25 dezembro 2016

Frederico Füllgraf - O teatro e a tragédia no fim do mundo



Reportagem sobre o Festival Cielos del Infinito, 
que no Estreito de Magalhães desafia o centralismo cultural de Santiago do Chile.

Embora Concepción, a segunda maior cidade do Chile, seja equipada com um moderno e movimentado aeroporto, fui obrigado a viajar 450 quilômetos ao norte, até Santiago, para embarcar em um voo ao extremo sul do país. Enquanto pedia desculpas a Concepción desde as alturas, durante o sobrevoo fiz as contas: tivesse embarcado ali, a passagem teria custado um terço a menos e me poupado umas desesseis horas, que o trajeto para Santiago, ida e volta, me cobraria a bordo de um ônibus. Não fazia sentido algum, mas foram as condições impostas pela empresa aérea ao Serviço Nacional de Turismo, o patrocinador da minha viagem.

A fonte deste desconcerto é o confuso centralismo geográfico, político e administrativo do Chile. O governo Ricardo Lagos (2000-2006) prometeu acabar com o anacronismo, mas não o fez. Sua sucessora e atual presidenta em seu segundo mandato, Michelle Bachelet, acolheu a proposta, mas a descentralização parece uma utopia à mercê da inalcançável linha do horizonte.

A cobra “aleijada”

Meu destino era Punta Arenas, derradeira urbe em território chileno, lcoalizada no Estreito de Magalhães, ligeiramente a noroeste de Ushuaia, na Argentina, a cidade mais austral das Américas. Com a duração de três - na volta foram quatro – horas, o trecho Santiago-Estreito teve um quê de voo internacional, pois cobre virtualmente a mesma distância de 3.000 quilômetros, que separa a capital do Chile de São Paulo.

No Estreito desaparece a Cordilheira dos Andes, acabam a Patagônia e o continente americano, contribuindo para a percepção do “fim do mundo”, ilustrada em 1520 com os apontamentos de Antonio Pigafetta, escrivão de bordo de Fernão de Magalhães, quem cravou palavras tão exóticas quanto remotas, como “patagones” e “tierra del fuego”.

Se mal recordo, foi John Steinbeck quem estranhou a espichada e sinuosa geografia chilena, comparando: “it´s a country like a snake – é um país semelhante a uma cobra”.

Porém, a analogia de Steinbeck tem um aspecto insólito: a cobra é “aleijada”, sua cauda está isolada do resto do corpo.

Pendurada no extremo sul dos 4.260 quilômetros de costa, a Terra do Fogo chilena não tem conexão terrestre com o resto do país. A RN5, que ao norte desemboca na Panamericana, ao sul termina em Coyhaique, no coração da Patagônia. Quem viaja de carro, terá que abandonar o Chile e percorrer aprox. 1.200 quilömetros em território da Argentina, retornando ao território chileno à altura de Puerto Natales, e de lá percorrer os 250 quilômetros restantes até Punta Arenas. Este percurso cobra três dias de viagem, com uma segunda opção “mochileira” - de ônibus, via Villa O´Higgins y El Chaltén (Argentina) – que leva pelo menos seis dias.

O que os motoristas experimentam em pleno séc. XXI, é uma irônica repetição da História à cavalo, pois quando o conquistador do Chile, Pedro de Valdivia, foi morto na Batalha de Tucapel, em 1553, os colonizadores espanhóis curvaram-se à assinatura de um tratado com os vitoriosos Mapuches, que em suas expedições rumo à Patagônia proibiu-lhes a travessia da Araucânia. Durante trezentos anos os espanhóis respeitaram o acordo, contornando a Araucânia por via marítima, mas bastou a proclamação da independência, em 1818, e a oligarquia chilena violou o trato, invadindo e loteando o território Mapuche para colonos europeus.

Em seu breve poema, “Patagonia”, Gabriel Mistral, Prêmio Nobel chilena de Literatura, escreveu: "à Patagônia/ seus filhos chamam de Mãe Branca/ Dizem que Deus não a quis/ por tão congelada e tão remota".

¡Santiago no es Chile!”

Santiago mais é problema do que solução para o Chile, que não é uma república federativa, mas espécie de obsoleto “Estado unitário”, com predomínio absoluto da capital.

Durante a ditadura Pinochet o país foi dividido em 15 Regiões administrativas, respectivamente subdivididas em províncias. Legado sem dúvida da era colonial, os “intendentes” - como são chamados os governadores regionais – não são eleitos pelo voto popular, mas nomeados pelo presidente de turno no palácio La Moneda. Espécie de “capitães hereditários” tardios, executam à risca os planos do governo central, sem espaço para ideias e projetos, quem dirá orçamento próprio.

Com aproximadamente 7,0 milhões de habitantes, a região metropolitana de Santiago é a menor, mas a que concentra 42% da população do país, e que gera 44,0 % do PIB nacional, com taxas de crescimento que têm superado os 6,0 % anuais. Enquanto o anacrônico cenário não muda, Santiago também concentra mais de 41,0% dos investimentos públicos em saúde, 34,2 % para a moradia popular e mais de 30,0 % para infraestrutura viária.


Antonio Altamirano

Contra ventos e maré”: o festival “Cielos del Infinito”

Promessa não cumprida pelos governos da era pós-Pinochet, a descentralização ganhou as ruas com ruidoso movimento social no Chile profundo, que cobra investimentos e valorização da identidade regional, com a palavra de ordem “¡Santiago no es Chile!”, querendo dizer, o Chile não é apenas Santiago.

Estas distorções despertaram uma ideia em quatro jovens, liderados pelo ator Antonio Altamirano e a jornalista e produtora Lorena Álvarez: naturais do extremo sul da Patagônia chilena, marcada por enorme dificuldade de acesso a bens culturais, resolveram desafiar o centralismo de Santiago com um expressivo evento cultural na Terra do Fogo.

Em 2008, assim nascia o Festival de Artes Cielos del Infinito, um evento com características internacionais, empenhado em espantar, durante uma semana ao ano, as intempéries neste fim de mundo – seus ventos inclementes, temperaturas gélidas e a neve - que de janeiro a dezembro açoitam o rosto de suas gentes. Ambicioso, o projeto oferece mostras de teatro, cinema e fotografia e shows musicais, Mas seu forte são as artes cênicas, em palco e na rua.

Licenciado em Artes pela Universidade do Chile, com a iniciativa Altamirano granjeou reconhecimentos e honrarias além-fronteiras, tais como o título de “uma das 100 mais influentes jovens lideranças do Chile” (revista El Mercurio, 2010) e um prêmio da International Youth Foundation, em 2011.

Em entrevista que me concedeu em um café de Punta Arenas, Altamirano lamenta que, apesar de sua 9a. edição, todos os anos a produção do festival volta à estaca zero financeira.

Como de resto na América Latina, salvo a Argentina, também no Chile o quesito “cultura” escreve-se com letra minúscula. Sua parcela no orçamento do Estado é de pífios 0,4 %, dos quais 37,7 % estão reservados para fundos concursáveis, com a maior parte das inscrições concentradas em Santiago, sede de museus, galerias, teatros e salas de espetáculos. Enfrentando esse centralismo, todos os anos, o Cielos del Infinito deve submeter-se ao edital do Conselho Nacional da Cultura e das Artes, seu principal patrocinador, e solicitar ao Serviço Nacional do Turismo (Sernatur) o financiamento de passagens e alojamento das companhias de teatro e dos jornalistas convidados.



Teatro sobre um mundo insuportável e de outro, possível, mas utópico

Em 2015, o evento contou com um público notável de 15.000 visitantes, Embora impressionadas com o êxito, as mãos das autoridades locais estão atadas para o patrocínio. Porém, os problemas se estendem à infraestrutura. Como exemplo da precariedade, Altamirano cita o caso do Teatro Municipal de Punta Arenas. Apesar dos 5,3 milhões de dólares investidos em 2014 pelo erário para sua remodelação, tornou-se um elefante branco com “mais de 90 pontos cegos”, eufemismo que designa zonas de alto risco. O jeito foi escapar para palcos de colégios, tais como o Liceu Público ou a British School de Punta Arenas, com aproximadamente 400 lugares cada.

Contando com o apoio simbólico de 42 organismos governamentais e privados, na prática o evento é colocado em cena pela generosidade de 50 voluntários locais, sobretudo jovens estudantes de Punta Arenas. Como sofrivel “sede” serviu-lhe em 2016 um restaurante improvisado, emprestado pelo sindicato local dos pescadores artesanais, no qual o chef chileno Rodrigo Urízar, que em Valparaíso dirige o pitoresco restaurante El Peral, deslumbrou artistas e o staff com seus quitutes e iguarias, tirados da cartola culinária com passes de mágica.

Em sua 9a. edição, em novembro de 2016, o Cielos del Infinito deu um passo audaz, expandindo seus eventos para as localidades de Puerto Natales e Puerto Williams – a 50 minutos de voo de Punta Arenas – e inaugurando uma parceria com Ushuaia, na vizinha Argentina.

A segunda proeza consistiu na atração até o Estreito de Magalhães de uma dezena de companhias nacionais e estrangeiras. Com “Tú”(França), “Kamchatka” e “Fugit” (Espanha), “Capitán” (Argentina), “Los Niños de Winnipeg” e “Nómadas” (co-produções Chile-Espanha), “Clase” (Chile), “El Rey Mono” (China) e “A Casa Vaga” (Portugal), o festival escolheu um elenco de montagens do teatro contemporâneo não-comercial, que dialoga com o parto, a História e a solidariedade humanas, mas dramatizam sobretudo o modo de vida imposto pela doutrina neoliberal, os desajustes e as decepções com a democracia formal, e as tentativas de escapar à armadilha capitalista; encenações todas muitos aplaudidas. Apesar do estranhamento de outro idioma no palco, o público parecia conhecer por experiência própria essas vozes de um mundo insuportável e de outro, possível, mas ainda utópico.




O TEP e Gonçalo Amorim em Punta Arenas - Fotos: F.Füllgraf

Teatro português revisita o “Estreito”

Muito bem recebida foi a peça “A Casa Vaga”, montada pelo Teatro Experimental do Porto (TEP), a companhia em atividade mais antiga de Portugal, fundada na década de 1950 por artistas e intelectuais anti-fascistas, que desafiaram a ditadura Salazar com arrojadas montagens de Arthur Miller e John Osborne, mas que jamais conseguiram driblar a censura portuguesa com uma peça do “maldito” Bertolt Brecht.

Com ideia e figurino insólitos, “A Casa Vaga” narra a emigração de três portugueses ao faroeste norte-americano, por volta de 1840, em busca de melhores condições de vida e de trabalho. Politizados e entusiasmados com a pregação das primeiras ideias libertárias, os três vaqueiros lusitanos – entre eles uma personagem feminina – ensaiam sua utopia, forçando um modo de vida livre do jugo capitalista e das estreitas fronteiras territoriais. Mas então entra em cena um pesonagem inusitado, vestindo terno e gravata , fumando charuto e dizendo: “Isto aqui tem dono, e o dono sou eu!”. O conflito é inevitável e culmina na morte do que reivindica a propriedade. Que não por coincidência também é português, o que pode ser entendido como metáfora nem tão sutil da luta de classes em Portugal sob a égide do Capital e das instituições da União Europeia. Porém, ainda que se insinue como acidental, a peça termina com uma advertência grave: a morte do predador pode sujar de sangue as mãos dos revolucionários bem intencionados!

Precursor do moderno teatro português, o
TEP sobreviveu o fascismo e a consolidação da democracia. Entre 1998 e 2009, foi dirigido por Norberto Barroca, sucedido por Júlio Gago. Em 2012, a direção artística foi assumida por Gonçalo Amorim, encenador residente desde 2010, um dos atores e diretor de “A Casa Vaga”, com quem conversei em Punta Arenas.

Amorim deverá retornar ao Chile em 2020, com um conjunto de obras em co-produção com Altamirano, sobre os 500 anos do descobrimento do Estreito.

Julio Popper, os "caçadores" e suas vítimas, Onas


Os senhores do fim do mundo

Um mês antes da estreia do festival, Christine Barthe, conservadora do Museu Quai Branly de Paris, deu palestras em Punta Arenas e Puerto Williams sobre a exposição “Los espíritus de la Patagonia Austral”, que reuniu 150 fotos do sacerdote salesiano e antropólogo alemão, Martin Gusinde (1886-1969), documentando os últimos dias na Terra do Fogo dos povos Selknam (Ona), Kawésqar e Yagán, no início do séc. XX.

As imagens em preto-e-branco de Gusinde, expostas de outubro a dezembro de 2016 no Museu de Belas Artes de Santiago, têm o poder de fazer sorrir e chorar a alma, diante da beleza em estado bruto e os estertores dos povos do fim do mundo. Autor do clássico “Los Fueguinos” (1937), Gusinde não foi oportunista, registrando e “roubando” as imagens aos fotografados, mas tornou-se amigo deles e engajou-se em uma vã tentativa de salvá-los do extermínio.

O extermínio tornara-se crônica anunciada desde 1867, quando o presidente José Joaquín Pérez decide acabar com a colônia penal de Punta Arenas, declarar a vila como "porto livre" e atrair imigrantes europeus. A chegada ao Estreito do português José Nogueira, do judeu lituano Elias Braun Fucks, e do espanhol José Menéndez, mudaria para sempre a paisagem da Terra do Fogo e selaria o destino de seus milenares povos originários; um capítulo da História jamais pesquisado e virtualmente desconhecido em Portugal.

Com mais de 4 milhões de hectares de terras concedidas gratuitamente pelos governos argentino e chileno, o trio Nogueira-Braun-Menéndez expandiu no sul da Patagônia o maior rebanho de ovelhas do mundo, foi proprietário de empresas de mineração, navegação e importação, e excerceu o monopólio da exportação de lã à Europa. Durante cinquenta anos, até a Segunda Guerra Mundial, com sua Sociedad Explotadora de Tierra del Fuego, foram os senhores do fim do mundo.


José Nogueira e Sara Braun


José Nogueira e o “Estreito do extermínio”

Deambulando por Punta Arenas, depara-se com profuso número de símbolos da opulência do novecento fueguino que emolduram a Plaza de Armas. Sua edificação mais exuberante é sem dúvida o Palácio Sara Braun, sede atual do Hotel José Nogueira, o mais requintado da cidade.


Em 1887, um casamento por iinteresse unira Sara Braun Hamburguer, filha de Elias, com José Nogueira, viúvo de sua esposa portuguesa. O interesse girava em torno da Sociedad Explotadora de Tierra del Fuego, fundada por Nogueira, e serviu de pano de fundo para nova união de Sara com José Menéndez, após o falecimento de Nogueira, em 1893. Herdeira da fortuna de Nogueira, em 1905 Sara Braun inaugura o palácio construído pelo arquiteto francês Numa Meyer como símbolo-mor do clã Braun-Menéndez e seu poder sobre as vastidões da Patagônia.

Em data incerta, estima-se que o marujo José Nogueira, natural de Vila Nova de Gaia, vizinha do Porto, tenha desembarcado em Punta Arenas em 1866, após aventurar-se pelo Rio de Janeiro, Montevidéu e Callao, no Peru.

Como Braun y Menéndez, pisou o chão da Patagônia sem capital nem outras posses. Porém, atento à movimentação de naves baleeiras inglesas, além de chalupas, das que saltavam legiões de homens armados com paus e escopetas para trucidar animais sobre o pedral do Estreito, sua perspicácia farejou um exelente negócio: a caça às focas e aos lobos marinhos.

É como lobero que Nogueira faz sua primeira fortuna, exportando para a Europa peles finas e azeites animais.

Estima-se que entre meados e final do séc. XIX foram chacinados à pauladas e tiros, mais de 300.000 lobos marinhos pelos caçadores ingleses, aos quais Nogueira servira antes de abrir seu próprio negócio.

O que o português certamente observara, mas dera de ombros, é que os animais constituíam a principal dieta marinha dos povos Ona e Yagán, que, desesperados, resistiam com seus arcos e flechas contra as armas automáticas do faunicídio.

Direto e feroz, o extermínio de Onas, Yagánes e dos Tehuelches, em terra firme, completou-se com o ciclo ovino. Milhões de ovelhas invadiam os pastos dos camelídeos nativos, como o Guanaco, subitamente cercados por arame farpado a perder de vista e reduzindo a pó e vento os rebanhos de carne dos povos originários.

Sem outra alternativa à inanição que derrubar as cercas e apoderar-se de alguma ovelha, agora Onas, Yagánes e Tehuelches tornavam-se objetos de caça das milícias de sicários contratados por Nogueira, Braun e Menéndez. Sua crueldade não desprezou requintes como a violação em massa de mulheres, o envenenamento de iscas de carne com estricnina e os fuzilamentos.

Caçador de ouro e índios, o imigrante romeno Julio Popper (vide foto) celebrizou-se como um dos comandantes do genocídio na Terra do Fogo em dezenas de documentos, mas sobretudo através da magistral novela “Corazón a contraluz”, do músico, poeta e escritor chileno, Patricio Manns.

Entre 1850 e 1916, foram executados a sangue frio 3.000 Yaganes e 3.500 Onas. Os poucos sobreviventes vegetaram em barracos da Igreja Salesiana da Ilha Dawson, usados em 1973 pela ditadura Pinochet como campo de concentração para altos funcionários do governo de Salvador Allende.

Conhecida como “a última Ona”, em 1966 faleceu na Argentina a xamã, cantora e contadora de estórias, Lola Kiepja. No entanto, muitos anos depois, durante a pesquisa para seu premiado documentário “El botón de nácar”, o cineasta Patricio Guzmán descobriu mais uma sobrevivente do genocídio em um pobre fiorde de pescadores do Chile: Cristina Calderón, cujo nome original perdeu-se no esquecimento.

Em uma cena sublime e enternecedora - The Pearl Button (El botón de nácar) - Language - a câmera focaliza a velha senhora produzindo um novelo de lã. Poderia ser uma metáfora do resgate da memória, que ela volta a desfiar, traduzindo para seu idioma nativo os nomes das coisas em espanhol.

É para ver e não parar de chorar.

18 dezembro 2016

Frederico Füllgraf - A Nebulosa de Magalhães - Um mini-conto cósmico


Miniconto

Depois que o fidalgo Fernão, a quem em terras castelhanas chamavam de Hernán, descobriu o Estreito no calcanhar do Novo Mundo, que leva seu nome, aprumou sua nau e tomou o rumo das Ilhas Molucas, das quais, sempre teimosamente, quis tomar posse em nome de El Rey. Mas os nativos não o deixaram – trituram-lhe o crânio com uma borduna. Magalhães não resistiu e nunca mais o viram em Portugal.

Após desencarnar, sua nau tomou direção desconhecida.

Quatrocentos e oitenta anos mais tarde, Fernão encontrava-se no umbral do Mundo das Luzes. 

Na passagem por Alfa Centauri, seu escrivão genovês, Pigafetta, despencara de estibordo em plena infinitude do Criador. Cheio de dor, a Fernão não restou outra que velejar sozinho. E então registrou em seu diário uma avistagem de tirar o fôlego. 

Distraído não se sabe por quê fenômeno celestial, repousou seu diário sobre o peitoril do convés, e ali o esqueceu. O diário também despencou no Cosmo, serpejando em direção a um grande Buraco Negro.

Captada por um possante radiotelescópio fincado nas escarpas do Valle del Elqui, nos Andes, a mensagem na página aberta dizia: “Este sol brilha mil, multiplicado por mil vezes mais do que nossa velha lamparina da Via Láctea. Sua luz cegou-me. Tudo são brumas”.

“Imagine-se a seguinte imagem”, escreveu ele: “Em Calicuta das Índias alguém suspende uma torrada com geleia diante de uma vela. No mesmo instante, mas em Portugal, mediríamos os restos das chamas da vela, sendo com isso capazes de determinar o tipo de marmelada que em Calicuta fora aplicada à fatia do pão!”

Fernão não sabia que sua velha nau, com rachaduras no madeirame e velas estropiadas, tinha navegado 150 mil anos-luz.

Sempre distraído, como naquela manhã, à entrada do labirinto da Terra do Fogo, agora acabara de descobrir a Nebulosa de Magalhães.






13 dezembro 2016

Frederico Füllgraf: Richter Sérgio Moro, die USA und der Angriff auf die brasilianische Demokratie


Brasilianische Wissenschaftler warnen die Universität Heidelberg. “Wir waren überrascht, als wir erfuhren, dass Sie und Ihre renommierte Universität Heidelberg den Bundesrichter Sérgio Fernando Moro, der von Ihnen als „Korruptionsbekämpfer“ bezeichnet wird, für einen Vortrag am 9. Dezember 2016 eingeladen haben. Die von Herrn Bundesrichter Sérgio Moro gefassten Entscheidungen haben nämlich dazu beigetragen, den Sturz einer legitimen Regierung erst zu ermöglichen und auf diese Weise hat er den schlimmsten undemokratischen Interessen gedient, wie wir hier zusammenfassend darstellen: …” So beginnt ein mehrseitiger Protest-Brief von rund 30 brasilianischen Historikern, Politologen und Juristen an Prof. Markus Pohlmann, vom Max-Weber-Institut für Soziologie der Universität Heidelberg. Von Frederico Füllgraf.

Auf Anfrage des Nachrichtenportals Amerika21 (Vortrag von Juristen aus Brasilien sorgt für Kritik an der Universität Heidelberg) antwortete Pohlmann, der in Brasilien als suspekt geltende Richter werde im Rahmen einer wissenschaftlichen Konferenz sprechen, auf der es sich um Korruption und Korruptionsbekämpfung drehe und unter anderem der Petrobras-Fall aus einer wissenschaftlichen Perspektive beleuchtet werde. „Da er als Bundesrichter mit dem Fall betraut war, wollen wir ihn als Experten dazu anhören“, so Pohlmann, obwohl ihm bekannt sei, “dass die politische Seite des Vorganges sehr umstritten ist”.
Die Einladung löste Proteste auf beiden Seiten des Atlantiks aus. Aus Mannheim erinnerte die Gewerkschaft Ver.di Pohlmann daran, dass Richter Moro mit unredlichen juristischen Methoden den mit den deutschen Gewerkschaften befreundeten Ex-Präsidenten Luis Inácio Lula da Silva zu kriminalisieren und inhaftieren versuchte.
In der gefüllten Aula der Universität fanden sich mehr als 400 Menschen zusammen, darunter zahlreiche Brasilianerinnen und Brasilianer, die aus dem südwestdeutschen Raum und selbst aus der Schweiz angereist waren, um gegen Moros Anwesenheit zu protestieren. Auch das von ihnen in Deutsch und Englisch abgefasste Flugblatt hinterfragte Moros Vorgehen: „Ist dieser in Brasilien zum Medienstar aufgebaute Bundesrichter ein glaubwürdiger Bekämpfer der Korruption? Wir sagen nein! Und viele Menschen in Brasilien mit uns”. Doch Anhänger Moros waren ebenfalls vertreten, Spannungen blieben nicht aus. Rechtsextremisten würden ihn gern als nächsten Präsidenten Brasiliens sehen, doch sollte er nicht wollen oder dürfen, dann eine “Militär-Intervention”, wie sie die Forderung nach einem neuen Militärputsch beschönigen.
“Transparency International“ und die Putsch-Akteure
Heidelberg war des Richters erster Auftritt in Deutschland. Wenige Tage zuvor hatte jedoch die in Berlin ansässige NGO “Transparency International” die Preisauszeichnung der von ihm geleiteten Einsatzgruppe “Unternehmen Waschanlage” als “weltgrößtes Unternehmen der Korruptionsbekämpfung des Jahres 2016” verkündet.
Wer die Medienbegierde des Juristen kennt, hat gute Gründe zur Annahme, nach seiner Beweihräucherung durch konservative US-Medien, wie das Time-Magazin, dürfen der Transparency-Preis und der Heidelberger Vortrag als Beginn einer Propagandaschau Moros nun auch in Deutschland gedeutet werden. Als Auftakt dazu diente bereits die Ausgabe vom 8. November des Manager-Magazins, mit dem Werbetext Korruption in Brasilien: „Operation Autowäsche“ aus der Feder des Heidelberger Moro-Amphitryons Markus Pohlmann.
Zu Transparency sei Folgendes angemerkt: 1993 von den ehemaligen, deutschen Direktoren der Weltbank, Peter Eigen und Michael Wiehen, gegründet, wird der umstrittene Korruptions-Watchdog u.a. von der Europäischen Union, vor allem jedoch von den US-Stiftungen Open Society und National Endowment for Democracy hauptfinanziert – die erstgenannte im Besitz George Soros´, die zweitgenannte als dem State Departement und den US-Geheimdiensten nahestehende, international handelnde Organisation. Beide wurden bekannt als Finanzierungsquelle und Ausbildungszentren paramilitärischer, faschistischer Verbände der Ukraine, die das Blutbad auf dem Maidanplatz anrichteten und den Putsch gegen Präsident Yanukovich herbeiführten. In Brasilien wird Transparency vertreten durch die NGO “AMARRIBO – Koalition gegen die Korruption”. Eine jener rechtsextremen, in gelbe Trikots der Fußball-Nationalmannschaft gekleideten Gruppen im Bundesstaat São Paulo, die seit 2014 in die Aufmärsche gegen Präsidentin Dilma Rousseff involviert sind.
Wer ist Sérgio Moro?
Als Nachkömmling eingewanderter, armer Bauern aus dem italienischen Veneto und Sohn eines Gründungsmitglieds der sich “sozialdemokratisch” nennenden konservativen Partei PSDB in der südostbrasilianischen, ehemaligen Kaffeeanbau-Gegend von Maringá, erhielt Sérgio Moro seine juristische Grundausbildung an der Universität Maringá. Mit einem Weiterbildungsprogramm für Rechtsanwälte an der Harvard Law School, knüpfte er frühzeitig institutionelle Verbindungen zu den USA, die zehn Jahre später in seiner Teilnahme als Gast des vom US-State Department gesponserten International Visitor Leadership Program (IVLP) gipfelten.
Diese Ausbildung für die Aufstellung von sog. Taskforces – Einsatzgruppen zur Bekämpfung der internationalen Wirtschaftskriminalität in Kombination mit George Bush Juniors “War on Terrorism” – boten ihm folgenreiche Kontakte zum FBI, der Justiz und US-Geheimdiensten (Behind Brazil’s ‚Regime Change – Consortiumnews, 3.4,.2016). Zu Beginn des neuen Milleniums qualifizierte sich Moro mit einer Promotion an der Bundesuniversität Paraná, wo er nebenbei seit 2007 als Professor für Strafrecht doziert.
So wie tausende Jura-Absolventen, die kaum eine Aufstiegschance auf dem überlaufenen Markt der Rechtsanwaltbüros gehabt hätten, entschied sich Moro für die Bewerbung zum lukrativen, sicheren und als unanfechtbar geltenden, deshalb seit zwei Jahrhunderten von den Eliten dominierten Richterstand.
Politisch befangen, moralisch unsolide
Moros wiederholte Beschwichtigung, er sei “parteilos” und handle als Richter “unparteilich”, ist unredlich. Seine Abneigung gegenüber der Arbeiterpartei (PT), umso mehr seine Nähe zur konservativen PSDB wird vielfältig belegt.
Am Vorabend seines Auftritts in Heidelberg war ein peinliches Bild (siehe Foto) des als Moralprediger auftretenden Richters der Trendsetter in den sozialen Netzwerken Brasiliens.
Der Fotograf überraschte Moro beim heiteren, allzu promisken Umtrunk mit Senator Aécio Neves, dem 2014 gegen Dilma Rousseff unterlegenen Präsidentschaftskandidaten der PSDB und seitdem militanten Anführer des parlamentarischen Putschs gegen die abgesetzte Präsidentin. Schlimmere Gesellschaft könnte Moro sich nicht ausdenken: der Politiker ist bekannt für Kokainsucht, Frauenmisshandlung und in vielfältigen Korruptionsskandalen involvierter, doch vom Justizapparat, inklusive Moros, bisher geschützter Straftäter.
Seine Nähe zur putschenden PSDB ließ sich längst davor nicht leugnen: Moros Ehefrau und Anwältin, Rosângela Wolff de Quadros Moro, war jahrelang tätig als Referentin von Flávio Arns, Vize-Gouverneur im Kabinett Beto Richa (PSDB), ein ebenfalls in Korruption und Geldwäsche involvierter, doch strafloser Gouverneur des Bundesstaates Paraná.
Wer nun die Privatperson Sérgio Moro mit der Latte seines öffentlichen Anspruchs auf Anstand und Unbestechlichkeit misst, wird enttäuscht davongehen: obwohl das brasilianische Gesetz den gegenwärtigen Richtersold auf maximal doch stattliche 37.000 Reais – umgerechnet ca. 10.000 Euro – festlegt, belegten brasilianische Medien, dass sich der Medienheld der Korruptionsbekämpfung mit Prämien- und fragwürdigen “Unkosten”-Berechnungen seit 2015 mehr als das Doppelte, nämlich umgerechnet 21.000 Euro auszahlen lässt (Salário do juiz Sérgio Moro em abril passou de R$ 77 mil – O Dia, 22.08.2015). Dass sich ausgerechnet der selbsternannte Rächer der geplünderten Staatsfinanzen einen Dreck schert um die Fortschreibung der Ausplünderung, ist ein Skandal. Mit 400.000 Beschäftigten verschlingt der obendrein ineffiziente Justizapparat im Vergleich mit Deutschland den vierfachen Anteil am Bruttoinlandsprodukt. Die von Dilma Rousseff abgelehnte, doch vom Obersten Gerichtshof noch während ihres Amtsenthebungsverfahrens vom Parlament abgenötigte, mehr als 35-prozentige Gehaltserhöhung für Richter und Staatsanwälte kostet den gebeutelten Staatshaushalt allein 2016 zusätzliche 7 Milliarden Euro.
Schließlich stellen sich Millionen Brasilianer die Frage, wie Sérgio Moro seine Umarmung, Vereinnahmung und Vermarktung durch die konservativen Medien – allen voran die Gruppe Globo, im Besitz von Brasiliens reichster Familie Marinho, die die Fernsehmassen zum Putsch gegen Präsidentin Rousseff antrieb – mit seinem Gewissen, insbesondere mit dem Primat der richterlichen Unabhängigkeit und Zurückhaltung vereinbart. Noch scheint die Eitelkeit des “Strebers” keine Grenzen zu kennen, doch könnte sie ihm bald zum Verhängnis werden.
Der Fall “Banestado”: Mega-Verfahren über 124 Milliarden US-Dollar eingestellt
Moros erster großer Fall war der Banestado-Skandal.
Entgegen der von den Medien kolportierten Behauptung ist nicht Petrobras, sondern nach fundierter Meinung von Fachexperten die Causa Banestado der größte Korruptionsfall Brasiliens aller Zeiten.
Banestado hieß die Landesbank des Bundestaates Paraná, deren Filialen in der Grenzstadt Foz do Iguaçu und in New York zwischen 1996 und 2003 von einer Schar brasilianischer Politiker und Unternehmen für Devisenflucht und Geldwäsche im Wert schwindelerregender 125 Milliarden US-Dollar benutzt wurden.
Es war der Skandal der Regierung Fernando Henrique Cardoso (1994-2002) und seiner Partei PSDB; die gleiche, die den Putsch gegen Präsidentin Dilma Rousseff anführte. Als angehender Provinzmagistrat mit Sitz im südostbrasilianischen Curitiba, war Banestado Richter Sérgio Moros erster bedeutender Fall – doch alles endete im Nichts.
Wieso es dazu kam, schilderten vor wenigen Monaten der Chefermittler, Staatsanwalt Celso Três, und Bundespolizei-Kommissar José Castilho einem brasilianischen Nachrichtenportal.
Castilho gelang es, die tausendfachen, illegalen Geldbewegungen nachzuspüren, die Namen der Geheimkonten-Inhaber zu dokumentieren und den Devisenschmuggler Alberto Youssef – den Richter Moro elf Jahre später als Kronzeugen gegen die Arbeiterpartei (PT) im Fall Petrobras benutzt – zu verhaften. Doch als der Polizist in New York neuen Hinweisen auf der Spur ist, wird er zwischen 2002 und 2003 überraschend nach Brasilien zurückgerufen, von der Mission entbunden, versetzt und seitdem kaltgestelllt.
Das Gleiche passierte Staatsanwalt Três. Er hatte das Bankgeheimnis tausender Kontoinhaber aufgehoben und war Hauptankläger im Fall Banestado. Als er mit Castilho auf die Namen der Mediengruppen Globo, Abril, RBS und Correio Braziliense gestoßen war, “standen wir plötzlich vor einer Wand”, gesteht er.
Auch Três wurde versetzt, rettete aber, wie Castilho, eine komplette Kopie der Prozess- Akten, in die er gern Journalisten einblicken lässt. “Es konnte niemals Recht gesprochen werden, weil hochgestellte Beamte der Cardoso-Regierung involviert waren. Außerdem wurde ein Teil des schmutzigen Geldes für die Wiederwahl Cardosos benutzt und die Ermittlungen von der Zentralbank, der Regierung und der Polizei regelrecht behindert”, fügt der Staatsanwalt mutig hinzu.
Richter Moro ließ das “Fußvolk” wegen des Verbrechens verhaften, doch die Hauptschuldigen blieben bedeckt. Wegen “mangelnden Beweisen” stellte der Richter das Verfahren 2007 ein.
Aus Protest gegen die Straflosigkeit der Elite ging Polizeikommissar Castilho zum Fernsehen und schwang die Akten vor laufender Kamera. Das war das Ende seiner Karriere.
Der Fall Banestado bescherte Moro mehrere Dienstaufsichts-Beschwerden, die erst im Jahr 2013 vom Obersten Gerichtshof verhandelt wurden. OG-Richter Celso Mello rügte Moros Hang zum autoritären Auftritt und der Verwechslung des Richteramts mit dem des Anklägers.
Moros Verbindungen zu den USA
Seit März 2004 ist bekannt, dass die brasilianische Bundespolizei vom US-amerikanischen FBI finanziert wurde und sie deshalb unterwandern und steuern durfte. Die konspirativen Machenschaften gegen das Gastland Brasilien bestätigte der aus Portugal stammende und vier Jahre lang an der US-Botschaft in Brasília akkreditierte Ex-FBI-Agent, Carlos Alberto Costa, in einem brisanten Interview mit dem brasilianischen Wochenmagazin Carta Capital (“A hora da autópsia”, 24.03.2004).
Ende der 1990er Jahre, während der Administration F. H. Cardoso, hatten die USA Brasilien zur Unterzeichnung eines polizeilichen Kooperationsabkommens überredet, das das FBI mit weitreichender Überschreitung seiner Kompetenzen für Spionage gegen die brasilianische Regierung, der Ausbildung und finanziellen Kontrolle ihrer Bundespolizei und der Rekrutierung von Journalisten nutzte.
Die wichtigste Mission Costas bestand jedoch im Aufbau brasilianischer Taskforces, Einsatzgruppen nach FBI-Vorbild, wie sie ab 2014 spektakulär im “Unternehmen Waschanlage” von Richter Moro auftreten. “Die brasilianische Bundespolizei gehört uns. Wer die Rechnungen zahlt, befiehlt – Punkt!”, verspottete Costa die Unterwanderung und finanzielle Aushaltung der “Polícia Federal” mit zig Millionen US-Dollar-Überweisungen auf Privatkonten einzelner Polizeikommissare. Doch nicht nur das FBI, “auch andere Organe des US-counter-intelligence” hätten die brasilianische Bundespolizei “gekauft”, versicherte der Agent.
In den folgenden Jahren verstärkten die USA ihren Druck auf die Regierung Lula, nun auch die Staatsanwaltschaft und den Justizapparat dem Taskforce-Modell von FBI und CIA anzupassen und der “War on Terror”-Strategie der Bush-Junior-Administration beizutreten. Als die Offensive auf die tauben Ohren von Lulas Außenminister Celso Amorim stieß, machte sich das State Department daran, Staatsanwaltschaft und Justiz mit der Rekrutierung junger Juristen zu unterwandern.
Seit März 2016 ist dank Wikileaks bekannt (Cable: 09BRASILIA1282_a – WikiLeaks), dass das State Department entsprechende “Ausbildungskurse” in den USA, auch in Brasilien abhielt. Einer ihrer führenden Zuhörer seit 2009 ist Richter Sérgio Moro, der die zweite Etappe der Taskforce-Formatierung der brasilianischen Staatsanwaltschaft und Justiz nach US-Vorbild im “Unternehmen Waschanlage” exemplarisch personifiziert.
Der Angriff auf den Rechtsstaat
In ihrem Brief an Prof. Pohlmann, Moros Amphitryon an der Uni Heidelberg, warnen die brasilianischen Juristen, darunter der an der Ruhr Universität Bochum promovierte, letzte Justizminister Rousseffs und amtierende Oberbundesanwalt, Dr. Eugênio Aragão: “Wir weisen darauf hin, dass die Ermittlungen und Strafverfahren von “Unternehmen Waschanlage“ nachweislich von vielerlei Missbrauch, zahllosen Rechtswidrigkeiten und einer enormen politischen Befangenheit des Herrn Richters Sérgio Moro gegen die brasilianischen Regierungen der vergangenen 13 Jahre, doch allesamt zugunsten des rechten politischen Lagers gekennzeichnet sind”.
Zu den aus Platzgründen von den Unterzeichnern nicht aufgelisteten Amtsmissbräuchen und Rechtswidrigkeiten Moros gehören jene vom FBI und US-Geheimdiensten übernommenen spektakulären Festnahmen von Angeklagten, deren mediale Ausstellung in Handschellen wegen angeblicher “Fluchtgefahr”, die “Zeugen-Vorbereitung” (FBI-Jargon) – man lese “Weichmachung” – mit monatelanger Vorbeugehaft, die Androhung hoher Haftstrafen und Erpressung von Kronzeugen zum Verrat, die systematische Zuspielung von Prozessvorgängen, vor allem Mutmaßungen, an konservative Medien, mit dem Ziel der politischen Massierung der Öffentlichkeit, und schließlich unvertretbare Haftstrafen, wie die skandalumrankte Verurteilung des Vizeadmirals und Atomprogramm-Chefs Othon Pinheiro zu 40 Jahren Haft in einer eher bescheidenen Schmiergeld-Affäre, die den seit Jahren vom NSA ausspionierten brasilianischen Kernenergie-Konzern Eletronuclear zum Erlahmen brachte.
“Richter Sérgio Moro verfolgt offenbar nur ein Ziel”, so der Brief an Prof. Pohlmann, “den Ex-Präsidenten Luis Inácio Lula da Silva zu verhaften. Im März 2016 verfügte er seine illegale Zwangsvorführung. Die Sache wird derzeit vom Menschenrechtsausschuss des International Covenant on Civil and Political Rights, ICCPR (internationaler Pakt über bürgerliche und politische Rechte), untersucht”.
Die Unterzeichner erinnern daran, dass Moro abgehörte Telefongespräche zwischen Ex-Präsident Lula und Präsidentin Rousseff wenige Stunden vor Lulas Ernennung, im März 2016, zum Kabinettschef Rousseffs illegal veröffentlichte und damit deutliche politische Zwecke verfolgte. “Die kriminelle, weil rechtlich untersagte Weitergabe der Abhörprotokolle und deren Ausstrahlung durch die Mediengruppe Globo lassen keinen Zweifel an der Parteilichkeit des Bundesrichters”, geben die Brasilianer der Universität Heidelberg zu bedenken.
Und sie warnen: “Sehr geehrter Herr Prof. Dr. Pohlmann, viele andere Einzelheiten würden nicht in diesen Brief passen, aber jeder von uns wäre bereit, Sie mit Dokumenten zu erhellen. Die prominenteste Leistung des Richters Sérgio Moro war sein entscheidender Beitrag zum parlamentarischen Putsch, der im August 2016 im Sturz von Präsidentin Dilma Rousseff gipfelte. Im Bündnis mit einschlägigen Medienzaren Brasiliens, der Justiz und der Bundesstaatsanwaltschaft, hat Sérgio Moro es fertiggebracht, die brasilianische Demokratie zu besiegen. Sie schafften es, in Brasilien ein Klima der politischen Intoleranz und des Faschismus zu installieren. Sie selbst, Prof. Pohlmann, sowie alle von uns, die diesen Brief unterzeichnen, wissen, wie die Justiz für den geeigneten Schein der Legalität und der Verfolgung politischer Gegner umfunktioniert und missbraucht werden kann”.

Publicação original: 

Richter Sérgio Moro, die USA und der Angriff auf ... - NachDenkSeiten

08 dezembro 2016

Frederico Füllgraf - Isabelle Eberhardt, a vagabunda europeia convertida ao Islã (Parte 1)


Ensaio


"Aqui, nestas areias, eu te sepulto, te deixo para trás, menina triste de Genebra!".
Pensa isso e lágrimas lhe escorrem pelo rosto esturrado por vento incandescente e golpeado pela areia.

Sou marcada por um estigma - balbucia: - Jamais estive segura de quem é meu verdadeiro pai – se Vava, ou se... Oh, Nathalie, minha mãe, por que nos lançaste na desonra?

Solilóquios muito prováveis, sobre a corcova de um camelo, de Isabelle Eberhardt, a “amazona enigmática do Saara”.

O camelo trota na cadência preguiçosa do vento, Isabelle faz sua viagem de retorno ao passado.

"Adotei um sobrenome, não por ser teu, mas de tua mãe, minha Oma alemã, amada e distante. Fuga da Rússia, anos de desvario na Suíça e Itália. Deste-me um preceptor que era teu próprio amante. Aprendi latim, francês e alemão, árabe, física e astronomia, mas também o medo. E vontade de fugir daquele monge russo, demente, que nunca me reconheceu como filha sua. E não a sou - não é mesmo, Nathalie? Sei que jamais me responderás, levaste o segredo contigo para a tumba, no cemitério em Bône. Sobre tua lápide escrevi “Fathima-Manubia”, pois eras conversa como eu. Mas encontraste a tua paz, mãe? A minha, roubaste-me: como não varar noites em vigília, movendo-me em becos, escadarias, mansões de Genebra e Gênova, perscrutando alcovas em busca de minha filiação?".

Entre desfiladeiros e dunas, estende-se, infinito, o oceano de areia, incendiado por sol áspero, impiedoso.

São indecorosos estes excessos de luz!

Disfarçada de berbere, vestindo anchasgandouras burnus, brancos, que lhe escondem as inconfundíveis curvas femíneas, e um umara, que oculta seus cabelos loiros, uma mulher, que não é nativa, cavalga, solitária, no deserto. 

A confusão em torno de sua identidade produz desconcerto, levanta suspeitas na fronteira tunisiano-argelina: - Voilá, le monsieur é uma mademoiselle! - zombam de seu travestimento.

Travestimentos

Vestida de beduí, apresenta-se como ”Si Mahmoud Saadi”, que é portador - "Ou devo dizer:´portadora´?", alfineta o legionário do posto de fronteira - de um passaporte russo em nome de “Isabelle von Moerder”. 

Mais difícil que imaginar uma europeia viajando “somente por prazer”, como disse, por esses ermos mortíferos, é aceitar diante de si um hermafrodita em carne e osso – a não ser que ... - Espiã? 

Ora, capitain, o grande segredo deste deserto habita ali! - diz zombeteira, ”Si Mahmoud Saadi”. 

E acompanhando seu indicador, que aponta para as alturas, deixam-na seguir.

Estranhas sonoridades essas, de uma “legião estrangeira” nas fronteiras do Levante, que está apreendendo a odiar – e pensar que Nicola e seu amado Augustin são legionários! 

Observa os altivos tuaregs, em cujos olhos claros, que espreitam da fenda de seus umaras, por instantes parece faiscar a mirada furtiva daqueles Vândalos germânicos, que cruzaram Gibraltar após a queda de Roma, instalando-se em Cartago. 

Repousa sobre eles um olhar de intensa penetração, ainda distraído por algum exotismo, que vai se diluindo, dando lugar a uma compaixão da revolta. 

Não apenas defenderia a causa destes fellahs nativos, árabes e kabyles, contra os colonizadores: sente desejo de unir-se a eles em plano espiritual. 

Seguir aos humilhados e oprimidos é o que gostaria de fazer. Se necessário for, até a morte, na trilha ao encontro de Alá, O Misericordioso. 

E eles seriam os heróis de sua saga.

Roupas de homem! A recordação lhe rouba um sorriso fugidio: por medidas de economia, na infância vestia as roupas de seus irmãos, de preferência as de Nicola e Augustin, com as quais amava desfilar e exibir-se nas ruas de Genebra. 

Androginia? 

Ora, por acaso não fora educada como um menino, não se furtando a partir lenha com o machado, subir em árvores com os garotos? 

Talvez seja esse o motivo dessa mania de vestir-se com prendas masculinas. 

Numa foto de 1895, dois anos antes de embarcar para a Argélia, ela veste um traje de marinheiro. Sua expressão de adolescente ainda não perdera a inocência: mirada severa, de grande beleza, pômulos ligeiramente pronunciados, lábios carnudos. E sob a gorra, o cabelo cortado à escovinha, invadindo a fronte ampla - um golpe de vista rápido, e seu rosto lembraria a beleza ao mesmo tempo deleitosa e efeminada do "poeta ladrão", comentam alguns do fogo". O curioso é que, quando se veste de mulher, parece um jovem disfarçado. Isto a confunde, a faz sofrer. Já com os atavios beduínos é inteiramente ela mesma.

Jean-Nicholas Arthur

No tremeluz do horizonte em chamas, aproxima-se uma caravana, depois um comboio militar. 

Os homens saúdam Si Mahmoud, ela responde, jovial. Depois volta às contas: segundo sabe, desiludido com a Comuna, em maio de 1875, Jean-Nicholas chega a Milão, onde uma dama apiedada o teria acolhido – quem foi? No verão, Jean-Nicholas tenta visitar um amigo nas ilhas Cícladas, lá sofre uma insolação e é repatriado para a França pelo cônsul francês de Ligurno. Conta nos dedos: chegando de Hamburgo, em 1876, Jean-Nicholas esteve às margens do lago Léman, de onde, via Gênova, partira para Alexandria - Al-Eqsandría, soletra, brincalhona, em árabe. 

Nasci em ´77, então poderia ter acontecido em ´76. Mas: e Verlaine, eles não...?

Deserto - o céu varrido de nuvens, seus olhos tentam evitar as torrentes de luz cegante. 

É muito digno, mas também assustador esse Magreb, voz moura que significa “lugar onde se põe o sol”, a parte mais ocidental do Mundo Árabe, onde o Levante se chama Mashreq

Pensando em voz alta, surpreende-se, ditando apontamentos para seu diário: - Aqui, o Saara, adverso e silencioso, com sua melancolia eternal, seus rompantes e seus encantamentos, conservou com ciúme a raça sonhadora e fanática, que partiu de longínquos desertos de sua pátria asiática. E feitos assim, são muito grandes e belos os nômades assim vestidos, e de atitudes bíblicas, que querem devotar-se ao Deus único...

O Saara é o destino de uma fuga. E de exílio. Isabelle chegara em busca do equilíbrio. 

Parece paisagem feita na medida de uma religião, ou vice-versa. 

Evocando a revelação, a transfiguração, a terra se apresenta esbraseada pelo impacto de uma crença religiosa: ”como se os afloramentos rochosos e o ressequimento da paisagem resultassem não dos rigores do clima, da erosão, mas de um gigantesco incêndio movido por uma fé em chamas”, diz Ernest Renan, historiador e filólogo francês em "Histoire générale des langues sémitiques". 

Esta imensidão ondulada não poderia ser um oceano de águas, panteão de muitos deuses e mitos, como na Grécia. “O deserto é monoteísta”, diz Renan, “sublime em sua imensa uniformidade, ele não se poupa em revelar ao homem a ideia do infinito...”. 

É também por isso que a bandeira do Islã é verde: o paraíso só pode estar localizado onde brotam os mananciais e onde farfalham as tamareiras; de oásis em oásis chega-se ao grande mar.

Contudo, em sua vastidão incontida, o deserto é também libertação, desnudamento, afloração de desejo. E é preciso que se diga: uma romantização tão insistentemente figurada por ocidentais. 

Fatas morganas dançando sobre as dunas, é quando assaltam-na os fantasmas de Túnis. 

Tentando mimetizar-se com a gente e a paisagem, ela o tem feito de modo literal. Enquanto à luz do sol, no fervor religioso desvanece sua condição feminina, à noite traveste-se, transmuta-se, submerge no labirinto dos cafés e prostíbulos da casbah: amparada em seu disfarce masculino, e ébria de cânhamo do kif, de licor ou palavras, primeiro observa os homens, depois os seduz, até a revelação de sua androginia.

Cavalgadas noturnas

Fêmea sempre ardente, ela arrasta-os até o leito, abrindo-se feita concha aos trancos da maré. 

Nesses momentos um estranho gotejar religioso reverbera nas próprias torrentes de seu corpo – acaso sir Richard Francis Burton, o embruxado viajante de Torquay on Devon, não se acasalara com uma prostituta do templo indiano, nas ruelas cloacinas e repugnantes de Baroda, até a embriaguez dos sentidos?




Arrepiada pela posse de suas ancas de alabastro, sente-se duna partida em duas pelo açoite do vento... E sobe e desce, enraizando-se na corcova de um camelo imaginário. Montaria dócil, mas fogosa, re-aninha-se, submete-se ao macho de duras falas, turcas ou árabes, cavalga e deixa trepar-se, noite adentro, até a derradeira, extática sacudidura de seu músculo famélico, que rejeita a mera brisa, que necessita de tempestades e rebentação, até alcançar a praia na pequena morte, inundada de maresia e estrelas. 

- Ah, Flaubert, Burton, e seus Orientes como território imaginário da erotização ilimitada!

Mas então estremece com a lembrança. 

Na sela do cavalo escreve: ”O que mais dano me causa, é a prodigiosa mobilidade da minha natureza e a instabilidade realmente desoladora de meus estados de ânimo, que se sucedem uns aos outros com rapidez jamais vista. Isso me faz sofrer e não conheço remédio melhor que a muda contemplação da natureza, longe dos homens, cara a cara com o grande Inconcebível, único refúgio das almas desamparadas […]”

Quer muito, mas não consegue esquecer Genebra, onde nasceu sob o signo nefando da ilegitimidade, da falta de chão. É filha de mãe aristocrática, alemã e luterana, há séculos arraigada no Báltico, que se casara com um general viúvo, com importantes cargos imperiais na Rússia czarista, a quem, antes dela, dera dois filhos e uma filha.

O monge anarquista

E o infortúnio instalara-se em suas vidas naquele dia infausto em que Pavel Karlovitch, o marido de sua mãe, introduzira em seu palácio Alexander Vava Trofimowsky como preceptor da esposa e dos filhos. 

Ex-monge ortodoxo armênio, convertido ao islamismo, mal-temperado com algum anarquismo, Vava não demorou em "socializar" a esposa do patrão.

Dissimulando doença, Nathalie precipita-se para Genebra, onde recém-chegada, dá à luz a Augustin; o quarto filho a criar além dos três trazidos de São Petersburgo com seu tutor. 

Pavel Karlovitch morre quatro meses depois, fulminado por um ataque cardíaco; mas não sem antes receber a generosa anuência de Vava, adepto do amor livre, para um “coito misericordioso” com sua esposa infiel. 

Sentindo-se desonrada, a traidora nunca mais retorna à Rússia. Quatro anos mais tarde, dá novamente à luz: Isabelle-Wilhelmine-Marie, registrada como filha "ilegítima". Mas por que? Por acaso para proteger a identidade do pai anônimo – o anarco-muçulmano?

Os Rimbaud na Argélia

Era o que Nathalie, sua mãe, insinuava, torturada pela dúvida: coabitando com Vava, jamais poderia admitir sua aventura com aquele jovem belo e selvagem de apenas vinte e dois anos, que lhe fora apresentado em julho de ´76 – “outro errante, de corpo e alma ambiláteros”, tentava justificar-se. 

Seu pai, um capitão de infantaria francês, participara entusiasmado da conquista da Argélia, sendo recompensado como oficial de administração em Sebdu, região de Orã. Espírito erudito, legara várias obras (que se perderam), entre elas uma tradução do Alcorão. Profissional da guerra, também abandonara a família. Fora tanta a dor, que Vitalie, sua esposa, o proibira de ver os filhos; frutos, todos, de fugazes obrigações durante as licenças do capitão. Vitalie, a primogênita, fenecera precocemente aos dezessete anos. Em 1854, viria ao mundo Jean-Nicholas, seis anos mais tarde, sua irmã Isabelle, sua grande confidente, que o assistirá em seus derradeiros dias. 

Trofimovsky, o cura ortodoxo, dublê de alcoranista e anarquista, costumava demorar-se em viagens à Rússia, e quando fora tratar da herança deixada pelo general Karlovitch, Nathalie dera à luz a Isabelle. O que ela não lembra, é se Vava já se ausentara quando ela se entregara a Jean-Nicholas... Outra coincidência perturbadora: Jean-Nicholas e sua irmã Isabelle, também eram furiosamente apaixonados um pelo outro.

Durante a cavalgada penosa e solitária a caminho de El Oued, surpreende-a uma pequena caravana tunisiana, em missão de sindicâncias e arrecadação do medjaba, o imposto cobrado aos homens. Seu chefe é Si Elarhby, jovem califa de Monastir, acompanhado de dois velhos tabeliães árabes e um destacamento de soldados espahís, nativos. Espontaneamente, como é de sua têmpera, Isabelle une-se a eles como "escrivã": “ele o faz por dever, eu [viajo] por curiosidade”, anota em sua crônica, encomendada por um jornal.

O claustro de valores islâmicos que contracena com sua desordem afetiva, sentimental e estética, ameaçam explodi-la. O mundo exterior a atrai feito fruto selvagem. 

Como maneira de exorcizar seus demônios, começara a escrever, traduzindo para o francês os versos do poeta russo, Nadson, encorajada por intelectuais árabes, como Abou Nadara, que dirige uma revista em Paris. 

Numa carta enviada de Annada a um amigo, anos depois, Isabelle desvela sua motivação para a escrita, ingênua como suas crenças: "Escrevo porque gosto do processo de criação literária. Escrevo do jeito que amo, provavelmente porque esse seja meu destino. E é meu verdadeiro consolo". 

Um grande projeto literário vai assomando em seu horizonte, na verdade uma novela autobiográfica, provisoriamente intitulada ”Trimardeur” – vagabundo. Antes dele, porém, quer publicar “Escritos no Deserto”, mas faltam-lhe mais impressões de viagem.



Ilustrações: Divulgação

Leia mais: Parte 2: http://fuellgrafianas.blogspot.com/2015/01/frederico-fullgraf-isabelle-eberhardt.html