03 julho 2012

Frederico Füllgraf - Sibylle Berg, a corrosiva colunista de Der Spiegel



Spiegel Online - http://www.spiegel.de/ - é provavelmente a versão digital de maior sucesso da imprensa escrita alemã, lida por jornalistas, brokers das bolsas e também por incansáveis combatentes ao odiado capitalismo, como Margot Honnecker, a quase nonagenária viúva e ex-Primeira Dama da RDA, outrora anfitriã de perseguidos pela ditadura Pinochet, hoje ironicamente exilada no Chile de Sebastián Piñera.

Site a toda hora do dia atualizado com acribia, e uma das plataformas da mais feroz oposição às desandanças da primeira-ministra, Angela Merkel, de segunda a domingo, em S.P.O.N, a Spiegel Online também disponibiliza as colunas de seis autores, das quais se destaca a de Jacob Augstein - filho adotivo e um dos herdeiros de Rudolf Augstein, fundador do Grupo Der Spiegel, e dono do semanário Der Freitag e da editora Rogner & Bernard, de Berlim.

Im Zweifel, links [“em caso de dúvida, pela esquerda”], a coluna de Augstein é talvez a única voz efetivamente assumida como de esquerda lato sensu, se teimarmos que no SPD - fundado por Karl Marx, transformado no partido das reformas de 1968 por Willy Brandt, mas cuja liderança atual votou a favor das leis neoliberais do governo Angela Merkel, de flexibilização do trabalho, de resto também empurradas goela abaixo da França pelo PS de François Hollande - sobreviva ainda qualquer nesga da revolta, como o fantasma anunciado por Karl Marx no Manifesto do Partido Comunista.

No mais, S.P.O.N. lê-se como muro das lamentações, com choradeira  de um punhado de autores de barriga cheia, pertencentes a uma turma  de carpideiras alemãs que eu chamaria de “me ajude, não sei o que sou!”, e que parecem reencarnar o "Homem sem Qualidades", de Robert Musil: têm vergonha de se sentirem alemães, mobilizam reações paranóicas aos criticos de Israel (caso recente do Nobel de Literatura Günter Grass), são inseguros à direita e à esquerda, mas patrulham colegas e intelectuais, país afora, sempre em busca de alguma “pista” ou estigma do que não se encaixe em sua camisa de força, pobre e imbecil, do “politicamente correto” (em caso de dúvida, islamofóbicos).

E eis que então irrompe em cena, às sextas-feiras, a coluna de Sibylle Berg -http://www.spiegel.de/thema/spon_berg/-, um pé-de-vento impregnado de frescor, vitalidade e ironia corrosiva, sobre tema livre, mas obrigatoriamente derivado do cotidiano do ser humano, seja às margens do lago suíço, onde reside Sibylle, ou da Zona Leste de São Paulo.

Em “Pergunte à Dona Sibylle”, a escritora e dramaturga alemã - nascida em 1962 em Weimar, na ex-RDA, emigrada para a Alemanha Ocidental em 1984, de onde mudou-se para a Suíça - destila seu sarcasmo, por vezes confundido com implacável cinismo. Cinismo, contudo, é atitude prima de uma bronca irreconciliável do indivíduo com o mundo, sentimento de impotência compensado pela arrogância, mas é tudo o que Berg não preconiza, como se depreende de sua coluna mais recente, que lhe ofereci traduzir neste ultimo final de semana.

Autora de intensa produção ficcional, toda inédita em Português - como Ein paar Leute suchen das Glück und lachen sich tot (Algumas pessoas buscam a felicidade e morrem de dar risada, 1997), Sex II (1998) Amerika (1999), Gold. (2000) Das Unerfreuliche zuerst. Herrengeschichten (Primeiro, as más notícias. Estorias de senhores, 2001), Ende gut (Final feliz, 2004), Habe ich dir eigentlich schon erzählt ... – Ein Märchen für alle (A propósito: já te falei? Um conto para todos, 2006), Die Fahrt (A viagem, 2007), Der Mann schläft (O homem dorme, 2009) e Vielen Dank für das Leben (Muito obrigado pela vida, 2012) – com algumas adaptações ao teatro e prêmios literários amealhados na Alemanha, Sibylle Berg encarna a geração etariamente nem tão jovem (ela tem mais de 40 anos) do que foram a vinte anos mais velha Doris Dörrie e seus livros e filmes dos anos 1980 a 1990, com um olhar desconfiado sobre a realidade alemã, e um feminismo perfumado, com uma mão de mulher, ora escondida, ora oferecida com ternura a esse gênero tão inacessível, chamado homem. Porque apesar das perdas, a dois vive-se melhor, é o que sibila seu romance, “ O homem dorme”.

O que reverbera na crônica que traduzi, “A partir de agora governa a Sra. Berg”, poderia ser resumido como “notícias do front” – o front capitalista (este sim, cínico!) da quebradeira dos bancos, da insolvência dos governos, dos cortes orçamentários, do desemprego e do desespero social. Um caleidoscópio que Berg tenta inverter, chacoalhando o visor até os estilhaços do cotidiano obsceno se adaptarem a um cenário depurado dos agentes predadores e despojado de crenças tidas como religiosas – “não precisamos de crescimento, precisamos de tranquilidade”.

Com vocês, Sibylle Berg.

S.P.O.N. – Pergunte à Dona Sibila A partir de agora, governa a Sra. Berg
Coluna de Sibylle Berg – DER SPIEGEL ONLINE
Trad. Frederico Füllgraf

Uma nova ordem tem que ser imposta ao mundo, imediatamente. Eis algumas medidas para driblar o egoísmo e a imbecilidade do Homo Sapiens. Por exemplo: fechar as bolsas, estatizar os bancos, perdoar as dívidas. Acha isso ingênuo? Então reflita sobre alguma coisa melhor.

Que os seres humanos são umas coisinhas egoístas, glutonas, que, quando tocadas por alguma iluminação, não dispõe sequer da virtude de mobilizar generosidade e compreensão para com seus semelhantes, isso é do conhecimento público. O que surpreenderá a maioria dos meus seguidores nesta página será saber que fui incumbida da missão de reordenar o mundo. Missão do mais alto nível. Os do andar de cima – Bilderberg, o Clube de Roma, as „loggias“, etc. – chegaram a uma encruzilhada e não sabem quê rumo tomar.

Com muita inquietação, contemplam a desagregação do mundo, tal qual o conhecíamos no Ocidente. Aquele mundinho com as quatro estações do ano, apartamentos aquecidos contra o frio e financiamento da casa própria, está virando alguma coisa que ninguém mais consegue controlar. O jogo se tornou confuso: há por um lado os bilionários obscenos, que sequer, como nos velhos tempos, geram empregos para continuar a explorar as pessoas. Por outro, há alterações climáticas, a extinção de espécies e as guerras religiosas.
A regressão dos indivíduos ao comportamento agressivo, devido à finitude dos recursos naturais, a superpopulação, o barulho, a contaminação dos rios, e à água, que vai se esvaindo... – ora, nem me fale, estou apenas fazendo a minha parte!

A nova regulamentação que me ocorre terá vigência a partir da próxima semana, até lá tenho alguns detalhes para ajustar. Graças ao meu juízo, amplo e abrangente, coloquei no papel algumas mudanças fundamentais sobre o gerenciamento do mundo. É como se diz, mas sabendo que hoje em dia não se usa mais papel algum.

Somos um punhado de pequenos idiotas egoístas

Todas as dívidas, pessoais ou públicas, serão zeradas, será impresso dinheiro novo; com lastro em ouro e prata, como nos velhos bons tempos. E o tal Euro também deixará de existir. As bolsas de valores serão fechadas imediatamente. As ações serão desvalorizadas. Todos os governos serão depostos. Com minha anuência, todos os países formarão novas administrações integradas exclusivamente por peritos: cientistas, artistas, médicos. As funções serão distribuídas entre mulheres, homens, incapacitados, homossexuais, minorias étnicas e religiosas – uma coisa justa.

Não haverá cota especial para mulheres, porque não mais haverá empresas com cotações nas bolsas. 

Cessará toda e qualquer pretensão estrangeira sobre as matérias-primas de um país. Todos os países gozarão de hegemonia sobre seus próprios recursos, e apenas a eles pertencerão suas empresas, terras e edificações. Bancos, empresas produtoras de alimentos, o sistema de transporte, a saúde e as escolas serão estatizadas. Executivos qualificados regozijar-se-ão de seus superempregos na administração pública e por terem escapado ao desemprego, devido ao fechamento das bolsas. Não haverá salário mínimo. O crescimento será proibido- não precisamos de crescimento, mas de tranquilidade.

É do livre arbítrio de cada um, escolher sua religião, por ser coisa do foro íntimo. A igualdade prevalecerá para todas as pessoas. Cada qual poderá casar-se com quem quiser, e filhos poderão ser gerados após o exame, por uma junta médica de amáveis neurologistas, do estado mental dos respectivos interessados na geração. Depois de autorizados, estes filhos poderão ser adotados ou admitidos para criação.

As leis de proteção do inquilinato serão duras, implacáveis, e agressões ao meio ambiente serão penalizadas com a expropriação da respectiva empresa. Todas as drogas serão legalizadas, como também toda sorte de auxílio à morte. Aborto, fumar ou não fumar, praticar, ou não, esportes – pois que cada um faça o que achar melhor.

Eu e as demais pessoas não passamos de míseros idiotas egoístas, mas seria triste abrir mão de nossa espécie, despedir-se do mundo. Este mundo que nos aninha em seus poucos crepúsculos cálidos, quando contemplamos, sentados sob o poente, como o sol teima em romper essas brumas à la Blade Runner, e ainda sentimos cheiro de grama. É provável que minha declaração de princípios suscite muitas objeções, e os Srs. tenham ideias muito melhores – mas digam lá, quais?

01 julho 2012

Frederico Füllgraf - Chegar não é preciso: "O Barco da Selva" de Richard A. Bermann



Duas semanas após zarpar de Liverpool, com destino a Manaus, o navio de carga escocês, "Hildebrand", que também leva 150 passageiros a bordo, penetra na foz do Amazonas, mas é desviado de sua rota para o porto de Belém do Pará. O jornalista e escritor, Richard A. Bermann, que investira pequena fortuna naquela viagem, cujo destino são as profundezas da Amazônia de além-Manaus, vive a maior decepção de sua vida: com o nome de “Comuna de Manaus”, um movimento tenentista sublevou-se, suspendendo a navegação sobre o rio-mar. O barco fica retido em Belém e então se inverte o tal dito popular do “ficar a ver navios” - desta vez é o navio e seus passageiros que ficam a ver o rio. “Fiquei louco da vida. Que, depois de viajar para tão longe, chegar até o umbral da fantástica selva sul-americana, não me restasse mais do que vegetar no ´Grand Hotel´ e, no máximo, dar um passeio pelo parque da cidade, isso me deixou desvairado”, confessou Bermann.

Com vinte dias de penosa espera pelo fim da rebelião, o capitão dá meia-volta e retorna à Europa, sem que seus passageiros, entre eles alguns nobres e ingleses, endinheirados, tivessem sentido uma nesga de sabor da Amazônia profunda.

O hilariante episódio é real, aconteceu em 1924.

Três anos depois, Bermann surpreende o público com o romance Das Urwaldschiff
(O barco da selva) - estrondoso sucesso no mercado livreiro de 1927 (300 mil exemplares vendidos nos dois primeiros meses da publicação) e, oitenta anos após seu lançamento na Alemanha, ainda inédito no Brasil. Mas por pouco tempo: tive o imenso prazer de recomendar sua tradução e finalmente receber o convite para traduzi-lo.

A dialética do viajar

O barco da selva narra a estória do professor ginasial, Dr. Bernhard Schwarz, morador dos Sudetos alemães (atual República Tcheca), que após ler “800 milhas sobre o Amazonas”, de Jules Verne, sente-se consumido por imensa “saudade” da Amazônia, e embarca num cruzeiro, rumo à terra da promissão da literatura. Mas então ocorre a revolta tenentista e a retenção do „Hildebrand“ em Belém, que mergulham Schwarz na mais profunda depressão, porque o impedem de realizar o sonho de sua vida.                                         

Debruçado sobre um mapa, no salão do navio, enlouquece com aquela profusão de “manchas brancas” – unexplored! – da cartografia, e é como espécie de consolo ou ironia, quando Hillary, um dos passageiros ingleses, metido a escritor-viajante, começa a narrar a uma pequena platéia de passageiros entediados com o navio paralisado em Belém, a insana odisséia do insensato fidalgo, Francisco Orellana, que em 1541 se juntara à expedição de Gonzalo Pizarro, em busca do mitológico El Dorado.

Febril de gana pelo ouro, a tropa dos espanhóis ensandecidos se despeja dos altiplanos andinos para os baixios da bacia amazônica. Já atacado por outra febre, a da maleita, e encalhado na selva, Pizarro manda construir um barco e ordena a Orellana avançar com pequeno destacamento, com o objetivo de vasculhar saídas do mortífero abraço da floresta. Porém, ao invés de retornar ao acampamento-base, de Pizarro, Orellana sucumbe aos cochichos de seu intérprete Inca, Miguelito, trai Pizarro e embrenha-se cada vez mais na jungla profunda. Na verdade, a traição não foi intencional, pois Orellana manda lavrar em ata solene sua nomeação para Adelantado, justificando a medida a Carlos V com a inviabilidade de sua volta, corredeiras acima, até o acampamento-base de Pizarro - tudo muito correto!



À semelhança do equatoriano, Leopoldo Benítez Vinueza, autor do fantástico Argonautas de la selva (1945), também Bermann conduz seus leitores através das errâncias de Orellana, guiado pelos relatos do Frei Gaspar de Carvajal (Relación del nuevo descubrimiento del famoso río grande… - Quito, 1942), companheiro de viagem de Orellana em sua primeira expedição amazônica, a quem o rio deve seu nome, pois foram guerreiras, “amazonas”, que o cura temente a Deus e letrado em mitos gregos, avistara na margem do rio, antes que uma das flechas delas cravara e vazara um de seus olhos.

Estória(s) dentro da estória, em sua ânsia narrativa, Hillary, que deseja escrever o livro definitivo sobre a Amazônia, intercala a aventura de Orellana com outras crônicas desatinadas, tais como o desgraçado extravio de Isabel Casa-Mayor, mais conhecida por Godin des Odonais, que, separada há mais de quinze anos do marido francês, que partira para Caiena, em 1769 resolve ir ao seu encontro, abandonando Quito e precipitando-se mata adentro com quatro familiares, dos quais apenas ela sobrevive, graças ao seu resgate por um casal indígena.

Contrariando a História real, no romance de Bermann, Orellana finalmente alcança seu destino – o El Dorado. Rastejando de fome e delirando de febre, então se pergunta: só isso? Era isso, apenas, o que eu procurava? Provavelmente, foi também o que se perguntou Isabel Godin, ao reencontrar o marido, Jean Godin des Odonais, ex-integrante da expedição geodésica de monsieur de La Condamine, que já dilapidara o patrimônio do sogro e da esposa, agora acomodado em Caiena; e talvez fosse mesmo essa a razão dele para sua fuga do Equador.

Mas voltando ao eixo da narrativa, o “Hildebrand”.
Na véspera do retorno a Liverpool, todos os passageiros já a bordo – melhor: quase todos – alguém encontra o chapéu de explorador e o binóculo do Dr. Schwarz, pendurados na parede de bombordo. Procuram, vasculham o navio da proa à popa, da casa de máquinas ao convés, durante um dia inteiro mandam mergulhadores realizar buscas nas águas turvas do Amazonas, e nenhuma pista do professor alemão – ele havia desaparecido, ou nas profundezas do rio-mar, ou na mata cerrada, onde jamais seria encontrado.

O barco da selva é uma ironia que se insurge contra o ato de viajar, melhor dizendo: contra a chegada. Quando a aventura de Orellana se completa com sua morte, o romance de Bermann revela a moral de sua estória: navigare necesse, chegar não é preciso!


O Autor

Richard Arnold Bermann, que também escreveu sob o pseudônimo, Arnold Höllriegel, nasceu em Viena, em 1883, e faleceu em Saratoga Springs (EUA), em 1939, durante seu exílio como refugiado do nazismo. Jornalista e contista, Bermann iniciara sua carreira durante a Primeira Guerra Mundial como correspondente em Viena do jornal "Berliner Tageblatt" e colaborador de diversos diários locais. Com a anexação da Áustria pelo regime nazista, Berman deixou o país, estabelecendo-se nos EUA, somando-se ao American Guild for German Cultural Freedomà colônia de artistas exilados, conhecida como Yaddo.

Fora da Alemanha, Bermann ganhou fama como autor de narrativas sobre Hollywood e os bastidores da indústria cinematográfica, e cronista de viagens. Porém, nenhum de seus textos escritos nos EUA, jamais atingiu a marca d´ O barco da selva. Em 1921, a editora S. Fischer Verlag reeditou o Barco..desta vez sob o pseudônimo Arnold Höllriegel; sobrenome hilário que traduzido ao português significa “tranca do inferno”. Curiosidade à parte: Bermann foi o primeiro tradutor alemão das obras de Eça de Queiroz. 

 Contra o tédio a bordo, baile à fantasia e a errância de Orellana...

28 junho 2012

Euro Neuro


Letra & música:
Rambo Amadeus (Montenegro)

Euro skeptic, 

analfabetik, try not to be hermetic.

Euro Neuro don’t be skeptik, 

hermetic, pathetic, analfabetic
forget old cosmetic 
you need new poetic, estetic 
eclectic, dialectic

Euro neuro don’t be dogmatic, beaurocratic, 
you need to become pragmatic, 
to stop change climatic, automatic 
need contribution from the institution 
to find solution for polution 
to save the children of the evolution

Euro neuro
Euro neuro
Euro neuro
Monetary brake dance 
Euro neuro
Euro neuro
Euro neuro
Give me chance to refinance

Blaue grotte ausflug do Zanjica 
heute habbe obotnica

Euro neuro I don’t like 
snobism, nationalism, puritanism
I am different organism, 
my heroism is 
pacifizam altruizam 
I enjoy biciklizam, liberalizam
turizam, nudism, optizam, 
it is good for reumatism

Euro neuro
Euro neuro
Euro neuro
Give me chance to refinance

Euro neuro I got no ambition
for high position
in the competition 
with air condition
different mission different school
I got only one rule
always stay cool
like a swimming pool.

Euro neuro
Euro neuro
Euro neuro
Monetary brake dance 
Euro neuro
Euro neuro
Euro neuro
Give me chance to refinance.






Fotos e vídeo: divulgação

15 junho 2012

Günter Grass - A desonra da Europa (Europas Schande)

Motivo para Antígone


Um Canto à Grécia
* Tradução: Frederico Füllgraf

À beira do caos, porque não conforme com o mercado,
Já não és  o país de berço do teu legado.

O que buscado com a alma, como achado te valia,
Agora pois é depreciado, com valor do entulho mal reputado.

Como devedor exposto nu ao pelourinho, padece um país
A quem dever tributos, era o discurso dos brancos colarinhos.

País à pobreza condenado, cuja riqueza
De modo cultivado os museus decora: o botim por ti vigiado.

Os que a terra por ilhas abençoada 
assaltaram pela violência boçal
Com suas suásticas traziam Hölderlin no bornal.

Mal aturado país, cujos coronéis outrora por ti
Como parceiros da aliança foram consentidos.

Terra sem lei, a quem o sabe-tudo, o Poder,
Aperta teu cinto, a torcer e torcer.

Apesar de ti, Antígone se veste de preto, e país afora
o povo, cujo hóspede foste tu, traja luto e chora.

Já fora do país, tudo o que reluz como o ouro
O séquito de Creso acoitou em baús do teu tesouro.

Bebe, afogate de uma vez! - berra a claque dos comissários,
Mas cheio até a borda, Sócrates devolve-te o cálice, 
encolerizado.


Amaldiçoar o que te é próprio os deuses irão
De cujo Olimpo tua vontade pede a desapropriação.

Fenecerás de espírito, da terra destituída
Por cuja alma tu, Europa, foste concebida.

Europas Schande
Ein Gedicht von Günter Grass
Dem Chaos nah, weil dem Markt nicht gerecht,
bist fern Du dem Land, das die Wiege Dir lieh.
Was mit der Seele gesucht, gefunden Dir galt,
wird abgetan nun, unter Schrottwert taxiert.
Als Schuldner nackt an den Pranger gestellt, leidet ein Land,
dem Dank zu schulden Dir Redensart war.
Zur Armut verurteiltes Land, dessen Reichtum
gepflegt Museen schmückt: von Dir gehütete Beute.
Die mit der Waffen Gewalt das inselgesegnete Land
heimgesucht, trugen zur Uniform Hölderlin im Tornister.
Kaum noch geduldetes Land, dessen Obristen von Dir
einst als Bündnispartner geduldet wurden.
Rechtloses Land, dem der Rechthaber Macht
den Gürtel enger und enger schnallt.
Dir trotzend trägt Antigone Schwarz und landesweit
kleidet Trauer das Volk, dessen Gast Du gewesen.
Außer Landes jedoch hat dem Krösus verwandtes Gefolge
alles, was gülden glänzt gehortet in Deinen Tresoren.
Sauf endlich, sauf! schreien der Kommissare Claqueure,
doch zornig gibt Sokrates Dir den Becher randvoll zurück.
Verfluchen im Chor, was eigen Dir ist, werden die Götter,
deren Olymp zu enteignen Dein Wille verlangt.
Geistlos verkümmern wirst Du ohne das Land,
dessen Geist Dich, Europa, erdachte.

14 junho 2012

Mariano Blejman - Privacidad, esa obsoleta fantasía digital


Los gigantes de la internet, sus seguros servidores, concentran datos planetarios —de todo tipo— dentro de Estados Unidos a una velocidad asombrosa. Y, mientras tanto, la National Security Agency construye un gran “backup” mundial.
Súbanlo todo que nosotros se lo guardamos, parecen decir las sugerentes marquesinas virtuales alrededor del planeta: Google, Facebook, Amazon, RedHat, Ubuntu, DropBox, GrooveShark (podría seguir) ofrecen servicios de almacenamiento en “la nube”, ese espacio que queda en algún lejano lugar llamado Internet.

Curiosa la climatología virtual que se las ha arreglado para llevar las nubes siempre para el mismo lado: la estructura de la información que están montando los gigantes de la red va a ser más grande que la de cualquier Estado y va a estar guardada (¿dónde si no?) en Estados Unidos o al menos controlados desde allí. ¡Aleluya! Estamos salvados: los datos están bien guardados en el país de la libertad.

Google, Facebook, Apple y Amazon, los grandes jugadores de la nube, están construyendo inmensos centros de datos en las zonas áridas y, lo que es todavía más simpático, la NSA (National Security Agency, agencia de espionaje desde Estados Unidos hacia afuera) también está guardándolo todo en el backup más ambicioso del planeta.

Umberto Eco decía que las sociedades han avanzado sobre la base de perder montañas de información de una generación a otra. Esta vez la internet podría permitir viajar al pasado con un nivel de precisión espantosa. Facebook tiene apenas ocho años y anda a los tumbos en la Bolsa de Nueva York, pero más allá de la cuestión coyuntural es una máquina de guardar datos, fotos, vídeos, mensajes y conexiones.

¿Hasta cuándo? ¿Dónde?
“El tema de infraestructura va a ser nuestro mayor desafío”, dijo Mark Zuckerberg —su creador— cuando anunció su salida a la Bolsa. Imagínese el lector una línea de tiempo (esa función que estrenó hace un tiempo en Facebook) que llegue cien años para atrás. El lector dirá que seguramente Facebook no va a existir dentro de cien años, pero el asunto es que los datos van a quedar bien guardados no importa la empresa que los muestre, incluso aunque usted piense que los ha borrado para siempre.

Los gigantes sociales guardan celosamente la información sobre los lugares, la cantidad de servidores que tienen, los tipos de hardware que compran y toda aquella información que pudiera afectar a su negocio y por lo tanto su credibilidad. Eso era así hasta que Facebook decidió abrir su información de infraestructura: ha elegido Prineville, una ciudad de Oregon, para instalar uno de sus nuevos inmensos centros de datos, algo así como el corazón de nuestra memoria.

¿Y por qué eligieron Prineville? Ese recóndito pueblo de Oregon es algo así como el Tíbet de América del Norte, seco, con sol pero fresco, alejado de la humanidad para salvarla.

Mientras Facebook —una empresa cerrada, que exige nombre de usuario y clave a sus usuarios para ingresar— está dispuesta a mostrar sus centros de datos; Google —que ha hecho culto de lo abierto— esconde información sobre cómo, cuándo y dónde guarda los datos de miles de millones de personas. La organización de los centros de datos en Google es secreto de Estado, incluso la compañía es conocida por mantener los servidores en cajas completamente negras para evitar ser vistas.

Por su parte, Microsoft ha realizado un camino intermedio: si bien no ha abierto todos sus datos ha publicado información relevante sobre la organización de los centros de datos.

Parece que Oregon se ha puesto de moda, también Apple construye un gran centro de datos en el desierto de Prineville “similar” al que se encuentra a unos pocos kilómetros, en el mundo de Facebook.

La increíble nube de Amazon —que además de funcionar para la empresa de libros ofrece un fantástico servicio de virtualización de servidores— es todavía más oculta que la de Google: nadie sabe exactamente el tamaño de sus servidores ni el diseño de su infraestructura. Ni siquiera dónde compra el hardware.

Pero si hay una “empresa” dispuesta a guardarlo todo, y también lo hace en Estados Unidos, ésa es la National Security Agency, que construye en Utah un centro de datos que pretende interceptar, descifrar, analizar y guardar vastos volúmenes de datos de todos los cables submarinos y satélites posibles locales, nacionales e internacionales. Según publicó la revista Wired, el centro de guardados estará “operativo” en septiembre de 2013 y promete ser el backup más intrusivo de la historia de internet.

¿Qué van a guardar?
Todo: llamadas telefónicas, correos privados, recibos de estacionamientos, itinerarios de estacionamientos, compras de libros, cualquier cosa que esté en internet. O sea, cualquier cosa.

Según describe la Wired, el centro de Utah es el sueño borgeano del Aleph hecho realidad: la historia universal vista desde todos los puntos de vista en un solo lugar. Cabe decir que la diferencia entre el panóptico de Michel Foucault —la idea de que el control se efectúa sobre la presunción de que alguien podía ser mirado— es un tanto diferente aquí: el control se efectúa sobre la certeza de que todo está siendo guardado.

Es la concreción de un viejo proyecto de George W. “Orwell” Bush, que en 2003 se detuvo por presión pública, y que no se contenta con guardar cualquier tipo de información sino con quebrar cualquier tipo de código. La NSA tiene la habilidad de romper sistemas de encriptación usados no sólo por el gobierno alrededor del mundo sino también en cualquier computadora personal.

Cualquier persona que pueda comunicarse es un objetivo: corre el riesgo de sertaggeada.
——
* Periodista.
Em www.pagina12.com.ar
.



Ilustração: 1984 - Truffaut / Orwell

09 junho 2012

Matilde Sábato - El Conjuro

Ilustração: divulgação

Miniconto
A las mujeres que estaban conmigo, el chileno, con su capa española y sus movimientos felinos, les pareció muy atrayente. Yo advertí enseguida que era un poderoso pájaro con alas plegadas. Todo se transformó para mí.

Me encontré en una gran plaza. No, me equivoco, eran anchísimas veredas con sus calles dispuestas en forma de círculos. La ausencia de árboles quizá contribuía a esa sensación de inmensidad. El cielo, además, se había ensombrecido y yo sentía mi corazón pesado ante la soledad y el silencio. Miré para todos lados buscando a alguien, alguien que me quitase esa sensación de muerte y desolación, cuando sentí volar sobre mí un enorme pájaro. Era de un color intensamente negro pero de cabeza y pico grisáceo. Estaba tan cerca de mí que sentí el batir de sus alas y me pareció que emitía una especie de silbido que me sobrecogió. Venciendo mi miedo, lo espanté, agitando mis brazos y el pájaro se alejó.

Temblando, continué mi camino como si siguiese huellas marcadas en el pavimento, hasta que vi, en una curva de la gran vereda, a otro enorme pájaro, de mi misma altura, de plumaje rojo y pico negro. Me sentí irremediablemente atraída hacia él y sin embargo, también quería espantarlo, lo que me pareció fácil, dado mi éxito anterior y al estar ahora poseída de una febril ansiedad. Me acerqué. El pájaro volvió la cabeza y me miró a los ojos. Su mirada me era conocida, y sentí que quería agarrarme. El terror me paralizó. Un grito angustioso surgió de mi garganta. Cuando reaccioné, el pájaro ya no estaba.

Entonces, otra vez me encontré entre las mujeres que reían y bromeaban. El chileno de la capa me tomó de los brazos como sosteniéndome y me susurró al oído: - Ya sabía que eras de los nuestros.

Matilde Kusminsky Richter, "El conjuro "
** Matilde Sábato foi esposa do escritor argentino, Ernesto Sábato.

06 junho 2012

Bertolt Brecht / Frederico Füllgraf - Balada dos Aventureiros




Ballade von den Abenteurern
Text und Musik: Bertolt Brecht

Von Sonne krank und ganz von Regen zerfressen
Geraubten Lorbeer im zerrauften Haar
Hat er seine ganze Jugend, nur nicht ihre Träume vergessen
Lange das Dach, nie den Himmel, der drüber war.

O ihr, die ihr aus Himmel und Hölle vertrieben
Ihr Mörder, denen viel Leides geschah
Warum seid ihr nicht im Schoß eurer Mütter geblieben
Wo es stille war und man schlief und man war da?

Er aber sucht noch in absinthenen Meeren
Wenn er schon seine Mutter vergißt
Grinsend und fluchend und zuweilen nicht ohne Zähren
Immer das Land, wo es besser zu leben ist.

Schlendernd durch Höllen und gepeitscht durch Paradiese
Still und grinsend, vergehenden Gesichts
Träumt er gelegentlich von einer kleinen Wiese
Mit blauem Himmel drüber und sonst nichts.

Español
Balada de los aventureros

Enfermo de sol, todo comido por las lluvias
en el pelo revuelto laureles robados
olvidó su juventud, pero no sus sueños,
hace rato olvidó el techo, nunca el cielo sobre él desplegado.

Oh, vosotros que fuístes expulsados del cielo y del infierno
Uds. los asesinos que fueron tocados por mucho sufrimiento
Por que no se quedaron en el vientre de sus madres
En donde habitaba la quietud y se dormía y uno estaba presente?

Ya olvidandose de su propia madre
Él sigue buscando océanos de anjenjo,
sonriendo y puteando y no sin privaciones
ese país de siempre, en el que se vive mejor.

Arrastrandose por infiernos, azotado por paraísos,
Quieto, sonriente y expresión ausente,
de vez en cuando sueña con un jardincito
cubierto de cielo azul y nada más.

Português
Balada dos aventureiros

Doente de sol, todo comido pelas chuvas
No cabelo revolto, louros roubados
Esqueceu sua juventude, mas não os seus sonhos,
Faz tempo esqueceu o teto, nunca porém o céu acima dele estendido.

Oh, vós que fostes expulsos do céu e do inferno
Vocês, os assassinos atingidos por muito sofrimento
Por que não se mantiveram no ventre de suas mães
Onde habitava a quietude e se dormia e se estava presente?

Já se esquecendo da própria mãe
Ele busca ainda em oceanos de absinto,
Sorrindo e blasfemando e não sem privações
Este país de sempre, no qual se vive melhor.

Arrastando-se por infernos, açoitado por paraísos,
Quieto, sorrindo e expressão ausente,
Por vezes sonha com um jardinzinho
Coberto de céu azul e nada mais.

Copyright versões Español e Português: Frederico Füllgraf
Fotos: divulgação