cabeças, desaparecendo por trás de uma quebrada, de onde logo os alcançara o estrépito e a restolhada de ferros retorcidos. 

Ajuntou o mayoral que a primeira reação de seus homens foi perguntarem-lhe se depois de roubarem o Texas, o Novo México e o Arizona, desta vez os americanos invadiriam a capital do país - tal seu pavor e indignação! 


A notícia fizera eco em toda a região fronteiriça, mas instruído por um despacho recebido pelo telégrafo, com a advertência, “ultra-secreto!”, o cônsul americano em Juárez reunira os diretores do único jornal e da única estação de rádio da cidade (obviamente estranhando que fossem da mesma família), ordenando-lhes you guys shut up!, o que traduzido queria dizer "em boca fechada não entra mosquito!" - enfim, que seus repórteres calassem suas matracas sobre o sucedimento impronunciável.




Este era “o mais infame lançamento”, nas palavras de Wayne Mattson, antigo pesquisador dos esfíngicos movimentos ocorridos no deserto de White Sands desde a rendição da Alemanha, referindo-se ao incidente internacional causado pela estranha "arma voadora" que despencara sobre os jazigos de um cemitério de Ciudad Juárez.
Ainda bem que no México não sabiam do que ocorrera do outro lado da fronteira, uma semana antes – sairiam correndo de suas casas para não mais retornar!
Trama paralela. 

Em sua edição de 22 de maio de 1947, o "Alamogordo News" alardeara o susto da população da localidade de mesmo nome, “tocada por incipiente pavor”, quando uma sorte de objeto voador irrompeu em voo errático nos céus sobre a pequena cidade encravada no deserto, explodindo estrepitosamente ao chocar-se contra as montanhas de Sacramento.



Seu lançamento ocorrera às 4h08 da tarde, no Complexo 33 de White Sands. O propelente líquido fora programado para queimar durante 63,6 segundos, acelerando o foguete, com 9.827 libras de peso, à velocidade de 4.696 pés por segundo, ou 3.202 milhas por hora, elevando-o até uma altitude de 76 milhas nos céus do Novo México. Subitamente, porém, o engenho começara a cambalear, a pressão partindo ao meio o míssil, cujos destroços despencaram nas proximidades da 13ª. Rua com a Cuba Avenue, e também sobre os trilhos das Ferrovias da South Pacific.
Mas do que, diabos, estavam falando?
Alguns malucos saltaram em seus carros, relatava o jornal, apressando-se em alcançar o local do choque, localizado a mais de trinta milhas da base do disparo. 

Bob Calloway, que jogava bola com alguns garotos entre a Avenida Michigan e a 15ª. Rua, conta que os fios elétricos estendidos entre os postes naquelas ruas começaram a vibrar violentamente.
Montados num caminhão, ele e seus amigos acudiram ao local da queda, onde apanharam alguns destroços como troféus. Eram fiações e tanques metálicos que usaram para montar aeromodelos, merendeiras e caixas de ferramentas portáteis.
Eis o fim do misterioso "lançamento" ocorrido no dia 15 de maio, estranhamente noticiado apenas no dia 22, uma semana depois.
Os tais "lançamentos" eram top secret.
Por isso, poucas horas após o bombardeio do cemitério em Ciudad Juárez, um destacamento do ministério do ar americano cruzara a fronteira para inspecionar o local do sinistro, encontrando-se com uma turba de mexicanos já empenhada em saquear e vender a sucata que caíra do céu.

Só então o cônsul gringo e os nativos ficaram sabendo que a invasão do espaço aéreo do México fora um acidente, pois, como tratara de elucidar Monte Marlin, oficial de relações públicas do campo de provas balísticas de White Sands, "ao invés de obedecer à trajetória programada, navegando para norte, a engenhoca se desgovernara, e sobrevoando El Paso, do outro lado da fronteira, rumara ao sul..."

- Luckily, no one was injured! – tratou de contemporizar o porta-voz diante das carrancas varadas dos hispânicos.

Ao próprio cônsul, pasmado, confidenciou que em meados de 1945, nada menos que trezentos vagões de trem haviam descarregado em Las Cruces o mais fantástico butim de guerra de todos os tempos!

Eram motores das bombas voadoras alemãs V-2, como essa que acabara de espatifar-se nos ermos. Era mais: ali abundavam fuselagens, tanques de propelentes, giroscópios e outros equipamentos com funções a adivinhar.

De Las Cruces, fim da malha ferroviária, as super-armas alemãs seguiram em caminhões - centenas de caminhões! - para a base de White Sands. 

Lá estava funcionando um programa, explicou Marlin, para treinar americanos em operações de lançamento com armas teleguiadas, artifício até ali sobejamente desconhecido na América.

Infelizmente, ajuntara o oficial, apesar de operadas pelos cento e setenta e sete cientistas e técnicos que as tinham desenvolvido na Alemanha, nem todos os disparos com essas armas eram exitosos, embora estimasse que sua margem de acerto fosse de sessenta e oito por cento. Portanto, somente aqueles trinta e dois por cento errantes – ehhmm... restantes!, corrigiu-se rapidamente - explicavam o desvio imprevisto daquela V-2 para Ciudad Juárez.

E arrumando num caminhão militar, fortemente guarnecido, os destroços que restavam da arma futurista, que não deixaram fotografar pelos mexicanos, os americanos retornaram à fronteira e desapareceram.


Fotos: divulgação

19 agosto 2019

Frederico Füllgraf - Roberto Arlt, Cármen e Baía Creek

Fotos: bafilm.com.ar, R. Haussmann

Cármen de Patagones
Roberto Arlt

Imposibilitado de utilizar diez definiciones para calificar al pueblo de Patagones escalonaré unas cuantas. El público puede quedarse con la que más le agrade. Ahí van:

Patagones es un pueblo donde uno se puede morir de muerte romántica.
Patagones es una niña bien. Aspira.

Patagones podría ser una ciudad costera de Brasil. Es más quieto y denso que una de aquellas ciudades del trópico donde José Mojica y la Rubia Platinada se desvanecen escuchando una rumba ejecutada por la orquesta de Don Aspiazu.
Patagones es bonito como un beso de novia. (En días de lluvia).

En Patagones se puede escribir una novela de amor tan amoroso, que después de leerla, los amantes no escojan sino entre el suicidio o la felicidad.

Patagones es noble, rústico y severo y, al mismo tiempo, dulce como un “menino”.

Para escribir sobre Patagones hay que ponerse una mano sobre el corazón y entornar dulcemente los ojos. Y no tener miedo del ridículo al afirmar que es diez veces más bonito que Bahía Blanca, que Rosario y que Tandil, a pesar de ser diez veces más pequeño que la parroquia de Caballito.

Todas estas y otras innumerables virtudes se le pueden descubrir a Patagones en un día nublado. (in: En el país del viento, Editorial Sigmur, 1996.)


Baía Creek

Frederico Füllgraf


Quando o arrependimento dói, é preciso reinventar-se.

Mal lembrado, era meio-dia, sol a pino, quando atravessaram, apressados, Patagones, porque pretendiam atingir San Antonio Oeste antes do anoitecer. Mas não pelo caminho mais curto, a Ruta Nacional 3 e, sim, bordejando o Golfo de San Matías, sobre uma estrada de rípio, feita de cascalho e muito pó, porque ali, assim alertara o Guia YPF, se ocultavam duas atrações: a lobería Punta Bermeja e, depois dela, a Baia Creek.

Rumo à Patagônia e ao fim do mundo, estavam imersos numa paisagem localizada mil quilômetros ao sul de Buenos Aires, onde o Rio Negro separa sua província homônima da de Buenos Aires, ato continuo desfazendo-se no Atlântico, em El Pesadero.

Navegando sob colunas de pó de cor ocre, que penetrava pelas frestas do carro hermeticamente fechado, e levitava em câmera lenta diante de seus olhos, como plumas à brisa, sobre o primeiro segmento da estrada de rípio, atingiram Punta Bermeja, para apreciar os primeiros lobos marinhos em suas vidas. Que têm primos maiores, chamados leões, e que são todos muito belos, mas de pouca conversa, logo mostrando suas presas afiadas e amareladas de maresia, sal e tanto peixe, e prontos para o ataque. E têm toda razão: não têm nada a ganhar com essas fotos, todas, tiradas às suas custas, mas tudo a perder com a importunação de sua siesta ao sol, que por ali é disputado a rosnaduras e mordidas; de tão infrequente.

E então se descortinou Bahia Creek - paisagem escarpada com praias desertas, de areia negra, vulcânica, feito refúgio que incitava ao recolhimento contemplativo. 

No horizonte, o dia já sangrava em texturas alaranjadas e purpúreas que, refletidas pela superfície das águas, faziam do mar a casa dos espelhos gelatinosos e ondeantes. 

Vento áspero varria a praia, levantando areia em espirais de furta-cores. 

Ela se acocorara, buscando proteção ao lado de um arbusto, que tanto tremia, dando sentido literal àquele provérbio da vara verde. Tiritando sob as rajadas de vento, tirou a roupa. Era o primeiro nu feminino, dela. E dele! 


Silente, os olhos pregados naquele mar de prata e sangue, ela não percebia que sobre seu seios serpenteavam os pincéis do crepúsculo. Tinha aquele abandono de Vera Broido nas fotos de Raoul Haussmann. E ele sentiu-se enternecido. 




Quando o vento foi se tornando gélido e o mar, mais negro, agasalharam-se com beijos de hálito quente e seguiram para San Antonio. Mas seus pensamentos estavam em Cármen - Cármen de Patagones.

Em parte, isso soa a imaginação, um devaneio incitado por aquela paisagem primeva e metálica, cuja beleza excessiva fazia doer os olhos. Mas só em parte.

Só muitos anos depois descobri a crônica de Roberto Arlt.
E quando a li, senti imenso remorso.
Arrependimento por tê-la atravessado com tanta pressa.
Então decidi-me: voltaria a Cármen!
Para rebobinar o filme e esperar o dia esvair-se em novo crepúsculo. 
Nos braços daquela que disse, "contigo me me voy hasta el fin del mundo".


25 março 2018

Frederico Füllgraf - Um copião para Alexander Kluge - notas sobre um desencontro produtivo

Fotos de cima para baixo: Theodor Adorno
com Alexander Kluge (1958); Fritz Lang (anos 1960);
A. Kluge (anos 2000).





                                                                                                  Para Luciana Vilas Boas


Neste momento, ele deverá ter lido a carta que lhe mandei; uma versão ligeiramente personalizada da estória que vou contar, e que começa assim: 


“Lieber Alexander, você não é culpado pelo rumo que minha vida tomou...”

No início da narrativa de “O caminho de Tula”, romance em construção, meu personagem, Hannes, filho de emigrantes europeus, criado no Brasil, relembra sua passagem pela agitada Frankfurt do pós-1968.

Um belo dia pedira licença na distribuidora de livros, seu primeiro emprego naquele território das descobertas, pretextando uma consulta urgente ao dentista. Era uma mentira que encobria sua ansiedade por ver e ouvir, em carne e osso, uma aula do mítico filósofo, Theodor Adorno, cujos livros estavam entre os mais solicitados nas encomendas diárias das livrarias. Contudo, ao baixar do bonde, à entrada da Universidade Johann Wolfgang von Goethe, deparara-se com uma curiosa barreira policial que o impedia de realizar seu sonho. O que acontecia ali? O célebre autor da “Dialética do Esclarecimento” e crítico feroz da moral impostora mandara chamar os homens da lei porque um grupo de moças interrompera seu vôo semanal para esferas do elevado pensamento com um atentado bastante mundano e ardiloso, cujas armas foram alguns pares de peitos nus; nus e belos advertira um dos policiais, mas não concedendo a Hannes o estatuto da dúvida, porque não o deixara cruzar a barreira
.


O atentado


Início de primavera com maus presságios, nem bem iniciara sua “Introdução ao pensamento dialético”, Theodor W. Adorno fora interrompido por um de seus estudantes, que lhe exigia uma “autocrítica”. Autocrítica - eu? – indignara-se o velho professor, marxista da mais fina cepa. Uma resma de panfletos fora lançada aos ares da sala, cujo título decretava: “Adorno está morto!” Tumulto nas galerias! Facção radical do movimento estudantil, o “Grupo de Base da Sociologia” cobrava de Adorno e seu ex-aluno, Jürgen Habermas, que “abraçassem a luta de classes”. Para não deixar barato, um engraçadinho rabiscara no quadro negro um verso rimado: “Enquanto o Adorno, querido, repetir sua eterna mesmice, pro resto da vida teremos capitalismo e burrice!“. E então o atentado carnal: quando algumas moças despiram blusas e sutiãs, exibindo seus bem talhados seios, ameaçando beijar e bombardeando o distinto pensador com uma chuva de flores, o ex-colega de Herbert Marcuse e patrocinador de Walter Benjamin juntara seus livros e agendas, esparramados sobre o púlpito e, protegendo o rosto com sua bolsa de couro, deixara o anfiteatro sob lágrimas.

Poster do SDS: "Todos falam sobre o tempo, nós não!"
(queriam dizer:"falamos na luta de classes")

Este é o relato póstumo de uma das moças que durante trinta e quatro anos mantiveram segredo de suas identidades, até que Hannah Weitemeier, uma delas, hoje respeitável marchand e senhora muito bem casada, admitiu em sua primeira entrevista sobre o incidente, que nem aluna de Adorno era, mas pau mandado do SDS, a federação de estudantes socialistas. Incidente do qual inicialmente se suspeitara, fosse o despertar do feminismo, ele foi execrado como “grande sacanagem com o venerável professor”, até pelas mais aguerridas mentoras do movimento – por acaso os provocadores do tumulto tinham se esquecido que Adorno era descendente de judeus, perseguido pelo nazismo?

No meio da confusão, tudo o que Hannes conseguira distinguir naquela fatídica manhã de 22 de abril de 1969, foram a calva e a pancinha proeminente do incensado pensador, que em entrevista aos meios de comunicação queixava-se da traição de seus estudantes, principalmente aquelas... “amazonas, loiras” – logo ele, o Catilina libertador dos grilhões do capitalismo e da libido reprimida!

E esse foi o primeiro contato esbanjando carnalidade, mas destituído de toda aura acadêmica, de Hannes com a lendária “Escola de Frankfurt”, cujas luzes naquela manhã piscavam como neon profano de um castelinho de striptease, anunciando, debochado, a “dialética do insuspeitado nu”.

O café com Adorno

O que Hannes não poderia imaginar é que, tivesse sido mais persistente, cativando os policiais com um pouco de charme latino, e se aproximado do laureado mestre, teria ganhado aquele dia duas vezes, registrando para a posteridade o insólito encontro com Adorno, e redescobrindo a pista de seu herói, do qual se tinha desgarrado.

Com sua auto-estima em baixa, tudo o que Adorno precisava naqueles momentos era um abraço que lhe brindasse afeto e não a rude luta de classes.  Kommen Sie – venha comigo! Sem pestanejar, o aplaudido professor o teria conduzido até sua sala no Instituto de Pesquisas Sociais, pedido à sua secretária que lhes servisse um café e, dando-se conta que tinha diante de si um admirador, sul-americano e simplório, ali mesmo teria derramado seu desabafo – essa esquerda, de classe média e boquirrota, é um porre, meu jovem! Quer dizer então que o sr. veio à Alemanha para “estudar cinema”? – Adorno o teria acuado na poltrona, mas para já emendar que, fazia uns doze anos, naquela sala entulhada até o teto de livros e manuscritos, fora padrinho de um ritual de iniciação que todo aspirante à sétima arte celebraria como intercessão divina, um delicado mimo dos anjos, porque apresentara seu amigo, Fritz Lang - IMDb – aquele mesmo, o diretor de Metropolis (1927) - IMDb - a um jovem doutorando, chamado Alexander Kluge. Doutorando em Direito, teria então ressaltado Adorno, que não pensava grande coisa do cinema, e por isso recomendara a Kluge que tratasse de construir uma sólida carreira de jurista, com direito a um provento idem. Aquela prosa de pai ou mentor, bem intencionado, que sabe muito bem: quando seu tutelado diz, “jawohl, Herr Professor!”, está mentindo, porque, atravessada a porta, sai à rua para fazer exatamente o contrário. E foi o que Kluge fez: sequer pendurou as chuteiras da jurisprudência, porque jamais chegou a usá-las, nem num escritório de advocacia, quanto mais num tribunal, e jogou-se de corpo e alma na arena do cinema – que os leões o estraçalhassem!

Sem saber que ele tinha mandado às favas o Direito, quinze anos mais tarde eu fiz o mesmo, traindo a família e chutando para o alto a carreira de geólogo. Com uma ligeira diferença: a frase imaginária arremessada ao universo por Kluge, assim, de bobeira, teve efeito demolidor; mas com a disciplina como causa, que eu não tive. Nela é possível enxergar uma dupla de trocadilhos. O primeiro emprego de Kluge foi como assistente de Fritz Lang, que em 1958 retornava à Alemanha após vinte e cinco anos de exílio, para filmar “O tigre de Eshnapur” e “O sepulcro indiano”. Contrariando todas as expectativas, o tigre dos estúdios em Berlim não o estraçalhara, mas lhe infundira imenso “tédio”, Kluge confessaria anos mais tarde; talvez porque Lang já fosse um tigre desdentado, sem a garra dos tempos da gloriosa UFA. O segundo trocadilho ocorre com a volta do leão à carreira do cineasta, que não era o leão da Metro e, sim, de Veneza, em cujos festivais Kluge tornara-se o matador, amansando várias estatuetas do felino, de prata e de ouro, com as quais, ao final dos anos 1970 sua carreira estava consolidada.

As camas art-déco


Contudo, nesta flexão da espiral de causos narrados com grande noção de responsabilidade cabe perguntar qual era, afinal, a missão de Hannes? Como ensaio de resposta, permito-me alertar minha querida editora, mulher a quem devo um balaio de oportunidades, a um incidente de percurso: feito Leopold Bloom tupiniquim durante sua labiríntica odisséia por Frankfurt, o personagem Hannes se esquece de perseguir Alexander Kluge, a cujos rastros se aferrara desde que, na Curitiba do final dos anos 1960, assistira aquele filme emblemático, “Despedida de ontem” (Yesterday Girl, 1967), protagonizado por Alexandra Kluge, irmã e xará do diretor, dublê de médica e atriz de ocasião, com aquela expressão de beleza desolada em seu rosto.




Alexandra Kluge

Diz Hannes que se esquecera de Kluge porque, cheio de curiosidade e dispersivo, fora abduzido para suas primeiras lições na arte da contemplação do belo, fora das telas: mulheres bonitas, porém assaz determinadas, cuja cartilha embruxada rezava que fazia mal à alma feminina dormir duas vezes com o mesmo homem. Sem dar-se conta Hannes deambulara por Frankfurt como personagem de um lerdo e brumoso sonho de noite de verão, sempre abandonando o Club Voltaire de madrugada como pupilo de um muito peculiar e solitário curso de iniciação artística, que consistia em decifrar os estilos de época das camas das suas amantes – jugendstil, art-déco, tatamis, colchões plebeus estirados no chão - quando estas desfaleciam nuas ao seu lado após se embebedarem com a Taça de Circe. Aquilo o confundira pra valer, mas era o Zeitgeist de suas educadoras.
Então, o inevitável conflito, não com as donas das camas, mas entre o personagem e seu autor: Hannes queria estender-se na descrição de sua luxúria, inventando pretextos que o redimissem do fracasso de sua missão já estabelecida no Brasil - encontrar Alexander Kluge a qualquer preço. Tudo muito constrangedor! Por isso interferi quando, subitamente, dei-me conta de que o relacionamento com Kluge e sua arte, antes de nada mais, pertencem a mim: até segunda ordem suspendi as inferências frívolas do personagem, e matutei se meu herói desrespeitado por Hannes não mereceria um livro à parte – eis a elipse com segundas intenções cochichada, quase inaudível, para minha querida editora (aqui advertida para a publicação, pela concorrência que não dorme em serviço, de “O quinto ato”, de Kluge).

Mas a crônica ainda não faz sentido – o que esses causos, todos, têm a ver com o título? O que eu precisava ter esclarecido é que a estória dentro desta estória começa em um final de tarde friorento, em Curitiba, quando Christo Dickoff me levou até a Cinematográfica Guaíra, ao pé de cujas salas localizadas num pavimento elevado de um sobradão, antigo, se descortinava a Praça Tiradentes, em sua babélica quadratura.

Mauro Alice



Eu trazia nas mãos um punhado de cartazes do Jovem Cinema Alemão que me tinham sido confiados pelo diretor do Instituto Goethe para divulgar uma mostra. Em nossos corações e mentes de cinéfilos, Godard, Truffaut e Resnais eram nomes e endereços devidamente assimilados como ícones da Nouvelle Vague. Mas Junger deutscher Film – o que era aquilo? Lembro-me do espanto ao soletrarmos nomes tão infreqüentes como Volker Schlöndorff, Jean-Marie Straub e um tal Alexander Kluge. E estudando-os com olhos lampejantes, Mauro Alice, aquele senhor elegante e montador da Vera Cruz, em férias na sua Curitiba natal, decolara para uma viagem na memória, pontificando sobre o Expressionismo Alemão, Fritz Langs e Caligaris, tudo para mim tão fantástico e intangível, que meus olhos não queriam desgrudar dos lábios do italiano.

Mauro não vacilou um instante: com uma velha Arriflex, 35 mm, montada sobre um tripé, desafiou-me para dividir com ele a “direção”. Na verdade, mero ensaio de “natureza morta”, umas pinceladas da câmera sobre uma superfície de papel, sem cenário vivo, ou atores para orientar - e estavam filmados os cartazes dos filmes alemães. Aquele fora um ato batismal: minha iniciação técnica no cinema. O que era um “close”, um “tilt”, um “contra-plongée”, um “travelling” foram noções que a partir daquela tarde reforcei com a leitura de um livrinho de “primeiros passos”, de Maurício Rittner, que eu teimava em decodificar a bordo do ônibus sacolejante, rumo à escola. Sim, eu não passava de um garoto.


Freqüentador assíduo dos “filmes de arte” do Colégio Santa Maria, o Cinema definitivamente me seduzira como promissão, embora em casa todos apostassem em meu futuro como geólogo da Petrobras. Por um fio fui desviado do chamamento, não fosse o movimento estudantil e a decisão do meu pai, assustado com a UNE, de me “tirar de circulação”. E embarcado num cargueiro de minérios, no porto de Vitória, fui circular na margem boreal do Atlântico.


A lata de negativo


Na bagagem eu trazia um talismã: o copião com os poucos metros de película 35 mm, que estampavam aqueles cartazes generosamente filmados e revelados por Mauro Alice. Deslumbrado por dois de seus filmes – “Despedida de ontem” e “Os artistas na cúpula do circo: perplexos” - eu me obstinara que algum dia presentearia aquela lata a Alexander Kluge como prova de minha devoção, mas também com a segunda intenção de cavar uma vaga em sua equipe de produção.


No fundo, quero dizer, na esfera do subconsciente, essa intenção era um pouco mais torta: eu precisava de um mestre, mas não tivera um pai presente; possivelmente estava à procura dos dois em um só.


Uma bela noite, em Kassel, fui ao cinema, e na sala de espera deparei-me com o cartaz de “Os artistas na cúpula do circo...” – aquilo seria uma piada? Como quem não quer nada me aproximei do gerente que afixava cartazes das próximas estréias e, comendo pelas bordas, perguntei se ele sabia onde morava o Kluge. E me lembro perfeitamente que não conseguia fechar minha boca quando o gerente disse, “olha, é fácil encontrá-lo, porque ele mora aqui, em Kassel!”. Ao despedir-me, dei meia volta e perguntei se ele tinha de sobra aquele pôster de “Os artistas...”. Mas claro, respondeu aquele homem gentil, e o presenteou-me.


Meu coração batia forte: o espectro do meu guru parecia ganhar corpo – seria o magnetismo da latinha de 35 mm? Invadido por uma alegria nunca antes sentida, jubilosa e devastadora, já me percebia estendendo cabos elétricos na próxima filmagem d “o cara”, mestre sonhado, mas intangível. Contudo, o sonho que na ante-sala do cinema prometera materializar-se foi bruscamente interrompido dias depois por minha mudança para Frankfurt. E nunca mais vi Alexander Kluge. Que não morava mais, ou jamais morara em Kassel, e que por ironia filmava um filme atrás do outro - em Frankfurt! Nosso encontro nunca aconteceu. Não em Frankfurt. Ocorreu por acaso, oito anos mais tarde, num pequeno cinema de Berlim, onde fui assistir ao lançamento de “A Patriota” (1978).


Terminada a projeção do filme e acendidas as luzes, havia uns setenta, talvez oitenta espectadores na platéia. E lá estava Kluge, à frente da tela, vestindo seu indefectível terno escuro, sempre de elegante corte, mas sem a gravata, com a qual dirigira seus primeiros filmes. Acho que com o passar dos anos passara a detestá-la, e então disse, rindo: “Bem vindos ao meu cineminha privado!” Queria dizer: eu faço mesmo filmes para meu clube do bolinha – um surto de falsa modéstia, porque a maioria de seus filmes, ou foram aplaudidos em cena aberta, ou ovacionados em pé pelo público em festivais internacionais.


O que é, e como narrar a História?


Em “A Patriota”, a ingênua, mas determinada professora de história, Gabi Teichert, investiga as raízes da História alemã. Alta madrugada, uma pá na mão, ela é flagrada pelo porteiro ao cavar buracos no jardim de seu prédio. Alertada ao estrago que está fazendo ela responde com a maior cara dura que “é preciso cavar fundo para descobrir a verdade histórica“. Obviamente, diante de tal disparate o porteiro entende que tem diante de si uma doida varrida, mas trinta anos depois, aquela metáfora e a imagem insólita diante da câmera continuam impregnadas em minha memória.




Na última cena do curta-metragem, “Amor cego” (2001), no qual Kluge entrevista Jean Luc Godard, após a estréia de seu longa, “Ode ao amor” (2001), o diretor suíço-francês diz: “A história jamais foi bem reproduzida pelo cinema, apenas de modo espetacular. Para isso, o cinema teria de ter se tornado adulto e ter se tornado maior, e agora está muito tarde, agora acabou”. Essa crença de Godard é romântica, e por incorporar excesso de páthos é falsa.

Com o passar dos anos, percebi que as personagens, Gabi Teichert e Leni

Peickert, que povoam alguns filmes do diretor nas décadas de 1980 e 1990, eram na verdade alter-egos do próprio Kluge. Este concebe a História real como vasta coletânea de estórias dispersas, e adaptou para sua técnica narrativa o modelo exitoso dos Irmãos Grimm, autores da frase emblemática, “mergulhamos na História alemã e descobrimos um monte de contos de fada”. Por isso os filmes de Alexander Kluge são colchas de retalho extravagantes, que se alimentam de cenas ficcionais, reportagens, figurinhas de gibi, fotos, recortes de jornal, cinejornais históricos, entrevistas e textos; recursos para ativar a própria capacidade do espectador em estabelecer nexos entre imagens vastamente disparatadas.


O resultado da aplicação dessa técnica está sintetizado numa frase do diretor no quinto capítulo de seu livro making-of sobre a produção do filme, “O Capital”, onde resume sua proposta bem-sucedida para uma “renovação radical do cinema”. Diz Kluge: “O cinema antigo rodava uma trama a partir de vários pontos de vista. O novo cinema, em oposição, monta um ponto de vista a partir de várias tramas”. Essa concepção remete a Sergei Eisenstein, que cunhou o conceito de “montagem de atrações”, segundo Kluge, “o grande circo - é isso o que o cinema sabe fazer”.


Quinze anos após sua estréia no cinema com filmes de narrativa convencional, ali Kluge iniciava seu projeto da gradual desconstrução do discurso cinematográfico antigo com a firme intenção de re-educar parcelas do público cinéfilo, mas sem a petulância que adere ao verbo, o que fez com muita criatividade e bom humor. Digamos que ali Kluge estreava sua cruzada estética contra a síndrome da cegueira diagnosticada vinte anos mais tarde por José Saramago em seu romance, com uma furiosa metáfora noir.  Para acirrar ainda mais essa metáfora percebida por artistas e gêneros tão dissimiles, mundo afora, em “O ataque do presente contra o resto do tempo” (1985), Alexander Kluge nos conta a estória de um diretor de cinema, cego, que durante uma filmagem obstinada roda seu mais belo filme. “O presente se enfatua. Mas sem a história pregressa e o futuro, sobretudo sob forma de oportunidade, não existe realidade – este é o ataque do presente contra o resto do tempo”, adverte Kluge na sinopse.


Spanner, o espião voyeur

Uma das estorinhas de “A Patriota” é a do personagem hilário, “Spanner” (“o tenso”), agente dos serviços de inteligência infiltrado nas multidões para espionar “atos potencialmente subversivos”. Ocorre que, à noite, Spanner atua como voyeur, bisbilhotando janelas de apartamentos à procura de mulheres nuas. Tranquila, ao invés de condenar suas práticas perversas, a heroína Gabi Teichert empresta seus ouvidos às confissões do dedo-duro. Ele lhe conta que seu grande problema é sua incapacidade de relaxar, descontrair-se. E, exatamente porque não conseguia relaxar, infelizmente, não conseguia extrair prazer do voyeurismo enquanto observava mulheres com a mesma tensão adotada durante suas missões policiais.


Hannelore Hoger em A Patriota

Qual é a graça desse personagem? Numa leitura alegórica, “tenso” é o apelido de todos nós, espectadores de cinema, que não conseguimos relaxar diante da tela e permitindo que aluviões de imagens e sons arrebentem sobre nossos sentidos, anestesiando-os. Por isso, a perspicaz Gabi Teichert sugere ao agente, dublê de voyeur, um sutil exercício de relaxamento, que consiste em certo número de piscadelas, de pestanejos, ora breves, ora mais demorados – exercício que corresponde exatamente ao processo de montagem de Kluge, quando insere espaços em preto e branco entre as cenas coloridas de um filme, por átimos rompendo a continuidade e, com a rápida brecha criada, convida o espectador para ali enxertar sua própria imaginação, que pode ser outra imagem, ou a retomada do roteiro por outras calendas.

”Somos nossa memória, esse quimérico museu de formas inconstantes, esse montão de espelhos rotos”, dizia Montaigne.

Garrafas ao mar


Não me lembro exatamente sobre o que Kluge e eu conversamos após aquela projeção. Recordo obviamente de seus modos educados, da “técnica socrática” de perguntar, curiosa e atenta ao que seu interlocutor tem para lhe contar, com personalidade aberta a tudo, ao mesmo tempo humilde e comedido, com intervenções sempre terminadas com seu imperecível “ja?” – um “não é?”, respeitoso, que pede licença para a aceitação de suas opiniões.


Estas são minhas recordações daquele encontro, mas na boca um desagradável sabor a culpa e um buraco negro em meu coração – onde estava a maldita lata com o copião, que eu não conseguira mais encontrar?


Mas então aquele telefonema - ninguém vai acreditar!


Era um sábado pela manhã, acho que foi em 2005. Alexander Kluge ligou para meu celular enquanto eu flanava pela feira do Alto da Glória, em Curitiba, o nariz enfiado, ora no meio de couves-flores, ora em pastas de berinjela... Ninguém vai acreditar, mas minha namorada de então foi minha incorruptível testemunha – Kluge ligou, sim. Ligou para lamentar que não poderia colocar no ar um filme de minha autoria (se bem recordo, era sobre a morte do marinheiro, Wilmer, nos Andes), porque, por meses, seu programa estava tomado por discussões sobre óperas, no qual o debochado e terno Heiner Müller foi um de seus entrevistados. Explicando: naqueles dias, Kluge era dono de seu muito particular canal de televisão, Dctp, sediado em Düsseldorf, de onde, como dizia, “envio mensagens em garrafas”. Frase que novamente evocou o paradeiro da lata com o copião...


À moda dos produtores tupiniquins, petulantes e soberbos, Kluge poderia sobejamente ter ignorado minha oferta, mas ligou-me num sábado pela manhã, e para o celular – não apenas o grande iluminista, mas um doce de pessoa!




04 dezembro 2017

Frederico Füllgraf - A selvagem da motocicleta


Marie-Therese von Hammerstein: uma intrépida contra o nazismo

Ensaio

São nove da manhã, e a BMW de setecentas cilindradas cospe fogo na estrada. Annete Rosenbauer sente o escapamento esbraseado morder-lhe as canelas. A cento e vinte por hora, apesar do capacete de couro encaixado na cabeça, o vento metralha com rajadas geladas e afiadas como estiletes em seus ouvidos.
Depois de deixarem para trás Dresden, rumo à fronteira da Tchecoslováquia, a piloto faz um giro de vinte e cinco graus, para trás, e berra um aviso de que vai parar. Então a máquina resvala com marcha desacelerada para o acostamento.  

- Não aguentava mais! – diz Marie-Therese, desfazendo-se do capacete e das luvas, enquanto apeia. – Se não tiver a mesma pressa, fique de guarda, que eu volto já! – ela ajunta para sua passageira, divertida, já desaparecendo atrás de uns arbustos. 

Escrutinando a paisagem em busca de intrusos, e rindo, porque a única intrusa, ali, é ela, Marie-Therese desprende o cinto e arria a calça de couro, que arrasta consigo a calcinha até abaixo dos joelhos, e se agacha. 

Passarinhos saltitam e cochicham na galhada. Ao longe, ela divisa uma grande cegonha branca circunvoando um grupo de agricultores na seara – como é deslumbrante aquele vale do Elba! 

Quando retorna à moto, cujo motor crepita enquanto esfria, e ainda ocupada com afivelar o cinto da calça, Annete a contempla e se pergunta, intrigada, por que essa jovem, tão bonita, decidiu meter-se nessas aventuras mais que perigosas, ao invés de investir num “bom partido”.
Annete é descendente de judeus. Isto quer dizer que, desde 30 de janeiro de 1933, ela pertence a uma minoria acusada nos discursos do Reichs-Propagandaminister, Dr. Joseph Goebbels, de “raça odiosa e conspiradora”. Mas se ela, Annete, se sente como alemã, ora essa! Militante da Juventude Comunista, ainda por cima, agora ela também corre perigo de vida.
Nestes primeiros vinte dias de fevereiro de 1933, milhares de socialdemocratas e comunistas foram presos. Suas bancadas parlamentares, completas, no Reichstag, foram abduzidas para um novo tipo de prisão, cuja abreviatura é KZ, de Konzentrationslager – campo de concentração. Era uma invenção inglesa testada na África do Sul, mas os nazistas a tinham aperfeiçoado. 

Findo o mês de janeiro, estava morta a Democracia, enterrada a República de Weimar. O congresso do Reichstag, fechado; todos os partidos políticos, menos o nazista, declarados ilegais; a imprensa, amordaçada. Tudo temperado por uma avalanche de discursos ultranacionalistas e xenófobos.
Há vinte dias, na Alemanha o terror estava desatado, e o inacreditável em tudo aquilo era que as pessoas pareciam felizes, aplaudiam aquelas hordas vestidas de marrom, sempre marchando ao som de estrepitosos hinos marciais. Por isso, Annette e sua família tinham recebido o aviso para cair fora. 

Mas na Alemanha também era comum aquele adágio que dizia, “quem avisa amigo é!”. 

O bem informado pai de Marie-Therese não era propriamente um amigo de Annette. Mas sendo inimigo de seus inimigos, tornara-se seu amigo. Ela tivera apenas dois dias para organizar-se e cair na estrada. Então Marie-Therese, aquele anjo loiro da nobreza que não se vexava em fazer xixi na capoeira, lhe dissera, “junte sua tralha, que eu a levo pra fora do país!”.
Tudo o que Annette leva em sua mochila são duas trocas de roupa, o nécessaire e, bem..., alguns endereços, escondidos sob suas roupas íntimas, onde não teriam a audácia de a apalparem.
Enquanto fumam seus cigarros e bebem um gole do café ainda quente, da garrafa térmica, Marie insiste no último ensaio da conversa que elas deverão desfiar no momento em que cruzarem a fronteira. Ato contínuo as duas mulheres voltam a montar a moto, que dispara entre os grotões do Elba, estrada afora.
E tudo correra como mandara o figurino: passaram a fronteira como duas amigas a passeio de compras, em Praga. “Sabe como é, seu guarda, ver o sol sangrar sobre a Cidade Velha, e depois morrer... - Veneza não tá com nada!”.

A bandeira com a suástica drapejando ao vento, o oficial sapecara mesmo uma continência às duas, com um sonoro Heil, Hitler! Que Marie respondeu com um Scheiss Hitler! Mas aí a moto já estava longe da cancela.
Cinco horas mais tarde - cinco horas cravadas, porque na ida, quando a moto assomara ao campo de visão de sua guarita, com reflexo nele completamente involuntário, mas religioso, toda vez que se aproximava um veículo, o guarda consultara seu relógio de pulso, e eram onze da manhã - a BMW de Marie-Therese voltava a aproximar-se de sua cancela. 

O policial surpreendeu-se porque no lugar da passageira, apenas a embalagem de uma loja de departamentos ocupava a garupa. 

Então Marie-Therese inventou uma desculpa de família, obrigações imprevistas de sua amiga, coisas assim. Folheando o passaporte, por mero protocolo, tão inócuo quanto consultar o relógio toda vez que se aproximava algum veículo, desta vez o guarda de fronteiras não se conteve: - Quer dizer que a senhora., ... - ou devo dizer Fräulein? – insinuou, perscrutando a mão direita da jovem mulher em busca de alguma aliança.

- Quer dizer que estou diante da filha do preclaro General Von Hammerstein? Afinal, não é todo dia...
E percorrendo com um par de olhos vulgares aquele corpo que apesar dos couros pretos, todos, não conseguia esconder curvas e compleições que pediam, sempre, um segundo olhar de admiração, o milico lhe devolveu os documentos, teimando em uma prosa pegajosa. Por isso, Marie-Therese saltou para a BMW, e o Heil, Hitler!... o vento levou.
Tinha duzentos quilômetros de estrada pela frente; bastante chão para pensar. 

Uma coisa era certa: a partir daquele dia, ela não deveria mais transportar fugitivos, cruzando o mesmo ponto da fronteira. Logo chamaria atenção. Se fosse para Praga novamente, tinha que estudar alternativas no mapa rodoviário. A máquina roncando entre suas pernas, abocanhando vorazmente o alcatrão, negro, que se insinuava como risca de fuligem na paisagem incendiada pelo poente, ela lembrou-se daquele tarde, do final de verão, fazia cinco anos. Tinha recém completado dezesseis anos de idade quando aquele homem de estatura mediana e seu bigodinho, que o vulgo chamava de “freio de nhaca”, conversava com seu pai na varanda de sua casa. 

Fazia dez anos que a Grande Guerra tinha terminado, e Kurt von Hammerstein Equord, seu pai, era Comandante do Reichswehr, aquele exército encolhido, minguado, de cem mil homens, imposto à Alemanha mediante o Tratado de Versalhes, dos vencedores.
Do Gal. Von Hammerstein dizia-se que nascera predestinado para a vida militar, porque aos onze anos de idade o rebento de uma muito antiga cepa da nobreza renana fora internado na Imperial Academia Militar, que só teve a virtual permissão de abandonar quando já se diplomara como oficial de estratégia. Mas então já era tarde, porque eclodira a guerra, e Von Hammerstein batera-se nela, sobrevivendo-a como herói fartamente galardoado. Porém, naquela rotina castrense predominava a tal severidade prussiana dos instrutores, que consistia no persistente rebaixamento moral do indivíduo e na punição da tropa; tratamento que Von Hammerstein abominava, quanto mais no âmbito de sua própria família.
Von Hammerstein Equord não fazia o gênero do “tipo alemão”, trabalhador devoto e cidadão consciencioso. Comportava-se como hedonista, tinha estampa de playboy. Do que o general mais gostava era de gente, mas quando as pessoas o enfastiavam, o aporrinhavam além da conta, deixava o trabalho para amanhã e saía para caçar e conversar com seus botões. Casara-se com Maria von Luettewitz, filha de um general, em cujo entendimento lugar de filha bonita era em casa, e não na escola ou nos anfiteatros da universidade. Para compensar os vazios em sua alma de mulher discriminada, por isso Maria von Luettewitz-Hammerstein não vacilou um instante quando suas filhas saíram da adolescência, enviando-as, todas, para a universidade. Marie-Therese, a mais bonita de suas quatro irmãs, escolhera Medicina, mas para sua surpresa o pai-general reagiu com as palavras, “tá doida? Aqueles ferimentos, a sangreira, toda?”
Naquela Alemanha, que aturdida pelo desfecho da Guerra de 1914, e humilhada por escorchantes, porque impagáveis reparações, tentava reinventar-se, os mentores das tradições definidas como perenes pregavam impassíveis a submissão ao velho autoritarismo. Neste território dos incorrigíveis Von Hammerstein estabelecera sua muito particular ilha do liberalismo e do laissez-faire. O general negava-se a submeter seus sete filhos à voz única e ao rebenque da caserna, incentivando neles a natureza rebelde que logo lhes conferiu a má fama de “selvagens”.
Mas voltando àquela tarde de 1928. Kurt von Hammerstein tinha convidado Adolf Hitler para uma tertúlia em sua casa. Queria ver o sujeito de perto, como disse. O encontro fora articulado pelo empresário Bechstein, construtor do famoso piano. Como Winifred Wagner, sobrinha do célebre compositor de óperas, sua esposa era ardente admiradora do líder nazista. Perspicaz, era uma das distinguidas senhoras que se esmeravam em ministrar arguciosas aulas de etiqueta ao austríaco boquirroto: a composição de um smoking com os tecidos adequados, como beijar a mão de uma dama, a forma correta de abordar uma conversa, como destrinchar um salmão com os respectivos talheres, como brindar, e assim pro diante; cerimoniais e culto ao estilo que não raras vezes aproximavam de um ataque de nervos o ex-cabo austríaco. Sua tropa de choque migrara desde Munique, instalando-se na capital do Segundo Reich, mas com seu comportamento torpe, jargão bronco, e seu insuportável fedor a sovaco fazendo torcer os narizes da nobreza. Cujas reuniões de gala e jantares tornara-se necessário freqüentar, porque da simbiose entre nobreza e grande indústria saíam os apoios, principalmente as doações em dinheiro.
Há séculos instalada nos postos de comando das forças armadas, e embora enxergasse nos nazistas um bando de caipiras, estúpidos, uma notável fração daquela nobreza sentia-se irresistivelmente atraída pelo rude charme das falanges hitleristas, porque teimavam em reverberar até tornar verdade um insidioso boato: a tal lenda do “apunhalamento pelas costas”. Traduzida para os não-entendidos, a lenda afirmava que, sem perder a guerra em campo, a tropa fora “apunhalada pelas costas”, quer dizer: em casa, no instante em que o novo governo social-democrático assinara o termo de rendição.
Agora, Marie-Therese se lembrava das palavras do seu pai, à mesa do jantar, sobre a conversa com Hitler na varanda, queixando-se de que o líder nazista “falava demais e de forma confusa”, motivo pelo qual o deixara falando sozinho. Apesar do desprezo do general, Hitler se despedira não sem lhe presentear uma assinatura de um pasquim nazista que Von Hammerstein desdenhou, visivelmente enfastiado. Para sua surpresa, em 1930, o velho presidente, Von Hindenburg, o nomearia Chefe do Estado Maior das forças armadas, oportunidade em que o New York Times o elogiou como “um dos [homens] mais capazes e inteligentes” que naqueles dias vestiam farda.
Naqueles dias, como grande refúgio acolhedor de judeus perseguidos no Leste Europeu, Berlim se tornara palco de enorme efervescência do jovem movimento sionista que sonhava com o “retorno à terra prometida” - o desembarque na Palestina. Algumas jovens alemãs, entre elas Magda Ritschel, futura Sra. Goebbels, freqüentavam aqueles círculos sionistas. Outra delas era Marie-Therese von Hammerstein. Como Magda, ela se sentira seduzida em emigrar para a Palestina. Trancando a matrícula de seu curso de Medicina, começou a trabalhar como aprendiz de jardinagem: “me sentava no meio de uma plantação de batatas, e com meu microscópio eu contava cromossomos”, ria-se de seu repente.
General Von Hammerstein
Então o inevitável aconteceu: Marie-Therese se apaixonou por um jovem judeu, de nome Werner Noble, e engravidou. Mas a Alemanha, ela ruminara com seus botões, não era um lugar onde as pessoas devessem criar filhos. E sem que o futuro pai pudesse reclamar direitos, do jeito que engravidara, Marie-Therese abortou. O relacionamento se esfarelou, mas logo em seguida a filha do Comandante do Estado Maior encetava novo romance. A escolha recaiu mais uma vez ditada, não por seu coração, mas por sua cabeça, teimosa: Joachim Paasche tinha um não se sabia quantos avos de sangue judeu. O comportamento da moça começou a chamar atenção, parecia birra. Liberada aos seus vinte e um anos de idade sabia-se que Marie-Therese tinha um fraco por homens vigorosos e determinados. E Paasche era tudo, menos a encarnação do macho que não vacila numa encruzilhada e dá o norte. Era neto do antigo vice-presidente do Congresso, e filho de um intelectual e fazendeiro, pacifista, recém-assassinado em sua própria fazenda por mercenários dos Freikorps; milícias revanchistas que aderiram majoritariamente ao partido nazista.
Joachim Paasche não conseguia ou queria recuperar-se do choque da morte brutal do pai, tornando-se enfermiço, fraquejando pela vida, odiando a política. Amava Marie-Therese, sentia-se perdidamente atraído por sua “força primal, amazônica”. Por outro lado, resistia a depender dela emocionalmente, porque “ela é única, e é provável que me machuque muito, caso venha a perdê-la. Por isso é melhor nem pensar em atar-me a ela”, resignou-se o neto indisposto do antigo vice-presidente do Reichstag. Nas entrelinhas, aquelas palavras ecoavam uma tolerância ditada pelo medo do abandono, com homens malhados e determinados na vida e na cama de Marie-Therese.
Do modo como surpreendeu muitos alemães, que só se descobriam “judeus” à medida que eram perseguidos, Paasche teve seu curso de Direito interditado pelos nazis, e resolveu mergulhar no aprendizado de línguas exóticas para a época; o mandarim e o japonês. Marie-Therese, em contrapartida, tornara-se sionista convicta. Em seguida, os dois resolveram casar-se. Registros da crônica familiar atestam que o Gal. Von Hammerstein sentia-se muito pouco entusiasmado com a figura do genro, não comparecendo à cerimônia das bodas, realizadas em março de1934. Por que, diabos, então, a filha do general insistia naquele casamento? Seria para contrariar Maria von Luettewitz-Hammerstein, sua mãe, sabidamente anti-semita? Ou porque Joachim era filho e neto de dois alemães tão dessemelhantes daquela choldra que acabara de tomar o poder?
Marie-Therese, ao que tudo indica, ansiava em inscrever sua biografia numa outra História, talvez fosse isso.
Em outubro de 1934, o casal Paasche-Von Hammerstein deixava a Alemanha, rumo à Palestina. Nos kibutz que proliferavam nas recém-criadas colônias sionistas, os judeus europeus se obstinavam em subjugar as areias do deserto, arrancar leite de pedras. Poucos meses depois, o delicado Joachim Paasche admitia que o forcejar literalmente bíblico era um custo alto demais para converter-se em judeu, e o casal retornou à Alemanha. Mas então Marie-Therese foi detida e interrogada pela Gestapo. Novamente grávida, desta vez resolvera dar à luz, mas não na Alemanha nazista. Foi quando Joachim se lembrou que já sabia falar japonês, e os dois embarcaram para o distante Japão. Logo para o Japão? As decisões do casal faziam pouco sentido para quem estava alinhado no campo da resistência antifascista. Mas despedindo-se de seu pai, no final de 1935, Marie-Therese apostava que o nazismo duraria mais dois anos no máximo, e ela estaria de volta.
Enganava-se mais uma vez, e nunca mais voltaria a ver seu pai. Não fosse ele, e ela jamais teria desembestado pela geografia a bordo de sua BMW de setecentas cilindradas, comprada com uma parcela da herança deixada por uma tia.
Apesar de empossado na chefia do Estado Maior das forças armadas era segredo público que Kurt von Hammerstein Equord detestava os nazistas, que não raras vezes taxou de “bando de criminosos” ou de “porcos imundos”. Logo após a sua vitória nas eleições de janeiro de 1933, o general alertara o Presidente Von Hindenburg ao perigo que Hitler representava para a democracia. A resposta do marechal de campo, relapso e senil, foi liberar o general de suas atribuições, mas mantendo-o na ativa. Von Hammerstein percebeu que estava isolado no corpo de oficiais e resolveu aproveitar suas prerrogativas para agir em surdina. Respeitado apesar de suas posições excêntricas, mantinha excelente relacionamento com os serviços de inteligência, que começaram a abastecê-lo com relatórios sobre oposicionistas ameaçados pelo regime.
Criativo, mas ardiloso, como quem não queria nada, durante o café da manhã, o general infiltrava conversas de intenções eloqüentes: - Vocês conhecem fulano de tal? Pois eu soube que o sujeito está sendo observado. São favas contadas que vão prendê-lo....”. E mirando firmemente nos olhos cada um de seus filhos, estes não vacilavam em decifrar o código, terminando de servir-se e deitando mãos à obra. O que queria dizer, correr para alertar os ameaçados, ou até mesmo transportá-los para lugar seguro.
Por isso Marie-Therese era conhecida como a “selvagem da motocicleta”.
Menos de dez meses após a tomada do poder por Hitler, Kurt von Hammerstein Equord renunciava a todos os seus cargos, tentando preservar algum espaço que lhe permitisse ajudar os perseguidos. Fez isso durante seis anos, mas não aderiu à resistência ativa. Reativado em suas funções, em setembro de 1939, e delegado para o comando de tropas no delta do Reno, chasqueou entre amigos que sentia vontade de deitar as mãos em Hitler. E escreveu um convite ao Führer, pretextando que sua visita ao seu quartel-general serviria para estimular o moral da tropa. Vaidoso, Hitler aceitara o convite, mas depois, desconfiado, comunicara súbito impedimento. A História não explica se Hitler temia algum atentado, mas garantiu-se, sumariamente demitindo o respeitado general de suas novas funções. Desde então Von Hammerstein caíra no ostracismo.
Gravemente afetado por um câncer, no início de 1943, subitamente Kurt von Hammerstein Equord sentiu-se assaltado por seu velho espírito de justiceiro: - Se me dessem uma divisão eu conquistaria até mesmo o inferno, para arrastar lá de dentro o demônio encarnado em Adolf Hitler!“ Um mês depois, o egrégio general morria. Para evitar seu sepultamento com o esperado, mas hipócrita cerimonial nazista, sua esposa decide antecipar-se, enterrando-o rapidamente. Não conseguiu evitar a insistente coroa enviada por Hitler, mas a bandeira com a suástica, que deveria cobrir o caixão, foi desleixadamente “esquecida” num saco de papel, encontrado numa estação de metrô.
Conta a crônica que os filhos Kunrat e Ludwig deram prosseguimento à resistência encoberta do pai, participando da “Operação Valquíria“, o frustrado atentado à bomba de 20 de julho de 1944, para matar Hitler, no qual estavam envolvidos o Mal. Erwin Rommel e alguns oficiais do Estado Maior; todos condenados à forca, à decapitação, ou ao suicídio, como o de Rommel. Kunrat e Ludwig escaparam, mantendo-se na clandestinidade, o primeiro escondido por algum tempo no porão de uma farmácia, em companhia de um grupo de judeus, e Kunrat, fugindo para a Renânia. Em represália, o regime deitou mãos em Maria von Luettewitz-Hammerstein e seus dois filhos mais jovens, que são atirados nos campos de concentração de Buchenwald e Dachau, de onde foram libertados pelos americanos, um ano depois.
Sessenta e cinco anos após sua morte, feito um Chico Xavier tedesco, o escritor Hans Magnus Enzensberger “fala” com Kurt von Hammerstein Equord no além (Hammerstein oder der Eigensinn. Eine deutsche Geschichte. Frankfurt, 2008)



Mas será o Benedito! Como é admissível que nunca acertaram o Hitler! lhe cobra Enzensberger. 

Será que não havia um único oficial naquele pomposo exército, bom de pontaria? 

A “psicografia” preenche páginas e mais páginas, numa penosa tentativa de garimpar conhecimento dos bastidores daquele corpo de oficiais engessado, de seus pensamentos, planos. 

A propósito: existia mesmo um plano de golpe e instauração de um governo militar, com Hitler fora de circulação? 

Sim, confirma Von Hammerstein, mas confessa sua imensa letargia. Por vezes a questão era “ter saco”. 

Era perfeitamente admissível, deduz Enzensberger, que a queda de Hitler não se efetivara mediante um golpe de seus generais, devido a atitudes insólitas como a preguiça. Atitude que não consta das páginas da História, mas que é capaz de escrevê-la.
Naqueles dias da conspiração, tardia e desencontrada, Marie-Therese vivia no Japão em companhia do marido, Joachim, e dos quatro filhos, nascidos um a cada ano. 

Apesar de súditos de um país aliado do Eixo, os Hammerstein-Paasche eram encarados com desconfiança no Japão. Em 7 de novembro de 1944, os japoneses tinham levado à forca Richard Sorge, jornalista alemão e espião da NKWD, que em 1941 alertara os soviéticos a dois acontecimentos insuspeitos que estavam por vir: que os japoneses não atacariam a URSS, mas que Hitler a atacaria. Para Stálin, Sorge não batia bem da cabeça, mas o Gal. Sukhov resolvera levar a sério seu alerta, deslocando colossais efetivos militares da distante Sibéria para o cinturão de defesa de Moscou, virando o jogo. Fora o começo do fim de Hitler. Por isso, Berlim tinha insistido tanto, pedindo a cabeça do maldito Sorge. Já os alemães residentes em Tóquio eram majoritariamente seguidores do regime, de modo que isolaram os Hammerstein-Paasche. Para não definharem de fome, durante muitos meses, a jovem de sangue azul e o neto do egrégio vice-presidente do Reichstag se alimentaram de plantas silvestres e fungos.
Não há registros de sua reação ao lançamento das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945. Mas é significativo que só em 1948 o casal alemão e seus quatro filhos, que falavam japonês, conseguiram permissão para emigrar aos EUA. Observados na Alemanha, no Japão tratados como suspeitos até aviso em contrário, recém-desembarcados nos EUA, iniciava-se seu fustigamento pelo FBI.
Para os Hammerstein-Paasche a guerra, agora fria, parecia não ter fim: durante quarenta anos afora o casal de alemães e seus filhos vegetaram na mais infame pobreza, só atenuada, na década de 1970, quando Joachim Paasche conseguiu um emprego na divisão de língua chinesa da Biblioteca do Congresso, em Washington. Foi quando finalmente decidiu converter-se ao judaísmo, pelo qual tanto sofrera. “Talvez fosse hora de fazer uma tentativa” disse ao filho, Gottfried. Até então Joachim vegetara seus dias como operário de fábrica.
Inteligente, bonita e generosa; nobre, militante antifascista e democrata convicta, a Marie-Therese von Hammerstein os Aliados, vitoriosos, não dispensaram generosidade maior - ou mais mesquinha, como se queira - do que obrigá-la a gastar o resto de seus dias como reles faxineira e cozinheira do american way of life. 

Morreu, pobre, em 2001, numa casa de repouso judaica, em San Francisco, Califórnia. 

Mas só fora admitida porque havia transportado em sua motocicleta e salvado a vida de alguns judeus.

Fotos: em sentido decrescente, Marie Therese, e seu pai,
Gal. Kurt Von Hammerstein Equord