30 dezembro 2010

Frederico Füllgraf - Feliz Ano Novo! Crônica politicamente incorreta


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Para Jan Pablo 

Reeditasse sem comentários esta crônica publicada há sete anos, e quem se lembraria? No entanto, o Ano Novo está às portas. Mas as portas aqui referidas são metáfora de tempos sombrios, que meu filho Jan não conheceu. Botafoguense de nascimento, conhece Curitiba e a Ilha do Mel como a palma da própria mão. Contudo, por inusitadas e insolitas razões, Jan é um privilegiado morador de Palermo Viejo, Buenos Aires. E movido não sei por qual intuição, numa quinta feira à tarde de um dos últimos anos, chama um colega da escola, empunha uma velha câmera VHS, atravessa a cidade e – de chofre – entrevista algumas Madres da Plaza de Mayo. Pai, pede-me por e-mail, me ajuda com alguns contatos!  Em janeiro de 2011, Jan completará dezenove anos – o resto era silêncio, mas o leitor associará. 

Pasmado, leio no jornal a confissão de Dr. Henry: sempre desmentida, em 2003 a conspiração é admitida. Fria, burocrática, desata em mim a irrefreável viagem à ré no tempo. Faz trinta anos. Agora alguns rostos são apenas feições embaciadas. O de Cláudio, por exemplo, estudante de engenharia e companheiro da associação de estudantes latino-americanos. Naquele momento o argentino Cláudio é como eu, Ruiz, Alícia, João e Marina: estamos confortavelmente instalados na Alemanha  dos anos 70 e por isso nos sentimos “culpados”, em dívida com “o chamamento”.  Por isso Cláudio se despede à francesa. Meses mais tarde saberemos que trabalha numa fábrica, a 12 mil quilômetros de distância, no labirinto entre La Boca e Avellaneda. É o início de 1976 e depois disso Cláudio Zieschank some do mapa.

Retomo o jornal, mergulho na trama paralela: 7 de outubro de 1976, outono em Nova York. Imagino o cenário. Uma suave brisa toca álamos, carvalhos e castanheiras, despindo-os de sua última folhagem. Enquanto fala com seu interlocutor sul-americano, Dr. Henry levanta-se da poltrona e acompanha pela janela da suíte, a elipse de uma folha em queda-livre, que vai juntar-se ao cintilante e fofo tapete ocre-bordô em formação no Central Park; ali aos pés do Waldorf-Astoria. Absorto, com as mãos cruzadas às costas, por um momento deixa-se cativar pela lerdeza dos elementos. Intui que o ciclo se completa. Reincorporado, volta-se abruptamente para seu interlocutor, disparando seco: “Quanto mais rapidamente vocês agirem, tanto melhor!”. O almirante César Augusto Guzzetti retorna à embaixada argentina em Washington e de lá transmite a senha para seus pares: “Se conseguirmos acabar com eles antes que o Congresso americano volte a reunir-se, em dezembro, eles nos darão as armas e o crédito!”.


Duas semanas mais tarde, madrugada do dia 23 de outubro de 1976 em Buenos Aires, derrubam a porta da casa da família Meijide. Na frente dos pais aflitos agarram Pablo, um garoto com apenas dezesseis anos de idade. É Graciela Meijide, a mãe, que me narra o episódio – faz sete anos, mas sua emoção é de ontem. No vinco das rugas em seu bonito rosto, percebo a falsa velhice de oitenta e cinco meses de vigília.  Enrique Fernández Meijide, o pai, mergulha em duas mil e quinhentas noites de insônia, para dar forma ao choque, ao terror, à náusea, à cólera represados. Troca a arquitetura pela poesia,  para dar um sentido à própria impotência: “Te fuiste por el lado de las sombras / Sin mirar hacia atrás. Juntando el miedo, / que te sobraba, / con todo el nuestro. // Intentando dejarlo a nuestro cargo / porque debías parecer sereno. / Cinco gorilas / y vos en medio…”.

E eles virão sempre de madrugada: primeiro, os paramilitares de uma certa Triple A, depois, tropas regulares; se é que neste ofício de carniceiros se pode falar em “regularidade”… Em deferência à tradição cristã, no final do ano batizam o operativo de “Missão Natal Feliz”.  

Outubro de 1983. Caminho em ziguezague entre as valas reabertas do cemitério de La Chacarita. Somos trinta pessoas que seguem um coveiro errante, guiado por uma bússola falha: segura nas mãos o mapa oficial das covas com nome, sobrenome, data de nascimento e morte dos finados. Neste mapa, não há, contudo, registro de “NNs”, os non nominati varridos da geografia, expropriados de identidade, engolfados pelo anonimato silente. Cláudio, Pablo e os demais vinte e nove mil, novecentos e noventa e oito desaparecidos não existiram – diz a “história oficial”. Por isso, na Praça de Maio as Madres e Abuelas caminham em círculos, repetem há anos o rosário da dor, insistem em devolvê-los à vida.

O Poder se cala e então os fantasmas tagarelam através das frestas desta história adulterada e pervertida, como o personagem do paisano em “La Ciudad Ausente”, de Ricardo Piglia:  (…) Eu vi coisas tais, que preferiria começar outra vida, sem recordações, se já estive a ponto de deixar minha mulher e os filhos, tomar um trem, ir-me a Lomas (…)Fuzilavam-nos a dois metros de distância e atiravam os corpos em poços, depois andavam com topadoras, abrindo valas, e às vezes aos mesmos desgraçados obrigavam a cavar a tumba para matá-los em seguida. Via-os como num sonho, nus, os cristãos cavando a própria sepultura (…). 

Último ato. Há uma estância em Bariloche, aos pés da Cordilheira. Dr. Henry adquiriu-a em troca de sua vilania. Pressionou a Argentina para livrar-se de suas paisagens, após assinar a ata do extermínio de seus filhos. Sugeriu que entregassem a Patagônia para pagar uma dívida mil vezes quitada. Obsceno, aqui instalou seu pouso de guerreiro. Dr. Henry: fugitivo do Holocausto e mago da Solução Final no Prata. Dr Jekill & Mr Hide. Sabotou uma conferência de paz em Paris e meio milhão de vietnamitas morreram em vão; junto com eles, vinte mil norte-americanos. Para garantir o poder a Nixon. Determinou a invasão do Timor Leste e a soldadesca de Suharto perpetrou uma carnificina. E nenhum mea-culpa. Consentiu o assassinato do general Schneider no Chile e preparou o golpe contra Salvador Allende. Disse: “Não vejo por que agüentar um país que se torna comunista devido à irresponsabilidade de seu próprio povo”.

Dr. Henry não sente remorsos. Prêmio Nobel da Paz e Criminoso de Guerra... 


Para o mercado, as bênçãos; para os adversários, o extermínio. O médico e o monstro. 


Para o Village Voice não passa de  “Milosevic do Big Apple”: durante os bombardeios dos EUA morreram 350 mil civis no Laos. No Camboja foram 600 mil; sem contar os mutilados e para sempre aleijados. O indignado Christopher Hitchens dedicou-lhe The Trial of H.K., mas o Império não permitirá que arrastem Dr.Henry (aliás: Heinz Alfred Kissinger) à Corte Internacional.  

Se apesar da neve, todavia o chão esquentar demais em Nova York, a besta encurralar-se-á em seu último refúgio – Natal em Bariloche, mas no céu nenhuma estrela.  

Mas haverá sempre um idiota disposto a abraçá-lo.

04 novembro 2010

Frederico Füllgraf - O beijo de Bóreas, Parte II

Isabella Miranha,Yuri Comás: morte em Munique


"Pai da Botânica Brasileira"
Cento e setenta anos após a aventura de seu tetravô, o advogado Alexander Von Martius, instalado em endereço nobre do Odeonsviertel, setor histórico de Munique, incumbiu-se da administração do acervo biblio e iconográfico da expedição, recolhido em regime de comodato à Biblioteca do Estado da Baviera. Emocionado com a eventual imortalização de seu ilustre ancestral em telas e monitores, abre o acervo para a pesquisa de pré-produção do filme que eu queria fazer.
Manusear os manuscritos originais, rabiscados, de uma obra clássica, é uma experiência emocionante, e sua monumentalidade inibe. Após a morte de Spix, ocorrida em 1825, provavelmente por causa de uma malária mal-curada, Martius dedicou com persistência avassaladora os dois terços restantes de sua vida à tabulação de dados científicos e à publicação do imenso acervo coletado no Brasil. E ei-lo, sistematizado. Em "Passado e Futuro do Homem Americano" (Munique, 1838), Martius ousou traçar um perfil antropológico do índio brasileiro, mas com olhar europeu, fatalista. Já com a  "Natureza, Doenças, Medicina e Remédios dos Índios Brasileiros" (Munique, 1844) compilou o primeiro receituário fito-terapêutico e de medicina popular do Brasil, constituído de aprox. 130 plantas medicinais em uso no início do séc. 19.

Do ponto de vista estético, porém, suas duas obras mais exuberantes são a "Historia Naturalis Palmarum" - atlas em três tomos e ilustrações in folio, no qual o botânico inventariou mais de 120 espécies palmáceas brasileiras - e a "Flora Brasiliensis", cuja edição completa o próprio D. Pedro II ajudou a financiar, e que entre 1840 e 1906 contou com a participação de aproximadamente 60 especialistas internacionais, tais como o desenhista de plantas, Johann Buchberger. A instituição das "províncias botânicas brasileiras" – estabelecidas em  nova ordem taxonômica, e agrupadas em 40 famílias - além da publicação de mais de 20 obras científicas nos terrenos da Botânica, Zoologia, Medicina, Antropologia, Geografia e Lingüística, certamente faz de Martius o maior brasilianista do séc. 19, logo celebrizado como "pai da Botânica brasileira.".

Através de sua obra geográfica e botânica, Martius soe apresentar-se como cientista - objetivo, sisudo, quase frio. Ao longo da expedição, no entanto, irromperá em cena, mas como tímido personagem coadjuvante, o Martius-pessoa; subjetivo e apaixonado. Emocionantes são suas cartas, cujos originais, trocadas com Goethe, manuseio em Munique, e numa delas ele informa ao autor de "O Jovem Werther" que em território da atual Bahia acabara de batizar de Goethea Cauliflora uma plantinha da família das malvas - um  gesto de gratidão pelas informações contidas na  “Morfologia das Plantas”, da autoria de Goethe, que participa desta expedição como correspondente entusiasmado.

A música e uma história de amor

Ana Maria Kieffer

Jovem com formação e um excelente ouvido musical, Martius tocava violino, que o teria acompanhado durante a expedição. É bem possível que tenha atravessado o Brasil, vez por outra executando um Mozart ou alguma obra sacra, mas sentiu-se seduzido pelos Lundus e as Modinhas, nativos, cantados em arraiais e saraus, nas fazendas. Memorizava as melodias populares, muitas delas de autores anônimos, e de ouvido escreveu suas respectivas partituras, contribuindo para sua eternização: “Eu nem suspirar sabia, Antes de te conhecer, Mas depois que vi teus olhos, Sei suspirar, sei morrer...” Algumas foram anexadas à edição alemã da "Viagem pelo Brasil", e pela primeira vez adaptadas e gravadas em CD (2) pela cantora lírica, paulistana, Ana Maria Kieffer, e seu conjunto de música popular do Brasil-Império. Fundadora de certa “Confraria Von Martius”, grupo de artistas e intelectuais brasileiros, apaixonados pela Viagem pelo Brasil, Ana Maria recebeu como se fosse um presente, meu convite para compor a trilha sonora do filme, cuja produção foi interrompida porque em 1992 seus principais investidores alemães resolveram empatar seu dinheiro na ex-Alemanha Oriental, sucatada.

Outra janela subjetiva prevista no roteiro do filme foi a revelação dos originais de “Frei Apolônio” (3), romance que Martius escreveu como espécie de “interface entre a divulgação científica e a imaginação literária” (4). Enredo fortemente autobiográfico, seu personagem central é um naturalista estrangeiro em visita à Amazônia, apaixonado por uma índia brasileira. “Frei Apolônio” nasce durante a caminhada de Martius pela selva, onde presta atenção aos afazeres das mulheres; brancas, mestiças e índias. Sendo médico, observa sua manipulação de plantas medicinais, sua capacidade de cura de variadas doenças, mas é sobre a intimidade das mulheres índias que recai o olhar furtivo do personagem do romance; e quase sempre com o recorte psicológico do buraco da fechadura; certamente porque Martius era luterano, devoto, ou porque sua antropologia rudimentar já lhe exigia distanciamento do objeto do desejo. Os originais do livro foram trancados a sete chaves pela Família Von Martius, mas descobertos na mesma Biblioteca por pesquisadores bávaros, em 1967. A decisão de esconder o livro do público não se deveu ao temor da devassa da intimidade de Martius, mas aos próprios defeitos de composição literária, na qual, segundo Nicodemos Senna “o contexto invadiu o texto...abrindo-se um abismo entre a imagem e sua expressão”


O beijo de morte de Bóreas

Spix, Martius e os dois curumins chegaram a Munique debaixo de espessa nevada, a poucos dias do Natal de 1820, e foram a grande atração das colunas sociais bávaras. Os castelos e casarões não tinham calefação, mas os indiozinhos foram obrigados a tirar a roupa,  expostos à curiosidade pública e à sanha dos pintores, como “os calados selvagens do Prof. Martius”. O paroxismo: como a garota Isabela pertencia à tribo Miranha, do Alto Rio Negro, e o menino Iuri, ao grupo dos Comás, das margens do Rio Purus, sequer conseguiam comunicar-se, recolhendo-se em terrível sentimento de desproteção e mutismo.

Martius, contudo, exultava: havia conseguido apresentar a Sua Majestade, Max, o Rei Maximiliano, dois selvagens em carne e osso, admiração tributada pelo rei com a concessão dos títulos de nobreza - "von" - aos dois viajantes. A índia Isabela foi rapidamente “adotada”  pelas jovens filhas do rei. Deram-lhe roupas finas e tentaram ensinar-lhe alemão e a etiqueta - “Guten Tag, mein Name ist Isabella!“. Mais isolado, Iuri adoeceu antes que Isabella também caísse com febre. Questionava-se a velha copeira de Martius, se era o frio ou, por acaso, a tristeza que estavam deixando as crianças doentes. 

Compassiva, a  escritora Henrique Leonhardt (5), colocou-se no lugar dos curumins, imaginando a perspectiva: tudo era assustador para as crianças, sempre acocoradas ao lado de suas camas. Leonhardt  preencheu com emocionante tentativa de reconstituição ficcional o silêncio reservado por Martius aos dois índios. Iuri e Isabella nunca tinham visto uma casa, não estavam habituados aos móveis, estranhavam os cheiros e o sabor das comidas. E o que dizer desse pesado sotaque bávaro, desafiando o seu jejum - Essen, ihr müsst essen, Kinder, sonst ruf’ ich die böse Hex’! (Comer, vocês tem que comer, crianças, senão eu chamo a bruxa malvada!).

- Abram estas malditas janelas!, vociferava Martius, toda vez que acedia ao quarto, gelado, em que definhava o menino Iuri. O professor  atribuía seu mau estado de saúde “à falta de ar fresco”. Muito pelo contrário, era o excesso de elementos em perigoso ponto de glaciação, que estava matando o índio brasileiro. O estado de Iuri piorou e Martius mandou chamar o médico da família. Tarde demais: feito um gravatá, colhido nos trópicos e transplantado para o canteiro das tulipas de neve, não resistiu ao beijo de Bóreas, deus dos gélidos ventos do norte: Iuri morreu no inverno de 1821.

Isabella sobreviveu mais um ano. No verão, as meninas brincaram com ela o jogo da amarelinha, e os adultos levaram-na, com aquele chapéu de renda branca, até o Chiemsee, o belo lago aos pés dos Alpes, azulados. Mas Isabella não suportou o terceiro inverno da Baviera, falecendo no final de 1822, e foi sepultada com Iuri no Südfriedhof, onde Martius veio fazer-lhes companhia, após sua morte ocorrida em 1868. 
"Como se deve escrever a História do Brasil"
Em 1844, Von Martius publicou um interessante ensaio, intitulado "Como se deve escrever a História do Brasil". Constatando que a historiografia oficial era totalmente permeada pelo discurso colonialista português, esboçou a matriz de um projeto historiográfico, que segundo seu entendimento seria capaz de conferir uma identidade à Nação, em processo de construção. Segundo Von Martius, seria desejável que os futuros historiadores centrassem seu foco na missão específica reservada ao Brasil, enquanto Nação, e estimulando a idéia da mescla das três raças, assegurassem sua identidade.

Traçando um esboço do país, cuja evolução obedeceria a certa "lei das forças diagonais", cada uma dessas raças seria um motor da História do Brasil. Mas com reservas, porque segundo a concepção de Von Martius, devido à sua maior experiência civilizatória, o branco deveria ser contemplado com maior interesse na liderança nesse processo. Já os negros são enfocados sob o prisma, contraditório, da depreciação, pois representariam um obstáculo ao processo civilizatório - olhar que hoje só pode causar espanto, dada sua conotação racista, mas completamente "natural" no contexto de uma etnografia apenas emergente, em meados do séc. 19. Os indígenas, enfim, apesar de enquadrados sob o ponto de vista de "ruínas de povos antigos", mereceram a valorização do naturalista, que encoraja sua integração à História Nacional sob a perspectiva dos conhecimentos que propiciaram à História Natural do país.

O vôo filosófico e humanista do botânico não agradou à elite da época, que rejeitou, até o início do século XX, a miscigenação que Martius identificava como pilar da identidade nacional. Apesar de suas próprias restrições, a reflexão de Martius “foi uma ante-sala do discurso da miscigenação, fundamental para definir a identidade nacional”, afirma Karen Lisboa, autora de uma das narrativas brasileiras sobre a expedição.

Escravos e natureza de Rugendas

Martius, Langsdorff e Rugendas
Exatamente um ano depois do regresso de Spix e Martius a Munique, Hans Lorenz Rugendas participava da redação do contrato entre seu filho, Hans Moritz (ou João Maurício) Rugendas, e o Barão Von Langsdorff, que na qualidade de emissário do czar, Alexandre I, e de Cônsul da Rússia no Rio de Janeiro, contratava naturalistas e artistas para sua própria expedição ao interior do Brasil, a ser iniciada em maio de 1824.
O mesmo rei Max Josef, ou Maximiliano José I, da Baviera, um grande entusiasta do Brasil, foi informado sobre o projeto de Rugendas, já que havia apoiado a expedição de Martius e Spix, e ali mesmo combinaram que João Mauricio Rugendas deveria ampliar os contatos já existentes no país. Martius acompanhou os preparativos da viagem, e da mesma forma como Humboldt, que residia em Paris e estava debruçado sobre o texto da sua "Nova genera et species plantarum" (7 vols. in fólio, escritos entre 1815 e 1825), ele também solicitou a Rugendas que lhe enviasse desenhos e aquarelas para ilustrar suas obras de botânica.

No início de janeiro de 1822, Rugendas tomou um navio no porto de Bremen, rumo ao Brasil, desembarcando em 5 de março de 1822 no Rio de Janeiro, onde o esperava Langsdorff. Nascido em 1802, quando desembarcou, Rugendas mal completava 20 anos de idade, celebrando seu aniversário em 29 de março de 1822, na Fazenda Mandioca, de Langsdorff.

A fazenda, localizada no hinterland do Porto da Estrela, nos fundos da Baía da Guanabara, se estendia por uma zona de grande diversidade botânica, e já servira como refúgio para Auguste Saint Hilaire, Spix, Martius e outros. Apesar da pujança tropical, o artista plástico não consegue desfrutar relaxadamente dessas belezas naturais, pois ali mesmo começaram seus enfrentamentos ideológicos com Langsdorff; aspecto da permanência de Rugendas no Brasil muito raramente enfocado por autores nacionais.

Ocorre que em sua fazenda o Barão mantinha 200 escravos, negros, por quem Rugendas logo se afeiçoou vivamente. Langsdorff era um homem carismático, mas certamente não um re-descobridor das Américas, na linha iluminista, pró-abolicionista e independentista, recém-inaugurada por Humboldt, e, sim, um empreendedor que apostava na longevidade do sistema colonial. Já Rugendas chegava ao Brasil, marcado pelo espírito do Romantismo alemão e a rebeldia ideológica do movimento "Sturm und Drang" (literalmente:agitação e impulso), de precoce matiz republicano.

O artista se compadeceu das condições de vida cruéis dos escravos, e devido aos seus duros agravos ao regime escravagista, a relação do barão e do jovem artista plástico ficou estremecida antes mesmo que a expedição partisse. Quando atravessavam as Minas Gerais, deixando para trás Barbacena, São João del Rei, Ouro Preto e Sabará, Rugendas e Langsdorff se enfrentaram numa última disputa.

Concluído o trabalho de ilustrador, ao qual estava obrigado por contrato, Rugendas desligou-se da expedição, tomando uma decisão que se pode considerar acertada, pois já era previsível que nem de longe o empreendimento de Langsdorff teria o êxito da expedição de Spix e Martius, realizada cinco anos antes. Adrien-Aimé Taunay, substituto de Rugendas como desenhista da expedição, morreu afogado num rio, e foram tantas as doenças e mortes durante a malfadada aventura, que Langsdorff se viu obrigado a interrompê-la e regressar à Europa, onde ele mesmo desembarcou em estado mental próximo à demência.

Final feliz (para a Ciência...)
Comparados com o verdadeiro saque biológico, perpetrado durante o período colonial pelas potências européias contra os países e povos colonizados, com esta viagem e esta obra, monumentais, Spix e Martius legaram à memória nacional muito mais do que efetivamente levaram do país - missão científica, da qual desgraçadamente o translado doidivanas dos dois indiozinhos da Amazônia resta como esmaecida nota de rodapé da História.

Frederico Füllgraf - Peregrinações pelas ruínas de W.G. Sebald


Ensaio


Ao invés de sair caminhando, como de costume, para um de seus passeios (muitas vezes tornados demoradas peregrinações) pelas paisagens ermas e entrosviscadas da Anglia Oriental, junto ao golfo de Norfolk, neste 14 de dezembro Max subiu ao seu carro para buscar sua filha em Norwich e não mais retornou: disseram tê-lo visto mergulhar no trânsito em sentido contrário... Sofrera um ataque cardíaco ao volante, bateu de frente, desapareceu entre as ferragens, morte instantânea.  Hospitalizada em estado grave, sua filha sobreviveu. Max morreu justamente quando tinha alcançado o topo. Ia receber o importante prêmio literário National Book Critics Circle por Austerlitz, seu último livro.

A morte de Max, apelido para os mais íntimos, do escritor alemão W.G. (de Winfried Georg Maximilian) Sebald, naquele dezembro de 2001, enredou no luto os entes mais queridos mas também os leitores, do mundo todo. Dos apenas iniciados em sua densa e impenetrável obra, até a crítica, todos  entenderam-se órfãos. Ao ler a notícia do acidente de Sebald, Rui Tavares, crítico português, sentiu "que o mundo físico se comprimira e afunilara momentaneamente, talvez como sinal da aridez que sempre se acrescenta quando desaparece alguém que, como Sebald, consegue pensar e enriquecer o mundo".

"Será possível, ainda, a grandeza literária? Ante a decadência implacável da ambição literária, a convergente ascensão de desengano, a verborréia e a crueldade insensível como assuntos normativos da ficção, o que seria na atualidade um projeto literário centrado na nobreza? A obra de W. G. Sebald é uma das poucas respostas disponíveis aos leitores do idioma inglês", desabafou Susan Sontag, antes de despedir-se, ela também, e fazer-lhe companhia no silente além.

Nascido em 18 de maio de 1944 em Wertach, distrito do Allgäu, região alpina alemã, Sebald levou a vida viandante e perscrutativa do personagem central, o alter-ego que conduz a narrativa em todos os seus livros. Filho de um ex-combatente alemão nas fileiras da Wehrmacht de Hitler, deixa a terra natal para estudar Literatura em Freiburg/Breisgau, curso que abandona após o segundo ano, transferindo-se para a Suíça francesa, onde se habilita com uma licenciatura em 1966. Da Suíça migra para Manchester, onde atua como docente até 1969, quando retorna à Suíça. Depois de um ano como professor em escola secundária em St. Gallen, volta à Inglaterra, para tornar-se professor-assistente de literatura comparada na Universidade de East Anglia, em Norwich; desde 1984 como professor - titular.

Autor de refinada prosa ensaística que dialoga virtuosamente com a literatura universal (O mito da destruição na obra de Döblin, 1980; Descrição do acidente – sobre a literatura austríaca de Stifter a Handke, 1985; Pátria Mal-Assombrada, 1991; Hóspedes em uma casa de campo – perfis autorais de Gottfried Keller, Johann Peter Hebel, Robert Walser ee.oo, 1998; Guerra aérea e Literatura, 1999 – todos inéditos em Português), é no Romance, contudo, onde irrompe seu inerrante e melancólico olhar sobre a História e o desgarramento humano na geografia dos sonhos e dos acidentes de percurso individuais.
Sebald começa a escrever tarde, aos 47 anos. Em menos de dez anos, porém, consegue construir uma obra tão consistente e de esmeradas traduções para o Inglês (inspecionadas pelo autor), que seus livros repercutem primeiramente no universo cultural anglófono antes de seu reconhecimento na própria Alemanha. A revista The New Yorker o aclama como o mais importante escritor europeu da virada do milênio e a crítica norte-americana arrisca propô-lo ao Nobel de Literatura.

Durante a leitura de seus dos textos, duas inevitáveis associações impõem-se: o parentesco espiritual, fatalista, de seu olhar sobre a História, com a fatalidade histórica codificada na metáfora do Angelus Novus de Walter Benjamin – História como tragédia, amontoado de ruínas, que insiste em ser decifrado pelo contemplador; e Humanidade incorrigível que insiste em ser devorada. À obsessão pelo esquecimento Sebald opõe o imperativo da memória; lembrança como didática da tomada de consciência. História como corpo enterrado vivo, sedimentado em camadas de esquecimento, não-resolvido. E História como tempo derretido, simbolizado pelos relógios moles de Dali, lava que abre feridas na paisagem, que não cicatriza; a dor que persevera.

Primeiro livro de Sebald, Nach der Natur (Do natural, 1988, ainda inédito) é um tríptico sobre o amor e o temor à Natureza, na forma de "poema elementar", como o legendou o autor. Pérola de linguagem, nela Sebald discorre sobre a vida de três homens que experimentaram dolorosamente o conflito com a Natureza.


No primeiro painel desfila Matthias Grünewald, pintor de santos, crucificações, eclipses e catástrofes, que viveu os horrores de um tempo em que já se perseguia aos judeus e nas guerras se arrancava os olhos aos vencidos. O segundo, traça o perfil do botânico W. Steller, que se une à malfadada expedição russa de Vitus Behring em busca do Alaska. No último, Sebald empreende uma viagem à Pinacoteca de Munique, com o único objetivo da contemplação  do quadro "A batalha de Alexandre" de Altdorfer. A intenção de Sebald é induzir uma reflexão sobre a condição humana e a História – fábula que nos encara através do olhar desconcertante de alquimistas convertidos ao cartesianismo, e de suas criaturas quiméricas em corpos de peixes-coelhos, unicórnios e ornitorrincos.

Mas, é comovido que o alter-ego narrador se aproxima de seus anti-heróis, desgarrados todos, e desmemoriados, como Austerlitz; a maioria constitui-se de judeus que não se sabem... Em Schwindel Gefühle (Vertigem, 1990, inédito em Português), o narrador na primeira pessoa deambula pela Áustria, Itália e pelo Sul da Alemanha "na tentativa de preencher o vazio que de mim se apodera, toda vez que chego ao final de uma grande jornada de trabalho". Perde e recupera o juízo,  reflete sobre o amor, garimpa vestígios da passagem de Kafka pela Itália e tenta resgatar e dar sentido à sua própria infância no seio de uma família pós-nazi, quando o manto do silêncio dos anos 50 cobriu a memória da negra noite da guerra e do holocausto – matéria-prima do ensaio Die Unfähigkeit zum Trauern (A inaptidão para o luto) do psicanalista Alexander Mitscherlich; obra epistolar da Escola de Frankfurt sobre a sublimação coletiva do 3º. Reich.
No intrigante Os Anéis de Saturno (Record, 2004), o narrador caminha pelo litoral inglês, entre Norfolk e Suffolk, numa pausada meditação intercalada por breves ensaios tão dessemelhantes quanto impagáveis sobre Rembrandt, o caráter das guerras, o ciclo de vida dos arenques, a melancolia e a destruição das grandes florestas do mundo – numa tradução rasa de Lya Luft, desprovida de enlevo e uso criativo da palavra, que o autor muitas vezes vai buscar em densos e melodiosos arcaísmos germânicos e que têm sua correspondência no riquíssimo léxico luso-brasileiro de Camões por Machado a Guimarães Rosa; incompreensivelmente desprezado pela autora e tradutora gaúcha.
Em Os Emigrantes (Record, 2002), Sebald sai no encalço de parentes emigrados no pós-guerra dos Alpes para os EUA, de um professor primário para a Suíça e de um artista plástico para Manchester. É com desmedida compaixão, que o narrador tenta reanudar a saga negativa de sua família, alfinetando com sarcasmo, que a toda genealogia adere a fantasia e o mito dos seus contadores. Sebald garimpa na subjetividade de seus personagens e nas razões da História, o ímpeto irrefreável da imigração, da partida para territórios desconhecidos – cujo pano de fundo é aquela "pátria mal-assombrada" descrita em seu ensaio, e mãe de todo os medos, que fez do próprio autor um viandante, saltador de cancelas.
São exílios do corpo, pois a alma, mortificada, carrega seu sofrimento para além-fronteiras, em evocações magistrais e copiosas que transportam e arrebatam. E sobre os exilados soe pairar o espectro da perda irreparável; das posses materiais, do juízo e da vida. Para alguns a colônia psiquiátrica é estação terminal, para outros, o suicídio.

Ao mesmo tempo noir e luminoso, é o conto que encerra o volume d´Os Emigrantes - a estória do artista plástico Max Aurach, que aporta em Londres em 1908 para estudar arte, passando a morar na mesma casa antes ocupada pelo filósofo austríaco Wittgenstein, e que mais tarde se refugia, anônimo, em Manchester. Magistral é o imbricamento de dois grandes temas construído pela imaginação de Sebald: para falar da "solução final" de Hitler, ficciona um diário escrito pela mãe do já famoso pintor, e, simultaneamente, infiltra a história de Manchester que,  de grande centro do comércio mundial, agora jaz em escombros; História como escavadeira e moto-niveladora, galera ciclópica afundada pelo tsunami das tecnologias e do desperdício.

Enquanto nossas narinas inspiram o odor fétido e aziago das águas do decadente porto, que penetra pelas frestas das docas onde o pintor instalou seu ateliê (toda boa literatura é olfativa!), Sebald, cauteloso, vai ao encontro de Aurach como uma zoom de aproximação, até trazê-lo ao primeiro plano e apresentar-se. Enquanto conversam, Aurach trava dilacerante luta com sua obra, aplicando formas e cores, logo raspadas rudemente com a espátula, ao ponto de ferir a tela que lhe serve de sustentação. O olhar do narrador recai sobre o monte de tinta raspada que vai se acumulando, da manhã até o entardecer, ao pé do cavalete – metáfora de Sísifo, o herói trágico do mito sobre a eterna repetição do esforço vão, e alegoria da busca obsessiva de Aurach pela "imagem ideal", descartada, de sua própria identidade ainda não aceita; a de um judeu, mas sobretudo alemão, cuja memória continua grudada à terra natal.

Prosa de densa sutileza, que adia a revelação apressada com mistério perseverante, a obra de Sebald é um caleidoscópio que dialoga, sem saber, com a Alma Atômica de Guy Hocquenghem e René Schérer - "o remédio para o desencanto, o medo, [a angústia face ao mundo unipolar, à hegemonia do Império], a dispersão trivializada dos egoísmos, só pude ser a ressurreição da alma... Entregar a alma, o prazer de especular, à maneira dos bem-aventurados, a nosso universo contraído, significa vivê-lo esteticamente, com as categorias melancólicas e visionárias de aura, do barroco, da alegoria e do sublime".
O mundo sem Max ficou mais pobre e desolado, mas W.G. Sebald, o alter-ego, "ou ainda um homem sem nome, um molde de gesso vazio, mas pensante, um fantasma solitário e sensitivo, que caminha quase sem rumo e que é o eixo que une o leitor ao mundo" (R. Tavares), sobrevive nas nossas próprias peregrinações às praias dos nossos próprios naufrágios, às  ruínas das nossas genealogias, aos territórios da ancestralidade onírica, onde mora a melancolia.

A obra

1) Nach der Natur. Ein Elementargedicht (Sobre a Natureza, um poema elementar, 1988, inédito em Português);
2) Schwindel.Gefühle (Vertigens,1990, inédito);
3) Die Ausgewanderten (Os Emigrantes, 1993, Record, 2003)
4) Die Ringe des Saturn (Os Anéis de Saturno, 1995, Record, 2004)
5) Austerlitz, 2001 (inédito)
6) Unerzählt 33 Texte, 2003, inédito)
7) Campo Santo, Prosa, Essays, 2003, inédito).
Premiações- Prêmio de Literatura de Berlim, 1994,
- Medalha Johannes Bobrowski, 1997,
- Prêmio Möricke da cidade de Feldbach 1997,
- Prêmio Joseph Breitbach 2000,
- Prêmio Henrich Heine 2000 (Gov. Federal),
- National Book Critics Circle Award, 2002
- e Prêmio de Literatur da Prefeitura de Bremen, 2002.



26 outubro 2010

Frederico Füllgraf - Play it again, Oskar!

Fotos: Google.de

Crônica de Berlim


Poetas morrem de overdoses: de versos, droga ou loucura; em casos extremos, de fome, ou de bala do marido da amante. Já Oskar Huth, o ébrio virtuose, derrapou sobre uma partitura e despencou num fosso, entre uma clave e um si-bemol. Em vida foi o que os berlinenses chamam de Original: viajado, erudito, amante da boa tertúlia, e, sobretudo, estradeiro; subentendido não como transgressão criminosa, mas como atributo de pessoa, digamos, algo avessa ao trabalho.
Flaneur, Oskar era um Baudelaire prussiano: tinha no sangue o mapa das avenidas e alamedas, das colunas e estátuas, dos arcos e viadutos e, sobretudo, dos Kneipen; os botecos. Não andava: parecia deslizar pela cidade. De olhos fechados.
Conheci-o, e já beirava os sessenta anos de idade. Irrompeu no bar Litfass, do também saudoso português, Antonio, trajando incombinável, berrante gravata cor laranja sobre camisa cor verde; desarrumação acentuada por um paletó violeta; surrado. Tinha prazer em esfarinhar a má educação, modismo antiautoritário da época, com implacável cerimônia, mas sem empáfia: não resistia ao hábito de cumprimentar as damas, beijando-lhes as mãos – atitude extemporânea, que nele resgatava o desprezado (mas, ai, tão desejado!) Kavalier à moda antiga, com isso reforçando a colorida, etílica e divertida decadência da então cidade intra-muros.
Contumaz, neste mesmo tom fin-de-siécle (do XIX, pois já contávamos 1980), apesar da minha irritação, Oskar saudava-me como “mein Freund vom Oberen Orinoco” / “meu amigo do Alto Orinoco” – rude equívoco territorial que remetia àquela boçalidade geográfica de filmes B, hollywoodianos, nos quais chiquitas-bananas bailavam rumba em Coupakébéna... Carmem Miranda?Oh, nein - gringos jamais! Naquele faiscante átimo bolivariano, Herr Huth reincorporava a odisséia do inebriante Humboldt às “regiões equinociais do novo continente”. Contudo, seu fascínio não brotava unicamente de seus modos educados, fora de ordem, mas de sua aura de alemão marginal, cuja coragem era cochichada em prosa e verso, naqueles tempos (noves fora o Che Guevara) tão carentes de heróis.
Quando inspirado, empertigava-se ao piano sebento, com teclas amareladas pela ação da fumaça dos cigarros de muitos anos, parecendo perfeita réplica do “Pau d´água” - vinil muito tocado nas festas dos meus pais, em minha infância, ilustrado na capa com um pianista bêbado junto a um piano, idem. Deste, Oskar conseguia arrancar harmonias oblíquas para a embasbacada platéia: solenes fugas de Bach, aqueles estertores de Billie Holliday (“He is my maaaan...”), uma chanson lacrimosa de la Piaf...
E nestes concerti buffi jamais faltava uma loura quase fatal, derramada sobre o realejo, como falsete de Greta Garbo, traçando com os olhos John Gilbert ao piano, em Flesh and the Devil. Apostei que um dia ele adentraria o bar em baixo astral e – de staccato a furioso - atacaria de Hindemith; só para contrariar.
Mas Oskar era movido por inabalável bom humor. Quando chegava recém-desperto, com profundas olheiras, roxas, descabelado, e a barba com três dias, desculpava-se com deferência, re-pescando no céu de chumbo os tormentos da noite anterior: “passei da conta, Brüderchen (“irmãozinho”), bebi o rio todo, encharquei até a alma”.- alegoria emprestada do Spree, rio que corria de leste a oeste, por baixo do Muro, impassível à divisão da cidade.
Filho de músico, desde a tenra idade acompanhara o pai a bordo de uma charrete, em missão profissional. Viajavam por Berlim e a província de Brandenburgo, consertando e afinando órgãos de igrejas, devolvendo a alegria a padres e pastores, recebendo em troca seu pró-labore e a promessa de uma vida eterna. Foi assim que a música entrou na passagem terrenal de Oskar, quem como poucos sabia que a eternidade.... - ora, essa se arrebata ao instante! 
Mas o que tornaria sua biografia digna de um longa-metragem foi a 2a guerra, que silenciou seus Lieder, substituindo-os pelo assovio tenebroso de bazucas, tanques e bombardeiros, fechando o céu sobre Berlim.
Antes da minha volta ao Brasil, tínhamos combinado uma entrevista para um semanário brasileiro, tendo como locação a gávea do Obelisco da Vitória (vitória sobre a França, em 1870), que se situava a poucas quadras da casa onde eu morava, no Tiergarten. Isso mesmo: aquela coluna Bismarckeana, empoleirada por um gigantesco e coruscante anjo dourado, que, anos mais tarde, Wim Wenders levou para a história do Cinema como ícone de “Asas do Desejo”.

Indisciplinado, alemão às avessas, Herr Huth não compareceu. Deixou-me babando pela narrativa até o próximo encontro. No bar... Certamente porque o anjo não servia bebidas, mas apenas uns excelsos e insípidos bafejos, sem álcool, sobre a arte de elevar-se às alturas - essas bizantinices esvoaçantes de querubins e aeronautas. 
Ora, cá embaixo, eclodira a grande guerra. Alistado no exército, Oskar desertara em seguida, entranhando-se na clandestinidade. Convencido de que seu paradeiro era farejado, triscou um criativo despiste: entregava cartas e cartões postais a amigos viajantes, com a ordem para aguardarem o bombardeio considerado terminal, de cidades inusitadas, e então postarem os sinais de vida aos seus familiares, espantados e aliviados. Dado por morto, Oskar renascia em cada batalha...
Sobreviveu aos seis anos da guerra como falsário de identidades, passaportes e outros documentos (para judeus, comunistas e clientes menos recomendáveis), só abandonando seu bunker no dia da conquista de Berlim pelas forças aliadas.
Interrogado por norte-americanos, teria lhes recomendado uma “receita histórica” para seu país em ruínas: - Dividam-no em quarenta partes e nunca mais haverá guerra! Os ianques se entreolharam, riram constrangidos, e prometeram pensar na proposta. Eis que, em 1948 a Alemanha estava partida em duas, e Berlim “de quatro”, digo: dividida em quatro “zonas” de domínio militar – geografia e história hoje superadas, mas de autoria reivindicada por Oskar. Que ria treteiro, ajeitando a gravata torta, insinuando solenidade. Divertia-se com a pasmaceira dos cristãos diante de sua fanfarronice, e apostava em sua perpetuação como mito.
E tentando arrancar da música o imorredouro, Oskar, o Airoso, maquinou um invento irretocável, primoroso: um piano com “teclado aerodinâmico”. Revolucionário, porque profundamente ergonômico, seu conceito baseava-se na observação de que, durante um concerto com duração média de noventa minutos, um pianista aplica várias centenas de quilogramas de força ao teclado:  – “o recital foi uma apoteose, já o pianista está um lixo!” - bradava Oskar, a cabeleira despenteada. Substituindo o teclado convencional, fixo, por outro, deitado sobre um colchão de ar, o espirituoso borracho pretendia imprimir a sustentável leveza do toque à arte de conduzir o piano.
Patenteou sua idéia, e uma confraria de amigos criou o “Fundo Oskar Huth”, dotado de 5 mil Euros, em valores atuais, e destinado ao desenvolvimento tecnológico da criativa engenhoca.
Havia, porém, uma condição: nenhum centavo do fundo deveria ser “malversado”, usado para fins que não os “estritamente pianísticos”. Crônica bêbada há muito anunciada, a subversão do teclado morreu na casca, digo: na canjebrina. Mal interpretando a cláusula do contrato, Oskar confundiu fundos com sumidouro: certa noite mergulhou no leito abissal de uma garrafa e dele não mais retornou. Imortalizou-se na arte da fuga.

21 outubro 2010

José Carlos Gallas - Dísticos capilares

Fotos: divulgação


Poema inspirado pelo Encomium Calvitii, o panegírico aos calvos escrito por Sinésio de Cirene, um dos primeiros bispos da igreja. Sinésio sustenta que uma cabeça calva, por assemelhar-se à perfeição geométrica da esfera, está mais próxima da perfeição de Deus do que uma cabeça cabeluda. Adejam no início deste poema algumas das pombas de Raimundo Corrêa.

Tomba um, tombam dois, enfim centenas
de fios de cabelo, devido apenas
à contínua ação da gravidade.
E assim, ainda em plena mocidade,
a glória capilar, que não espera,
cede ao avanço da lúcida esfera.

Glorifiquemos, enquanto nos resta,
o cabelo que já não cobre a testa
com sua antiga e completa plenitude.
A troça aos calvos, que tão amiúde
vês nos quadrantes todos desta vida,
não deve por ti próprio ser ouvida.

Já nos disse Sinésio de Cirene
quando escreve, acertado e solene,
que dos formatos todos da natura,
aquele que por graça e formosura
da perfeição de Deus está mais perto
é o globo, um redondo corpo certo!

E assim, sempre que um gárrulo hirsuto
gracejar do teu calvo cocuruto,
tu dirás, desdenhando o inútil pente,
que tem razão Sinésio certamente:
"Não há nada que tal estado mude;
gloriei-me cabeludo enquanto pude."


Nota sobre o autor
Dizer que conheço J.C. Gallas, seria exagero, porque nunca nos apresentamos. Faltou a oportunidade: é que ele vive às margens do Rio Paraguai, na férvida Cuiabá, e eu, às vezes em Curitiba, noutras, on the road...
Uma década atrás, começamos a trocar nossas predileções literárias numa saleta de bate-papo da Internet e, embalados por aquela genuína afinidade eletiva, da qual falava o viajado J.W. Goethe, nos tornamos amigos. Moda em desuso, Gallas é um profundo conhecedor dos clássicos, e também um exímio tradutor, mas capaz de imitar o original ao ponto de torná-lo o perfeito fake, sem que ninguém o perceba - cuidado!Devia escrever um romance policial sobre ladrões de pergaminhos, escondidos no Pantanal!
(F.Füllgraf)

09 outubro 2010

Sabine Lange - O molho de chaves (excertos) 2a. parte: A virada



Trad. F.Füllgraf

Então chegou a época em que deveria acontecer a Wende; a virada.
O dia esperado, em que aquela grade seria alçada e no qual as leoas poderiam finalmente se juntar. O dia em que fosse servido o bolo, o grande bolo, pelo qual a fome já tinha deixado para trás a própria fome, desde tempos imemoriais desembocando num grande vale branco, feito de neve. Aquela pista, muito comprida, que todos pretendiam percorrer, mas que alguém, tantos anos atrás, havia dobrado, inflectido para baixo, feita calha de chuva, de repente aquela baliza foi levantada – vejam!
                                      
Eram os dias em que as eclusas deveriam ser abertas, para que se esparramassem as águas represadas e provocassem algum acontecimento. De preferência, tudo. Até mesmo os diminutos regatos, que costumavam correr e desaparecer sob as pequenas pedras seriam chupadas de volta. O que era isso?

Finalmente estreara um grande filme; um filme abrangente, total. Um filme projetado sobre as águas. E ele deixa afundar os barcos, para que as pessoas também pudessem vê-lo com a perspectiva invertida, de baixo para cima. Da direita para a esquerda. 

A notícia da virada chegava de todos os quadrantes, e eu estava sentada no meio de tudo isso. No olho do furacão. Eu assistia TV e intuí um acontecimento insuperável. Intui que agora meus olhos transbordariam. E mais do que isso. Não conseguia acreditar. O que eu via, crescia feito inchaço de uma bolha de ferida prestes a estourar. Para qual lado você quer saltar.

Mas que gentileza - os dentes já tinham apodrecido e caído das gengivas e, finalmente, alguém se lembrava de trazer a bandeja com as castanhas!...
Agora eu sabia que alguma coisa estava para acontecer, que eu jamais esquecerei em minha vida. Espere - um comunicado! Para todos, por favor! Damas e cavalheiros, ninguém pediu que morressem! Que se torturassem à toa! Tudo tinha sido PREMEDITADO. Tivessem exercitado a paciência... Porque ainda vão precisar de tudo. Juventude, beleza, e sua saúde. Calma, porque agora chegou a hora.

Aquilo era um negócio de bom tamanho para uma leitura ao vivo, de tão inacreditável. Mirei para a TV como John sempre olhava. Com aquela mirada de Gäntschow. Como se visse alguma coisa que me chamasse atenção. John, chamei-o, venha aqui um pouquinho. E John veio da cozinha, calçando pantufas. Ele trazia enrolada uma fatia de Presskopf.4 Quéquihá? – ele grunhiu.

Ele também está recebendo bilhetes, exclamei. Veja - bilhetes, ele também! Tirou do bolso da calça! E esbugalhei os olhos. E fiquei escutando. E não conseguia acreditar.

Então berrei. Aproximei-me do televisor, me abaixei e imprequei contra a imagem na tela. Leia direito, seu babaca! Por acaso não sabe ler? Ali não está escrito, ´a partir de hoje, todo mundo pode atravessar a fronteira´, nem a partir de mais tarde, mas a partir de agora, já... – mas será possível!
Ali está escrito o seguinte: Na madrugada que passou não toquei punheta.
E também está escrito: Seres humanos não valem nada. É o que está escrito.

Deitei-me nos braços de John e chorei. E disse, John, agora podemos ir até nossa avó. John apanhou a garrafa de Gamza – ei, que vinho porreta é esse que vocês têm aí, e, a propósito, eu acho vocês umas pessoas bacanas. Todos vocês. E John derramou a metade do vinho que restava na garrafa sobre o televisor.

Eram as 18:53 do dia 9 de novembro de 1989, e mal tínhamos começado a jantar. Uma semana depois atravessei o muro, no Checkpoint Charlie. 5 Fazia um dia de frio úmido e eu sentia arrepios nas pernas. Eu vinha acompanhada de um amigo, e achei que as casas tinham aspecto imundo, de tão pichadas. Fiquei desapontada, com enorme estranhamento. Tínhamos sido convidados para o café da manhã na casa de amigos, em Kreuzberg 6; amigos que há muitos anos tinham escapado ao Ocidente. Quando me despedi, furtivamente apanhei uma banana do prato, e quando os amigos já tinham alcançado a porta, apanhei mais uma. Motivo pelo qual durante todo o caminho da volta me torturou a consciência pesada.

Minha primeira viagem me levou à Suécia. Eu desejava tanto subir a uma balsa branca, dessas que eu tinha visto, olhando desde Arkona! E que se podia ver também desde Königsstuhl, em Sassnitz.  Quando me encontrei no convés do ferry, achei estar vendo Arkona, e também Königsstuhl, em Sassnitz..

Minha segunda viagem foi para Edinburgh, onde fui visitar uma amiga que eu conhecia do Acervo, uma professora universitária, que eu admiro muito. Foi uma viagem maravilhosa, e nos perdemos em conversas gostosas. Achei Edinburgh uma cidade encantadora e os Highlands me impressionaram para tirar o fôlego.
Quando retornei, meu periquito australiano estava morrendo. Eu o entregara à guarda de amigos. Eles eram músicos. Quando cheguei para apanhar minha ave, eles estavam ensaiando.

Tocavam um ritmo afogueado, do gênero Klezmer 7. Durante o ensaio tinham colocado um pano em cima da gaiola. Quando levantei o pano, o periquito estrebuchava, esticado na areia do fundo da gaiola. Tinham matado o periquito de tanta música! Olhei para a ave e pensei: se eu pudesse sentir o que ela está sentindo! Depois cavei uma pequena cova em frente da casa, debaixo de uma roseira. Levei dias sem conseguir me consolar. Eu não sabia o quanto estivera ligada àquele pássaro.

Até hoje consigo sentir o peso da leve vibração em meu dedo indicador quando ele vinha voando e pousava em minha mão. Mas do que é que eu estou falando! Talvez eu quisesse dizer que aos poucos minhas viagens foram resvalando para o esquecimento, mas que o pequeno pássaro continua a voar; ele sempre volta a levantar vôo em meus pensamentos.

Nunca mais voltei a pôr os pés na igreja. O pastor fora transferido de paróquia. Por causa da bebedeira. Por causa de bebedeira? Eu sempre tive saudades das sonoridades do órgão. Toccatas e Fugas. Na verdade ao órgão nunca consegui tocar a contento aquelas músicas, mas executei-as sempre de forma rasante e com paixão. Um leigo em música jamais teria notado qualquer deslize. Eu chegava a preencher a igreja toda com o som das minhas execuções. Eram belos aqueles momentos em que eu tocava e vibrava, misturada aos sons. Jamais esquecerei o reverendo que me entregou a chave da igreja e me ajudou a alojar um usuário do Acervo Fallada, que viera do Ocidente, mas sem credenciamento algum.

Só agora fiquei sabendo que o cômodo, que já servira como sala de aulas de catecismo, tinha sido uma lavanderia, antigamente. Na verdade era uma genuína propriedade rural que, mais de cem anos atrás, a Igreja tinha comprado para instalar a sede de sua paróquia. Disseram-me ainda que a lavanderia da fazenda, que era a maior das salas, era geminada com a cocheira dos cavalos.

Mas agora me lembro de uma terceira viagem que fiz. Fui à Suíça. Passei por cidades como Küsnacht, atravessei Chur. Eu queria visitar a mãe de John. Ela morava numa mansão às margens do Lago Lugano. Todos os seus aposentos estavam repletos de peças de arte. As salas tinham aspecto amortecido, com tapeçaria alta, móveis em estilos barroco e Jugendstil. Mas não tenho certeza disso. Ela possuía um piano de cauda, o que imediatamente me ligou a ela. Ela era bonita, elegante e jovial. E era loquaz; loquaz de um modo quase maternal. Mas não consegui gostar dela – por que é que ela o deixara andar por aí daquele jeito, com aquela calça surrada e as sandálias mais do que gastas? Por que não lhe deu o que ele precisava, quando viajava para uma cidade desconhecida. E para país estrangeiro.


* Sabine Lange – poeta e escritora da ex-RDA, que de meados dos anos 1980 até o final dos anos 1990, dirigiu o Acervo Fallada, do escritor Hans Fallada, morto em 1947, autor, entre outros, do romance “Jeder stirbt für sich allein”, a ser lançado no Brasil em janeiro de 2011, sob o título “Sós, em Berlim”, pela Editora Record. A primeira edição completa da novela “Schlüsselbund” (O molho de chaves) foi publicada na Suécia pela Ed. Rugerup.

Notas

1 – Polícia de Segurança de Estado (MfS - Ministerium für Staatssicherheit), mais conhecida pela abreviatura StaSi, a polícia política da ex-RDA. Como lembrarão muitos cinéfilos que viram o filme “Das Leben der Anderen” (A vida dos outros, Oscar de melhor filme estrangeiro em 2007), em seus 40 anos de existência, com seus 200 mil agentes e uma rede de mais de 150 mil informantes “voluntários” (alcaguetes, dedos-duros), para uma população que não passava de 18 milhões (um agente para cada 60 habitantes), esta polícia, espécie de Gestapo do Socialismo Real, bisbilhotou, achacou, desestabilizou e arruinou a vida de dezenas de milhares, e matando algumas dezenas de cidadãos na ex-RDA.

2 – Kätelkuhl – cava gigantesca com conjunto de lagos, na região de Feldberg, Estado de Mecklenburg, Alemanha.

3 - Gäntschow – alusão ao personagem Johannes Gäntschow, protagonista do romance “Wir hatten mal ein Kind” (Uma vez tivemos um filho), de Hans Fallada.

4-  Presskopf – prato típico na ex-RDA, espécie de “cabeça de porco no mocotó”, na verdade tipo de lingüiça barata.

5-  Checkpoint Charlie – antigo posto de controle norte-americano, usado como passagem pelo Muro de Berlim, desativado, mas tornado atrativo turístico após a queda do muro.

5 – Kreuzberg – antigo bairro de classe média e de operários (nos pátios dos fundos), na Berlim entre-guerras, que após a divisão da cidade, em 1961, permaneceu no setor ocidental, cujas ruas mais importantes foram então todas cortadas pela construção do muro. Na década de 1960, com seus prédios e casarões malcuidados e semi-arruinados, Kreuzberg era um bairro com imóveis baratos para compra e aluguel, atraindo grande número de trabalhadores turcos, com suas famílias, além de estudantes e intelectuais, cujos bares, restaurantes e comércio ao ar livre lhe emprestaram um toque de “Quartier Latin da Prússia”. Após a queda do muro, Kreuzberg retornou ao antigo centro geográfico da capital, tornando-se território de especulação imobiliária voraz, e atraindo ao cenário novos moradores, yuppies endinheirados, mas também gente como o cineasta Wim Wenders e sua produtora, Road Movies.

7-  Klezmer – tradicional gênero musical iídiche.