07 abril 2012

Günter Grass - O que tem que ser dito

Prêmio Nobel de Literatura, Günter Grass
Foto: divulgação



O que tem que ser dito
Günter Grass

Por que guardo silêncio, faz tempo demais me calo,
sobre o que é manifesto e se ensaiava
com simulacros de guerra à qual sobreviveremos,
quando muito, como reles notas de rodapé.

Falo do suposto direito ao ataque preventivo:
este que poderia exterminar o povo iraniano,
subjugado e conduzido à exultação conchavada
por um fanfarrão
porque em sua jurisdição se suspeita
da fabricação de uma bomba atômica.

Mas por que, diabos, furto-me em citar o nome
daquele outro país no qual
 — apesar de mantido em segredo—
há muito cresce um potencial nuclear,
mas fora de controle, já que
é inacessível a toda inspeção?
A supressão generalizada desse fato
ao qual se submeteu meu próprio silêncio,
eu a sinto como mentira opressiva
e coação que ameaça castigar
quem não a respeite;
cá entre nós, o veredicto do “antissemitismo” é assaz popular.

Agora, porém, porque meu país,
a cada tanto chamado para dar satisfações
de crimes imputados
e que não tinham precedentes,
volta e meia renovadas com leviano sotaque comercial, ainda que
qualificadas de reparação,
entregará a Israel outro submarino cuja especialidade
é direcionar ogivas aniquiladoras
a alvo onde não se provou
a existência de uma bomba sequer,
e ainda que se pretenda aportar como prova o reles temor...
Digo o que tem que ser dito.

Por que, contudo, me calei até agora?
Porque acreditava que minha origem,
marcada por um estigma inapagável,
me proibia atribuir este fato, como evidente,
ao país Israel, ao qual me sinto unido
e desejo continuar estando.

Por que só o digo agora,
envelhecido e com derradeiras tintas:
- Israel, potência nuclear, põe em perigo
uma paz mundial já quebradiça?
Digo porque tem que ser dito 
o que dito amanhã poderia ser tarde demais,
e porque —suficientemente incriminados como alemães—
poderíamos ser cúmplices de um crime
que é imprevisível, e vai daí que nossa parcela de culpa
não se poderia apagar
com nenhuma das escusas recorrentes.

E cá entre nós: rompo meu silêncio
porque estou farto
da hipocrisia do Ocidente; cabe esperar ademais
que muitos outros se libertem do silêncio, exijam
ao causador desse perigo que salta à vista
que renuncie ao uso da força e insistam também
em que os governos de ambos países permitam
o controle permanente e sem travas
do potencial nuclear israelita
e das instalações nucleares iranianas
por uma autoridade internacional.

Somente assim poderemos ajudar a todos, israelitas e palestinos,
mais ainda, a todos os seres humanos que naquela região
ocupada pela demência
vivem, cotovelo contra cotovelo, em inimizade 
odiando-se mutuamente,
e finalmente também ajudar-nos a nós mesmos.
Tradução: Frederico Füllgraf, a partir do original alemão, publicado no Süddeutsche Zeitung, 04/04/2012

Was gesagt werden muss
Warum schweige ich, verschweige zu lange,
was offensichtlich ist und in Planspielen
geübt wurde, an deren Ende als Überlebende
wir allenfalls Fußnoten sind.


Es ist das behauptete Recht auf den Erstschlag,
der das von einem Maulhelden unterjochte
und zum organisierten Jubel gelenkte
iranische Volk auslöschen könnte,
weil in dessen Machtbereich der Bau
einer Atombombe vermutet wird.


Doch warum untersage ich mir,
jenes andere Land beim Namen zu nennen,
in dem seit Jahren - wenn auch geheimgehalten -
ein wachsend nukleares Potential verfügbar
aber außer Kontrolle, weil keiner Prüfung
zugänglich ist?


Das allgemeine Verschweigen dieses Tatbestandes,
dem sich mein Schweigen untergeordnet hat,
empfinde ich als belastende Lüge
und Zwang, der Strafe in Aussicht stellt,
sobald er mißachtet wird;
das Verdikt "Antisemitismus" ist geläufig.


Jetzt aber, weil aus meinem Land,
das von ureigenen Verbrechen,
die ohne Vergleich sind,
Mal um Mal eingeholt und zur Rede gestellt wird,
wiederum und rein geschäftsmäßig, wenn auch
mit flinker Lippe als Wiedergutmachung deklariert,
ein weiteres U-Boot nach Israel
geliefert werden soll, dessen Spezialität
darin besteht, allesvernichtende Sprengköpfe
dorthin lenken zu können, wo die Existenz
einer einzigen Atombombe unbewiesen ist,
doch als Befürchtung von Beweiskraft sein will,
sage ich, was gesagt werden muß.


Warum aber sch
wieg ich bislang?
Weil ich meinte, meine Herkunft,
die von nie zu tilgendem Makel behaftet ist,
verbiete, diese Tatsache als ausgesprochene Wahrheit
dem Land Israel, dem ich verbunden bin
und bleiben will, zuzumuten.


Warum sage ich jetzt erst,
gealtert und mit letzter Tinte:
Die Atommacht Israel gefährdet
den ohnehin brüchigen Weltfrieden?
Weil gesagt werden muß,
was schon morgen zu spät sein könnte;
auch weil wir - als Deutsche belastet genug -
Zulieferer eines Verbrechens werden könnten,
das voraussehbar ist, weshalb unsere Mitschuld
durch keine der üblichen Ausreden
zu tilgen wäre.


Und zugegeben: ich schweige nicht mehr,
weil ich der Heuchelei des Westens
überdrüssig bin; zudem ist zu hoffen,
es mögen sich viele vom Schweigen befreien,
den Verursacher der erkennbaren Gefahr
zum Verzicht auf Gewalt auffordern und
gleichfalls darauf bestehen,
daß eine unbehinderte und permanente Kontrolle
des israelischen atomaren Potentials
und der iranischen Atomanlagen
durch eine internationale Instanz
von den Regierungen beider Länder zugelassen wird.


Nur so ist allen, den Israelis und Palästinensern,
mehr noch, allen Menschen, die in dieser
vom Wahn okkupierten Region
dicht bei dicht verfeindet leben
und letztlich auch uns zu helfen.

24 março 2012

Frederico Füllgraf - "To my master, Camões"


Richard F. Burton
Ilustrações: divulgação



Enquanto servia ao império britânico, no Extremo Oriente, Sir Richard F. Burton [http://fuellgrafianas.blogspot.com.br/2011/11/burton-e-as-reinvencoes-de-nos-mesmos.html] tomou conhecimento da passagem do poeta lusitano pelos mares da China e aproximou-se de sua obra. Versão desencontrada conta que antes de abandonar o Oriente, Burton peregrinara a Goa, mas naquela vez não como agente secreto do Empire e, sim, em missão muito pessoal e humilde, para prestar sua homenagem a Luis de Camões, cuj´ Os Lusíadas, como explicou, nada menos que o tinham arrebatado. 


Sobre as trajetórias de Camões e Burton correm fartas versões, muitas delas, risível folclore. Contudo, não cabe dúvida que o escritor dublê de espião do Empire, esgrimista e falcoeiro, se espelhava no poeta caolho e homem de armas; muitas eram suas paixões partilhadas: o sabor das aventuras em terras estranhas, o desembainhar de uma arma, o frenesí da morte – esse permanente vaivém do pêndulo entre Eros e Tanatos, que costuma coçar a espinha dorsal dos guerreiros -, o canto glorificador da virilidade...

A história de Os Lusíadas começa, ao que tudo indica, quando Camões embarca na nau São Bento, da frota de Fernão Álvares Cabral, rumo ao Extremo Oriente, e chega a Goa em 1554.

Depois de participar de vários combates no Mar da China, a esquadra é chamada para enfrentar os mouros no Mar Vermelho, mas o combate não acontece, e os lusitanos aproveitam para hibernar. Quando retornam a Goa, em 1556, Camões encontra no governo Dom Francisco Barreto. Nessa época, viera a público uma sátira apócrifa que ridicularizava  a imoralidade e a corrupção reinantes entre os fidalgos, e que foi atribuída a Camões. Por acaso corrupção e imoralidade seriam enfermidades congênitas lusitanas, cujo vírus saltara das caravelas para as terras do Novo Mundo?Não é improvável que Camões se tenha feito essa pergunta – e foi preso! Obviamente, o poder é hábil tecelão de intrigas, neste caso para a prisão do poeta, acusado de caloteiro, que na verdade era má fama de D. Manoel, motivo pelo qual o credor, Fernão de Magalhães, após longa espera em vão em Portugal,  cruzara a fronteira para Espanha – coño, que no me pagan! Astuto, o rei-caloteiro promulgara as Ordenações Manuelinas, nefanda, mas pioneira manifestação de censura ibérica imposta aos dissidentes.

Camões amargou cinco anos no calabouço, do qual foi libertado por Dom Francisco Coutinho, que lhe deu proteção e novo emprego, desta vez na função de “Provedor-mor dos Defuntos e Ausentes”... - emprego ou nova punição?


Do Hades entendia Richard Francis Burton.


Após a mortífera e fracassada expedição às fontes do Nilo, no início da década de 1860, Burton, alvo de denúncias, que o acusavam pela morte de Speke, foi tirado de circulação e transferido para o Brasil, onde serviu de cônsul britânico, entre 1865 e 1869. Em contato permanente com a língua portuguesa, pelo menos com sua versão sul-americana, foi quando o assaltou a obsessão de traduzir Os Lusíadas ao Inglês - eis, pois, a introdução à maratona burtoniana, dedicada ao então Imperador D. Pedro II, editada por sua esposa após sua morte.
(F.Füllgraf)
ENGLISHED BY
RICHARD F. BURTON
OS LUSIADAS
(THE LUSIADS):
ENGLISHED
BY
RICHARD FRANCIS BURTON
(EDITED BY HIS WIFE,
ISABEL BURTON).
IN TWO VOLUMES—VOL. I.
LONDON:
BERNARD QUARITCH,
15 PICCADILLY, W.
1880
ALL RIGHTS RESERVED.
WYMAN AND SONS, PRINTERS,
GREAT QUEEN STREET, LINCOLN'S-INN-FIELDS,
LONDON, W.C.
To
H. I. M.
DOM PEDRO DE ALCANTARA,
(D. PEDRO II.)
Constitutional Emperor, and perpetual Defender
of
THE BRAZIL;
to
the Man rather than the Monarch
this Version of a Poem,
so dear to the heart of every Brazilian,
is offered
by
his Imperial Majesty's
most obedient
humble Servant,
THE TRANSLATOR.

Il far tin libro è meno che niente,
Se il libro fatto non rifa la gente.
GIUSTI
 Place, riches, favour,
Prizes of accident as oft as merit.
SHAKESPEARE
Ora toma a espada, agora a penna
(Now with the sword-hilt, then with pen in hand).
CAMÕES Sonn. 192.

Bravio assai,—poco spero,—nulla chiedo.
TASSO

 Tout cela prouve enfin que l'ouvrage est plein de grandes
beautés, puis que depuis deux cents ans il fait les delices d'une
nation spirituelle qui doit en connôitre les fautes.
VOLTAIRE Essai, etc.
TO MY MASTER
CAMOENS:
(Tu se' lo mio maestro, e' l mio autore).
Great Pilgrim-poet of the Sea and Land;
 Thou life-long sport of Fortune's ficklest will;
 Doomed to all human and inhuman ill,
Despite thy lover-heart, thy hero-hand:
Enrolled by thy pen what marv'ellous band
 Of god-like Forms thy golden pages fill;
 Love, Honour, Justice, Valour, Glory thrill
The Soul, obedient to thy strong command:
Amid the Prophets highest sits the Bard,
 At once Revealer of the Heav'en and Earth,
To Heav'en the guide, of Earth the noblest guard;
And, 'mid the Poets thine the peerless worth,
 Whose glorious song, thy Genius' sole reward,
Bids all the Ages, Camoens! bless thy birth.
R. F. B.
Camões preso em Goa - autor anônimo

22 março 2012

Frederico Füllgraf - No café com a Stasi

Ilustrações: divulgação

Crônica de Berlim 


O recém-eleito Presidente da Alemanha, Joachim Gauck, 
foi fiel depositário e investigador dos arquivos secretos 
da StaSi, a polícia política da ex-RDA. 
E esta é uma crônica de um encontro deveras insólito.

A Alemanha tem um novo Presidente: Joachim Gauck, eleito em 18 de março de 2012, pela Assembléia Federal Alemã, ganhou fama como primeiro Delegado Federal para a investigação dos arquivos secretos da Stasi, a polícia política da ex-RDA.


Embora não fosse figura de proa do movimento popular que culminou com a queda do Muro, em 1989, Gauck, cujo pai fora sequestrado e preso na União Soviética, encarna como poucos alemães o embate traumático entre as razões de Estado de uma república socialista, autoritária, e o postulado das liberdades individuais: milhares de cidadãos foram espionados, denunciados, tiveram suas vidas devassadas, sofreram repressão, e impedidos de exercerem suas profissões. 


Já quem vivia em Berlim Ocidental, de cuja perspectiva é narrada a presente crônica, desfrutava o privilégio do "trânsito", isto é, podia visitar Berlim Oriental quando bem entendesse, mas não quem quisesse. Eis, pois, os ruídos na linha que soíam surpreendê-lo durante suas incursões ao território hostil.


- O número para o qual você ligou, está desativado há mais de um ano, você deve ter conversado com o serviço de espionagem (gargalhadas).


Com esta troça, Wolf Biermann, poeta e músico, recebeu-me à porta de seu apartamento do quarto andar da Chaussee Strasse, que dava para a sala, em cuja sombra se recortavam as figuras a estudante do conservatório de música (a ainda não roqueira) Nina Hagen, e sua mãe (uma das ex-amantes de Biermann), Tine (a então mulher do poeta) com o filho recém-nascido no colo, e vários outros artistas de Berlim Oriental. Tomando chá, deblateramos até o sol se pôr no oeste, atrás do muro, tentando elucidar como aquele antigo número de telefone se instalara em minha agenda. Não teria sido por um engano ou ato falho do próprio Biermann? – Enfim... - concluiu, perspicaz, o bardo: - Não desativaram a linha, mantêm-na grampeada e mapeiam meus contatos ocidentais que, como você, ainda não dispõe do número novo…


Ruídos na linha


A confusão tinha começado assim: era início de tarde de um dia de outono, gris, quando liguei de Berlim Ocidental, anunciando minha visita ao "outro lado". Estranhamente, o poeta pareceu não reconhecer-me ou lembrar-se do encontro previamente marcado, para uma entrevista. Sua  reação surpreendeu-me. E o que dizer da estranha vibração daquela voz! Intrigado, mergulhei no túnel do metrô com o percurso mais doidivano do mundo daqueles dias: a linha Zôo – Märkisches Viertel, que partia do centro do mais coruscante cartão postal do capitalismo, se embrenhava nas entranhas do “primeiro estado operário-camponês em solo alemão” e, feito toupeira distraída, re-emergia por baixo deste muro, vinte quilômetros adiante, em pleno Ocidente, definido como território do "inimigo de classe" – uma dupla ironia, geográfica e ideológica, e aventura simultânea no túnel do tempo, pois a cada estação subterrânea em território já oriental, o metrô reduzia sua velocidade, proibido de parar, policiado desde as plataformas fantasmáticas, abandonadas desde os anos 60, por guardas de fronteira com fuzis Kalashnikov em punho.


Alcançada a histórica estação Friedrichstrasse, em plena fronteira da cidade dividida, e desembaraçado do controle de passaportes, fiz nova ligação à casa do poeta para confirmar que já pisava seu território. E na outra extremidade da linha, agora atendia-me uma mulher; pelo seu tom de voz, uma mulher jovem. Perguntei se era Tine, a namorada de Biermann, e ela tropeçou na resposta, agravando minha apreensão. Mas não lhe fiz caso e logo alcancei o prédio antigo da Chaussee-Strasse, com frontispício Jugendstil, barbaramente agredido por intempéries e sinais de guerra, e agora em irônica vizinhança com a “representação diplomática da República Federal da Alemanha”. 


Por instantes, parei na calçada, e sob a alça da mira do olhar perscrutante dos policiais orientais, que do outro lado da rua protegiam aquela pseudo-embaixada, encimada pelo brasão nacional da inimiga Alemanha Ocidental, não contive o riso ao sentir-me encarado pela imensa águia preta, de maus bofes, ironizada como “gavião da rapina” numa das faiscantes canções políticas do bardo que eu deveria avistar nos próximos minutos. E depois de alguns lances na velha escada rangente, bati então à porta do apartamento e abriu-a o próprio, Wolf Biermann, de queixo caído quando lhe cobrei os dois telefonemas. Mas havia também algum desconcerto em sua atitude, espécie de pedido de desculpas sussurrado de viés, alguma vergonha por um constrangimento só admitido sob pressão. 

Os dissidentes

Biermann acabara de lançar seu quinto ou sexto LP, com dois títulos que, pela primeira vez em sua carreira, faziam referência à América Latina: a brilhante versão alemã da canção cubana, Comandante Che Guevara, de Carlos Puebla, e a Balada do Cinegrafista – arrepiante poema musical sobre o fuzilamento do cinegrafista argentino, Leonardo Henrichsen, que durante o tancazo de junho de 1973, em Santiago do Chile, aponta sua câmera para um soldado. Este se volta enfurecido para o cinegrafista, aponta sua arma, mira e… então as cordas do violão de Biermann sonorizam a macabra contagem regressiva do vídeo-clipe, tal como o vimos na TV, até a imagem tremular, sinal de que a câmera ainda empunhada por seu operador começava a despencar, e Henrichsen filma sua própria morte... Este disco era um forte motivo para a entrevista.

O outro, era a estória de sua dissidência, como um dos intelectuais mais inquietos e prestigiados do “socialismo realmente existente” – auto-definição daquela república alemã, cuja perversão autoritária, paranóica e repressiva estava fazendo inveja às ditaduras latino-americanas

Filho de pai comunista (e judeu), militante das Brigadas Internacionais, morto na Guerra Civil Espanhola, Biermann optara voluntariamente pela RDA, mudando-se de Hamburgo, sua cidade natal, para a Berlim da Guerra Fria dos anos 50. Lá conhecera e estudara com Bertolt Brecht e fizera carreira, amealhando a aura do “intelectual orgânico”, confiável. Até o início dos anos 70. Quando se solidarizara com a revolta estudantil em Berlim Ocidental (esquerdista demais para o paladar do partido único SED, oriental), o poeta fora percebido como “influência nefasta”; considerado “renegado”, e sua obra submetida à censura. Sem recursos, passara então a publicá-la em editoras ocidentais, as únicas que, para seu enorme desgosto, impediram que morresse de fome.

Começa então a crônica da perseguição anunciada de Biermann, sua ex-mulher Sarah Kirsch, o físico nuclear Robert Havemann, a roqueira Nina Hagen e sua mãe, e muitos outros, alguns presos e narcotizados em Niederschönhausen; a penitenciária política da Stasi (abreviatura de MfS, “Ministerium für Staats-Sicherheit” = [Ministério] da Segurança do Estado), espécie de Gestapo com fraseado “socialista”. 

Havemann - ilustre militante da resistência contra Hitler - morreria pouco tempo depois, Biermann seria expulso da RDA em 1976, Nina Hagen e sua família também. E durante mais treze anos, a Stasi com seus 200 mil agentes - e uma rede de 150 mil informantes “voluntários”, alcaguetes, dedos-duros, para uma população que não passava de 18 milhões (um agente para cada 60 habitantes) - continuou bisbilhotando, achacando, desestabilizando e arruinando A Vida dos Outros – Das Leben der Anderen – filme alemão premiado com o Oscar, em 2007.

O filme

Sendo guiado agora pela câmera dentro daquele apartamento do personagem Dreymann, infestado de microfones escondidos sob tapetes, reboco, vão de portas e janelas, assento de cadeiras e vaso sanitário, percebo finalmente por que em certos momentos de suas conversas no apartamento de Biermann, sobretudo quando ele falava da boca para fora, habituado como estava no Ocidente, parecia instalar-se certo constrangimento, o poeta e seus amigos entreolhando-se; às vezes em silêncio, noutras, mudando subitamente de assunto.


Mas observando na tela, a namorada do personagem Dreymann (emblema do intelectual trágico, porque oportunista, comendo da mão do regime) sendo acoimada e molestada pela Stasi, abriu-se uma janela para outro “filme”, risível, do qual eu mesmo fora protagonista, cujo título deveria ser: No Café com os Secretas… – um prato cheio, roteiro hílare.

Garoto ainda, mal tinha colocado os pés no setor ocidental da cidade dividida, e revoltado com a violação dos direitos humanos no Brasil, certo dia assaltara-me um repente, e com a aura dos heróis, do paladino de justa causa, rumei à fronteira, e às portas do paraíso socialista pedi para falar com o oficial de plantão.

Enquanto aguardava alguma resposta naquela recepção do céu de São Pedro comunista, presenciei e não entendi por que um trabalhador turco, de simples vestimentas, mal conseguindo expressar-se satisfatoriamente em alemão, fora agredido, maltratado com ofensas e violentos pontapés, aos pés da bandeira socialista, expulso da pátria dos proletários… Aquilo me indignara além da conta, evocara imagens do nazismo (a propósito: a semelhança daqueles uniformes!). E então tinha aparecido um guarda, que cara de anjo não tinha, marcando um encontro para a semana seguinte. 

Encontro?! Momentaneamente senti a vertigem do mergulho no escuro, naquelas tramas de Green e Le Carré, grande parte inspiradas em Berlim, praça globalizada da Guerra Fria, maior concentração do mundo de espiões por metro quadrado: esbirros do Circus (M-16 britânico) caçando os de Karla (KGB soviética), os Primos (CIA) bisbilhotando ambos; todos admiradores do mitológico Alm. Canaris, o quase infalível oráculo de Delfos, digo: de Adolfo, o austríaco.

No café com a Stasi


E no dia e hora marcados, aproximara-me pela calçada daquela imensa avenida, zombeteira alegoria da inevitável “transição para o socialismo”, pois iniciava no Ocidente como Kaiserdamm (= esplanada do Imperador) e terminava do outro lado do muro como Stalin-Allee (= Avenida Stálin); nome logo corrigido, quando o georgiano caiu em desgraça e sua imagem fora obliterada das fotos históricas do Politburô.

Acomodados a uma mesa próxima à entrada, estavam dois senhores engravatados. Um deles apressara-se em apresentar-se como Herr Professor, e lembro-me que consenti a mentira. E então lhes entreguei em mãos o motivo de minha intempestiva visita: o pedido de divulgação, através da Rádio Berlim Internacional, de uma lista do comitê brasileiro pela anistia. A emissora levava ao ar um programa em Português, e seu locutor sem dúvida era membro do nosso "partidão"; filiação que não era a minha, logo se via, com aquela pinta de “foquista”...

Matreiros, tentaram empanturrar-me com torta de cereja rançosa e café de sabor indecifrável, enquanto num canto daquele histórico e agora decadente Café Unter den Linden, ouvíamos poutpurrís desafinados, arrancados de seus instrumentos por um pianista coxo e um violinista que parecia surdo. E marcaram novo encontro para confirmar a divulgação da lista de presos políticos da ditadura militar brasileira, que corriam risco de vida...

Pontualmente, outra semana depois lá estava eu flanando no trottoir (melodioso galicismo que desde a passagem de Napoleão ainda designa as calçadas em Berlim) socialista, confundindo os passantes cabisbaixos com as figuras imaginárias de Brecht, Piscator e Tucholsky, ou de Fritz Lang e G.W. Pabst entrando e saindo dos cafés e bistrôs da arruinada Praça Potsdam, quando já adentrava o Unter den Linden. E lá estavam novamente dois obsidiantes, um deles, novo, e desta vez eu me abstivera da torta de cereja e do café. Mal lembrando, pedira uma dose dupla de vodca russa e saudara - nasdrovje! Mas os anfitriões agradeceram - “não bebemos em serviço”...

Então os dois cavalheiros começaram a circunavegar o motivo do encontro, comendo pelas bordas, feitos gatos (certamente a lista brasileira estava sendo analisada, perscrutada, esmiuçada, a textura do papel inclusive…). E trocando o atacado pelo varejo, assaltaram-me com perguntas sobre minha jubilosa vida de estudante. Insinuaram que no Ocidente a vida não deveria ser fácil, mas que poderiam dar um jeito nisso, “uma mão na roda”. Como assim, senhores camaradas? - eu não conseguia acreditar o que estava ouvindo. Ora, certa “ajuda de custo em troca de algumas observações”, provocou a dupla cara-dura e generosa – e eu quase vomitei no colarinho do “professor”, a vodca revolvendo minhas entranhas, meus olhos encharcados de aguardente, buscando o sorriso salvador de Brecht, mas deparando-se com a figura apoquentada dos dois instrumentistas aleijados.

Dei um “bolo” no terceiro tête-à-tête com a Stasi, e apostei que abririam uma ficha com meu nome naquele imenso, perverso arquivo sobre A vida dos outros, que ainda hei de consultar.

E no caminho de volta, do Oriente para o Ocidente, reparei no Muro uma intrepidez impossível de denunciá-lo como mero outdoor – quem imaginaria que poucos anos depois “tudo o que é sólido se desmancha[ria] no ar”, e que – insólita ironia – o que caía não era exatamente a velha e odiada burguesia...

19 março 2012

Frederico Füllgraf - As Malvinas no misterioso mapa de Piri Reis

Ilustrações, de cima para baixo: Piri Reis; seu Mapa Mundi;
costas das Américas; Terra do Fogo com Malvinas;
Linha de Tordesilhas.

Piri Reis, cujo nome de batismo era Hājjī Mehmet, foi um notável  almirante e cartógrafo otomano, nascido em 1465, em Galípoli, Turquia e, virtualmente, o primeiro mapeador do Arquipélago das Malvinas.
Sobrinho e discípulo de Kemal Reïs, aprendeu a navegar aos doze anos de idade. No auge do expansionismo otomano, participou de numerosas batalhas, entre elas o cerco de Veneza (1499 e 1502),  a guerra aos Cavaleiros de Rodes (“Soberana Ordem Militar e Hospitalar de São João de Jerusalém, Rodes e Malta”, mais conhecida como “Ordem de Malta”, que até os dias atuais desfruta de status diplomático), além do enfrentamento dos assim chamados mamelucos do Egito, em 1523.

Reis foi homem de fina erudição e tinha domínio sobre vários idiomas além do seu, pois falava fluentemente em árabe, grego, espanhol e português.

É muito provável que seu convívio com navegadores espanhóis e portugueses o tenha inspirado a desenhar algumas cartas náuticas e mapas “de ouvido” – todos com algumas deformações na escala Mercator, mas compensadas por espantosa beleza -, porque as esquadras otomanas jamais haviam abandonado os contornos do Mediterrâneo, em direção ao Atlântico.

A maioria destas cartografias ilustra sua obra de maior fama, o Kitab-i-Bahriye, ou “Livro das Matérias Marinhas”, editado sob forma de atlas náutico que Piri Reis dedicou ao sultão Solimão o Magnífico, em 1526, considerado perdido, mas recuperado quatrocentos anos mais tarde, em 1929, e conservado pelo Museu Topkápi de Istambul. A reprodução de seu famoso “Mapa de Piri Reis” ilustra até hoje bilhetes turcos de 10 milhões de Liras.

Integra a coletânea náutica o mapa das costas americanas, traçado em 1528, no qual Piri Reis atualizou informações de cartas náuticas portuguesas, pois ele inclui os descobrimentos feitos por Gaspar de Corte Real, e nele vê-se reproduzidas Cuba e a Flórida, erroneamente  também caracterizada como ilha.

A leste do extremo austral da América do Sul (A Terra do Fogo) cuja reprodução se reconhece “deitada”, percebe-se um conjunto de ilhas, unanimemente identificadas pelos cartógrafos da atualidade como sendo o Arquipélago das Malvinas. E a linha imaginária de Tordesilhas não deixa dúvida: pertencia à Espanha; que o legou à Argentina.


17 março 2012

Frederico Füllgraf - Malvinas: trinta anos depois, a guerra continua


No próximo dia 2 de abril, completam-se trinta anos da Guerra das Malvinas (1982), que durou dois meses, ceifou a vida de 650 argentinos e 255 britânicos, e culminou com a capitulação de 11.313 tropas argentinas – uma derrota humilhante para os generais-torturadores que ocupavam a Casa Rosada, dando início ao fim da mais sangrenta ditadura dos anos de chumbo da América Latina, que “desapareceu” com 30 mil opositores políticos.

Desde o final de 2011, os governos argentino e inglês esgrimem uma guerrilha de desgaste na mídia internacional, cujo vitorioso até a véspera do 30º aniversário do conflito, sem sombra de dúvida, é o Governo Cristina Fernández de Kirchner. Isto porque, apesar da notória arrogância e irredutibilidade inglesas, trinta anos depois do literal salto no escuro do ébrio Gal. Leopoldo Galtieri, com sua astúcia e ofensiva diplomática, a Argentina de Kirchner possui as melhoras cartas: conseguiu provar a violação de resoluções da ONU pelo Reino Unido, atestar seu desinteressse por novo enfrentamento armado e sua aposta na mesa de negociações, somando apoios solidários e incondicionais, não apenas dos países latino-americanos (Unasul, Aladi e OEA), mas de todo o Atlântico Sul, ao seu papel de soberana legítima sobre o arquipélago, herdado uti possidetis mediante sua independência da Espanha (Províncias Unidas, 9 de julho de 1816), em seguida invadido por piratas ingleses e norte-americanos, que em 1833 expulsaram das ilhas seus primeiros administradores platenses.

Episódio insólito presenciado em Londres, em junho de 2011, James Peck, filho de um soldado britânico das Malvinas, casado com uma argentina, naturalizou-se e recebeu das mãos de Cristina Kirchner a carteina de identidade (DNI), ainda por cima declarando que a Argentina era o país onde se sentia feliz e que as ilhas ocupadas por sua família pertenciam a Buenos Aires!

Fazendo coro, no início de 2012, os países do Mercosul proibiram o atracamento de barcos sob bandeira britânica das Malvinas em portos do Continente, medida até mesmo endossada pelo governo direitista de Sebastián Piñera, no Chile. Contudo, a cereja no bolo foi a atração para o salão nobre da Casa Rosada de ilustres dissidentes de Hollywood (Sean Penn) e do mainstream musical (Roger Waters, ex-Pink Floyd), fanfarroneando em uníssono, “Las Malvinas son argentinas!”. Quer dizer: mais ou menos argentinas, porque Waters disse “should be argentine!”, e depois tentou desdizer-se, mas já era tarde, sua entrevista já rodava no Youtube... Viento sur! - o garoto de recados da city londrina e mais que insensato “dissidente” da União Européia, David Cameron, não soube onde esconder sua estampa humilhada.

No início de fevereiro, via Penguin News, veio o “troco”: o único jornal dos kelpers – gentilíco que deriva das algas kelp, cuja apanha em mais de duzentos anos de ocupação e vandalismo de variadas espécies da flora e fauna malvinense indica ser o único “valor agregado” pelos pouco mais de três mil súditos trazidos das Ilhas Britânicas – chamou a Presidente Kirchner de “bitch”; baixo calão, cuja versão branda significa “cadela”, mas cuja intenção foi mesmo a de ofender a mais alta dignitária argentina como “puta”. No início do ano, William Hague, ministro do exterior inglês, realizava afobada visita ao Brasil e ao Chile, numa desesperada tentativa de reverter o “bloqueio naval” do Mercosul, seduzindo com as miçangas baratas dos conquistadores nas praias dos gentíos - acordos de cooperação científica e cultural e intensificação do sofrível comércio bilateral - e a indisfarçável intenção de “isolar” a Argentina – mas o tiro lhe saiu pela culatra, quem já estava isolado era o Reino Unido.

Com uma manobra risível, mas truculenta, Cameron reforçou a carga, destacando para as Malvinas o destroyer de última geração, HMS Dauntless ("sem medo"), poucas semanas depois, o próprio príncipe (-herdeiro) William, como demonstração do inequívoco respaldo da decrépita Elisabeth II ao indisfarçável assalto corsário às ilhas do Atlântico Sul. Jubiloso tiro no pé, a contraofensiva britânica ilustrou de modo exemplar a acusação de regime colonialista, formulada pelo Ministro Timerman contra o Reino Unido, reforçando a percepção em escala mundial de que, de fato, com seus 10 “protetorados em ultramar”, em pleno Terceiro Milênio, a Inglaterra é a mais descarada potência tardo-colonialista do mundo.

Trinta anos após o enfrentamento militar nas Malvinas, a Argentina denuncia a hipótese de novo deslocamento de armamento nuclear – em português curto e grosso: bombas atômicas – pela Inglaterra às Ilhas Malvinas, violando as disposições da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZPCAS) - estabelecida em 1986 mediante a Resolução 41/11 da Assembléia Geral das Nações Unidas, encaminhada por iniciativa do Brasil - e do Tratado de Tlatelolco (1969), que proibem terminantemente a circulação, quanto mais o uso de armas nucleares na região.

Espectro sinistro, verdadeiramente demencial, durante a Guerra das Malvinas, o Reino Unido deslocara armas nucleares para o conflito. Para não ferir as disposições do Tratado de Tlatelolco, as bombas atômicas eram transferidas de belonave para belonave, até a última a aproximar-se da área de enfrentamentos, e até hoje o governo britânico nega-se a confirmar se o cruzador “Sheffield”, afundado pela Argentina, não levava a bordo bombas atômicas, que podem estar “dormindo” no leito do mar que circunda as ilhas. (The Guardian, 6/12/2003 - http://www.guardian.co.uk/politics/2003/dec/06/military.freedomofinformation).

O resgate da soberania argentina sobre as Malvinas é apenas uma questão de tempo; uma jornada longa e espinhosa. Contudo, o caminho indicado para o êxito é a mesa de negociações, onde, sem dúvida a duras penas e mediante concessões aos supostos “nativos”, a Argentina, apoiada pela imensa maioria da comunidade internacional, subtrairá as ilhas ao controle colonial britânico, esdrúxulo e decadente. 

Trinta anos depois, a Guerra pelas Malvinas continua - mas com outros meios (se o imperiozinho, fátuo e esquálido, não perder a cabeça).

Fotos, de cima para baixo: prisioneiros de guerra argentinos (1982);
Cristina F. de Kirchner com James Peck (2011); 
William Hague: como cria de Maggie Thatcher (1982);
Sean Penn com Cristina Kirchner.