06 fevereiro 2011

Frederico Füllgraf - Mauro Alice: ao mestre, com saudade

Fotos, de cima para baixo: M. Alice, 1927;
batendo claquette em "Jeca Tatu", 1960; à moviola, anos 80;
Anselmo Duarte, O,. Hafenrichter, M. Alice (dir), anos 60;
Cartazes de Mazzaroppi e Carandiru

Frederico Füllgraf


Conheci-o em 1968, quando ele estava de passagem por Curitiba, sua terra natal, onde eu era ainda um adolescente. Se bem recordo era um final de tarde friorento e úmido, típico daquelas latitudes, quando Christo Dickoff me levou até a Cinematográfica Guaíra, ao pé de cujas salas, localizadas num pavimento elevado de um sobradão, antigo, se descortinava a Praça Tiradentes, em sua babélica quadratura, traçada pela basílica menor, vendedores de bilhetes de loteria, bazares árabes, o comércio de roupas, judaico, a grande loja de departamentos, Prosdócimo, tudo escoltado pelos majestosos ipês e araucárias.

Eu trazia nas mãos um punhado de cartazes para divulgar uma mostra do Jovem Cinema Alemão, que me foram confiados pelo diretor do que anos mais tarde se transformaria no Instituto Goethe. Godard, Truffaut, Resnais estavam em nossos corações e mentes de cinéfilos como ícones devidamente assimilados da Nouvelle Vague. Mas “Junger deutscher Film” – o que era isso? Lembro-me de nosso espanto ao desenrolarmos na Guaíra, cartazes, cujos letreiros estampavam nomes tão dessemelhantes como Alexander Kluge, Volker Schlöndorff, Jean-Marie Straub entre outros.

E estudando-os com olhos lampejantes, Mauro Alice, aquele senhor bem apessoado e elegante, pareceu decolar para uma viagem no éter, resgatando em sua lembrança nomes do Expressionismo Alemão, pontificando sobre Fritz Langs e Caligaris, mas também evocando “anjos azuis” e belas pernas, tudo para mim tão intangível e fantástico, que meus olhos não queriam desgrudar dos lábios do montador. Que, ironicamente, apesar de viver em São Paulo fazia mais de vinte anos, falava com carregado e divertido sotaque curitibano, articulando as vogais como se rolasse “balas”, de canto a canto do palato, depois as mastigando com desbragado prazer – lêite quênte... e assim por diante.

Mas então chegara a hora de apresentar o motivo para a inusitada visita: será que seria possível filmar aqueles cartazes? E Mauro Alice, que viera à cidade natal para dar uma mão na edição dos cinejornais da Guaíra, do saudoso Júlio Krieger, não vacilou um instante: com uma velha Arriflex, 35mm, montada sobre um tripé, desafiou-me para dirigir os enquadramentos. Na verdade, mero ensaio de “natureza morta”, pinceladas da câmera sobre uma superfície de papel, sem cenário vivo ou atores para orientar.

Mas ali mesmo comecei a aprender o que era um “close”, um “tilt”, um “contra-plongée”, um “travelling”; noções que reforcei com a leitura de um livrinho de primeiros passos no Cinema, de Maurício Rittner, que eu teimava em decodificar no ônibus sacolejante rumo à escola. Por muitos anos aquele livrinho me acompanhou pela Europa como espécie de evangelho de iniciação, ao qual aderia a lembrança da filmagem tão singela pelas mãos de Mauro Alice.
Naqueles dias, eu ainda não tinha a menor idéia da trajetória de Mauro. Vagamente, me lembro que seu nome era associado a uma grande produtora paulista chamada Vera Cruz, em franco declínio, enquanto no final dos anos sessenta, Cinema Brasileiro para nós era sinônimo de “Deus e o diabo na terra do sol” e “Terra em Transe”.

Colegial, ainda, e freqüentador assíduo dos “filmes de arte” do Colégio Santa Maria, capitaneado pelo heróico Iwersen, o Cinema definitivamente me seduzira como promissão, embora em casa todos apostassem em meu futuro como geólogo da Petrobras. Por um fio fui desviado do chamamento, não fosse o movimento estudantil e a decisão do meu pai, assustado com a UNE, de me “tirar de circulação”.

E embarcado num cargueiro de minérios no porto de Vitória fui circular na margem oposta e boreal do Atlântico. Para desgosto da família, com uma nova turma, muito parecida.

Porém, o verdadeiro talismã carregado comigo durante as primeiras incursões no Velho Mundo foi a lata com os poucos metros de película 35 mm, revelada, que estampavam aqueles cartazes, que Mauro me ofertara como espécie de lição de casa corrigida e aprovada. Deslumbrado por seu filme, “Os artistas na cúpula do circo: perplexos” (1967) eu me obstinara que algum dia a presentearia ao diretor Alexander Kluge, como prova de minha devoção, e, como segunda intenção, cavaria uma vaga em sua equipe de produção.

Minhas circulações pelo Velho Continente, com algumas incursões na África, do Senegal até Angola, duraram treze anos. Nesse tempo, cometi alguns erros estratégicos, tais como a teimosa decisão de “estudar” Cinema na DFFB – a lendária, mas conturbada Academia Alemã de Cinema e Televisão, onde perdi preciosos anos assistindo aulas, intermináveis e soníferas, de “estética marxista” (na verdade deslavado stalinismo), cujos professores desfiavam mantras como “A luta de classes em Hunan”, do glorioso Mao Tsé Tung, mas não sabiam enquadrar uma câmera.

A técnica da montagem de conflito (ou de atrações, segundo Eisenstein) eu a aprendera sozinho, assistindo, sempre de novo, os filmes do diretor de “Outubro” e os filmes agit-prop de Pudovkin. Nossos professores repudiavam o cinema de ficção, e queriam fazer de nós - latinos, gregos, iranianos e africanos - “cineastas da revolução”. A revolução projetada, que eles, frustrados e amargos, não conseguiam fazer em seu país. Um sujeito chamado Régis Debray já não se danara por isso?

Resolvi então mudar-me para a universidade. Findos ambos os cursos, o de Comunicação e de Cinema, fui fazer estágio na TV Alemã. E este foi o segundo grande erro de início de carreira. Aprendi muitas firulas, algumas úteis, mas a linguagem de TV estava mais para reportagem que para a poesia do documentário. E ambos, a reportagem e o documentário, durante muitos anos travaram meu envolvimento com a ficção.

Alguns anos depois, com um título de Mestre em Comunicação Social, conferido pela FUB – Universidade Livre de Berlim, na algibeira, retornei prematuramente ao Brasil, com pressa para ver a ditadura cair, e também movido pela ilusão de que aqui estava “tudo por fazer” – ilusão que me perseguiria oito anos após o meu regresso, no escritório de Icaza Sánchez, ex-cônsul honorário do Panamá e “bruxo” da TV Globo, que após nossa entrevista sobre a telenovela “Vale Tudo”, recém-comprada pela WDR-TV, da Alemanha, e ao fim da segunda garrafa de um Johnny “black”, me insultou, dizendo: “la TV que você aprendió a hacer na Europa, aqui no vale porra ninguna!”...

Queria dizer: a TV aberta, brasileira, estava se lixando para a formação cultural de seu público, pois o “nivelamento por baixo” tinha dado certo. Dinheiro. Estrategista em “programar narizes”, como me disse, o formato das telenovelas estava correto. Por isso não entenderam na TV Globo, para onde fui chamado para dar explicações, por que a versão alemã de “Vale Tudo” fora colocada no ar às 5h da tarde, para o público de terceira idade, ainda por cima com pelo menos 50 do total de 220 originais suprimidos. Tentei lhes fazer entender que horário nobre alemão é reserva de cinema, ópera, balé, documentário de viagem, e que ninguém agüenta 220 capítulos de estórias arrastadas. Explicação que Gilberto Braga, o autor extenuado, endossou, dizendo diante da câmera, sem reservas, que ao completar 60 capítulos toda novela estava com sua estória bem contada. Portanto, o resto, segundo Hamlet, deveria ser silêncio, mas na TV aberta brasileira teimava-se com “encheção de lingüiça”.

Ao chegar, no Oeste do Paraná milhares de agricultores esgrimiam uma teimosa resistência à submersão de suas fertilíssimas terras pela hidrelétrica de Itaipu. Sacerdotes católicos e protestantes irmanavam-se em apoio aos expropriados, e, já se antecipando ironicamente ao insulto de Icaza Sánchez, esse conflito interessava à TV Alemã, porque, de um lado das trincheiras, na represa rodavam turbinas de multinacionais alemães e, do outro, as igrejas germânicas subsidiavam a luta dos seus irmãos brasileiros. Assim, em paralelo a várias incursões televisivas para a Europa nasceu, primeiro, meu documentário “Desapropriados”. E logo depois, o curta-metragem cult, “Quarup Sete Quedas”; ambos de 1983.

Mal acabara de filmar o “Quarup...” e, desses encontros que não são acasos, topo com Mauro Alice em Curitiba. Depois de quinze anos sem nos vermos, entreguei-me a um abraço saudoso, e o convidei para montar o filme (o que é mentira, porque literalmente o intimei). E mais uma vez Mauro, que acabara de ministrar um curso de montagem na Cinemateca de Curitiba, durante uma pausa entre o filme “Pixote”, cuja trilha sonora acabara de editar, e “O beijo da mulher-aranha”, novo projeto de Héctor Babenco, que deveria montar, aceitou o desafio. Não porque sabia que seu trabalho seria pago, mas movido pelo tema e a amizade pelo jovem diretor. E as contas do “Quarup...” paguei-as todas do meu próprio bolso, porque embora definhasse, em 1983, a morte da ditadura era lenta e, apesar de que a Fundação Roberto Marinho me procurara, finalmente recuou, preferindo não aventurar-se, bancando o curta-metragem rebelde (que tal se depois perdesse a faustosa campanha de publicidade da hidrelétrica para a concorrência?).

Naturalmente, em nosso primeiro encontro em São Paulo, de preparação da montagem, que contava apenas com um roteiro esboçado, mas totalmente ultrapassado pela profusão de imagens inesperadas, desta vez invertiam-se nossos papéis, pois agora eram os olhos do Mauro que não desgrudavam da minha boca. Claro que ele queria saber como eu tinha aproveitado aqueles anos, principalmente em tão sublimes companhias, que o encheram de ais e aquela saborosa inveja que só os amigos de verdade sentem.

Então lhe contei minhas aventuras. Em Frankfurt, a re-emergente Meca do mundo das finanças, mas também de uma universidade e uma boemia, barulhentas, onde se gestava outro mundo, o da esperança, começara minha jornada do herói de muitas faces, ora separando volumes numa distribuidora de livros, ora embalando perfumes e sabonetes numa fábrica de cosméticos e, finalmente, recondicionando embreagens de caminhões e blindados; trabalho que me tirava da cama às cinco da manhã, me obrigava a tomar duas conduções e, na linha de montagem, esfolava-me as mãos com as lascas sanguinárias das pesadas peças de ferro fundido.

“É isso aí, student, tá quase chegando lá!”, caçoavam os operários, gordos e sádicos, deleitados com minha sangria. Queriam dizer: com meu batismo de expropriado da mais-valia. De frente para o umbral, o pequeno herói, latino, enfrentava seu primeiro obstáculo: viera para “estudar” Cinema, mas ali se sentia perdido, proletarizado. Ou seria essa sua humanização?

Mas então lhe contei que, atiçado por um repente um belo dia tomei um trem através daquele território que se chamava República Democrática Alemã (que em 1989 desabaria juntamente com o Muro) e cheguei a Berlim na véspera da Berlinale; excetuando o glamour de Cannes, talvez o maior festival de cinema do mundo. E cara de pau infiltrei-me como “correspondente” do ilustre desconhecido “Diário do Paraná”, cujo editor de Cultura, Haroldo Murá, para quem eu escrevera minhas primeiras resenhas cinematográficas, não se sabe movido por qual intuição, certo dia me aprovisionara com uma credencial, que apresentei, já toda dobrada e descorada, ao bureau do festival. E durante dez dias ininterruptos bebi, comi e regurgitei filmes. Estimando que fossem 84 no total.

E novamente tendo como abre-alas meu anjo da guarda, que nunca se apresentava com seu nome, de repente eu estava cara a cara com meus deuses: Luis Buñuel, Jean Luc Godard, Billy Wilder, Alain Resnais – todos ali, em carne e osso. No balcão de um bar do festival, ao meu lado abancara-se um sujeito transpirado e mal-cheiroso, vestindo parka e coturnos do exército, que acendia um cigarro dos negros Gitanes na ponta do outro, e era o Rainer Werner Fassbinder, “reprovado” pela mesma escola de cinema que eu pretendia cursar, mas que já dera a volta por cima, fazendo seus filmes em Munique e dando bananas para os iluminati da tal DFFB. Primeiro vi seu “Katzelmacher” e saí chorando do cinema (vinte anos depois, em companhia de uma amiga, antropóloga alemã, fui visitar seu túmulo num cemitério de Munique. Fiz uma pequena prece e agradeci por todos os seus filmes).

E assim tinham se sucedido os dias, derretidos em longas tertúlias com um tal Istvan Szábo, que chegou a me convidar para Budapeste – conversas  alternadas com aparições altissonantes de um sujeito doidivanas chamado Glauber Rocha, exilado em Roma, mas que teimava em ligar para o Gal. Médici (ou já era o Geisel...) para convencê-lo a fundar a Embrafilme, ali maquinada.

Sem perceber, porque ainda era tímida sua voz interior, o pequeno herói estava seduzido pelo novo, a todo dia potenciado, e ia colecionando decisões erradas, e reeditando equívocos. A primeira, por não insistir no encontro com Alexander Kluge, guru desde Curitiba, e destinatário daquela latinha-talismã. O segundo passo em falso foi não entender a oportunidade que se descortinara com o convite de Szábo. O terceiro, finalmente, foi não ter dado ouvidos à advertência do amigo, Thomas Mitscherlich, para quem a DFFB, que o expulsara em 1969, mas que eu tanto mistificava, era uma solene perda de tempo.
Mauro Alice se descabelava com gargalhadas! E não me censurou por minhas decisões equivocadas – legou-me a auto-recriminação, muito mais doída. A moral da estória que Mauro encarnava à perfeição era: não se aprende Cinema numa escola, mas preferencialmente ao lado de um grande mestre.

Parêntese: perguntam-me se arrependimento dói? Dois anos após aquela conversa com Mauro Alice, fui ver “Mephisto”. E gelei na poltrona quando me deparei com Istvan Szábo pela segunda vez: ele assinava pela direção do belíssimo filme, adaptado do romance explosivo de Klaus Mann, em cuja produção eu certamente teria tido um papel; nem que fosse puxando cabos como assistente do eletricista.

Mas então engatamos três semanas de montagem numa moviola alugada da Verbo Filmes, produtora católica instalada num mosteiro da Granja Julieta, e Mauro começou a dar corpo a “Quarup Sete Quedas”, ao qual, mediante carta escrita de próprio punho, Carlos Drummond de Andrade já me emprestara como alma seu comovente poema, “Adeus a Sete Quedas”.

Tínhamos várias cenas que exigiam trucagem – aquela fotografia em preto e branco da Estação Matte-Laranjeira, por exemplo, que vai afundando no reservatório de Itaipu - porque a época ainda não nos abençoara com a tecnologia do corte e da composição, digitais. Mauro estruturou e marcou as cenas, e fomos à Truca, empresa localizada a menos de duas quadras dos então Laboratórios Líder, no Bexiga, que era espécie de “plantão 24 horas” dos profissionais de Cinema de São Paulo. E - “Grande Mauro!”, “Oh, Mauro, que prazer!” - saudações pronunciadas por cada dois entre três cineastas, não me escapou a celebridade do meu amigo naquele meio.

Quarup Sete Quedas - Estação Matte Laranjeira submergindo.

De volta da montagem, em algumas noites, jantamos nos quarteirões adjacentes ao apartamento de Mauro, em Higienópolis. E só então em nossas conversas fui me apossando de sua história. Filho de imigrantes italianos, o Cinema estava por assim dizer inoculado em seu DNA. Sempre me surpreendendo, contou-me que já na década de 1930, em Curitiba o cinema era o divertimento mais importante da família Alice. Isto porque seu tio, Henrique Oliva, era distribuidor de filmes. Divertimento dos Alice-Oliva e da metade de Curitiba, diga-se, porque as fitas atraíam legiões de trabalhadores e gente da classe média, sobretudo os imigrantes, às salas de cinema, com nomes tão dissímiles como Ópera e Arlequim, Ritz e Avenida, que começavam a se concentrar no perímetro daquelas duas quadras da Avenida João Pessoa, depois renomeada de Luiz Xavier. Que o povo cansado de revisionismo histórico decidiu batizar de “Cinelândia” - a menor avenida do mundo, imortalizada por Dalton Trevisan como a “Boca Maldita”.

Químico contratado pela Rhodia, no final da década de 1940, Mauro mudara-se para São Paulo. Mas devido a esses “chamamentos”, como o que me assediara em 1968, em 1950 Mauro Alice abandonou o emprego na Rhodia, em Santo André, desviando seu rumo para São Bernardo do Campo, sede da produtora Vera Cruz. Estava extasiado pelo anúncio da volta ao Brasil de Alberto Cavalcanti, o cineasta brasileiro que fizera fama na Itália, e que Franco Zampari, empresário paulista, ítalo-descendente, desejava incorporar à Vera Cruz como o grande pivô artístico de seu projeto de um deslumbrante estúdio cinematográfico à semelhança de Hollywood e da Cinecittá.

Sempre em débito com seus artistas enquanto vivos, sua terra natal, Curitiba, e o Estado do Paraná, lhe ficaram devendo o reconhecimento. Por sorte, a trajetória de Mauro Alice, com sua infinidade de tramas paralelas e episódios tragicômicos (basta lembrar o choque da Segunda Guerra Mundial e a perseguição aos súditos do Eixo vivenciados pelo filho de um casal de calabreses, cuja casa em Curitiba é invadida pela polícia de Getúlio), nos é narrada de forma enternecedora por Sheila Schvarzman, advertida e sensível, que com a voz do célebre, mas sempre tão modesto montador em primeiro plano, compilou sua biografia (“Mauro Alice – Um operário do filme”, 2008) para a série “Aplausos”, da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Não fosse Sheila e tenho certeza a história do grande montador se teria perdido. Porque Mauro Alice nos deixou no dia 23 de novembro de 2010.

Para mim, com o passar dos anos, Mauro Alice era a memória ambulante, o arquivo de imagens, cenários e protagonistas da lendária Vera Cruz, do Cinema de Walter Hugo Khoury e do dessemelhante Mazzaroppi; três nomes indissociáveis da História e de certa Economia Política do Cinema Brasileiro, entendida como atividade industrial apoiada sobre o trinômio criadores-estúdios-investidores.

Com três décadas dedicadas à montagem dos filmes de Lima Barreto, Watson Macedo, Anselmo Duarte, Glauko Mirko Laurelli e Amácio Mazzaropi, e tantos outros, no início dos anos 80, Mauro Alice fechava por assim dizer o ciclo do mercado doméstico do Cinema Brasileiro, quando então, com passagens pelo filme publicitário e o gênero Boca do Lixo, em São Paulo, é descoberto por Héctor Babenco, cuja obra, de “Pixote” (1983) a “Carandiru” (2003), co-produções geralmente associadas a produtores estrangeiros, o lançará no circuito internacional.

Um detalhe importante a ressaltar é o hiato que se percebe em sua filmografia (na qual não figuram “Quarup Sete Quedas”, talvez desconhecidos de Scheyla, motivo pelo qual agrego sua ficha da Cinemateca Brasileira à filmografia), situado entre as montagens de A Grande Noitada, de Denoy de Oliveira (1990), e Coração Iluminado, de Hector Babenco (1997). Foram os anos, após a liquidação da Embrafilme e da passagem do desastroso Governo Collor, da completa estagnação da atividade cinematográfica brasileira, durante os quais, não poucas vezes, em meus telefonemas do Rio para São Paulo, percebi alquebrada a voz de Mauro Alice; desempregado, desanimado e aflito. Mas sem jamais esboçar qualquer pedido de ajuda. Que na época, como efeito de outro cataclismo - a queda do Muro de Berlim e, como trama decorrente, o completo desinteresse da TV Alemão pelo Brasil de José Sarney - eu também não poderia lhe dar, penando como subempregado, mas com um filho recém-nascido. Foi quando Arnaldo Jabor, quem, aos sábados, eu costumava encontrar na Praia do Pepino, me confidenciou que desistira de fazer Cinema, retornando ao jornalismo, na Folha de S. Paulo. E foi quando Tizuka Yamazaki, depois do estrondoso sucesso de sua telenovela, “Cananga do Japão”, na qual também estreara como atriz minha companheira de então, Leticia Vota, começou a disputar no tapa, vídeos institucionais, porque o mercado estava “parado”.

Voltei a ver Mauro Alice em 2001, quando o sondei para a edição de um filme institucional, encomendado pela Osram do Brasil, todo gravado em vídeo. Mas então o mestre, habituado à sua moviola e à montagem manual de películas, me confidenciou que ainda não se sentia à vontade com toda aquelas engenhocas de corte eletrônico, preferindo acompanhar a filmagem como espécie de “diretor nas sombras”. Gravações durante as quais tivemos uma breve rusga, de caráter eminentemente técnico, mas solenemente desprezível, na verdade um pequeno choque de egos, que muito lamentei.

“Se tivesse que definir Mauro Alice numa frase” - escreve Sheila Schvartzman, e eu peço licença a ela para fazer minhas, suas palavras – “diria que ele é antes de tudo uma pessoa generosa. Isso lhe permite ser, como disse, um operário do filme. Alguém que, através do seu ofício de montador, se põe à disposição da engrenagem do filme, para que o sentido da obra possa emergir”.

Generoso, sempre, mas eu o percebi também muito franco diante dos acertos e erros de seus parceiros: seus elogios, sempre sinceros, lhe presentearam amizades para toda a vida; já suas críticas, incompreensão e problemas. Inclusive com Babenco, o diretor com quem Mauro Alice dividiu sua mais fértil parceria. Com desabafos off the record fiquei sabendo de muitos episódios das coxias, dos bastidores dos sets e das salas de montagem, e de forma alguma será exagerado afirmar que Mauro Alice foi o salvador de numerosa penca de filmes brasileiros.

Conversar com Mauro era sempre um evento prazeroso. Fatalmente falávamos de Cinema. Às vezes, conversávamos sobre música, e o pouco que eu sabia de ópera, Mauro expunha ao vexame com sua pequena, mas seleta discoteca, então me surpreendendo com suas hilariantes pantomimas, imitando a áspera, mas poética dicção dos heróis crepusculares de Wagner. Va bene, obviamente ele se identificava muito mais com uma “Tosca” ou um “Barbeiro de Sevilha”, cujas intonazzioni conhecia desde o berço. “Eu fui criado com leite e óperas”, contou a Scheyla.

Noutras vezes, embarcávamos em viagens. Numa das noites, durante a produção, Mauro contou-me que viajara à Itália, como espécie de missão de resgate de suas origens. Sempre ilustradas com gestos amplos, suspiros e onomatopéias, também aquela narrativa pedia uma câmera para ser registrada, de tão teatralizada, mas pelo coração, sem qualquer afetação. A chegada à Calábria o emocionara além da conta. Então me confidenciou que seus pais tinham se conhecido em Curitiba, mas que, por coincidência, ambos tinham nascido na Calábria; o pai numa aldeia chamada Acri, e a mãe em outra, chamada Scalea. Queria dizer: na verdade o casamento fora arranjado por um tio e um senhor calabrês, mãe da moça, como espécie de “pacto” entre patrícios. E me mostrou algumas das fotos clicadas durante suas vertiginosas subidas e descidas de Scalea, uma “escada” (no dialeto local) encrustada em penhascos literalmente tombados sobre o esplendoroso Mediterrâneo. Ali, para Mauro se fechara outro ciclo, o do domínio da história da família.

Em várias oportunidades, mostrou-me alguns de seus contos e roteiros esboçados, todos de curta-metragem, alguns dos quais publicados na revista cultural, “Nicolau”, editada na Secretaria da Cultura do Paraná pelas mãos do também saudoso Wilson Bueno. Eram quase sempre estórias como essas contadas pelos sonhos, por isso, intrinsecamente cinematográficas, cujos personagens, geralmente femininos, experimentavam expiações ou revelações: a lembrança de um grande amor do passado, o ressurgimento de um ente querido, solilóquios sobre segredos inconfessáveis... Mas eram projetos de longa gestação, e nenhum deles realmente alçou vôo, sem esquecer que, apesar de seu talento autoral, Mauro Alice jamais apostou nele, investindo numa carreira de diretor.

Outros dez anos depois, cuja passagem sem notícias deploro amargamente, me encontrava em São Paulo com Adriane. Era agosto de 2010, e eu disse a ela, preciso visitar o Mauro. Não tinha mais seu telefone, anotado em antigas agendas descartadas e, irresponsavelmente, não transferido para a agenda do celular. E pusemo-nos a devassar a lista telefônica pela internet. Horas a fio, e nada! Pensei em ir visitá-lo, sem aviso, mas não me lembrava mais do nome da rua, que só meses depois Rosina Alice Perchen recordou. E deixei São Paulo sem ver Mauro Alice, porque não confiava em minha memória visual e meu sentido de orientação na tentativa de encontrar seu apartamento em Higienópolis.

No dia 24 de novembro, abri o jornal como o abro todos os dias, mas então lá estava a notícia: “Morre o montador Mauro Alice!” Larguei o jornal e tive a certeza de que aquele impulso de agosto, em São Paulo, fora um aviso. Talvez Mauro, que estava doente, premonizara a morte e estivera pensando em seus amigos? Escusa, amico!

Poucos dias antes do Natal de 2010, ligou-me o amigo “Vitamina”, o egrégio advogado, Dr. Henrique Schmidlin, convidando-me para o ato da transferência dos despojos de Mauro Alice para o Cemitério Municipal de Curitiba.

No dia marcado, encontrei “Vitamina”, acompanhado de Rosina, sua chefe na Secretaria de Cultura, por quem eu tantas vezes e durante tantos anos passara sem me dar conta que era sobrinha e apadrinhada de Mauro Alice.

E após uma longa hora de espera, que eu não sabia explicar, nem seu sentido me atrevia a perguntar, imaginando que aguardávamos toda a família, residente em Curitiba, subitamente nos alcançou um jovem, trazendo na mão um saco plástico contendo um vasilhame lacrado. E estendendo a Rosina um formulário, despediu-se burocraticamente após colher a assinatura da destinatária. Simples assim.

Eram as cinzas de Mauro Alice.

E começamos a caminhar por um corredor de túmulos até encontrarmos os dois coveiros, ocupados em alavancar o pesado tampo de mármore de uma sepultura que se revelou da família. Rosina conferiu seu número, e não havia dúvidas. Depois de uns vinte minutos forcejando, conseguiram abrir uma fresta, por onde então “Mauro Alice” foi introduzido. Depois do que o tampo foi cuidadosamente re-encaixado em sua posição original. Neste tempo, todo, ninguém disse palavra. Eu me afastei alguns passos do grupo e balbuciei alguma coisa que parecia misto de prece e conversa com meu amigo.

Até hoje não consigo assimilar aquele saco plástico trazido às pressas de São Paulo.

Aquele não era Mauro Alice.


Filmografia de Mauro Alice

2004
• Vinho de Rosas – Elza Cataldo, Montagem
2003
• Carandiru – Hector Babenco, Montagem
2001
• Memórias Póstumas de Brás Cubas – André  Klotzel, Pré-Montagem
1999
• Até que a Vida nos Separe – José Zaragoza,  Montagem
1998
Coração Iluminado – Hector Babenco, Montagem
1997
• A Grande Noitada – Denoy de Oliveira, Montagem
1990
• Brincando nos Campos do Senhor – Hector Babenco, Assistente de Montagem
1988
• Doida Demais – Sérgio Rezende, Montagem
1987
• Fogo e Paixão – Márcio Kogan e Isay Weinfeld, Montagem
1986
• Besame Mucho – Francisco Ramalho Jr., Montagem
1985
• A Hora da Estrela – Susana Amaral – Montagem-básica não credenciada,
• O Turista Aprendiz – Maureen Bisilliat, Montagem
1984
• Made in Brazil – Carlos Nascimbeni, Francisco Magaldi, Renato Pitta, Montagem
• O Beijo da Mulher-Aranha – Hector Babenco, Montagem
1983
• Pixote – Hector Babenco, Sonorização
 - QUARUP SETE QUEDAS
1982
• Filhos e Amantes – Francisco Ramalho Jr., Montagem
• Retrato Falado de uma Mulher sem Pudor – Jair Correia/Francisco Ramalho Jr., Montagem
• As Aventuras da Turma da Mônica – Maurício de Souza, Montagem
1979
• Alucinada pela Paixão – Sérgio Hingst, Montagem
1974
• O Anjo da Noite – Walter Hugo Khouri, Montagem
• As Cangaceiras Eróticas – Roberto Mauro, Montagem
• Jecão: Um Fofoqueiro no Céu – Pio Zamuner/ Amacio Mazzaropi, Montagem
1973
• Pantanal de Sangue – Reynaldo Paes de Barros, Montagem
• Um Caipira em Bariloche – Pio Zamuner/ Amacio Mazzaropi, Montagem
• O Detetive Bolacha contra o Império do Crime – Tito Teijido, Montagem
1971
• As Noites de Iemanjá – Maurice Capovilla, Montagem
1970
• Balada dos Infiéis – Renato Santos Pereira, Pré-Montagem
• Quelé do Pajeú – Anselmo Duarte, Sonorização
• As Gatinhas – Astolpho Araújo, Montagem
• Transplante de Mãe in Em cada Coração um Punhal – Sebastião de Souza, Montagem
• O Palácio dos Anjos – Walter Hugo Khouri, Montagem
1969 30
• OSS-117 Prend dês Vacances (Verão de Fogo) Pierre Kalfon, Montagem
1966
• O Corpo Ardente – Walter Hugo Khouri, Montagem
• O Puritano da Rua Augusta – John Dôo/ Mazzaropi, Montagem
• O Círculo Perfeito – Prof. Leonel Moro, Montagem
• Maré Alta – Egydio Éccio, Montagem
1965
• Vereda da Salvação – Anselmo Duarte, Montagem Imitando o Sol ou O Homem das Encrencas – Geraldo Vietri, Montagem
1964
• Noite Vazia – Walter Hugo Khouri, Montagem
1963
• Casinha Pequenina – Glauco Mirko Laurelli/ Amacio Mazzaropi, Montagem
• O Casaco (in Claudia) – Beatriz Segall, Montagem
1962
• O Vendedor de Lingüiças – Glauko Mirko Laurelli/Amacio Mazzaropi, Montagem
1961
• Bruma Seca – Mario Civelli, Montagem
• A Primeira Missa – Lima Barreto, Montagem
• O Pagador de Promessas – Anselmo Duarte, Sonorização
• Tristeza do Jeca – Milton Amaral/Amacio Mazzaropi, Montagem
1960
• Mistérios da Ilha de Vênus - Douglas Fowley, Assistente de Montagem
• Jeca Tatu – Milton Amaral/Amacio Mazzaropi, Montagem
• Na Garganta do Diabo – Walter Hugo Khouri, Montagem
1959
• Ravina – Rubem Biáfora, Montagem
1958
•Alegria de Viver – Watson Macedo, Montagem
• A Grande Vedete – Watson Macedo, Montagem
1957
• Rio Fantasia – Watson Macedo, Montagem
• A Baronesa Transviada - Watson Macedo, Montagem
• Rico Ri à Toa – Roberto Farias, Montagem
1956
• O Sobrado – Walter George Durst, Assistente
290 de Montagem
• A Estrada – Oswaldo Sampaio, Assistente de Montagem
• O Gato de Madame – Agostinho Martins Pereira, Montagem
1954
• Uma Pulga na Balança – Luciano Salce, Auxiliar de Montagem
• Candinho – Abílio Pereira de Almeida, Montagem
• Floradas na Serra- Luciano Salce, Assistente de Montagem



1953
• Sinhá Moça – Tom Payne, Auxiliar de Montagem
1952
• Veneno – Gianni Pons, Auxiliar de Montagem
• Sai da Frente – Abílio Pereira de Almeida, Assistente de Montagem
• Apassionata – Fernando de Barros, Assistente de Montagem
1951
• Ângela – Tom Payne, Auxiliar de Montagem
1950
• Caiçara – Adolfo Celli, Auxiliar de Montagem
• Terra é Sempre Terra – Tom Payne, Auxiliar de Montagem



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