15 julho 2014

Frederico Füllgraf: Vladimir Putin na América Latina, com a bola no pé

Na sexta-feira, 11, o presidente russo Vladimir Putin aterrissou em Havana, dando início a uma jornada de seis dias em visita aos que Moscou agora considera seus parceiros estratégicos na América Latina: Cuba, Argentina e Brasil. Com sua segunda escala em Buenos Aires, Putin reuniu-se com a presidente Cristina Kirchner, assinando com a Argentina tratados de cooperação nuclear, comunicação e extradição. No Maracanã, Putin recebeu da presidente Dilma a transferência simbólica da Copa do Mundo, que a Rússia sediará em 2018. Como coroação de sua jornada, o presidente russo co-assinará as atas de fundação e dotação, com capital inicial de 100,0 bilhões de dólares, do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), o banco dos BRICS. Integrado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, a 6ª Cúpula do grupo ocorre de 14 a 16 de julho em Fortaleza.
O pit stop em Cuba não visava a dividendos econômicos. Muito pelo contrário, em Havana, Putin assinou um debt relief de 90% dos 35,2 bilhões de dólares devidos há trinta anos a Moscou pela ilha, e sugeriu investir os 10% restantes em projetos de infra-estrutura local – um generoso presente para a administração Raúl Castro.
Enquanto homenageavam com coroas de flores os soldados soviéticos em Havana, e José Martí, o herói nacional cubano, Raúl, vestindo terno escuro como seu par russo, suspirou sob o sol escaldante: “Temos que mudar o protocolo...Não usamos gravata neste país, só guayaberas e chapéus, shorts e sandálias... Este país não é para trabalhar, muito menos para guerrear. É um país para descansar. O que você acha?”.
Ao circunspecto Putin aquela frase deve ter soado como confissão de malandro, esquivo ao esforço, ou mau pagador. Foi uma frase de efeito, uma brincadeira do cubano com os russos abotoados e suando em bicas, mas Putin não estava ali para descansar.
Devolvendo o dedo no nariz
Se a opção por Cuba como primeira escala não tinha qualquer relevância econômica, é porque fora escolhida como cenário para uma demonstração que os ingleses chamam de to thumb one´s nose – enfiar o dedo no nariz de alguém. Se a atitude é própria de pirralhos mal-educados, foi, pois, o que fizeram em fevereiro do ano em curso, o governo Obama e a União Europeia, ao apoiarem descaradamente a derrubada do governo eleito de Viktor Yanukovich da Ucrânia e a instalação de um regime golpista, escoltado por hordas fascistas, nas barbas da vizinha Rússia.
Os rumores, segundo os quais, depois de 1962, Moscou voltaria a instalar uma base militar em Cuba, não passaram do que são: um hoax. Mas Putin deu seu recado: “se vocês chacoalharem a cerca da nossa casa, a gente vai criar encrenca na vizinhança de vocês! - e ostentou em sua comitiva ninguém menos que Igor Sechin, presidente da estatal de petróleo, Rosneft, e um dos executivos russos “castigados” pelo governo Obama com sanções, tais como a cassação de seu visto de entrada aos EUA. A medida seria uma retaliação à suposta ingerência russa na crise ucraniana, sobretudo a anexação da Crimeia. Ex-agente da KGB, como seu amigo e chefe, Vladimir Putin, em menos de quinze anos, Sechin fez da Rosneft a maior trader de petróleo do mundo. Contudo, muito antes da crise ucraniana, o executivo  já encabeçava a lista negra de Washington porque, em parte, a expansão da Rosneft se deveu à encampação do império Yukos, fraudulentamente erguido por Mikhail Khodorkovsky, magnata recentemente libertado da prisão na Sibéria, e homem de confiança dos EUA.
“Pivôs do norte ao sul das Américas”
A agenda de Putin é ambiciosa, ele granjeia simpatias mundo afora, mas não chega como o gladiador vitorioso. A co-optação da Crimeia e a oposição russa ao novo governo ucraniano exigiram seu custo. Nos meses de março e abril, o valor as ações de empresas russas chegou a ser depreciado em 10% nas bolsas e as agências notificadoras Fitch e Standard & Poor’s ameaçaram rebaixar a classificação de risco da Rússia. No segundo estágio, os EUA elaboraram uma lista negra com os nomes de 30 executivos e 19 empresas russas, e a União Europeia listou 61 indivíduos e duas empresas, mas o plano de represálias prevê endurecimento, caso a Rússia não “contenha” os rebeldes do leste ucraniano, com os quais tem conversado, mas que na verdade não controla.
Os danos sofridos pela Rússia podem ser definidos como colaterais, entre retaliações à meia boca e apoio chinês, que promete absorver parte das exportações de petróleo e gás sustadas por países do ocidente.
Porém, como já advertia o hexagrama wei-ji do milenar oráculo I Ching , uma crise pode abrir o caminho para novas oportunidades, e Vladimir Putin desembarca na América Latina para amealhar aliados, promover seu projeto de uma nova ordem mundial multi-polar e com ele inaugurar um redesenho da geopolítica ditada por Washington.
“A jornada tem por objetivo construir uma rede de pivôs, do norte ao sul das Américas”, prega Vladimir Orlov, diretor do PIR, um think-tank do governo em Moscou. Colocada à margem das políticas globais, agora “estamos nos voltando com mais atenção e deferência aos nossos parceiros naturais, que não aderiram às retaliações”. E segundo Orlov, apesar de sua avançada idade, Fidel Castro é “o último dos moicanos” cuja análise sobre a atual e a futura ordem global Putin sabe apreciar.
E por falar em BRICS, diz Orlov, a etapa final da jornada do presidente: “Representamos cinco civilizações-chave, que contam 43% da população mundial”.
Fundos abutres e sanções, Crimeia e Malvinas
Dois pleitos dramáticos na agenda russa e argentina, gerados por fontes ocidentais de interesses compartilhados, sinalizaram a Putin a conveniência de aterrissar em Buenos Aires antes de sua chegada ao Brasil: o ataque dos fundos abutres às reservas cambias argentinas e a luta do país sul-americano pela reintegração de posse soberana do arquipélago das Malvinas, usurpado pela Inglaterra em 1833, que encontram sua correspondência nas sanções impostas à Rússia e no questionamento de seu direito legítimo de reincorporação da península da Crimeia, apoiada pela esmagadora maioria de sua população russófona.
Durante o jantar de sábado, 12 de junho, em Buenos Aires, em homenagem a Putin, ao qual Kirchner teve a gentileza de convidar o presidente uruguaio, José Mujica, os três presidentes afinaram os instrumentos de navegação de suas diplomacias contra o que Cristina Kirchner denuncia como a “dupla moral” dos países centrais com relação aos princípios da Carta da ONU, em especial sobre o suposto plebiscito realizado nas Malvinas, mediante o qual os residentes trazidos da Inglaterra votaram a favor da soberania inglesa sobre as ilhas; procedimento viciado, mas apoiado pelos países centrais.
A Rússia apoia o pleito argentino sobre as ilhas e veio agradecer a abstenção argentina – idêntica à brasileira – durante votação na ONU contra a incorporação da Crimeia.
Durante a reunião foram assinados três acordos estratégicos entre Rússia e Argentina. O primeiro deles sobre cooperação nuclear, que prevê a construção de um terceiro bloco na usina de Atucha. Um interessante convênio, não detalhado, entre o Ministério das Comunicações argentino e “meios de comunicação” russos, indica formas de intercâmbio e retransmissão de conteúdos em ambos os países. Finalmente, o acordo sobre extradição deixa entrever forte interesse russo pela cooperação judicial na caça a magnatas e mafiosos foragidos.
Acordos comerciais e investimentos russos
Obviamente, Putin veio para encorajar a intensificação do comércio bi- e multilateral com os países do Mercosul, para compensar pelo menos parte das operações com a Europa colocadas no limbo. Entre as ofertas russas estão armamento, indústria aeronáutica, engenharia de grandes projetos e logística.
Mujica sugeriu que o Mercosul assine já acordos comerciais com a Rússia, pois o Uruguai busca investidores para seu mega-projeto de porto de águas profunda, mas também para a retomada e ampliação de sua malha ferroviária. Em contrapartida, Mujica oferece alimentos, gado em pé, da melhor qualidade. Putin acha interessante a proposta, mas o Uruguai terá que parar de vacinar seu gado exportado contra a febre aftosa, proibida pelas autoridades sanitárias da Rússia.
Com o voto de Cristina Kirchner, Putin chega à reunião dos BRICS para agilizar a agenda sobre a reforma do sistema financeiro global. Agenda da qual o governo Dilma Rousseff é credor.
Publicado originalmente em:
http://www.jornalggn.com.br/blog/frederico-fuellgraf/vladimir-putin-na-america-latina-com-a-bola-no-pe#.U8PfNDvzL-w.facebook
 

13 julho 2014

12 de julho, 110 anos de Pablo Neruda, o imortal




Esta vez dejadme
ser feliz,
nada ha pasado a nadie,
no estoy en parte alguna,
sucede solamente
que soy feliz
por los cuatro costados
del corazón, andando,
durmiendo o escribiendo.
Qué voy a hacerle, soy
feliz.


Soy más innumerable
que el pasto
en las praderas,
siento la piel como un árbol rugoso
y el agua abajo,
los pájaros arriba,
el mar como un anillo
en mi cintura,
hecha de pan y piedra la tierra
el aire canta como una guitarra.

Tú a mi lado en la arena
eres arena,
tú cantas y eres canto,
el mundo
es hoy mi alma,
canto y arena,
el mundo
es hoy tu boca,
dejadme
en tu boca y en la arena
ser feliz,
ser feliz porque si, porque respiro
y porque tú respiras,
ser feliz porque toco
tu rodilla
y es como si tocara
la piel azul del cielo
y su frescura.

Hoy dejadme
a mí solo
ser feliz,
con todos o sin todos,
ser feliz
con el pasto
y la arena,
ser feliz
con el aire y la tierra,
ser feliz,
contigo, con tu boca,
ser feliz.



05 julho 2014

Alejandro Lavquén - Ejército y Fútbol



El comandante en jefe del ejército, general Humberto Oviedo, rindió un homenaje, en nombre de su institución, al futbolista y seleccionado nacional Gary Medel, de brillante participación en el mundial de fútbol 2014. 

Las razones del homenaje las dio el mismo Oviedo: “Esta es una expresión de gratitud por la gesta deportiva. Una actitud de vencer la adversidad y ser capaz de decir: yo puedo más” (…) “Es un hombre que ha puesto disciplina en lo que hace y, por lo mismo, estamos seguros de que es un ejemplo para nuestros soldados”. 

Luego, le regaló a Medel un corvo, aquel arma que los militares usaron para desbarrigar chilenos y luego arrojarlos al mar. Gary Medel respondió que estaba emocionado por el homenaje y que se identificaba “con el soldado chileno por lo guerreros que son, por lo luchadores, nunca dicen que no, siempre pueden más y por eso el agradecimiento hacia ellos”.

Pues bien, esta situación es representativa de cuestiones que merecen ser tomadas en cuenta si queremos entender nuestra sociedad y sus opuestos. 

No discuto que Medel merezca todos los homenajes que se le quieran dar como deportista. Por cierto que los merece. Dicho esto, vamos a lo de fondo. 

El comandante en jefe del ejército toma al futbolista como ejemplo de patriotismo para sus soldados. Es decir, dar la batalla hasta el final, a pesar de estar herido (Medel jugó con un desgarro). Se debe mantener la bandera siempre al tope (en el deporte equivale a la camiseta). Claro que existen diferencias notables entre el fin que persigue un soldado y el que busca un futbolista. Al primero lo entrenan para matar, utilizando entre otras armas el famoso corvo; en cambio, al futbolista lo entrenan para jugar con un balón y hacer goles, sin matar a nadie. O sea, fines totalmente opuestos, pero que hoy el general Oviedo ha querido homologar. Imagino que por el bien de la patria.     

Respecto a la respuesta de Medel y su sentimiento hacia los soldados, sólo se trata (aunque no nos guste) de cómo la mayoría de los chilenos ve a nuestro ejército. 

El patrioterismo y chovinismo, son características de nuestro pueblo. La visión del ejército chileno que han enseñado por años en los colegios se ha grabado a fuego en el consciente e inconsciente de los chilenos. De hecho, no es extraño escuchar decir, a más que muchos, que la corten con las acusaciones contra los violadores de los derechos humanos, que hay que dejar atrás el pasado, que por algo pasó lo que pasó, etcétera. 

Grave. ¿Ignorancia? Por supuesto. 

El ejército chileno ha masacrado a sus compatriotas muchas veces desde 1830 en adelante, siempre con la venia de presidentes y la derecha en sus distintas encarnaciones hasta 1973. 

Los hechos están documentados, pero han sido silenciados en las casas de estudio. ¿Las víctimas de este silencio? Entre otros, futbolistas de buena voluntad como Gary Medel ¿Los beneficiados? Tipos como el general Oviedo, que con estrategia militar aprovecha de blanquear la imagen de su institución aprovechándose del mundial de fútbol. 

El problema es que en vez de balones regala corvos. Lo que me recuerda la fábula de la rana y el escorpión: “es mi naturaleza”. 

Fotos: divulgação

Alejandro Lavquén (Santiago1959) es poeta y escritor chileno.
Entre los años 2000 y 2005 condujo en radio Nuevo Mundo, en Chile, el programa literario De Puño y Letra. Actualmente es colaborador de la revista Punto Final y otros medios de comunicación impresos y digitales. Sus poemas y trabajos periodísticos han sido reproducidos por revistas, periódicos y páginas web de diversos países. En el año 2012 su libro Sacros iconoclastas fue traducido al griego por el poeta Rigas Kappatos y publicado en Atenas, Grecia, en una edición bilingüe por Editorial EKATH.

01 julho 2014

Luis Nassif - Copa: o Brasil ganhou, a mídia perdeu


Já se tem o resultado parcial da Copa: reconhecimento geral - da imprensa nacional e internacional - que é uma Copa bem organizada, com estádios de futebol excepcionais, aeroportos eficientes, sistemas de segurança adequados, logística bem estruturada e a inigualável hospitalidade do povo brasileiro.
Vários jornais (internacionais) já a reconhecem como a maior Copa da história.
***
Agora, voltem algumas semanas atrás, pouco antes do início da Copa.
A imagem disseminada pela imprensa nacional - era a de um fracasso retumbante. Por uma mera questão política, lançou-se ao mundo a pior imagem possível do Brasil. O maior evento da história do país, aquele que colocou os olhos do mundo sobre o Brasil, que atraiu para cá o turismo do mundo,  foi manchado por uma propaganda negativa absurda. Em vez das belezas do país, da promoção turística, do engrandecimento da alma brasileira, da capacidade de organização do país, os grupos de mídia nacionais espalharam a imagem de um país dominado pelo crime e pela corrupção, sem capacidade de engenharia para construir estádios - justo o país que construiu duas das maiores hidrelétricas do planeta -, com epidemias grassando por todos os poros.
Um dos jornais chegou a afirmar que haveria atentados na Copa, fruto de uma fantasiosa parceria entre os black blocks e o PCC. Outro informou sobre supostas epidemias de dengue em locais de jogo da Copa.
***
O episódio é exemplar para se mostrar a perda de rumo do jornalismo nacional, a incapacidade de separar a disputa política da noção de interesse nacional. E a falta de consideração para com seu principal produto: a notícia.
Primeiro, cria-se o clima do fracasso.
Criado o consenso, abre-se espaço para toda sorte de oportunismos. É o ex-jogador dizendo-se envergonhado da Copa, é a ex-apresentadora de TV dizendo que viajará na Copa para não passar vergonha.
***
Tome-se o caso da suposta corrupção da Copa. O que define a maior ou menor corrupção é a capacidade de organização dos órgãos de controle. O insuspeito Ministério Público Federal (MPF) montou um Grupo de Trabalho para fiscalizar cada ato da Copa, juntamente com o Tribunal de Contas da União e a Controladoria Geral da União. O GT do MPF tornou-se um case, por ter permitido economia de quase meio bilhão de reais.
***
Antes da hora, é fácil afirmar que um estádio não vai ficar pronto, que um aeroporto não dará conta do movimento, que epidemias de dengue (no inverno) atingirão a todos, que os turistas serão assaltados e mortos. Fácil porque são apostas, que não têm como ser conferidas antecipadamente.
Quando o senhor fato se apresenta, todos esses factóides viram pó.
A boa organização da Copa não é uma vitória individual do governo ou da presidente Dilma Rousseff. É de milhares de pessoas, técnicos federais, estaduais e municipais, consultores, membros dos diversos poderes, especialistas em segurança, trânsito, empresas de engenharia, companhias de turismo, hotelaria.
E tudo isso foi jogado no lixo por grupos de mídia, justamente os maiores beneficiários. Eram eles o foco principal de campanhas publicitárias bilionárias, sem terem investido um centavo nas obras. Pelo contrário, jogando diuturnamente contra o sucesso da competição e contra qualquer sentimento de autoestima nacional.
Publicação original:
http://jornalggn.com.br/noticia/copa-o-brasil-ganhou-a-midia-perdeu

Por dentro da brutalidade do governo militar no Egito

Desde o golpe que tirou Mohamed Morsi do poder, a violação dos direitos humanos no país tornou-se cada vez pior. Dados indicam torturas, mais de 2 mil mortes e 16 mil prisões. Por Medea Benjamin e Kate Chandley, em Codepink.
O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, e o general Al Sisi: a Casa Branca continua a fornecer 250 milhões de dólares de apoio económico. Foto de U.S. Department of State, creative commons.
O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, e o general Al Sisi: a Casa Branca continua a fornecer 250 milhões de dólares de apoio económico. Foto de U.S. Department of State, creative commons.
Depois de uma visita recente de uma delegação da organização pacifista Codepink ao Egito ter terminado emdeportações e agressões, ficaram evidentes alguns dos horrores que os egípcios enfrentam na esteira do golpe de 3 de julho de 2013, que derrubou o presidente eleito Mohammed Morsi: mais de 2.500 civis foram mortos em protestos e confrontos com forças de segurança; mais de 16 mil estão na prisão devido às suas crenças políticas, e asdenúncias de tortura são inúmeras. Milhões de pessoas que votaram em Morsi – nas eleições que os observadores internacionais declararam como legítimas – estão a viver sob terror, assim como o estão os opositores seculares do regime militar. Os níveis de violência não têm precedentes na história moderna do Egito. Com o antigo ministro da defesa Abdel Fatah al-Sisi a ser considerado o próximo presidente em eleições já também consideradas fraudulentas, o militarismo egípcio está a dar passos largos para conseguir acabar com os levantes que ganharam os corações da comunidade internacional durante a Primavera Árabe.
O caso mais notório é o julgamento de três jornalistas da Al Jazeera e os seus defensores, denunciados por alegadamente fabricarem notícias falsas e trabalharem junto da Irmandade Muçulmana. Em 10 de abril, houve uma tentativa ridícula de apresentar provas contra eles – que consistiram na base das acusações – mas não passavam de fotos de família, cavalos no campo e refugiados somalis no Quénia. O juiz dispensou as “provas”, mas não as acusações.
O Comité de Proteção a Jornalistas classificou o Egito como o terceiro país mais mortífero para jornalistas em 2013, atrás apenas da Síria e do Iraque.
Esse caso é apenas o mais notório do vasto ataque contra a liberdade de expressão no país. O governo já fechou diversos canais de televisão e redações de média impressos, afiliados à Irmandade e outras correntes islâmicas. O Comité de Proteção a Jornalistas classificou o Egito como o terceiro país mais mortífero para jornalistas em 2013, atrás apenas da Síria e do Iraque.
Um incidente que mostra como o sistema judiciário está a trabalhar lado a lado com os militares foi o infame 24 de março, onde 529 partidários de Morsi foram condenados à morte num julgamento em massa. O grupo inteiro foi acusado de matar um polícia. O julgamento consistiu em duas sessões, cada uma durando menos de 1 hora. O Secretário de Estado dos EUA, John Kerry, disse que a sentença desafia a lógica e a Amnistia Internacional chamou a decisão de “grotesca”.
Nem mesmo quem possui passaporte dos EUA (aliados modernos do regime militar egípcio) escapam da perseguição: Mohamed Soltan, de 26 anos e formado pela Universidade de Ohio, estava a trabalhar no auxílio a veículos de imprensa da língua inglesa nas suas coberturas dos protestos contra o golpe militar na praça Rabaa, que foi violentamente reprimida pela polícia e resultou na morte de mais de 1.000 pessoas. Na cadeia há mais de 7 meses, Soltan está numa greve de fome desde 26 de janeiro e agora está tão fraco que não consegue nem andar. A sua situação na prisão tem sido horrível: quando foi preso, Soltan estava com um ferimento a bala que ainda não havia curado. Os dirigentes da prisão recusaram-se a tratar dele e, nesse momento, outro prisioneiro que era médico realizou uma cirurgia com alicate no chão imundo da prisão, sem qualquer anestesia. O seu julgamento já foi adiado diversas vezes e não existe qualquer previsão de que realmente vá acontecer. (ativistas nos EUA estão a mobilizar-se em sua defesa).
 As organizações Mulheres Contra o Golpe e Organização Árabe pelos Direitos Humanos, relataram espancamentos e assédios sexuais de mulheres na prisão.
Ativistas feministas também têm encarado experiências desumanas. Em fevereiro, quatro mulheres foram presas por participarem de protestos contra os militares, e alegam que foram submetidas a “testes de virgindade”, enquanto estavam presas – uma prática que o líder do golpe e futuro presidente apoia. Somando-se ao horror dos testes de virgindade, a Amnistia Internacional também relatou que as mulheres presas no Egito têm de passar por duras condições, que incluem serem obrigadas a dormir no chão e não poderem utilizar a casa de banho por 10 horas (das 10 da noite às 8 da manhã). As organizações Mulheres Contra o Golpe e Organização Árabe pelos Direitos Humanos, relataram espancamentos e assédios sexuais de mulheres na prisão.
A situação interna pode ficar ainda pior: uma nova legislação “antiterrorista” está para ser aprovada pelo presidente egípcio, aumentando o poder do governo para acabar com a liberdade de expressão e prender opositores. Dois novos rascunhos de lei violam o direito à liberdade de expressão, incluindo penalidades de até três anos de prisão por se insultar verbalmente um funcionário público ou membro das forças de segurança. O governo amplia a definição existente de terrorismo para incluir ações que visam prejudicar a unidade nacional, os recursos naturais, monumentos, sistemas de comunicação, a economia nacional ou atrapalhar o trabalho dos corpos jurídicos e diplomáticos no Egito. “O problema com essas definições vagas de ‘atos terroristas’ é que elas permitem que as autoridades movam um processo contra praticamente qualquer ativista pacífico”, disse Hassiba Hadj Sahraoui, da Amnistia Internacional.
O rascunho da legislação também aumenta o âmbito para o uso da pena de morte para incluir “administração ou gestão de grupos terroristas”. A Irmandade Muçulmana foiclassificadacomo grupo terrorista pelas autoridades egípcias em dezembro passado – apesar de não existir qualquer prova factual de se terem envolvido com terrorismo.
O governo norte-americano recusa-se a chamar a destituição de Morsi de “golpe”e continua a fornecer 250 milhões de dólares como apoio económico, assim como o financiamento para controlo de narcóticos e treinamento militar, mesmo tendo os antigos 1,3 mil milhões de dólares de ajuda militar suspensos.
22/4/2014
Publicado na revista Fórum
Tradução: Vinicius Gomes

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