12 maio 2012

Jürgen Habermas - Mais democracia, menos mercado.

Fotos: divulgação




Hoje, a Europa tem que acertar as contas não tanto com povos ilusoriamente homogêneos, mas sim com Estados-Nação concretos, com uma pluralidade de línguas e de esferas públicas. A análise é do filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas, em artigo publicado no jornal La Repubblica (12-03-2012 - tradução: Moisés Sbardelotto).
No processo de integração europeia, dois planos devem ser diferenciados. A integração dos Estados enfrenta o problema de como repartir competências entre a União Europeia, de um lado, e os outros Estados membros, de outro. Essa integração, portanto, diz respeito à ampliação de poderes das instituições europeias. 

Ao contrário, a integração dos cidadãos diz respeito à qualidade democrática desse crescente poder, ou seja, a medida em que os cidadãos podem participar na decisão dos problemas da Europa. Pela primeira vez desde a instituição do Parlamento europeu, o chamado pacto fiscal que está sendo aprovado nestas semanas (para uma parte da União) serve para fazer crescer a integração estatal sem um correspondente crescimento da integração cívica dos cidadãos. (...) 

A tese que eu gostaria de defender aqui está logo dita. Só uma discussão democrática que aborde em 360 graus o futuro comum da nossa cidadania europeia poderia produzir decisões politicamente críveis, isto é, capazes de se impor aos mercados financeiros e aos especuladores que visam à bancarrota dos Estados. (...) 

Até agora, embora tentando harmonizar astutamente (pelo menos na zona do euro) as suas políticas fiscais e econômicas, os Estados membros não foram além das proclamações retóricas. A integração dos Estados se tornará crível apenas quando puder se apoiar em uma integração dos cidadãos em que se manifestem maiorias declaradamente pró-europeias. Caso contrário, a política não recuperará mais a sua autonomia contra as agências de notação, aos grandes bancos e aos hedgefounds. (...) 

Do meu ponto de vista, sobre o plano da política europeia, o governo alemão está fazendo poucas coisas certas e muitas coisas erradas. O slogan "Mais Europa" é a resposta certa para uma crise devida a um defeito de construção da comunidade monetária. A política não consegue mais compensar os desequilíbrios econômicos que dela nasceram. No longo prazo, a reorganização dos desenvolvimentos econômico-nacionais divergentes só é realizável em termos de colaboração, no âmbito de uma responsabilidade democraticamente organizada e compartilhada, capaz de legitimar também certo grau de redistribuição que ultrapasse as fronteiras nacionais.


Desse ponto de vista, o  pacto fiscal  certamente é um passo na direção certa. Desde a sua definição oficial – tratado "para a estabilidade, a harmonização, e a governabilidade" – vê-se como esse pacto é constituído de dois elementos diferentes. Ele obriga os governos, de um lado, a respeitar as disciplinas de orçamento nacional; de outro, à institucionalização de uma governabilidade de política econômica, que tenha por objetivo eliminar a descompensação econômica (pelo menos na zona do euro).

Mas como é possível que Angela Merkel festeje só a primeira parte do pacto, a que visa a penalizar as infrações de orçamento, enquanto não gasta uma palavra sobre a segunda parte, que visa a uma conservação política da governabilidade econômica? (...) 

O governo alemão, embora reconhecendo em palavras a necessidade de uma maior integração, de fato, contribui para deixar a crise apodrecer. A esse respeito, limito-me a quatro breves considerações. Em primeiro lugar, não é preciso muito, em termos de política econômica, para entender que uma política unilateral restritiva, como a defendida na União Europeia pelo governo alemão, leva à deflação os países que mais sofrem. Onde as políticas restritivas não se integram a políticas de desenvolvimento, a paz social das nações postas sob tutela acabará sendo perturbada não apenas pelas manifestações pacíficas e ordenadas dos sindicatos.

Em segundo lugar, a política restritiva responde à ideia errada segundo a qual tudo se resolverá quando os Estados membros saibam aceitar esse novo pacto de estabilidade e crescimento. Daí a fixação de Angela Merkel em querer impor sanções: uma postura ameaçadora absolutamente supérflua no momento em que se conseguia inserir na legislação ordinária da União Europeia uma governabilidade econômica compartilhada. Em vez disso, continua assolando a ideia de que bastaria instituir uma "justa" constituição econômica – portanto, "regras" supratemporais – para poupar os esforços de uma concertação político-econômica, além dos custos derivados de uma legitimação democrática dos programas de redistribuição.

Em terceiro lugar, Merkel e Sarkozy atuam substancialmente no plano de uma política intergovernamental, com o objetivo de levar adiante, sem muito barulho, a integração dos Estados e não a dos cidadãos. Os chefes de governo dos 17 países representados no Conselho dos Ministros deveria ter em mãos o bastão de comando. Mas, uma vez dotados das competências de governança econômica, eles esvaziaram a soberania econômica dos parlamentos nacionais. A consequência seria um reforço pós-democrático dos executivos de consequências imprevisíveis. Então, o inevitável protesto dos parlamentos depostos teria ao menos a vantagem de trazer à tona aquele déficit de legitimação que só uma reforma democrática dos órgãos de governo comunitários poderá preencher. 

Em quarto lugar, as palavras de ordem do governo alemão em termos de orçamento despertam no exterior a suspeita de que a Alemanha federal persegue objetivos nacionalistas. "Nenhuma solidariedade, se antes não se garante a estabilidade". A proposta lançada por Berlim de mandar um comissário plenipotenciário para Atenas – onde já há, com funções de controle similares, três comissários que recém chegaram da Alemanha – demonstra uma incrível insensibilidade para com um país em que ainda não se apagou a recordação das atrocidades cometidas pelas SS e pela Wehrmacht. Helmut Schmidt, em um discurso apaixonado, deplorou que o governo atual esteja dilapidando o precioso capital de confiança que a Alemanha havia conquistado junto aos vizinhos ao longo dos últimos 50 anos.

A impressão geral – que se tira dessa arrogância tola, de um lado, e da resposta muito tímida à chantagem dos mercados financeiros, de outro – é que a política europeia ainda não atingiu o nível de uma verdadeira "política interna". (...) 

Essas prudências não são nem justificáveis pelo velho argumento segundo o qual a integração está fadada ao fracasso por falta de um povo europeu e de uma esfera pública europeia. Nas ideias de "nação" e de "povo", tratava-se de sujeitos homogêneos fantásticos: ideais que só ao longo do século XIX, canalizados pelas escolas públicas e pelos meios de comunicação, haviam se apoderado do imaginário popular. Mas as catástrofes do século XX não deixaram indenes as ideologias historiográficas dos vários nacionalismos. 

Hoje, a Europa tem que acertar as contas não tanto com povos ilusoriamente homogêneos, mas sim com Estados-nação concretos, com uma pluralidade de línguas e de esferas públicas.

Embora se associando cada vez mais estritamente no plano europeu, os Estados nacionais conservam funções específicas. Eles não devem se dissolver em um Estado federal da Europa, mas sim conservar um papel de garantia para os níveis de democracia e de liberdade felizmente já alcançados. Cada um de nós une dois papéis: o de cidadão do próprio país e o de cidadão da União. E, na medida em que os cidadãos da União entenderem como as decisões europeias modificam a sua vida profundamente, mais eles se sentirão envolvidos em uma política europeia que também pode pedir que se partilhem sacrifícios. (...) 

Diz-se que a República de Weimar faliu porque seus defensores democráticos eram muito poucos. A União Europeia falhará por causa de seus muitos defensores muito tépidos?

24 abril 2012

Assassinado mais um jornalista no Brasil



Imagen activaBrasília, 24 abr (Prensa Latina) O jornalista brasileiro Decio Sá foi assassinado cerca da meia-noite de hoje em San Luis, capital do estado de Maranhao, em crime considerado uma execução pela forma com que foi praticado.

  Segundo testemunhas do acontecimento, um homem desceu de uma motocicleta e cruzou a rua que o separava do bar Estrela de Mar, na Avenida Litoranea, em San Luis, e disparou seis vezes contra Sá pelas costas, quatro delas na cabeça, com uma pistola 0.40, de uso exclusivo da polícia brasileira.

O assassino não se preocupou por ocultar o rosto e era esperado por outra pessoa na motocicleta.

O secretário de Segurança Pública, Aluisio Mendes, disse que foi um crime muito ousado, encomendado. Em nota de imprensa, o governo estadual lamentou o assassinato do jornalista Sá, que trabalhava na redação política do jornal O Estado do Maranhao e era autor de um dos blogs com mais acesso nesse território.

De acordo com as autoridades estaduales, já começaram as indagações para proceder à detenção dos autores.

Sá é o sexto jornalista brasileiro que é executado em igual quantidade de meses.

lac/ale/bj

11 abril 2012

El contraataque de Grass: Israel reacciona como una dictadura




El escritor alemán y premio Nobel de Literatura (1999), Günter Grass, fustigó la decisión de Israel de declararlo persona non grata por su poema Lo que hay que decir, donde afirma que el Estado Sionista y su arsenal amenaza la paz mundial.

"Se me prohíbe por tercera vez el territorio de un país", señaló Grass al recordar que ya le ocurrió en la Alemania comunista del Este y Birmania en 1986.

Explicó que en ambos casos "fueron aplicadas las prácticas habituales en las dictaduras. Y ahora es el ministro de Interior (Elie Yishai) de una democracia, del Estado de Israel, el que me castiga con una prohibición de territorio".

Grass agregó que "la manera como se justifica Israel me recuerda el veredicto de Mielke", exjefe de la Stasi, policía política de Alemania del Este.

El pasado domingo, el ministro Elie Yishai declaró en un comunicado a Günter Grass "persona non grata en Israel".

Según el titular de la cartera de Interior, el poema de Günter "es una tentativa de atizar las llamas del odio contra el Estado de Israel y contra el pueblo israelí".

El poema del Nobel de Literatura fue publicado la semana pasada y en el escrito, Grass pide a la comunidad internacional que no le permita a Israel lanzar ataques militares contra Irán.

Aseguró que "si Israel ataca instalaciones atómicas de Irán, supuestamente con las llamadas bombas normales, convencionales, podría desencadenar la Tercera Guerra Mundial”.

En el poema, que fue censurado en su país, Grass también condenó la venta de armas por parte de Alemania a Israel.

"Podríamos ser cómplices de un crimen que es previsible”, afirmó y agregó que "el pasado nazi de Alemania y el Holocausto no son excusa para guardar silencio sobre la capacidad nuclear de Israel".

Grass, quien ganó el Premio Nobel de Literatura en 1999 por novelas como El tambor de hojalata, en la que hace una crónica de los horrores en la Alemania del siglo XX, aclaró que el texto debe tomarse como una crítica al Gobierno israelí, no al país en su conjunto. Incluso aseguró sentir “gran simpatía” por Israel.

El Gobierno israelí ha amenazado con atacar Irán con o sin permiso de Estados Unidos porque supuestamente la República Islámica representa una "amenaza" nuclear. Sin embargo, Teherán ha sostenido que su programa sólo tiene propósitos pacíficos y civiles de generación de energía y medicinal.

Pese a las críticas contra Irán, tanto Israel como Estados Unidos han estado involucrados con el uso y desarrollo de armas nucleares.

Israel posee un número no declarado de ojivas nucleares y, a diferencia de Teherán, no ha firmado el Tratado de No Proliferación Nuclear.

Por su parte, Estados Unidos ha desarrollado armas nucleares y ha hecho uso de estás contra las ciudades japonesas de Hiroshima y Nagasaki en agosto de 1945, a finales de la Segunda Guerra Mundial, así como se ha negado a firmar algún protocolo de desarme.

teleSUR-AFP/kg - FC

08 abril 2012

What The Guardian said long before Grass said it - "Israel's nuclear weapons: Time to come clean"

Reportagem The Sunday Times, 05/10/1986


Israel must abandon its obfuscations on nuclear weapons to move towards a true nuclear settlement in the Middle East

Editorial
The Guardian, Tuesday 25 May 2010

Israel has long based its security policy on the preservation of its monopoly of nuclear weapons in the Middle East. It seems to regard this monopoly as an entitlement so self-evident as to need no examination, whether at home or abroad, and has invented a doctrine of ambiguity, under which it neither denies nor confirms its nuclear status, as a means of preventing, or at least staying aloof from, any discussion. Among the many matters which Israel has concealed, documents suggest, was a readiness to consider the transfer of nuclear weapons to apartheid South Africa, something at variance with Israel's insistence that it has always been a responsible state.

But the great value of the research into the dealings between Israel and South Africa which the Guardian has published this week is not simply that it puts on the record that Israel does indeed have nuclear weapons, nor that it might in the past have thought about handing such weapons to another state, but that it allows us to get beyond the "do they or don't they?" questions to look at the fundamentals of both Israeli and American policy. In the negotiations this month on the nuclear non-proliferation treaty, the United States has shown some flexibility in the face of demands from states who want progress toward a nuclear-free zone in the Middle East, progress which would at some stage have to include a clear Israeli acknowledgment of its nuclear weapons holdings and some degree of readiness to discuss safeguards, such as signing the non-proliferation treaty, as well as a clarification of Iran's nuclear ambitions.
Israel, on the other hand, has been angered by these pressures, with prime minister Binyamin Netanyahu cancelling a visit to Washington earlier this month to avoid having to deal with them. Whether the other Middle Eastern states actually believe a nuclear-free region is attainable is unclear, but what most do believe is that highlighting and questioning Israel's nuclear monopoly is worth doing in itself, and that it might also alter for the better the context in which negotiations with Iran take place.

Both America and Israel believe that Israel should retain its nuclear weapons while Iran should not be allowed to acquire them. With the Brazilian and Turkish scheme for the transfer of nuclear material spurned and tougher UN sanctions against Iran on the way, this is an unexamined contradiction which undermines much Middle Eastern diplomacy and cannot be for ever skirted. It is impossible to imagine even the first steps towards a true nuclear settlement in the Middle East without Israel abandoning its obfuscations on nuclear weapons and admitting, as other nuclear powers do, that security is a collective as well as an individual matter.

Gideon Levy - Israelis can be angry with Günter Grass, but they must listen to him



After we denounce the exaggeration, after we shake off the unjustified part of the charge, we must listen to the condemnation of these great people.
The harsh, and in some parts infuriating, poem by Gunter Grass of course immediately sparked a wave of vilifications against it and mainly against its author. Grass indeed went a few steps too far (and too mendaciously ) - Israel will not destroy the Iranian people - and for that he will be punished, in his own country and in Israel. But in precisely the same way the poem's nine stanzas lost a sense of proportion in terms of their judgment of Israel, so too the angry responses to it suffer from exaggeration. Tom Segev wrote in Haaretz: "Unless Prime Minister Benjamin Netanyahu or Iranian President Mahmoud Ahmadinejad recently confided in him, his opinion is vacuous." ("More pathetic than anti-Semitic," April 5 ). Prime Minister Benjamin Netanyahu mentioned Grass' Nazi past, and Israeli embassies in Germany went so far as to state, ridiculously, that the poem signified "anti-Semitism in the best European tradition of blood libels before Passover."
It is doubtful that Grass intended his poem to be published on the eve of Passover. It contains no blood libel. In fact, it is the branding of it as anti-Semitic that is a matter of tradition - all criticism of Israel is immediately thus labeled. Grass' Nazi past, his joining the Waffen SS as a youth, does not warrant shutting him up some 70 years later, and his opinion is far from vacuous. According to Segev, anyone who is not a nuclear scientist, an Israeli prime minister or an Iranian president must keep silent on the stormiest issue in Israel and the world today. That is a flawed approach.
 Grass' "What Must Be Said" does contain things that must be said. It can and should be said that Israel's policy is endangering world peace. His position against Israeli nuclear power is also legitimate. He can also oppose supplying submarines to Israel without his past immediately being pulled out as a counterclaim. But Grass exaggerated, unnecessarily and in a way that damaged his own position. Perhaps it is his advanced age and his ambition to attract a last round of attention, and perhaps the words came forth all at once like a cascade, after decades during which it was almost impossible to criticize Israel in Germany.
That's the way it is when all criticism of Israel is considered illegitimate and improper and is stopped up inside for years. In the end it erupts in an extreme form. Grass' poem was published only a few weeks after another prominent German, the chairman of the Social Democratic Party, Sigmar Gabriel, wrote that there is an apartheid regime in Hebron. He also aroused angry responses. Therefore it is better to listen to the statements and, especially, finally, to lift the prohibition against criticizing Israel in Germany.
Israel has many friends in Germany, more than in most European countries. Some of them support us blindly, some have justified guilt feelings and some are true, critical friends of Israel. There are, of course, anti-Semites in Germany and the demand that Germany never forget is also justified. But a situation in which any German who dares criticize Israel is instantly accused of anti-Semitism is intolerable.
Some years ago, after a critical article of mine was published in the German daily Die Welt, one of its editors told me: "No journalist of ours could write an article like that." I was never again invited to write for that paper. For years, any journalist who joined the huge German media outlet Axel Springer had to sign a pledge never to write anything that casts aspersions on Israel's right to exist. That is an unhealthy situation that ended with an eruption of exaggerated criticism like Grass'.
Grass is not alone. No less of a major figure, the great author Jose de Sousa Saramago opened the floodgates in his later years when, after a visit to the occupied territories, he compared what was going on there to Auschwitz. Like Grass, Saramago went too far, but his remarks about the Israelis should have been heeded: "Living under the shadow of the Holocaust and expecting forgiveness for everything they will do in the name of their suffering seems coarse. They have learned nothing from the suffering of their parents and their grandparents."
After we denounce the exaggeration, after we shake off the unjustified part of the charge, we must listen to these great people. They are not anti-Semites, they are expressing the opinion of many people. Instead of accusing them we should consider what we did that led them to express it..
*  Gideon Levy é membro do Conselho Editorial e colunista do jornal Haaretz, de Israel.

José María Ridao - Poema de un alemán


A polêmica desencadeada por Günter Grass

Günter Grass no ha escrito un poema, sino que ha disfrazado de poema un artículo sobre el programa nuclear iraní. Como poema, Lo que hay que decir no aporta gran cosa a la obra del premio Nobel. Como artículo disfrazado de poema, marca un punto de inflexión en su mirada hacia la realidad internacional. Hasta ahora, el país que perpetró contra los judíos uno de los crímenes más monstruosos de la historia ha evitado cualquier protagonismo en el conflicto de Oriente Próximo, limitándose a respaldar a Israel como forma de expiar el pasado. La posibilidad de que Israel lance un ataque contra Irán y el hecho de que Alemania le haya entregado un submarino capaz de hacerlo llevan a que Grass se interrogue, rodeándose de cautelas, si esa forma de expiar el pasado no podría engendrar nuevas culpas.

La primera cautela de la que se rodea Grass es la elección del género literario para exponer sus argumentos, en los que toma distancia de Israel como alemán que llegó a militar en las SS ya próximo el final de la guerra, según relató en Pelando la cebolla. Al desarrollar sus argumentos como poema y no como artículo, Grass intenta situarlos en el terreno acotado de la creación, invitando implícitamente a compartir una emoción antes que a polemizar con unas opiniones. El premio Nobel se declara, además, “envejecido” y confiesa escribir el poema con “su última tinta”, un recordatorio apenas velado de que se encuentra en el último tramo de su vida. Lo que hay que decir lo dice mediante un género literario y desde una circunstancia personal que anticipa una posible censura, y ahí la segunda cautela. “Antisemitismo”, escribe Grass, “se llama la condena”.

Aunque rodeado de cautelas, lo que Grass está poniendo en cuestión en su poema son los fundamentos de la política alemana y, por extensión, occidental, hacia Oriente Próximo. Alemania, viene a decir Grass, ha entendido que asumir la culpa por el Holocausto le exigía guardar silencio ante cualquier política de Israel. Pero asumir esa culpa y la inquebrantable disposición a seguir asumiéndola estaría favoreciendo que Israel —“ese otro país” que, escribe Grass, se ha prohibido a sí mismo nombrar— mantenga un arsenal nuclear sobre el que no se habla y amenace con un ataque al “pueblo iraní, subyugado y conducido al júbilo organizado por un fanfarrón”. La descripción de Irán recuerda en algún punto la de la Alemania nazi, en la que los alemanes, como podría suceder a los iraníes de perpetrarse el ataque, “solo acabamos”, escribe Grass, “como notas a pie de página”.

La última cautela de la que se rodea Grass es la de que “hay que decir lo que mañana podría ser demasiado tarde”, colocando sus argumentos bajo el signo de la perentoriedad. Pero no solo porque, según se desprende del poema, se podría sacrificar a los iraníes en razón de una “sospecha”, la de que, en su país, se persigue “la fabricación de una bomba atómica”; también “hay que decirlo” porque, de mantenerse Alemania en silencio, y de colaborar con la entrega de un submarino, los alemanes, ya “suficientemente incriminados”, según Grass, “podríamos ser cómplices de un crimen que es previsible”, incurriendo en una nueva culpa vinculada a la antigua, y que “no podría extinguirse con ninguna de las excusas habituales”.

Después de invitar a compartir una emoción y no a polemizar con unas opiniones, Grass apunta una salida. Solo sometiendo a inspección simultánea el arsenal nuclear israelí y el programa que desarrolla Irán cabría esperar que se conjurasen los negros presagios. Para decir esto, un alemán como Grass no podía escribir un artículo, sino que tenía que disfrazarlo de poema. No aportará gran cosa a la obra literaria del premio Nobel, pero supone un punto de inflexión en su mirada hacia la realidad internacional. Hablando desde el estigma, Grass confía en abrir un espacio para que otros lo hagan en libertad.

* José María Ridao é diplomata espanhol e colunista de El País, Madrid.

07 abril 2012

Günter Grass - O que tem que ser dito

Prêmio Nobel de Literatura, Günter Grass
Foto: divulgação



O que tem que ser dito
Günter Grass

Por que guardo silêncio, faz tempo demais me calo,
sobre o que é manifesto e se ensaiava
com simulacros de guerra à qual sobreviveremos,
quando muito, como reles notas de rodapé.

Falo do suposto direito ao ataque preventivo:
este que poderia exterminar o povo iraniano,
subjugado e conduzido à exultação conchavada
por um fanfarrão
porque em sua jurisdição se suspeita
da fabricação de uma bomba atômica.

Mas por que, diabos, furto-me em citar o nome
daquele outro país no qual
 — apesar de mantido em segredo—
há muito cresce um potencial nuclear,
mas fora de controle, já que
é inacessível a toda inspeção?
A supressão generalizada desse fato
ao qual se submeteu meu próprio silêncio,
eu a sinto como mentira opressiva
e coação que ameaça castigar
quem não a respeite;
cá entre nós, o veredicto do “antissemitismo” é assaz popular.

Agora, porém, porque meu país,
a cada tanto chamado para dar satisfações
de crimes imputados
e que não tinham precedentes,
volta e meia renovadas com leviano sotaque comercial, ainda que
qualificadas de reparação,
entregará a Israel outro submarino cuja especialidade
é direcionar ogivas aniquiladoras
a alvo onde não se provou
a existência de uma bomba sequer,
e ainda que se pretenda aportar como prova o reles temor...
Digo o que tem que ser dito.

Por que, contudo, me calei até agora?
Porque acreditava que minha origem,
marcada por um estigma inapagável,
me proibia atribuir este fato, como evidente,
ao país Israel, ao qual me sinto unido
e desejo continuar estando.

Por que só o digo agora,
envelhecido e com derradeiras tintas:
- Israel, potência nuclear, põe em perigo
uma paz mundial já quebradiça?
Digo porque tem que ser dito 
o que dito amanhã poderia ser tarde demais,
e porque —suficientemente incriminados como alemães—
poderíamos ser cúmplices de um crime
que é imprevisível, e vai daí que nossa parcela de culpa
não se poderia apagar
com nenhuma das escusas recorrentes.

E cá entre nós: rompo meu silêncio
porque estou farto
da hipocrisia do Ocidente; cabe esperar ademais
que muitos outros se libertem do silêncio, exijam
ao causador desse perigo que salta à vista
que renuncie ao uso da força e insistam também
em que os governos de ambos países permitam
o controle permanente e sem travas
do potencial nuclear israelita
e das instalações nucleares iranianas
por uma autoridade internacional.

Somente assim poderemos ajudar a todos, israelitas e palestinos,
mais ainda, a todos os seres humanos que naquela região
ocupada pela demência
vivem, cotovelo contra cotovelo, em inimizade 
odiando-se mutuamente,
e finalmente também ajudar-nos a nós mesmos.
Tradução: Frederico Füllgraf, a partir do original alemão, publicado no Süddeutsche Zeitung, 04/04/2012

Was gesagt werden muss
Warum schweige ich, verschweige zu lange,
was offensichtlich ist und in Planspielen
geübt wurde, an deren Ende als Überlebende
wir allenfalls Fußnoten sind.


Es ist das behauptete Recht auf den Erstschlag,
der das von einem Maulhelden unterjochte
und zum organisierten Jubel gelenkte
iranische Volk auslöschen könnte,
weil in dessen Machtbereich der Bau
einer Atombombe vermutet wird.


Doch warum untersage ich mir,
jenes andere Land beim Namen zu nennen,
in dem seit Jahren - wenn auch geheimgehalten -
ein wachsend nukleares Potential verfügbar
aber außer Kontrolle, weil keiner Prüfung
zugänglich ist?


Das allgemeine Verschweigen dieses Tatbestandes,
dem sich mein Schweigen untergeordnet hat,
empfinde ich als belastende Lüge
und Zwang, der Strafe in Aussicht stellt,
sobald er mißachtet wird;
das Verdikt "Antisemitismus" ist geläufig.


Jetzt aber, weil aus meinem Land,
das von ureigenen Verbrechen,
die ohne Vergleich sind,
Mal um Mal eingeholt und zur Rede gestellt wird,
wiederum und rein geschäftsmäßig, wenn auch
mit flinker Lippe als Wiedergutmachung deklariert,
ein weiteres U-Boot nach Israel
geliefert werden soll, dessen Spezialität
darin besteht, allesvernichtende Sprengköpfe
dorthin lenken zu können, wo die Existenz
einer einzigen Atombombe unbewiesen ist,
doch als Befürchtung von Beweiskraft sein will,
sage ich, was gesagt werden muß.


Warum aber sch
wieg ich bislang?
Weil ich meinte, meine Herkunft,
die von nie zu tilgendem Makel behaftet ist,
verbiete, diese Tatsache als ausgesprochene Wahrheit
dem Land Israel, dem ich verbunden bin
und bleiben will, zuzumuten.


Warum sage ich jetzt erst,
gealtert und mit letzter Tinte:
Die Atommacht Israel gefährdet
den ohnehin brüchigen Weltfrieden?
Weil gesagt werden muß,
was schon morgen zu spät sein könnte;
auch weil wir - als Deutsche belastet genug -
Zulieferer eines Verbrechens werden könnten,
das voraussehbar ist, weshalb unsere Mitschuld
durch keine der üblichen Ausreden
zu tilgen wäre.


Und zugegeben: ich schweige nicht mehr,
weil ich der Heuchelei des Westens
überdrüssig bin; zudem ist zu hoffen,
es mögen sich viele vom Schweigen befreien,
den Verursacher der erkennbaren Gefahr
zum Verzicht auf Gewalt auffordern und
gleichfalls darauf bestehen,
daß eine unbehinderte und permanente Kontrolle
des israelischen atomaren Potentials
und der iranischen Atomanlagen
durch eine internationale Instanz
von den Regierungen beider Länder zugelassen wird.


Nur so ist allen, den Israelis und Palästinensern,
mehr noch, allen Menschen, die in dieser
vom Wahn okkupierten Region
dicht bei dicht verfeindet leben
und letztlich auch uns zu helfen.