15 junho 2017

Frederico Füllgraf - O dia em que a V-2 de Hitler caiu em Ciudad Juárez

Excerto de "O caminho de Tula"
romance em construção

Naqueles dias de deambulações de Albert George pelas ruínas de Nassau, ocorria um episódio insólito no deserto do Novo México, do outro lado do mundo.
Porfírio Contreras, capataz de uma herdade localizada junto à fronteira com o Texas, tem a prova de que foi o dia 29 de maio de 1947, porque se percebendo a distância segura, apeara de seu cavalo, e com a ponta de seu punhal, que levava embainhado às costas, entre o cinturão e as ceroulas, no lado esquerdo inferior da cela de couro gravara a data daquela aparição, para que no futuro nem seus netos duvidassem do que vira!
Contou-me Contreras que, enquanto cavalgava de volta à estância, vaquejando mil e quinhentas cabeças de boi com seus peões, foram surpreendidos pelo bramido ensurdecedor de um objeto voador com forma imprecisa, mas apetrechado com aletas, e que a baixa altura, estimada em quatrocentos pés, descrevera uma elipse sobre suas cabeças, desaparecendo por trás de uma quebrada, de onde logo os alcançara o estrépito e a restolhada de ferros retorcidos. 

Ajuntou o mayoral que a primeira reação de seus homens foi perguntarem-lhe se depois de roubarem o Texas, o Novo México e o Arizona, desta vez os americanos invadiriam a capital do país - tal seu pavor e indignação! 


A notícia fizera eco em toda a região fronteiriça, mas instruído por um despacho recebido pelo telégrafo, com a advertência, “ultra-secreto!”, o cônsul americano em Juárez reunira os diretores do único jornal e da única estação de rádio da cidade (obviamente estranhando que fossem da mesma família), ordenando-lhes you guys shut up!, o que traduzido queria dizer "em boca fechada não entra mosquito!" - enfim, que seus repórteres calassem suas matracas sobre o sucedimento impronunciável.



Este era “o mais infame lançamento”, nas palavras de Wayne Mattson, antigo pesquisador dos esfíngicos movimentos ocorridos no deserto de White Sands desde a rendição da Alemanha, referindo-se ao incidente internacional causado pela estranha "arma voadora" que despencara sobre os jazigos de um cemitério de Ciudad Juárez.
Ainda bem que no México não sabiam do que ocorrera do outro lado da fronteira, uma semana antes – sairiam correndo de suas casas para não mais retornar!
Trama paralela. 

Em sua edição de 22 de maio de 1947, o "Alamogordo News" alardeara o susto da população da localidade de mesmo nome, “tocada por incipiente pavor”, quando uma sorte de objeto voador irrompeu em voo errático nos céus sobre a pequena cidade encravada no deserto, explodindo estrepitosamente ao chocar-se contra as montanhas de Sacramento.


Seu lançamento ocorrera às 4h08 da tarde, no Complexo 33 de White Sands. O propelente líquido fora programado para queimar durante 63,6 segundos, acelerando o foguete, com 9.827 libras de peso, à velocidade de 4.696 pés por segundo, ou 3.202 milhas por hora, elevando-o até uma altitude de 76 milhas nos céus do Novo México. Subitamente, porém, o engenho começara a cambalear, a pressão partindo ao meio o míssil, cujos destroços despencaram nas proximidades da 13ª. Rua com a Cuba Avenue, e também sobre os trilhos das Ferrovias da South Pacific.
Mas do que, diabos, estavam falando?
Alguns malucos saltaram em seus carros, relatava o jornal, apressando-se em alcançar o local do choque, localizado a mais de trinta milhas da base do disparo. 

Bob Calloway, que jogava bola com alguns garotos entre a Avenida Michigan e a 15ª. Rua, conta que os fios elétricos estendidos entre os postes naquelas ruas começaram a vibrar violentamente.
Montados num caminhão, ele e seus amigos acudiram ao local da queda, onde apanharam alguns destroços como troféus. Eram fiações e tanques metálicos que usaram para montar aeromodelos, merendeiras e caixas de ferramentas portáteis.
Eis o fim do misterioso "lançamento" ocorrido no dia 15 de maio, estranhamente noticiado apenas no dia 22, uma semana depois.
Os tais "lançamentos" eram top secret.
Por isso, poucas horas após o bombardeio do cemitério em Ciudad Juárez, um destacamento do ministério do ar americano cruzara a fronteira para inspecionar o local do sinistro, encontrando-se com uma turba de mexicanos já empenhada em saquear e vender a sucata que caíra do céu.

Só então o cônsul gringo e os nativos ficaram sabendo que a invasão do espaço aéreo do México fora um acidente, pois, como tratara de elucidar Monte Marlin, oficial de relações públicas do campo de provas balísticas de White Sands, "ao invés de obedecer à trajetória programada, navegando para norte, a engenhoca se desgovernara, e sobrevoando El Paso, do outro lado da fronteira, rumara ao sul..."

- Luckily, no one was injured! – tratou de contemporizar o porta-voz diante das carrancas varadas dos hispânicos.

Ao próprio cônsul, pasmado, confidenciou que em meados de 1945, nada menos que trezentos vagões de trem haviam descarregado em Las Cruces o mais fantástico butim de guerra de todos os tempos!

Eram motores das bombas voadoras alemãs V-2, como essa que acabara de espatifar-se nos ermos. Era mais: ali abundavam fuselagens, tanques de propelentes, giroscópios e outros equipamentos com funções a adivinhar.

De Las Cruces, fim da malha ferroviária, as super-armas alemãs seguiram em caminhões - centenas de caminhões! - para a base de White Sands. 

Lá estava funcionando um programa, explicou Marlin, para treinar americanos em operações de lançamento com armas teleguiadas, artifício até ali sobejamente desconhecido na América.

Infelizmente, ajuntara o oficial, apesar de operadas pelos cento e setenta e sete cientistas e técnicos que as tinham desenvolvido na Alemanha, nem todos os disparos com essas armas eram exitosos, embora estimasse que sua margem de acerto fosse de sessenta e oito por cento. Portanto, somente aqueles trinta e dois por cento errantes – ehhmm... restantes!, corrigiu-se rapidamente - explicavam o desvio imprevisto daquela V-2 para Ciudad Juárez.

E arrumando num caminhão militar, fortemente guarnecido, os destroços que restavam da arma futurista, que não deixaram fotografar pelos mexicanos, os americanos retornaram à fronteira e desapareceram.


Fotos: divulgação

Um comentário:

Anônimo disse...

Pobre México: tão longe de Deus, tão perto dos Estados Unidos!