20 agosto 2014

Frederico Füllgraf: Cinco Tangos de Cortázar


Fotos: divulgação



Entre divertido e fossento (melancolia resultante da intuição de jamais retornar à sua Argentina e da aproximação do último, irreversível inverno de sua vida) Julio Cortázar começa a escrever (escrever é recordar!) no final dos anos 70 em Nairobi / Quênia, onde exercia funções de tradutor e editor da UNESCO, seu último livro, Salvo el Crepúsculo; várias vezes reeditado na Argentina, mas ainda inédito no Brasil.

Virtuoso painel bric-à-brac, feito de “remendos” (poemas, breves prosas, epígrafes e comentários jocosos) que Cortázar parece colher em empoeiradas caixas de sapatos e agendas rabiscadas, Salve el Crepúsculo revela-se caixinha de jóias, ostentando experimentalismos que vão da ode magistral CE GRE CIA 59 ECE,  escrita alternadamente em francês, inglês e espanhol ao contristado repertório CON TANGOS, de letras todas “imusicáveis”, como se auto-ironiza.

Sobre o gênero diz Cortázar:

“Não sei em que medida as letras do Jazz influenciam os poetas norte-americanos, mas sei, sim, que a nós os tangos devolvem certa recorrência sardônica; cada vez que escrevemos tristeza, que estamos chuvisco, que nos entope a bombilha na metade do chimarrão”.

(…)“Um pouco isso, claro, tangos como re-contos de amores humilhados e recapitulações da desgraça, povo de larvas na memória, mostrando no perfil das melodias e nas quase sempre sórdidas crônicas das letras, as moedas usadas e repetidas, a obstinada numismática da lembrança (…)

Mais adiante irrompe então o contexto histórico: como no longa-metragem Exílios de Gardel (1984), de Pino Solanas, o Tango vibra como esperança e exercício de resistência à sangrenta ditadura militar de 1976, que Cortázar sobreviveria por apenas um ano, ao falecer em 1984, em Paris:

“E chegando nunca desacompanhados: madalenas de Gardel ou de Laurenz, jogando na cara os cheiros e as luzes do bairro (o meu, Banfield, com ruas de terra, na minha infância, com paredões que escondiam os motivos possíveis do medo). Nunca chegando a sós, e nesses últimos anos tão colados ao nosso exílio, que não é o do Lejano Buenos Aires de uma clássica, portenha boemia, mas sim do desterro em massa, furacão do ódio, e o medo. Escutar hoje, aqui, os velhos tangos, já não é uma cerimônia da nostalgia; esse tempo, esta história carregaram-nos de horror e de pranto, foram transformados em máquinas mnemônicas, emblema de tudo o que se vinha preparando desde lá atrás e tão entranhado na Argentina. E então, claro.”
           
Eis, pois, aqui traduzidos, alguns Tangos de Cortázar, exercício poético que pede melodias. É recomendável ouvi-los. 


O truque? Um bandoneão imaginário marcando o compasso...


Ar do sul


Ar do sul, flagelação que leva areia

Com pedaços de pássaros e formigas,

Dente do furacão estendido sobre a planície:

Onde homens cara ao chão sentem passar a morte.

Máquina da pampa, quê engrenagem de cardos

Contra a pele da pálpebra, ó tranças de alhos ébrios,

De ásperas chicórias trituradas.

A debandada furtiva cessa o vento

E o perfil do moinho

Abre entre dois olvidos do horizonte

Uma risada de enforcado. Empina o álamo

Sua coluna dourada, mas o salgueiro

Sabe mais do país, seus cinerários verdes

Retornam silenciosos a beijar as margens da sombra.

Aqui o homem agachado sobre o oco do dia

Bebe seu mate de profundas serpentes e atribui

Os presságios do dia à escondida sorte.

Sua parda residência está no latejar

Que abre ao potro os charcos da baba e a cólera;

Vai retalhando os signos com um facão de prontidão

E sabe da estrela pelo reflexo na poça.
           

Malevolência 76

Como um câncer que avança
Abrindo caminho entre as flores
Do sangue, seccionando os nervos do desejo,
A relojoaria azul das veias,

Granizo de sutil mal-entendido
Avalanche de choros a des-tempo.

Para quê desandar a inútil rota
Que nos levou a esta cega
Contemplação de um cenário oco:

Não me deixaste
Nem o pito atrás da orelha
Já mais não sirvo que
Para escutar Carole Baker
Entre dois tragos de genebra,
,
E ver cair o tempo
como uma chuva de traças
sobre estas calças enrugadas.
 Nairobi, 1976

Quiçá a mais querida

Deste-me a intempérie,
A leve sombra da tua mão
Passando por meu rosto.
Deste-me o frio, a distância,
O amargo café da meia-noite
Entre mesas vazias.

Sempre começou a chover
Na metade do filme,
A flor que para ti levei tinha
Uma aranha esperando entre as pétalas

Creio que sabias
E que favoreceste a desgraça.
Sempre esqueci o guarda-chuva
Antes de ir buscar-te,
O restaurante estava lotado
E vozeavam a guerra nas esquinas.

Foi uma letra de tango
Para tua indiferente melodia.

Milonga

Faz-me falta a Cruz do Sul
Quando a sede me força para cima a cabeça
Para beber teu vinho negro à meia-noite.
E sinto falta das esquinas com armazéns
dorminhocos
Onde treme o perfume do mate na
Pele do ar.

Compreender que isto está sempre lá
Como um bolso onde a cada tanto
A mão busca uma moeda o pente
o canivete
A mão incansável de uma obscura memória
Que reconta os seus mortos.

Cruzeiro do sul mate amargo
E as vozes de amigos
Usando-se com outros.

Bolero
  
Que vaidade imaginar
Que posso dar-te tudo, o amor e a sorte
Caminhos, música e brinquedo.
É verdade que é assim:
É certo que tudo o que é meu te dou,
É certo,
Mas não te basta todo meu
Como não me basta que me dês
Todo teu.

Por isso não seremos nunca
O casal perfeito, cartão postal,
Se somos incapazes de aceitar
Que só na aritmética
O dois nasce do um mais um.

Extraviado (por aí) diz um bilhetinho:

Foste sempre meu espelho
Quero dizer que para me enxergar,
tinha que te olhar.


₢ Copyright das versões em português: F.Füllgraf

Julio Cortázar: Textos en su voz - No, no y no



02 agosto 2014

Frederico Füllgraf - Agosto en 長崎市 Nagasaki




Español


Todos los años el recuerdo me persigue. Seis de agosto: la bomba de uranio barre del mapa a Hiroshima. Nueve de agosto: la bomba de plutonio oblitera a Nagasaki.

Anos atrás, en el més de julio, en un café de Curitiba, sur de Brasil, la portada de un diaro acuñaba la notícia de que Charles W. Sweeney había dado su último suspiro.

Chuck Sweeney, como era más conocido, fue el comandante del escuadrón norte-americano que en 9 agosto de 1945 - tres dias después de la explosión de la bomba “Little boy” sobre Hiroshima – había detonado la bomba “Fat man” sobre Nagasaki.

Una frase memorable del aviador me llamó la atención: “Cualquier vida es preciosa. Pero no senti ningún remordimiento o culpa por haber bombardeado a la ciudad en la que me encontraba” (“Every life is precious. But I felt no remorse or guilt that I had bombed the city where I stood.'') - dijo Sweeney cuando pisó por primeira vez al suelo de Nagasaki devastada.


Entonces sumergí en el tunel del tiempo. Primero, en mís recuerdos imborrables de agosto del 1986, alto verano en Hiroshima y Nagasaki.

Era la hora del almuerzo de un sábado esplendoroso, cuando pusimos los piés en el restaurant con deslumbrante vista panorámica sobre el inmenso Mar de China, con el Profesor Ichiro Moritaki – físico teórico, filósofo y mi anfitrión del movimiento pacifista Gensuikin.


Despúes de Toquio, muchas centenas de quilómetros rodados a bordo del tren-bala, mi doble misión de guionista, que recolectaba imágenes de archivo, y conferencista, alcanzaba a su final en la gran isla de Kyushu.


Como único latinoamericano invitado a las jornadas anuales por la paz y el desarme nuclear, para los atónitos japoneses diserté sobre asuntos tan adventícios como los físicos de Hitler, que secretamente construyeron las primeiras ultracentrifugadoras de uranio para el gobierno Getúlio Vargas en Brasil – un espectro de la narrativa de ciencia-ficción, que contrastó con la alelada imágen de los miserables colectadores de basura en Goiânia que, al encontrar un aparato radioterápico desactivado, cuyo núcleo emitía una instigante radiación azul, exultaron como milionários cazadores de safiras, para todo el siempre emancipados de su penúria, pero que igual murieron insalvables como las primeras víctimas de radiación nuclear del continente latinoamericano.

Entonces, alli sobre un promontorio de Nagasaki, con gestos ensayados de etiqueta oriental, el protocolo pedia que tomáramos asiento y probáramos de las iguarías que nos aguardaban a la mesa.


Mis sentidos todavía continuaban embotados, intentando metabolizar la visita al inferno de Hiroshima, que quedara atrás – hoy día, un infierno virtual, reproducido en un museo, pero con algunas ruínas originárias, de las que la imaginación absorbe olor acre de humo, fierro fundido y piel derretida. Los visitantes más sensibles suelen escuhar gritos, aullidos y el llanto de niños desesesperados.

Ichiro Moritaki me observaba con una sonrisa paciente, tal vez intuyendo mí travesía del túnel del tiempo, mientras contemplaba lo que un día fue el Bajo de Nagasaki.


Mañana primaveril del 6 de agosto de 1945, partida al medio por el hilo más claro de luz que de mil soles simultáneos. Un sol encendido por Paul Tibbets, piloto del “Enola Gay”. Onda de presión, edifícios tambaleantes, chafarices de fuego, y del cielo cae una lluvia negra de gotas gosmentas, ácidas - noventa mil muerrtos instantáneos, un tercio de la población!

Entre los cuerpos humeantes arrastranse harrapos humanos, sobrevivientes más muertos que vivos. Una imágen de singular terror es la de la ropa, impresa a fierro, tatuada con fuego, e impregnada de urânio sobre la sedosa piel del torso de una joven mujer.



Sobreviviente casual de ese holocausto, que en aquel 6 de agosto explicaba a sus alumnos la Ley de Newton, Moritaki intenta en vano retomar el hilo conductor de nuestra conversa interrumpida en Hiroshima, sobre Kyudu, el “arte caballeresco del Arquero Zen”, haciendo chispear la mirada del único ojo que la bomba atómica le dejó, quando la onda de presión aplastó el edifício de la escuela.

Yo le había hablado de la crónica de un profesor que va a enseñar literatura alemana en el Japón, y que necesita de largos y penosos ejercícios para aprender que, solamente la actitud del desapego, el abandono de la obsesión por acertar el blanco, conducirá, figurativamente dicho, sus flechas al blanco predestinado: su propio corazón.


Mientras Moritaki hablaba de los arqueros, mi imaginación deseñaba samurays caminando sobre el mar, apuntando sus arcos contra las fortalezas voladoras B-29, que se aproximan de la costa japonesa.

El viejo professor, con abundante y encanecida cabellera, no se contuvo, intentando agradar. Con desmedida ternura derramada en su ojo mareado, abrió una larga sonrisa que desnudó el gran número de prótesis dentárias doradas y, a quema-ropa, se adelantó hospitalario: - Mantenemos una pagoda Zen con algunos amigos intelectuales y monjes, cerca de Hiroshima. Cuando quiera, venga, que ya tiene su mestre!


Gratificado, disimulé mí conmoción, desviando la mirada del rostro plácido del profesor - ahora un Buda incorporado - para la vastidud del Mar de China, cuya belleza y paz querían hacerme olvidar por que me encontraba en Nagasaki.

Entonces alguien pronuncia la palabra “batera” - un lusitanismo en Nagasaki?
¡Si pués! Por esta isla infiltraronse cultura y religión chinas en el Japón, pero sus fundadores fueron navegadores portugueses, en 1571 – adviertenme.

Mientras, los mozos van sirviendo Mentaiko – ovas de pescado con generosa dosis de pimientos – y Champon, un exótico plato de pastas, frutos del mar y vegetales, todo cocido en la misma olla.

Recogí la mirada del horizonte y focalicé el Bajo a mis piés, que por sua ubicación, clima tropical, olores y escalinatas para la ciudad-alta, tejía asociaciones con Salvador de Bahía.

Percibí entonces que debería haber dos miradas sobre Nagasaki: una de abajo para arriba, y otra, al revés – la primera, la mirada de los extinguidos, la segunda, la mirada de los exterminadores. Alli, a menos de mil metros de distancia, estaba el marco cero - epicentro de lo que algún dia fue el movido Bajo de Nagasaki, ahora envuelto por inmenso vacío territorial, como espécie de monumento virtual, hecho de ruínas y viento, para recordar aquel 9 de agosto de 1945.

Sin pedir permiso, de la memória saltó la imágen del Angelus Novus – aquel ángel cubista de Paul Klee, que inspiró Benjamin a escribir su aterrorizante “El Concepto de Historia”.

El ángel me abrazó y despegamos del suelo. Muerto de miedo, grité, pero fingiendose de sordo, el ángel ganó a las alturas. Alli el foco se amplificó en grande angular y el paisaje se descortinó. En esa perspectiva, decía Benjamin, la Historia se insinúa apenas como amontonado de ruínas humeantes.

Después, cerré los olhos e me sentí aterrizar imperceptiblemente en la silla al lado del profesor, que ya saboreaba su postre portugués.

Sin embargo, fue durante el demorado vuelo del retorno a Brasil, por territórios celestes sobre el vasto Pacifico, que volvi al tunel del tempo, ahora con la mirada invertida, de arriba para abajo.


Entonces leí que en la madrugada de aquel 9 de agosto de ´45, en una base militar americana del Pacífico, una centúria de hombres participó del último briefing, examinando blancos en los mapas, haciendo apuntes y recibiendo la bendición del capelán con una oración monocordia y burocrática.

Con sus instrumentos de navegación apuntados al Mar de China, una escuadra alzó vuelo a las 3h50 de la mañana.


Volando por el noroeste al império del naciente, vários aviones avanzaron por cielo nublado, en cuyas grietas negras se veía algunas pocas estrellas.


A bordo del “Bock’s Car”, el bombardero que comandaba a el operativo, William L. Laurence, articulista de ciencias del New York Times, miró a “Fat Man”, la bomba, y apuntó en su agenda: “Es una cosa bonita de mirarse, este regalo!” (textualmente gadget, en el original).

Eran palabras de un reportero tonto y patriotero, demasiadamente jóven como todos los tripulantes de la misión genocida. Su comandante, Cap. Frederick C. Bock, tiene 27; el bombardero y 1er Ten. Charles Levy, mal completó 26; el piloto y Ten. 2do, Hugh C. Fergus, tiene solamente 21, y el navegador y Ten. 2do. Leonard A. Godfrey, no más que 24 años de edad. El comando de la misión pertenece al Mayor Charles W. Sweeney, de apenas 25 años.


A las 5 de la mañana, la luz penetró por algunas grietas de nubes.

Laurence recuerda que todavia faltan cuatro horas para el encuentro pactado entre los tres aviones bajo el cielo de Isla Yakoshima, a suroeste de Kyushu. El saca su lápis de la chaqueta de cuero y anota: “En algún lugar, a los piés de las vastas montañas de blancas nubes, está Japón, nuestro inimigo. Dentro de cuatro horas, una de sus ciudades, que fabrica armas para atacarnos, será barrida del mapa por el arma más poderoso hecho por el hombre. En un décimo de milésimo de segundo - una fracción de tiempo incomensurable por un reloj - una tempestad bajará de los cielos y pulverizará miles de edifícios y decenares de miles de sus habitantes”.

En las cabinas de los B-29, los minutos corrían con desprendimiento, bromas y muchos chistes. Cerca de la hora coincidida, el “Bock’s Car” comenzó a describir círculos en el cielo. Después, juntos, los tres aviones sobrevuelaron la costa, escudriñando a su blanco. “Los vientos del destino parecen favorecer ciertas ciudades japonesas, cuyos nomes deben permanecer en secreto...” - divagaba Laurence sobre el aleatorio, y fulminó: “Sentir alguna pena o compasión por los pobres diablos destinados a morirse? No, si recordamos Pearl Harbor y la muerte en Battan!”.

Eran las 11h01 cuando las nubes se disiparon y la escuadra ganó el cielo de una gran ciudad portuaria. Los chicos a bordo de los trés B-29 ya no tenían dudas: “El destino eligió a Nagasaki como el último de los blancos...”.

Acto seguido, sintonizaron una señal de rádio acordada y vistieron sus anteojos de protección ARC. Eran las 11h02, cuando el atirador ordenó: "There she goes!" - y las entrañas del B-29 “Artiste” dieron a la luz a una criatura metálica, negra y blindada, bajando velozmente sobre Nagasaki.

Segundos después, un tenebroso flash de luz blanca sumergió el cielo y por instantes cegó a los americanos dentro de las naves en desesperada fuga.

Los americanos miran hacia trás y para los lados, y ven crecer un monstruo: 40 mil, 50 mil, 60 mil piés! Entonces una nube de hongo con 20 quilómetros de altura los asombra como una de las bestias del apocalipsis.

En tierra mueren instantáneamente 74 mil personas y, depués que Laurence ganó el Pulitzer, otros 75 mil nagasakianos entraron para la História como hibakushas – los “sobrevivientes” - en cuyos cuerpos el plutonio escribe desde 1945 la crónica de la muerte anunciada por quemaduras, leucemia, cáncer linfático y demencia.

Miro el inmenso Mar de China y percibo la silueta del ángel de Benjamin esbozada sobre la línea del horizonte. Mientras se afasta, las ruínas crecen sin parar.

A unas docientas millas del holocausto, aún mirando para trás, Laurence anota: “No hay dudas: sobre la cabeza del monstruo decapitado, están naciendo nuevas cabezas...”.
Pensandolo bien, la figura de la hidra, referida por Laurence, sonaba como bien tallado juego de palabras: História como narrativa descabezada, repleta de gestos obscenos y frases doentías. Como la de Sweeney que, años después, frente a frente con las ruínas de Nagasaki, dijo con pavoroso cinismo:”Pero no senti ningún remordimiento o culpa ...”.
En Nagasaki nació la serpente de Juno, que comandó atrocidades en Corea y Vietnam, que torturó prisioneros y meó sobre sus cuerpos en Fallujah; que limpió sus hezes con páginas del Corán en las montañas de Afganistán e imoló con bombas de fósforo blanco a los niños de Gaza.

Son cabezas en el corazón de las tinieblas que, desde el Congo de Joseph Conrad, hacen rodar cabezas mundo afuera - cabezas adiestradas por el espíritu del coronel Kurtz, sedientas de Apocalypse, now!
Agosto de 2014: en la Cordilleira del Alto Biobío, viento gélido azota mi cara, pero una vieja fotografía de 1945 - “Man Walks Through Nagasaki” - resume dramaticamente lo que mil páginas escritas no consiguen expresar: en la memória colectiva, veinte mil grados centígrados continúan a arder en Nagasaki. 

 
Portugués

Agosto qualquer. 

Vento encapelado, gélido, varre as calçadas, vareja as árvores, ofende o rosto das gentes. Corpo contraído, passos apressados, olhar desviado, rumo ao único Café da cidade, protegido por portas fechadas e por isso aconchegante.  

Devaneio sobre a sublimação coletiva de nossa latitude quase austral, neste Sul brasileiro, enquanto perscruto o ambiente enfumaçado em busca de uma cadeira vaga. Tomo assento a uma mesa nos fundos do Café, munido já do primeiro caderno do jornal preso em cabide. Chamada de primeira página: morreu Charles (Chuck) W. Sweeney, comandante da esquadrilha norte-americana, que despejou uma das duas bombas atômicas sobre o Japão, em agosto de 1945. 

A imaginação me assalta: Nagasaki iluminada pela luz de dez mil sóis, incendiados por Sweeney.

Então embarco no túnel do tempo. Primeiro, minhas recordações inapagáveis de agosto de 1986: verão em Nagasaki. 

É hora do almoço de um sábado tropical, esplendoroso, quando eu e o professor Moritaki, meu anfitrião do movimento pacifista Gensuikin, colocamos os pés no restaurante com deslumbrante vista panorâmica sobre o imenso Mar da China. 


Depois de Tóquio, muitas centenas de quilômetros rodados a bordo do trem-bala, minha missão de roteirista-dublê-de-palestrante - sobre o acidente do Césio em Goiânia e o lixo radioativo que cresce em Angra dos Reis - aproxima-se do final, na grande ilha de Kyushu. 


Com gestos ensaiados de etiqueta oriental, o protocolo pede que tomemos assento e degustemos as iguarias que nos aguardam à mesa.



Meus sentidos, porém, continuam embotados. Tentam ainda metabolizar a visita ao inferno de Hiroshima, que ficou para trás. Inferno agora virtual, reproduzido em museu, mas com algumas ruínas originais, das quais a imaginação apreende odor acre a fumaça, ferro fundido, pele derretida. Gritos, berros, queixumes de crianças espavoridas!


Recuando no túnel do tempo: manhã primaveril de 6 de agosto de 1945, partida ao meio pelo fio da luz de um sol desconhecido. Sol incendiado por Paul Tibbets, piloto do Enola Gay. Onda de pressão, prédios cambaleantes, chafarizes de fogo, e do céu a chuva negra de gotas pegajosas, ácidas - noventa mil mortos instantâneos, um terço da população!


Entre os corpos fumegantes, andejam farrapos humanos, sobreviventes zumbizados. Imagem do horror que me perseguirá para sempre: estamparia de roupa impressa a ferro, tatuada com fogo, impregnada com urânio sobre a sedosa pele do torso de uma jovem e bonita mulher. 


Hiroshima, meu amor, agora são muitos filmes em minha cabeça.

Sobrevivente desse holocausto, o professor, físico aposentado e militante pacifista, tenta em vão retomar o fio de nossa conversa interrompida em Hiroshima, sobre o Kyudo, a “arte cavalheiresca do Arqueiro Zen”, fazendo faiscar a mirada do único olho que a bomba atômica legara a Moritaki. 

Eu tinha lhe falado da crônica de Herrigel - o professor que vai ensinar literatura alemã no Japão, e que necessita de longos e dolorosos meses para aprender que, somente a atitude do desapego, o abandono da obsessão em acertar o alvo externo, conduzirá a flecha ao seu alvo predestinado: o coração humano. 


Arte marcial como alegoria do aprimoramento espiritual. Guerra contra o ego para a pacificação do homem. Sabedoria milenar assimilada durante a travessia de tantos mares de sangue e lágrimas. 


Minha imaginação desenha samurais caminhando sobre o mar, apontando seus arcos contra as fortalezas voadoras B-29, que se aproximam da costa japonesa...


Resisto, sinto-me irresponsável e deselegante, mas o tema se insinua como guarnição amoral, diante da contemplação de Nagasaki devastada, que meus sentidos tentam apreender. 

O velho professor, de abundante e embranquecida cabeleira, não se contém, tenta agradar. Com desmedida ternura derramada no olho mareado, ele abre um largo sorriso que desnuda o grande número de suas próteses dentárias douradas e, à queima-roupa, adianta-se, convidativo: - Mantenho um pagode Zen com alguns amigos intelectuais e monges, perto de Hiroshima. Quando quiser, venha, que já tem o seu mestre! 

Gratificado, dissimulo minha comoção, desviando o olhar do rosto plácido do professor, agora um Buda incorporado, para a vastidão do Mar da China, cuja beleza e paz tentam fazer-me esquecer por que estou em Nagasaki.


Lusitanismos, rastros de Camões: por esta ilha infiltraram-se cultura e religião chinesas no Japão, mas batera é um nome de embarcação que sobrevive no sotaque nativo como relíquia da passagem por Nagasaki de caravelas portuguesas, no séc. XVI

Por momentos, imagino Camões preso em Goa.






Recolho o olhar do horizonte e focalizo a Cidade-Baixa a meus pés, que por sua localização, clima tropical, odores, ladeiras e escadarias para a Cidade-Alta, tece associações com Salvador da Bahia. 

Dou-me conta da exceção aterrorizante: o Baixo de Nagasaki não reflete mais nenhuma correspondência orgânica com as ruas, o casario e o estilo arquitetônico da colina sobre a qual me encontro.


Subitamente, invade-me a percepção de que deveria haver dois olhares sobre Nagasaki: um, de cima para baixo e, outro, em sentido inverso. Lá, a menos de um quilômetro de distância, está o marco zero, o epicentro do que um dia foi a Cidade-Baixa, cercado, agora, de imenso vazio territorial, espécie de monumento virtual, feito de ruínas e vento, para lembrar o dia 9 de agosto de 1945. 

Sem pedir licença, da memória salta a imagem do Angelus Novus de Walter Benjamin. 


O anjo me abraça, decolamos do solo, eu grito de medo, mas, fingindo-se de surdo, o anjo ganha as alturas. O foco se amplia, em grande angular a paisagem se descortina a nossos pés. A História, toda ela, se revela, colunas de fumaça negra ascendem ao céu, a Terra insinua-se apenas como amontoado de ruínas incandescentes. Depois, fecho os olhos e sinto-me pousar delicadamente na cadeira ao lado do professor.


Túnel do tempo, trama paralela. 

Madrugada numa base militar americana, em algum lugar do Pacífico. Uma centúria de homens participa do último briefing: alvos em potencial são examinados nos mapas em seus mínimos detalhes. Em seguida, a missão é abençoada com uma prece burocrática do capelão. 

Com os instrumentos de navegação apontados  ao Mar da China, uma esquadrilha alça vôo às 3h50 da manhã. Voando pelo noroeste, direto para o império do nascente, deslizam por um céu nublado, cujas janelas negras revelam apenas algumas poucas estrelas. 


A bordo do Bock’s Car, um dos três bombardeiros B-29 da missão, William L. Laurence, jornalista de ciência do New York Times, olha para Fat Man, a bomba, e anota em sua agenda: “É uma coisa bonita de se olhar, este presente!” (textualmente gadget, no original). 


São palavras de um garoto tolo e orgulhoso do caráter patriótico da missão, jovem como todos os integrantes da esquadra, que nesta madrugada rasga o céu do Pacífico, rumo à missão genocida. Seu comandante, Cap. Frederick C. Bock, tem 27, o bombardeiro e 1º. Ten. Charles Levy, mal completou 26, o piloto e 2º. Ten. Hugh C. Fergus tem somente 21 e o navegador e 2º. Ten. Leonard A. Godfrey, não mais que 24. O comando da esquadra e de toda a missão no ar pertence ao major Charles W. Sweeney, de apenas 25 de idade.


Às 5 da manhã, a luz penetra por algumas janelas de nuvens dissipadas. Laurence lembra que ainda faltam quatro horas para o encontro combinado dos três bombardeiros sob o céu da pequena ilha de Yakoshima, a sudoeste de Kyushu. Ele tira a caneta do bolso do casaco de couro e anota: “Em algum lugar, aos pés das vastas montanhas de brancas nuvens, à minha frente, está o Japão, o país do nosso inimigo. Dentro de quatro horas, uma de suas cidades, que fabrica armas para nos atacar, será varrida do mapa pela arma mais poderosa feita pelo homem. Em um décimo de milésimo de segundo, uma fração de tempo incomensurável por um relógio, uma tempestade descerá dos céus e pulverizará milhares de edifícios e dezenas de milhares de seus habitantes”.


O tempo transcorre com surpreendente desprendimento e muitas piadas. Perto da hora combinada, o Bock’s Car começa a descrever círculos no céu, à espera da formação com os outros dois aviões. Agora juntos, os três sobrevoam a costa, perscrutando seu alvo ainda inidefinido, mas não encontram a saída da densa coluna de nuvens na qual estão imersos. “Os ventos do destino parecem ter favorecido certas cidades japonesas, cujos nomes devem permanecer em segredo...” - divaga Laurence sobre o aleatório, poucos minutos depois, e fulmina: “Sentir alguma pena ou compaixão pelos pobres diabos prestes a morrer? Não, se nos lembrarmos de Pearl Harbor e da morte em Battan!”. 

São 12h01 quando as nuvens se abrem em clareira e a esquadra ganha o céu da bonita cidade tropical. Os garotos a bordo dos três B-29 não têm mais dúvidas: “O destino escolheu Nagasaki como o último dos alvos...”. Sintonizam um sinal de rádio combinado, colocam seus óculos de proteção ARC e, quando um deles avisa, "There she goes!", as entranhas do B-29 “Artiste” dão à luz uma criatura negra, blindada, deslocando-se velozmente sobre o centro de Nagasaki.


Segundos depois, um tenebroso flash de luz branca inunda o céu e cega os homens dentro dos aviões em fuga. Olham para trás, para os lados e miram o monstro crescer, os altímetros acusando primeiro 40 mil, depois 60 mil pés; um cogumelo de 20 quilômetros de altura. 

Em terra morrem instantaneamente 74 mil pessoas e, depois de Laurence ganhar o Pulitzer, outros 75 mil nagasakianos entrarão para a História como hibakushas, em cujos corpos o plutônio escreve desde 1945, a crônica da morte anunciada por queimaduras, leucemia, câncer linfático e demência.


Olho para o imenso Mar da China e percebo a silhueta do anjo de Benjamin esboçada sobre a linha do horizonte. Enquanto ele se afasta, as ruínas crescem sem cessar...

Já a duzentas milhas do holocausto, olhando para trás, Laurence anotara: “Não há dúvida: sobre a cabeça do monstro decapitado, estão nascendo novas cabeças...” 

A figura da hidra, referida por Laurence, soava como espécie de marco referencial, melhor dizendo, como bem talhado trocadilho sobre a História do pós-guerra: História como narrativa descabeçada, pontilhada de gestos obscenos e frases doentias, como a de Sweeney que, anos depois, de volta ao Japão, posando no meio das ruínas de Nagasaki, disse com pavoroso cinismo: But I felt no remorse or guilt that I had bombed the city where I stood!

Em Nagasaki renascia a serpente de Juno que depois comandou atrocidades na Coréia e em My Lai, que torturou prisioneiros e mijou sobre seus corpos em  Fallujah, que limpou suas fezes com páginas do Alcorão nas montanhas do Afeganistão e imolou com bombas de fósforo branco as crianças de Gaza - cabeças que desde o Congo fazem rolar cabeças No Coração das Trevas - cabeças adestradas pelo espírito do Cel. Kurtz, sedentas de Apocalypse, now!

Agosto de 2014: na Cordilheira do Alto Biobío, vento gélido açoita minha espinha, mas vinte mil graus centígrados continuam a arder em Nagasaki.

Fotos: divulgação

23 julho 2014

Manoel de Andrade: A moldura dos tempos


Poema


Cada dia é um devir inquietante,
um enredo que anuncia a tempestade
e a bonança...?
ah! a bonança é um barco num medonho temporal!

Uma egrégora maligna comanda o turbilhão,
é a frequência subliminar que domina o mundo,
a combustão da história,
o trágico espasmo da vida,
o tumulto e a fúria linchando as derradeiras utopias.

Na moldura dos tempos cada alma revela o seu retrato,
entre a incredulidade dos “sábios” e a fé de uma criança,
transita a expectativa dos homens...
São dias sem bandeiras,
quando a verdade se envergonha da “justiça”,
as togas e os mandatos acumpliciados na ambição,
os crimes lavados na corte dos “eleitos”
e os vilões absolvidos nesse palco de trapaças.
Até quando assistiremos a esse fatídico cenário?
Quem apagará as luzes dessa medonha ribalta?
Até quando, Senhor, suportaremos tanta ignomínia?


Nessa república de escândalos,
a corrupção gargalha da história.
Nos palanques da ilusão,
máfias partidárias e alianças promíscuas
maquiam seus patéticos contendores.
É um ritual insuportável,
onde o poder trama as suas dinastias,
as ideologias são negociadas
e nas tribunas se mascara a hipocrisia.
Eis o reduto oficial dos futuros saqueadores,
festejando sua agenda eleitoral em sórdidos banquetes,
ante a súplica inconsolável no olhar dos miseráveis.

Não quero o esquecimento,
não aceito o silêncio,
sou a acusação e a profecia
vivo num tempo de iniquidades e presságios,
numa pátria humilhada pela impunidade,
comandada por homens sujos e soturnos
e eis porque hoje meu canto surge assim crispado,
testemunhando o impasse e esperando novos dias.
Sei que não se engana a posteridade,
que nessa nau dos insensatos toda perfídia será nominada,
todas as máscaras cairão.

Sei também que um lento alvorecer anunciará o amanhã,
e que a fé e a decência viverão muito além desse holocausto.
Mas até quando, Senhor, combateremos esse combate?
Há uma “música” sinistra e constante,
martelando, sem limites, em toda parte,
e eu e tantos outros não toleramos essa assuada.
Canto para os homens honrados e para os cultores da beleza
e vos peço perdão por tanto desencanto,
por vos dar meu verso sombrio e indignado,
e esse febril retrato da esperança.


Curitiba, 04 de julho de 2014

Ilustrações: divulgação


15 julho 2014

Frederico Füllgraf: Vladimir Putin na América Latina, com a bola no pé

Na sexta-feira, 11, o presidente russo Vladimir Putin aterrissou em Havana, dando início a uma jornada de seis dias em visita aos que Moscou agora considera seus parceiros estratégicos na América Latina: Cuba, Argentina e Brasil. Com sua segunda escala em Buenos Aires, Putin reuniu-se com a presidente Cristina Kirchner, assinando com a Argentina tratados de cooperação nuclear, comunicação e extradição. No Maracanã, Putin recebeu da presidente Dilma a transferência simbólica da Copa do Mundo, que a Rússia sediará em 2018. Como coroação de sua jornada, o presidente russo co-assinará as atas de fundação e dotação, com capital inicial de 100,0 bilhões de dólares, do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), o banco dos BRICS. Integrado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, a 6ª Cúpula do grupo ocorre de 14 a 16 de julho em Fortaleza.
O pit stop em Cuba não visava a dividendos econômicos. Muito pelo contrário, em Havana, Putin assinou um debt relief de 90% dos 35,2 bilhões de dólares devidos há trinta anos a Moscou pela ilha, e sugeriu investir os 10% restantes em projetos de infra-estrutura local – um generoso presente para a administração Raúl Castro.
Enquanto homenageavam com coroas de flores os soldados soviéticos em Havana, e José Martí, o herói nacional cubano, Raúl, vestindo terno escuro como seu par russo, suspirou sob o sol escaldante: “Temos que mudar o protocolo...Não usamos gravata neste país, só guayaberas e chapéus, shorts e sandálias... Este país não é para trabalhar, muito menos para guerrear. É um país para descansar. O que você acha?”.
Ao circunspecto Putin aquela frase deve ter soado como confissão de malandro, esquivo ao esforço, ou mau pagador. Foi uma frase de efeito, uma brincadeira do cubano com os russos abotoados e suando em bicas, mas Putin não estava ali para descansar.
Devolvendo o dedo no nariz
Se a opção por Cuba como primeira escala não tinha qualquer relevância econômica, é porque fora escolhida como cenário para uma demonstração que os ingleses chamam de to thumb one´s nose – enfiar o dedo no nariz de alguém. Se a atitude é própria de pirralhos mal-educados, foi, pois, o que fizeram em fevereiro do ano em curso, o governo Obama e a União Europeia, ao apoiarem descaradamente a derrubada do governo eleito de Viktor Yanukovich da Ucrânia e a instalação de um regime golpista, escoltado por hordas fascistas, nas barbas da vizinha Rússia.
Os rumores, segundo os quais, depois de 1962, Moscou voltaria a instalar uma base militar em Cuba, não passaram do que são: um hoax. Mas Putin deu seu recado: “se vocês chacoalharem a cerca da nossa casa, a gente vai criar encrenca na vizinhança de vocês! - e ostentou em sua comitiva ninguém menos que Igor Sechin, presidente da estatal de petróleo, Rosneft, e um dos executivos russos “castigados” pelo governo Obama com sanções, tais como a cassação de seu visto de entrada aos EUA. A medida seria uma retaliação à suposta ingerência russa na crise ucraniana, sobretudo a anexação da Crimeia. Ex-agente da KGB, como seu amigo e chefe, Vladimir Putin, em menos de quinze anos, Sechin fez da Rosneft a maior trader de petróleo do mundo. Contudo, muito antes da crise ucraniana, o executivo  já encabeçava a lista negra de Washington porque, em parte, a expansão da Rosneft se deveu à encampação do império Yukos, fraudulentamente erguido por Mikhail Khodorkovsky, magnata recentemente libertado da prisão na Sibéria, e homem de confiança dos EUA.
“Pivôs do norte ao sul das Américas”
A agenda de Putin é ambiciosa, ele granjeia simpatias mundo afora, mas não chega como o gladiador vitorioso. A co-optação da Crimeia e a oposição russa ao novo governo ucraniano exigiram seu custo. Nos meses de março e abril, o valor as ações de empresas russas chegou a ser depreciado em 10% nas bolsas e as agências notificadoras Fitch e Standard & Poor’s ameaçaram rebaixar a classificação de risco da Rússia. No segundo estágio, os EUA elaboraram uma lista negra com os nomes de 30 executivos e 19 empresas russas, e a União Europeia listou 61 indivíduos e duas empresas, mas o plano de represálias prevê endurecimento, caso a Rússia não “contenha” os rebeldes do leste ucraniano, com os quais tem conversado, mas que na verdade não controla.
Os danos sofridos pela Rússia podem ser definidos como colaterais, entre retaliações à meia boca e apoio chinês, que promete absorver parte das exportações de petróleo e gás sustadas por países do ocidente.
Porém, como já advertia o hexagrama wei-ji do milenar oráculo I Ching , uma crise pode abrir o caminho para novas oportunidades, e Vladimir Putin desembarca na América Latina para amealhar aliados, promover seu projeto de uma nova ordem mundial multi-polar e com ele inaugurar um redesenho da geopolítica ditada por Washington.
“A jornada tem por objetivo construir uma rede de pivôs, do norte ao sul das Américas”, prega Vladimir Orlov, diretor do PIR, um think-tank do governo em Moscou. Colocada à margem das políticas globais, agora “estamos nos voltando com mais atenção e deferência aos nossos parceiros naturais, que não aderiram às retaliações”. E segundo Orlov, apesar de sua avançada idade, Fidel Castro é “o último dos moicanos” cuja análise sobre a atual e a futura ordem global Putin sabe apreciar.
E por falar em BRICS, diz Orlov, a etapa final da jornada do presidente: “Representamos cinco civilizações-chave, que contam 43% da população mundial”.
Fundos abutres e sanções, Crimeia e Malvinas
Dois pleitos dramáticos na agenda russa e argentina, gerados por fontes ocidentais de interesses compartilhados, sinalizaram a Putin a conveniência de aterrissar em Buenos Aires antes de sua chegada ao Brasil: o ataque dos fundos abutres às reservas cambias argentinas e a luta do país sul-americano pela reintegração de posse soberana do arquipélago das Malvinas, usurpado pela Inglaterra em 1833, que encontram sua correspondência nas sanções impostas à Rússia e no questionamento de seu direito legítimo de reincorporação da península da Crimeia, apoiada pela esmagadora maioria de sua população russófona.
Durante o jantar de sábado, 12 de junho, em Buenos Aires, em homenagem a Putin, ao qual Kirchner teve a gentileza de convidar o presidente uruguaio, José Mujica, os três presidentes afinaram os instrumentos de navegação de suas diplomacias contra o que Cristina Kirchner denuncia como a “dupla moral” dos países centrais com relação aos princípios da Carta da ONU, em especial sobre o suposto plebiscito realizado nas Malvinas, mediante o qual os residentes trazidos da Inglaterra votaram a favor da soberania inglesa sobre as ilhas; procedimento viciado, mas apoiado pelos países centrais.
A Rússia apoia o pleito argentino sobre as ilhas e veio agradecer a abstenção argentina – idêntica à brasileira – durante votação na ONU contra a incorporação da Crimeia.
Durante a reunião foram assinados três acordos estratégicos entre Rússia e Argentina. O primeiro deles sobre cooperação nuclear, que prevê a construção de um terceiro bloco na usina de Atucha. Um interessante convênio, não detalhado, entre o Ministério das Comunicações argentino e “meios de comunicação” russos, indica formas de intercâmbio e retransmissão de conteúdos em ambos os países. Finalmente, o acordo sobre extradição deixa entrever forte interesse russo pela cooperação judicial na caça a magnatas e mafiosos foragidos.
Acordos comerciais e investimentos russos
Obviamente, Putin veio para encorajar a intensificação do comércio bi- e multilateral com os países do Mercosul, para compensar pelo menos parte das operações com a Europa colocadas no limbo. Entre as ofertas russas estão armamento, indústria aeronáutica, engenharia de grandes projetos e logística.
Mujica sugeriu que o Mercosul assine já acordos comerciais com a Rússia, pois o Uruguai busca investidores para seu mega-projeto de porto de águas profunda, mas também para a retomada e ampliação de sua malha ferroviária. Em contrapartida, Mujica oferece alimentos, gado em pé, da melhor qualidade. Putin acha interessante a proposta, mas o Uruguai terá que parar de vacinar seu gado exportado contra a febre aftosa, proibida pelas autoridades sanitárias da Rússia.
Com o voto de Cristina Kirchner, Putin chega à reunião dos BRICS para agilizar a agenda sobre a reforma do sistema financeiro global. Agenda da qual o governo Dilma Rousseff é credor.
Publicado originalmente em:
http://www.jornalggn.com.br/blog/frederico-fuellgraf/vladimir-putin-na-america-latina-com-a-bola-no-pe#.U8PfNDvzL-w.facebook