18 julho 2017

Frederico Füllgraf - A visitadeira




Conto


Hoje ela não veio. 

Distraí-me com o mundo durante o dia, mas à noite senti sua falta. 


Não, não é em A. que estou pensando, dela não sinto falta. Libertei-me de seus arroubos frívolos de falsa transparência, suas conspirações e fingimentos. Deve pensar que a forma mais insidiosa de vingança seja meu silêncio, que a oclusão do amor é viver a mortal indiferença do outro. Mal sabe ela, que os que abrem mão do lar, são melhores adivinhos dos pensamentos alheios; os de Deus inclusive. 


Mas onde andará a"outra"? 


Ainda vagará pelas ruas nestas horas do recolhimento? 


Seu desaparecimento me humilha: e se estiver dividindo sua intimidade com outra pessoa? 


Na verdade preocupa-me seu bem-estar: poderia ter sido atropelada, ferida – e se estiver morta? Estou aflito: não há como procurá-la, não sei o seu nome, que deriva de sua compleição e hábitos. 


Vou esperá-la.


Convivemos por várias semanas, e apesar de seus modos discretos, só infra-minimamente perceptíveis, sinto máxima ausência.


Introduziu-se sem aviso, mas com delicadeza. De repente estava.

Não que fosse invasora. Ao contrário, alegrou-me muito sua presença.

Inopinadamente, graciosamente, brindou-me sua companhia, neste refúgio onde não se falava a não ser em pensamento. Obsessiva no início, ela corria desnorteada de um lado para outro, como se estivesse seguindo o traçado confuso do mapa esfarrapado de um tesouro escondido em local secreto. Depois foi se aquietando.

Quase nos tornamos íntimos, afirmação, reconheço, algo leviana, ligeira projeção do meu afeto: era eu quem a saudava, com ela conversava enquanto passava um café. 

Egoísta, não prestei atenção aos seus sinais, dei a tagarelar, confortado pela companhia. 


E então aconteceu aquele terrível acidente, por minha culpa. 


Permito-me reproduzi-lo, com a perspectiva dela: de repente ela perdeu o chão, tenebroso marulho de placas tectônicas. Aflita, agarrou-se à ponta de uma rocha esférica e esbranquiçada, já transbordada por gigantescas ondas de espuma peçonhenta. Sentiu o fim dos tempos, manipulado por garras hiperbólicas, que baixavam dos altos. Só então a descobri suspensa entre a vida e o precipício: a seus pés, o buraco negro aguardando sua queda e a deglutição pelas entranhas da cidade. Aliviado, consegui salvá-la. Toquei-a com suavidade e ela desempenou-se com aquela cerimônia da mulher que oferece a face, para atrasar o primeiro beijo na boca, amuando-se em outro canto, mas sem pavor nem histeria. 


Comoveu-me seu respeito por minha solidão eletiva, à qual talvez estivesse associando a sua própria, dando, finalmente, algum sentido àquela genuína oferta do coração, soletrada para apenas duas (sabendo que ela jamais seria a terceira destas) mulheres em minha vida: sinta-se em casa, quero aconchegar a tua solidão. 


Senti genuína compaixão por ela.


Não que este lugar fosse um ermo ou o desterro. Digamos que seja um intermúndio orbital, cuja flamância lembraria aqueles excessos de luz no umbral da criação, embotando-lhe a vista frágil. Evitou a imensa tela rutilante, aberta sobre infinito livro de areia, com incontáveis palavras e línguas dessemelhantes, agrupadas em milhões de páginas, número sem fim de manuscritos conservados em arquivos virtuais. Aleatório, mas íntimo terminal da babélica biblioteca de J.L.Borges, que lhe devolveu a insignificância de sua minúscula estatura. 


Contudo, imenso jardim suspenso entre o passado e o espanto, seus ancestrais já se deslocavam em missões exploratórias de suas raízes, troncos e folhas. Mas elas não têm percepção do tempo, nem consciência da História - simplesmente são. 


Poupada, ela ignora meu horror à metáfora do Angelus Novus de Benjamin: História, como amontoado de ruínas; corpo enterrado vivo, sedimentado em camadas de esquecimento; Vida como tempo esvaído, irrecuperável. Relógios derretidos de Dalí.


Tempo. 


Surpreendo-me contando os dias de sua ausência. 


Abobado, converso comigo mesmo. Suportar a solidão é preparar-se para a partilha da intimidade (como é verdade também, que a solidão sói ser mais intensa em companhia de certos outros: o narcisista egóico oculta, sequestra, foge da angústia alheia).


Às vezes sou Winfried Georg Sebald, que caminha pelo litoral do sudeste inglês, numa pausada meditação sobre fenômenos tão dissimiles como Rembrandt; o acima e o abaixo das guerras aéreas; tempestades de fogo em Hiroshima, Dresden; o ciclo de vida dos arenques; a devastação das grandes florestas do mundo; a imaginação paranoica dos cartógrafos renascentistas e seu cosmo sirênico: peixes-elefante, peixes-coelho, polvos-giganta engolfando galeras nos Mares do Sul. 


Infâmia na Amazônia profunda: é JC Aranã quem pratica o holocausto de Putumayo, mas é Sir Roger Casement, o investigador, que morre na forca em Londres. 


No entanto, a melancolia é a prima criativa da depressão, e com as matérias-primas do luto histórico WG Sebald escreve a literatura da compaixão. Não concluiu suas andaduras: no verão de 2001 tem um mal-estar ao volante, o carro mergulha frontalmente num caminhão e WG emerge atônito no mundo do outro lado do mundo. O mundo do lado de cá chora a partida prematura do mais forte candidato ao Nobel, mas eu lhe invejo somente as caminhadas, nas quais trocaria Norfolk e Suffolk, pelo Namib e o deserto patagônico em Sarmiento. 


Mas agora tenho que aligeirar este peso, esta enorme responsabilidade.


E feita salva-vidas da minha borrasca, eis que ela reaparece, dissimulando a reaproximação. 


Quantas avenidas terá percorrido, evitando elefânticos pisantes, escapando da teia de quasímodos aracnídeos, do bico voraz de monstros alados, galgando muros, escalando paredes, não escolhendo outro, senão a mim? 


Ela se aproxima e se detém, alonga as patinhas traseiras, como fosse sinal de saudação e retro-agradecimento por sua salvatagem naquela tormenta: distraído, quase a mandei para o ralo com a sujeira dos pratos - o tsunami na pia!


Caminhando e despencando entre as letras, baixa e perscruta o porão alfa-numérico do teclado, brincando de esconder, bisbilhotando a combinação das minhas palavras, impedindo-me a escritura, sob pena de esmagá-la debaixo de um p de pressão ou um q. Que para sua carnadura grácil é mais que um quilograma: é t de tonelada.



Paciência esgotada, acendo um cigarro e desato o jogo de guerra dos carniceiros, no qual vale tudo: feito lança-chamas em Gaza, sopro a fumaça acre para desalojá-la dos espaços do alfabeto – e nada! 

Ela mimetizou-se, já é parte do teclado. 


Impotente, declaro o cessar-fogo unilateral e abro com delicadeza o arquivo das revelações, tentando adivinhar sua genealogia: há as açucareiras, as caçadoras, as doceiras. Divertem-me as astecas, as cabeçudas e mineiras (quando criança esmagava com o pé as odiadas cortadeiras e as proletárias carregadeiras!). 


Sentem-se irresistíveis a argentina, a cuiabana e a paraguaia. Já a formiga fatal é a saca-saia! A formiga-correição, a guaju-guaju, a morupeteca e a taioca são as guerreiras. O piolho-de-onça é sarna que não pára de coçar, e a feiticeira e a cigana leem a sorte, portanto são alvissareiras. 


E tentando imaginar o som da chiadeira, ei-la, triunfante - Margarida, minha formiga visitadeira - emergindo no canto superior esquerdo do teclado, debaixo da letra q.


Não fosse piegas e eu diria que é de querença. 

Importa que me devolveu a leveza.