13 dezembro 2013

Frederico Füllgraf - Michelle Bachelet entre “os mercados” e o clamor das ruas

Ilustrações: divulgação

A direita, que em menos de um ano escalou três candidatos, dos quais dois renunciaram – o último deles, o pinochetista Pablo Longueira, afetado por grave crise de depressão – disputa o páreo com Evelyn Matthei, filha de um general que durante catorze anos integrou a ditadura Pinochet, e que nada fez para impedir a prisão e a morte de seu colega de farda, Brigadeiro Alberto Bachelet, pai da candidata de centro-esquerda, falecido nas masmorras da ditadura chilena em março de 1974. Indiferente à derrota que sua candidata sofrerá no próximo domingo, 15, Sebastián Piñera, dono de patrimônio avaliado em 2,5 bilhões de dólares, retorna aos seus negócios, distribuídos entre línhas aéreas, o clube de futebol Colo Colo, administradora de cartões de crédito e supermercados.
Para Evelyn Matthei o páreo se encerra em 15 de dezembro, já para a virtual Presidente Bachelet a arrumação do país começa no dia seguinte. Seus desafios são enormes: o  Chile não apenas vive sob  uma democracia amordaçada pelo legado pinochetista, com uma Constituição e leis ordinárias permeadas pelo estado de exceção, mas é também um país assimético, ultra-centralizado em Santiago, com notável dívida à diversidade e autonomia das províncias, e sobretudo um país imensamente desigual.
As 50 medidas dos primeiros 100 dias de governo
A duas semanas de assumir o poder, Bachelet terá que arrebatar a Sebastián Piñera e sua bancada direitista no Congresso, a garantia de disponiblidade orçamentária para financiar as primeiras 50 medidas que pretende implementar nos primeiros 100 dias de seu governo. A grosso modo, seu programa de governo, dilatado em quatro anos, está focado em três grandes eixos: as reformas tributária, do ensino e da Constituição. Contudo, um amplo leque de medidas emergencias tem por objetivo reduzir imediatamente  parte da dívida social acumulada. Entre elas estão a entrega dos primeiros 500, de um total de 4.500 novos berçários em todo o Chile; a criação de duas novas universidades públicas regionais, uma delas na explosiva província de  Aysén; convênios para criação das 5 primeiros escolas públicas regionais de Formação Técnica; implementação do Fundo Nacional de Medicamentos, conveniado com todas as municipalidades do país; contratação de 750 novos médicos especialistas para o sistema de saúde pública; projeto de lei que cria, a partir de  2014,  o Aporte Familiar Permanente, subsídio de combate à pobreza no valor mensal de 40.000 Pesos (equivalente a R$ 175,00) que beneficiará 2,0 milhões de famílias; programa de Formação e Capacitação Profissional para aumentar a participação feminina no mercado de trabalho,  beneficiando 300.000 mulheres, e assim por diante.
São medidas com sabor paliativo, poder-se-ia argumentar, porque a expectativa da maioria do eleitorado de Bachelet, situado à esquerda, é de que a Presidente dê mostra de vontade política para desmontar o arcabouço neoliberal inaugurado pela ditadura Pinochet, que catapultou o Chile ao topo das economias latino-americanas de maior crescimento nos últimos vinte anos, mas instalando-o também no ranking dos países socialmente mais desiguais, onde ocupa a nada invejável 6ª posição, um pouco atrás do Brasil.
“Neoliberalismo configurou corações e mentes”
Alberto Mayol, jovem sociólogo da Universidade do Chile e autor de “El derrumbe del modelo. La crisis de la economía de mercado en el Chile contemporáneo”  (Editorial LOM), campeão de vendas em 2012, alerta que “a pobreza, efetivamente, é um assunto premente, mas a desigualdade é uma manifestação que não tem semelhança imediata com a pobreza, e no Chile nunca mereceu atenção do poder constituído”.
Comentando o alto índice de abstenção no primeiro turno da eleição presidencial, Mayol assinala que o país chega à disputa “com um ciclo de impugnação agudo, no qual são objetados os valores culturais dominantes e fundamentais desse modelo de sociedade”. Ter elegido em 2010 o bilionário Sebastián Piñera, foi para o sociólogo “o tirunfo cultural do lucro como suposta forma de sociabilidade e mecanismo político”, mas ao final do quatriênio de seu mandato, a percepção dos chilenos seria de que “o lucro é coisa de Satanás”, tamanha a indignação popular com a súbita riqueza e opulência de poucos e a exclusão social de muitos (leia também deste autor, “A face perversa do ´modelo chileno”). Por isso, segundo Mayol, confirmada a tendência de sua vitória no próximo domingo, Michelle Bachelet deveria governar com protagonistas do movimento social, como a comunista Camila Vallejo, ou o deputado da Esquerda Autônoma, Giorgio Jackson, ambos ex-líderes estudantis recém-eleitos deputados.
A rigor, antes de nada mais, a nova presidente deveria promover uma revolução espiritual e cultural, porque “o neoliberalismo não apenas semeou um modelo econômico e político, mas também configurou corações e mentes”, advertiu com pena áspera e doída, Cristian Zúñiga, na edição de 11 de novembro do jornal Clarin, chileno. Segundo o articulista, o senso comum no Chile contemporâneo está contaminado por uma concepção neo-conservadora da vida, onde o individualismo, a competição desenfreada e a violência são pão de cada dia.
Os mercados e os ministeriáveis de Bachelet
Essa subcultura do “quem pode mais, chora menos”, do “vale tudo” legado pelo pínochetismo, foi a marca da transição e impulsionou a formação desenfreada das novas grandes fortunas no país, por isso é motivo de preocupação de influentes pesquisadores e jornalistas chilenos, que suspeitam “mais do mesmo”: a continuação do “modelo” das desigualdades sociais.
É fato que, desde seu retorno ao Chile, no início de 2013, quando abdicou em Nova York ao cargo de Diretora Executiva do Programa ONU-Mulheres, Michelle Bachelet vem sendo assediada por representantes dos grandes grupos econômicos do país, tais como operadores do Grupo Luksic (com 17,4 bilhões de dólares, segundo o ranking Forbes 2013, a maior fortuna do Chile e uma das maiores das Américas), da ONG Paz Ciudadana, fundada por Agustín Edwards como forum conservador que discute e emite propostas da iniciativa privada no combate à criminalidade, e até mesmo personagens de comprometedora reputação política, como Alberto Kassis, membro do Conselho Protetor da Fundação Pinochet.
O assédio é articulado com jantares, encontros privados e declarações de apoio, e sinaliza duas intenções. Reconhecendo em Bachelet a candidatura potencialmente vitoriosa, o grande empresariado quer descolar sua imagem do pinochetismo, mas também exercer sua influência, recomendando “prudência” e “governabilidade”, vocabulário restritivo que já contamina o próprio discurso da candidata socialista.
Carregando nas tintas com o título “Los personajes del terror del nuevo comando de Bachelet”, em sua edição de 14/07/2013 o jornal esquerdista “El Ciudadano” advertiu para umthink tank chamado Espacio Público, criado em 2012 por Eduardo Engel, economista e colunista dominical do jornal “La Tercera”, de propriedade do empresário atacadista de origem árabe, Alvaro Saieh, dono de um patrimônio de 3,0 bilhões de dólares (Forbes 2013) e, junto com o Grupo El Mercurio, controlador de 90% da imprensa escrita no Chile.
Na mesma linha, Ernesto Carmona, prestigiado articulista da velha guarda e autor de “Los duenõs de Chile” (Ed. La Huella, Santiago, 2002), assinalou na edição de 24/07/2013 do jornal “Clarin”, chileno, que o próprio comando programático de Bachelet era frequentado por “uma gama de veteranos habituados a atravessar com  desenvoltura a porta giratória entre o ´serviço público´e os negócios privados. Os integrantes mais relevantes e de maior influência no time, têm como denominador comum levar em seu DNA  a ideología neoliberal”. “No insigne trato editorial de seus jornais, “La Tercera” e “Pulso”, destinado ao setor empresarial, o apoio de Saieh a Bachelet é notório”, dizia Carmona.
O temível “engenheiro da previdência”
Talvez o personagem mais polêmico do comando programático da futura presidente socialista seja  mesmo Alberto Arenas, ex-diretor executivo do Orçamento no primeiro governo de Bachelet, onde se desempenhou como artífice de uma reforma previdenciária que, segundo os analistas, não tocou nos interesses dos grandes grupos privados, depois do que Arenas mudou-se para a Grupo Luksic como diretor do Canal 13 de TV, de propriedade do grupo de origem croata.
Em seu ácido artigo de julho, o “El Ciudadano” recorda que “o militante comunista e dirigente estudantil, Alberto Arenas, depois de formar-se em engenharia comercial na Universidade de Chile, abandonou as camisetas com a estampa do Ché Guevara, afrouxou o  punho cerrado e em 1991 assumiu a gerência de estudos do Banco Sud Americano. Dos anos depois, fez doutorado na Universidad de Pittsburgh, onde iniciou suas pesquisas sobre a reforma previdenciária realizada por Pinochet”.
Ligado ao senador Camilo Escalona, do Partido Socialista, agora Arenas está de volta como autor do projeto de reforma tributária de Bachelet, que pretende alocar 3% do PIB (aprox. 8,2 bilhões de dólares),  extinguir o Fundo de Utilidades Tributáveis (FUT), aumentar o imposto de renda das empresas, de 20% para 25%, e baixar a alíquota máxima para pessos físicas de 40% para 35%.
Os 3% do PIB deverão financiar a reforma da educação, mas Arenas já advertiu em entrevistas que não se alimente ilusões e que tudo seja feito com “prudência”, “seriedade” e“responsabilidade”.
Desde o primeiro governo Bachelet transcorreram cinco anos, e até mesmo Joaquín Vial, ex-presidente do fundo privado de pensões Provida, admitiu em 2012 que 60% dos pensionistas afiliados aos fundos privados, que dominam 90% do “mercado de pensões”, recebem hoje uma aposentadoria abaixo de 150 mil Pesos (aprox. R$ 650) mensais. Segundo a OCDE (2012), em torno de 20% dos chilenos de terceira idade vivem na pobreza, superando a média dos países signatários, que é de 12,8%.
Resistir e impor-se à pressão dos mercados, manter-se fiel ao diálogo com as ruas - eis o maior desafio de Michelle Bachelet.

07 dezembro 2013

Tributo a Nelson Mandela, último herói do séc.XX


O poema que inspirava Mandela 
Quando aprisionado em Robben Island, onde cumpria pena de trabalhos forçados, o líder sul-africano, símbolo da luta contra o Apartheid, encontrou nas palavras de Henley a esperança e a força necessárias para manter-se vivo. Mandela conta que toda vez que começava a esmorecer, lia e relia o texto, em busca de um "companheiro" para a dor.
‘Invictus’ é um pequeno poema vitoriano de autoria do poeta inglês William Ernest Henley. Foi escrito em 1875 e era o quarto de uma série de poemas intitulados ‘Life and Death (Echoes)’. Originalmente ele não possuía título e as primeiras edições continham apenas a dedicatória ‘To R. T. H. B.’ uma referência a Robert Thomas Hamilton Bruce, um escocês mercador de farinha e padeiro de sucesso e também um mecenas literário.
Invictus
William Ernest Henley
Out of the night that covers me,
Black as the pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.
In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.
Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.
It matters not how strait the gate,
How charged with punishment the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.
Tradução
Dentro da noite que me rodeia
Negra como um poço de lado a lado
Agradeço aos deuses que existem
por minha alma indomável
Sob as garras cruéis das circunstâncias
eu não tremo e nem me desespero
Sob os duros golpes do acaso
Minha cabeça sangra, mas continua erguida
Mais além deste lugar de lágrimas e ira,
Jazem os horrores da sombra.
Mas a ameaça dos anos,
Me encontra e me encontrará, sem medo.
Não importa quão estreito o portão
Quão repleta de castigo a sentença,
Eu sou o senhor de meu destino
Eu sou o capitão de minha alma.

06 dezembro 2013

Frederico Füllgraf: Biobío, La Vida Mía








Fotografia: F. Füllgraf
Locação: Yumbel (Biobío) Chile.



Para Dueña Berta (¡92 años de vida!) con muuuuchas gracias
por su divino Arvejado servido en su centenária cocina  - ¡volveré!


Sobre trilha sonora de "La Vida Mía", de Leda Valladares

Sale el sol, sale la luna, la vida mía
con su vajilla de plata, la vida mía
una madejita de oro, la vida mía
del lindo sol se desata, la vida mía.

Yo soy paloma del cerro, la vida mía
que voy bajando a la aguada, la vida mía
con las alitas la enturbio, la vida mía
por no tomar agua clara, la vida mía.

Palomita, palomita, la vida mía
paloma del palomar, la vida mía
todas salen, todas entran, la vida mía
todas salen a volar, la vida mía.

Las estrellitas del cielo, la vida mía
forman corona imperial, la vida mía
y sola en medio del campo, la vida mía
vidala quiero cantar, la vida mía.

Homenagem Cidade de Tucumán, Argentina, 
a Leda Valladares







Leda Valladares: Canción de la mirada

Foto: diulgação


Somos si tenemos quien nos mire.

Soy la mirada
melancolía
sobre las calles
de la vida

Soy la mirada
en el vacío
cuando la vida
me da frío

Yo necesito
una mirada
a fuego lento,
enamorada

Cuando me mira
recuerdo mi alma
como un aliente
de amar agua

Soy la mirada
entrando lejos
como un afiebro
de misterio

El amor viene
de una mirada
como el olvido
de una nada

Yo necesito
una mirada
a fuego lento,
enamorada.


¿Qué he sacado con quererte?

Divulgação

¿Qué he sacado con la luna
que los dos miramos juntos?
¿Qué he sacado con los nombres
estampados en el muro?
Como cambia el calendario,
cambia todo en este mundo.
¡Ay, ay, ay! ¡Ay! ¡Ay!


¿Qué he sacado con el lirio
que plantamos en el patio?
No era uno el que plantaba;
eran dos enamorados.
Hortelano, tu plantío
con el tiempo no ha cambiado.
¡Ay, ay, ay! ¡Ay! ¡Ay!


¿Qué he sacado con la sombra
del aromo por testigo,
y los cuatro pies marcados
en la orilla del camino?
¿Qué he sacado con quererte,
clavelito florecido?
¡Ay, ay, ay! ¡Ay! ¡Ay!


Aquí está la misma luna,
y en el patio el blanco lirio,
los dos nombres en el muro,
y tu rastro en el camino.
Pero tú, palomo ingrato,
ya no arrullas en mi nido.
¡Ay, ay, ay! ¡Ay! ¡Ay!
(Violeta Parra)

Interpretações: Violeta Parra, Pedro Aznar








23 novembro 2013

25 de Novembro: Dia Internacional Contra a Violência à Mulher


"Agredir a la biodiversidad es violencia contra la mujer"


CONVOCATORIA AL 5º TRIBUNAL ETICO

La Asociación Nacional de Mujeres Rurales e Indígenas, ANAMURI, convoca al Quinto Tribunal Ético a realizarse el 28 de noviembre, de 09:30 hrs. a 14 hrs., en la CUT, Alameda 1346.

Este año el Tribunal Ético debatirá el impacto en la vida de las mujeres campesinas e indígenas y trabajadoras de la agroexportación, causados por las empresas multinacionales, en especial Monsanto, al imponer a la producción agrícola el uso de sus semillas transgénicas y el uso indiscriminado de los agrotóxicos. El daño a la biodiversidad también es daño a las personas y es la hora de decir NO a los responsables.

Elevamos organizadamente nuestras voces para defender la alimentación sana, la no contaminación a la tierra y el agua, por la defensa de la vida.

El modelo neoliberal y el crecimiento de las empresas multinacionales ha profundizado la desigualdad en Chile y la marginalización de campesinas y trabajadoras asalariadas. Actualmente se encuentra en el Senado la Ley de Obtentores Vegetales (UPOV 91) a la espera de ser aprobada con el apoyo de los senadores comprometidos con Monsanto. Nuestro compromiso es continuar movilizándonos para rechazar esta ley.

Con el lema “Las agresiones contra la biodiversidad también es violencia contra la mujer” realizamos el V Tribunal Ético, enmarcado en el Día de la No Violencia hacia las Mujeres que se conmemora internacionalmente el día 25 de noviembre.


21 novembro 2013

Manoel de Andrade - Bandeiras e máscaras

Fotos: divulgação

Esse é o tempo cruel que antecede o amanhecer.
Em seu rastro marcham os filhos das estrelas e os herdeiros da penumbra.
Na moldura das horas as intenções se partem.
Ali, os justos ensaiam seus passos.
Acolá, nos becos, os ânimos crepitam
e engatilham seus gestos.
Nas ruas as faces empunham bandeiras,
as máscaras escondem punhais.


Passo a passo, portando consignas e estandartes, a multidão caminha...
ocupam estradas, bloqueiam rodovias, paralisam cidades,
avançam no seio da tarde denunciando os charcos do poder e os leilões 
da mais-valia.
É o nosso “Dia de Lutas”, gritam os sindicalizados.
São cinquenta, são cem mil pedindo tarifas justas,
terras repartidas, quarenta horas semanais...
Faixas, cartazes, coros e gritos:
“Prisão para os corruptos”, “Punição para os crimes da ditadura”.
“O povo acordou, o povo decidiu, ou para a roubalheira, ou paramos o Brasil”.


Eis o espaço do povo,
eis as ruas virtuais,
é a nova democracia,
pelas redes sociais.
Salve moças e rapazes,
salve as faces descobertas,
salve as bandeiras e os sonhos,
erguidos com transparência.

De repente as fronteiras são rompidas,
sobre as cores da paisagem as máscaras armam seus braços,
quais abutres insaciáveis atacam os cristais e escarram na decência.
Atrás dos grandes escudos os uniformes avançam.
Voam coquetéis e pedras, explodem gazes, morteiros,
soam tiros e foguetes entre o fogo e as barricadas.
Salve os agentes da ordem, salve os bons pretorianos.
O verde-oliva e o negro já cruzam suas espadas,
barras, paus e cassetetes
e as razões abaladas.
Chegou a tropa de choque nos trajes da truculência.
Surge o gesto inconfessável,
surge a fraude na vergonha e o flagrante forjado.
Asco aos falcões do cinismo algemando a inocência.


Eis o palco dos tumultos,
eis as cinzas da batalha,
eis o saldo do espanto
e a multidão dispersada.
Restou o ato incompleto,
sem o hino dos professores,
e sem o eco das promessas
na voz dos governadores.
Massacraram a primavera
e a magia da cidade.
Assustaram os pardais,
retalharam a liberdade.
Eis a cultura que herdamos
a esfolar nossas almas.
Abatido por tantos golpes,
o amor é um silêncio
e as avenidas soluçam,
qual um salgueiro de lágrimas.


E agora, eis-me aqui, diante da poesia,
assistindo desabar as velhas torres do encanto...
Perplexo, que posso ainda?
sou apenas um olhar melancólico diante da esperança.
Indignado ante a mística do horror,
quero transformar em versos os protestos, o confronto, as cicatrizes.
A realidade é um idioma intraduzível,
e eu impotente, ante o mistério sinuoso das palavras.
As palavras, oh! as palavras em sua essência,
elas não se revelam a qualquer poeta...
habitam em seu próprio enigma,
são silentes como os hinos do entardecer...
Nesse impasse, entre as imagens e o lirismo,
ante a sensibilidade e a violência,
sei de um roseiral em flor no caminho dos meus passos,
alhures há um campo de espigas que cantam, balançando ao vento
e, nesta palmeira esbelta, a vida é reproclamada nos trinos de um ninho em festa.


Curitiba, outubro de 2013.

15 novembro 2013

Frederico Füllgraf - La lucha de los Pescadores Artesanales de Chile (en prensa alemana)

Von Frederico Füllgraf, Concepción 04.11.2013 /

Chiles Artesanales gegen die Privatisierung der Fische

Cosme Caracciolo aus San Antonio kämpft mit dem kleinen Boot gegen die großen Trawler

Ob die Fische dem Volke oder in Privathand gehören, fechten Fischer in Chile aus. Um zu überleben, kämpfen sie gegen die »sieben Großen«.

Eingekeilt zwischen Trawlern und Lachsfarmen bangen die kleingewerblichen Fischer Chiles, Artesanales genannt, um ihre Zukunft. Seit Dezember 2012 ist ein neues Fischerei-Gesetz, genannt »Ley Longu...
Foto: Frederico Füllgraf

09 novembro 2013

Frederico Füllgraf - Morte de Pablo Neruda: crônica sem fim

Ilustrações: diulgação

Pablo Neruda morreu de câncer, e não por envenenamento”. Foi o que afirmou em coletiva à imprensa, realizada na sexta-feira, 8 de novembro, o diretor do IML do Chile, Dr. Patrício Bustos,ao divulgar o laudo unificado de legistas espanhóis, chilenos e norte-americanos, que desde 5 de novembro último se reuniam a portas fechadas no Hotel Fundador, de Santiago,sobre a causa mortis do Prêmio Nobel de Literatura.

Bustos admitiu, porém, que “há substâncias que desaparecem com rapidez, isso é possível", ao comentar a tese do assassinato de Neruda por envenenamento, defendida insistentemente por Manuel Araya, ex-chofer do poeta, tese que em 2011 motivou o juiz Mario Carroza à abertura do processo de investigação e, em abril do ano em curso, à exumação dos despojos do poeta em Isla Negra, litoral central do Chile.

O diretor do IML – ele mesmo um ex-militante do MIR, preso e barbamente torturado pelos sicários da DINA – detalhou os exames realizados em amostras ósseas de Neruda, assinalando que várias regiões de seu corpo apresentavam lesões metastáticas, que permitiam confirmar, “através de diversas técnicas complementares entre si”, uma correspondência com a doença.


O Judiciário chileno não poupou recursos, contratando perícias de doze legistas, alguns internacionalmente respeitados, como o espanhol Francisco Etxeberría – autor do relatório que confirmou o assassínio do poeta Federico García Lorca, mas que abriu polêmica, afirmando que o presidente Salvador Allende se suicidou - e a toxicóloga norte-americana, Ruth Winecke, da Universidade da Carolina do Norte.


Trabalhando separadamente, as universidades do Chile, da Carolina do Norte e Múrcia confirmaram em suas análises a ocorrência de resíduos de produtos farmacéuticos para tratamento de enfermidades cancerosas, específicamente do câncer de próstata, empregados à época, mas que “não foram encontrados agentes químicos relevantes que poderiam ser relacionados ao desenlace da morte do poeta”. Ou dito de forma mais elíptica, conforme Bustos, “não se encontrou evidência forense alguma que permita estabelecer uma etimología médico-legal por causas não naturais na morte do senhor Pablo Neruda".


Incongruências



O mais forte motivo do magistrado Mario Carroza ao determinar a exumação dos depojos de Neruda, foi a necessidade de realizar análises toxicológicas, depois que testemunhas e documentos da época – a denúncia do chofer Manuel Araya de uma suposta injeção letal, mas também a notícia de El Mercurio, de 24/9/1973, informando que o poeta falecera por parada cardíaca após aplicação de uma injeção – desmentiram o primeiro laudo oficial da Clínica Santa Maria, segundo o qual Neruda fora vitimado por “caquexia degenerativa como efeito de câncer de próstata” pesando pouco mais de 40 Kg.

Carroza, que não é adepto de teorias da conspiração, aventou todas as possibilidades, começando pela mais inofensiva, como a aplicação de uma injeção com analgésico ou calmantes, pois Neruda sofria também de gota e estava emocionalmente impactado com os efeitos do golpe militar de 11 de setembro de 1973.

Contudo, o que não se entende são dois aspectos: primeiro, por que Carroza não determinou como primeira medida a realização de testes de DNA, para dissipar dúvidas agora semeadas pelo advogado Eduardo Contreras, do Partido Comunista, quanto à autenticidade dos despojos de Neruda. Com certa razão, Contreras alerta para as operações de ocultação e desaparecimento de cadáveres de vítimas da repressão do Terrorismo de Estado. Em segundo lugar, somente em julho, três meses após a exumação, realizada em abril de 2013, Carroza determinou o envio das amostras ósseas ao exterior.

"Não há exames que poderiam ter sido feitos e que não fizemos!”, afirmam os legistas em seu relatório, e o Dr. Bustos sai em sua defesa, esclarecendo, por exemplo, que, “caso tivesse sido empregada toxina botulínica, a morte teria ocorrido com maior rapidez” que a de Neruda, ocorrida ao cabo de 10 horas.

Por outro lado, Bustos admite o que a maioria dos observadores comentava desde a exumação de Neruda: caso o poeta de fato tenha sofrido um atentado químico, “há substâncias que desaparecem com rapidez - isso é possível".


Intrigante volta atrás


Por um lado esperado, porque em relatório ao juiz Carroza, de 8 de março de 2012, o tanatólogo Germán Tapia Coppa, do SML, afirmara taxativamente que Neruda fora vitimado pelo câncer, dispensando qualquer exumação, por outro, o laudo forense unificado de 8 de novembro de 2013 representa uma regressão à estaca zero das investigações.

Mistério insondável, parece reinar senão uma guerra, pelo menos uma disputa clandestina no seio da comunidade forense, marcada pela contra-informação.

No dia 23 de setembro passado, data do 40º aniversário da morte de Neruda, a respeitada rede Rádio Biobío mandou ao ar a seguinte notícia:Peritajes de restos de Neruda descartan que haya fallecido producto del cáncer que lo afectaba”. Sem detalhar e citar sua fonte, a matéria continuava: “En cambio, habría sido un paro cardio-respiratorio la causa de su fallecimiento”. O comunicado finalizava: “Durante el 40° aniversario de su fallecimiento, nuevas luces sobre la verdad de su muerte salen a la superficie (o grifo é meu). Según consignó Radio Bío Bío, los expertos a cargo de las pericias y exámenes de los restos del poeta descartaron que haya sido el cáncer el que gatilló su deceso...”. No mesmo dia, a notícia foi reverberada pela esforçada CNN Chile – e ficou por isso.


A rigor, sobre a morte de Neruda há três diagnósticos diferentes e excludentes, todos eles emitidos no dia 24 de setembro de 1973.


Já citado, o atestado de óbito assinado pelo Dr. Roberto Vargas Salazar, médico que acompanhava o câncer de Neruda, aponta uma "caquexia cancerosa" que deixara o poeta reduzido a "40 Kg de peso". Não é o que ilustram as fotos de Evandro Teixeira, clicadas no dia 24 de setembro na morgue da Clínica Santa Maria, que tive a oportunidade de resgatar na reportagem “Crônica de um assassinato presumido”, publicada na edição de nº 70 da revista Brasileiros. Apesar de clicadas de perfil, confirmaram as lembranças de Manuel Araya: Neruda pesava pelo menos 100 kilos, sempre insistiu o ex-chofer.


Curiosamente, no mesmo dia em que Vargas Salazar protocolava como causa mortis o diagnóstico da caquexia cancerosa, o jornal El Mercurio noticiava que Neruda falecera em virtude de um "paro cardíaco por inyección".



Em 5 de junho de 2013, a edição online do Clarin chileno publicou minha redescoberta, no de Janeiro, da matéria de 24 de setembro de 1973 do enviado especial do Jornal do Brasil a Santiago, Paulo César Araújo, acompanhado do fotógrafo Evandro Teixeira, que reproduzia o boletim médico de certo Dr. Sergio Drapper Juliet, segundo o qual Neruda fenecera “vítima de infecção urinária crônica e flebitis”. 

Até junho de 2013, esta versão da morte do poeta era completamente desconhecida no Chile, e alarmou o juiz Mario Carroza.

¿Es la Clínica Santa María un laberinto?”, questionava o semanário Cambio 21 em sua edição de 13/6/2013, lembrando que na mesma clínica, em janeiro de 1982, falecera o ex-presidente Eduardo Frei Montalva, adversário de Allende, depois inimigo de Pinochet. A Justiça acabou provando que Frei foi assassinado com doses homeopáticas de gás mostarda produzido em laboratórios clandestinos da DINA. Identificados e processados, os assassinos cumprem pena.

Reações

Antes mesmo da divulgação do laudo do SML, os advogados Rodolfo Reyes, sobrinho de Neruda, e Eduardo Contreras, do PC, já vinham acenando com a continuidade do processo, virtualmente descrentes de um resultado que confirmasse a tese do envenenamento.

Contreras sugere ao juiz Carroza enviar novas amostras dos despojos de Neruda para especialistas forenses prestigiosos como Bhushan Kapur, do Canadá, mas também para a Suíça, Suécia e Áustria, países considerados de confiança.

Em uma leitura diferente da do IML, o juiz Mario Carroza foi enfático ao advertir que “judicialmente ainda não se pode afirmar se o poeta foi assassinado ou não”. Concordando com os queixosos, garantiu que "se for necessário, serão realizadas novas perícias, sem prejuízo de prazo, porque o processo aberto sobre a morte de Pablo Neruda não se encerrará".

Sepultado pela primeira vez em 25 de setembro de 1973, no Cemitério Geral de Santiago, durante a que foi a primeira manifestação popular de repúdio à ditadura que acabara de se instalar no poder, 17 anos mais tarde, o corpo de Neruda foi transladado para o jardim de sua casa, em Isla Negra, onde repousava ao lado de sua terceira esposa, Matilde Urrutia. Exumado em 8 de abril de 2013, seus despojos foram distribuídos por três continentes.

Há quem se incomode com a nova alegoria que assoma no horizonte, mas pretende a escatologia que, se cumprida a determinação dos parentes e do juiz Carroza, de exigir novos exames forenses, agora o corpo de Neruda derrama-se pelo mundo, como já o fizera sua poesia.