19 março 2012

Frederico Füllgraf - As Malvinas no misterioso mapa de Piri Reis

Ilustrações, de cima para baixo: Piri Reis; seu Mapa Mundi;
costas das Américas; Terra do Fogo com Malvinas;
Linha de Tordesilhas.

Piri Reis, cujo nome de batismo era Hājjī Mehmet, foi um notável  almirante e cartógrafo otomano, nascido em 1465, em Galípoli, Turquia e, virtualmente, o primeiro mapeador do Arquipélago das Malvinas.
Sobrinho e discípulo de Kemal Reïs, aprendeu a navegar aos doze anos de idade. No auge do expansionismo otomano, participou de numerosas batalhas, entre elas o cerco de Veneza (1499 e 1502),  a guerra aos Cavaleiros de Rodes (“Soberana Ordem Militar e Hospitalar de São João de Jerusalém, Rodes e Malta”, mais conhecida como “Ordem de Malta”, que até os dias atuais desfruta de status diplomático), além do enfrentamento dos assim chamados mamelucos do Egito, em 1523.

Reis foi homem de fina erudição e tinha domínio sobre vários idiomas além do seu, pois falava fluentemente em árabe, grego, espanhol e português.

É muito provável que seu convívio com navegadores espanhóis e portugueses o tenha inspirado a desenhar algumas cartas náuticas e mapas “de ouvido” – todos com algumas deformações na escala Mercator, mas compensadas por espantosa beleza -, porque as esquadras otomanas jamais haviam abandonado os contornos do Mediterrâneo, em direção ao Atlântico.

A maioria destas cartografias ilustra sua obra de maior fama, o Kitab-i-Bahriye, ou “Livro das Matérias Marinhas”, editado sob forma de atlas náutico que Piri Reis dedicou ao sultão Solimão o Magnífico, em 1526, considerado perdido, mas recuperado quatrocentos anos mais tarde, em 1929, e conservado pelo Museu Topkápi de Istambul. A reprodução de seu famoso “Mapa de Piri Reis” ilustra até hoje bilhetes turcos de 10 milhões de Liras.

Integra a coletânea náutica o mapa das costas americanas, traçado em 1528, no qual Piri Reis atualizou informações de cartas náuticas portuguesas, pois ele inclui os descobrimentos feitos por Gaspar de Corte Real, e nele vê-se reproduzidas Cuba e a Flórida, erroneamente  também caracterizada como ilha.

A leste do extremo austral da América do Sul (A Terra do Fogo) cuja reprodução se reconhece “deitada”, percebe-se um conjunto de ilhas, unanimemente identificadas pelos cartógrafos da atualidade como sendo o Arquipélago das Malvinas. E a linha imaginária de Tordesilhas não deixa dúvida: pertencia à Espanha; que o legou à Argentina.


17 março 2012

Frederico Füllgraf - Malvinas: trinta anos depois, a guerra continua


No próximo dia 2 de abril, completam-se trinta anos da Guerra das Malvinas (1982), que durou dois meses, ceifou a vida de 650 argentinos e 255 britânicos, e culminou com a capitulação de 11.313 tropas argentinas – uma derrota humilhante para os generais-torturadores que ocupavam a Casa Rosada, dando início ao fim da mais sangrenta ditadura dos anos de chumbo da América Latina, que “desapareceu” com 30 mil opositores políticos.

Desde o final de 2011, os governos argentino e inglês esgrimem uma guerrilha de desgaste na mídia internacional, cujo vitorioso até a véspera do 30º aniversário do conflito, sem sombra de dúvida, é o Governo Cristina Fernández de Kirchner. Isto porque, apesar da notória arrogância e irredutibilidade inglesas, trinta anos depois do literal salto no escuro do ébrio Gal. Leopoldo Galtieri, com sua astúcia e ofensiva diplomática, a Argentina de Kirchner possui as melhoras cartas: conseguiu provar a violação de resoluções da ONU pelo Reino Unido, atestar seu desinteressse por novo enfrentamento armado e sua aposta na mesa de negociações, somando apoios solidários e incondicionais, não apenas dos países latino-americanos (Unasul, Aladi e OEA), mas de todo o Atlântico Sul, ao seu papel de soberana legítima sobre o arquipélago, herdado uti possidetis mediante sua independência da Espanha (Províncias Unidas, 9 de julho de 1816), em seguida invadido por piratas ingleses e norte-americanos, que em 1833 expulsaram das ilhas seus primeiros administradores platenses.

Episódio insólito presenciado em Londres, em junho de 2011, James Peck, filho de um soldado britânico das Malvinas, casado com uma argentina, naturalizou-se e recebeu das mãos de Cristina Kirchner a carteina de identidade (DNI), ainda por cima declarando que a Argentina era o país onde se sentia feliz e que as ilhas ocupadas por sua família pertenciam a Buenos Aires!

Fazendo coro, no início de 2012, os países do Mercosul proibiram o atracamento de barcos sob bandeira britânica das Malvinas em portos do Continente, medida até mesmo endossada pelo governo direitista de Sebastián Piñera, no Chile. Contudo, a cereja no bolo foi a atração para o salão nobre da Casa Rosada de ilustres dissidentes de Hollywood (Sean Penn) e do mainstream musical (Roger Waters, ex-Pink Floyd), fanfarroneando em uníssono, “Las Malvinas son argentinas!”. Quer dizer: mais ou menos argentinas, porque Waters disse “should be argentine!”, e depois tentou desdizer-se, mas já era tarde, sua entrevista já rodava no Youtube... Viento sur! - o garoto de recados da city londrina e mais que insensato “dissidente” da União Européia, David Cameron, não soube onde esconder sua estampa humilhada.

No início de fevereiro, via Penguin News, veio o “troco”: o único jornal dos kelpers – gentilíco que deriva das algas kelp, cuja apanha em mais de duzentos anos de ocupação e vandalismo de variadas espécies da flora e fauna malvinense indica ser o único “valor agregado” pelos pouco mais de três mil súditos trazidos das Ilhas Britânicas – chamou a Presidente Kirchner de “bitch”; baixo calão, cuja versão branda significa “cadela”, mas cuja intenção foi mesmo a de ofender a mais alta dignitária argentina como “puta”. No início do ano, William Hague, ministro do exterior inglês, realizava afobada visita ao Brasil e ao Chile, numa desesperada tentativa de reverter o “bloqueio naval” do Mercosul, seduzindo com as miçangas baratas dos conquistadores nas praias dos gentíos - acordos de cooperação científica e cultural e intensificação do sofrível comércio bilateral - e a indisfarçável intenção de “isolar” a Argentina – mas o tiro lhe saiu pela culatra, quem já estava isolado era o Reino Unido.

Com uma manobra risível, mas truculenta, Cameron reforçou a carga, destacando para as Malvinas o destroyer de última geração, HMS Dauntless ("sem medo"), poucas semanas depois, o próprio príncipe (-herdeiro) William, como demonstração do inequívoco respaldo da decrépita Elisabeth II ao indisfarçável assalto corsário às ilhas do Atlântico Sul. Jubiloso tiro no pé, a contraofensiva britânica ilustrou de modo exemplar a acusação de regime colonialista, formulada pelo Ministro Timerman contra o Reino Unido, reforçando a percepção em escala mundial de que, de fato, com seus 10 “protetorados em ultramar”, em pleno Terceiro Milênio, a Inglaterra é a mais descarada potência tardo-colonialista do mundo.

Trinta anos após o enfrentamento militar nas Malvinas, a Argentina denuncia a hipótese de novo deslocamento de armamento nuclear – em português curto e grosso: bombas atômicas – pela Inglaterra às Ilhas Malvinas, violando as disposições da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZPCAS) - estabelecida em 1986 mediante a Resolução 41/11 da Assembléia Geral das Nações Unidas, encaminhada por iniciativa do Brasil - e do Tratado de Tlatelolco (1969), que proibem terminantemente a circulação, quanto mais o uso de armas nucleares na região.

Espectro sinistro, verdadeiramente demencial, durante a Guerra das Malvinas, o Reino Unido deslocara armas nucleares para o conflito. Para não ferir as disposições do Tratado de Tlatelolco, as bombas atômicas eram transferidas de belonave para belonave, até a última a aproximar-se da área de enfrentamentos, e até hoje o governo britânico nega-se a confirmar se o cruzador “Sheffield”, afundado pela Argentina, não levava a bordo bombas atômicas, que podem estar “dormindo” no leito do mar que circunda as ilhas. (The Guardian, 6/12/2003 - http://www.guardian.co.uk/politics/2003/dec/06/military.freedomofinformation).

O resgate da soberania argentina sobre as Malvinas é apenas uma questão de tempo; uma jornada longa e espinhosa. Contudo, o caminho indicado para o êxito é a mesa de negociações, onde, sem dúvida a duras penas e mediante concessões aos supostos “nativos”, a Argentina, apoiada pela imensa maioria da comunidade internacional, subtrairá as ilhas ao controle colonial britânico, esdrúxulo e decadente. 

Trinta anos depois, a Guerra pelas Malvinas continua - mas com outros meios (se o imperiozinho, fátuo e esquálido, não perder a cabeça).

Fotos, de cima para baixo: prisioneiros de guerra argentinos (1982);
Cristina F. de Kirchner com James Peck (2011); 
William Hague: como cria de Maggie Thatcher (1982);
Sean Penn com Cristina Kirchner.

24 fevereiro 2012

Frederico Füllgraf - Soledad Barret, por Benedetti e Viglietti



Memória

No dia 8 de janeiro de 1973, morria em Recife, assassinada pela ditadura militar brasileira, a guerrilheira Soledad Barret Viedma. Era neta do ilustre escritor hispano-paraguaio, Rafael Barret, e tinha 28 anos. Hoje, início de 2012, Soledad, se viva estivesse, completaria 67 anos de idade, e contaria suas aventuras a seus netos, sentados em seu colo.

Sua brutal execução pelas mãos do famigerado delegado Sérgio Fleury -  torturador cínico, assassino frio -  causou profunda comoção entre os que a conheceram, mas também espanto com a beleza daquela moça de leve sotaque hispânico, que trabalhava como vendedora em uma casa de modas do Recife.

Durante aqueles anos de trevas e chumbo, em que estavam mergulhados os países sul-americanos, a família Barret-Viedma refugiara-se no Uruguai. Dois uruguaios apaixonados por la muchacha Soledad - o poeta e escritor, Mario Benedetti, e o cantor e compositor, Daniel Viglietti - dedicaram-lhe versos devotados .

Fleury a executou, mas o mentor sinistro do assassinato foi seu próprio companheiro, o espião e delator, Cabo Anselmo. 

Foram duas as mortes de Soledad: ela estava grávida de cinco meses. Da besta Anselmo.



Muerte de Soledad Barret  
Mario Benedetti


Viviste aquí por meses o por años
trazaste aquí una recta de melancolía
que atravesó las vidas y las calles

hace diez años tu adolescencia fue noticia
te tajearon los muslos porque no quisiste
gritar viva hitler ni abajo fidel

eran otros tiempos y otros escuadrones
pero aquellos tatuajes llenaron de asombro
a cierto uruguay que vivía en la luna

y claro entonces no podías saber
que de algún modo eras
la prehistoria de Ibero

ahora acribillaron en recife
tus veintisiete años
de amor templado y pena clandestina

quizá nunca se sepa cómo ni por qué


los cables dicen que te resististe
y no habrá más remedio que creerlo
porque lo cierto es que te resistías
con sólo colocárteles en frente
sólo mirarlos
sólo sonreír
sólo cantar cielitos cara al cielo

con tu imagen segura
con tu pinta muchacha
pudiste ser modelo
actriz
miss paraguay
carátula almanaque quién sabe cuántas cosas

pero el abuelo rafael el viejo anarco
te tironeaba fuertemente la sangre
y vos sentías callada esos tirones

soledad no viviste en soledad
por eso tu vida no se borra
simplemente se colma de señales

soledad no moriste en soledad
por eso tu muerte no se llora
simplemente la izamos en el aire

desde ahora la nostalgia será
un viento fiel que hará flamear tu muerte
para que así aparezcan ejemplares y nítidas
las franjas de tu vida

ignoro si estarías
de minifalda o quizá de vaqueros
cuando la ráfaga de pernambuco
acabó con tus sueños completos

por lo menos no habrá sido fácil
cerrar tus grandes ojos claros
tus ojos donde la mejor violencia
se permitía razonables treguas
para volverse increíble bondad

y aunque por fin los hayan clausurado
es probable que aún sigas mirando
soledad compatriota de tres o cuatro pueblos
el limpio futuro por el que vivías
y por el que nunca te negaste a morir.


Soledad
Daniel Viglietti

La  duda lleva mi mano hasta la guitarra,
mi vida entera no alcanza  para creer
que puedan cerrar lo limpio de tu mirada;
no existe  tormenta ni nube de sangre que puedan borrar
tu clara señal.

La  soledad de mi mano se da con otras
buscando dejar lo suyo por los  demás,
que a mano herida que suelta sus armamentos
hay  que enamorarla con la mía o todas que los van a alzar,
que  los van a alzar.

Una cosa aprendí junto a Soledad:
que  el llanto hay que empuñarlo, darlo a cantar.
Caliente  enero, Recife, silencio ciego,
las cuerdas hasta olvidaron el  guaraní,
el que siempre pronunciabas en tus caminos
de  muchacha andante, sembrando justicia donde no la hay,
donde no la  hay.

Otra cosa aprendí con Soledad:
que la patria no  es un solo lugar.
Cual el libertario abuelo del  Paraguay
creciendo buscó su senda, y el Uruguay
no  olvida la marca dulce de su pisada
cuando busca el norte, el norte  Brasil, para combatir,
para combatir.

Una tercera cosa nos  enseñó:
lo que no logre uno ya lo harán  dos.
En algún sitio del viento o de la verdad
está  con su sueño entero la Soledad.
No quiere palabras largas  ni aniversarios;
su día es el día en que todos  digan,
armas en la mano: "patria, rojaijú".

23 fevereiro 2012

Should I run or not IRAN [it] ... - Hellas the insanity!

Fotomontagem: cbsnews.com

Frederico Füllgraf - Solilóquios de um dinossauro estalinista

Ilustrações: divulgação


Às vezes, como agora, o deputado alcançava arfante seu gabinete instalado num dos corredores do Congresso. Assim terminava suas tardes desde sua indicação para relator sobre a pretendida reforma do Código Florestal. Mal adentrava a antessala de seus assessores e baixava ordens para não receber chamadas telefônicas, desaparecendo em seu escritório atrás da porta trancada. Ali se deixava derrubar na poltrona, cujo espaldar ostentava uma manta com motivos folcóricos da Albânia; recordação de uma visita ao glorioso berço dos operários e camponeses do Camarada Enver Hoxha. De tanto roçar cabeças, a manta começara a puxar fios e suas cores estavam esmaecendo – que tempos aqueles!

Filhos da mãe! – reincopora-se o parlamentar, sorvendo golfadas de água mineral gelada. O gás arranha-lhe a laringe, ele afrouxa o nó da gravata. Que filhos da mãe, esses ambientalistas, alfacinhas! Ainda vai desvendar os meandros da conspiração deles com o imperialismo ianque – ora se vai! Traidores da pátria, querem internacionalizar a Amazônia, já fizeram a cabeça dos índios, inocentes úteis, mas ele – parlamentar do Congresso Brasileiro, comunista e patriota - vai impedir isso, vai abortar essa trama!

O telefone sobre a escrivaninha toca, mas ele deixa tocar até emudecer, e esvazia a garrafa de água mineral. O telefone toca novamente, insistentemente, mas ele está alheado em pensamentos. Araguaia, 1972. A porta para a antessala abre-se, um dos assessores enfia a cabeça na fresta, pede desculpas, mas adverte que “o Aguiar” já ligou duas vezes e pede retorno. Ah, o Aguiar deve estar uma fera... Tem 250 mil alqueires de soja no Mato Grosso, ganhando dinheiro a rodo com a exportação para a China. Quer ganhar mais: pretende avançar sobre uma área de proteção, mas o Ibama não deixa. Ele quer saber se não dá para apressar a tramitação do projeto da bancada ruralista, informa o assessor com expressão marota, e encosta a porta novamente.

China... Onde é que eu estava mesmo? O deputado tenta reincorporar-se. Ah, Araguaia... Bem, mas tudo começou na China. Com aquela maldita teoria do “cerco das cidades pelo campo” e da “guerra prolongada”. Isso lá funcionava no Império do Meio, mas aqui era ridículo – imagine, um bando de sertanejos da Amazônia, maltrapilhos, mal alimentados e mal armados, ameaçarem  tomar São Paulo, irrompendo pela Marginal do Tietê! Mas nós embarcamos naquela canoa furada do Grande Timoneiro, e até hoje estamos procurando os cadáveres dos nossos combatentes caçados e esquartejados na Amazônia profunda. “Estamos”, não, porque faz tempo que eu desisti, e acho uma grande palhaçada essa tal Comissão da Verdade – estão cutucando onça com vara curta, é encrenca certa!

O deputado-relator ergue-se, cansado, caminha até o toalete, tira água do joelho, lava as mãos com o sabonete líquido e mira-se no espelho - onça? Ora, sua expressão está mais para jaguatirica dismilinguida – um tigrinho caboclo, velho e desdentado, um tigre de papel, como dizia o Camarada Mao Tsé Tung...

E agora eles, os chineses, vorazes, estão importando soja plantada em vastas áreas desmatadas onde quarenta anos atrás morreram os nossos – vá entender! “Nossos” é uma apropriação de história e patrimônio que não é lá muito honesta, vaticina o deputado, que à época não passava de um fedelho simpatizante e futuro líder da UNE. Mas deixa pra lá... Voltando ao assunto: quem lucra com o negócio agrícola não é uma cooperativa socialista, como sonhávamos, mas o agrobusiness, um bando de latifundiários conectados via internet à Bolsa de Cereais de Chicago – onde é que eu fui me meter?

É a torturante pergunta na expressão sempre estressada do deputado Aldo Rebelo, recém-nomeado para Ministro dos Esportes, após a queda de seu colega do PCdoB, o Orlandão Pagodeiro.

Onde é que Aldo Rebelo se meteu?

O deputado Aldo Rebelo se meteu no mato sem cachorro, e se perdeu. Essa é a razão de sua fisionomia estressada. Comunista ou burguês? Em favor dos camponeses ou pró-ruralista? Republicano austero ou também atacado pela faible por uma maleta com dinheiro vivo? – eis o excruciante dilema ideológico e ético do deputado comunista.

Cientistas renomados, vinculados à Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), advertem para os inevitáveis impactos ambientais que resultarão do projeto ruralista, mas também para a pressa na tramitação, que impede a população brasileira tomar conhecimento e manifestar-se sobre a matéria que legislará sobre seus interesses.

Se o Senado Federal aprovar sem alterações o projeto da bancada ruralista, à qual o comunista Rebelo emprestou  sua consciência e estampa, o Governo vai...
● anistiar os desmatamentos ilegais, perpetrados até 2008, em áreas de preservação permanente, como as margens de rios e encostas de morro;
● legalizar ocupações urbanas e agrícolas em áreas de risco, como as mesmas encostas e matas ciliares;
● enfraquecer a proteção aos rios, reduzindo a faixa de matas ciliares para até ¼ da largura atual e permitir a ocupação das áreas de aluvião;
● acabar com a proteção de áreas frágeis como restingas, várzeas e topos de morro, comprometendo a estabilidade de solo e a qualidade da água;
● reduzir drasticamente as áreas de reserva de floresta, obrigatórias em propriedades rurais, cuja funcão é preservar o que resta da biodiversidade, fixar veios de água e servir como humilde regular do microclima;
● permitir a “compensação” da Reserva Florestal Legal fora e longe da propriedade rural, liberada então para transformar-se em imensa área desmatada e paulatino deserto de monoculturas de commodities, e,
finalmente,
● obrigar os Municípios a autorizar desmatamentos e ocupações de áreas frágeis, usurpadas para interesses políticos, em detrimento dos da cidadania e do bem comum.

A bancada ruralista, que no Congresso Nacional se articula como poderosa frente classista interpartidária dos senhores da terra no Brasil, quer mudar o Código Florestal para perpetuar a impunidade, não pagando multas por crimes ambientais cometidos, e receber carta branca para o avanço do grande negócio agrário sobre as florestas e áreas verdes do país.

Então, milhões de hectares, em áreas de proteção, cairão nas mãos dos desmatadores, e as imensas áreas já desmatadas não precisarão ser reflorestadas. Eis o cinismo, a aposta na impunidade e o literal tiro no pé da classe ruralista: o descalabro ambiental é tão certo como  2+2 são 4... – mas e eles com “isso”?

Comunismo...
Roger Garaudy, dissidente do PC francês, e seu projeto de um socialismo democrático e humanista, André Gorz - marxista da mais fina cepa e pensador pioneiro do socialismo com face ecológica – e Mikhail Gorbachev, que caminha pelos escombros da União Soviética, mapeando bolsões de radiação nuclear da frota submarina sucatada, a devastação da tundra e das florestas exaltadas pela literatura nativista russa, e só tropeça com aquíferos e rios contaminados pelos combinados da agressiva indústria química do período totalitário – esses nomes, eventos e apelos, essas releituras do marxismo, a rejeição da industrialização a qualquer custo e da “competição entre dois sistemas opostos”, ao preço da mais grave crise ambiental de todos os tempos, com suas alterações do clima global, passaram em brancas nuvens na carreira do deputado Rebelo. Ou, o que é mais provável, ao enxergá-las, o deputado desviou para a calçada do outro lado da rua.

Rebelo...
Nomen est omen – o nome é a sina, zombava um poeta romano. Por isso, no fundo da metade de sua alma vendida ao diabo, o deputado Aldo gostaria de mudar o sobrenome, porque chega de “me rebelo” – o Brasil, aqui e agora, precisa de subordinação à lei da mais-valia. É o que os camaradas chineses, mais espertos depois da Revolução Cultural, entenderam rapidamente. E é por isso que você paga 1,99 por um cabo de extensão “made in China”, cujo equivalente nacional não sai por menos de cinco Reais. Porque lá não tem sindicato pra encher o saco, nem vigilância sanitária ou fiscalização ambiental – por que é que o Steve Jobs mandou montar seus Iphones, e a Nike colar seus tênis por lá – hem? Tem sabor de capitalismo selvagem à la Manchester, mas dá—se um jeito, é o preço a pagar por um Brasil global player.

No canto de seu despacho, a bandeira vermelha do partido é um trapo esmaecido pelo sol e o pó da história; a foice e o martelo, duas ferramentas obsoletas de uma luta de classes que o comunista agora esgrime a soldo dos ruralistas. Porque o Ministro Rebelo e seu partido acreditam piamente no imperativo histórico de uma aliança com a dita “burguesia nacional”, definida como “sujeito revolucionário”. O que fazer com ela depois da tomada do poder? Bem, desde Prestes os tempos mudaram, talvez fosse mais prudente repensar a estratégia e comer na mão dela...

Eis a triste e decadente dialética.

19 fevereiro 2012

Carta do Juíz argentino, Eduardo Luís Duhalde, a Baltasar Garzón


Buenos Aires, 10 de febrero 2012


Querido  amigo: 

Mucho lamenté ayer, no poder estar a tu lado, para transmitirte personalmente lo que siento ante el inicuo y escandaloso fallo de la Sala Penal del Supremo. 


No hablo de condena, porque no es Baltasar Garzón el condenado, sino el sistema judicial español, que ha quedado en evidencia  frente a la comunidad española  e internacional, por su carácter  faccioso y por su servidumbre a las minorías del privilegio,  desnudando su condición  de guardaespaldas  de la negra memoria del franquismo. 


¡Qué enorme distancia, entre tu dignidad de hombre ético y jurista probo,  comprometido con los grandes valores de la Humanidad y estos pequeños hombrecillos togados cumpliendo ese triste papel de marionetas en el gran guiñol de los intereses creados! 


Baltasar, has hecho un enorme servicio al Derecho y a la Justicia. Has dado tu última lección como Juez, de integridad moral y fidelidad a tu conciencia, con el aliento transmitido por aquellos que vieron posible con tu mano firme, romper el silencio  a que fueron ellos también condenados a la negación de los derechos más elementales del ser humano.  Habrás dejado de ser un magistrado, para comenzar la etapa más esplendorosa de tu magisterio. Allí por donde camines, en tus nuevos trasiegos y andaduras los hombres y mujeres de todo el mundo te señalarán diciendo: allí va un hombre justo.  


Hace veinte años, cuando te conocí, aquella noche en que recibimos sendos premios a los Derechos Humanos otorgados por la entonces “Asociación de Derechos Humanos de Madrid” era muy difícil imaginar la enorme deuda de gratitud que alcanzarías en el corazón del pueblo argentino.  


Hoy,  levanto una simbólica copa para brindar, aunque todavía te queda un largo y venturoso futuro, porque ese amigo andaluz, del cual he aprendido tantas cosas nobles, ha entrado por la puerta grande de la Historia.
Con todo mi afecto


Eduardo Luis Duhalde 


Nota: Eduardo Luis Duhalde é Secretário Nacional de Direitos Humanos no Governo Cristina Fernández de Kirchner.