19 janeiro 2015

Frederico Füllgraf - Isabelle Eberhardt, a vagabunda europeia convertida ao Islã (Parte 2)

 

Ensaio


A vagabunda reinventada

Essa vagabundagem começara após a morte da mãe, Nathalie. Quando mãe e filha se dirigiam a Bône, norte de Argélia, em maio de 1897, abrira-se uma nova e dramática etapa na vida de Isabelle. 

Compartilhando uma casa modesta do bairro árabe, ela e a mãe convertem-se ao Islã. Seis meses depois de instaladas, sua mãe também morre fulminada por um ataque cardíaco, em seguida se suicida seu meio-irmão, Wladimir. 

Suas tendências depressivas impelem-na à fuga, para longe dali, pois alguém dissera que “viver não é necessário, mas partir é preciso". Para Isabelle, muito pelo contrário, partir é viver.

Por um estranho efeito de retorno, ali, onde a mirada só pode pendurar-se em nada mais que no horizonte, a viagem se faz interior: "El Ued [curso de água no deserto] me alcançou como revelação de beleza visual e de profundo mistério, o apossamento de meu ser errante e inquieto por um aspecto da terra que não havia suspeitado", escreve ela. 

Nesse oásis, em agosto de 1900, encontrará o homem de sua vida, Slimane Ehnni, e receberá o rosário dos iniciados pela Qadriya. Com natureza predisposta, aprende as técnicas sufis do êxtase místico e chamar-se-á Si Mahmoud Saadi; pseudônimo que sobressairá sobre os demais e que recorda o poeta viajante de Shiráz, na Pérsia, quem, segundo Isabelle, no séc. XIII enaltecia no amor "a renúncia e a arte de domar-se a si mesmo".

A descrição de sua conversão ao Sufismo é muito lacônica em seu seus textos, referida apenas numa carta enviada à Dépêche Algérienne, de 6 de julho de 1901. 

Na verdade, frequentara três zaouïas – conventos súfis – diferentes em El Oued, e os menciona perante um juizado para contextualizar a tentativa de assassinato perpetrado contra ela por um seguidor fanático da zaouïa rival de Tidjanya. Ela o perdoa, mas o árabe é condenado a pena gravíssima, e ela, expulsa da Argélia. 

Mulher européia, de comportamento impensável para os padrões do mundo árabe, Isabelle impõe-se à sociedade islâmica e à ritualística súfi, pois os homens da Qadriya oferecem-lhe as novas vestimentas, tanto femininas, como masculinas, que terá liberdade de usar do modo que mais lhe apetecer – generosidade incomum, sibila-se, porque muito provavelmente com seu mestre a vinculara algo mais que amizade espiritual, apenas.

George Sand e Mata Hari

Isabelle Eberhardt é um misto do travesti Georges Sand e da glamurizada espiã Mata Hari,  transplantados aos confins do Saara meridional

Incensada por uns, devido às suas audaciosas andanças como mulher européia desacompanhada - no Saara, mas também no coração de sociedades fortemente machistas e excludentes do feminino - por outros, Eberhardt é lembrada como a jovem ocidental escapista, que incorpora a dolorosa experiência, mas também o prazer pervertido dos relacionamentos incestuosos, fincado na personalidade de uma mãe traidora e insegura, atraída por relacionamentos no mínimo exóticos, e fortalecida ainda pelo papel de uma irmã dominadora e de dois meios-irmãos, também de paternidade duvidosa; um deles, incestuosamente vinculado a Isabelle.

Eu não sou mais que autêntica, uma sonhadora que deseja viver longe do mundo, viver a vida livre e nômade, para em seguida tentar expressar o que viu e talvez comunicar a alguns poucos, o frisson melancólico e charmoso que experimentou na contemplação dos tristes esplendores do Saara”, ela escreve na dolorosa tentativa de exorcizar o passado boêmio iniciado em Genebra, quando frequentava círculos anarquistas. 

Em Bône, na Argélia, envolve-se em encontros amorosos ditados por colonos franceses, invasores que costumam receber apenas ”nativas” para seu consumo de ”carne fresca”. 

Agora acaba de retornar de Túnis, de noites turbulentas vividas entre amigos e amantes árabes. 

A promiscuidade cobra seu preço, e por vezes ela intui que a sífilis infectou seu fruto. 

O Islã proíbe o consumo de bebidas alcoólicas aos seguidores de fé, mas Isabelle contrabalança seu alcoolismo com dosagens de profundas convicções religiosas. Por momentos é capaz de experimentar o êxtase, e não raramente gostaria de perder-se na mera contemplação do deserto.

Expulsa da Argélia, à raiz de um processo criminal, mas com evidente intenção política (a Argélia era uma colônia francesa, há mais de oitenta anos invadida e anexada por Napoleão), ela só conseguiá regressar ao deserto graças ao seu casamento com Slimène Ehni, suboficial de dupla nacionalidade. 

Mas o vínculo com o exército francês levanta suspeitas: por acaso suas incursões aos territórios (aqui definidos no mais estrito senso geográfico) interditados aos europeus no Saara, dissimulavam missões de espionagem para o exército francês? 

Alguns argumentos baseiam-se sobretudo na inexistência de qualquer reflexão profunda sobre o Sufismo nos escritos de Eberhardt, especulando tratar-se de uma convertida de fachada. Outro argumento, irrefutável, é a lembrança de sua estreita amizade como o Gen. Hubert Lyautey. 

Publicado em 1994, em seu ensaio ”Colonialism, Transvestism, and the Orientalist Parasite” (”Belated Travellers” - Durham & London, Duke University Press), Ali Behdad reitera a colaboração de Isabelle com o poder colonialista francês no Saara.


Gen. Lyautey
Filha de Rimbaud?

De quem é mesmo filha, Isabelle Eberhardt, cuja vida novelesca já começara como mistério?”.

Sem rodeios, já em 1943  Pierre Arnoult atribuia em sua biografia "Rimbaud" (Éd. Albin Michel) a paternidade de Isabelle ao autor de "Uma estação no inferno”, baseando-se em três indícios algo frágeis para conformar prova documental:

1) as semelhanças das compleições físicas de Isabelle e Rimbaud; 
2) a presença do poeta na região do lago Lemans, em junho de 1876, a cujas margens jaz Genebra, onde naqueles momentos vivia Nathalie de Moerder; 
3) o nome Isabelle Wilhelmine, da recém-nascida, segundo Arnoult inexplicável pelo lado dos Moerder-Trophimowsky, mas vinculável a Rimbaud por intermédio de sua irmã preferida, Isabelle, que também era o nome da rainha da Holanda, em cujo exército Rimbaud acabara de alistar-se.

Contudo, em "Vie d´Isabelle Eberhardt", Francoise d'Eaubonne, além de corroborá-los, agrega a tais indícios um misterioso juramento da cavaleira do deserto, endossado pelo testemunho de várias pessoas: "Morrerei convertida em muçulmana, como meu pai!". 

Aqui, Isabelle jamais poderia estar se referindo ao monge anarco-islâmico, Trophirnowsky, afirma d'Eaubonne, reiterando que não resta remédio que assombrar-se diante do estranho tropismo que o Islã conseguira obrar nos destinos, tanto de Rimbaud, como de Isabelle Eberhardt, porque ambos teriam sido conversos sinceros. Com essa justificativa rebatendo a tese de uma conversão superficial da loira aventureira, travestida de homem.

Apocalipse em Aïn-Sefra

Em 21 de outubro de 1904, internada num hospital da pequena cidade de Aïn-Sefra, para tratar de uma malária que a assaltava periodicamente, têm desenlace trágico as andanças da teuto-russa-suíço muçulmana: uma tempestade que parecia o fim do mundo, rapidamente transforma os baixios do lugarejo em torrente furiosa de barro e escombros. 

Os casebres modestos são varridos do mapa como fossem raminhos de palha. Percebendo o perigo, Isabelle arranca o marido da casa, mas retorna para apanhar um manuscrito e, quando tenta sair pela porta, a casa se derruba sobre ela; seu corpo encontrado somente dias depois. 

Quando faleceu, Isabelle tinha vinte e sete anos.

Com sua morte inicia-se o resgate de sua biografia, e sua reputação é objeto de distorções gritantes, contra as quais logo se insurge o escritor norte-americano, Paul Bowles, um dos re-descobridores de seus textos e autor de "O céu que nos protege". 

Exceção feita a artigos esparsos, publicados em jornais sem destaque, Isabelle não conseguira publicar nada em vida. "Mas a quê referir-se, se grande parte do que ela escreveu, foi recolhido após sua morte [pelo general] Lyautey, e talvez já naquele primeiro momento submetido a censura problemática?" – questiona o jornalista argelino, Beghdadi Boutkhil (”Lyautey et les oeuvres d’Isabelle Eberhardt”, Le Quotidien d'Oran, 20-21/10/2004), advetindo: “Deve tomar-se por obra efetiva ou faltante aquilo que o general enviou para publicação ao senhor Barrucand, redator-chefe doe jornal L´Akhbar? Estes fatos são notórios: em 1906, Barrucand retocou, corrigiu e censurou os manuscritos [de Isabelle] destinados à publicação”.

Referindo-se ao Maghreb, Isabelle Eberhardt disse certa vez: “Eu queria possuir este país, e este país acabou me possuindo”.

A obra póstuma

Eberhardt, Isabelle & Barrucand, Victor: À l'ombre chaude de l'Islam, Arles, Actes Sud, 1996 ;
Pages d'Islam, París, Fasquelle, 1908 ; 
Notes de route, París, Fasquelle, 1908 ;
Mes journaliers, París, La Connaissance, 1923 ; 
Mes journaliers, París, Les Introuvables, 1985;
Isabelle Eberhardt racontée par ses lettres et journaliers, (présentation et commentaires: Aglal Errera) Arles, Actes Sud 1987; 
Écrits sur le sable. Oeuvres complètes. vol. I, París, Grasset, 1988. Oeuvres complètes. vol. II. Edição, notas e apresentação: Marie Odile De la Cour et Jean René Huleu. Prefácio: Edmond Ch. Roux, París, Grasset, 1990. 
Un voyage oriental: "Sud oranais", (De la Cour, M.O.; Huleu, J.R.: Edición) París, LGF, 1991. Crônica. 
Un désir d'Orient et Nomade j'étais, (biografía por Edmonde Charles-Roux) Livre de poche, 1997. 
Écrits intimes: lettres aux trois hommes les plus aimés, (De la Cour, M.O.; Huleu, J.R.: Presentación) París, Payot, 1991. Reed., Payot, 1998. Correspondencia. 
Notes de route "Maroc, Algérie, Tunisie" (Jean Marie Durou), Arles, Actes Sud, 1998. 
Au pays des sables (nouvelles inspirées par un séjour au Sahara en 1902), París, Joëlle Losfeld, 2002. 
Mes journaliers (cartas e diários íntimos), París, Joëlle Losfeld, 2002. 
Isabelle Eberhardt / L'Écriture de sable, Alger, Barzakh, 2002. 
País de arena, (Inmaculada Jiménez) Madrid, del Oriente y del Mediterráneo, 1989. Edición revisada y corregida, del Oriente y del Mediterráneo, 2000.

The oblivion Seekers, 13 peças de Eberhardt traduzidas ao inglês por Paul Bowles, 1972.

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