22 março 2012

Frederico Füllgraf - No café com a Stasi

Ilustrações: divulgação

Crônica de Berlim 


O recém-eleito Presidente da Alemanha, Joachim Gauck, 
foi fiel depositário e investigador dos arquivos secretos 
da StaSi, a polícia política da ex-RDA. 
E esta é uma crônica de um encontro deveras insólito.

A Alemanha tem um novo Presidente: Joachim Gauck, eleito em 18 de março de 2012, pela Assembléia Federal Alemã, ganhou fama como primeiro Delegado Federal para a investigação dos arquivos secretos da Stasi, a polícia política da ex-RDA.


Embora não fosse figura de proa do movimento popular que culminou com a queda do Muro, em 1989, Gauck, cujo pai fora sequestrado e preso na União Soviética, encarna como poucos alemães o embate traumático entre as razões de Estado de uma república socialista, autoritária, e o postulado das liberdades individuais: milhares de cidadãos foram espionados, denunciados, tiveram suas vidas devassadas, sofreram repressão, e impedidos de exercerem suas profissões. 


Já quem vivia em Berlim Ocidental, de cuja perspectiva é narrada a presente crônica, desfrutava o privilégio do "trânsito", isto é, podia visitar Berlim Oriental quando bem entendesse, mas não quem quisesse. Eis, pois, os ruídos na linha que soíam surpreendê-lo durante suas incursões ao território hostil.


- O número para o qual você ligou, está desativado há mais de um ano, você deve ter conversado com o serviço de espionagem (gargalhadas).


Com esta troça, Wolf Biermann, poeta e músico, recebeu-me à porta de seu apartamento do quarto andar da Chaussee Strasse, que dava para a sala, em cuja sombra se recortavam as figuras a estudante do conservatório de música (a ainda não roqueira) Nina Hagen, e sua mãe (uma das ex-amantes de Biermann), Tine (a então mulher do poeta) com o filho recém-nascido no colo, e vários outros artistas de Berlim Oriental. Tomando chá, deblateramos até o sol se pôr no oeste, atrás do muro, tentando elucidar como aquele antigo número de telefone se instalara em minha agenda. Não teria sido por um engano ou ato falho do próprio Biermann? – Enfim... - concluiu, perspicaz, o bardo: - Não desativaram a linha, mantêm-na grampeada e mapeiam meus contatos ocidentais que, como você, ainda não dispõe do número novo…


Ruídos na linha


A confusão tinha começado assim: era início de tarde de um dia de outono, gris, quando liguei de Berlim Ocidental, anunciando minha visita ao "outro lado". Estranhamente, o poeta pareceu não reconhecer-me ou lembrar-se do encontro previamente marcado, para uma entrevista. Sua  reação surpreendeu-me. E o que dizer da estranha vibração daquela voz! Intrigado, mergulhei no túnel do metrô com o percurso mais doidivano do mundo daqueles dias: a linha Zôo – Märkisches Viertel, que partia do centro do mais coruscante cartão postal do capitalismo, se embrenhava nas entranhas do “primeiro estado operário-camponês em solo alemão” e, feito toupeira distraída, re-emergia por baixo deste muro, vinte quilômetros adiante, em pleno Ocidente, definido como território do "inimigo de classe" – uma dupla ironia, geográfica e ideológica, e aventura simultânea no túnel do tempo, pois a cada estação subterrânea em território já oriental, o metrô reduzia sua velocidade, proibido de parar, policiado desde as plataformas fantasmáticas, abandonadas desde os anos 60, por guardas de fronteira com fuzis Kalashnikov em punho.


Alcançada a histórica estação Friedrichstrasse, em plena fronteira da cidade dividida, e desembaraçado do controle de passaportes, fiz nova ligação à casa do poeta para confirmar que já pisava seu território. E na outra extremidade da linha, agora atendia-me uma mulher; pelo seu tom de voz, uma mulher jovem. Perguntei se era Tine, a namorada de Biermann, e ela tropeçou na resposta, agravando minha apreensão. Mas não lhe fiz caso e logo alcancei o prédio antigo da Chaussee-Strasse, com frontispício Jugendstil, barbaramente agredido por intempéries e sinais de guerra, e agora em irônica vizinhança com a “representação diplomática da República Federal da Alemanha”. 


Por instantes, parei na calçada, e sob a alça da mira do olhar perscrutante dos policiais orientais, que do outro lado da rua protegiam aquela pseudo-embaixada, encimada pelo brasão nacional da inimiga Alemanha Ocidental, não contive o riso ao sentir-me encarado pela imensa águia preta, de maus bofes, ironizada como “gavião da rapina” numa das faiscantes canções políticas do bardo que eu deveria avistar nos próximos minutos. E depois de alguns lances na velha escada rangente, bati então à porta do apartamento e abriu-a o próprio, Wolf Biermann, de queixo caído quando lhe cobrei os dois telefonemas. Mas havia também algum desconcerto em sua atitude, espécie de pedido de desculpas sussurrado de viés, alguma vergonha por um constrangimento só admitido sob pressão. 

Os dissidentes

Biermann acabara de lançar seu quinto ou sexto LP, com dois títulos que, pela primeira vez em sua carreira, faziam referência à América Latina: a brilhante versão alemã da canção cubana, Comandante Che Guevara, de Carlos Puebla, e a Balada do Cinegrafista – arrepiante poema musical sobre o fuzilamento do cinegrafista argentino, Leonardo Henrichsen, que durante o tancazo de junho de 1973, em Santiago do Chile, aponta sua câmera para um soldado. Este se volta enfurecido para o cinegrafista, aponta sua arma, mira e… então as cordas do violão de Biermann sonorizam a macabra contagem regressiva do vídeo-clipe, tal como o vimos na TV, até a imagem tremular, sinal de que a câmera ainda empunhada por seu operador começava a despencar, e Henrichsen filma sua própria morte... Este disco era um forte motivo para a entrevista.

O outro, era a estória de sua dissidência, como um dos intelectuais mais inquietos e prestigiados do “socialismo realmente existente” – auto-definição daquela república alemã, cuja perversão autoritária, paranóica e repressiva estava fazendo inveja às ditaduras latino-americanas

Filho de pai comunista (e judeu), militante das Brigadas Internacionais, morto na Guerra Civil Espanhola, Biermann optara voluntariamente pela RDA, mudando-se de Hamburgo, sua cidade natal, para a Berlim da Guerra Fria dos anos 50. Lá conhecera e estudara com Bertolt Brecht e fizera carreira, amealhando a aura do “intelectual orgânico”, confiável. Até o início dos anos 70. Quando se solidarizara com a revolta estudantil em Berlim Ocidental (esquerdista demais para o paladar do partido único SED, oriental), o poeta fora percebido como “influência nefasta”; considerado “renegado”, e sua obra submetida à censura. Sem recursos, passara então a publicá-la em editoras ocidentais, as únicas que, para seu enorme desgosto, impediram que morresse de fome.

Começa então a crônica da perseguição anunciada de Biermann, sua ex-mulher Sarah Kirsch, o físico nuclear Robert Havemann, a roqueira Nina Hagen e sua mãe, e muitos outros, alguns presos e narcotizados em Niederschönhausen; a penitenciária política da Stasi (abreviatura de MfS, “Ministerium für Staats-Sicherheit” = [Ministério] da Segurança do Estado), espécie de Gestapo com fraseado “socialista”. 

Havemann - ilustre militante da resistência contra Hitler - morreria pouco tempo depois, Biermann seria expulso da RDA em 1976, Nina Hagen e sua família também. E durante mais treze anos, a Stasi com seus 200 mil agentes - e uma rede de 150 mil informantes “voluntários”, alcaguetes, dedos-duros, para uma população que não passava de 18 milhões (um agente para cada 60 habitantes) - continuou bisbilhotando, achacando, desestabilizando e arruinando A Vida dos Outros – Das Leben der Anderen – filme alemão premiado com o Oscar, em 2007.

O filme

Sendo guiado agora pela câmera dentro daquele apartamento do personagem Dreymann, infestado de microfones escondidos sob tapetes, reboco, vão de portas e janelas, assento de cadeiras e vaso sanitário, percebo finalmente por que em certos momentos de suas conversas no apartamento de Biermann, sobretudo quando ele falava da boca para fora, habituado como estava no Ocidente, parecia instalar-se certo constrangimento, o poeta e seus amigos entreolhando-se; às vezes em silêncio, noutras, mudando subitamente de assunto.


Mas observando na tela, a namorada do personagem Dreymann (emblema do intelectual trágico, porque oportunista, comendo da mão do regime) sendo acoimada e molestada pela Stasi, abriu-se uma janela para outro “filme”, risível, do qual eu mesmo fora protagonista, cujo título deveria ser: No Café com os Secretas… – um prato cheio, roteiro hílare.

Garoto ainda, mal tinha colocado os pés no setor ocidental da cidade dividida, e revoltado com a violação dos direitos humanos no Brasil, certo dia assaltara-me um repente, e com a aura dos heróis, do paladino de justa causa, rumei à fronteira, e às portas do paraíso socialista pedi para falar com o oficial de plantão.

Enquanto aguardava alguma resposta naquela recepção do céu de São Pedro comunista, presenciei e não entendi por que um trabalhador turco, de simples vestimentas, mal conseguindo expressar-se satisfatoriamente em alemão, fora agredido, maltratado com ofensas e violentos pontapés, aos pés da bandeira socialista, expulso da pátria dos proletários… Aquilo me indignara além da conta, evocara imagens do nazismo (a propósito: a semelhança daqueles uniformes!). E então tinha aparecido um guarda, que cara de anjo não tinha, marcando um encontro para a semana seguinte. 

Encontro?! Momentaneamente senti a vertigem do mergulho no escuro, naquelas tramas de Green e Le Carré, grande parte inspiradas em Berlim, praça globalizada da Guerra Fria, maior concentração do mundo de espiões por metro quadrado: esbirros do Circus (M-16 britânico) caçando os de Karla (KGB soviética), os Primos (CIA) bisbilhotando ambos; todos admiradores do mitológico Alm. Canaris, o quase infalível oráculo de Delfos, digo: de Adolfo, o austríaco.

No café com a Stasi


E no dia e hora marcados, aproximara-me pela calçada daquela imensa avenida, zombeteira alegoria da inevitável “transição para o socialismo”, pois iniciava no Ocidente como Kaiserdamm (= esplanada do Imperador) e terminava do outro lado do muro como Stalin-Allee (= Avenida Stálin); nome logo corrigido, quando o georgiano caiu em desgraça e sua imagem fora obliterada das fotos históricas do Politburô.

Acomodados a uma mesa próxima à entrada, estavam dois senhores engravatados. Um deles apressara-se em apresentar-se como Herr Professor, e lembro-me que consenti a mentira. E então lhes entreguei em mãos o motivo de minha intempestiva visita: o pedido de divulgação, através da Rádio Berlim Internacional, de uma lista do comitê brasileiro pela anistia. A emissora levava ao ar um programa em Português, e seu locutor sem dúvida era membro do nosso "partidão"; filiação que não era a minha, logo se via, com aquela pinta de “foquista”...

Matreiros, tentaram empanturrar-me com torta de cereja rançosa e café de sabor indecifrável, enquanto num canto daquele histórico e agora decadente Café Unter den Linden, ouvíamos poutpurrís desafinados, arrancados de seus instrumentos por um pianista coxo e um violinista que parecia surdo. E marcaram novo encontro para confirmar a divulgação da lista de presos políticos da ditadura militar brasileira, que corriam risco de vida...

Pontualmente, outra semana depois lá estava eu flanando no trottoir (melodioso galicismo que desde a passagem de Napoleão ainda designa as calçadas em Berlim) socialista, confundindo os passantes cabisbaixos com as figuras imaginárias de Brecht, Piscator e Tucholsky, ou de Fritz Lang e G.W. Pabst entrando e saindo dos cafés e bistrôs da arruinada Praça Potsdam, quando já adentrava o Unter den Linden. E lá estavam novamente dois obsidiantes, um deles, novo, e desta vez eu me abstivera da torta de cereja e do café. Mal lembrando, pedira uma dose dupla de vodca russa e saudara - nasdrovje! Mas os anfitriões agradeceram - “não bebemos em serviço”...

Então os dois cavalheiros começaram a circunavegar o motivo do encontro, comendo pelas bordas, feitos gatos (certamente a lista brasileira estava sendo analisada, perscrutada, esmiuçada, a textura do papel inclusive…). E trocando o atacado pelo varejo, assaltaram-me com perguntas sobre minha jubilosa vida de estudante. Insinuaram que no Ocidente a vida não deveria ser fácil, mas que poderiam dar um jeito nisso, “uma mão na roda”. Como assim, senhores camaradas? - eu não conseguia acreditar o que estava ouvindo. Ora, certa “ajuda de custo em troca de algumas observações”, provocou a dupla cara-dura e generosa – e eu quase vomitei no colarinho do “professor”, a vodca revolvendo minhas entranhas, meus olhos encharcados de aguardente, buscando o sorriso salvador de Brecht, mas deparando-se com a figura apoquentada dos dois instrumentistas aleijados.

Dei um “bolo” no terceiro tête-à-tête com a Stasi, e apostei que abririam uma ficha com meu nome naquele imenso, perverso arquivo sobre A vida dos outros, que ainda hei de consultar.

E no caminho de volta, do Oriente para o Ocidente, reparei no Muro uma intrepidez impossível de denunciá-lo como mero outdoor – quem imaginaria que poucos anos depois “tudo o que é sólido se desmancha[ria] no ar”, e que – insólita ironia – o que caía não era exatamente a velha e odiada burguesia...

19 março 2012

Frederico Füllgraf - As Malvinas no misterioso mapa de Piri Reis

Ilustrações, de cima para baixo: Piri Reis; seu Mapa Mundi;
costas das Américas; Terra do Fogo com Malvinas;
Linha de Tordesilhas.

Piri Reis, cujo nome de batismo era Hājjī Mehmet, foi um notável  almirante e cartógrafo otomano, nascido em 1465, em Galípoli, Turquia e, virtualmente, o primeiro mapeador do Arquipélago das Malvinas.
Sobrinho e discípulo de Kemal Reïs, aprendeu a navegar aos doze anos de idade. No auge do expansionismo otomano, participou de numerosas batalhas, entre elas o cerco de Veneza (1499 e 1502),  a guerra aos Cavaleiros de Rodes (“Soberana Ordem Militar e Hospitalar de São João de Jerusalém, Rodes e Malta”, mais conhecida como “Ordem de Malta”, que até os dias atuais desfruta de status diplomático), além do enfrentamento dos assim chamados mamelucos do Egito, em 1523.

Reis foi homem de fina erudição e tinha domínio sobre vários idiomas além do seu, pois falava fluentemente em árabe, grego, espanhol e português.

É muito provável que seu convívio com navegadores espanhóis e portugueses o tenha inspirado a desenhar algumas cartas náuticas e mapas “de ouvido” – todos com algumas deformações na escala Mercator, mas compensadas por espantosa beleza -, porque as esquadras otomanas jamais haviam abandonado os contornos do Mediterrâneo, em direção ao Atlântico.

A maioria destas cartografias ilustra sua obra de maior fama, o Kitab-i-Bahriye, ou “Livro das Matérias Marinhas”, editado sob forma de atlas náutico que Piri Reis dedicou ao sultão Solimão o Magnífico, em 1526, considerado perdido, mas recuperado quatrocentos anos mais tarde, em 1929, e conservado pelo Museu Topkápi de Istambul. A reprodução de seu famoso “Mapa de Piri Reis” ilustra até hoje bilhetes turcos de 10 milhões de Liras.

Integra a coletânea náutica o mapa das costas americanas, traçado em 1528, no qual Piri Reis atualizou informações de cartas náuticas portuguesas, pois ele inclui os descobrimentos feitos por Gaspar de Corte Real, e nele vê-se reproduzidas Cuba e a Flórida, erroneamente  também caracterizada como ilha.

A leste do extremo austral da América do Sul (A Terra do Fogo) cuja reprodução se reconhece “deitada”, percebe-se um conjunto de ilhas, unanimemente identificadas pelos cartógrafos da atualidade como sendo o Arquipélago das Malvinas. E a linha imaginária de Tordesilhas não deixa dúvida: pertencia à Espanha; que o legou à Argentina.


17 março 2012

Frederico Füllgraf - Malvinas: trinta anos depois, a guerra continua


No próximo dia 2 de abril, completam-se trinta anos da Guerra das Malvinas (1982), que durou dois meses, ceifou a vida de 650 argentinos e 255 britânicos, e culminou com a capitulação de 11.313 tropas argentinas – uma derrota humilhante para os generais-torturadores que ocupavam a Casa Rosada, dando início ao fim da mais sangrenta ditadura dos anos de chumbo da América Latina, que “desapareceu” com 30 mil opositores políticos.

Desde o final de 2011, os governos argentino e inglês esgrimem uma guerrilha de desgaste na mídia internacional, cujo vitorioso até a véspera do 30º aniversário do conflito, sem sombra de dúvida, é o Governo Cristina Fernández de Kirchner. Isto porque, apesar da notória arrogância e irredutibilidade inglesas, trinta anos depois do literal salto no escuro do ébrio Gal. Leopoldo Galtieri, com sua astúcia e ofensiva diplomática, a Argentina de Kirchner possui as melhoras cartas: conseguiu provar a violação de resoluções da ONU pelo Reino Unido, atestar seu desinteressse por novo enfrentamento armado e sua aposta na mesa de negociações, somando apoios solidários e incondicionais, não apenas dos países latino-americanos (Unasul, Aladi e OEA), mas de todo o Atlântico Sul, ao seu papel de soberana legítima sobre o arquipélago, herdado uti possidetis mediante sua independência da Espanha (Províncias Unidas, 9 de julho de 1816), em seguida invadido por piratas ingleses e norte-americanos, que em 1833 expulsaram das ilhas seus primeiros administradores platenses.

Episódio insólito presenciado em Londres, em junho de 2011, James Peck, filho de um soldado britânico das Malvinas, casado com uma argentina, naturalizou-se e recebeu das mãos de Cristina Kirchner a carteina de identidade (DNI), ainda por cima declarando que a Argentina era o país onde se sentia feliz e que as ilhas ocupadas por sua família pertenciam a Buenos Aires!

Fazendo coro, no início de 2012, os países do Mercosul proibiram o atracamento de barcos sob bandeira britânica das Malvinas em portos do Continente, medida até mesmo endossada pelo governo direitista de Sebastián Piñera, no Chile. Contudo, a cereja no bolo foi a atração para o salão nobre da Casa Rosada de ilustres dissidentes de Hollywood (Sean Penn) e do mainstream musical (Roger Waters, ex-Pink Floyd), fanfarroneando em uníssono, “Las Malvinas son argentinas!”. Quer dizer: mais ou menos argentinas, porque Waters disse “should be argentine!”, e depois tentou desdizer-se, mas já era tarde, sua entrevista já rodava no Youtube... Viento sur! - o garoto de recados da city londrina e mais que insensato “dissidente” da União Européia, David Cameron, não soube onde esconder sua estampa humilhada.

No início de fevereiro, via Penguin News, veio o “troco”: o único jornal dos kelpers – gentilíco que deriva das algas kelp, cuja apanha em mais de duzentos anos de ocupação e vandalismo de variadas espécies da flora e fauna malvinense indica ser o único “valor agregado” pelos pouco mais de três mil súditos trazidos das Ilhas Britânicas – chamou a Presidente Kirchner de “bitch”; baixo calão, cuja versão branda significa “cadela”, mas cuja intenção foi mesmo a de ofender a mais alta dignitária argentina como “puta”. No início do ano, William Hague, ministro do exterior inglês, realizava afobada visita ao Brasil e ao Chile, numa desesperada tentativa de reverter o “bloqueio naval” do Mercosul, seduzindo com as miçangas baratas dos conquistadores nas praias dos gentíos - acordos de cooperação científica e cultural e intensificação do sofrível comércio bilateral - e a indisfarçável intenção de “isolar” a Argentina – mas o tiro lhe saiu pela culatra, quem já estava isolado era o Reino Unido.

Com uma manobra risível, mas truculenta, Cameron reforçou a carga, destacando para as Malvinas o destroyer de última geração, HMS Dauntless ("sem medo"), poucas semanas depois, o próprio príncipe (-herdeiro) William, como demonstração do inequívoco respaldo da decrépita Elisabeth II ao indisfarçável assalto corsário às ilhas do Atlântico Sul. Jubiloso tiro no pé, a contraofensiva britânica ilustrou de modo exemplar a acusação de regime colonialista, formulada pelo Ministro Timerman contra o Reino Unido, reforçando a percepção em escala mundial de que, de fato, com seus 10 “protetorados em ultramar”, em pleno Terceiro Milênio, a Inglaterra é a mais descarada potência tardo-colonialista do mundo.

Trinta anos após o enfrentamento militar nas Malvinas, a Argentina denuncia a hipótese de novo deslocamento de armamento nuclear – em português curto e grosso: bombas atômicas – pela Inglaterra às Ilhas Malvinas, violando as disposições da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZPCAS) - estabelecida em 1986 mediante a Resolução 41/11 da Assembléia Geral das Nações Unidas, encaminhada por iniciativa do Brasil - e do Tratado de Tlatelolco (1969), que proibem terminantemente a circulação, quanto mais o uso de armas nucleares na região.

Espectro sinistro, verdadeiramente demencial, durante a Guerra das Malvinas, o Reino Unido deslocara armas nucleares para o conflito. Para não ferir as disposições do Tratado de Tlatelolco, as bombas atômicas eram transferidas de belonave para belonave, até a última a aproximar-se da área de enfrentamentos, e até hoje o governo britânico nega-se a confirmar se o cruzador “Sheffield”, afundado pela Argentina, não levava a bordo bombas atômicas, que podem estar “dormindo” no leito do mar que circunda as ilhas. (The Guardian, 6/12/2003 - http://www.guardian.co.uk/politics/2003/dec/06/military.freedomofinformation).

O resgate da soberania argentina sobre as Malvinas é apenas uma questão de tempo; uma jornada longa e espinhosa. Contudo, o caminho indicado para o êxito é a mesa de negociações, onde, sem dúvida a duras penas e mediante concessões aos supostos “nativos”, a Argentina, apoiada pela imensa maioria da comunidade internacional, subtrairá as ilhas ao controle colonial britânico, esdrúxulo e decadente. 

Trinta anos depois, a Guerra pelas Malvinas continua - mas com outros meios (se o imperiozinho, fátuo e esquálido, não perder a cabeça).

Fotos, de cima para baixo: prisioneiros de guerra argentinos (1982);
Cristina F. de Kirchner com James Peck (2011); 
William Hague: como cria de Maggie Thatcher (1982);
Sean Penn com Cristina Kirchner.

24 fevereiro 2012

Frederico Füllgraf - Soledad Barret, por Benedetti e Viglietti



Memória

No dia 8 de janeiro de 1973, morria em Recife, assassinada pela ditadura militar brasileira, a guerrilheira Soledad Barret Viedma. Era neta do ilustre escritor hispano-paraguaio, Rafael Barret, e tinha 28 anos. Hoje, início de 2012, Soledad, se viva estivesse, completaria 67 anos de idade, e contaria suas aventuras a seus netos, sentados em seu colo.

Sua brutal execução pelas mãos do famigerado delegado Sérgio Fleury -  torturador cínico, assassino frio -  causou profunda comoção entre os que a conheceram, mas também espanto com a beleza daquela moça de leve sotaque hispânico, que trabalhava como vendedora em uma casa de modas do Recife.

Durante aqueles anos de trevas e chumbo, em que estavam mergulhados os países sul-americanos, a família Barret-Viedma refugiara-se no Uruguai. Dois uruguaios apaixonados por la muchacha Soledad - o poeta e escritor, Mario Benedetti, e o cantor e compositor, Daniel Viglietti - dedicaram-lhe versos devotados .

Fleury a executou, mas o mentor sinistro do assassinato foi seu próprio companheiro, o espião e delator, Cabo Anselmo. 

Foram duas as mortes de Soledad: ela estava grávida de cinco meses. Da besta Anselmo.



Muerte de Soledad Barret  
Mario Benedetti


Viviste aquí por meses o por años
trazaste aquí una recta de melancolía
que atravesó las vidas y las calles

hace diez años tu adolescencia fue noticia
te tajearon los muslos porque no quisiste
gritar viva hitler ni abajo fidel

eran otros tiempos y otros escuadrones
pero aquellos tatuajes llenaron de asombro
a cierto uruguay que vivía en la luna

y claro entonces no podías saber
que de algún modo eras
la prehistoria de Ibero

ahora acribillaron en recife
tus veintisiete años
de amor templado y pena clandestina

quizá nunca se sepa cómo ni por qué


los cables dicen que te resististe
y no habrá más remedio que creerlo
porque lo cierto es que te resistías
con sólo colocárteles en frente
sólo mirarlos
sólo sonreír
sólo cantar cielitos cara al cielo

con tu imagen segura
con tu pinta muchacha
pudiste ser modelo
actriz
miss paraguay
carátula almanaque quién sabe cuántas cosas

pero el abuelo rafael el viejo anarco
te tironeaba fuertemente la sangre
y vos sentías callada esos tirones

soledad no viviste en soledad
por eso tu vida no se borra
simplemente se colma de señales

soledad no moriste en soledad
por eso tu muerte no se llora
simplemente la izamos en el aire

desde ahora la nostalgia será
un viento fiel que hará flamear tu muerte
para que así aparezcan ejemplares y nítidas
las franjas de tu vida

ignoro si estarías
de minifalda o quizá de vaqueros
cuando la ráfaga de pernambuco
acabó con tus sueños completos

por lo menos no habrá sido fácil
cerrar tus grandes ojos claros
tus ojos donde la mejor violencia
se permitía razonables treguas
para volverse increíble bondad

y aunque por fin los hayan clausurado
es probable que aún sigas mirando
soledad compatriota de tres o cuatro pueblos
el limpio futuro por el que vivías
y por el que nunca te negaste a morir.


Soledad
Daniel Viglietti

La  duda lleva mi mano hasta la guitarra,
mi vida entera no alcanza  para creer
que puedan cerrar lo limpio de tu mirada;
no existe  tormenta ni nube de sangre que puedan borrar
tu clara señal.

La  soledad de mi mano se da con otras
buscando dejar lo suyo por los  demás,
que a mano herida que suelta sus armamentos
hay  que enamorarla con la mía o todas que los van a alzar,
que  los van a alzar.

Una cosa aprendí junto a Soledad:
que  el llanto hay que empuñarlo, darlo a cantar.
Caliente  enero, Recife, silencio ciego,
las cuerdas hasta olvidaron el  guaraní,
el que siempre pronunciabas en tus caminos
de  muchacha andante, sembrando justicia donde no la hay,
donde no la  hay.

Otra cosa aprendí con Soledad:
que la patria no  es un solo lugar.
Cual el libertario abuelo del  Paraguay
creciendo buscó su senda, y el Uruguay
no  olvida la marca dulce de su pisada
cuando busca el norte, el norte  Brasil, para combatir,
para combatir.

Una tercera cosa nos  enseñó:
lo que no logre uno ya lo harán  dos.
En algún sitio del viento o de la verdad
está  con su sueño entero la Soledad.
No quiere palabras largas  ni aniversarios;
su día es el día en que todos  digan,
armas en la mano: "patria, rojaijú".