28 junho 2015

Frederico Füllgraf - O umbral


Conto


Despertou ansioso porque era sábado. 


Lavou o rosto, escovou os dentes, molhou e penteou o cabelo, tentando domar o topete rebelde. Não conseguiu, os cabelos estavam ainda muito curtos. 
Vestiu a mesma calça curta, amarrotada pelo uso nos dias anteriores, e sentiu falta das roupas escolhidas pela mãe, nem sempre do seu gosto. 
Deixou a casa, atravessou o pátio, em cujo centro luzia o álamo solitário, de tronco descorado e descascado, cujas folhas mortiças teciam um tapete de remendos ocres e esmaecidos sobre o pedral. 
Pisou a cozinha da meia-água dos fundos, onde a velha já tinha posto a mesa. 
O aroma do pão caseiro recém-assado no forno à lenha invadiu-lhe as narinas; salivou-lhe a boca, fê-lo sentir-se protegido. 
Vem, Senhor Jesus, sê nosso convidado e abençoa o que nos tens ofertado – amém. Pela fresta de seu olho direito, semi-cerrado, observou que os outros rezavam a ladainha com os olhos fechados, num dialeto esgarçado pelas migrações.

Há meses dividia a companhia da estranha família, afastado da sua própria. 
Fizeram-no sentir-se culpado. Dívida de berço, diziam, porque “Deus”, o deles, tinha visto tudo. Que anotara todos seus pecados em uma agenda e que não hesitaria em puni-lo. 
Por isso se assustava com os olhares aprisionando seus movimentos; olhares de guardiões d’Ele
Mastigou, mas não conseguiu engolir a gororoba do pão com schmier de banana, mal misturada com nata. 
Olhou com repulsa para o café de malte, sobre o qual boiava um naco de leite coagulado e gorduroso. 
Deixou a mesa com o estômago virado, escondeu o lanche com o mesmo pasto na mochila, jogou-a sobre o ombro e pôs-se a caminho da escola, em companhia de Leni, a menor dos seus vigias.

Durante a caminhada silenciosa pela estrada de barro vermelho, com cobertura de cascalho vidroso, sentiu a respiração de Leni a seu lado, cujos olhos buscavam os seus. 
Vinculava-os certa cumplicidade inconfessa, desde que haviam galgado a escada para o sótão do estábulo, e ela, alguns degraus acima, retrocedera, pressionando sobre o nariz dele suas coxas leitosas, metidas numa calcinha costurada com trapos de sacos de farinha, que exalara um odor adocicado; incompreensivelmente excitante. 
Todavia, o olhar onipresente de um deus ausente enchia-o de sentimento de culpa. Por isso virou-se para trás, à cata da figura de Elvira, mas não a encontrou. 
 Alcançado o pátio da escola, hesitou em misturar-se à algazarra das crianças. Detestava a maioria delas, fediam a estrebaria e falavam mal; o Português e seu dialeto. 
Invejava-as, contudo. Eram felizes à sua maneira, percebia nelas certo centramento, porque seus pais as esperavam na volta da escola. 
 Descobriu Elvira numa roda de amigas. 
Flechava-o com seus olhares sedutores, as amiguinhas cochichando e rindo, os olhos pregados nele. 
Tentou corresponder ao olhar dela, tinha ternura, mas deu-lhe as costas porque detestava essa ridícula cumplicidade de meninas.

Concentradas no corredor da escola, as crianças ouviram novas preces: Vem Senhor Jesus, abençoa esta escola, seus mestres e alunos e livra-nos do mal – amém. 
Não conseguiu prestar atenção durante a aula, contava os minutos no relógio do coleguinha ao lado. 
No recreio caçoaram dele, porque se isolara, buscando a linha do horizonte, interrompida pelo muro de cinza sujo. 
Na saída não esperou por Leni, e a meio caminho de casa aceitou a carona na moto do professor Walter. 
Sentiu o fogo do escapamento queimando a barriga da perna e não conseguiu ouvir as palavras gritadas pelo professor-piloto, pois as rajadas de vento lhe esbofeteavam as orelhas e marejavam os olhos.

No sótão da casa derrubou a mochila sobre o catre, retornou correndo escada abaixo, em direção ao pátio, e nem percebeu que caminhava em círculos. 
A família já estava reunida para o almoço: Vem Jesus Cristo, seja nosso convidado e abençoa o que nos tens ofertado... 

Deixou pela metade o prato de sopa de beterraba

Brincando, ameaçaram deixá-lo sem a sobremesa do pastel de pireshki com doce de framboesa. 
Deu de ombros, levantou-se, atravessou o portão do terreno e foi sentar-se sobre o pilar empoeirado, para esperar pelo fusca. 

Sentado sobre a linha divisória entre dois municípios, sua perna esquerda estava pendurada sobre Curitiba, a direita balançava em São José dos Pinhais.

Olhos cravados na curva à sua esquerda, cada vez que sua emoção tentava adiantar-se no reconhecimento do modelo de carro que assomaria da nuvem de poeira, sentia o sangue martelando na jugular. 
Perdeu a conta do número de roncos promissores que o haviam enganado. Pensou em desistir, mas: e se ele aparecesse no exato momento em que viraria as costas? 
Por isso, firmou a posição; sentinela guardando o nada. 
Perdeu a noção do tempo e o fusca cinza, com pára-lamas de azul fosco e vidro traseiro dividido, não deu o ar de sua graça.

Não conseguia entender suas emoções, que alternavam entre euforia e dolorosa decepção, velozes como o trem de uma montanha-russa. 
Onde estaria a mãe neste exato momento? Por que estou aqui, mãe? Então lembrou-se da cadela pastora, em cujo ventre se aninhara tantas vezes, encolhido em posição fetal; esquecido pelos pais. Sentiu saudades das lambidas em suas mãos e orelhas, a atitude de terno acolhimento.

Subitamente, uma saraivada de alfinetes crivou-lhe o peito, o coração devastado. Vertigem. Nova montanha-russa, desta vez morro acima. 

Era o terceiro sábado sem sinal do fusca. Lembrou-se dos olhares da mãe sobre o Morro Dois Irmãos, quando buscava as colinas do vale das cerejeiras, mortificada de saudade de um lugar que não estava na paisagem. Observou as copas das árvores acalantadas pela brisa, algumas vacas empurradas pelo próprio instinto sobre a pastagem. E aquela modorra sem sentido instilou-lhe medo sem conta.

Derrotado, retornou à casa, desviando o olhar zombeteiro deles, buscando os degraus da escada para o sótão, que escalou de dois em dois. Foi direto ao guarda-roupa, e do fundo do bolso do agasalho azul pescou a meia, branca, com as moedas. Recontou-as, apreensivo, pois não sabia o preço da passagem. Escondeu o material escolar no fundo do armário e meteu na mochila algumas peças de roupa. Esperou que o burburinho das vozes se deslocasse da sala da casa para o rancho, desceu a escada na ponta dos pés, não viu ninguém no pátio e, dissimulando, atravessou o portão, ganhando a rua; o sangue martelando nas têmporas.

Tomou pela esquerda a estrada poeirenta e apressou o passo em direção ao ponto final do ônibus. 
Tropeçou várias vezes no macadame bruto, distraído com os carros que afloravam do pó. 

O vento gelado queria abrir lanhos em seus braços nus. Então percebeu que tinha esquecido o agasalho. 

Perguntou vezes sem conta, se estava distante o ponto do ônibus e lhe apontaram a movimentada BR. 

Virou-se uma terceira vez para certificar-se de que ainda não o perseguiam, e seu coração reanimou-se quando ouviu ecos do som vivaz de pneus lambendo o asfalto - música em seus ouvidos. 


O ônibus verde-amarelo, imensa caixa de sapatos metálica, aguardava no ponto, refulgindo ao sol tímido. 

Sentiu medo de embarcar – e se alguém o reconhecesse, fizesse perguntas incômodas? 
O motorista que conversava animadamente com um passageiro na primeira fila, sorriu-lhe. 
Então tomou coragem, subiu, estendeu suas moedas ao cobrador, que lhe devolveu as que sobravam, e acomodou-se junto a uma janela, longe dos poucos passageiros. 

O ônibus partiu e desceu a BR. Começava a grande viagem.

Em passagens rápidas pela janela sobre seu assento, viu desfilar os telhados das casas e os motoristas alapados sobre os volantes dos pesados caminhões, que trafegavam em direção ao sul. Não conseguia enxergar as rodas e adivinhar as marcas dos veículos; seu passatempo predileto. A janela era muito alta, por isso colocou-se em pé, as mãos cravadas na grade do vidro. Não conhecia os nomes das ruas, mas pressentiu a proximidade do centro, o ônibus empurrando ao primeiro plano a grande fábrica com chaminés cachimbantes, entre as quais reluzia um losango com quatro letras azuis.

Debaixo da grande caixa com tampo metálico, localizada à porta dianteira, rugia e gemia o motor. 
 Divertia-o a perícia do motorista, girando com uma mão apenas o grande volante, ziguezagueando acrobaticamente entre automóveis, caminhões, carroças e pedestres. Mas sentiu um fascínio repulsivo pelos santinhos e rosários pendendo do espelho retrovisor. Com sua base colada sobre o console do painel, e projetada contra o céu, onde levitava impecavelmente sobre as paisagens que invadiam o campo de visão, a figura de São Jorge, contudo, conseguia arrancar-lhe um sorriso lívido de aprovação. 

Depois de um indecifrável trajeto, o ônibus parou junto ao meio-fio de uma praça. Ponto final.

Paciençoso, o chofer explicou-lhe qual caminho tomar para chegar à outra praça, onde deveria fazer a baldeação. 
Saltou do ônibus, desnorteado, nada lhe pareceu familiar no imenso quadrilátero. 
Observou as duas torres, separadas por uma rua que se perdia entre as palmeiras altas. Santa Casa, dizia o letreiro de cimento e cal, debaixo de uma delas, e parecia uma estranha igreja. A outra, com campanário, sim, recordava-lhe vivências cordiais. 

Do lado oposto da praça, chamou-lhe atenção um soldado armado com uma carabina, montando guarda. Sentiu vontade de lhe fazer companhia na guarita, cavalgando o muro, e partilhar o privilégio da visão panorâmica sobre a praça. 


Atravessou o largo com passos frouxos, as narinas invadidas por lufadas acres de azeite barato dos carrinhos de pipoca. 

Esgueirou-se entre moendeiros de caldo de cana, bêbados, e uma mulher muito morena, que lhe fechou o caminho. Pano colorido sobre a cabeça, pingentes dourados nas orelhas e longo vestido sobre várias anáguas, todos muito coloridos, disparou: - Olhos-azuis, deixa eu ler a sorte na palma da tua mão! 
E ele retrocedeu assombrado. 

Em vez de caminhar em linha reta pela Pedro Ivo, até a quarta rua da esquerda, de onde avistaria as torres da catedral, como lhe tinham dito, seguiu a maioria dos pedestres, embrenhando-se, medroso, pela Voluntários da Pátria. 

Meia quadra andada, surpreendeu-se  com a babel do trino de um canário, berros estridentes de uma arara e o escarcéu de periquitos australianos. À fuzarca associou-se rapidamente o cheiro penetrante de galinheiro e ração animal. 

Quando os adultos, que lhe obstruíam a vista, se afastaram da barra esquerda do passeio, percebeu que estava diante de um aviário. 
Eletrizado, deixou-se atrair pela colorida algaravia. 
Enternecido, reconheceu pelo colar negro no pescoço, um casal de rolinhas com plumagem marrom, iguais às que faziam seus ninhos no jardim de casa.
Dos fundos da loja ouviu-se um galo cantando em plena tarde, alvoroçando o passaredo. - Tá confundido com a luiz artificial! - debochou o vendedor. 

Em uma das jaulas, um papagaio respirava angustiado; olhos esbugalhados, bico escancarado, a língua seca, de couro rachado. 

Ele acocorou-se diante de um pássaro que não parava de agitar-se entre as grades de sua prisão. Tinha a plumagem cinza e branca e um penacho vermelho, coroando a cabeça. - Galo de campina! - pigarreou o vendedor - Bicho bonito, dô desconto! 

Seduzido, enfrentou o olhar desafiante do vendedor, mas nem se deu o trabalho de recontar suas moedas, sabia que não tinha dinheiro suficiente. 

Baixou a cabeça e despediu-se do pássaro, metendo o dedo indicador por uma fresta da grade, tentando tocá-lo, acariciá-lo. A ave apavorou-se, lançando-se em revoadas desesperadas contra o gradil, emaranhando as asas abertas, quebrando suas penas. Uma pluma vermelha desprendeu-se de sua crista, atravessou as grades e dançou na direção das suas mãos. O menino agarrou-a e deixou o aviário, caminhando de costas.

No primeiro cruzamento pediu nova informação. Estava na Emiliano Perneta. 
Desviou para a direita, conforme a orientação, e desceu pela calçada em sentido oposto ao trânsito dos carros, rumo à Praça Zacarias. 
A calçada cintilava ao sol. Pela primeira vez prestou atenção às formas que as pedras pretas insinuavam, encaixadas, delicadamente, entre as pedras brancas do passeio: pinheiros, carroças, homens com grandes chapéus de abas largas, cataratas, arbustos prenhes de frutos, o sol emergindo atrás de uma serra... 
Não conseguiu entender toda a trama, achou que talvez fosse um quebra-cabeças. Ansiou por novas revelações na calçada da Marechal Deodoro, acocorando-se, estorvando a passagem dos pedestres, apressados, insensíveis àqueles tabuleiros mágicos, cravejados de cubos pretos.

No cruzamento com a Dr. Murici finalmente penetrou em território conhecido. 
Sentiu o aroma dos temperos da feijoada dos sábados, de sua tenra infância, saboreada ali, em companhia dos pais, no restaurante de seu Eugênio, com vista panorâmica sobre a praça. 
Coração novamente desatado, parou à entrada do prédio. Sentiu fome. Olhou para a esquerda, cheio de lembranças: os paralelepípedos pretos do alto da Murici, o velho casarão com o escritório do pai – e se corresse até lá, para surpreendê-lo? 

Distraído, com um pé na rua, uma buzina com freada brusca invadiu seu devaneio, e uma mão forte o puxou pelo ombro de volta para o meio-fio - Ô, gurí, táfim de morrê ?


Desvencilhou-se do abraço e do sorriso do estranho, retrocedeu e sentou-se sobre o degrau da escada, à entrada da agência do banco. 

Lembrou que o pai não costumava trabalhar sábado à tarde, e soluçou com o rosto escondido entre os joelhos. 
Um pé de vento sacudiu-o. Tremia de frio, um frio desconhecido.

Pensando que era a Marechal Deodoro, já caminhava pela Rua XV, quando parou outra vez, perdido. - Tá vendo ali, as copa dos ipê? - certificou-se a senhora, guiando seu olhar por cima do casario contíguo. E o mediu, entre intrigada e compassiva: - Ô, minino, você tá muito desagasalhado! Mas ele desviou o olhar para os telhados dos sobradões que obstruíam sua vista. 

Caminhou alguns metros e ouviu a voz esganiçada e ofertante da uma mulher - Corre hoooo-jeee, ooooo-lha o ma-ca-coooo !!! 

 Parou à frente dela, mas em vez do bicho, a mulher brandia uma fita de papéis coloridos e numerados. 
Perplexo, buscou a resposta no rosto de alguns compradores, que pagavam em troca de um bilhete, deixando a fita cada vez mais curta. 
Pensou: talvez ela vendesse entradas para um circo...

A esquina estava buliçosa. 
Sentado sobre uma caixa de madeira vazia, com forro de papel azul, um velho tocava acordeão. No chão, à frente de seus pés, um chapéu puído e virado, pedia dinheiro. 
O ritmo da música era animado, mas o menino não gostava de acordeões, suas notas agudas falavam de algo irrecuperável. Notou que o sanfoneiro não reagia às moedas que lhe jogavam no chapéu; sorriso impassível, olhos semi-cerrados, perdidos em trevas. 

Subitamente, o inconfundível e aflitivo grito de um gato rasgou a tarde. Virou-se e deu de cara com um círculo de curiosos, em cujo centro um homem de meia idade espancava um saco de estopa com um pedaço de pau. 

Indignou-se com a alegria sádica das pessoas a cada golpe desferido contra o saco, de cujo fundo brotavam os gritos do animal. 
Nunca tinha presenciado cena tão abjeta! 
Pensou em Max e Moritz, os bem tratados bichanos gêmeos, de casa, cuja pelagem gris e preta, luzidia, os confundia com réplicas de figuras de porcelana, altiva e decorativamente estirados sobre os espaldares das poltronas.

Boquiaberto de estupor, não acreditou quando o agressor empertigou o corpo sobre as pernas, caminhou no interior do círculo humano e soprou uma espécie de apito entre os lábios, que apesar dos golpes terem cessado, emitia o gemido cruento do gato espancado. 
O homem agarrou o saco, sacudiu-o boca abaixo, e no lugar do gato, o saco cuspiu um chumaço de jornais velhos, amassados.
O povão desatou em gargalhada coletiva e o menino fechou a boca e a reabriu em riso solto. 
Tinham-lhe pregado uma peça! 
Arredio, contudo, o círculo se desfez, um a um, diante da insistência do espancador de gatos em vender seu instrumento burlão. 
 Instigado, o menino imaginou reproduzir a cena no pátio do colégio, diante dos coleguinhas aparvalhados... Com as pontas dos dedos contou suas moedas no fundo do bolso da calça, mas afastou-se como os demais.

Deu meia volta, e do meio fio da Monsenhor Celso avistou as torres da catedral - tinha conseguido! Sentiu o peito alagar-se com júbilo, estava orgulhoso de si. 

Caminhou pelo corredor estreito do casario histórico até os trilhos, onde o bonde da linha Bom Retiro serpenteava sua última curva antes da parada central. 
Atravessou a praça com passos animados, desenhando molduras com seus pés ao longo das figurações das pedras pretas, incrustadas nas brancas. 

Já com os pés sobre o passeio em frente à basílica, caminhou, sem querer, até a esquina com a Saldanha Marinho. 

Entendeu que as lembranças o estavam conduzindo até a Casa do Fumo, de propriedade de seu Fritz, amigo do pai - empório misto de museu, atulhado até o teto com tabacos exóticos, fumos-de-rolo, ervas aromáticas, velas votivas, incensos e a colorida santeria. 
Sentia medo respeitoso de macumba. Não mete a mão em despacho, que dá azar pro resto da vida! - tinham avisado. 
No entanto, a recordação do vidro de balas e caramelos sobre o balcão da loja, salivou-lhe a boca, fez roncar novamente seu estômago. Tinha esquecido a fome. 
Vacilou alguns segundos, mas volteou sobre a sola da sandália: se botasse os pés na loja, seu plano seria abortado!

Retornou pela mesma calçada na direção do ponto da linha Vista Alegre. 

A meio caminho sentiu a lufa de frutos frescos, perfumados, e divisou a quitanda de seu Jamil, o velho “turco”. 

O pai havia dito que na cidade não viviam turcos de verdade, que eram todos árabes. Seriam aqueles beduínos?
Certa vez seu Jamil se irritara com um engraçadinho, que perguntara onde dormiam seus camelos. - Sou libanês, descendente de fenícios, gombrendeu, menino? 
Contudo, o povo não se importava com a complexa geografia humana. Para simplificar, os palermas dividiam os estrangeiros da cidade em “turcos” e “polacos”, a soma de todas as pessoas morenas ou loiras, com sotaque estrangeiro.

Do fundo escuro da quitanda, onde fulgiam as embalagens de figos secos, damascos e tâmaras, de fragrâncias exóticas, assomou o rosto moreno de Jamil, dividido por grossos bigodes. O velho não o reconheceu e somente lhe deu as boas-vindas quando o menino lhe explicou de qual freguesa era o filho. 
Divertiu-se com seu sotaque, aveludando a linguagem, trocando o p pelo b e o t pelo d: - Doma um maçã argendino, menino, enguando vem dua mãe!...

 Tinha mentido. 

Para ganhar tempo, inventara que a mãe estava terminando de comprar um peixe na Saldanha. Mas hesitou em morder a cheirosa maçã, lembrando-se do relato da vizinha, que tinha visto (assim jurara, indignada) um “turco” lustrar suas maçãs de Rio Negro, cuspindo na casca, após o que seduziam a clientela, cintilando como enormes rubis lapidados e perfumados.

Aproveitando-se de uma distração de Jamil, esgueirou-se loja afora, jogou a maçã intocada na mochila e buscou com o olhar o ponto do segundo ônibus que deveria tomar. 

Alegrou-se com a vista do bebedouro do Largo da Ordem, em torno do qual as carroças das italianas costumavam distribuir-se feitas estrela, enquanto a freguesia escolhia suas verduras. 


Uma revoada de pombos em travesso rasante sobre os transeuntes, cortou ao meio sua recordação, e ele se concentrou no suave pouso das aves nas amuradas e nos estuques da grande igreja; logo abaixo do relógio da esquerda. 
O ponteiro grande aproximava-se do número doze e o menor já cobria o número cinco. Prendeu a respiração e contou até dez. Não conseguiu: o enorme sino adiantou-se, repicando cinco vezes – era o sinal!

Queria muito rever a casinha das fantasias de sua primeira infância, aquela que descobrira olhando da janela do casarão de dona Ruth, na Rua São Francisco, cuja vista se abria sobre os fundos da catedral. Era perfeita, plantada sobre o telhado da igreja, com quatro paredes de vidro e uma torre de cobre, igualzinha aos castelos dos contos dos Grimm - quantas vezes sonhara em morar ali no alto, senhor do mundo!

 Nova revoada dos pombos, agora em sentido contrário. Deveria apressar-se!

Batia o queixo de frio e foi o último a embarcar no ônibus das cinco para a Vista Alegre. 
O motorista puxou a alavanca da porta dianteira, que se fechou ruidosamente, e o coletivo partiu. 

Afobado, esquecera-se de recontar suas moedas e estendeu-as, hesitante, ao cobrador. 

Faltavam cinco centavos! 
Assustou-se, num átimo imaginou-se fazendo o percurso a pé, distância de cinco quilômetros do centro - chegaria noite escura! O cobrador, contudo, lançou-lhe uma piscadela cúmplice, devolveu-lhe o dinheiro e sugeriu que se agachasse, por baixo da catraca.

O ônibus contornou o Lago da Ordem e sua primeira parada foi a Praça Garibaldi. 
Emocionado, resgatou a lembrança de suas piruetas a bordo do tico-tico, atrás da mãe, rumo à livraria alemã. E aqueles pangarés das italianas, derrapando como equilibristas bêbados sobre os paralelepípedos carecas da Jaime Reis? E o cheiro do primeiro montinho de bosta de cavalo? 
Cantarolando baixinho, reconheceu a igreja dos polacos, a estação de tratamento d´água - que mais se assemelhava a um cemitério - e a casa dos amigos Renaux.

O padre capuchinho que saía pela porta da Igreja das Mercês, reacendeu a lembrança de divertidas peladas no campo da várzea do São João; poeirento, sem gramado. A imagem dos cocurutos e das batinas esvoaçantes, perseguindo a bola, abriu-lhe um sorriso de orelha a orelha. Perdessem ou ganhassem, eram sempre generosos, os padres, distribuindo aos meninos do bairro santinhos de papel e correntinhas douradas, com a imagem da Virgem Maria. A mãe descobrira uma delas em seu quarto, advertindo que “protestantes não adoram a Virgem!”.

Era de perder a conta das coisas que protestantes não faziam!

Quando o ônibus deixou o asfalto das Mercês, embicando para a sacolejante rua de saibro e barro da Vista Alegre, apavorou-se. 
Entre as subidas, descidas e curvas da Vitório Viezzer enredou-se num sofrido solilóquio: por que o pai viajaria sem avisá-lo! E por que não o mantinha a seu lado? Se o pai não o apanhava nos finais de semana, é porque não sentia saudades dele, resumiu. E a mãe - por que demorava tanto? Já tinham recebido quatro boletins na escola e nenhum sinal dela! – será que tinha fugido? O que ele tinha feito para ser afastado de casa? 

Tinha apenas sete anos de idade, mas também a percepção aguda de que algo estava se quebrando. Sentia uma imensa solidão, que criança só consegue descrever com a palavra medo. 


 O ônibus descreveu uma curva fechada e parou. Era seu ponto final. 


Saltou indeciso do coletivo, duvidou ter feito a coisa certa. 

O frio, agora mais intenso, úmido. Feito foto na lembrança, o agasalho surgiu à sua frente, esquecido em cima do catre.

Caminhou com passos trôpegos na direção de casa. 

No horizonte, o sol esmaecido matizava de azul e preto a enorme floresta. Com familiaridade e alguma repulsa reconheceu nas falas das pessoas os sotaques interioranos, caboclos. 


Sorriu para a entrada da chácara dos Fonseca, contornou a sociedade dos adventistas, olhou furtivamente para a casa de Tina - sua paixão proibida -, atravessou o grande baldio, onde jogavam peladas, saudou as pereiras de frutos lenhosos, e num piscar de olhos encontrou-se em casa. 


Seu coração bateu forte, pois assombrou-se com a sensação de tê-la perdido. 

Tremeu dos pés à cabeça, daquele frio desconhecido: lá estava o fusca cinzento de pára-lamas azuis e janela traseira dividida!

Elza, que cochilava sobre o degrau superior da escada de acesso à varanda, despertou com sua aproximação, correu até o portão e brindou-lhe ruidosa saudação, misto de lamúrias e contentamento. 

 Impaciente, o cão arranhou a cerca, metendo as patas nos espaços vazios do alambrado, buscando o toque. 
Do lado de fora do portão, ele respondeu com seus dedos, acariciando-lhe a cabeça, as bochechas peludas, fazendo cócegas em seu focinho com a pluma vermelha do pássaro, que furtara no aviário. 
 O portão estava trancado à chave, mas não foi preciso bater palmas, pois de dentro da casa surgiu a figura do pai, de cabelos desgrenhados: - Mas o que, diabos, você está fazendo aqui? 

Um calafrio sacudiu-o dos pés à cabeça, seu coração quis saltar pela boca, mas partiu-se já no peito: - Papai, você está mesmo aí?! Eu, eu...

Tinha apenas sete anos de idade, e em sua fantasia tinha feito um dos trabalhos de Hércules. 
Tinha se enchido de coragem, desobedecido ordens,  descoberto o mundo,  tinha se superado, o que - leu muitos anos depois - alguns mestres da mística chamavam de "travessia do umbral". 

        Na tarde do dia seguinte, um domingo, o pai colocou-o no fusca cinza, com pára-lamas de azul fosco e vidro traseiro dividido, cruzou a cidade em sentido contrário, e devolveu-o aos seus vigias.

Tinha atravessado o mundo para retornar à sua casa. Que não existia mais.

30 maio 2015

Frederico Füllgraf - O beijo de Bóreas, Parte I

Reparos à “Viagem no Brasil” (1817-1920)
de Carl Friedrich Phillip von Martius & Johann Baptist von Spix




Südfriedhof - Cemitério da Zona Sul, Munique, verão de 1992. 

Seguindo a indicação de Alexander von Martius, tetra-tetraneto do lendário naturalista-viajante, vim prestar uma homenagem a dois brasileiros aqui sepultados. 

E lá estava a lápide reproduzida na capa do  livro de Henrike Leonhardt, que eu acabara de ler: esculpido em mármore azulado, levita no céu o mitológico deus dos ventos do norte, soprando seu hálito glacial sobre o corpo de duas crianças, prostradas: Isabella-Miranha e Yuri-Comás, dois curumins com idades variando entre 10 e 14 anos, arrancadas da Amazônia tropical e transplantadas para o inverno de Munique, onde morreram de frio, entre 1821 e 1822.

Ao lado dos dois indiozinhos, repousa Carl-Friedrich Phillip von Martius - médico, dublê de botânico, geólogo e geógrafo, aos 23 anos de idade - que juntamente com Johann Baptist von Spix (32 anos, zoólogo), empreendeu a mais longa de todas as expedições naturalistas ao interior do Brasil-Colônia: a "Viagem pelo Brasil". 

Para um cineasta à procura de uma back story, não poderia haver imagem mais desconcertante que a do túmulo dos curumins, aos pés dos Alpes; metáfora de inúmeras aberrações que aderem à história das expedições científicas europeias do séc. 19, à América profunda.

No divã de Humboldt

Recém-retornado de sua epopeia nas Américas, Alexander von Humboldt foi assediado por convites para proferir palestras e participar de tertúlias com amigos e admiradores nos salões da nobreza prussiana, em Jena e em Weimar, discorrendo sobre sua Voyage aux régions equinoxiales du Nouveau Continent, fait en 1799-1804, par Alexandre de Humboldt et Aimé Bonpland (Paris, 1807). 

Na plateia costumava reunir-se a fina flor das artes e da cultura alemã da época, tais como Heinrich Heine, Ludwig Tieck, ou ainda Matthias Claudius, Carl Friedrich Gauss, Wilhelm Grimm e August Wilhelm Schlegel, sem esquecer os já canonizados Johann Wolfgang von Goethe e Friedrich Schiller. Entre os ouvintes que disputavam uma cadeira, frequentemente estava um jovem médico dublê de botânico, chamado Carl-Friedrich Phillip Martius, de Munique, que não desgrudava olhos e ouvidos dos lábios de Humboldt.


Parte da plateia estava ali para deliciar-se com o "olhar planetário" do barão, porque fenômenos fantásticos como as assim chamadas "províncias botânicas" - conceito científico emoldurado por uma estética das floras, que segundo Humboldt teciam um cordão de afinidades eletivas, botânicas, ao redor do planeta - constituíam verdadeiras relíquias visionárias. Mas Humboldt estava burilando um projeto completamente inédito, que atraiu e extasiou grande número de artistas plásticos: o "Ensaio de uma geografia das plantas". Nela, ela pretendia plasmar suas concepções sobre a representação artística da natureza tropical.



Humboldt já tinha esboçado uma técnica da representação das plantas em corte anatômico e, não se considerando, ele mesmo, dono da mão mais engenhosa, o que precisava, agora, eram representações de paisagens pela mão de artistas consumados. E de uma forma tal que resultassem adequadas do ponto de vista estético, e fossem ao mesmo tempo cientificamente informativas. Estas paisagens, enfatizava Humboldt, deveriam ser contempladas como organismos vivos e como totalidade. Por isso, seria preciso captar nos desenhos a ação conjunta dos fenômenos naturais, como as condições climáticas e o crescimento, mas acentuando as representações das plantas e as silhuetas das colinas mais características. 

Na platéia, ovações e êxtase...

Elegante, mas categórico, agora Humboldt discorria sobre o aspecto mais delicado e comprometedor de sua nova cosmogonia: o imperativo de um novo olhar político sobre as Américas, atitude que definiu como Wiederentdeckung - o re-descobrimento. E nestas oportunidades era possível perceber que Alexander não era o termômetro, mas ele mesmo protagonista destes novos tempos, pois ousava denunciar, enérgico, o sistema colonialista nas Américas, assentado sobre o massacre dos indígenas autóctones e a exploração do mais abjeto escravismo.

Não cabia dúvida que a inflexão ideológica de seu discurso tinha um quê do "sotaque" francês de 1789 - "liberté-egalité-fraternité! - e não por acaso o gênio berlinense pisara o continente americano exatamente na véspera da eclosão do movimento independentista, no sul encabeçado por nacionalistas como Bolívar e San Martín. 

Com seu novo olhar sobre as Américas, assim o percebia a platéia, simbolicamente Humboldt declarava morto o ciclo da "longa noite escura", inaugurada pelos "descobrimentos" do séc. XVI. Portanto, cobrava o gênio, o programa de todo naturalista que se prezasse, interessado em baixar às regiões equinociais, deveria constituir-se da mais rigorosa investigação científica, acompanhada de não menos enérgica conscientização humanista e política. 

O jovem Martius anotou o recado em sua agenda, mas algo constrangido.

Resultados versus “filosofia”- a  Viagem pelo Brasil

No início de 1817, começam os preparativos para a partida ao Brasil da Missão Austríaca, cujo personagem central era a Arquiduquesa Leopoldine von Habsburg, pedida em casamento por D. Pedro I. Integravam a comitiva o zoólogo Johann Baptist Spix e o médico, dublê de botânico, geólogo e geógrafo, Carl-Friedrich Phillip Martius, que desembarcaram no Rio de Janeiro em abril de 1817. Mas eis um aspecto político do convite: como súditos cristãos do Império da Áustria e do Reino da Baviera, contaram com o estímulo de D.João VI, apenas porque lhe pareciam confiáveis.

E aqui se faz mister explicar um conflito com "esses intelectuais, metidos" da Alemanha: em 1795, o rei português embargara o visto de entrada para outro alemão, mais célebre, porém nada confiável aos olhos da Casa de Bragança: ele mesmo, Alexander von Humboldt, adepto da Revolução Francesa, cujo desembarque no Brasil a Coroa avaliava como perigoso estímulo à luta dos brasileiros pela Independência (Humboldt era esperado em Vila Rica). Enxotado para o Brasil, após a invasão de Portugal por Napoleão, e ainda por cima abrir as fronteiras da colônia para as "bisbilhotices" do prussiano francófilo era, na acepção de D. João VI, colocar a raposa como guarda do galinheiro! Em 1800, quando a Coroa, em Lisboa, soubera que Humboldt fazia pesquisas na fronteira da Venezuela com o Brasil, oficiara o governador da Província do Maranhão, mandando-o distribuir um cartaz: "Alexandre de Humboldt, vivo ou morto!".

Por outro lado, o convite aos dois bávaros foi também uma espécie de compensação para a malfadada "Viagem Filosófica", comandada pelo naturalista baiano, Alexandre Rodrigues Ferreira, e auspiciada  pela Academia das Ciências de Lisboa e o Ministério de Negócios e  Domínios Ultramarinos (1). De 1783 a 1792, Ferreira percorrera as capitanias do Grão-Pará, Rio Negro e Mato Grosso, mas seu rico acervo jamais fora estudado em Portugal, sendo requisitado por Napoleão como butim de guerra e desviado para a França.


Contabilizados os prejuízos, agora o entendimento da Coroa era de que estas viagens não deveriam esgotar-se no devaneio romântico, mas inserir-se na estratégia de fortalecimento da economia imperial, isto é, produzir resultados. Entre suas finalidades, as expedições visavam a reprodução em cativeiro de plantas trazidas pelos naturalistas, e a diversificação da agricultura de contexto colonial.

Pelo Brasil profundo

O primeiro aspecto que chama atenção na "Viagem..." de Martius e Spix foi a extensão territorial de sua caminhada: mais de dez mil quilômetros, percorridos em ziguezague, do Rio de Janeiro até as fronteiras com o Peru e a Colômbia; extensão que se compara à campanha militar de Alexandre Magno, na Ásia Menor, e que faria sombra à "Odisséia" de Ulisses e à "longa marcha" de Mao Tsé Tung, durante a Revolução Chinesa. 

Spix e Martius embrenharam-se em um trópico hostil, a pé, em lombo de burro; navegando rios em canoas improvisadas, dormindo ao relento, passando privações, adoecendo, perdendo as esperanças. E quase o juízo. Despencaram em cachoeiras, e por um triz não morreram afogados, como atesta uma cruz afixada à porta de uma capela em Santarém, na Amazônia.

Interessado em refazer essa odisséia, adaptada para formato de seriado para a TV Alemã, que deveria ser produzido pelo jurista Walter Kalthoff, de Munique, e dividido em 12 capítulos dos três tomos da versão original da "Viagem...", mergulhei no texto da crônica de Martius, que descreve a faina diária dos expedicionários, coletando plantas, animais, minerais e fósseis, catalogando-os provisoriamente. Plantas e animais recebiam desenho apenas esboçado, geralmente acompanhado de instruções para os coloristas, de Munique, pois in situm os naturalistas não possuiam as tintas apropriadas, nem o tempo. Mas o primeiro desfalque da "Viagem pelo Brasil" - espécie de maldição que se abaterá duplamente sobre a expedição de Langsdorff, anos mais tarde - foi Thomas Ender, aquarelista austríaco com a função de “repórter fotográfico”, que adoeceu e abandonaria a expedição, antes mesmo de atingir São Paulo. Suas aquarelas refletem os modos de percepção dos pintores viajantes europeus ao construírem certa imagem do Brasil no início do século XIX, e serviram de modelo para várias enquadramentos de câmera que fizemos em Bananal, buscando a posição mais aproximada do eixo de seus cavaletes.

Entre Santa Cruz, na Província do Rio de Janeiro, e o Alto Japurá, na Amazônia, Martius coletou  20 mil ecicatas, representando 6.500 espécies botânicas, entre as quais  400 espécies novas, descritas na "Flora Brasiliensis" - obra monumental, de aprox. 80 tomos, que reúne 23 mil espécies botânicas, com cerca de 4 mil ilustrações, de acachapante beleza e precisão, e que só recentemente foi digitalizada e está acessível na Internet (http://www.fapesp.br/publicacoes/flora/) na forma de projeto patrocinado, entre outros, pela empresa Natura. O que se desconhece completamente no Brasil é a belíssima zoografia de Spix, que catalogou centenas de espécies de aves, primatas, além de infindáveis gêneros de insetos, que constituem o acervo cult da Coletânea Zoológica do Estado da Baviera, com belíssimas reproduções, em aquarela, de espécies de aves hoje virtualmente extintas. Causou-me enorme estranhamento a visita à Coletânea, onde “dormem” centenas de tucanos brasileiros - e dez, apenas, não teriam sido suficientes? Replicou o prof. Ernst Fitkau, sucessor de Spix, cento e setenta anos mais tarde, que o estudo das espécies vivas requer sempre o abate de dezenas e centenas de indivíduos. Resposta cruel. E lá estão os tucanos, empalhados, com quase duzentos anos de idade, que já perderam o odor a formol, mas cujas plumas continuam sedosas, e cujos olhos brilham, por vezes esboçando sorrisos de cumplicidade. Tocá-los é uma experiência mágica e ao mesmo tempo insólita.

Estratégia fatal

Vinte mil plantas a bordo da galera Nova Amazona, e outro tanto de animais - eis a "Arca de Spix e Martius", em Belém, no ano de 1820, preparando-se para a grande travessia. A nau toma  feições de um colorido jardim botânico, à cuja sombra jaz um hilariante jardim zoológico de animais abatidos.

E la nave va ...

Entretanto, à altura das Ilhas Canárias, a estratégia fatal da travessia é sinalizada pelas primeiras rajadas de vento gelado, e as plantas começam a definhar. 

Martius registra em seu diário de bordo a “má vontade  do capitão português com a carga”, mas é a latitude que exige seu tributo. 

A galera partira de Belém durante o afélio, quando a Terra encontrava-se na posição mais afastada do Sol, e era verão no Hemisfério Norte. À medida, porém, que o barco avançara, rumo a Lisboa, acima da linha dos equinócios, a Terra inclinara-se para o periélio, anunciando a aproximação da estação fria na Europa. 

A propósito, “Herr Professor”, era pergunta a se fazer a Von Martius: o que, diabos, os curumins amazônicos ainda fazem a bordo? 

Já estão batendo queixo de frio como peixes fora d água! 

Tarde demais, porém: três (ou terão sido quatro, cinco – ninguém sabe quantos índios foram, exatamente) morrem de frio. Sim, porque além dos curumins, presenteados por suas tribos, alguns índios adultos também pegaram "carona" na caravela de Spix e Martius. Mortos, são lançados ao mar gelado, mas dizem os nativos que, quando no céu noturno desponta a Estrela Dalva, eles podem ser vistos na abóbada, caminhando de volta ao grande Rio-Mar...

Spix, Martius e sua “arca” cruelmente desfalcada de índios, animais e plantas, atingem a foz do Tejo no final de outubro de 1820. 

Extenuados e debilitados, apressam-se em saudar a El Rey, em Lisboa. 

Enquanto a galera segue viagem para descarregar o butim tropical em Gênova, os naturalistas tomam uma carruagem rumo a Munique. A bordo dela, febris e silenciosos, dois curumins de pele da cor do cacau, são arrastados através do tapete branco, mágico e fatal, da Europa invernal.


11 março 2015

Frederico Füllgraf: Matadouro de mulheres





Frida Khalo - Unos cuantos piquetitos (1935)



Reportagem para o programa “Resonanzen”, Radio WDR3 (Köln), 31/07/2012
(versão em Português do original em Alemão)

Umas poucas espetadelas” é o título do quadro desconcertante, pintado em 1935 pela artista plástica mexicana, Frida Khalo, que exibe uma mulher nua, prostrada de costas sobra uma cama; esfaqueada. A densidade da cena percebe-se na moldura salpicada de sangue, querendo tanto dizer do grau de violência aplicada à vítima por seu algoz, como da perturbação e do asco da autora pelo episódio imaginado.
Parado ao lado da cena de sangue, com a arma do crime na mão, é emblemática a expressão imperturbável no rosto do assassino: a da "justiça" feita mediante a “honra lavada”.

Elemento detonador do quadro foi a própria mortificação de Khalo devida às intermináveis traições de seu marido, o também artista plástico e célebre muralista, Diego Rivera – desta vez com Cristina, a própria irmã da pintora. Discreta, ao contrário da maioria de seus auto-retratos repletos de alegorias da dor e da nudez (ou: da dor como experiência de desnudamento), Khalo preferiu diluir sua própria consumção em um registro do noticiário policial daqueles dias de 1935: um mexicano enciumado esfaqueara com mais de vinte golpes sua própria mulher e, levado a juízo, para espanto da corte declarara com o mais  desbragado caradurismo, que aplicara “apenas algumas espetadelas” à vítima. Com este título macabro, a célebre e alquebrada artista mexicana expressava à sua maneira o abomínio de uma das mais hediondas tradições da “cultura” masculina ibero-americana: a da “defesa da honra”, mediante a qual o machismo transformou o quarto de casal em matadouro.

Oitenta anos depois, a literal matança de mulheres grassa mundo afora e de forma virulenta na América Central, África do Sul, Rússia e países do Cáucaso. Mas também em países da civilizada União Europeia, como a Espanha – com 192 mil casos de maus tratos contra mulheres registrados em 2010 –, e até em nações tão insuspeitas como o anglosaxão Canadá, onde em anos recentes desapareceram duzentas mulheres de etnias indígenas, sem pestanejar  definidas como “meras prostitutas”, desse modo rebaixando seu direito à vida.
A estatística do assassínio em série causa vertigem: na pequena Guatemala, contando 13 milhões de habitantes, três mil e quinhentas mulheres foram trucidadas nos últimos cinco anos. Entre 2000 e 2010, 45.000 (quarenta e cinco mil) mulheres e garotas deixaram suas vidas no Brasil: apunhaladas, abatidas a tiros ou pauladas, como animais de caça – a população de uma cidade de porte médio obliterada da face da terra.

Um estranho sentimento de inferioridade parece habitar e explodir na alma masculina, e incitá-la à violência, suspeita a atriz e produtora cultural, Lorita Rivera: “O Homem se sente inferior, porque é uma coisa histórica, isso. O homem é o provedor da casa, o homem é aquele que traz o dinheiro. Portanto, o homem é que tem que ter o poder. E aí o que acontece? É um jogo de poder. Por ser esse jogo de poder que ele não vai poder alcançar, aí parte para a violência! Eu sinto isso como forma de compensação. Então ele vai desqualificar, vai inferiorizar a esposa, para que ela se sinta de alguma forma menor do que ele.”

Mas como isso combina com a crescente conquista de espaços no mercado de trabalho, nas instituições e no âmbito político, pelas mulheres na América Latina como um todo? No Brasil, por exemplo, 45% dos postos no mercado de trabalho já são ocupados por mulheres, e na Argentina 38% dos assentos no Congresso Nacional são preenchidos por mulheres; no Senado, e acima da média mundial, 43% dos mandatos argentinos pertencem a mulheres. 

A também atriz e produtora teatral, Eloah Petreca, desconfia da qualidade do avanço: “Na verdade, a mulher está tomando um espaço que era dela, e que era só ocupado por homens. Antes era bem isso. E também volto de novo àquilo: ela pode estar ganhando mais do que o marido, porque agora ela pode galgar. Mas ainda assim, a gente sabe que mulheres ocupando o mesmo cargo de homens, ganham menos, são poucas as empresas que pagam a mesma coisa que pra homens. Então, tá aí a violência de novo, até mesmo intelectual – enfim... Mesmo ela sendo até melhor, ela não vai ganhar como o homem ganharia.”

Femicídio ou Feminicídio é como atende pelo nome a exaltação sanguinária da velha misoginia, originária da Grécia Antiga, como expressão do ódio masculino à feminilidade. O conceito - Femicide – foi empregado pela primeira vez em 1976, pela feminista norte-americana, Diana Russel, perante a Corte Internacional de Combate ao Crime contra a Mulher, em Bruxelas. 

A antropóloga e escritora mexicana, Marcela Lagarde, foi quem cunhou a expressãoFeminicídio, observando que o conceito do Femicídio restringira seu olhar à violência e o homicídio de gênero ao âmbito da família, à portas fechadas, advertindo que estas foram sistematicamente escancaradas com o assalto do espaço público pelo assassinato de mulheres. Segundo Lagarde, a esta generalização, irrestrita, da agressão mortal às mulheres, adere um elemento de grande significado político, pois com sua banalização, fazendo pouco caso do trucidamento de mulheres, Governos e Justiça acabaram por estimular o que se transformou em fenômeno de inegável abatedouro, comparável ao Genocídio – daí a propriedade do nome “Feminicídio”.

Pano de fundo desse rigor conceitual, que nada tem de retórico, mas tudo a ver com a descrição do território do não-Direito, foi a apuração feita por Lagarde da abjeta violação e matança de mais de 800 (oitocentas) jovens mulheres, cujos corpos, geralmente mutilados, foram encontrados em esgotos, lixões e no deserto às portas de Ciudad Juárez (México), junto à fronteira com os EUA, entre meados dos anos 1990 e a década dos anos 2000.

Os assassinos dessas mulheres, em grande parte operárias de montadoras multinacionais, tais como Nike, Sanyo, Microsoft e outras, jamais foram levados a juízo, o que, segundo Marcela Lagarde, configura obstrução da Justiça, impunidade dos assassinos e, com isso, a co-responsabilidade do Estado pelos crimes cometidos. Em outras palavras: Feminicídio é crime capital e crime contra o Estado. A tese faz sentido.  Mata-se a mulher porque ela é mulher – ora, e o que vale uma mulher? Feminicídio é isso: um sistema de execução de mulheres.

Em plano paralelo, o silencioso, não apenas justo, mas imperativo avanço das mulheres, em todos os terrenos da atividade humana, sobretudo econômica e política, poderia insinuar que estão contados os dias de vida do velho machismo: onze anos de escolaridade é o que 61 por cento das mulheres em posições dirigentes oferecem à Economia Brasileira; os homens, em comparação, somam apenas 53 por cento. 21 por cento dos empreendimentos no Brasil são dirigidos por mulheres com titulação universitária, que apenas 14 por cento dos colegas masculinos consegue ostentar.

A profissionalização, a independência financeira, a mais discreta manifestação de comportamento emancipado, parecem ter mergulhado o velho e hipócrita sistema patriarcal em sua mais profunda crise.

A redistribuição do poder no tabuleiro dos papéis tradicionais tornou-se prato indigesto aos machões, estimulando sua disposição à violência. Desde então, matam à torta e à direita, a faca, o “berro” e o cacete atravessando em diagonal as classes sociais.

A cada 31 horas, uma mulher é trucidada na Argentina; no Brasil, a cada duas horas.

O decadente sistema patriarcal, a confraria dos machos protege os homens - Mas quem, afinal, Sras. Presidentas, protege as mulheres?




12 fevereiro 2015

Frederico Füllgraf - Oskar Huth, el falsario de Berlín - Una crónica de Año Nuevo


Con mi agradecimiento a Louis Casado por la revisión del Español.



Nota de Louis Casado en POLITIKA CHILE, 6 de enero 2015:                     
Ya lo hemos dicho, POLITIKA tiene el privilegio de contar con colaboradores de buena pluma. Frederico Füllgraf es uno de ellos. El texto que presentamos aquí, con el subtítulo "Una crónica de año nuevo", es notable. Notable por el personaje descrito, por la calidad de la escritura, por las referencias musicales, literarias y lingüísticas, por el tono, por la justicia que le rinde a un perdulario heroico que, en medio de la guerra, jugó a salvar vidas, olvidando la suya...


Los poetas mueren de sobredosis: de versos, droga o locura; en casos extremos, de hambre o de un tiro de revólver del marido de la amante.

Ya Oskar Huth, el ebrio virtuoso, patinó sobre una partitura y se cayó en un foso, entre una clave y un si-bemol. En vida fue lo que los berlineses llaman un
Original: viajado, erudito, amante de la buena tertulia, y, sobre todo, vagabundo; subentendido no como una transgresión criminal, sino un atributo de persona, digamos, algo adversa al trabajo.

Bohemio, Huth era una especie de Baudelaire prusiano. Llevaba en sus venas el mapa de avenidas y alamedas, de las columnas y de las estatuas, de los arcos y viaductos y, sobre todo, de los Kneipen, los bares y botiquínes.

No andaba, parecía deslizarse sobre la ciudad, con los ojos cerrados.

Lo conocí cuando ya bordeaba los sesenta años de edad. Una noche Irrumpió en el bar Litfass, del también nostálgico portugués Antonio, trajeado de modo incombinable, chillona corbata color naranja sobre una camisa de color verde, desaliño acentuado por la chaqueta violeta, desgastada por el uso.

Le gustaba espolvorear mala educación, moda anti-autoritaria de la época, con implacable protocolo, pero sin soberbia: no se resistía al hábito de saludar a las damas, besándoles las manos – actitud extemporánea, que en ellas rescataba al despreciado (pero, ¡Ay!, tan deseado) Caballero a la moda antigua – reforzando la colorida, etílica y divertida decadencia de la entonces ciudad intramuros.

Contumaz, en este mismo tono fin-de-siglo (del XIX, porque estábamos en 1980), a pesar de mi irritación, Oskar me saludaba como “mein Freund vom Oberen Orinoco” (mi amigo del alto Orinoco), rudo equívoco territorial que recordaba aquella ignorancia geográfica de las películas de serie B de Hollywood, en los que chiquitas-bananas bailaban rumba en Coupakébéna...

¿Carmen Miranda? – ¡Oh, nein, gringos jamás!

En aquel chispeante momento bolivariano Herr Huth reincorporaba la odisea del noble Humboldt a las “regiones equinocciales del nuevo continente”.

Con todo, su embrujo no brotaba sólo de sus modos educados, fuera de orden, sino de su aura de alemán marginal, cuyo coraje era cuchicheado en prosa y en verso, en aquellos tiempos (fuera de Ché Guevara ) tan carentes de héroes.

Cuando, inspirado, se ponía al sebiento piano de teclas amarillentas por el humo de los cigarros de muchos años, parecía una réplica perfecta del “El Borracho”, vinilo muy tocado en las fiestas de mi país, en mi infancia, ilustrado en la carátula con un pianista ebrio junto a un piano ídem. Del cual Oskar conseguía arrancar armonías oblicuas para asombro de la platea: solemnes fugas de Bach, aquellos estertores de Billie Holiday (“He is my maaaan…”), una lacrimosa chanson de la Piaf.

En estos concerti buffi jamás faltaba una rubia cuasi fatal, derramada sobre el piano, como un falsete de Greta Garbo trazando con los ojos John Gilbert al piano, en Flesh and the Devil.

Aposté que un día se adentraría en el bar en medio de una depresión astral y – de staccato a furioso – atacaría algo de Hindemith; sólo para contrariar.

El “borracho con arte”

Pero Oskar era movido por un inquebrantable buen humor. Cuando llegaba recién despierto, con profundas ojeras oscuras, despeinado y con barba de tres días, se disculpaba con deferencia, recuperando en el cielo de plomo los tormentos de la noche anterior : “me pasé de la cuenta, Brüderchen (“hermanito”), me bebí el río entero, me encharqué hasta el alma”, alegoría emprestada del Spree, río que corría de este a oeste, por debajo del Muro, imperturbable ante la división de la ciudad. Y saber beber para Huth era un arte, que por eso se definía como Kunsttrinker, un “borracho con arte”.

Antes de mi regreso a Brasil teníamos acordada una entrevista para un semanario brasileño, que tendría lugar en la gavia del Obelisco de la Victoria (victoria sobre Francia, en 1870), una columna bismarckiana que culminaba en un gigantesco y brillante ángel dorado, que Wim Wenders llevó a la historia del cine como ícono de “Las alas del deseo”.

Indisciplinado, alemán al revés, Herr Huth no llegó. Me dejó baboseando por la narrativa hasta el próximo encuentro - en el bar. Ciertamente porque el ángel no servía bebidas, sólo unos excelsos, insípidos hálitos, sin alcohol, sobre el arte de elevarse a las alturas; esas bizantinidades aleteantes de querubines y aeronautas.

Hijo de músico, acompañaba al padre a bordo de una carreta, desde la más tierna edad en misión profesional. Viajaban por Berlín y la provincia de Brandenburgo, reparando y afinando órganos de iglesias, devolviéndole la alegría a padres y pastores, recibiendo a cambio su pro-labore y la promesa de una vida eterna.

Fue así que la música entró en el paso terrenal de Oskar, quién sabía como pocos que la eternidad, pues, ¡se arrebata en el instante!


El falsario eternizado por la Literatura

Lo que haría su biografía digna de un largo metraje fue la 2ª guerra mundial, que silenció sus Lieder, sustituyéndolos por el silbido tenebroso de los bazucas, tanques y bombarderos, cubriendo el cielo sobre Berlín.

Periodistas y escritores alemanes ya compararon su aventura y sus modales a la de “El valeroso soldado Švejk”, es decir: hacerse el tonto, idiota, como táctica astuta para la sobrevivencia.

Huth venia estudiando artes plásticas y técnicas de impresión en Berlín, entre 1936 y 1939, cuando explotó la II Guerra Mundial y el debería presentarse para el frente de batalla. Pero burló al alistamiento militar con el pretexto de “disturbios motores” y se escapó.

Era el año 1941, cuando más y más amigos judíos de Oskar eran apresados y deportados para campos de concentración y el pintor bohemio decidió desaparecer, ingresando a la clandestinidad, en la que sobrevivió con astucia hasta el final de la guerra, en 1945.

Equipado con una imprenta, alegaba producir importantes documentos de guerra, pero en realidad imprimía documentos sí importantes para la sobrevivencia de clandestinos: carnés de identidad, pasaportes, bónus alimentarios – todo falsificado gracias a su perícia como artista plástico y diseñador.

No trabajaba por dinero apenas, se desempeñaba como activista dedicado a judíos perseguidos y combatientes de la resistencia anti-hitlerista. Para evitar preguntas inoportunas y controlos en el metro y trenes de Berlín, el falsario los evitaba, preferiendo entregar su “mercancia en domicilio”, lo que hacía sacrificándose y caminando interminables horas, a veces en círculos, a través de la capital del Reich.

Su “cliente” quizás el más celebre de todos fue el general Ludwig von Hammerstein, que había participado del fracasado atentado del 20 de julio 1944 contra Hitler, y que por eso vivía clandestino en la residencia de la farmaceutica Hertha Kerp, en Oranienstraße 33. Alli Oskar Huth y el general demócrata compartieron algunos días como enemigos cazados por la Gestapo de Hitler. Cuando Huth le ofreció algunos de sus bónus alimentarios, que permitían comprar comida racionada, el militar no las quizo acceptar, pero al final el impostor lo convenció, diciendo, "tómelos tranquilo, yo mismo los fabriqué”, a lo que se siguió tremenda carcajada – así se lee en “Hammerstein o el tesón” (Anagrama, 2012), la biografía fictícia del poeta Hans Magnus Enzensberger sobre el padre del general Ludwig, Kurt von Hammerstein, ex Jefe del Ejército Alemán, anti-fascista como su hijo.

Uno que siempre estuvo fascinado por su historia fue el Premio Nobel, Günter Grass, que finalmente lo inmortalizó en su novela “Años de Perro” (reeditada por Alfaguara en 2013), la monumental disecación del nazismo por el autor-personaje.

Oskar Huth sobrevivió a los seis años de guerra como falsario, emergiendo de su bunker el día de la conquista de Berlín por las fuerzas aliadas. Interrogado por norteamericanos, les habría recomendado una “receta” para su país en ruinas: ¡divídanlo en cuarenta partes y nunca más habrá guerra!

Los yanquis se miraron, rieron abrumados y prometieron pensar en la propuesta: en 1948 Alemania estaba dividida en dos y Berlín “en cuatro patas”, digo: dividida en cuatro “zonas” de dominio militar – geografía e historia, hoy superadas – pero de autoría reivindicada por Oskar, que reía, mañoso, ajustándose la corbata torcida, insinuando solemnidad. Se divertía con el pasmo de los cristianos ante sus fanfarronerías y apostaba a su perpetuación como mito.

El teclado aerodinámico

E intentando arrancar de la música el inmortal Oskar, el Airoso, tramó un invento inmejorable, primoroso: un piano con “teclado aerodinámico”.

Revolucionario porque profundamente ergonómico, su concepto se basaba en la observación de que, durante un concierto de una duración media de noventa minutos, un pianista aplica varios centenares de kilos de fuerza en el teclado.

El recital fue una apoteosis, ¡aunque el pianista estaba hecho mierda! – Protestaba, el cabello despeinado.

Sustituyendo el teclado convencional, fijo, por otro, acostado sobre un colchón de aire, el espirituoso borracho pretendía imprimirle la “sostenible levedad del toque” al arte de conducir el piano.

Patentó su idea, y una confraternidad de amigos creó el “Fondo Oskar Huth”, dotado de 10 mil marcos, destinado al desarrollo tecnológico de la creativa artimaña. Había, no obstante, una condición: ningún centavo del fondo debía ser malversado, ni usado para fines que no fuesen “estrictamente pianísticos”

Crónica ebria, anunciada hace mucho tiempo, la subversión del teclado murió en la cáscara, digo: en el trago.

Mal interpretando la clausula del contrato, Oskar confundió fondos con fondo de botella: cierta noche buceó en el lecho abisal de una botella de caña y de allí nunca volvió. Se inmortalizó en el arte de la fuga…

Publicado originalmente em: http://www.politika.cl/2015/01/04/una-cronica-de-ano-nuevo/