17 dezembro 2015

Frederico Füllgraf - A história perversa do biquini

Mosaico Dieci Ragazze, Villa Romana del Casale, Sicília - séc. III DC


Ensaio

Um ano depois do silêncio das armas da II Guerra Mundial, Louis Reard, estilista francês, teve o que a infiltração anglicizante do nosso vernáculo chama de insight: lançaria uma peça de vestuário de encher os olhos com as prendas do corpo feminino: curvas, saliências, altiplanos e vales, preservando, s´il vous plais!, as fagueiras e vaporosas vergonhas venusinas. 

Discreto, passou madrugadas em vigília, desenhando maquetes de seu invento revolucionário, mas sentiu que lhe faltava um nome forte com apelo exótico. Eis que, em julho de 1946, faltando quatro dias para o lançamento da nova criação, explodem as bombas atômicas “Baker” e “Abel” no Atol de Bikini, centro do Pacífico Sul, e de bandeja os EUA oferecem a Reard o nome que rasgaria a boca do balão, do jeito que as bombas tinham rasgado ao meio o atol – la mode du terreur!

A aventura nuclear de Antony Guarisco

Deparei-me com esta estória intrigante anos atrás, durante a pesquisa para o roteiro do telefilme Burning Sand, para o qual tinha entrevistado em Nova York, Antony Guarisco, marine norte-americano durante os testesa nucleares no Pacífico, que em 1987 liderava o movimento nacional dos Atomic Veterans. 

Desde a década dos anos 70, estes soldados reclamavam reparações dos sucessivos governos em Washington - reparações pela morte de aprox. 200 mil veteranos que participaram dos testes nucleares entre as décadas de 1940 e 1960, porque tinham sido enganados pelas autoridades, forçados a assinar “salvo-condutos”, cheques em branco, isentando o Pentágono de “todas e quaisquer responsabilidades por eventuais danos à saúde”. A malícia infernal já estava subentendida na própria declaração, mas os rapazes assinaram; alguns por patriotismo, outros por ingenuidade, outros ainda por esdruxularias equivalentes.
42 mil marines norte-americanos usados e irradiados como ratos de laboratório
durante os testes no Pacífico
A sound of frying eggs was in the air and for minutes I could see my own 
bones trough the flesh of my hands.. – um som de ovos fritos crispava o ar 
e por minutos pude ver meus próprios ossos através da carne da minha mão …” 

 
Campanha por reparações: Antony Guarisco diante 
da Corte Internacional de Justiça, Haia.

Quando conheci Guarisco, ele já se arrastava pelos corredores do hotel apoiado numa bengala, os ossos triturados pela doença terminal que matara a maioria de seus camaradas. Impossível esquecer sua frase dirigida para a câmera, com seu testemunho sobre a explosão da bomba Baker, no atol de Bikini: “A sound of frying eggs was in the air and for minutes I could see my own bones trough the flesh of my hands.. – um som de ovos fritos crispava o ar e por minutos pude ver meus próprios ossos através da carne da minha mão …”. 

Um dos navios que se vê ao largo, literalmente foi aos ares, por segundos suspenso no céu, devido à onda de pressão da explosão da bomba, detonada 30 m abaixo da superfície da água.

A cena de terror fora vivida por Guarisco e seus companheiros numa praia do Atol de Bikini, sem proteção física alguma contra o “grande raio-X”, o eclipse da luz e das trevas. O objetivo da missão era “testar as condições de combate da tropa após um ataque nuclear soviético" (sic!)

Ficção? História, e das escalafriantes! 

Nunca mais vi Guarisco. Há poucos anos liguei para sua esposa e soube que ele tinha morrido de leucemia.

Revisionismo atômico

O filme, com financiamento inicial do Film Office Hamburg e roteiro premiado pela finada Embrafilme, baseado em meu livro A bomba pacífica (Brasiliense, 1988), há anos aguarda conclusão, porque a Fundação do Cinema Brasileiro pagou apenas a primeira parcela do contrato e literalmente afundou em 1989. Depois, a Guerra Fria deixava de ser fashion, as usinas nucleares e seus gêmeos siameses, as bombas, também atômicas, caíram em desuso em escala global, e a estória do filme mofa no limbo. Mas talvez o projeto seja salvo pelo gongo da História, melhor: por sua versão Bonapartista, aquela, cuja repetição Marx tão espirituosamente chamou de farsa. É que o fogo fátuo da Guerra Fria se reacende com a desconfiança ocidental do programa nuclear do Irã (o de Israel obviamente é tabu), mas também porque, atento às graves alterações climáticas e a desesperada busca por fontes geradoras de energia de baixo impacto ambiental, um poderoso lobby (l´escroquerie nucleaire, como diz um amigo gallo-romano) arma esperto revisionismo histórico dos perigos das instalações nucleares, agora vendidas ao distinto público como “as menos poluentes e mais seguras”.

Esse revisionismo fez a cabeça de nosso ex-timoneiro, Luis Inácio Lula da Silva, e sua então Ministra da Energia, hoje sua sucessora plenipotenciária. Como é sabido, aprovou-se a conclusão de Angra-3 e a construção de outras seis usinas nucleares. Dizem línguas afiadas que o Brasil precisa de assento no Conselho de Segurança da ONU, onde meras usinas nucleares rimam com bombas. Mas, o que interessa aqui, é que das seis usinas planejadas, duas ou três operarão no litoral do Nordeste – cujas praias badaladas nos remetem novamente à iluminação de Louis Reard.

Relação macabra

Nos anos 1950, a relação macabra entre a fonte inspiradora e o trapinho homônimo – a bomba e o biquíni – repercutiu desfavoravelmente para Reard. Mas argumentando pela tangente, ele afirmou que havia emprestado o nome do sumário traje de banho ao atol, e não à bomba. A verdade é que ele tirou enorme vantagem dos testes com a arma terminal, cuja devastação parecia pescar no inconsciente coletivo fantasias associadas ao imperativo histórico de uma urgente devastação da moral vitoriana. Com a reprodução em algodão, de fac-símiles da cobertura de imprensa sobre os testes nucleares, Reard promoveu um marketing literalmente bombástico.

 
 
Acima, à direita, Louis Reard; à esquerda, Brigittte Bardot;
embaixo, fio dental: a deserotização pelo escancaramento

Mas o inventor do biquíni necessitava de um trunfo adicional, pois outro francês, Jacques Heim, havia chegado às passarelas com uma criação semelhante – a do maiô partido em dois, assumidamente batizado de “L’atome”. Reard contra-atacou, promovendo seu biquíni como “o traje menor que o mundialmente menor dos trajes”, e ganhou a guerra dos nomes e das torcidas. 

Se Reard conhecia o mosaico Villa Romana del Casale, apropriou-se da fonte de inspiração sem jamais revelá-la, porque o biquíni de fato não foi sua invenção: o traje já era usado pelas moças sicilianas no séc. III DC.



Economia e libido

Contudo, garimpadas nas lixeiras da História as segundas intenções, eis que uma insólita explicação econômica parece varrer todo o encanto, substituindo nossas fantasias por fatos da fria economia. 

O pano de fundo histórico do biquíni, que aqui funciona como perfeito trocadilho, foi a falta de pano para a confecção de fundilhos. 

Em 1943, em plena II Guerra Mundial, o governo norte-americano obrigou a indústria têxtil ao racionamento de matérias-primas, provocando a redução de 10 por cento de algodão na confecção de trajes de banho femininos. 

O resultado desta operação militar foi uma espécie de “ventre livre” patriótico para o corpo feminino, e foi Reard quem lhe daria a forma no Velho Continente. Sua inovação mercadológica consistiu em reduzir o traje para 30 polegadas de malha, desmembradas em bustier top e um triângulo invertido, down, conectados por um cordão. O biquíni de Reard era tão sumário para a moral da época, que nenhuma modelo parisiense ousou subir à passarela.

Nos EUA, certa “Liga pela Decência” pressionou os produtores de Hollywood para banir o biquíni das telas. Porta-vozes da cruzada vitoriana questionaram a reputação das moças convertidas à moda, afirmando que “o biquíni revela tudo no corpo de uma mulher, menos o nome da mãe dela “. Como eram amáveis as madames 

Impávido, Reard manteve a classe e a ousadia a serviço do marketing, contratando Micheline Bernardini, em cuja cabeça e corpo o biquíni caiu como uma luva, pois atuava como dançarina de nus no Cassino de Paris: após uma sessão de fotos dela em poses reclinantes, a imprensa ajoelhou-se diante dela, embasbacada, e a musa foi soterrada sob uma avalanche de 50 mil cartas de fãs ensandecida/os.

Mas la Bernardini não foi capaz de impor a capitulação aos vitorianos EUA. Desesperado, melhor: de olho grande no mercado yankee, Reard incorporou a carta do eremita do tarô, e teve seu segundo insight: uma femme fatale mal conhecida por “BB”- a estreante Brigitte Bardot. 

Deslocou para o campo de batalha sua mal disfarçada inocência de "E Deus fez a mulher", acentuada pelo trapinho, et voilá! 

O biquíni precisava de curvas para ser valorizado, e BB impôs a queda das últimas barricadas norte-americanas. Entrava em cena em Hollywood o vitorioso trapo que matava a cobra e escondia o… principal. 

Das passarelas para a tela e o vinil, foi um passo. O biquíni foi cantado em prosa e verso, imortalizado no rock de Brian Hyland, do final dos anos 50, “Itsy-Bitsy-Teenie-Weenie/Yellow-Polka-Dot Bikini”.

A empresa de Reard conseguiu manter-se no mercado até 1988. Uma versão sobre os motivos de seu fechamento insinua que Reard perdera a guerra pela miniaturização para o fio-dental brasileiro; aberração, vingança dos inventivos trópicos e golpe fatal nos planos do estilista.

Cinqüenta anos depois é oportuno indagar se a vinculação proposital do maiô partido em dois com a arma de extermínio em massa, não abriga códigos de significados convergentes. 

O primeiro deles é a “onda Shumpeteriana”: em conjunturas de abertura democrática e crescimento econômico, a moda (e a libido) abre-se, liberando o corpo do “supérfluo” (no inconsciente coletivo pós-guerra, masculino, era enorme a demanda pela “abertura do pano” sobre o corpo feminino). 

O segundo, é seu significante profundamente pós-moderno: a visão de Reard é a alegoria do êxtase ilimitado, cujo pêndulo sempre oscila entre Eros e Tanatos, entre o prazer e a morte – o signo marcante de toda a cultura iconográfica e moda militarizadas e ferozmente midiatizadas neste início de Terceiro Milênio.

Por fim, uma pitada de pimenta tupiniquim: as bombas atômicas norte-americanas lançadas sobre o paradisíaco atol de Polinésia – imortalizado nos quadros de Paul Gauguin – foram construídas, durante e depois da 2ª Guerra Mundial, com matéria-prima brasileira: milhões de toneladas de areia monazítica, contendo urânio e tório, das praias de Guarapari, no Espírito Santo, Mãe Ubá e outros costões do sul nordestino. Quem aguardar o filme, verá.

 
(Ilustrações: Bikini Atoll.com; Villa Romana del Casale)
Recomendado:
BIKINIS AND BOMBS A Senior Project Exhibition, 
The Library Art Gallery at the Florida Gulf Coast University

2 comentários:

Ana Luisa Kaminski disse...

Excelente ensaio, muito interessante e rico o entrelaçamento e trânsito das ideias entre várias áreas do conhecimento, com cruzamentos e passeios pela História, pela Economia, pela Psicanálise. Grata por partilhar, caro amigo Frederico. Abraços alados.

Frederico Füllgraf disse...

Obrigado, cara Ana Luísa,muito amável!