12 dezembro 2014

Frederico Füllgraf - Greenpeace invade Patrimônio da Humanidade em Nazca

Fotos: divulgação



Aproveitando-se da realização da COP 20 - Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, reunida em Lima até o dia 12 de dezembro - a ONG ambientalista Greenpeace invade área das Linhas de Nazca, protegida pela UNESCO, para instalar mensagem de protesto e alavancar manchetes na imprensa internacional. Indignado, o ministério da cultura do Peru expediu nota à imprensa, manifestando seu repúdio ao incidente, que agrava os danos já causados às milenares inscrições do deserto peruano. O incidente alinha-se a verdadeiras chicanas políticas, como o apoio da Greenpeace à privatizadora Lei de Pesca do governo Sebastián Piñera, que mereceu o repúdio de 80 mil pescadores artesanais chilenos e cada vez mais desacredita a ONG em toda a América Latina. O que chama atenção no episódio, é a lampeira determinação da ONG em afrontar o Direito Internacional e violar a soberania nacional, como foi a penetração em águas territorias da Rússia, em setembro de 2013, a ridícula fundação da “República dos Glaciares”, no Chile e, agora, a invasão do Patrimônio Cultural da Humanidade, no Peru. Glamurizada pela imprensa dos países ocidentais, na Rússia a ONG sofreu a apreensão de sua embarcação e a prisão temporária de seus ocupantes. Alpinista social, meses depois, a brasileira Ana Paula Maciel, uma de suas ativistas, posou nua para a revista Playboy.


A COP 20 em Lima

Em Lima acontece a COP-20, mais uma conferência na esteira do Protocolo de Kioto – esboçado em 1997 e ratificado apenas em 2005 – com o objetivo declarado de reduzir a emissão de poluentes atmosféricos e, com isso, mitigar o efeito-estufa em escala global, de origem indiscutivelmente antropogênica.

Desde sua implementação, nenhuma de suas metas foi cumprida, cuja principal era a redução das emissões globais em 5,2%, entre 2008 e 2012; o tão decantado “primeiro período de compromisso”.

Os Estados Unidos, a China e a Europa são os maiores emissores de gases-estufa, seguidos de perto pelo Brasil, no triste 6º lugar do ranking sujo.

Em outubro, a União Europeia alardeou que diminuirá em 40% suas emissões até 2030 Em novembro, os Estados Unidos anunciaram sua intenção de reduzir suas emissões entre 26% e 28% até 2025. A China não divulgou números, mas compromete-se a zerar seus gases-estufa até 2030.

Custo das alterações climáticas e seus “danos colaterais”

Para sinalizar boa vontade, 32 países ricos destinaram 9,0 bilhões de dólares para o Fundo Verde do Clima.

Estão falando sério? Não, literalmente estão brincando com fogo.

Em 2005, a ONU estimou entre 40,0 e 170,0 bilhões de dólares o custo anual do plano de estabilização do aumento da temperatura global na casa dos 2º C, até 2030. Em 2009, o Instituto Internacional para o Meio-Ambiente e o Desenvolvimento, de Londres,. mandou para a estratosfera a estimativa original, alardeando seu aumento em 500,0 bilhões de dólares, isto é, 0,7% do faturamento econômico global anual.

Mas estes são apenas os chamados “custos de adaptação às alterações climáticas”, que o Banco Mundial estima entre 18,0 e 21,0 bilhões de dólares anuais, de 2010 a 2050, apenas na América Latina.

O custo dos “danos colaterais” já em curso – tufões, inundações, obras de reconstrução e seu oposto: estiagens, redução dos recursos hídricos, desertificação, migração agrícola – nem estão sendo devidamente computados ainda, mas estima-se que rondem 1,0 trilhão de dólares em escala global.

Trocado em miúdos: até agora, a conta “fechava”, pois os principais perdedores – de vidas humanas, meio-ambiente e dinheiro – eram os países do Sul, e os grandes ganhadores, os países centrais do Norte, que aumentaram suas emissões durante a fase de expansão econômica (1997-2008), “porque não se mexe em time que está ganhando”.

Desde então, na ONU foi desatada a briga pela responsabilização das emissões, entre op Norte e o Sul. Os otimistas especulam que, desta vez, as negociações podem avançar favoravelmente aos países do Sul – terão motivos?

A posição do Brasil

Na COP 20, o governo brasileiro defende que se mantenha o princípio das “responsabilidades compartidas”, porém de modo diferenciado, alertando que os países desenvolvidos têm maior responsabilidade e devem assumir a maior cota nos cortes de emissões. Em paralelo, a diplomacia brasileira conseguiu submeter à Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC) uma proposta, conhecida como “moeda do clima”, cujo objetivo é a precificação de ações antecipadas, obtendo créditos por todas as ações que o país pretende realizar antes de 2020, para a redução dos gases-estufa. Difícil imaginar que essa contabilidade, na qual se imbricam interesses do Itamaray com ações do Ministério do Meio Ambiente, seja efetivamente aprovada e compartilhada pelos movimentos sociais, que realizam em Lima sua “Cúpula dos Povos” à margem da conferência oficial, sob permanente pressão.

Greenpeace invade Patrimônio da Humanidade

Transitando entre as duas conferências, na madrugada da última terça-feira, 9, ativistas do Greenpeace infiltraram-se na Área Protegida das milenares e mundialmente admiradas Linhas de Nazca, para instalar faixas de advertência às alteraçõeds climáticas.

Quando ao conteúdo, nihil obstat, diria um rábula. Mas ao lado do famoso “Colibri”?

O ministério da Cultura do Peru esclareceu que na área “está terminantemente proibida qualquer intervenção humana, dada a fragilidade do contorno das figuras”, e condenou o incidente: “Após a ação ilegal, inconsulta e premeditada do grupo ambientalista, a área foi gravemente afetada”.

Respondendo pelo Facebook, a Greenpeace alegou que “as faixas são apenas de pano estendido sobre o chão. Todo mundo foi muito cuidadoso e não se produziu nenhum dano em absoluto”.

Para acalmar as autoridades peruanas, Kumi Naidoo, porta-voz internacional da ONG, anunciou uma viagem a Lima “para desculpar-se pessoalmente pela ofensa causada, como tambén representar a organização em qualquer discussão com as autoridades peruanas.”

Contudo, o vice-ministro da Cultura do Peru, Luis Castillo, replicou que o Peru solemente repele as desculpas oferecidas”, porque a ONG não admite o dano causado ao patrimônio histórico e cultural do país.

Após a denúncia do ministério da Cultura, a procuradora Velia Begazo, da Segunda Promotoria Provincial de Nazca, abriu inquérito, inspecionando a área contigua à figura arqueológica do Colibrí, acompanhada por policiais e peritos, concluindo por “danos irreparáveis, em uma área de 1.600 metros quadrados”. Identificados, os implicados da Greenpeace, estimados em doze ativistas, poderão enfrentar processo por “delito contra o patrimônio cultural”, que prevê penas de até 8 años de reclusão.

Tentando brilhar com mais um de seus shows de pirotecnica midiática, a Greenpeace paga caro pela indesculpável estultícia de ignorar as suscetibilidades do Peru, país que ainda hoje brigas nas cortes internacionais pela devolução de grande parte de seu patrimônio cultural, saqueado por aventureiros gananciosos como Hiram Bingham, o ladrão de Machu Pichu, glamurizado nas telas como o “Indiana Jones” de Steven Spielberg.

As Linhas de Nazca

As Linhas de Nazca são antigos geóglifos em grande escala, localizados nas Pampas de Jumana, deserto de Nazca, região de Ica, sul do Peru. Traçadas por artistas da cultura Nazca (sécs I a VII d.C.), representam centenas de figuras, de deseños simples a mais complexos, simbolizando criaturas zoomorfas, fitomorfas e abstrações geométricas, todas riscadas com sulcos na superfície terrestre.

Comunidades esotéricas e ufólogos tecem conjeturas e lendas as mais extravagantes e doidivanas sobre sua origem e propósito, entre as que se conta que os desenhos teriam origem extra-terrestre, ou de que configurem código de aterrisagem para naves de ETs.
Afetadas por projetos de mineração, visitação abusiva e estradas clandestinas, em 1994, a UNESCO declarou as Linhas de Nazca Patrimônio Cultural da Humanidade.

Apesar da proteção, o governo do Peru, irresponsavelmente, liberou a área para a realização, em 2012 e 2013, da rally de Dakar, milionário empreendimento expulso do Saara, agravando a proteção do sítio.

Sua grande estudiosa e protetora foi a arqueóloga alemã, María Reiche (1903-1998), figura emblemática conhecida como a Dama de la Pampa.

Possivelmente, Reiche tenha encontrado a verdadeira dos desenhos, que interpretou como um imenso calendário. Estabelecendo relação entre os desenhos e sua posição frente às estrelas, tentou demonstrar que os habitantes de Nazca criaram o sítio astronômico – um observatório? - para calcular o início de cada estação do ano, qual era a melhor época para colheitas e quando começava a temporada das chuvas.

Havia vida inteligente e perspicaz na Cordilheira dos Andes, em cujo chão a Greenpeace se move com inusitada jumentice.



04 novembro 2014

Frederico Füllgraf- A bela e o matador

Ivette Vergara, animadora de Mega TV, Chile

Santiago do Chile                                                                                                               Exclusivo para Jornal GGN 

Ivette Vergara é um dos mais belos rostos do Chile, e os fotógrafos indiscretos costumam registrar closes de suas pernas cruzadas, não menos esculturais. Faz parte do tititi, Ivette gosta.
Ex-modelo, “Miss Paula 1990” (organizado pela revista homônima) e animadora do programa de variedades "Mucho Gusto", no canal privado Mega TV, nestes dias de outubro estourou uma bomba nos meios de comunicação, salpicando com seus destroços a imagem do símbolo sexual chileno: a Corte Suprema sentenciou a três anos e um dia de reclusão o capitão reformado do exército, Aquiles Vergara Muñoz , como autor de homicídio qualificado, perpetrado em 1973 no interior de uma delegacia de polícia de Puerto Aysén, na Patagônia. Além deste, o ex-militar pinochetista foi indiciado por outros dois assassinatos de simpatizantes do então presidente Salvador Allende, fuzilados a sangue frio e enterrados clandestinamente em valas anônimas. A falta de sorte de Ivette Vergara: o militar sentenciado é seu pai. Sua primeira reação à notícia foi: “Estamos tranquilos, porque sabemos que meu pai é inocente”.
Retronarrativa: fuzilamentos na Patagônia
Outubro de 1973.
Poucas semanas após o golpe militar contra o governo Salvador Allende, chega a Puerto Aysén – que à altura mal contava 5.000 habitantes, mas hoje é o principal núcleo de aquicultura de salmão do Chile, localizado 2.300 quilômetros ao sul de Santiago - um batalhão de artilharia comandado pelo capitão do exército Aquiles Vergara Muñoz, “para contribuir à manutenção da ordem interna ante eventuais insubordinações e violações do toque de recolher”, segundo a linguagem eufemística da ditadura Pinochet.
Acima: Presos executados em Aysén
Abaixo: Capitão do exército (R) Aquiles Vergara Muñoz
Fotos: divulgação

A rigor, naquelas semanas estava aberta a “temporada de caça” aos simpatizantes allendistas. Realizar prisões arbitrárias, torturar e matar estavam na ordem do dia. Foi em suas rondas ostensivas que no dia 2 de outubro de 1973, o capitão prendeu o jovem Julio Cárcamo e seu amigo apelidado “Cachorro [filhote] Alvarado”, que supostamente teriam insultado e ameaçado o funcionário da polícia, Oscar Carrasco Leiva.
Debaixo de coronhadas de fuzil e chutes em todo o corpo, ambos foram arrastados à segunda delegacia de Carabineiros de Aysén e jogados numa cela imunda.
Madrugada alta, os dois presos foram retirados da cela e conduzidos a uma baia de cavalos, onde os esperava Vergara Muñoz. Primeiro, o capitão descarregou sua pistola nos presos, em seguida formou um pelotão irregular e ordenou fogo, que crivou de balas Cárcamo e o “Filhote” - em flagrante assassinato a sangue frio de dois presos ilegais, sem acusação formal, sem tribunal nem direito à defesa.
Completada a chacina, os corpos das vítimas foram levados para a morgue, onde um médico emitiu o laudo sem qualquer autópsia. Porém, o atestado de óbito de 20 de outubro de 1973 atesta “anemia aguda” e “ferida de projétil” como causas mortis dos dois patagoneses, que foram colocados nus em um jipe, conduzidos até o cemitério local e jogados em uma vala anônima, devidamente preparada.
A selvageria do “Caso Aysén” é emblemática porque tortura, fuzilamento e ocultação de cadáveres foi o modus operandi da repressão não apenas pinochetista, mas da posterior Operação Condor, em todo o continente.
Negando evidências durante 40 anos
Ninón Neira de Órdenes, uma senhora em provecta idade e presidente da Comissão de DDHH da Região de Aysén, protestou em alto e bom som contra a sentença dos ministros da segunda turma do Supremo, por considerá-la tímida: o septuagenário Muñoz Vergara é notório assassino e merecia pena mais drástica do que três anos de liberdade vigiada.
Embora muito mais criativa e eficiente do que a brasileira, a Justiça chilena tem sabido contornar e esvaziar a Lei da Anistia pinochetista ainda em vigor, julgando violadores de DDHH pelo viés dos “crimes comuns”, tais como formação de quadrilha, sequestro e homicídio, contudo, em casos como o de Muñoz Vergara, atropelando a jurisprudência internacional, ao reduzir a pena em primeira instância, alegando “meia prescrição”. Tanto a Corte Internacional de Justiça como a Corte Interamericana de Direitos Humanos estabeleceram que crimes de lesa-humanidade não prescrevem.
Detido pela primeira vez em 2009, o ex-capitão Aquiles Vergara negou tudo. Afirmou que não teve “faculdade legal para determinar nenhuma detenção”, não constituiu pelotões de fuzilamento e que, ademais, sequer teve conhecimento do nome ou da fisionomia dos executados.
“¡Yo no sé de nada!”, insistiu o ex-capitão pinochetista - simples assim.
Inesperadamente, em setembro de 2014, o ministro Sepúlveda Coronado o indiciaria em novo processo, desta vez pelo homicidio qualificado de Elvin Alfonso Altamirano Monje, “detido à margem de qualquer processo legal” e também assassinado em uma delegacia dos Carabineiros de Puerto Aysén.
Como você reagiria, se seu pai fosse condenado por violação de DDHH?
No início de 2014, um caso semelhante ao de Ivette Vergara derrubou a recém-nomeada Subsecretária do ministério da Defesa do governo Michelle Bachelet, Carolina Echeverría Moya. Em 2009, durante a primeira administração Bachelet (2006-2010), a funcionária já articulara o arquivamento de um processo por violação de DDHH, iniciado por ex-marinheiros allendistas, e em janeiro de 2014 omitiu em seu currículo o parentesco com o coronel da reserva do exército, Víctor Echeverría Henríquez, seu pai. Vivendo em liberdade impune, Echeverría Henríquez foi reconhecido por ex-presos políticos como comandante do famigerado Regimento de Infantería N°1 “Buin”, que durante a ditadura Pinochet funcionou como centro clandestino de detenção e tortura.
A sublimação dos crimes paternos por Ivette Vergara e Carolina Moya pode ser considerada uma síndrome.
Indagado sobre a reação de familiares de militares processados por violações de DDHH, o psicólogo chileno Marco Antonio Grez aponta um curiosa racionalização: ”Quando familiares diretos são confrontados com fatos acobertados por mentiras, delitos ou ilícitos envolvendo seus pais, em sua mente costuma ocorrer uma contradição. Quando crescemos, habituando-nos a justificar uma situação que nos faz sofrer, tratamos de dar um sentido às justificativas, inventando o pretexto de que o pai teve que cumprir ordens, deste modo conseguindo restabelecer um estado de equilíbrio".
Somente arrependimento redime imagem dos filhos
Em entrevista ao semanário Cambio21, o sociólogo Manuel Antonio Garretón adverte contra generalizações: “A única solução para estas coisas são sociedades  mais educadas, menos familísticas, menos fechadas em grupos estanques, até mesmo religiosamente, já que a tendência é atribuir aos filhos as características que têm os pais ou parentes”.
Contudo, até quando mulheres como a musa da TV ou a secretária de Estado continuarão a tampar o sol com a peneira, escondendo-se onde não há mas refúgio?
Garretón é taxativo:”A única maneira de superar esta situação é que os que cometeram os crimes os admitam, peçam perdão e deem mostra de seu arrependimento. Só assim ninguém mais poderá insinuar que´tal pai, tal filho´".
Talvez não seja exatamente este o ponto: se o capitão assassino admitisse a verdade, talvez aliviasse a dor de sua filha Ivette Vergara e ela não precisasse mais encobri-lo.
Talvez.

 Publicado originalmente em:
http://jornalggn.com.br/blog/frederico-fuellgraf/chile-condenacao-de-pai-violador-de-direitos-humanos-atinge-apresentadora-de-tv

09 outubro 2014

Frederico Füllgraf - Brasil: Elecciones y lecciones


Foto: divulgação


El último día 05 de octubre, 142 millones de electores brasileños – nueve veces la población de Chile – fueron a las urnas para elegir su nuevo presidente, en verdad su nueva presidenta, ya que desde el início de agosto, las encuestas estaban polarizadas por dos mujeres: la candidata a la reeleccón, Dilma Rousseff (PT-Partido de los Trabajadores), y su contrincante, Marina Silva (de Red por la Sustentabilidad y PS-Partido Socialista). En un tercer lugar, evaluado como seguro perdedor de la disputa, figuraba el ex-senador y gobernador por el Estado de Minas Gerais, Aécio Neves.

Desagradables sorpresas: PT debilitado, Congreso fragmentado

Al cabo de una campaña durísima, Brasil se acostó la noche del domingo, 5 de octubre, con algunas sorpresas: Marina Silva, ya celebrada por los medios de comunicación y las bolsas de valores brasileños y globales como “la potencial futura presidenta de Brasil”, había sido superada por Aécio Neves y estaba definitivamente fuera del partido. Neves, que patinaba entre 17% y 19% de las intenciones de voto, virtualmente logró doblar su votación (con 33,5%) y Dilma Rousseff, a la que a menos de 24 horas del escrutíneo los institutos de encuestas atribuían “47%”, con posibilidades de vencer la elección en primera vuelta, se había congelado en una zona ligeramente por en cima de los 40%, ganando la primera vuelta con 41,3% y así condenada a una segunda vuelta que se realizará el 26 de octubre.

Pero en Brasil se elegían también diputados para las Asambleas Legislativas provinciales y diputados y senadores para el Congreso bicameral. Revisado el 100% de las urnas, entonces fue posible contabilizar el tamaño del desastre. Primero, el encogimiento del PT: como la más grande bancada del Congreso, con 88 diputados, el partido gobernista se vió reducido a no más que 70 congresistas, sin embargo salvando su bancada en el Senado, en donde continuará con 14 parlamentarios. Segundo, la fragmentación todavía más intensa del Congreso – en donde desde 2010 actuaban 22 partidos políticos -, a los que se suman 6 nuevas agremiaciones. La tercera sorpresa fueron los 1,6 millones de votos alcanzados por Luciana Genro, hija del gobernador Tarso Genro (PT) de Rio Grande do Sul y candidata a la presidencia del PSOL-Partido Socialismo & Libertad. Fundado en 2004 como una de las disidencias del PT, en diez años el PSOL avanzó de forma sostenida, conquistando las alcaldías en dos grandes municípios, 7 asientos en la Asamblea Legislativa de Rio de Janeiro y 3 mandatos en el Congreso Nacional. En las manifestaciones multitudinarias del junio 2013, el PSOL fue, de inicio, la única fuerza de izquierda que intentó darle un rumbo progresista a las reinvidicaciones, pero tambiém radicalizando las protestas, por lo que fue acusado de aliarse a la derecha en contra del gobierno Dilma Rousseff.

¿Terminaron las sorpresas?
¡No!

Si logra su reelección, con el nuevo Congreso en Brasília comienzan los problemas de Dilma Roussef: a los 70 diputados de la llamada “bancada evangélica” - integrada por pastores de sectas pentecostales, ultra-conservadoras, como la Asamblea de Diós, de Marina Silva – se sumaron 20 parlamentários más de nuevos grupos mesiánicos y reacios al progreso civilizatorio.

La Cámara de Diputados, con sus 513 asientos, se tiñó más conservadora todavía, con plataformas ultra-derechistas, envolucrando temas especialmente polémicos como la descriminalización del aborto y los derechos de homoafectivos. Son fuerzas creacionistas, machistas y pseudo-moralistas, que desean derrocar la penalización de la homofobía como crímen. Pero están también partidos como el “Republicano”, que logró acceder al Congreso con pautas radicales en seguridad pública, cobrando la nulidad del estatuto del desarme (que prohibe la posesión privada de armas, salvo autorización especial) y de la mayoridad penal. Uno de sus más destacados representantes es el exradialista y diputado Celso Russomano, reelecto con 1,5 millón de votos, pero envolucrado en una serie de ilícitos investigados por el Ministério Público. En Rio de Janeiro, Jair Bolsonaro - excapitán del ejército, vocero del discurso fascista “law & order” y diputado por el derechista PP-Partido Popular - alcanzó 430.000 votos, y junto con Russomano y los diputados Marco Feliciano y Levy Fidelix representa las fuerzas más retrógradas de la política en ámbito latinoamericano.

Con 304 (de 513) asientos en la Cámara y 52 (de 81) asientos en el Senado, si se confirma su victoria, Dilma Rousseff seguirá gobernando con mayoría simple, pero serán más complejos los trámites para proyectos progresistas.

El escupitajo de los incluídos y la encrucijada del neo-desarrollismo

Pero al final de cuentas, ¿quienes eligieron a este teatro de horrores del escenario brasileño?

Antes de contestar la pregunta, se debe anticipar que en cierta medida actualmente Brasil se divide en dos grandes bloques antagónicos: un bloque mayoritario de centro-izquierda y gobernista, y el bloque ligeramente minoritario, cuya consigna es “fora PT!” - “¡que se vaya el PT!”.

El mapa geográfico de las elecciones es elocuente: el Sur del país, integrado por apenas 4 de un total de 26 Estados (províncias), pero que produce el 49,6% - es decir: la mitad – del PIB brasileño (del que apenas São Paulo responde por el 33,1%!), concentra el mayor electorado conservador del país. Fue alli, en su propia cuna, en donde el PT sufrió su más notable derrota.

Pero es más: lado a lado con las clases alta y media del país, que se miran en el espejo de sus antepasados, emigrantes europeos, y su posición social aventajada, quienes en gran parte favorecieron la avanzada electoral del conservadorismo fueron también los 32 millones de la decantada “nueva clase media”, beneficiada por las políticas de inclusión social en los 12 años de gobernación PTista. Su voto “anti-PT” fue un verdadero escupitajo en el plato que se les ofreció.

He la lección quizá la más amarga: con la más elevada inversión en gastos sociales de todos los tiempos, que sacaron de la pobreza a 2 Chiles en 12 años (!), se puede decir que electoralmente “la creatura se insurgió contra su creador”.

Pero, parafraseando el dicho bíblico, según el cual “no solo de pan vive la creatura”, también comienza a percibirse el agotamiento del modelo neo-desarrollista iniciado por Luis Inácio Lula da Silva y continuado por Dilma Rouseff, que por supuesto constituye una obra monumental de inclusión en todo los ámbitos – alimentária, habitacional, laboral y educativa -, pero que fue incapaz de proporcionar la inclusión politica de este enorme segmento de la población. Al no ofrecerle legítimos canales de participación, se despolitizó a las masas egresadas de la pobreza y se debilitó la Democracia, como lo demuestra un Congreso fragmentado por una veintena de partidos-fantoches y centenares de parlamentarios envolucrados en ilícitos.– ¡Sí, yo escribí parlamentários y no “el gobierno”, como lo afirman los medios conservadores.

Turbulencias a la vista, pero también cambios para mejor

Apoyamos a Dilma porque ella representa la esperanza de igualdad”, escribió esta semana el eminente periodista Mino Carta en su editorial de la revista “Carta Capital”, uno de los pocos medios de comunicación simpáticos al gobierno.

En verdad, Dilma Rousseff es una suerte de pasionaria que tropieza en sus propios éxitos. Lo que logró alcanzar en 4 años no es poco y demasiado largo para citarlo todo en este espacio. Que su gobierno, el de Lula y el PT hayan sido apuntados como “corruptos”, es una canallada midiática orquestada, que esconde, selectivamente, la “privataría” (privatizaciones) de los gobiernos del PSDB de Aécio Neves, afundados en una marea de corrupción solo parcialmente investigada, pero jamás penalizada. Lula y Rousseff sufrieron la judicialización de la política con los abusos de la Corte Suprema y bloqueos de un Congreso cada vez más conservador, circunstancia que solamente una auténtica Reforma Política - con la drastica disminuición de los partidos políticos, la prohibición de la financiación privada de campañas electorales, la adopción de un riguroso programa de prevención y monitoreo de la corrupción – con la instituición de plataformas y foros de Democracia Participativa podrá cambiar para mejor. Y la propia presidenta aseguró que el camino para alcanzarse el nuevo rumbo es una Asamblea Constituyente.

Una victoria de Aécio Neves – después del colapso de la candidatura Marina Silva, el súbito candidato de los mercados – significará enormes pérdidas no solo para Brasil (con la restauración de una economía de corte neoliberal), sino para toda América Latina, el Hemisferio Sur y el Nuevo Bloque de Alianzas multi-continental, del que el BRICS es el primer paso hacia el abandono del dólar como moneda dominante y del actual mapa geopolítico unipolar.

Dilma Rousseff enfrentará una dura jornada hasta el proximo 26 de octubre, en la que su contrincante ya cuenta con el descarado apoyo del masivo aparato de los medios de comunicación privados. Pero hay una voz capaz de frenar la avanzada restauradora y garantizar un segundo gobierno Rousseff, más osado, participativo y democrático: la voz de Lula agitando a los comícios.

30 setembro 2014

Frederico Füllgraf - Elogio de Jorge Luis Borges - Susan Sontag


Fotos: divulgação


Todas as lições de um mestre
Tradução: Frederico Füllgraf


Nota: de sua casa, em Nova York, onde se recuperava de um acidente automobilístico, a falecida escritora e ensaísta norte-americana, Susan Sontag, não queria ficar ausente dos debates, da inquietação. Sua admiração e seu respeito por Jorge Luís Borges se traduzem neste texto espirituoso, escrito em homenagem ao já então finado escritor argentino sob forma de carta. Desde 2002, Sontag faz companhia a Borges na “Biblioteca Total Celeste”.

12 de junho de 1996

Querido Borges:

Dado que sempre contemplaram sua literatura sob o signo da eternidade, não parece demasiado estranho enviar-lhe uma carta (Borges, faz dez anos). Se alguma vez algum contemporâneo pareceu destinado à imortalidade literária, este era o senhor. O senhor era em grande medida o produto de seu tempo, de sua cultura e, no entanto, sabia como transcender seu tempo, sua cultura, de uma forma que resulta bastante mágica. Isto tinha algo a ver com a abertura e a generosidade, próprias de sua atenção. Era o menos egocêntrico, o mais transparente dos escritores... e também o  mais artístico. Também tinha algo a ver com uma pureza natural de espírito. Ainda que tenha vivido entre nós durante um tempo bastante prolongado, aperfeiçoou as práticas do fastio e da indiferença, que também o converteram num viajante-especialista mental em outras eras. Tinha um sentido do tempo diferente dos demais. As idéias comuns de passado, presente e futuro pareciam banais sob seu olhar. O senhor gostava de dizer que cada momento do tempo contém o passado e o futuro, citando (se bem me lembro) o poeta Browning, que escreveu algo assim como "o presente é o instante no qual o futuro se derruba no passado". Isso, sem dúvida, era expressão de sua modéstia: seu contentamento em encontrar suas idéias nas idéias de outros escritores.

Essa modéstia se inseria na segurança de sua presença. O senhor era um descobridor de novas alegrias. Um pessimismo tão profundo, tão sereno como o seu, não necessitava da indignação. Melhor fosse inventivo... e o senhor era, sobretudo, inventivo. A serenidade e a transcendência do ser que o senhor encontrou, são para mim exemplares. O senhor demonstrou de que maneira a infelicidade não precisa ser uma necessidade, ainda que a perspicácia e o esclarecimento não nos livrem do terror de tudo isso. Em algum momento o senhor disse que um escritor - acrescentando delicadamente: todas as pessoas - deve pensar que qualquer coisa que lhe suceda, será um recurso. 
(Estava falando da sua própria cegueira).

O senhor foi um grande recurso para outros escritores. Em 1982 – quer dizer, quatro anos antes de morrer (Borges, faz dez anos!) – eu disse numa entrevista: "Hoje não existe nenhum outro escritor vivente que importe mais a outros escritores que Borges. Muitos diriam que é o maior escritor vivente... São muito poucos escritores de hoje que dele não aprenderam ou o não o imitaram". E isso continua sendo assim.  Ainda continuamos aprendendo com o senhor. 
Ainda continuamos a imitá-lo. O senhor ofereceu às pessoas novas maneiras de imaginar, ao mesmo tempo que reiterava, aqui e acolá, nossa dívida com o passado, sobretudo com a  literatura. O senhor disse que devemos à literatura praticamente tudo o que somos e o que fomos. Se os livros desaparecerem, desaparecerão a história e também os seres humanos.Estou convencida de que tem razão. Os livros não são apenas a soma arbitrária de nossos sonhos e de nossa memória. Também nos fornecem o modelo da autotranscendência. Alguns pensam que a leitura é somente uma forma de escapismo: um escape do cotidiano "real" a um mundo imaginário, o mundo dos livros. Os livros são muito mais do que isso.

Lamento ter de dizer-lhe que a sorte do livro jamais esteve tão ameaçada por semelhante decadência. São cada vez mais os que alardeiam o grande projeto contemporâneo da destruição das condições que tornam a leitura capaz de repudiar o livro e seus efeitos. Imagine-se aconchegado na cama ou sentado num canto tranqüilo de uma biblioteca, folheando lentamente às páginas de um livro à luz de uma lâmpada,  e à queima-roupa lhe dizem que daqui para a frente é nos “livros-tela”  que deverá  descarregar qualquer "texto" a pedido, e que poderá mudar  sua aparência, formular perguntas, "interagir" com esse texto. Quando os livros se convertam em "textos", com os que "interagiremos" segundo os critérios de utilidade, a palavra escrita se terá convertido simplesmente em mais um aspecto de nossas realidades televisivas, regidas pela publicidade. Este é o glorioso futuro que se está criando – e que nos prometem - como algo mais "democrático". Obviamente o senhor e eu sabemos que isso não significa nada menos que a morte da introspecção... e do livro.

Esses tempos sequer exigem uma grande conflagração. Os bárbaros não têm que queimar os livros. O tigre está na biblioteca. Querido Borges, entenda, por favor, que não me dá prazer queixar-me. Mas: a quem melhor poderiam estar dirigidas estas queixas sobre o destino dos livros - da leitura em si – senão ao senhor? (Borges, faz dez anos!) Tudo o que quero dizer é que sentimos sua falta. Sinto saudades do senhor. O senhor continua fazendo a diferença. Estamos ingressando em uma era estranha, o século XXI. Porá à prova a alma de maneiras inusitadas. Contudo, lhe prometo: entre nós alguns não abandonarão a Grande Biblioteca. E o senhor seguirá sendo nosso exemplo e nosso herói.

25 setembro 2014

António Lobo Antunes: Os Pobrezinhos


Ilustração: Buster Dight


Crônica
Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.
Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria:
- Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da minha Teresinha.
O plural de pobre não era «pobres». O plural de pobre era «esta gente». No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, uma bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre. Os pobres surgiam das suas barracas, alvoraçados e gratos, e as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:
- Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.
Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer aos pobres, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto
(- Esta gente, coitada, não tem noção do dinheiro)
de forma de deletéria e irresponsável. O pobre da minha Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico
- Agora veja lá, não gaste tudo em vinho
o atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:
- Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeo
Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros
- O que é que o menino quer, esta gente é assim
e eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação, como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.
Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. O padre Cruz era um sujeito chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas, com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais. A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e, a partir da altura em que revelaram este milagre, tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse
- Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar
e eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão.
Na minha ideia o padre Cruz e a Saõzinha eram casados, tanto mais que num boletim que a minha família assinava, chamado «Almanaque da Sãozinha», se narravam, em comunhão de bens, os milagres de ambos que consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos premiados, milagres inacreditavelmente acompanhados de odores dulcíssimos a incenso.
Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis".


Publicação original: 

02 setembro 2014

Frederico Füllgraf: A lista do “Schindler chileno”



Foto copyright: F. Füllgraf

No filme “A lista de Schindler”, há uma cena particularmente comovente, protagonizada pelo contador Itzhak Stern, que entrega a Oskar Schindler a lista datilografada e assinada por cada um dos 1.200 judeus salvos pelo empresário alemão, e diz, citando o Talmude dos rabinos:"Aquele que salva uma vida, salva o mundo inteiro”.

O empresário chileno, Jorge Schindler Etchegaray, salvou a vida de aproximadamente cem dirigentes da esquerda chilena após o golpe civil-militar de 11 de setembro de 1973, mas rejeita qualquer atributo de heroísmo.

Nomen est omen, rezava um adagio latino, pretextando que no nome de um indivíduo estava escrito seu destino. Alemão o primeiro, descendente de suíços o segundo, a coincidência das atitudes de Oskar e Julio Schindler parece sugerir que seu sobrenome seja portador de um misterioso DNA da solidariedade humana. Etimologicamente falando, Schindler vem do antropônimo medieval germânico,“schinteler”, que quer dizer “telhadeiro”. Pois, dar um teto foi exatamente o que fizeram Oskar e Julio, ao abrigarem seus protegidos: um, os judeus perseguidos pelo nazismo, o outro, os comunistas caçados pela ditadura Pinochet.

Na epopeia do chileno repete-se a lição ensinada pelo alemão: salvar seres humanos das garras de regimes totalitários requer criatividade e circunspecção. Junto com sua esposa Emilie, Oskar Schindler literalmente comprava judeus condenados ao extermínio, subornando comandante da SS, aos quais pretextava a necessidade de mão de obra escrava. Julio Schindler - um ex-executivo da Corfo-Corporación de Fomento de la Producción de Chile, no governo Salvador Allende, sumariamente defenestrado de seu cargo pela ditadura militar – empregou um simulacro ainda mais criativo. Homem com posses, poderia ter abandonado o Chile, rumo ao exílio, mas resolveu ficar e resistir, criando uma rede de farmácias para socorrer dirigentes do Partido Comunista, esfacelado pela repressão.


Com lançamentos em Santiago e Concepción – as maiores cidades do Chile, onde ainda funcionam duas das farmácias abertas há quarenta anos – o livro “La Lista del Schindler Chileno”, escrito pelo jornalista Manuel Salazar, narra a epopeia protagonizada entre 1974 e 1978, por aproximadamente cem homens e mulheres perseguidos pelos órgãos de repressão da ditadura chilena, que se reinventam como modestos empregados de drogaria, acima de qualquer suspeita, socorridos por Julio Schindler e seu amigo, o farmacêutico Ramiro Rios. De passagem pelas farmácias, dois militantes são sequestrados, até hoje desaparecidos, mas a rede de fachada não é descoberto pela DINA de Pinochet. Apesar disso, pressagiando que sua prisão eram dias contados, em 1979, Julio Schindler, hoje com 75 anos de idade, escapa com sua família para Frankfurt, na Alemanha, onde dirige a agência de viagens “Chile Touristik”.

Em breve contato telefônico com o Jornal GGN, na véspera do lançamento do livro em Concepción, Julio Schindler advertiu: “Era um projeto que virou uma rede de sobrevivência. Dando trabalho e uma fachada legal aos nossos companheiros, suas vidas foram salvas. Mas não foi obra de um homem só, aquilo foi um trabalho coletivo", esclarece o chileno, fiel às suas convicções ideológicas.

Quarenta anos de discrição

Julio Schindler sempre quis tornar pública a aventura, mas aguardou o momento oportuno para fazê-lo com a concordância do PC chileno, do qual se afastou há mais de trinta anos. Com o depoimento de Schindler como alavanca da narrativa, o jornalista Manuel Salazar saiu a campo, colhendo sessenta entrevistas com ex-protagonistas da epopeia, cuja maioria sobrevive até os dias de hoje. No início apenas fascinado por uma estória completamente desconhecida no Chile, durante as entrevistas Salazar sentiu a vibração e verdadeira dimensão do significado da clandestinidade coletiva.

As farmácias serviam de refúgio para dirigentes considerados calibre grosso pela ditadura. Uma delas, ainda existente em Santiago e localizada em Villa México na divisa das comunas de Cerrillos e Maipú, era atendida por Quintín Romero, ninguém menos que o policiial federal que permaneceu ao lado do presidente Salvador Allende até o instante de seu suicídio, no dia 11 de setembro de 1973. Como muitos outros militantes, depois Romero refugiou-se na farmácia porque logo após o golpe foi exonerado e não tinha como sobreviver.


A organização da vida na clandestinidade

A rigor, a rede de farmácias era apenas um dos “aparelhos” desenvolvidos pela direção do PC, empenhada na sobrevivência mínima de sua estrutura e militância na clandestinidade, tarefa na qual Julio Schindler teve papel de estrategista.

O veterinário Alsino García, por exemplo, tomou a inciativa de criar um centro de atendimento veterinário com seu colega César Martínez, gerente de Pfizer. Na verdade, a empresa servia de fachada para a ativação das células da frente camponesa do PC e se reportava à Comissão Nacional Agrária do partido.
Armando Gatica foi outro “farmacêutico” acolhido por Schindler durante a caçada da ditadura aos hospitais clandestinos mantidos pela resistência, que ilustram uma das cenas emblemáticas do documentário “Miguel Littín clandestino en Chile”, do cineasta chileno homônimo.

Como funcionário do Serviço Nacional de Saúde, Gatica tinha baixado e sobrevivido ao inferno em um dos centros de tortura da ditadura, localizado em La Serena, norte do país. Detido, foi conduzido vendado e encapuzado ao galpão de um regimento do exército, em cujo teto foi suspenso por cordas, violentamente espancado e submetido a choques elétricos no peito, nas genitálias e no ânus, até perder a consciência. Gatica foi salvo graças à intercessão do bispo Francisco Fresno. Por intermédio de um colega soube das farmácias e refugiou-se em Santiago, também acolhido por Jorge Schindler, que o empregou, primeiramente, na farmácia O’Higgins, em seguida entregando-lhe a gerência da farmácia Principal, en Maipú - missão que atrás da fachada significava, primeiramente, alimentar e vestir os esfomeados e maltrapilhos militantes e reconstruir as células clandestinas do PC.

A maioria dos cem militantes salvos por Schindler não se conhecia e para garantir a sobrevivência do grupo, todos cortaram seus vínculos operacionais com o partido.

Destemido, Schindler alugou casas, prestou apoio financeiro, distribuiu medicamentos e chegou a esconder armas dos militantes em operação ou em fuga, como os fuzis AK-47 que, suspeita-se, pertenciam à Frente Patriótica Manuel Rodríguez (FPMR), o braço militar do PC, que em setembro de 1986 tentou assassinar Pinochet.

Em 1979, Julio Schindler abandonou o Chile, notabilizando-se até a queda do muro de Berlim, por sua participação ativa nas reuniões clandestinas de reconstrução do partido, grande parte delas realizadas em Berlim Ocidental.

O que ele fez é notável!”, afirma, emocionado, Quintin Barrios, que gerencia a farmácia México, a primeira aberta por Schindler e talvez a mais lendária farmácia do Chile.
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Texto publicado originalmente em JORNAL GGN, São Paulo