07 outubro 2011

Frederico Füllgraf - Koch-Grünberg, pioneiro do cinema na Amazônia

Taurepang, 1911

Ensaio


Em 1911, quando o boom da borracha, na Amazônia, já descrevia uma curva descendente, o antropólogo alemão, Dr. Theodor Koch-Grünberg, empreendia sua terceira expedição à selva amazônica.

Talvez os céus lhe tivessem dado um crédito de sobrevida, porque, mal completara vinte e quatro anos de idade, vinculara-se à descabeçada e acidentada expedição de Hermann Meyer, iniciada em 1896 em Buenos Aires, rumo à foz do Rio Xingu. Sobrevivente, retornou à Alemanha e escreveu seu doutorado. Em 1903,  partiu para sua primeira expedição pessoal à Amazônia, internando-se em territórios onde cem anos antes o naturalista Carl F. Philip von Martius concluía sua “Viagem pelo Brasil” (http://fuellgrafianas.blogspot.com/2010/11/o-beijo-de-boreas-parte-i.html).

Agora, Koch-Grünberg explorava o Rio Japurá e o Rio Negro, até a fronteira da Venezuela. A expedição durou dois anos e, de volta à Alemanha, o antropólogo a documentou com o livro, Zwei Jahre Unter Den Indianern. Reisen in Nord West Brasilien, 1903-1905. (Dois anos entre os índios. Viagens no noroeste do Brasil, 1903-1905, com farta e fascinante cobertura fotográfica. 


Naqueles dias, um tal Fitzgerald, seringalista peruano, procurava atalhar caminho entre dois rios, o Varadero de Fitzcarrald, para levar sua borrache em menos tempo para Manaus. Nas matas perto dali, nascia a etnografia audio-visual de Koch-Grünberg: as gravações em cilindros metálicos, às quais se somavam as impressões visuais de seu convívio com os índios do Alto Rio Negro, com os quais montou uma espécie de “ateliê das selvas”.



A terceira expedição de KG partiu de Manaus, em 1911, até o Rio Branco e de lá rumou à Venezuela. Em 1913, KG alcançou o Rio Orinoco depois de explorar nesse percurso, a pé e de canoa, várias regiões ainda hoje de difícil acesso. Ao voltar a Manaus, escreveu seu livro mais importante, Vom Roraima Zum Orinoco (De Roraima ao Orinoco), publicado em 1917, mas só outros100 anos depois no Brasil (cf. Livraria UNESP). 

Durante esta expedição, com a duração de dois anos, nascia o primeiro filme na História da Amazônia – “Aus dem Leben der Taulipang in Guyana” (Da vida dos Taurepang na Guiana),
As bem humoradas anotações que seguem, descrevem os percalços da filmagem, realizadas por KG e seu assistente, H. Schmidt, e foram por mim traduzidas da edição original de “Vom Roroima zum Orinoco”.

 Minha afirmação, de que KG é autor dao primeiro fillme amazônico (http://www.cronopios.com.br/site/colunistas.asp?id=2690), suscitou polêmica e contradisse a crença generalizada na Amazônia, reverberada pelo escritor Márcio Souza, segundo a qual o português, Silvino Santos, teria sido o pioneiro, com seu filme rodado em 1912 no Putumayo, contratado pelo “cauchero”, Julio Cesar Aranã.

Theodor Koch-Grünberg

O diário das filmagens

"As chapas fotográficas que me foram fornecidas por uma grande e famosa empresa berlinense, são uma encrenca. A consistência das chapas de Isolar deixa muito a desejar. Ainda que eu proceda com o maior cuidado, revelando somente durante a madrugada e enxaguando o material em água fresca do arroio da montanha, em várias delas a emulsão se desprende em grandes nacos de pele. Bom número de imagens se perde e terá que ser re-fotografada. O banho de sulfato duplo de alumínio e sódio, que eu executo rigorosamente segundo o manual, comprime a camada flácida demais em um sem número de rugas, tornando as fotografias imprestáveis. Toca de forma notavelmente ridícula ao especialista em trópico, quando lê, impresso em três idiomas na embalagem deste material, "a prova de trópicos“, que: "a temperatura do revelador não deverá exceder 20 graus centígrados”. É muito raro encontrar água com  temperatura tão baixa nos trópicos, que pelo menos se mantenha baixa até conseguirmos revelar uma dúzia de chapas.

[....] Já as gravações fonográficas me proporcionam alegria compensadora. Eu trouxe um cilindro já gravado e costumo tocar as gravações para habituar as pessoas à percepção de que o aparelho reproduz a voz humana. "---- és minha doce, pequena mulher“, da peça "O Conde de Luxemburgo“ de Lehár, e trechos  ("---mas, que coisa, o que é que deu na Rosa“ -  do  charmoso  regional da Renânia, "No Bósforo“, de Paul Lincke, são canções que eles sempre voltam a pedir e não demora até essas crianças com tino musical entoarem as melodias, com divertida  mutilação do texto alemão.

[...] É preciosa a ajuda que o cacique Pitá me dá neste trabalho. Com sofrível acompanhamento de Pirokaí, ele mesmo entoa os cânticos de dança dos Makuschí para o funil [do fonógrafo], também o Parischerá, o Tukúi, o Muruá, um Oarebã, somente dançado de dia, e outro, que é dançado de madrugada. Com suas vozes luminosas, agradáveis, duas meninas entoam canções envolventes, como acompanhamento da ralação de mandioca (...)



 


[...] A meu pedido, o cacique arrasta o curandeiro Katúra à cena. Inicialmente, este resiste a cantar para a ´mákina´, como todos os índios costumam chamar minhas engenhocas mágicas. Desconfiado, Katúra pergunta por que eu quero levar sua voz comigo. Eu lhe prometo presentear uma grande faca. Isso o convence,  mas desde que a gravação seja feita em todo segredo e que, depois, seus cânticos não sejam reproduzidos `às pessoas´. Provavelmente teme [expor-se e]  perder sua influência. Pitá enxota todos os visitantes da maloca [...]  – in:  Theodor Koch-Grünberg,  Do Roraima ao Orinoco, edição alemã, 1917, vol. I, 51-53

"O que devo relatar sobre os dias seguintes ? Eles foram belos, também de paz, não menos laboriosos, é certo, como na minha primeira estada em Koimélemong. – Contudo, não foram os ´selvagens´ que nos fizeram sofrer, nem os mosquitos, que a cada dia surgiram em menor número. Não - foi uma das mais modernas conquistas da civilização, há vinte anos sequer imaginada pelos exploradores – o Kinematógrapho!


Kynematographo

Carregar sua pesada caixa, é um suplício diário e, de entrada, esforço aparentemente inócuo. Apesar de observarmos atentamente as recomendações, a película costuma emaranhar-se após alguns metros. A exposição à luz torna este pedaço de filme imprestável, tendo que ser cortado e queimado, para que os índios não cometam besteira com a sobra [tóxica]. Generosas, essas pessoas aguardam pacientemente debaixo de calor tórrido, suspendem respeitosamente suas danças e seus afazeres, até que eu consiga carregar um novo chassis.  Eu retomo a manivela e a geringonça trava novamente. Assim, muito material, tempo e paciência são desperdiçados. Sem perda de tempo, após sua impressão os filmes têm de ser retirados do chassis, embalados em folha de alumínio e acondicionados em latas metálicas. Quase nu, estou alapado na barraca improvisada de câmara escura, tomando um banho turco, na acepção mais aleatória do termo, pois do lado de fora já se faz meio-dia com 35 graus à sombra. Freqüentemente, só conseguimos repousar muito depois de meia-noite e, mesmo dormindo, continuamos a manivelar [o cinematógrafo]...

(...) Estou completamente estendido no chão, que reflete um calor de chapa de fogão.  Observo as brincadeiras das crianças, ou converso com meninas e mulheres inteligentes, que tomam aulas de alemão comigo. Elas quase torcem a língua na tentativa de repetir a fonética das pesadas palavras, que lhes parecem duras, devido à profusão incomum de consoantes. Suas divertidas gargalhadas parecem não ter fim. Querem saber o nome de tudo em alemão: da lua e das estrelas, de todas as  partes do corpo. Elas me perguntam o nome do meu pai, da minha mãe, da minha esposa e dos meus filhos, se eu resido na montanha ou na planície, quais os animais que vivem sobre a terra, na água e no ar da minha terra natal; se lá as pessoas têm de morrer, se também existem Piasángs (curandeiros) e muito mais. Ato contínuo, me pedem para cantar.  E o cenário é como o de Uaupés. E que belas canções eu canto !  "Annemarie, wo willst du hin / Anamaria, pra onde queres ir“, ¨Saufen ist das Allerbest/ Beber é o melhor que há...“, "Ich ging mal bei der Nacht / Uma vez fui de madrugada ...“ – canções que certamente os missionários não cantam para elas! [...]" (Koch-Grünberg 1917, Vp, Roroima ao Orinoco / Do Roroima ao Orinoco, Tomo 1, 80-81).


Cenas de Taulipang (1911)


Imagens: Philips Universität Marburg, Museum für Völkerkunde Berlin

José Carlos Gallas - Tradução da "Dedicatória" (Zueignung) no Fausto de J.W. Goethe





José Carlos Gallas

Tradução da Dedicatória com a qual Goethe inicia o seu Fausto. Tentei amarrar o poeta com seus próprios decassílabos, mas o idioma português não se presta à construção de palavras compostas, e assim tive de ir até ao limite máximo de sílabas métricas permitidas pela boa sonoridade, os dodecassílabos. Onde sobrar ou faltar algum rabinho para tanto, aí estará o limite dos meus cuidados. Não estão perfeitos, os versos traduzidos, mas também não suficientemente ruins para que aos tupiniquins fiquem perdidos.


ZUEIGNUNG
(J.W. Goethe –  Faust. Der Tragödie erster Teil).

Ihr naht euch wieder, schwankende Gestalten,
Die früh sich einst dem trüben Blick gezeigt.
Versuch ich wohl, euch diesmal festzuhalten?
Fühl ich mein Herz noch jenem Wahn geneigt?
Ihr drängt euch zu! Nun gut, so mögt ihr walten,
Wie ihr aus Dunst und Nebel um mich steigt;
Mein Busen fühlt sich jugendlich erschüttert
Vom Zauberhauch, der euren Zug umwittert.


DEDICATÓRIA
(J.W. Goethe – Fausto, Primeira Parte da Tragédia).

De novo vos mostrais, figuras  vacilantes,
Que noutro tempo meu olhar turvado vira.
Mas devo então tentar reter-vos como dantes,
Quer-vos inda meu coração, que já delira?
Impondes-vos! Bem seja, restai presentes,
Qual vapor e névoa que a meu entorno gira;
Meu peito sente-se juvenil e agitado
Do mágico sopro que convosco é chegado.

Ihr bringt mit euch die Bilder froher Tage,
Und manche liebe Schatten steigen auf;
Gleich einer alten, halbverklungnen Sage
Kommt erste Liebe und Freundschaft mit herauf;
Der Schmerz wird neu, es wiederholt die Klage
Des Lebens labyrintisch irren Lauf,
Und nennt die Guten, die, um schöne Stunden
Vom Glück getäuscht, vor mir hinweggeschwunden.

Junto a  imagem trazeis de dias tão felizes;
Surge de novo a sombra vaga, esmaecida,
Qual prisca saga que com  incertos matizes
Jovens amores traz e amizade esquecida;
E renova-se a dor que repete os sofreres               
Do labirínteo, incerto percurso da vida.
E nomeia as almas que da sorte enganadas,
Roubadas suas horas, de mim foram levadas.

Sie hören nicht die folgenden Gesänge,
Die Seelen, denen ich die ersten sang;
Zerstoben ist das freundliche Gedränge,
Verklungen, ach! der erste Widerklang.
Mein Lied ertönt der unbekannten Menge,
Ihr Beifall selbst macht meinem Herzen Bang,
Und was sich sonst an meinem Lied erfreuet,
Wenn es noch lebt, irrt in der Welt zerstreuet.

Já não escutarão meus cantares seguintes
As almas para as quais os primeiros cantei.    
Varrida está a amistosa multidão de antes,
Idos, ah!, os ecos primeiros! Eu bem sei
Que meu canto se eleva à multidão das gentes;
Mesmo seu aplauso, por que o temo, dizei?
E aqueles que antes escutavam  meus versos, 
Se vivos estão, pela terra andam dispersos.

Und mich ergreift ein längst entwöhntes Sehnen
Nach jenem stillen, ernsten Geisterreich,
Es schwebt nun in unbestimmten Tönen
Mein lispelnd Lied, der Aeolsharfe gleich,
Ein Schauer fasst mich, Träne folgt den Tränen,
Das strenge Herz, es fühlt sich mild und weich:
Was ich besitze, seh ich wie im Weiten,
Und was verschwand, wird mir zu Wirklichkeiten.

Me invadem saudades há muito não sentidas
Daquele silente e sério reino d’empós;
Eleva-se agora em notas indefinidas,
Qual da harpa eólica, minha trêmula voz;
Junto novo pranto às lágrimas já vertidas,
E o peito rude leve trago, já não algoz:         
O que possuo me parece que se evade, 
E as coisas idas tornam-se realidade.


J. C. Gallas Patow

Veja o Faust (1926) expressionista de F. W. Murnau

24 setembro 2011

A internet está matando a arte de contar estórias

November 5, 2009

The internet is killing storytelling

Narratives are a staple of every culture the world over. They are disappearing in an online blizzard of tiny bytes of information


Click, tweet, e-mail, twitter, skim, browse, scan, blog, text: the jargon of the digital age describes how we now read, reflecting the way that the very act of reading, and the nature of literacy itself, is changing.

The information we consume online comes ever faster, punchier and more fleetingly. Our attention rests only briefly on the internet page before moving incontinently on to the next electronic canapé.
Addicted to the BlackBerry, hectored and heckled by the next blog alert, web link or text message, we are in state of Continual Partial Attention, too bombarded by snippets and gobbets of information to focus on anything for very long. Microsoft researchers have found that someone distracted by an e-mail message alert takes an average of 24 minutes to return to the same level of concentration.
The internet has evolved a new species of magpie reader, gathering bright little buttons of knowledge, before hopping on to the next shiny thing.

It was inevitable that more than a decade of digital reading would change the way we do it. In a remarkable recent essay in the Atlantic Monthly Nicholas Carr admitted that he can no longer immerse himself in substantial books and longer articles in the way he once did. “What the net seems to be doing is chipping away at my capacity for concentration and contemplation,” he wrote. “My mind now expects to take in information the way the net distributes it: in a swift-moving stream of particles.”

If the culprit is obvious, so is the primary victim of this radically reduced attention span: the narrative, the long-form story, the tale. Like some endangered species, the story now needs defending from the threat of extinction in a radically changed and inhospitable digital environment.
Last year Hollywood veterans and scientists from the Massachusetts Institute of Technology teamed up to create a laboratory aimed at protecting the traditional tale from oblivion: the Centre for Future Storytelling. However ludicrous that may sound, they have a point. Storytelling is the bedrock of civilisation. From the moment we become aware of others, we demand to be told stories that allow us to make sense of the world, to inhabit the mind of someone else. In old age we tell stories to make small museums of memory. It matters not whether the stories are true or imaginary.
The narrative, whether oral or written, is a staple of every culture the world over. But stories demand time and concentration; the narrative does not simply transmit information, but invites the reader or listener to witness the unfolding of events.

Stories introduce us to situations, people and dilemmas beyond our experience, in a way that is contemplative and gradual: it is the oldest and best form of virtual reality.
The internet, while it communicates so much information so very effectively, does not really “do” narrative. The blog is a soap box, not a story. Facebook is a place for tell-tales perhaps, but not for telling tales. The long-form narrative still does sit easily on the screen, although the e-reader is slowly edging into the mainstream. Very few stories of more than 1,000 words achieve viral status on the internet.

Meanwhile, a generation is tuned, increasingly and sometimes exclusively, to the cacophony of interactive chatter and noise, exciting and fast moving but plethoric and ephemeral. The internet is there for snacking, grazing and tasting, not for the full, six-course feast that is nourishing narrative. The consequence is an anorexic form of culture.

Plot lies at the heart of great narrative: but today, we are in danger of losing the plot. Paradoxically, there has never been a greater hunger for narrative, for stories that give shape and meaning to experience. Barack Obama was elected, in large measure, on the basis of his story, the extraordinary odyssey that begins in Hawaii and ends in the White House, taking in Chicago and Kenya along the way.

The news stories that compel us are not the blunt shards of information, but those with narrative: the tragic mystery of Madeleine McCann; the enraging saga of parliamentary scandal; the strange decay of Gordon Brown’s premiership. Reality television, The X Factor, Strictly Come Dancing, all are driven by personal narratives as much as individual talent.

Our fascination with other people’s stories is as great, if not greater, than any time in history. This year I am judging the Costa biography of the year award. The astonishing range of biographical writing is testament to our appetite for narrative. Reading several dozen lives, one after the other, has been fascinating, but also unfamiliar, and exhausting. Like Carr and, I suspect, many others, I too have become used to absorbing lives in Wikipedia-shaped chunks.

What is needed is a machine that can combine the ease and speed of digital technology with the immersive pleasures of narrative. It may not be far off. Japan has recently seen an explosion in the popularity of thumb novels, keitai shosetsu, book-length sagas that can be uploaded to the screen of your mobile phone, one page at a time.

These mobile telephone tales are written in the language of the net: scraps of text-speak, slang and emoticons, but these are still unmistakably narratives, stories with a protagonist, a beginning and an end. They are also hugely popular: sales of books in Japan are dropping, but half the Top Ten fiction bestsellers started on mobile telephones. Here is proof that the ancient need for narrative, hardwired into human nature, can sit comfortably with the wiring of the newest technology.

Narrative is not dead, merely obscured by a blizzard of byte-sized information. A story, God knows, is still the most powerful way to understand. In the beginning was the Word, and the Word, in the great narrative that is the Bible, was not written as twitter.

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Manoel de Andrade - Amazônia


Manoel de Adndrade


Antes da pátria, eras úmida promessa…

semente primordial
árvore mãe

planta continental
arvoredo, floresta, selva palpitante.

Hoje canto tua vertical beleza
o mogno gigantesco, sua estatura secular
seu colossal diâmetro
canto essa caudalosa geografia
essa multidão de vidas que sustentas
canto o itinerário sazonal da seiva
e essa infinita linfa…
parto de infinitas criaturas.
Canto teu verde planetário

e no teu imenso respirar,
canto o nosso pão de oxigênio…
Canto a ti… Amazônia
bosque inquietante da esperança…
e eis porque denuncio esse machado cruel sobre teu peito…
essa fruta milenar, dia a dia devorada.

Antes da grande nação…já eras tu…
a nação primogênita
filha dos filhos da mata.
A infância da pátria foste tu,
sílaba aborígine, idioma tupi
cerâmica, canoa e tacape
ritual, dança e canção.
Foste tu a raiz, sangue ameríndio
o parto da nacionalidade.
Hoje canto os povos da floresta
e o desencanto dessa memória esquecida.
Falo de sobreviventes
de tribos desgarradas
de aldeias tristes
de sonhos desmatados
de segredos e tradições pirateadas
das águas lavadas na bateia do mercúrio.

Amazônia….Amazônia…quem deterá o teu martírio
uma vida tão diversa num adverso viver…
Falo dos teus hectares de sangue
da lâmina cruel, da pira ardente
dessa cartilha de serras, rifles e archotes
dessa morte plural
na diversidade de aves e primatas
roedores, felinos e serpentes.
Falo de uma terra de cepos
de raízes degoladas
de caules retalhados
de castanheiras preservadas… a morrer de solidão.
Falo da linha negra do fogo
e desse cemitério de troncos defumados.

Falo da floresta sitiada
por uma legião de máquinas assassinas
falo de estradas e picadas clandestinas
de súbitas clareiras
desse assalto interminável… lento e invisível.
Falo de grileiros, posseiros, garimpeiros, bandoleiros
e de terras demarcadas sob a mira das pistolas.
Falo de dragas e crateras
das águas manchadas e dos rios estropiados.
Falo da vida degradada pelas pastagens da ambição.

Amazônia…Amazônia…
com que verde vestiremos nosso mapa
acuados pelo apetite voraz das motosserras,
por uma fronteira incinerante que avança insaciável.
Acuados pelo gatilho mercenário da violência
e pelo estigma oficial da impunidade.

Passo a passo e esse avizinhar-se do colapso…
quantos fóruns se abrirão para “resolver” essa tragédia!?
Crimes silenciados na cumplicidade regional dos gabinetes…
gritos sem eco nas vozes da omissão…
acenos sem resposta nos protocolos renegados…
e o poder dos maiorais contra tudo o que respira.

Deixaste ali teu heróico testemunhoteu seringal sagrado
teu rosto solidário.
Contigo… caiu o tronco ensangüentado…
Tua alma…teu nome…Chico Mendes,
sobrevivem em deslumbrante hiléia,
na invisível bandeira das espécies
e na memória da pátria agradecida.

Depois chegaste tu…Dorothy Stang…
estrangeira, franzina e destemida
desafiando víboras e chacais
e defendendo a floresta com a paz do nazareno.
Em Anapu ergueram teu calvário
mas hoje ergo aqui, no jardim humilde da poesia,
a tua estátua de missionária imperecível.

Amazônia… Amazônia…
Quantos ainda cairão para que sobrevivas?
Com que vozes cantaremos a esperança
enlutados pela ausência dos que ousaram manter suas denúncias?
quem te fará justiça?
quem suspenderá esse cerco que te aperta lentamente?
como conter teu holocausto
e a agonia silenciosa das espécies?
E eis porque canto o desencanto da árvore secular que tomba
e essa sinistra paisagem de troncos decepados…
E falo da imensa copa baqueada…
seus frutos, seus aromas
remédios e resinas,
seus colares e adereços…
Falo de samambaias e orquídeas
de cipós e de bromélias agonizantes.
De garras, patas e plumagens…
de berços destroçados, de ninhos mortos
e dessa maternidade em lágrimas.

Falo do patrimônio ambiental da pátria
da grilagem descarada
de negociatas e falsos documentos.
Falo da destruição diária e sorrateira
de pastagens criminosas
e de uma ingrata agricultura.
Falo da natureza usada e abandonada
de uma terra arrasada
e de um deserto verde que cresce…dia a dia.

Eis tu…e eu te chamo legião…
o mundo te observa e nos pergunta: por quê???
e todos nos perguntamos: até quando???
os que irão nascer perguntarão quem foste tu e por que tanto desamor…
os céus vigiam teus passos,
rastreiam teus crimes
e a tua sombra imensa que avança para o norte…
Sabem de ti o rei e os seus vassalos…
conhecem teus látegos de aço
tua tocha incendiária
teus cúmplices e tuas vítimas
tuas mãos manchadas com o sangue da floresta…
Somos os que te acusamos
nessas sementes queimando
nessas pétalas feridas
nesses pássaros sem ninho…
Somos os que assistimos, impotentes, esse indigesto banquete,
tua dieta vegetariana
e a euforia com que brindas o lucro e o bom negócio
nessa taça transbordante de cinzas, de sangue e de lágrimas…

Amazônia… Amazônia… sem lei, sem testemunhas…
e essa oficial improvidência…
Nada que te ampare…
nada..
Talvez um vento reverso
uma chuva perene que apague essa queimada.
Talvez um decreto impossível
uma lei implacável
a mão de Deus, quem sabe…
a espada da justiça pra sangrar os que te sangram…
algo que feche essa ferida
algo que estanque essa agonia.
Quem sabe, o refluxo imperdoável do teu próprio martírio…
uma malária cruel…
algo que empeste essa ganância…
antes… bem antes
que essa segunda geração de abutres choque também os seus filhotes.

21 abril 2011

Frederico Füllgraf - EnsaioCarta para Nina Hoss


Ensaio

Querida Nina,
acabo de republicar uma breve crônica sobre aquela tarde de domingo na casa de vocês, em Stuttgart, poucos dias após o fatídico acidente em Chernobyl. Soa inacreditável, mas depois desse tempo todo, as sensações descritas na crônica estão presentes como se houvessem ocorrido ontem. Você era uma colegial, mas recordo que já era uma garota muito bonita e, como filha única da Heyde e do Willy, muito paparicada (não negue!)
Não tenho certeza se você conseguirá ler essas mal escritas em português, salvo que seu pai, que em seus últimos anos de vida mais incursionava pela indomada Amazônia do que pelos bem-criados bosques de Stuttgart, lhe tenha ensinado algumas noções do meu idioma. Movido por essa incerteza, vou tentar lhe fazer chegar uma versão para o alemão dentro de algumas semanas. Até lá, tenha paciência, eu quase ia dizendo, como se você não tivesse outra coisa a fazer.
Você deve estar pensando que é de mau augúrio começar essa carta com a referência àquele nefando acidente nuclear. Com o que você tem quase toda razão. Mas foi a última vez que vi você em carne e osso, entende? Porque depois nos perdemos de vista. Obviamente, para você eu fui sempre o viajante que chegava de um país exótico e que discutia os desígnios do planeta, com seu pai. É verdade – nossas conversas não ficavam por menos, não eram modestas.
Porém, com sua mãe, que conheci através da Katrin, eu também tive algumas conversas das quais muito aprendi. Se bem recordo, você estava presente num daqueles finais de tarde, quando abancados ao redor da mesa da cozinha, na casa de vocês, a Heyde disse que o Príncipe de Homburg, do Kleist, seria um papel no qual ela adoraria me dirigir. Claro que você conhece a estória, uma novela de capa e espada: na Batalha de Fehrbellin, em 1675, o príncipe, sem consultar seus superiores, ataca as linhas inimigas e vence a batalha. Acusado de insubordinação, na corte marcial ameaçam-no com o paredão: fuzilamento sumário. Naquela peça, Kleist discutia o dogmatismo e a cegueira castrense diante da espontaneidade e criatividade, humanas, incapazes de vislumbrarem exceções e honrarem a quebra de disciplina realizada com propósito nobre e ainda por cima exitosa.
Mas cá entre nós: vinte e cinco anos depois, confesso que jamais entendi a indicação daquele papel por sua mãe. Prussiana, ou – para usar uma palavra que os leitores daqui entendem sem pestanejar - “Caxias” que ela era (ou ainda é?), talvez a Heyde cogitasse que eu deveria logo me submeter ao aprendizado de um teatro de gente grande - clássico, solene, essas coisas. Acho que ela estava coberta de razão: antes de me meter no palco num papel do Heiner Müller era preciso ir para a escola; Stanislavsky, Lee Strasberg, assim por diante.  Porém, que tal se naquele convite ela estivesse articulando uma metáfora, melhor dizendo: uma indireta? Bem, fico até sem jeito, porque você pode não ter percebido, mas ocorre que numa visita anterior, quando fui hóspede de vocês, eu passei uma ou duas noites “fora de casa”. Quero dizer, na casa da Katrin. Ausência que a Heyde poderia ter entendido como “quebra de disciplina”. Pespicaz, né? Mas vá entender aquele papel!
O  que estou tentando dizer é que deveria ter levado a sério o convite de sua mãe e, depois daqueles primeiros anos após o fim da ditadura, aqui, retornado de malas e cuias para a Alemanha. Estou falando do meu namoro com a profissão de ator. E se arrependimento doesse, Nina, eu juraria que estou sangrando até hoje! Todavia, naqueles dias eu estava me tornando pai e era meu dever retornar ao Rio. Algumas vezes matutei se não retornei a Stuttgart por covardia. Talvez, sim, mas só em parte. Hoje tenho certeza que o que me prendeu aqui foram minhas infelizes ilusões em relação ao Brasil.
Mas espere – o que eu queria dizer mesmo, e venho adiando isso há mais de dois anos, é que fiquei muito contente com aquela foto na qual você segura na mão o Urso de Prata, o grande prêmio do Festival Internacional de Cinema de Berlim! Cheguei a mostrá-la a alguns amigos. Olhem - essa garota eu conheço desde pequena!
Nossa - como senti orgulho!
Entretanto, sabe por que mais eu quis escrever essa carta? Porque você foi muito corajosa ao aceitar e desempenhar o papel da “Anônima”. A propósito, esqueci de lhe contar que entre um modesto filme e outro, quando transcorrem dois, três, ou quatro anos na busca de financiamento, tenho me desempenhado como tradutor. Talvez você tenha lido “Jeder stirbt für sich allein”, de Hans Fallada. Sua mãe com certeza o leu. Narra a luta solitária de um operário berlinense e sua esposa contra a ditadura hitlerista. Durante dois anos eles distribuem cartões de protesto nas soleiras das portas de consultórios médicos e escritórios de advocacia, em Berlim Mitte, até serem identificados pela Gestapo e decapitados em 1942, na prisão de Plötzensee. Pois bem, minha versão para o português, “Sós, em Berlim”, está prestes a ser lançada aqui no Brasil, pela Editora Record.
O que meu trabalho tem a ver com o seu? Pois veja! Por um acaso desses da vida, quando vi sua foto na Internet, eu tinha acabado de ler o livro da “Anônima”. Numa péssima tradução, diga-se, com erros bestificantes, expressão de desmedida preguiça e dos mistifórios do tradutor. Como dizia o Pentateuco da Bíblia Medieval Portuguesa, “[...] e entom destruiu nostro Senhor a torre, e departiu a cada hum sua voz propria, porém foi chamado aquel logar Babilonia, que quer dezer confondimento”. Foi o que senti ao ler a versão em português do texto adaptado para o filme do qual você é protagonista. Aliás, Kurt Marek, que celebrizado como C.W.Ceram foi publisher da versão americana do livro, sempre soube quem era sua autora, mas Marta Hillers conseguiu preservar seu anonimato até a morte. Por acaso ocorrida nestes últimos anos.

Outro motivo para a presente é que, quando vi sua foto rodando o mundo, eu tinha acabado de assinar o contrato sobre um romance. Seu protagonista é um combatente alemão que é preso após a queda da “fortaleza de Breslau”, e levado para um campo de prisioneiros de guerra em Tula, nas profundezas da União Soviética. De onde consegue escapar e depois emigrar para o Brasil. Jamais imaginei que esse tema me atraísse, porém, como teria dito Leon Trótski, "você pode não estar interessado em guerra, mas a guerra está interessada em você!”. Adágio que tem tudo a ver com a “Anônima”, que, do ponto de vista feminino, relata os últimos dias daquela carnificina e o horror dos primeiros dias da “libertação”.
Quando assinei o contrato para escrever o romance, eu tinha a estória do sujeito, mas me faltava a moldura. Então comecei a pesquisar. Ao cabo de uns quatro meses acabei acumulando 5,0 GB de material arquivo, o que, por baixo, deve significar algo em torno de uns seiscentos livros com trezentas páginas cada. Certo dia, deparei-me com a história das caravanas que em fevereiro de 1945 fugiam da Prússia Oriental e passavam por Breslau. Eram 1,5 milhões de mulheres, crianças e velhos correndo à frente dos tanques soviéticos.
Os exércitos de Hitler tinham derramado muito sangue, empreendido uma campanha de extermínio nas nações eslavas. Quando em 1943 a relação de forças inverteu-se a favor da União Soviética, temia-se uma terrível revanche. Por isso, em sua ordem do dia № 55, Stálin havia dito: “Às vezes circulam boatos de que o Exército Vermelho tenha por objetivo exterminar o povo alemão... Seria ridículo confundir o Povo alemão, o Estado alemão, com a corja de Hitler. A História ensina que os Hitlers da vida vêm e voltam, mas o Povo alemão, o Estado alemão, são permanentes”. As tropas de Stálin, contudo, tinham um entendimento assaz diferente da mensagem conciliadora do chefe de governo. Jornalistas, poetas e escritores alistados no Exército Vermelho trataram de jogar lenha na fogueira durante o avanço de suas colunas. ”Os alemães não são seres humanos... Para nós não existe nada mais divertido do que cadáveres alemães”, vociferou Ilya Ehrenburg.
“Com três semanas de guerra em território alemão, nós sabíamos: fossem alemãs as garotas, e qualquer um de nós tinha o direito a violá-las, em seguida executá-las. Atos que por pouco eram entendidos como ações de combate...”, escreveu um jovem capitão da tropa chamado Alexander Solchenizyn. Esse mesmo, de “O arquipélago Gulag”. Em seu poema, “Noturnos da Prússia Oriental”, lê-se em livre tradução, minha:
“Vinte e dois da Höringstrasse.
Nenhum incêndio ainda, mas rudemente pilhado.
Através da parede – um gemido sufocado:
Com vida encontro apenas a mãe.
Foram muitos sobre o colchão? Um destacamento, um pelotão?
Que diferença faz! A filha – criança ainda, morta no ato.
Tudo com a facilidade do jargão:
NADA ESQUECER!
NADA PERDOAR! SANGUE POR SANGUE!
E dente por dente.
Quem donzela ainda, mulher será feita,
e o mulherio – cadáveres em breve.
Toda embotada já, olhos sangrando, implora:
´Mate-me, soldado!´...”.

Desde tenra infância eu me lembrava ter ouvido burburinhos sobre as selvagerias cometidas contra as mulheres, mas não as conhecia em detalhe. E preciso te dizer que me senti enojado à medida que a leitura dos testemunhos avançava. Eu gostaria muito de ver logo seu filme para entender como o roteirista, o diretor e você resolveram os desafios colocados pelo material. Numa reprodução de sua introdução a “Anônima”, publicada em 01/05/2002, no Guardian, Anthony Beevor cita os depoimentos de duas mulheres russas sobre as violações em massa. A primeira, uma garota de 21 anos, do batalhão de reconhecimento de Agranenko, desconversou: “O comportamento de nossos soldados em relação aos alemães, particularmente as mulheres alemãs, é absolutamente correto!”. Já Natalya Gesse, amiga íntima do cientista Andrei Sakharov, e correspondente de guerra durante a campanha soviética, disse coisa completamente diferente: “Os soldados russos estavam violando qualquer mulher alemã, dos oito aos oitenta [...] Foi um exército de violadores”, ela fulminou.

Bebidas de qualquer natureza, inclusive soluções químicas perigosas, desviadas de laboratórios e oficinas, segundo Beevor foram fator agravante da violência hedionda. “Parece que os soldados soviéticos necessitavam de coragem para atacar mulheres”, adverte, ajuntando: “Mas então, muito frequentemente, bebiam demais e, incapazes de completar o ato, usavam a garrafa com efeito arrepiante. Muitas vítimas foram mutiladas obscenamente”.
Crimes mais bestiais e abjetos, porque perpetrados contra cerca de quinhentas moças conscritas na Frente do Trabalho, durante os dias 16, 17 e 18 de fevereiro de 1945, no campo de Vilmsee, foi o que testemunhou a brasileira, Leonora Cavoa, nascida em 22 de outubro de 1925, em São Paulo, cujo sobrenome de casada mudara para Geier. Leonora, que dizem estar viva e quem estou tentando localizar, foi obrigada a testemunhar cenas para as quais durante muitos dias procurou palavras. Leia: “The Commissar told me to watch and learn how to turn the Master Race into whimpering bits of misery. Now two Poles came in, dressed only in trousers, and the girls cried out at their sight. They quickly grabbed the first of the girls, and bent her backwards over the edge of the table until her joints cracked. I was close to passing out as one of them took his knife and, before the very eyes of the other girls, cut off her right breast. He paused for a moment, then cut off the other side” […]
Ainda segundo Beevor, estimativas do número de violações praticadas contra mulheres que deram entrada nos dois principais hospitais de Berlim, em meados de 1945, vão de 95 mil a 130 mil. Um médico citado deduziu que das 100 mil mulheres, “em média”, brutalmente violadas e desfiguradas, cerca de 10 mil morreram em consequência do choque e das mutilações. Ou suicidaram-se.

Muitas pessoas voltam a perguntar-se se não dá para comparar o genocídio das Einsatzgruppen de Heinrich Himmler, como a fuzilaria em Babi Yar (34 mil judeus executados em uma semana), com as violações em massa perpetradas pela soldadesca russa durante a ocupação do Reich em ruínas. Durante a guerra fria essa comparação de motivações era considerada moralmente ilícita. Abertos os arquivos, cá e lá, a percepção mudou. Mas na minha opinião a comparação não procede: o genocídio nazista foi um projeto premeditado, amplamente discutido pelo círculo fechado de Hitler, e praticado com cínica eficiência industrial. As violações em massa soviéticas foram a evocação da vingança. Em sua prática, às vezes até mais hediondas. E não men os cínicas. Como resposta acachapante, hoje ainda, veteranos soviéticos decrépitos fanfarroneiam sua versão descarada: “Todas elas [“as mulheres alemãs”] erguiam seus vestidos para nós e deitavam na cama [...] Dois milhões de nossos filhos foram paridos na Alemanha”.

Violação, diz a historiadora Susan Brownmiller, é o ato do conquistador que enfatiza sua vitória sobre o inimigo apropriando-se do corpo de suas mulheres. Nenhuma novidade: da campanha de Alexandre Magno à Guerra do Vietnã, mulheres de todo o mundo foram violentadas e trucidadas com requintes de crueldade estupidamente descritos como “animalescos”. Estupidamente, porque a animália conserva o instinto da dignidade, não conhece a humilhação. Ao contrário, o gênero humano. 

Mas então como explicar o alerta emitido pelo comitê central da juventude soviética, Komsomol, de 29 de março de 1945, a Malenkov, braço direito de Stálin, reportando-se a um relatório do Gen. Tsygankov, do 1º. Front Ucraniano? Um entre sem número de casos, nele lia-se: “Na madrugada de 24 de fevereiro, um grupo de aspirantes a tenente em curso de instrução, liderado por seu comandante, invadiu o dormitório feminino na vila de Grutenberg, e violou todas as mulheres”. Naquelas semanas, as notícias de violações em massa começavam a minar seriamente as tentativas do regime soviético de justificar o comportamento de seus exércitos como estouro de boiada após as atrocidades cometidas pelos exércitos nazistas em solo russo. Três meses depois, na Alemanha, foi a vez do novelista Vasily Grossman de sentir-se chocado. Integrando a campanha como correspondente do jornal do Exército Vermelho, também percebeu que as violações sequer se detinham diante das mulheres nas próprias fileiras. Ou libertadas. Jovens polonesas, russas, bielorrussas e ucranianas, deportadas à Alemanha como trabalhadoras forçadas, foram violadas e curradas às milhares. “Uma garota contou-me, às lágrimas – ´ele era um homem velho, mais velho que meu pai!´”.

“Bom número de outras energias ou influências estavam a operar”, escreve Beevor. “Liberdade sexual havia sido assunto de acalorados debates nas fileiras do partido comunista durante a década de 1920, mas na década seguinte Stálin fez tudo para que a sociedade soviética se percebesse como virtualmente assexuada. Isso não tinha nada a ver com puritanismo genuíno, mas foi porque amor e sexo não se encaixavam no dogma desenhado para ´des-individualizar´ o indivíduo”. Necessidades e emoções humanas tinham imperiosamente que ser suprimidas. A obra de Freud foi banida (minha nota: à guisa de comparação, na mesma época, na Alemanha nazista a psicanálise foi combatida como “ciência judaica”). Adultério e divórcio foram objeto de rigorosa desaprovação do partido, e o homossexualismo enquadrado como crime social. A doutrina stalinista estendeu-se à completa supressão de qualquer forma de educação sexual, praticada pelos socialistas libertários antes da revolução de 1917. Com uma pitada de ironia é preciso imaginar que nas artes gráficas eram rigorosamente fiscalizados até mesmo os contornos dos seios de uma mulher vestida, tidos como perigosamente eróticos. Tinham que ser disfarçados debaixo de alguma peça de roupa. Porque o regime “tencionava claramente a conversão de qualquer forma de desejo em amor pelo partido e, acima de tudo, pelo Camarada Stálin”.

Com sua introdução, Beevor disse quase tudo. Mas não disse o mais importante, porque sua abordagem se faz do ponto de vista do macho violador, e não da mulher violada. Por isso, James W. Messerschmidt, da University of Southern Maine (“The forgotten victims of WW II: masculinities and rape in Berlin, 1945”) adverte que o insight mais dramático na abordagem da violação é que ela destrói a integridade feminina, negando à vítima a vontade própria de engajar-se ou não no ato sexual. “Ao negar-lhe essa liberdade, o violador cria condições de domínio, controle e subordinação. Em outras palavras: os motivos dos violadores do Exército Vermelho à parte, o ato de violação é em si mesmo um fenômeno de dominação, desvalorização e violência. E como observou a autora dos diários [“Anônima”], os soldados soviéticos não escolhiam as mulheres ´mais atraentes´ para vitimizar – ´para eles, qualquer mulher o faria´. E de fato, os violadores do Exército Vermelho vitimizaram até mesmo mulheres judias que exitosamente tinham evitado sua captura pelos nazistas [...]”.  
No episódio referido por Messerschmidt, enquanto a mulher, que gritava “mas eu sou judia, eu sou judia!”, era estuprada por uma fila de soviéticos, seu marido, que tentara defendê-la, definhava numa poça de sangue. Baleado. Vocês filmaram essa cena?
Bem, querida Nina, a modesta epístola imaginada acaba de virar novela, e a releitura da história sempre teve o poder de revirar estômagos, tal seu asco. Assinados os acordos de paz, os governantes que sucedem as carnagens, abraçam-se, derramam algumas lágrimas fotogênicas para as câmeras e anunciam uma nova era da reconciliação. E seus povos que se danem. Porque ficam abandonados às suas lembranças, de parte a parte remoendo pesadelos e ressentimentos.

Que você tenha tido a coragem de mergulhar nesse túnel fantasmal do tempo, vestindo a camisa da “Anônima”, é um ato de coragem que merece um prêmio aquém ou além das telas.

Cá com meus botões fiquei pensando em te fazer um convite. Um papel bonito num dos meus projetos em gestação. Você ouviu falar de uma mulher chamada Pola Bauer-Adamara? Na mesma época, dos anos 1920, em que Paul Bowles publicava “O céu que nos protege”, ela acompanhou seu marido numa expedição à Amazônia. E me assaltou a acachapante analogia com a tragédia filmada por Bertolucci porque ela cai como luva na estória de um bando de alemães. Estória que começa com bebedeiras num café, em Berlim. Ali, um tal Artur Heye, dândi e aventureiro dublê de escritor, reuniu um grupo de cineastas, dos quais se destacava o veterano da UFA, August Brückner, casado com Pola Adamara. Estavam também o câmera, Adalbert Bittner, boêmio e alcoólatra, e sua mulher, e os irmãos Eichhorn. O projeto de Heye consistia de uma série de filmes “culturais“ para a UFA, e o grupo desembarcou em Belém do Pará, a cidade cuja universidade concedeu o título de Dr. Honoris Causa a seu pai – lembra? Mas a UFA não disponibilizou o dinheiro todo que necessitavam, o principal foi financiado por um primo rico da esposa de Heye. E sob o calor de 40ºC começaram os problemas: com o sol na moleira, a sra. Bittner estava às bordas de um ataque de nervos. Artur Heye, que era hepático, era só maus bofes. O profissional Brückner estava com pressa para trabalhar, mas o primo rico retém a grana. Enquanto isso, frustrado, Adalbert Bittner afogava sua decepção na cachaça. E então ocorre a grande separação no meio da mata: o primo rico e avaro toma o primeiro avião de volta à Alemanha; Brückner, sua esposa e os Eichhorn, acompanhados do indigenista Curt Nimuendaju Unckel, rumam às cabeceiras do Amazonas, mas os Heye e os Bittner decidem permanecer em Belém. Impiedoso, o destino desata a catástrofe: Bittner definha de uma cirrose em Belém, enquanto na fronteira com o Peru, Brückner é vitimado por uma misteriosa intoxicação. Feito o barco de Holofernes, das profundezas da Amazônia, Nimuendaju conduz uma canoa em direção a Belém, para salvar a vida de Brückner. Mas não consegue. Brückner não resiste. Sepultada a segunda vítima da equipe, Pola Adamara – e esta é você! - retorna à selva com Nimuendaju e conclui o filme do marido – Urwaldsymphonie, a “sinfonia da selva”. A propósito – você tem algum primo rico?
Beijos,
Frederico



Nina Hoss ao receber o Urso de Prata
do Festival Internacional de Cinema de Berlim
por seu papel protagonista em
"Anônima - Uma mulher em Berlim" (2008)

Link para o trailer do filme