22 dezembro 2013

Manoel de Andrade: O significado do Natal

Ilustração: Jesus, o Bom Pastor - ícone russo

Nestes dias que precedem o Natal, ocorre-me pensar nas tantas portas que se fecham para o seu real significado, mascarado por estranhas personagens natalinas e maculado por poderosos interesses mercadológicos. Ocorre-me também pensar que se o Cristianismo fosse verdadeiramente interpretado não haveria tantos sectarismos e o simbolismo da manjedoura de Belém seria fraternalmente reverenciado no mundo inteiro, além da barreira das religiões.

Jesus não fundou nenhuma igreja, nem dogmatizou nenhuma religião. Trouxe-nos a imagem de Deus como um pai, mostrou a importância da religiosidade e nos revelou o significado incondicional do amor. Não escreveu nada, mas deixou, na memória de seus discípulos, a sabedoria de suas parábolas e, no Sermão da Montanha, toda a essência do cristianismo, falando do amor aos inimigos, do perdão das ofensas e da importância de dar a outra face como um caminho aberto para a reconciliação. Resumindo, quis dizer-nos que ser cristão é saber transformar o orgulho em humildade e o egoísmo em amor.

A ênfase de sua filosofia propunha a redenção humana pela educação e não pelo constrangimento. Embora abominasse o pecado, Ele amava o pecador e acreditava que educar é despertar o senso da justiça, do amor e da beleza moral que existe, potencialmente, em cada ser humano. Nesse sentido, entre tantos fatos de sua vida pública, exemplificou sua tolerância e sua caridade diante da mulher adúltera e do bom ladrão, no alto do Calvário.

Passados vinte séculos hoje perguntamos qual o significado do seu nascimento para cada um de nós. Sobretudo perguntamos quantos já leram e estudaram o seu Evangelho. Nesse singelo banco escolar que é o planeta, -- onde ainda somos espiritualmente crianças -- seu conteúdo é uma cartilha insubstituível para soletrarmos o beabá do amor, da paciência e do perdão. Diante das sabatinas diárias da vida é imprescindível aprendermos o que significa “orar e vigiar” e não fazer a ninguém o que não queremos que nos façam. Quantos são capazes de vivenciar suas lições e seus exemplos, ante as provas e os embates do dia a dia, oferecendo a outra face ante o agressor e perdoando sempre? Se já começamos a ensaiar essa difícil conduta então Jesus já nasceu para nós e temos um Natal para comemorar. Mas muitos ainda trazemos o coração fechado a essa realidade, tais como as estalagens de Belém, cujas portas se fecharam ao seu nascimento.

Se perguntássemos a Paulo de Tarso onde nasceu Jesus, ele certamente diria que foi diante das Portas de Damasco, onde chegou para aprisionar alguns cristãos da cidade. Se perguntássemos a Maria Madalena onde Ele nasceu, com certeza, responderia que Jesus nasceu para ela na casa de Simão, o fariseu. Foi ali que depois de lavar e enxugar seus pés ela ouviu sua voz compassiva perdoando-lhe os pecados.

Onde predomina o orgulho e o egoísmo --- essas patologias crônicas da alma humana --- Ele não poderá renascer, ainda que invocado em rituais e ladainhas. É imprescindível que façamos do coração uma manjedoura humilde para que Jesus possa renascer em nossas vidas. Caso contrário, além da beleza sentimental da fraternidade e o significado envolvente do Natal no seio da família, temos apenas uma data histórica para comemorar, com muitos presentes, a figura patética de um Papai Noel, um banquete de sabores e aparências e o apego às ilusões do mundo.

2 comentários:

Eloah disse...

Adorei!! Beijo.

Rita de Cássia Miranda Diogo disse...

Linda mensagem! Vou guardá-la em meu coração.
Obrigada. Bjs.