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29 março 2012
24 março 2012
Frederico Füllgraf - "To my master, Camões"
Enquanto servia ao império britânico, no Extremo Oriente, Sir Richard F. Burton [http://fuellgrafianas.blogspot.com.br/2011/11/burton-e-as-reinvencoes-de-nos-mesmos.html] tomou conhecimento da passagem do poeta lusitano pelos mares da China e aproximou-se de sua obra. Versão desencontrada conta que antes de abandonar o Oriente, Burton peregrinara a Goa, mas naquela vez não como agente secreto do Empire e, sim, em missão muito pessoal e humilde, para prestar sua homenagem a Luis de Camões, cuj´ Os Lusíadas, como explicou, nada menos que o tinham arrebatado.
Sobre as trajetórias de Camões e Burton correm fartas versões, muitas delas, risível folclore. Contudo, não cabe dúvida que o escritor dublê de espião do Empire, esgrimista e falcoeiro, se espelhava no poeta caolho e homem de armas; muitas eram suas paixões partilhadas: o sabor das aventuras em terras estranhas, o desembainhar de uma arma, o frenesí da morte – esse permanente vaivém do pêndulo entre Eros e Tanatos, que costuma coçar a espinha dorsal dos guerreiros -, o canto glorificador da virilidade...
A história de Os Lusíadas começa, ao que tudo
indica, quando Camões embarca na nau São
Bento, da frota de Fernão Álvares Cabral, rumo ao Extremo Oriente, e chega
a Goa em 1554.
Depois de participar de vários combates no
Mar da China, a esquadra é chamada para enfrentar os mouros no Mar Vermelho, mas
o combate não acontece, e os lusitanos aproveitam para hibernar. Quando
retornam a Goa, em 1556, Camões encontra no governo Dom Francisco Barreto. Nessa
época, viera a público uma sátira apócrifa que ridicularizava a imoralidade e a corrupção reinantes entre os fidalgos, e que foi
atribuída a Camões. Por acaso corrupção e imoralidade seriam enfermidades
congênitas lusitanas, cujo vírus saltara das caravelas para as terras do Novo Mundo?Não
é improvável que Camões se tenha feito essa pergunta – e foi preso! Obviamente, o poder é hábil tecelão de intrigas, neste caso para a prisão do poeta, acusado de caloteiro, que na
verdade era má fama de D. Manoel, motivo pelo qual o credor, Fernão de Magalhães,
após longa espera em vão em Portugal,
cruzara a fronteira para Espanha – coño, que no me pagan! Astuto, o
rei-caloteiro promulgara as Ordenações Manuelinas, nefanda, mas pioneira
manifestação de censura ibérica imposta aos dissidentes.
Camões amargou cinco anos no calabouço, do
qual foi libertado por Dom Francisco Coutinho, que lhe deu proteção e novo
emprego, desta vez na função de “Provedor-mor dos Defuntos e Ausentes”... - emprego ou nova punição?
Do Hades entendia Richard Francis Burton.
Após a mortífera e fracassada expedição às fontes do Nilo, no início da década de 1860, Burton, alvo de denúncias, que o acusavam pela morte de Speke, foi tirado de circulação e transferido para o Brasil, onde serviu de cônsul britânico, entre 1865 e 1869. Em contato permanente com a língua portuguesa, pelo menos com sua versão sul-americana, foi quando o assaltou a obsessão de traduzir Os Lusíadas ao Inglês - eis, pois, a introdução à maratona burtoniana, dedicada ao então Imperador D. Pedro II, editada por sua esposa após sua morte.
(F.Füllgraf)
ENGLISHED BY
RICHARD F. BURTON
OS
LUSIADAS
(THE LUSIADS):
ENGLISHED
BY
RICHARD FRANCIS BURTON
(EDITED BY HIS WIFE,
ISABEL BURTON).
IN TWO VOLUMES—VOL. I.
LONDON:
IN TWO VOLUMES—VOL. I.
LONDON:
BERNARD QUARITCH,
15 PICCADILLY, W.
1880
ALL RIGHTS RESERVED.
ALL RIGHTS RESERVED.
WYMAN AND SONS, PRINTERS,
GREAT QUEEN STREET, LINCOLN'S-INN-FIELDS,
LONDON, W.C.
To
H. I. M.
DOM PEDRO DE ALCANTARA,
(D. PEDRO II.)
Constitutional Emperor, and perpetual Defender
of
THE BRAZIL;
to
the Man rather than the Monarch this Version of a Poem, so dear to the heart of every Brazilian, is offered by his Imperial Majesty's most obedient humble Servant,
THE TRANSLATOR.
|
Il far tin libro è meno che
niente,
Se il libro fatto non rifa la gente.
GIUSTI
Place, riches, favour, Prizes of accident as oft as merit.
SHAKESPEARE
Ora toma a espada, agora a penna (Now with the sword-hilt, then with pen in hand).
CAMÕES Sonn. 192.
Bravio assai,—poco spero,—nulla chiedo.
TASSO
Tout cela prouve enfin que l'ouvrage est plein de grandes beautés, puis que depuis deux cents ans il fait les delices d'une nation spirituelle qui doit en connôitre les fautes.
VOLTAIRE Essai,
etc.
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TO MY MASTER
CAMOENS:
(Tu se' lo mio maestro, e' l mio
autore).
Great Pilgrim-poet of the Sea and Land;
Thou life-long sport of Fortune's ficklest will; Doomed to all human and inhuman ill, Despite thy lover-heart, thy hero-hand: Enrolled by thy pen what marv'ellous band Of god-like Forms thy golden pages fill; Love, Honour, Justice, Valour, Glory thrill The Soul, obedient to thy strong command: Amid the Prophets highest sits the Bard, At once Revealer of the Heav'en and Earth, To Heav'en the guide, of Earth the noblest guard; And, 'mid the Poets thine the peerless worth, Whose glorious song, thy Genius' sole reward, Bids all the Ages, Camoens! bless thy birth.
R. F. B.
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Camões preso em Goa - autor anônimo
22 março 2012
Frederico Füllgraf - No café com a Stasi
Crônica de Berlim
O recém-eleito Presidente da Alemanha, Joachim Gauck,
foi fiel depositário e investigador dos arquivos secretos
da StaSi, a polícia política da ex-RDA.
E esta é uma crônica de um encontro deveras insólito.
O recém-eleito Presidente da Alemanha, Joachim Gauck,
foi fiel depositário e investigador dos arquivos secretos
da StaSi, a polícia política da ex-RDA.
E esta é uma crônica de um encontro deveras insólito.
A Alemanha tem um novo Presidente: Joachim Gauck, eleito em 18 de março de 2012, pela Assembléia Federal Alemã, ganhou fama como primeiro Delegado Federal para a investigação dos arquivos secretos da Stasi, a polícia política da ex-RDA.
Embora não fosse figura de proa do movimento popular que culminou com a queda do Muro, em 1989, Gauck, cujo pai fora sequestrado e preso na União Soviética, encarna como poucos alemães o embate traumático entre as razões de Estado de uma república socialista, autoritária, e o postulado das liberdades individuais: milhares de cidadãos foram espionados, denunciados, tiveram suas vidas devassadas, sofreram repressão, e impedidos de exercerem suas profissões.
Já quem vivia em Berlim Ocidental, de cuja perspectiva é narrada a presente crônica, desfrutava o privilégio do "trânsito", isto é, podia visitar Berlim Oriental quando bem entendesse, mas não quem quisesse. Eis, pois, os ruídos na linha que soíam surpreendê-lo durante suas incursões ao território hostil.
- O número para o qual você ligou, está desativado há mais de um ano, você deve ter conversado com o serviço de espionagem (gargalhadas).
Com esta troça, Wolf Biermann, poeta e músico, recebeu-me à porta de seu apartamento do quarto andar da Chaussee Strasse, que dava para a sala, em cuja sombra se recortavam as figuras a estudante do conservatório de música (a ainda não roqueira) Nina Hagen, e sua mãe (uma das ex-amantes de Biermann), Tine (a então mulher do poeta) com o filho recém-nascido no colo, e vários outros artistas de Berlim Oriental. Tomando chá, deblateramos até o sol se pôr no oeste, atrás do muro, tentando elucidar como aquele antigo número de telefone se instalara em minha agenda. Não teria sido por um engano ou ato falho do próprio Biermann? – Enfim... - concluiu, perspicaz, o bardo: - Não desativaram a linha, mantêm-na grampeada e mapeiam meus contatos ocidentais que, como você, ainda não dispõe do número novo…
Ruídos na linha
A confusão tinha começado assim: era início de tarde de um dia de outono, gris, quando liguei de Berlim Ocidental, anunciando minha visita ao "outro lado". Estranhamente, o poeta pareceu não reconhecer-me ou lembrar-se do encontro previamente marcado, para uma entrevista. Sua reação surpreendeu-me. E o que dizer da estranha vibração daquela voz! Intrigado, mergulhei no túnel do metrô com o percurso mais doidivano do mundo daqueles dias: a linha Zôo – Märkisches Viertel, que partia do centro do mais coruscante cartão postal do capitalismo, se embrenhava nas entranhas do “primeiro estado operário-camponês em solo alemão” e, feito toupeira distraída, re-emergia por baixo deste muro, vinte quilômetros adiante, em pleno Ocidente, definido como território do "inimigo de classe" – uma dupla ironia, geográfica e ideológica, e aventura simultânea no túnel do tempo, pois a cada estação subterrânea em território já oriental, o metrô reduzia sua velocidade, proibido de parar, policiado desde as plataformas fantasmáticas, abandonadas desde os anos 60, por guardas de fronteira com fuzis Kalashnikov em punho.
Alcançada a histórica estação Friedrichstrasse, em plena fronteira da cidade dividida, e desembaraçado do controle de passaportes, fiz nova ligação à casa do poeta para confirmar que já pisava seu território. E na outra extremidade da linha, agora atendia-me uma mulher; pelo seu tom de voz, uma mulher jovem. Perguntei se era Tine, a namorada de Biermann, e ela tropeçou na resposta, agravando minha apreensão. Mas não lhe fiz caso e logo alcancei o prédio antigo da Chaussee-Strasse, com frontispício Jugendstil, barbaramente agredido por intempéries e sinais de guerra, e agora em irônica vizinhança com a “representação diplomática da República Federal da Alemanha”.
Embora não fosse figura de proa do movimento popular que culminou com a queda do Muro, em 1989, Gauck, cujo pai fora sequestrado e preso na União Soviética, encarna como poucos alemães o embate traumático entre as razões de Estado de uma república socialista, autoritária, e o postulado das liberdades individuais: milhares de cidadãos foram espionados, denunciados, tiveram suas vidas devassadas, sofreram repressão, e impedidos de exercerem suas profissões.
Já quem vivia em Berlim Ocidental, de cuja perspectiva é narrada a presente crônica, desfrutava o privilégio do "trânsito", isto é, podia visitar Berlim Oriental quando bem entendesse, mas não quem quisesse. Eis, pois, os ruídos na linha que soíam surpreendê-lo durante suas incursões ao território hostil.
- O número para o qual você ligou, está desativado há mais de um ano, você deve ter conversado com o serviço de espionagem (gargalhadas).
Com esta troça, Wolf Biermann, poeta e músico, recebeu-me à porta de seu apartamento do quarto andar da Chaussee Strasse, que dava para a sala, em cuja sombra se recortavam as figuras a estudante do conservatório de música (a ainda não roqueira) Nina Hagen, e sua mãe (uma das ex-amantes de Biermann), Tine (a então mulher do poeta) com o filho recém-nascido no colo, e vários outros artistas de Berlim Oriental. Tomando chá, deblateramos até o sol se pôr no oeste, atrás do muro, tentando elucidar como aquele antigo número de telefone se instalara em minha agenda. Não teria sido por um engano ou ato falho do próprio Biermann? – Enfim... - concluiu, perspicaz, o bardo: - Não desativaram a linha, mantêm-na grampeada e mapeiam meus contatos ocidentais que, como você, ainda não dispõe do número novo…
Ruídos na linha
A confusão tinha começado assim: era início de tarde de um dia de outono, gris, quando liguei de Berlim Ocidental, anunciando minha visita ao "outro lado". Estranhamente, o poeta pareceu não reconhecer-me ou lembrar-se do encontro previamente marcado, para uma entrevista. Sua reação surpreendeu-me. E o que dizer da estranha vibração daquela voz! Intrigado, mergulhei no túnel do metrô com o percurso mais doidivano do mundo daqueles dias: a linha Zôo – Märkisches Viertel, que partia do centro do mais coruscante cartão postal do capitalismo, se embrenhava nas entranhas do “primeiro estado operário-camponês em solo alemão” e, feito toupeira distraída, re-emergia por baixo deste muro, vinte quilômetros adiante, em pleno Ocidente, definido como território do "inimigo de classe" – uma dupla ironia, geográfica e ideológica, e aventura simultânea no túnel do tempo, pois a cada estação subterrânea em território já oriental, o metrô reduzia sua velocidade, proibido de parar, policiado desde as plataformas fantasmáticas, abandonadas desde os anos 60, por guardas de fronteira com fuzis Kalashnikov em punho.
Alcançada a histórica estação Friedrichstrasse, em plena fronteira da cidade dividida, e desembaraçado do controle de passaportes, fiz nova ligação à casa do poeta para confirmar que já pisava seu território. E na outra extremidade da linha, agora atendia-me uma mulher; pelo seu tom de voz, uma mulher jovem. Perguntei se era Tine, a namorada de Biermann, e ela tropeçou na resposta, agravando minha apreensão. Mas não lhe fiz caso e logo alcancei o prédio antigo da Chaussee-Strasse, com frontispício Jugendstil, barbaramente agredido por intempéries e sinais de guerra, e agora em irônica vizinhança com a “representação diplomática da República Federal da Alemanha”.
Por instantes, parei na calçada, e sob a alça da mira do olhar perscrutante dos policiais orientais, que do outro lado da rua protegiam aquela pseudo-embaixada, encimada pelo brasão nacional da inimiga Alemanha Ocidental, não contive o riso ao sentir-me encarado pela imensa águia preta, de maus bofes, ironizada como “gavião da rapina” numa das faiscantes canções políticas do bardo que eu deveria avistar nos próximos minutos. E depois de alguns lances na velha escada rangente, bati então à porta do apartamento e abriu-a o próprio, Wolf Biermann, de queixo caído quando lhe cobrei os dois telefonemas. Mas havia também algum desconcerto em sua atitude, espécie de pedido de desculpas sussurrado de viés, alguma vergonha por um constrangimento só admitido sob pressão.
Os dissidentes
Biermann
acabara de lançar seu quinto ou sexto LP, com dois títulos que, pela primeira
vez em sua carreira, faziam referência à América Latina: a brilhante versão
alemã da canção cubana, Comandante Che
Guevara, de Carlos Puebla, e a Balada
do Cinegrafista – arrepiante poema musical sobre o fuzilamento do
cinegrafista argentino, Leonardo Henrichsen, que durante o tancazo de junho de 1973, em Santiago do
Chile, aponta sua câmera para um soldado. Este se volta enfurecido para o
cinegrafista, aponta sua arma, mira e… então as cordas do violão de Biermann
sonorizam a macabra contagem regressiva do vídeo-clipe, tal como o vimos na TV,
até a imagem tremular, sinal de que a câmera ainda empunhada por seu operador
começava a despencar, e Henrichsen filma sua própria morte... Este disco era um forte motivo para a entrevista.
O outro, era a estória de sua dissidência, como um dos intelectuais
mais inquietos e prestigiados do “socialismo realmente existente” – auto-definição
daquela república alemã, cuja perversão autoritária, paranóica e repressiva
estava fazendo inveja às ditaduras latino-americanas
Filho
de pai comunista (e judeu), militante das Brigadas Internacionais, morto na
Guerra Civil Espanhola, Biermann optara voluntariamente pela RDA, mudando-se de
Hamburgo, sua cidade natal, para a Berlim da Guerra Fria dos anos 50. Lá conhecera e estudara com Bertolt Brecht e fizera carreira, amealhando a aura do “intelectual orgânico”,
confiável. Até o início dos anos 70. Quando se solidarizara com a revolta
estudantil em Berlim Ocidental (esquerdista demais para o paladar do partido
único SED, oriental), o poeta fora percebido como “influência nefasta”; considerado “renegado”, e sua obra submetida à censura. Sem recursos, passara então a publicá-la em editoras ocidentais, as
únicas que, para seu enorme desgosto, impediram que morresse de fome.
Começa
então a crônica da perseguição anunciada de Biermann, sua ex-mulher Sarah
Kirsch, o físico nuclear Robert Havemann, a roqueira Nina Hagen e sua mãe, e
muitos outros, alguns presos e narcotizados em Niederschönhausen; a
penitenciária política da Stasi (abreviatura de MfS, “Ministerium für
Staats-Sicherheit” = [Ministério] da Segurança do Estado), espécie de Gestapo com
fraseado “socialista”.
Havemann - ilustre militante da resistência contra Hitler - morreria pouco tempo depois, Biermann seria
expulso da RDA em 1976, Nina Hagen e sua família também. E durante mais treze
anos, a Stasi com seus 200 mil agentes - e uma rede de 150 mil informantes
“voluntários”, alcaguetes, dedos-duros, para uma população que não passava de
18 milhões (um agente para cada 60 habitantes) - continuou bisbilhotando,
achacando, desestabilizando e arruinando A
Vida dos Outros – Das Leben der Anderen – filme alemão premiado com o
Oscar, em 2007.
O filme
Sendo
guiado agora pela câmera dentro daquele apartamento do personagem Dreymann,
infestado de microfones escondidos sob tapetes, reboco, vão de portas e
janelas, assento de cadeiras e vaso sanitário, percebo finalmente por que em
certos momentos de suas conversas no apartamento de Biermann, sobretudo quando
ele falava da boca para fora, habituado como estava no Ocidente, parecia
instalar-se certo constrangimento, o poeta e seus amigos entreolhando-se; às
vezes em silêncio, noutras, mudando subitamente de assunto.
Mas observando na tela, a namorada do personagem Dreymann (emblema do intelectual
trágico, porque oportunista, comendo da mão do regime) sendo acoimada e
molestada pela Stasi, abriu-se uma janela para outro “filme”, risível, do qual eu mesmo fora protagonista, cujo título deveria ser: No Café com os Secretas… – um prato cheio, roteiro hílare.
Garoto ainda, mal tinha
colocado os pés no setor ocidental da cidade dividida, e revoltado com a
violação dos direitos humanos no Brasil, certo dia assaltara-me um repente, e com
a aura dos heróis, do paladino de justa causa, rumei à fronteira, e às portas
do paraíso socialista pedi para falar com o oficial de plantão.
Enquanto aguardava
alguma resposta naquela recepção do céu de São Pedro comunista, presenciei e
não entendi por que um trabalhador turco, de simples vestimentas, mal
conseguindo expressar-se satisfatoriamente em alemão, fora agredido, maltratado
com ofensas e violentos pontapés, aos pés da bandeira socialista, expulso da pátria
dos proletários… Aquilo me indignara além da conta, evocara imagens do nazismo (a propósito: a
semelhança daqueles uniformes!). E então tinha aparecido um guarda, que cara de anjo
não tinha, marcando um encontro para a semana seguinte.
Encontro?!
Momentaneamente senti a vertigem do mergulho no escuro, naquelas tramas de
Green e Le Carré, grande parte inspiradas em Berlim, praça globalizada da
Guerra Fria, maior concentração do mundo de espiões por metro quadrado:
esbirros do Circus (M-16 britânico)
caçando os de Karla (KGB soviética),
os Primos (CIA) bisbilhotando ambos;
todos admiradores do mitológico Alm. Canaris, o quase infalível oráculo de
Delfos, digo: de Adolfo, o austríaco.
No café com a Stasi
E no dia e hora marcados, aproximara-me pela calçada daquela imensa avenida, zombeteira alegoria da inevitável “transição para o socialismo”, pois iniciava no Ocidente como Kaiserdamm (= esplanada do Imperador) e terminava do outro lado do muro como Stalin-Allee (= Avenida Stálin); nome logo corrigido, quando o georgiano caiu em desgraça e sua imagem fora obliterada das fotos históricas do Politburô.
E no dia e hora marcados, aproximara-me pela calçada daquela imensa avenida, zombeteira alegoria da inevitável “transição para o socialismo”, pois iniciava no Ocidente como Kaiserdamm (= esplanada do Imperador) e terminava do outro lado do muro como Stalin-Allee (= Avenida Stálin); nome logo corrigido, quando o georgiano caiu em desgraça e sua imagem fora obliterada das fotos históricas do Politburô.
Acomodados a uma mesa
próxima à entrada, estavam dois senhores engravatados. Um deles apressara-se em apresentar-se como Herr Professor, e lembro-me que consenti a mentira. E
então lhes entreguei em mãos o motivo de minha intempestiva visita: o pedido de
divulgação, através da Rádio Berlim Internacional, de uma lista do comitê
brasileiro pela anistia. A emissora levava ao ar um programa em Português, e seu locutor sem dúvida era membro do nosso "partidão"; filiação que não era a minha, logo se via, com aquela pinta de “foquista”...
Matreiros, tentaram
empanturrar-me com torta de cereja rançosa e café de sabor indecifrável,
enquanto num canto daquele histórico e agora decadente Café Unter den Linden, ouvíamos poutpurrís desafinados, arrancados de
seus instrumentos por um pianista coxo e um violinista que parecia surdo. E
marcaram novo encontro para confirmar a divulgação da lista de presos políticos
da ditadura militar brasileira, que corriam risco de vida...
Pontualmente,
outra semana depois lá estava eu flanando no trottoir (melodioso galicismo que desde a passagem de Napoleão
ainda designa as calçadas em Berlim) socialista, confundindo os passantes
cabisbaixos com as figuras imaginárias de Brecht, Piscator e Tucholsky, ou de
Fritz Lang e G.W. Pabst entrando e saindo dos cafés e bistrôs da arruinada Praça
Potsdam, quando já adentrava o Unter den Linden. E lá estavam novamente dois
obsidiantes, um deles, novo, e desta vez eu me abstivera da torta de cereja e
do café. Mal lembrando, pedira uma dose dupla de vodca russa e saudara - nasdrovje! Mas os anfitriões agradeceram
- “não bebemos em serviço”...
Então
os dois cavalheiros começaram a circunavegar o motivo do encontro, comendo
pelas bordas, feitos gatos (certamente a lista brasileira estava sendo
analisada, perscrutada, esmiuçada, a textura do papel inclusive…). E trocando o
atacado pelo varejo, assaltaram-me com perguntas sobre minha jubilosa vida de
estudante. Insinuaram que no Ocidente a vida não deveria ser fácil, mas que
poderiam dar um jeito nisso, “uma mão na roda”. Como assim, senhores camaradas? - eu não conseguia acreditar o que estava ouvindo. Ora, certa “ajuda de custo em troca de algumas observações”, provocou a dupla
cara-dura e generosa – e eu quase vomitei no colarinho
do “professor”, a vodca revolvendo minhas entranhas, meus olhos encharcados de
aguardente, buscando o sorriso salvador de Brecht, mas deparando-se com a
figura apoquentada dos dois instrumentistas aleijados.
Dei um “bolo” no
terceiro tête-à-tête com a Stasi, e apostei que abririam uma ficha com meu nome
naquele imenso, perverso arquivo sobre A
vida dos outros, que ainda hei de consultar.
E no caminho de volta,
do Oriente para o Ocidente, reparei no Muro uma intrepidez impossível de
denunciá-lo como mero outdoor – quem
imaginaria que poucos anos depois “tudo o que é sólido se desmancha[ria] no ar”, e que – insólita ironia – o que caía não era exatamente a velha e odiada
burguesia...
19 março 2012
Frederico Füllgraf - As Malvinas no misterioso mapa de Piri Reis
Ilustrações, de cima para baixo: Piri Reis; seu Mapa Mundi;
costas das Américas; Terra do Fogo com Malvinas;
Linha de Tordesilhas.
Piri Reis, cujo nome de
batismo era Hājjī Mehmet, foi um notável
almirante e cartógrafo otomano, nascido em 1465, em Galípoli, Turquia e,
virtualmente, o primeiro mapeador do Arquipélago das Malvinas.
Sobrinho e discípulo de Kemal Reïs, aprendeu a navegar aos doze anos de
idade. No auge do expansionismo otomano, participou de numerosas batalhas, entre
elas o cerco de Veneza (1499 e 1502), a guerra aos
Cavaleiros de Rodes (“Soberana Ordem Militar e Hospitalar de São João de Jerusalém,
Rodes e Malta”, mais conhecida como “Ordem de Malta”, que até os dias atuais
desfruta de status diplomático), além do enfrentamento dos assim chamados
mamelucos do Egito, em 1523.
Reis foi homem de fina erudição e tinha domínio sobre vários idiomas
além do seu, pois falava fluentemente em árabe, grego, espanhol e português.
É muito provável que seu convívio com navegadores espanhóis e portugueses o
tenha inspirado a desenhar algumas cartas náuticas e mapas “de ouvido” – todos
com algumas deformações na escala Mercator, mas compensadas por espantosa beleza
-, porque as esquadras otomanas jamais haviam abandonado os contornos do
Mediterrâneo, em direção ao Atlântico.
A maioria destas cartografias ilustra sua obra de maior fama, o
Kitab-i-Bahriye, ou “Livro das Matérias Marinhas”, editado sob forma de atlas náutico
que Piri Reis dedicou ao sultão Solimão o Magnífico, em 1526, considerado
perdido, mas recuperado quatrocentos anos mais tarde, em 1929, e conservado
pelo Museu Topkápi de Istambul. A reprodução de seu famoso “Mapa de Piri Reis” ilustra
até hoje bilhetes turcos de 10 milhões de Liras.
Integra a coletânea náutica o mapa das costas americanas, traçado em 1528,
no qual Piri Reis atualizou informações de cartas náuticas portuguesas, pois
ele inclui os descobrimentos feitos por Gaspar de Corte Real, e nele vê-se reproduzidas Cuba e a Flórida, erroneamente também caracterizada como ilha.
A leste do extremo austral da América do Sul (A Terra do Fogo) cuja
reprodução se reconhece “deitada”, percebe-se um conjunto de ilhas,
unanimemente identificadas pelos cartógrafos da atualidade como sendo o Arquipélago
das Malvinas. E a linha imaginária de Tordesilhas não deixa dúvida: pertencia à Espanha; que o legou à Argentina.
17 março 2012
Frederico Füllgraf - Malvinas: trinta anos depois, a guerra continua
No próximo dia 2 de abril, completam-se trinta anos da Guerra das Malvinas (1982), que durou dois meses,
ceifou a vida de 650 argentinos e 255 britânicos, e culminou com a capitulação de
11.313 tropas argentinas – uma derrota humilhante para os generais-torturadores
que ocupavam a Casa Rosada, dando início ao fim da mais sangrenta ditadura dos
anos de chumbo da América Latina, que “desapareceu” com 30 mil opositores
políticos.
Desde o final de 2011, os
governos argentino e inglês esgrimem uma guerrilha de desgaste na mídia internacional, cujo
vitorioso até a véspera do 30º aniversário do conflito, sem sombra de dúvida, é
o Governo Cristina Fernández de Kirchner. Isto porque, apesar da notória
arrogância e irredutibilidade inglesas, trinta anos depois do literal salto no
escuro do ébrio Gal. Leopoldo Galtieri, com sua astúcia e ofensiva diplomática,
a Argentina de Kirchner possui as melhoras cartas: conseguiu provar a violação
de resoluções da ONU pelo Reino Unido, atestar seu desinteressse por novo
enfrentamento armado e sua aposta na mesa de negociações, somando apoios
solidários e incondicionais, não apenas dos países latino-americanos (Unasul,
Aladi e OEA), mas de todo o Atlântico Sul, ao seu papel de soberana legítima
sobre o arquipélago, herdado uti
possidetis mediante sua independência da Espanha (Províncias Unidas, 9 de
julho de 1816), em seguida invadido por piratas ingleses e norte-americanos, que em
1833 expulsaram das ilhas seus primeiros administradores platenses.
Episódio insólito presenciado em
Londres, em junho de 2011, James Peck, filho de um soldado britânico das
Malvinas, casado com uma argentina, naturalizou-se e recebeu das mãos de
Cristina Kirchner a carteina de identidade (DNI), ainda por cima declarando que
a Argentina era o país onde se sentia feliz e que as ilhas ocupadas por sua
família pertenciam a Buenos Aires!
Fazendo coro, no início de 2012, os
países do Mercosul proibiram o atracamento de barcos sob bandeira britânica das
Malvinas em portos do Continente, medida até mesmo endossada pelo governo
direitista de Sebastián Piñera, no Chile. Contudo, a cereja no bolo foi a atração para o salão
nobre da Casa Rosada de ilustres dissidentes de Hollywood (Sean Penn) e do mainstream
musical (Roger Waters, ex-Pink Floyd), fanfarroneando em uníssono, “Las
Malvinas son argentinas!”. Quer dizer: mais ou menos argentinas, porque Waters
disse “should be argentine!”, e depois tentou desdizer-se, mas já era tarde,
sua entrevista já rodava no Youtube... Viento sur! - o garoto de recados da city londrina e mais que insensato “dissidente”
da União Européia, David Cameron, não soube onde esconder sua estampa
humilhada.
No início de fevereiro, via Penguin
News, veio o “troco”: o único jornal dos kelpers
– gentilíco que deriva das algas kelp, cuja
apanha em mais de duzentos anos de ocupação e vandalismo de variadas espécies
da flora e fauna malvinense indica ser o único “valor agregado” pelos pouco mais
de três mil súditos trazidos das Ilhas Britânicas – chamou a Presidente
Kirchner de “bitch”; baixo calão, cuja versão branda significa “cadela”, mas
cuja intenção foi mesmo a de ofender a mais alta dignitária argentina como “puta”.
No início do ano, William Hague, ministro do exterior inglês, realizava afobada
visita ao Brasil e ao Chile, numa desesperada tentativa de reverter o “bloqueio
naval” do Mercosul, seduzindo com as miçangas baratas dos conquistadores nas praias dos gentíos - acordos de cooperação
científica e cultural e intensificação do sofrível comércio bilateral - e a
indisfarçável intenção de “isolar” a Argentina – mas o tiro lhe saiu pela
culatra, quem já estava isolado era o Reino Unido.
Com uma manobra risível, mas truculenta,
Cameron reforçou a carga, destacando para as Malvinas o destroyer de última
geração, HMS Dauntless ("sem medo"), poucas semanas depois, o próprio príncipe (-herdeiro) William,
como demonstração do inequívoco respaldo da decrépita Elisabeth II ao indisfarçável
assalto corsário às ilhas do Atlântico Sul. Jubiloso tiro no pé, a
contraofensiva britânica ilustrou de modo exemplar a acusação de regime colonialista, formulada pelo
Ministro Timerman contra o Reino Unido, reforçando a percepção em escala mundial de que, de fato, com seus 10 “protetorados
em ultramar”, em pleno Terceiro Milênio, a Inglaterra é a mais descarada
potência tardo-colonialista do mundo.
Trinta anos após o enfrentamento
militar nas Malvinas, a Argentina denuncia a hipótese de novo deslocamento de
armamento nuclear – em português curto e grosso: bombas atômicas – pela Inglaterra às Ilhas Malvinas, violando as disposições da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZPCAS) -
estabelecida em 1986 mediante a Resolução 41/11 da Assembléia Geral das Nações
Unidas, encaminhada por iniciativa do Brasil - e do Tratado de
Tlatelolco (1969), que proibem terminantemente a circulação, quanto mais o uso de
armas nucleares na região.
Espectro sinistro, verdadeiramente demencial, durante a Guerra das Malvinas, o Reino Unido deslocara armas nucleares para o
conflito. Para não ferir as disposições do Tratado de Tlatelolco, as bombas
atômicas eram transferidas de belonave para belonave, até a última a aproximar-se da área de enfrentamentos, e até hoje o
governo britânico nega-se a confirmar se o cruzador “Sheffield”, afundado pela
Argentina, não levava a bordo bombas atômicas, que podem estar “dormindo” no
leito do mar que circunda as ilhas. (The Guardian, 6/12/2003 - http://www.guardian.co.uk/politics/2003/dec/06/military.freedomofinformation).
O resgate da soberania argentina sobre as Malvinas é apenas uma
questão de tempo; uma jornada longa e espinhosa. Contudo, o caminho indicado
para o êxito é a mesa de negociações, onde, sem dúvida a duras penas e mediante
concessões aos supostos “nativos”, a Argentina, apoiada pela imensa maioria da
comunidade internacional, subtrairá as ilhas ao controle colonial britânico,
esdrúxulo e decadente.
Trinta anos depois, a Guerra pelas Malvinas continua - mas com outros meios (se o imperiozinho, fátuo e esquálido, não perder a cabeça).
Fotos,
de cima para baixo: prisioneiros de guerra argentinos (1982);
Cristina F. de Kirchner com
James Peck (2011);
William Hague: como cria de
Maggie Thatcher (1982);
Sean Penn com Cristina Kirchner.
16 março 2012
04 março 2012
26 fevereiro 2012
24 fevereiro 2012
Frederico Füllgraf - Soledad Barret, por Benedetti e Viglietti
Memória
No
dia 8 de janeiro de 1973, morria em Recife, assassinada pela ditadura militar
brasileira, a guerrilheira Soledad Barret Viedma. Era neta do ilustre escritor
hispano-paraguaio, Rafael Barret, e tinha 28 anos. Hoje, início de 2012,
Soledad, se viva estivesse, completaria 67 anos de idade, e contaria suas aventuras a seus netos, sentados em seu colo.
Sua brutal execução pelas mãos do famigerado delegado Sérgio Fleury -
torturador cínico, assassino frio - causou
profunda comoção entre os que a conheceram, mas também espanto com a beleza daquela
moça de leve sotaque hispânico, que trabalhava como vendedora em uma casa de
modas do Recife.
Durante
aqueles anos de trevas e chumbo, em que estavam mergulhados os países sul-americanos, a
família Barret-Viedma refugiara-se no Uruguai. Dois uruguaios apaixonados por la muchacha Soledad - o poeta
e escritor, Mario Benedetti, e o cantor e compositor, Daniel Viglietti - dedicaram-lhe versos devotados .
Fleury a executou, mas o mentor sinistro do assassinato foi seu próprio companheiro, o espião e delator, Cabo Anselmo.
Foram duas as mortes de Soledad: ela estava grávida de cinco meses. Da besta Anselmo.
Foram duas as mortes de Soledad: ela estava grávida de cinco meses. Da besta Anselmo.
Muerte de Soledad Barret
Mario Benedetti
Viviste aquí por meses o por años
trazaste aquí una recta de melancolía
que atravesó las vidas y las calles
hace diez años tu adolescencia fue
noticia
gritar viva hitler ni abajo fidel
eran otros tiempos y otros escuadrones
pero aquellos tatuajes llenaron de
asombro
a cierto uruguay que vivía en la luna
y claro entonces no podías saber
la prehistoria de Ibero
ahora acribillaron en recife
de amor templado y pena clandestina
quizá nunca se sepa cómo ni por qué
los cables dicen que te resististe
porque lo cierto es que te resistías
con sólo colocárteles en frente
sólo mirarlos
sólo sonreír
sólo cantar cielitos cara al cielo
con tu imagen segura
pudiste ser modelo
actriz
miss paraguay
carátula almanaque quién sabe cuántas
cosas
pero el abuelo rafael el viejo anarco
y vos sentías callada esos tirones
soledad no viviste en soledad
simplemente se colma de señales
soledad no moriste en soledad
simplemente la izamos en el aire
desde ahora la nostalgia será
para que así aparezcan ejemplares y
nítidas
las franjas de tu vida
ignoro si estarías
cuando la ráfaga de pernambuco
acabó con tus sueños completos
por lo menos no habrá sido fácil
tus ojos donde la mejor violencia
se permitía razonables treguas
para volverse increíble bondad
y aunque por fin los hayan clausurado
soledad compatriota de tres o cuatro
pueblos
el limpio futuro por el que vivías
y por el que nunca te negaste a morir.
Soledad
Daniel Viglietti
La duda lleva mi mano hasta la guitarra,
mi vida entera no alcanza para creer
que puedan cerrar lo limpio de tu mirada;
no existe tormenta ni nube de sangre que puedan
borrar
tu clara señal.
La soledad de mi mano se da con otras
buscando dejar lo suyo por los demás,
que a mano herida que suelta sus armamentos
hay que enamorarla con la mía o todas que los van a
alzar,
que los van a alzar.
Una cosa aprendí junto a Soledad:
que el llanto hay que empuñarlo, darlo a cantar.
Caliente enero, Recife, silencio ciego,
las cuerdas hasta olvidaron el guaraní,
el que siempre pronunciabas en tus caminos
de muchacha andante, sembrando justicia donde no la
hay,
donde no la hay.
Otra cosa aprendí con Soledad:
que la patria no es un solo lugar.
Cual el libertario abuelo del Paraguay
creciendo buscó su senda, y el Uruguay
no olvida la marca dulce de su pisada
cuando busca el norte, el norte Brasil, para
combatir,
para combatir.
Una tercera cosa nos enseñó:
lo que no logre uno ya lo harán dos.
En algún sitio del viento o de la verdad
está con su sueño entero la Soledad.
No quiere palabras largas ni aniversarios;
su día es el día en que todos digan,
armas en la mano: "patria, rojaijú".
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