28 junho 2015

Frederico Füllgraf - O umbral


Conto


Despertou ansioso porque era sábado. 


Lavou o rosto, escovou os dentes, molhou e penteou o cabelo, tentando domar o topete rebelde. Não conseguiu, os cabelos estavam ainda muito curtos. 
Vestiu a mesma calça curta, amarrotada pelo uso nos dias anteriores, e sentiu falta das roupas escolhidas pela mãe, nem sempre do seu gosto. 
Deixou a casa, atravessou o pátio, em cujo centro luzia o álamo solitário, de tronco descorado e descascado, cujas folhas mortiças teciam um tapete de remendos ocres e esmaecidos sobre o pedral. 
Pisou a cozinha da meia-água dos fundos, onde a velha já tinha posto a mesa. 
O aroma do pão caseiro recém-assado no forno à lenha invadiu-lhe as narinas; salivou-lhe a boca, fê-lo sentir-se protegido. 
Vem, Senhor Jesus, sê nosso convidado e abençoa o que nos tens ofertado – amém. Pela fresta de seu olho direito, semi-cerrado, observou que os outros rezavam a ladainha com os olhos fechados, num dialeto esgarçado pelas migrações.

Há meses dividia a companhia da estranha família, afastado da sua própria. 
Fizeram-no sentir-se culpado. Dívida de berço, diziam, porque “Deus”, o deles, tinha visto tudo. Que anotara todos seus pecados em uma agenda e que não hesitaria em puni-lo. 
Por isso se assustava com os olhares aprisionando seus movimentos; olhares de guardiões d’Ele
Mastigou, mas não conseguiu engolir a gororoba do pão com schmier de banana, mal misturada com nata. 
Olhou com repulsa para o café de malte, sobre o qual boiava um naco de leite coagulado e gorduroso. 
Deixou a mesa com o estômago virado, escondeu o lanche com o mesmo pasto na mochila, jogou-a sobre o ombro e pôs-se a caminho da escola, em companhia de Leni, a menor dos seus vigias.

Durante a caminhada silenciosa pela estrada de barro vermelho, com cobertura de cascalho vidroso, sentiu a respiração de Leni a seu lado, cujos olhos buscavam os seus. 
Vinculava-os certa cumplicidade inconfessa, desde que haviam galgado a escada para o sótão do estábulo, e ela, alguns degraus acima, retrocedera, pressionando sobre o nariz dele suas coxas leitosas, metidas numa calcinha costurada com trapos de sacos de farinha, que exalara um odor adocicado; incompreensivelmente excitante. 
Todavia, o olhar onipresente de um deus ausente enchia-o de sentimento de culpa. Por isso virou-se para trás, à cata da figura de Elvira, mas não a encontrou. 
 Alcançado o pátio da escola, hesitou em misturar-se à algazarra das crianças. Detestava a maioria delas, fediam a estrebaria e falavam mal; o Português e seu dialeto. 
Invejava-as, contudo. Eram felizes à sua maneira, percebia nelas certo centramento, porque seus pais as esperavam na volta da escola. 
 Descobriu Elvira numa roda de amigas. 
Flechava-o com seus olhares sedutores, as amiguinhas cochichando e rindo, os olhos pregados nele. 
Tentou corresponder ao olhar dela, tinha ternura, mas deu-lhe as costas porque detestava essa ridícula cumplicidade de meninas.

Concentradas no corredor da escola, as crianças ouviram novas preces: Vem Senhor Jesus, abençoa esta escola, seus mestres e alunos e livra-nos do mal – amém. 
Não conseguiu prestar atenção durante a aula, contava os minutos no relógio do coleguinha ao lado. 
No recreio caçoaram dele, porque se isolara, buscando a linha do horizonte, interrompida pelo muro de cinza sujo. 
Na saída não esperou por Leni, e a meio caminho de casa aceitou a carona na moto do professor Walter. 
Sentiu o fogo do escapamento queimando a barriga da perna e não conseguiu ouvir as palavras gritadas pelo professor-piloto, pois as rajadas de vento lhe esbofeteavam as orelhas e marejavam os olhos.

No sótão da casa derrubou a mochila sobre o catre, retornou correndo escada abaixo, em direção ao pátio, e nem percebeu que caminhava em círculos. 
A família já estava reunida para o almoço: Vem Jesus Cristo, seja nosso convidado e abençoa o que nos tens ofertado... 

Deixou pela metade o prato de sopa de beterraba

Brincando, ameaçaram deixá-lo sem a sobremesa do pastel de pireshki com doce de framboesa. 
Deu de ombros, levantou-se, atravessou o portão do terreno e foi sentar-se sobre o pilar empoeirado, para esperar pelo fusca. 

Sentado sobre a linha divisória entre dois municípios, sua perna esquerda estava pendurada sobre Curitiba, a direita balançava em São José dos Pinhais.

Olhos cravados na curva à sua esquerda, cada vez que sua emoção tentava adiantar-se no reconhecimento do modelo de carro que assomaria da nuvem de poeira, sentia o sangue martelando na jugular. 
Perdeu a conta do número de roncos promissores que o haviam enganado. Pensou em desistir, mas: e se ele aparecesse no exato momento em que viraria as costas? 
Por isso, firmou a posição; sentinela guardando o nada. 
Perdeu a noção do tempo e o fusca cinza, com pára-lamas de azul fosco e vidro traseiro dividido, não deu o ar de sua graça.

Não conseguia entender suas emoções, que alternavam entre euforia e dolorosa decepção, velozes como o trem de uma montanha-russa. 
Onde estaria a mãe neste exato momento? Por que estou aqui, mãe? Então lembrou-se da cadela pastora, em cujo ventre se aninhara tantas vezes, encolhido em posição fetal; esquecido pelos pais. Sentiu saudades das lambidas em suas mãos e orelhas, a atitude de terno acolhimento.

Subitamente, uma saraivada de alfinetes crivou-lhe o peito, o coração devastado. Vertigem. Nova montanha-russa, desta vez morro acima. 

Era o terceiro sábado sem sinal do fusca. Lembrou-se dos olhares da mãe sobre o Morro Dois Irmãos, quando buscava as colinas do vale das cerejeiras, mortificada de saudade de um lugar que não estava na paisagem. Observou as copas das árvores acalantadas pela brisa, algumas vacas empurradas pelo próprio instinto sobre a pastagem. E aquela modorra sem sentido instilou-lhe medo sem conta.

Derrotado, retornou à casa, desviando o olhar zombeteiro deles, buscando os degraus da escada para o sótão, que escalou de dois em dois. Foi direto ao guarda-roupa, e do fundo do bolso do agasalho azul pescou a meia, branca, com as moedas. Recontou-as, apreensivo, pois não sabia o preço da passagem. Escondeu o material escolar no fundo do armário e meteu na mochila algumas peças de roupa. Esperou que o burburinho das vozes se deslocasse da sala da casa para o rancho, desceu a escada na ponta dos pés, não viu ninguém no pátio e, dissimulando, atravessou o portão, ganhando a rua; o sangue martelando nas têmporas.

Tomou pela esquerda a estrada poeirenta e apressou o passo em direção ao ponto final do ônibus. 
Tropeçou várias vezes no macadame bruto, distraído com os carros que afloravam do pó. 

O vento gelado queria abrir lanhos em seus braços nus. Então percebeu que tinha esquecido o agasalho. 

Perguntou vezes sem conta, se estava distante o ponto do ônibus e lhe apontaram a movimentada BR. 

Virou-se uma terceira vez para certificar-se de que ainda não o perseguiam, e seu coração reanimou-se quando ouviu ecos do som vivaz de pneus lambendo o asfalto - música em seus ouvidos. 


O ônibus verde-amarelo, imensa caixa de sapatos metálica, aguardava no ponto, refulgindo ao sol tímido. 

Sentiu medo de embarcar – e se alguém o reconhecesse, fizesse perguntas incômodas? 
O motorista que conversava animadamente com um passageiro na primeira fila, sorriu-lhe. 
Então tomou coragem, subiu, estendeu suas moedas ao cobrador, que lhe devolveu as que sobravam, e acomodou-se junto a uma janela, longe dos poucos passageiros. 

O ônibus partiu e desceu a BR. Começava a grande viagem.

Em passagens rápidas pela janela sobre seu assento, viu desfilar os telhados das casas e os motoristas alapados sobre os volantes dos pesados caminhões, que trafegavam em direção ao sul. Não conseguia enxergar as rodas e adivinhar as marcas dos veículos; seu passatempo predileto. A janela era muito alta, por isso colocou-se em pé, as mãos cravadas na grade do vidro. Não conhecia os nomes das ruas, mas pressentiu a proximidade do centro, o ônibus empurrando ao primeiro plano a grande fábrica com chaminés cachimbantes, entre as quais reluzia um losango com quatro letras azuis.

Debaixo da grande caixa com tampo metálico, localizada à porta dianteira, rugia e gemia o motor. 
 Divertia-o a perícia do motorista, girando com uma mão apenas o grande volante, ziguezagueando acrobaticamente entre automóveis, caminhões, carroças e pedestres. Mas sentiu um fascínio repulsivo pelos santinhos e rosários pendendo do espelho retrovisor. Com sua base colada sobre o console do painel, e projetada contra o céu, onde levitava impecavelmente sobre as paisagens que invadiam o campo de visão, a figura de São Jorge, contudo, conseguia arrancar-lhe um sorriso lívido de aprovação. 

Depois de um indecifrável trajeto, o ônibus parou junto ao meio-fio de uma praça. Ponto final.

Paciençoso, o chofer explicou-lhe qual caminho tomar para chegar à outra praça, onde deveria fazer a baldeação. 
Saltou do ônibus, desnorteado, nada lhe pareceu familiar no imenso quadrilátero. 
Observou as duas torres, separadas por uma rua que se perdia entre as palmeiras altas. Santa Casa, dizia o letreiro de cimento e cal, debaixo de uma delas, e parecia uma estranha igreja. A outra, com campanário, sim, recordava-lhe vivências cordiais. 

Do lado oposto da praça, chamou-lhe atenção um soldado armado com uma carabina, montando guarda. Sentiu vontade de lhe fazer companhia na guarita, cavalgando o muro, e partilhar o privilégio da visão panorâmica sobre a praça. 


Atravessou o largo com passos frouxos, as narinas invadidas por lufadas acres de azeite barato dos carrinhos de pipoca. 

Esgueirou-se entre moendeiros de caldo de cana, bêbados, e uma mulher muito morena, que lhe fechou o caminho. Pano colorido sobre a cabeça, pingentes dourados nas orelhas e longo vestido sobre várias anáguas, todos muito coloridos, disparou: - Olhos-azuis, deixa eu ler a sorte na palma da tua mão! 
E ele retrocedeu assombrado. 

Em vez de caminhar em linha reta pela Pedro Ivo, até a quarta rua da esquerda, de onde avistaria as torres da catedral, como lhe tinham dito, seguiu a maioria dos pedestres, embrenhando-se, medroso, pela Voluntários da Pátria. 

Meia quadra andada, surpreendeu-se  com a babel do trino de um canário, berros estridentes de uma arara e o escarcéu de periquitos australianos. À fuzarca associou-se rapidamente o cheiro penetrante de galinheiro e ração animal. 

Quando os adultos, que lhe obstruíam a vista, se afastaram da barra esquerda do passeio, percebeu que estava diante de um aviário. 
Eletrizado, deixou-se atrair pela colorida algaravia. 
Enternecido, reconheceu pelo colar negro no pescoço, um casal de rolinhas com plumagem marrom, iguais às que faziam seus ninhos no jardim de casa.
Dos fundos da loja ouviu-se um galo cantando em plena tarde, alvoroçando o passaredo. - Tá confundido com a luiz artificial! - debochou o vendedor. 

Em uma das jaulas, um papagaio respirava angustiado; olhos esbugalhados, bico escancarado, a língua seca, de couro rachado. 

Ele acocorou-se diante de um pássaro que não parava de agitar-se entre as grades de sua prisão. Tinha a plumagem cinza e branca e um penacho vermelho, coroando a cabeça. - Galo de campina! - pigarreou o vendedor - Bicho bonito, dô desconto! 

Seduzido, enfrentou o olhar desafiante do vendedor, mas nem se deu o trabalho de recontar suas moedas, sabia que não tinha dinheiro suficiente. 

Baixou a cabeça e despediu-se do pássaro, metendo o dedo indicador por uma fresta da grade, tentando tocá-lo, acariciá-lo. A ave apavorou-se, lançando-se em revoadas desesperadas contra o gradil, emaranhando as asas abertas, quebrando suas penas. Uma pluma vermelha desprendeu-se de sua crista, atravessou as grades e dançou na direção das suas mãos. O menino agarrou-a e deixou o aviário, caminhando de costas.

No primeiro cruzamento pediu nova informação. Estava na Emiliano Perneta. 
Desviou para a direita, conforme a orientação, e desceu pela calçada em sentido oposto ao trânsito dos carros, rumo à Praça Zacarias. 
A calçada cintilava ao sol. Pela primeira vez prestou atenção às formas que as pedras pretas insinuavam, encaixadas, delicadamente, entre as pedras brancas do passeio: pinheiros, carroças, homens com grandes chapéus de abas largas, cataratas, arbustos prenhes de frutos, o sol emergindo atrás de uma serra... 
Não conseguiu entender toda a trama, achou que talvez fosse um quebra-cabeças. Ansiou por novas revelações na calçada da Marechal Deodoro, acocorando-se, estorvando a passagem dos pedestres, apressados, insensíveis àqueles tabuleiros mágicos, cravejados de cubos pretos.

No cruzamento com a Dr. Murici finalmente penetrou em território conhecido. 
Sentiu o aroma dos temperos da feijoada dos sábados, de sua tenra infância, saboreada ali, em companhia dos pais, no restaurante de seu Eugênio, com vista panorâmica sobre a praça. 
Coração novamente desatado, parou à entrada do prédio. Sentiu fome. Olhou para a esquerda, cheio de lembranças: os paralelepípedos pretos do alto da Murici, o velho casarão com o escritório do pai – e se corresse até lá, para surpreendê-lo? 

Distraído, com um pé na rua, uma buzina com freada brusca invadiu seu devaneio, e uma mão forte o puxou pelo ombro de volta para o meio-fio - Ô, gurí, táfim de morrê ?


Desvencilhou-se do abraço e do sorriso do estranho, retrocedeu e sentou-se sobre o degrau da escada, à entrada da agência do banco. 

Lembrou que o pai não costumava trabalhar sábado à tarde, e soluçou com o rosto escondido entre os joelhos. 
Um pé de vento sacudiu-o. Tremia de frio, um frio desconhecido.

Pensando que era a Marechal Deodoro, já caminhava pela Rua XV, quando parou outra vez, perdido. - Tá vendo ali, as copa dos ipê? - certificou-se a senhora, guiando seu olhar por cima do casario contíguo. E o mediu, entre intrigada e compassiva: - Ô, minino, você tá muito desagasalhado! Mas ele desviou o olhar para os telhados dos sobradões que obstruíam sua vista. 

Caminhou alguns metros e ouviu a voz esganiçada e ofertante da uma mulher - Corre hoooo-jeee, ooooo-lha o ma-ca-coooo !!! 

 Parou à frente dela, mas em vez do bicho, a mulher brandia uma fita de papéis coloridos e numerados. 
Perplexo, buscou a resposta no rosto de alguns compradores, que pagavam em troca de um bilhete, deixando a fita cada vez mais curta. 
Pensou: talvez ela vendesse entradas para um circo...

A esquina estava buliçosa. 
Sentado sobre uma caixa de madeira vazia, com forro de papel azul, um velho tocava acordeão. No chão, à frente de seus pés, um chapéu puído e virado, pedia dinheiro. 
O ritmo da música era animado, mas o menino não gostava de acordeões, suas notas agudas falavam de algo irrecuperável. Notou que o sanfoneiro não reagia às moedas que lhe jogavam no chapéu; sorriso impassível, olhos semi-cerrados, perdidos em trevas. 

Subitamente, o inconfundível e aflitivo grito de um gato rasgou a tarde. Virou-se e deu de cara com um círculo de curiosos, em cujo centro um homem de meia idade espancava um saco de estopa com um pedaço de pau. 

Indignou-se com a alegria sádica das pessoas a cada golpe desferido contra o saco, de cujo fundo brotavam os gritos do animal. 
Nunca tinha presenciado cena tão abjeta! 
Pensou em Max e Moritz, os bem tratados bichanos gêmeos, de casa, cuja pelagem gris e preta, luzidia, os confundia com réplicas de figuras de porcelana, altiva e decorativamente estirados sobre os espaldares das poltronas.

Boquiaberto de estupor, não acreditou quando o agressor empertigou o corpo sobre as pernas, caminhou no interior do círculo humano e soprou uma espécie de apito entre os lábios, que apesar dos golpes terem cessado, emitia o gemido cruento do gato espancado. 
O homem agarrou o saco, sacudiu-o boca abaixo, e no lugar do gato, o saco cuspiu um chumaço de jornais velhos, amassados.
O povão desatou em gargalhada coletiva e o menino fechou a boca e a reabriu em riso solto. 
Tinham-lhe pregado uma peça! 
Arredio, contudo, o círculo se desfez, um a um, diante da insistência do espancador de gatos em vender seu instrumento burlão. 
 Instigado, o menino imaginou reproduzir a cena no pátio do colégio, diante dos coleguinhas aparvalhados... Com as pontas dos dedos contou suas moedas no fundo do bolso da calça, mas afastou-se como os demais.

Deu meia volta, e do meio fio da Monsenhor Celso avistou as torres da catedral - tinha conseguido! Sentiu o peito alagar-se com júbilo, estava orgulhoso de si. 

Caminhou pelo corredor estreito do casario histórico até os trilhos, onde o bonde da linha Bom Retiro serpenteava sua última curva antes da parada central. 
Atravessou a praça com passos animados, desenhando molduras com seus pés ao longo das figurações das pedras pretas, incrustadas nas brancas. 

Já com os pés sobre o passeio em frente à basílica, caminhou, sem querer, até a esquina com a Saldanha Marinho. 

Entendeu que as lembranças o estavam conduzindo até a Casa do Fumo, de propriedade de seu Fritz, amigo do pai - empório misto de museu, atulhado até o teto com tabacos exóticos, fumos-de-rolo, ervas aromáticas, velas votivas, incensos e a colorida santeria. 
Sentia medo respeitoso de macumba. Não mete a mão em despacho, que dá azar pro resto da vida! - tinham avisado. 
No entanto, a recordação do vidro de balas e caramelos sobre o balcão da loja, salivou-lhe a boca, fez roncar novamente seu estômago. Tinha esquecido a fome. 
Vacilou alguns segundos, mas volteou sobre a sola da sandália: se botasse os pés na loja, seu plano seria abortado!

Retornou pela mesma calçada na direção do ponto da linha Vista Alegre. 

A meio caminho sentiu a lufa de frutos frescos, perfumados, e divisou a quitanda de seu Jamil, o velho “turco”. 

O pai havia dito que na cidade não viviam turcos de verdade, que eram todos árabes. Seriam aqueles beduínos?
Certa vez seu Jamil se irritara com um engraçadinho, que perguntara onde dormiam seus camelos. - Sou libanês, descendente de fenícios, gombrendeu, menino? 
Contudo, o povo não se importava com a complexa geografia humana. Para simplificar, os palermas dividiam os estrangeiros da cidade em “turcos” e “polacos”, a soma de todas as pessoas morenas ou loiras, com sotaque estrangeiro.

Do fundo escuro da quitanda, onde fulgiam as embalagens de figos secos, damascos e tâmaras, de fragrâncias exóticas, assomou o rosto moreno de Jamil, dividido por grossos bigodes. O velho não o reconheceu e somente lhe deu as boas-vindas quando o menino lhe explicou de qual freguesa era o filho. 
Divertiu-se com seu sotaque, aveludando a linguagem, trocando o p pelo b e o t pelo d: - Doma um maçã argendino, menino, enguando vem dua mãe!...

 Tinha mentido. 

Para ganhar tempo, inventara que a mãe estava terminando de comprar um peixe na Saldanha. Mas hesitou em morder a cheirosa maçã, lembrando-se do relato da vizinha, que tinha visto (assim jurara, indignada) um “turco” lustrar suas maçãs de Rio Negro, cuspindo na casca, após o que seduziam a clientela, cintilando como enormes rubis lapidados e perfumados.

Aproveitando-se de uma distração de Jamil, esgueirou-se loja afora, jogou a maçã intocada na mochila e buscou com o olhar o ponto do segundo ônibus que deveria tomar. 

Alegrou-se com a vista do bebedouro do Largo da Ordem, em torno do qual as carroças das italianas costumavam distribuir-se feitas estrela, enquanto a freguesia escolhia suas verduras. 


Uma revoada de pombos em travesso rasante sobre os transeuntes, cortou ao meio sua recordação, e ele se concentrou no suave pouso das aves nas amuradas e nos estuques da grande igreja; logo abaixo do relógio da esquerda. 
O ponteiro grande aproximava-se do número doze e o menor já cobria o número cinco. Prendeu a respiração e contou até dez. Não conseguiu: o enorme sino adiantou-se, repicando cinco vezes – era o sinal!

Queria muito rever a casinha das fantasias de sua primeira infância, aquela que descobrira olhando da janela do casarão de dona Ruth, na Rua São Francisco, cuja vista se abria sobre os fundos da catedral. Era perfeita, plantada sobre o telhado da igreja, com quatro paredes de vidro e uma torre de cobre, igualzinha aos castelos dos contos dos Grimm - quantas vezes sonhara em morar ali no alto, senhor do mundo!

 Nova revoada dos pombos, agora em sentido contrário. Deveria apressar-se!

Batia o queixo de frio e foi o último a embarcar no ônibus das cinco para a Vista Alegre. 
O motorista puxou a alavanca da porta dianteira, que se fechou ruidosamente, e o coletivo partiu. 

Afobado, esquecera-se de recontar suas moedas e estendeu-as, hesitante, ao cobrador. 

Faltavam cinco centavos! 
Assustou-se, num átimo imaginou-se fazendo o percurso a pé, distância de cinco quilômetros do centro - chegaria noite escura! O cobrador, contudo, lançou-lhe uma piscadela cúmplice, devolveu-lhe o dinheiro e sugeriu que se agachasse, por baixo da catraca.

O ônibus contornou o Lago da Ordem e sua primeira parada foi a Praça Garibaldi. 
Emocionado, resgatou a lembrança de suas piruetas a bordo do tico-tico, atrás da mãe, rumo à livraria alemã. E aqueles pangarés das italianas, derrapando como equilibristas bêbados sobre os paralelepípedos carecas da Jaime Reis? E o cheiro do primeiro montinho de bosta de cavalo? 
Cantarolando baixinho, reconheceu a igreja dos polacos, a estação de tratamento d´água - que mais se assemelhava a um cemitério - e a casa dos amigos Renaux.

O padre capuchinho que saía pela porta da Igreja das Mercês, reacendeu a lembrança de divertidas peladas no campo da várzea do São João; poeirento, sem gramado. A imagem dos cocurutos e das batinas esvoaçantes, perseguindo a bola, abriu-lhe um sorriso de orelha a orelha. Perdessem ou ganhassem, eram sempre generosos, os padres, distribuindo aos meninos do bairro santinhos de papel e correntinhas douradas, com a imagem da Virgem Maria. A mãe descobrira uma delas em seu quarto, advertindo que “protestantes não adoram a Virgem!”.

Era de perder a conta das coisas que protestantes não faziam!

Quando o ônibus deixou o asfalto das Mercês, embicando para a sacolejante rua de saibro e barro da Vista Alegre, apavorou-se. 
Entre as subidas, descidas e curvas da Vitório Viezzer enredou-se num sofrido solilóquio: por que o pai viajaria sem avisá-lo! E por que não o mantinha a seu lado? Se o pai não o apanhava nos finais de semana, é porque não sentia saudades dele, resumiu. E a mãe - por que demorava tanto? Já tinham recebido quatro boletins na escola e nenhum sinal dela! – será que tinha fugido? O que ele tinha feito para ser afastado de casa? 

Tinha apenas sete anos de idade, mas também a percepção aguda de que algo estava se quebrando. Sentia uma imensa solidão, que criança só consegue descrever com a palavra medo. 


 O ônibus descreveu uma curva fechada e parou. Era seu ponto final. 


Saltou indeciso do coletivo, duvidou ter feito a coisa certa. 

O frio, agora mais intenso, úmido. Feito foto na lembrança, o agasalho surgiu à sua frente, esquecido em cima do catre.

Caminhou com passos trôpegos na direção de casa. 

No horizonte, o sol esmaecido matizava de azul e preto a enorme floresta. Com familiaridade e alguma repulsa reconheceu nas falas das pessoas os sotaques interioranos, caboclos. 


Sorriu para a entrada da chácara dos Fonseca, contornou a sociedade dos adventistas, olhou furtivamente para a casa de Tina - sua paixão proibida -, atravessou o grande baldio, onde jogavam peladas, saudou as pereiras de frutos lenhosos, e num piscar de olhos encontrou-se em casa. 


Seu coração bateu forte, pois assombrou-se com a sensação de tê-la perdido. 

Tremeu dos pés à cabeça, daquele frio desconhecido: lá estava o fusca cinzento de pára-lamas azuis e janela traseira dividida!

Elza, que cochilava sobre o degrau superior da escada de acesso à varanda, despertou com sua aproximação, correu até o portão e brindou-lhe ruidosa saudação, misto de lamúrias e contentamento. 

 Impaciente, o cão arranhou a cerca, metendo as patas nos espaços vazios do alambrado, buscando o toque. 
Do lado de fora do portão, ele respondeu com seus dedos, acariciando-lhe a cabeça, as bochechas peludas, fazendo cócegas em seu focinho com a pluma vermelha do pássaro, que furtara no aviário. 
 O portão estava trancado à chave, mas não foi preciso bater palmas, pois de dentro da casa surgiu a figura do pai, de cabelos desgrenhados: - Mas o que, diabos, você está fazendo aqui? 

Um calafrio sacudiu-o dos pés à cabeça, seu coração quis saltar pela boca, mas partiu-se já no peito: - Papai, você está mesmo aí?! Eu, eu...

Tinha apenas sete anos de idade, e em sua fantasia tinha feito um dos trabalhos de Hércules. 
Tinha se enchido de coragem, desobedecido ordens,  descoberto o mundo,  tinha se superado, o que - leu muitos anos depois - alguns mestres da mística chamavam de "travessia do umbral". 

        Na tarde do dia seguinte, um domingo, o pai colocou-o no fusca cinza, com pára-lamas de azul fosco e vidro traseiro dividido, cruzou a cidade em sentido contrário, e devolveu-o aos seus vigias.

Tinha atravessado o mundo para retornar à sua casa. Que não existia mais.

2 comentários:

Maria Cristina Scheidt disse...

Viajei a medida q lia...
Fiz todo o trajeto,tão conhecido por mim e foi uma experiência interessante.
Tua maneira d escrever envolve,prende,encanta,fascina e emocio
Dá vontade de pegar este menininho no colo.
Adorei!!!
Obrigada por me proporcionar esta gostosa leitura

Janete Daniel disse...

Como sempre, seus textos, ricos em detalhes, me capturam e me fazem participar da história, percorrer os mesmos caminhos que aquela pobre criança abandonada percorria.... Mais uma vez você me emocionou. Obrigada por compartilhar.