21 janeiro 2014

Frederico Füllgraf - Retrato do meu avô indo à guerra



Conto

Fui uma criança sem avós.

Tocado por essa dolorosa falta, relato aqui minha amizade com o avô Hendrik Holler, a quem homenageio na véspera dos eventos que lembrarão os 100 anos da Primeira Guerra Mundial, a guerra que moldou o séc. XX.

Nossa amizade começou em minha adolescência, com as narrativas da minha mãe, na verdade todas muito deslumbradas, inpiradas por sua adoração de garotinha temporona por um pai já quarentão.

Visitei o avô Hendrick três vezes. Na primeira - eu tinha apenas treze anos -depois de uma longa viagem à sua terra natal, fui levar flores ao seu túmulo, que dividia com a vó Edburga. Na segunda, eu já residia em seu país, e acompanhei Bilhildis, a mais velha de minhas primas, residente na Oceania, durante uma incursão ao sótão empoeirado do hotel abandonado dos nossos avós.

Anos mais tarde, de volta ao Brasil, voltei a folhear um dos álbuns de família e deparei-me com uma foto do avô, aqui contextualizado pela História, mas todo emoldurado por mitos. Porque as narrativas familiares são mitos, alguns engenhosos, outros, descaradamente mentirosos.

De todo modo, era uma fotografia memorável, em tonalidade sépia, sobre cuja idade exata muito assuntei, porque no verso o fotógrafo vaidoso esmerara-se em carimbar o nome de seu estúdio, mas omitira a datação do instantâneo.

Não tive dúvidas, furtei-a do álbum da minha mãe e reproduzi-a numa crônica de jornal, que depois se perdeu. E para desgraça, a fotografia também desapareceu, que aqui mal troco por um postal da época, que ilustra a cena da despedida. Motivo pelo qual cabe ao leitor decidir, se quer mesmo acreditar nessa estória, tornando-se meu cúmplice.

A propósito, percebo neste momento que a predominância de álbuns de uma das linhagens da família sobre a outra, aos poucos vai se impondo como a história oficial, sutil e dirigida, até reinar como micro-política dos clãs interesseiros. É o que sugere a profusão de álbuns da família da mãe em detrimento de imagens da família do pai. Talvez seja essa a explicação para a ausência de fotografias do pai do meu pai, o avô Nörgel, palavra que em português pode significar ranzinza, chato, enjoado ou rabugento. Segundo a avó Johanna Charlotte, sua esposa, ele era tudo isso, mas quando moço também fora belo, por isso casara-se com ele.

Durante uma pesquisa, muitos anos mais tarde, descobri que, por volta de 1935, o avô Nörgel se inscrevera como membro no partido nazista, o que por outro lado não o impedira de proteger a esposa, que não era ariana pura, segundo o padrão sanguíneo exigido à época.

Mas não quero perder tempo e me apresso em descrever a foto do meu avô heroico, o Hendrik. 

Trata-se de um instantâneo da 1a. Guerra Mundial, que terminou em 1918, mas foi retomada vinte anos depois pelos mesmos senhores, dos quais a vovó Johanna Charlotte teve que ocultar sua árvore genealógica.


Na fotografia ausente, o avô Hendrik veste uniforme da infantaria do exército do Kaiser, cujo acabamento, sobre a cabeça, é um morrião prussiano, capacete encimado por um espeto metálico, de aspecto tenebroso. Imaginado como insinuação de derradeiro recurso, inventado pelos alfagemes para o caso de perda total das armas de assalto, parece sugerir ao combatente, virtualmente rendido que, tomando impulso e utilizando a própria cabeça como aríete, literalmente cravará o inimigo aturdido contra o tronco de uma árvore ou qualquer anteparo que resista à estocada.

Respirando fundo após este assombro, voltemos então a contemplar o conjunto da foto, marcado por três particularidades. A a primeira é a presença da minha avó. Depois estão as botas do avô, surradas e empoeiradas, o que poderia significar que ele não quis engraxá-las para a grande carnificina. À primeira vista, o terceiro pormenor tenta esconder-se como acessório desimportante, na verdade ocupando posição central na imagem: um fuzil com carregador lateral, de alavanca esférica, cuja coronha descansa no chão. E quem prestar atenção, percebe um jogo de intenções duvidosas do fotógrafo, que Roland Barthes certa vez chamou de punctum: um território minúsculo e resvaladiço, cujos elementos podem significar várias coisas ao mesmo tempo. Ao lado do cano do fuzil, com sua mão direita, a avó empunha um buquê de flores, e por mais que o olho vigilante forceje em localizar com exatidão a posição do buquê, é impossível dizer com certeza se o buquê se encontra ao lado, ou se está mesmo enfiado no cano do mosquetão. Estivesse metido no cano, e sinalizaria um protesto sutil. Não se sabe, se protesto da avó ou do casal, ou se foi mesmo ato falho - falho, mas pacifista, que é o que interessa.

E jamais sabendo da intenção do fotógrafo, nem da dos avós, o “Retrato do meu avô indo à guerra” entranhou em mim essa imagem ao mesmo tempo ambígua e simpática do meu avô materno.


Já da avó Edburga, ou Edda, para os íntimos, não posso afirmar o mesmo, pois ela não sorria naquela foto, nem em qualquer outra das que minha mãe costumava contemplar quando a saudade lhe apertava o coração. Talvez a foto tenha captado o desconsolo da avó com a partida do marido para a guerra, quiçá fosse tristeza pelo final de uma breve licença do front. Muitas dúvidas atiçam a imaginação.

A única fotografia na qual a avó Edburga sorri – e não me atrevo a dizer vó Edda, pois sempre tive dúvidas de pertencer ao seu círculo íntimo, tal a distância que seu olhar impunha entre seu corpo ausente e o meu - o único sorriso, como dizia, é o do dia de seu casamento, ocorrido catorze anos antes da fatídica guerra.

Invejo saudavelmente esta Cena de um Casamento de Hendrik e Edburga, ocorrido em 1900, a tal ponto gratificado, que ouso afirmar ter sido seu muito particular Novecento, com tantas horas de festa como foram as longas horas do grandioso filme. 

A foto é uma relíquia há muito guardada por uma de minhas primas, que certo dia resolveu compartilhá-la, pelo que muito lhe agradeci, pois não sabia que a avó Edburga fora tão bela - eis um recorte dela no destaque, ao lado de Hendrik Holler: a insofismável encarnação de Faye Dunaway, antes de sua carreira de assaltante em "Bonnie & Clyde"!

Apesar dessa estranheza em nosso relacionamento, sempre apartado por aquele mar imenso, nunca deixei de lembrar a vó Edburga com sincero respeito, pois se nomen est omen, como inferiam os romanos, alertando que a antonomásia era sempre expressão acabada do caráter e da reputação de uma pessoa, então a avó fizera jus ao significado de seu nome, que entre os antigos queria dizer “a mulher que zela por suas posses”. Posses que o espírito mal assistido do seu marido imaginara todas destruídas, mas que ela conseguira multiplicar em sua ausência. 

A partir desse dia, comecei, por assim dizer, a dar asas à foto, puxando o avô 

para fora da moldura, caminhando de mãos dadas com ele em passeios 

imaginários. Passeios na verdade roubados dos relatos de minha mãe,

resgatando seus cinco, seis anos de idade, durante andanças pausadas com o 

avô às margens do Werra, geralmente acompanhados de seu cão de caça, que 

salivava, mal divisava uma daquelas lebres, mas que no olhar justiçoso e silente

de Hendrik Holler entendia a proibição, baixando as orelhas, enfastiado.

Nessas apropriações do avô eu costumava sofrer um conflito que não tinha cura,

pois ao imaginar as paisagens dele, dava-me conta que não as conhecia. Já, 

puxando o avô para fora da moldura, era ele que não cabia na minha paisagem, 

pois seu olhar buscaria bétulas e carvalhos, só encontrando ingazeiros e 

aroeiras.                                                                                                             


Sempre invejei este pai à minha mãe, tão diferente do meu próprio, 

frequentemente escondido atrás da página aberta de um jornal.

Mas falando a verdade, eu o preferi sempre como meu avô, tão distante, intangível, talvez por isso tão mágico. Porque os pais da gente são os que nos mostram o caminho das pedras, nos preparam, como afirmam, e depois nos disciplinam e põem de castigo. Não assim os avôs. Estes são um misto de prestidigitador de plateias e feiticeiros, que aos netos ensinam a ver e a lapidar a alma Ver o que não se vê, ou se percebe com um sexto sentido. Me explico: tomam nossas mãos em suas próprias, calejadas, e saem a passear, a cada tanto interrompendo a caminhada para chamar atenção: o cochicho íntimo da brisa com as folhas das árvores, o murmurejar de um córrego narrando às pedras sua acidentada viagem, uma ave planando no azul etéreo como fosse sustentada por mão invisível – sim, dizia o avô, naqueles detalhes da vida estava sempre metida uma mão indecifrável.

A propósito, aqui cabe um aparte: Holler não era o sobrenome verdadeiro do avô Hendrik. A este fizera jus, segundo as narrativas mais infundidas, porque nascera ali no Alto Meissner, território de miscigenação entre celtas e germânicos, a cujos pés ainda jaz o Lago de Frau Holle, anos antes do nascimento de Hendrik imortalizado em um conto pelos Irmãos Grimm.

Desde tempos imemoriais, os nativos juravam volta e meia surpreender às belas ninfas que suspeitavam emergir de suas profundezas e banhar-se nuas em pelo às suas frondosas margens. O lago, assim segredavam as velhas parteiras, era o poço da iniciação da mulher em seu corpo, e também fonte de sua fecundidade. Por isso, mulher que desejasse engravidar, melhor fizesse uma oferta em moedas de ouro à entidade!

Incursionar no labirinto encantado da Senhora Holle me desviaria do curso da presente narrativa, mas dito seja que, um belo dia, o avô Hendrik escapara com um amigo para um inadvertido passeio à sua terra natal, onde beberam além dos seus fígados. A noite já andava alta quando decidiram retornar, mas não sem antes deterem-se às margens do lago, no qual Hendrik, que ainda não era meu avô, lançou algumas moedas de ouro. Quando finalmente alcançou sua casa, à cuja porta o esperavam a esposa aflita e a polícia alarmada com seu desaparecimento, com grandes olhos encharcados de aguardente da benta cereja Kirsch, Hendrik teria confessado à esposa "Edda, joguei três moedas no lago da Frau Holle – agora é com você!". Indignada, a avó cravou seus olhos zombeteiros nos dele, pois não acreditava na imaculada conceição.

Nove meses depois nasceu minha mãe.

O avô Hendrik, contou-me a prima Bilhildis, era também possuidor de um belo repertório musical que divertia seus netos, a ela e meus outros primos e primas. Quando inspirado, costumava colocá-los no colo e tocar canções ao piano. Não lembrava se de Schubert, mas certamente cirandas, e de vez em quando uma daquelas Lieder que romanceavam a paisagem, os caminhantes e um rombo no coração – ferimento, talho, tristeza que muitas vezes não tinha nome nem remédio.

Ferimento que no avô tinha nove anos de tamanho.


Depois da convocação, em agosto de 1914, despedira-se da vó Edburga na estação do trem, apinhado de milhares de jovens como ele, metidos em uniformes e armados, mas estranhamente alegres, como se partissem para uma festa. "Beber uma champanhe em Paris!", zombavam alguns grafites rabiscados com giz nas paredes dos vagões – tal era a algazarra pela ingênua crença em uma rápida expedição punitiva a oeste do Reno.

A excursão duraria quatro longos anos, durante os quais Hendrik Holler guerreou em trincheiras da Bélgica e depois da França. Trincheiras fétidas, ensopadas de barro, medo e excrementos. Intermináveis noites de inverno gélido, cortadas por estampidos, ataques com gases letais, gritos e silêncio súbito.

A morte tinha muitas faces, aprendeu Hendrik Holler. As trincheiras transmutaram-se em valas comuns de corpos mutilados e putrefatos, que não tinham conseguido alcançar Paris para um brinde ao Kaiser.

Milagrosamente, Hendrik Holler, combatente em Verdun, conseguiu sobreviver a abominável carnificina: foi preso em Armentiéres, com uma baioneta britânica apontada contra seu peito esquerdo, conduzido ao Havre e de lá embarcado à Ilha de Man, no Mar da Irlanda.

Durante outros cinco eternos anos, foi mantido prisioneiro de guerra no Knockaloe Camp, de onde enviou inspiradas cartas à esposa, que excitam qualquer editor, tal sua criatividade.

Quando em 1923 baixou do trem, em sua terra natal – não sem antes excursionar às fabulosas ruínas de Glastonburry e, panteísta convicto, extrincar a fraude do Santo Graal –, trazia no ombro um pobre bornal repleto de pão seco, que ingenuamente guardara para os seus, na Alemanha, preferindo ser consumido pela fome.

Contudo, ao ser recebido pelas fanfarras e a faixa que dizia "Bem vindo Hendrik Holler, tua cidade te saúda!", encomendadas pela esposa, perfilada com os quatro filhos, bem vestidos e nutridos, o que ainda não era meu avô caiu em profunda depressão ao cruzar o umbral da porta do hotel que com o seu e o sacrifício de Edburga conseguira inaugurar antes de partir ao front.

Perturbado, porque não queria caber em seu coração já apertado, que a esposa não apenas preservara, mas visivelmente duplicara seu patrimônio familiar. Já ele sentia-se um zero à esquerda. Um nada.

Por isso, quando tropeçou nos degraus da entrada do hotel, com o fígado encharcado e a alma lavada, dizendo à esposa que lançara três moedas de ouro ao lago da Senhora Holle, se sentia finalmente reconciliado. A partir daquela noite, me confiou Bilhildis, Hendrik e Edburga voltaram a dormir no mesmo quarto.


Escrevia-se 1925.

Sete anos depois, os camisas-pardas tomavam o poder. Este foi o assunto de uma conversa acidental com minha mãe. "E os judeus?", perguntei-lhe, "o que lhes aconteceu?", pois lembrava-me de uma rua na cidade que se chamava Judengasse - "Ruela dos judeus", escrita assim, com uma oitava de desprezo.

Esse era sempre um tema espinhoso para minha mãe e sua geração dos vencidos e muitas décadas depois ainda inconformados. Mas então ela me falou de Natan, o mercador de cavalos, homem muito simples, que vivia com sua esposa e numerosa prole numa casa da calçada oposta à do avô Hendrik.

Como dizia, em 1933 os camisas-pardas tomaram o poder,  e suas milícias, as SA, começaram a infestar os campos e as cidades. A invadir casas, destruir lojas, maltratar judeus – judeus, mas alemães!, indignava-se o avô Hendrik, em cujos dedos somados não cabia o número de camaradas judeus mortos nas trincheiras de Verdun!

Numa manhã cinzenta, Hendrik Holler viu quando Natan atravessou correndo a rua, em direção ao restaurante do hotel, mas evitando a entrada principal, para não causar espanto aos comensais engravatados e suas damas, reunidos em torno das mesas. Educado, apresentou-se na cozinha, esbaforido, a carranca pálida como a cal.

O avô entendeu tudo sem trocar palavra com o vizinho. Chamou-o ao lado, sacou do bolso um maço de cédulas de dinheiro, apanhou o lápis preso entre o crânio raspado e o lóbulo da orelha, pediu um pedaço de papel à criadagem, rabiscou algumas linhas e um endereço, e entregou o dinheiro e o bilhete a Natan, apenas dizendo: - Junte sua família e algumas coisas e caia fora, não perca tempo!

Foi o que minha mãe me contou.

Juro com a mão direita sobre a bíblia sagrada - se quiserem, sobre o alcorão - que a foto do avô indo à guerra existiu, ou existirá ainda nas mãos de algum velhaco mercador de antiguidades.

Se meu relato é a única versão plausível para minha existência - pois Hendrik Holler engravidou minha avó – admito não ter certeza de nenhum desses episódios, pois todos me foram narrados por vias duvidosas.


Fotos: divulgação

18 janeiro 2014

Eduardo Galeano - Juan

Foto: divulgação


Hace poquitos días, hablando del gordo soriano y del negro fontanarrosa, dije, o más bien comprobé:

–A veces, la muerte miente.

Y ahora, lo repito: miente la muerte cuando dice que juan gelman ya no está.

El sigue vivo en todos los que lo quisimos, en todos los que lo leímos, en todos los que en su voz hemos escuchado nuestros más profundos adentros.

Nunca encontraremos palabras que expresen nuestra gratitud al hombre que fue muchos, al que fue nosotros y nosotros seguirá siendo en las palabras que nos dejó.

Publicação original: Pagina12, Buenos Aires, 15/1/2013.

Juan Gelman - “Se ha instalado todo un sistema para recortarnos el espíritu”




Juan Gelman em uma de suas últimas entrevistas


Juan Gelman (Buenos Aires, 1930) la poesía se la inoculó la música de unos versos que no entendía, los de Pushkin, que recitaba en ruso su hermano mayor. Con nueve años, compuso sus primeros poemas para seducir a Ana, una chica de su barrio, un amor imposible porque ella tenía 11. Fracasó en la conquista, pero siguió escribiendo y 15 años después se dio cuenta de que quería ser poeta. Su madre, emigrante ucrania, recibió el anuncio con la inquietud de quien desea la prosperidad para sus hijos. “Nunca vas a ganar dinero con eso”, le dijo. Pero a la vez sonrió porque, junto a la noticia, su hijo traía en la mano su primer libro impreso.
La profecía de su madre se cumplió a medias. “Los derechos de autor no dan para vivir pero la dotación de algunos premios me ha ayudado”, cuenta el poeta argentino desde el apacible salón de su casa en la capital mexicana. Gelman ha ganado entre otros el Juan Rulfo, el Neruda, el Reina Sofía de Poesía Iberoamericana y el Cervantes. Escribe una columna semanal en el diario argentino Página 12. Lee, pasea, ve los noticieros y sigue en la distancia al Atlanta, el equipo de su barrio, gran rival del Chacarita, que aspira a subir a la Primera División, y que cuenta con su "estímulo permanente".
La vida del poeta quedó marcada por la desaparición de su hijo y de su nuera embarazada durante la dictadura militar, por la búsqueda de su nieta robada al nacer, y por el rencuentro con ella 23 años después. Gelman ha dicho muchas veces que el dolor de perder a un hijo no acaba nunca. Pero no escribe desde el odio, “que nos hace daño”, sino desde la pérdida. Y esa pérdida está también en el génesis de su último libro, Hoy, que será publicado próximamente tras reposar en el horno unos meses.
Gelman se muestra cálido con el fotógrafo y el periodista. Toma café, pero les ofrece un tequila aunque son las once de la mañana. Habla muy bajito, como si no diera importancia a lo que dice. Y apostilla con sorna algunos de sus comentarios. ¿Se puede escribir poesía sin tener sentido del humor? No lo sabe, pero todos los poetas que conoce, lo tienen.
Pregunta. ¿Y por qué ha titulado Hoy su nuevo libro?
Respuesta. Pensé que usted me lo diría... (sonríe). No, simplemente me pareció que ese era el tema. Son 290 o 300 textos breves, muy condensados, para no molestar al lector. En prosa poética, o poesía en prosa, como prefiera. Lo del reposo… sirve para librarse de la calentura en el momento de escribir. Pero apenas los cambio. Cuando el poema se escribió, se murió. Con los arreglitos, y hablo de mi caso, me siento traicionando el mejor momento de la creación, que es de la escritura. Aunque uno escriba disparates.
P. ¿Y desde qué sentimiento lo escribió?
R. Mire, le voy a contar algo que está en el origen del libro. Entre los culpables del asesinato de mi hijo había un general que fue condenado a prisión perpetua. Cuando dictaron la sentencia algunos jóvenes que ni siquiera habían vivido la dictadura saltaban de alegría. Pero yo no sentí nada. Ni odio, ni alegría ni nada. Y me pregunté por qué y eso me llevó a escribir, para explicarme qué había pasado, aunque, como todos los libros, empezó de una manera y siguió por otra. Quité los textos iniciales, porque eran testimoniales y eso es periodismo. Pero surgió el tono poético necesario para escribir un resumen de lo que sé, o creo que sé, de los 35 años que pasaron desde la muerte de mi hijo.
P. A usted no le gusta el término “poesía comprometida”, aunque es una persona que en su vida se ha comprometido políticamente. ¿Se puede separar al autor de su ideología política?
R. El lugar que la ideología ocupa en la subjetividad de un escritor me parece pequeño, según los casos, claro. Y la relación entre la escritura y el pensamiento político tienen canales muy oscuros. Ezra Pound hizo propaganda para Mussolini pero también compuso un poema sobre la usura que ningún marxista-leninista-maoísta-fidelista hará jamás. Balzac era monárquico, pero los personajes más simpáticos de sus novelas eran republicanos. ¿Alguien conoce la ideología de Shakespeare? ¿Se sabe si era comunista o fascista?
P. Y eso explica que usted pueda admirar por ejemplo la obra de Borges, que fue cuando menos tolerante con la dictadura militar que tanto daño le hizo…
R. A mí la obra de Borges me parece extraordinaria, aunque no me gusta tanto su poesía como su prosa. De chico yo le defendía de mis compañeros comunistas que lo acusaban de “amigo de los terratenientes” y cosas así. La política no le interesaba, no estaba en eso. Se dejó condecorar por Pinochet, dijo que con Franco todo era mejor… Pero hay una cosa que apenas se sabe. A principios de los 80 firmó una solicitud de las Madres de Plaza de Mayo pidiendo la aparición con vida de los desaparecidos. Y cuando al final de su vida le preguntaron en la BBC por su apoyo a la dictadura, se le empozaron sus ojos ciegos y explicó que no había estado muy informado y que había vivido rodeado de cierto ambiente. “Ignorancia, como decía Samuel Johnson”, dijo. No hay nada que digerir de las ideas de Borges. Solo hay que comprender.
P. Decía precisamente Borges de uno de sus personajes: “Le tocaron, como a todos los hombres, malos tiempos que vivir”. Usted ha sufrido guerras, dictaduras, exilios, grandes tragedias en su propia familia… pero considera que los tiempos actuales son particularmente terribles…
R. Sí, este momento me atemoriza mucho. No solo por la crisis económica, sino la crisis espiritual, y no me refiero a la religión. Pareciera que se ha instalado todo un sistema para recortarnos el espíritu, para convertirnos en tierra fértil de autoritarismos. Y hay una especie de acostumbramiento, que es lo peor que le puede pasar al ser humano: al terrorismo, al genocidio por hambre, a la falta de educación para todo el mundo.
P. ¿Y cómo ve la situación en su país, Argentina?
R. Yo apoyo al Gobierno actual, es el mejor en varias décadas. No quiere hacer la revolución socialista, sino volver al capitalismo clásico, basado en la producción y no en la especulación. Pero hay muchos intereses en contra, como los dueños de la tierra. No hay que minimizar las protestas de la oposición, pero lo curioso es que esa reacción no propone nada. Y sería muy bueno que propusiera algo, para cambiar lo que está mal hecho.
P. Han elegido Papa a un compatriota suyo. En un artículo periodístico publicado recientemente usted mostró sus reservas sobre el cardenal Bergoglio.
R. Sí, tengo mis dudas. Y cuento una experiencia personal: hablé con él cuando buscaba a mi hijo y me dijo que no podía hacer nada. Pero ante la justicia declaró otra cosa, que había hecho gestiones sin éxito. No me consta si las hizo o no. Pero dejó a la intemperie a varios jesuitas cuando era provincial.
P. Pero desde su puesto ¿Podría este Papa cambiar algo de este mundo actual que usted ve tan terrible?
R. Podría cambiar algo, sí. Wojtyla cambió las cosas en Polonia. Pero hay muchos problemas en el Vaticano mismo, intereses muy poderosos y no precisamente creyentes, salvo en el dinero. Por eso me parece muy difícil que arregle nada, aunque ponga la mejor voluntad.
P. Y movimientos como el de los indignados en España o el Yosoy132 mexicano… ¿Pueden ellos modificar las cosas?
R. Me parece bien que la juventud se mueva. Pero por poca experiencia que tenga el observador se veía que eso se iba a desvanecer. Por falta de experiencia política, de objetivos claros. Es difícil luchar desde el llano. Antes la política dirigía a la Economía pero ahora es al revés. Me reía para mis adentros viendo a los jefes de Gobierno de Europa reunidos con la directora del FMI, el del Banco Mundial y el del BCE. Estos dictando políticas y los otros, aceptando.
P. Entonces ¿No tiene esperanzas?
R. No. Por ahora no. Tengo la confianza lastimada. Algo cambiará pero yo ya no lo voy a ver.
P. ¿Aunque viva cien años?
R. No creo que llegue a los cien años. Y eso que soy un pretencioso, cuando alguien me da la mano para bajarme de la camioneta le digo que no estoy tan viejo. No desdeño la vida, quiero ver casarse a mis nietos, ver si me dan algún bisnieto… Pero también creo que Dios, si existe, debe estar aburridísimo de su eternidad.
Ilustrações: divulgação

Publicação original: El País (Madrid) 28 ABR 2013 - Entrevista:  

17 janeiro 2014

Juan Gelman - Buenos Aires, 3/5/1930 - Ciudad de México, 14/1/2014





  • Epitafio


  • Un pájaro vivía en mí.
    Una flor viajaba en mi sangre.
    Mi corazón era un violín. 

    Quise o no quise. Pero a veces
    me quisieron. También a mí
    me alegraban: la primavera,
    las manos juntas, lo feliz. 

    ¡Digo que el hombre debe serlo! 

    (Aquí yace un pájaro.
    Una flor.
    Un violín.) 



  • Fotos: divulgação






  • 11 janeiro 2014

    Manoel de Andrade: América, América...


    Trago ainda na alma o mapa dos caminhos...
    Meus versos riscam teu dorso para cantar um tempo único e perfumado.
    América, América,
    ali, entre os ramos e o penhasco, o abismo florescido,
    acolá, o milho semeado e a colheita rumorosa.
    Entre serras e quebradas vai o colla dedilhando sua flauta,
    é seu hino à pachamama modulando o silêncio do altiplano.
    Canto meu enredo de viandante,
    passo a passo rumo ao norte e à alvorada.
    Quantos atalhos, meu Deus, quantas fronteiras!
    A travessia ao entardecer no Titicaca,
    o Illimani batido pelo sol,
    e aquela noite sob as estrelas em Macchu Picchu!
    Ah! este aguaceiro vem agora molhar minha saudade,
    e tudo me chega como um recanto do passado...
    e se hoje digo amigos e digo hermanos,
    ouço nossos passos ecoar pelas vielas seculares de Quito e de La Paz.

    Ai, América, ainda não disse de ti quanto quisera,
    abre teu cântaro, ó Poesia, e dá-me o frescor do rocio,
    dá-me a magia e o lirismo...,
    que canção para mim soará mais bela que tuas sílabas de encanto?
    América, América,
    Lembro-me do fulgor do teu rosto renascido da utopia,
    tuas bandeiras de sonhos
    feitas de plumas e veias transparentes.
    Os campos todos semeados
    e o porvir tatuado em cada gesto.
    Tudo era aroma na gleba cultivada,
    nos brotos germinava a esperança
    e nossas pálpebras se abriam para o amanhã.

    Canto a América que vivi,
    entre alegrias e lágrimas, canto o continente ao sul de Anahuác.
    Falo de uma América primeira,
    asteca, quiché, chibcha, quéchua, mapuche e guarani,
    essa América materna,
    botânica e mineral,
    sangrada por Cortez, Pizarro e por Valdivia.
    Falo de uma só pátria,
    a grande pátria de Bolívar,
    pilhada e violentada,
    submetida pelas garras perversas do Império.
    Vi tuas trincheiras abertas
    e depois as densas trevas caírem sobre o sul.
    Sobreveio o chumbo cruel,
    os labirintos da dor e as atrocidades.
    Na penumbra gemiam os cravos, gemiam as rosas,
    e agonizava a vida ainda em botão.


    Canto para denunciar a verdade sufocada,
    e eis que mancho este verso para nomear Garrastazu, Bordaberry, Videla, Pinochet
    e seus rastros genocidas num tempo silenciado.
    Canto para dizer das valas clandestinas,
    das ossadas do Atacama
    e dos “voos da morte” para o mar,
    Meu réquiem para trinta mil argentinos,
    meu canto para as “crianças da ditadura”,
    para os sobreviventes e suas cicatrizes,
    para a viuvez e a orfandade
    para las Madres de Plaza de Mayo e suas lágrimas perenes.

    América, América,
    quarenta anos se passaram
    e tuas feridas ainda emergem da tragédia!
    E aqui declino a “operação” perversa dos “condores”
    e os seus generais malditos.
    Canto por ti, América,
    por tuas aldeias de bravos e por teus calvários,
    por teu nevado esplendor tantas vezes torturado,
    América de tantos massacres e patíbulos,
    ouço-te ainda na voz melancólica dos 
    chorando por la matanza de San Juan, em Potosi.
    Uma América de martírios,
    estrangulada em Cajamarca,
    esquartejada em Cusco,
    sacrificada em La Higuera.
    executada em Trelew e El Frontón,
    e nos rituais da morte em Villa Grimaldi e no Dói-Codi.


    Por tanta dor nessas memórias
    eu vos peço perdão pelo meu canto.
    Ele é também assim: um áspero clarim no entardecer.
    Distante, tão distante,
    no tempo e nos andares,
    e hoje, em busca de mim mesmo,
    ainda abrigo o mesmo combativo coração.
    Não sei o que te espera, América,
    os anos correram inquietantes e velozes
    restando um mundo com seu som intolerável.

    Busco meu íntimo silêncio,
    e, por um momento, digo basta...,
    meu pensamento em prece, e num lampejo, viaja ao sul do Chile.
    Lá, muito além do Bio-Bio, há um golfo deslumbrante.
    Vou em busca de Arauco,
    lá lutaram meus heróis, Caupolicán e Galvarino.
    Foi lá onde viveu Lautaro e onde vive Frederico.
    Vou para rever o cone nevado do Antuco
    rever o vale e a Cordilheira,
    o seu dossel verdejante, onde se gesta a vida.
    Vou para relembrar uma baía de barcos,
    para construir uma paisagem na alma,
    uma tenda de luz para um amigo.

    Ilustrações: Divulgação

    Curitiba, 22 de dezembro de 2.013


    Calle 13 - "Latinoamérica"