23 fevereiro 2012
Frederico Füllgraf - Solilóquios de um dinossauro estalinista
Ilustrações: divulgação
Às vezes, como agora, o deputado alcançava arfante seu gabinete instalado num dos corredores do Congresso. Assim terminava suas tardes desde sua indicação para relator sobre a pretendida reforma do Código Florestal. Mal adentrava a antessala de seus assessores e baixava ordens para não receber chamadas telefônicas, desaparecendo em seu escritório atrás da porta trancada. Ali se deixava derrubar na poltrona, cujo espaldar ostentava uma manta com motivos folcóricos da Albânia; recordação de uma visita ao glorioso berço dos operários e camponeses do Camarada Enver Hoxha. De tanto roçar cabeças, a manta começara a puxar fios e suas cores estavam esmaecendo – que tempos aqueles!
Filhos da mãe! – reincopora-se o parlamentar, sorvendo golfadas de água mineral gelada. O gás arranha-lhe a laringe, ele afrouxa o nó da gravata. Que filhos da mãe, esses ambientalistas, alfacinhas! Ainda vai desvendar os meandros da conspiração deles com o imperialismo ianque – ora se vai! Traidores da pátria, querem internacionalizar a Amazônia, já fizeram a cabeça dos índios, inocentes úteis, mas ele – parlamentar do Congresso Brasileiro, comunista e patriota - vai impedir isso, vai abortar essa trama!
O telefone sobre a escrivaninha toca, mas ele deixa tocar até emudecer, e esvazia a garrafa de água mineral. O telefone toca novamente, insistentemente, mas ele está alheado em pensamentos. Araguaia, 1972. A porta para a antessala abre-se, um dos assessores enfia a cabeça na fresta, pede desculpas, mas adverte que “o Aguiar” já ligou duas vezes e pede retorno. Ah, o Aguiar deve estar uma fera... Tem 250 mil alqueires de soja no Mato Grosso, ganhando dinheiro a rodo com a exportação para a China. Quer ganhar mais: pretende avançar sobre uma área de proteção, mas o Ibama não deixa. Ele quer saber se não dá para apressar a tramitação do projeto da bancada ruralista, informa o assessor com expressão marota, e encosta a porta novamente.
China... Onde é que eu estava mesmo? O deputado tenta reincorporar-se. Ah, Araguaia... Bem, mas tudo começou na China. Com aquela maldita teoria do “cerco das cidades pelo campo” e da “guerra prolongada”. Isso lá funcionava no Império do Meio, mas aqui era ridículo – imagine, um bando de sertanejos da Amazônia, maltrapilhos, mal alimentados e mal armados, ameaçarem tomar São Paulo, irrompendo pela Marginal do Tietê! Mas nós embarcamos naquela canoa furada do Grande Timoneiro, e até hoje estamos procurando os cadáveres dos nossos combatentes caçados e esquartejados na Amazônia profunda. “Estamos”, não, porque faz tempo que eu desisti, e acho uma grande palhaçada essa tal Comissão da Verdade – estão cutucando onça com vara curta, é encrenca certa!
O deputado-relator ergue-se, cansado, caminha até o toalete, tira água do joelho, lava as mãos com o sabonete líquido e mira-se no espelho - onça? Ora, sua expressão está mais para jaguatirica dismilinguida – um tigrinho caboclo, velho e desdentado, um tigre de papel, como dizia o Camarada Mao Tsé Tung...
E agora eles, os chineses, vorazes, estão importando soja plantada em vastas áreas desmatadas onde quarenta anos atrás morreram os nossos – vá entender! “Nossos” é uma apropriação de história e patrimônio que não é lá muito honesta, vaticina o deputado, que à época não passava de um fedelho simpatizante e futuro líder da UNE. Mas deixa pra lá... Voltando ao assunto: quem lucra com o negócio agrícola não é uma cooperativa socialista, como sonhávamos, mas o agrobusiness, um bando de latifundiários conectados via internet à Bolsa de Cereais de Chicago – onde é que eu fui me meter?
É a torturante pergunta na expressão sempre estressada do deputado Aldo Rebelo, recém-nomeado para Ministro dos Esportes, após a queda de seu colega do PCdoB, o Orlandão Pagodeiro.
Onde é que Aldo Rebelo se meteu?
O deputado Aldo Rebelo se meteu no mato sem cachorro, e se perdeu. Essa é a razão de sua fisionomia estressada. Comunista ou burguês? Em favor dos camponeses ou pró-ruralista? Republicano austero ou também atacado pela faible por uma maleta com dinheiro vivo? – eis o excruciante dilema ideológico e ético do deputado comunista.
Cientistas renomados, vinculados à Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), advertem para os inevitáveis impactos ambientais que resultarão do projeto ruralista, mas também para a pressa na tramitação, que impede a população brasileira tomar conhecimento e manifestar-se sobre a matéria que legislará sobre seus interesses.
Se o Senado Federal aprovar sem alterações o projeto da bancada ruralista, à qual o comunista Rebelo emprestou sua consciência e estampa, o Governo vai...
● anistiar os desmatamentos ilegais, perpetrados até 2008, em áreas de preservação permanente, como as margens de rios e encostas de morro;
● legalizar ocupações urbanas e agrícolas em áreas de risco, como as mesmas encostas e matas ciliares;
● enfraquecer a proteção aos rios, reduzindo a faixa de matas ciliares para até ¼ da largura atual e permitir a ocupação das áreas de aluvião;
● acabar com a proteção de áreas frágeis como restingas, várzeas e topos de morro, comprometendo a estabilidade de solo e a qualidade da água;
● reduzir drasticamente as áreas de reserva de floresta, obrigatórias em propriedades rurais, cuja funcão é preservar o que resta da biodiversidade, fixar veios de água e servir como humilde regular do microclima;
● permitir a “compensação” da Reserva Florestal Legal fora e longe da propriedade rural, liberada então para transformar-se em imensa área desmatada e paulatino deserto de monoculturas de commodities, e,
finalmente,
● obrigar os Municípios a autorizar desmatamentos e ocupações de áreas frágeis, usurpadas para interesses políticos, em detrimento dos da cidadania e do bem comum.
A bancada ruralista, que no Congresso Nacional se articula como poderosa frente classista interpartidária dos senhores da terra no Brasil, quer mudar o Código Florestal para perpetuar a impunidade, não pagando multas por crimes ambientais cometidos, e receber carta branca para o avanço do grande negócio agrário sobre as florestas e áreas verdes do país.
Então, milhões de hectares, em áreas de proteção, cairão nas mãos dos desmatadores, e as imensas áreas já desmatadas não precisarão ser reflorestadas. Eis o cinismo, a aposta na impunidade e o literal tiro no pé da classe ruralista: o descalabro ambiental é tão certo como 2+2 são 4... – mas e eles com “isso”?
Comunismo...
Roger Garaudy, dissidente do PC francês, e seu projeto de um socialismo democrático e humanista, André Gorz - marxista da mais fina cepa e pensador pioneiro do socialismo com face ecológica – e Mikhail Gorbachev, que caminha pelos escombros da União Soviética, mapeando bolsões de radiação nuclear da frota submarina sucatada, a devastação da tundra e das florestas exaltadas pela literatura nativista russa, e só tropeça com aquíferos e rios contaminados pelos combinados da agressiva indústria química do período totalitário – esses nomes, eventos e apelos, essas releituras do marxismo, a rejeição da industrialização a qualquer custo e da “competição entre dois sistemas opostos”, ao preço da mais grave crise ambiental de todos os tempos, com suas alterações do clima global, passaram em brancas nuvens na carreira do deputado Rebelo. Ou, o que é mais provável, ao enxergá-las, o deputado desviou para a calçada do outro lado da rua.
Rebelo...
Nomen est omen – o nome é a sina, zombava um poeta romano. Por isso, no fundo da metade de sua alma vendida ao diabo, o deputado Aldo gostaria de mudar o sobrenome, porque chega de “me rebelo” – o Brasil, aqui e agora, precisa de subordinação à lei da mais-valia. É o que os camaradas chineses, mais espertos depois da Revolução Cultural, entenderam rapidamente. E é por isso que você paga 1,99 por um cabo de extensão “made in China”, cujo equivalente nacional não sai por menos de cinco Reais. Porque lá não tem sindicato pra encher o saco, nem vigilância sanitária ou fiscalização ambiental – por que é que o Steve Jobs mandou montar seus Iphones, e a Nike colar seus tênis por lá – hem? Tem sabor de capitalismo selvagem à la Manchester, mas dá—se um jeito, é o preço a pagar por um Brasil global player.
No canto de seu despacho, a bandeira vermelha do partido é um trapo esmaecido pelo sol e o pó da história; a foice e o martelo, duas ferramentas obsoletas de uma luta de classes que o comunista agora esgrime a soldo dos ruralistas. Porque o Ministro Rebelo e seu partido acreditam piamente no imperativo histórico de uma aliança com a dita “burguesia nacional”, definida como “sujeito revolucionário”. O que fazer com ela depois da tomada do poder? Bem, desde Prestes os tempos mudaram, talvez fosse mais prudente repensar a estratégia e comer na mão dela...
Eis a triste e decadente dialética.
19 fevereiro 2012
Carta do Juíz argentino, Eduardo Luís Duhalde, a Baltasar Garzón
Buenos Aires, 10 de febrero 2012
Querido amigo:
Mucho lamenté ayer, no poder estar a tu lado, para transmitirte personalmente lo que siento ante el inicuo y escandaloso fallo de la Sala Penal del Supremo.
No hablo de condena, porque no es Baltasar Garzón el condenado, sino el sistema judicial español, que ha quedado en evidencia frente a la comunidad española e internacional, por su carácter faccioso y por su servidumbre a las minorías del privilegio, desnudando su condición de guardaespaldas de la negra memoria del franquismo.
¡Qué enorme distancia, entre tu dignidad de hombre ético y jurista probo, comprometido con los grandes valores de la Humanidad y estos pequeños hombrecillos togados cumpliendo ese triste papel de marionetas en el gran guiñol de los intereses creados!
Baltasar, has hecho un enorme servicio al Derecho y a la Justicia. Has dado tu última lección como Juez, de integridad moral y fidelidad a tu conciencia, con el aliento transmitido por aquellos que vieron posible con tu mano firme, romper el silencio a que fueron ellos también condenados a la negación de los derechos más elementales del ser humano. Habrás dejado de ser un magistrado, para comenzar la etapa más esplendorosa de tu magisterio. Allí por donde camines, en tus nuevos trasiegos y andaduras los hombres y mujeres de todo el mundo te señalarán diciendo: allí va un hombre justo.
Hace veinte años, cuando te conocí, aquella noche en que recibimos sendos premios a los Derechos Humanos otorgados por la entonces “Asociación de Derechos Humanos de Madrid” era muy difícil imaginar la enorme deuda de gratitud que alcanzarías en el corazón del pueblo argentino.
Hoy, levanto una simbólica copa para brindar, aunque todavía te queda un largo y venturoso futuro, porque ese amigo andaluz, del cual he aprendido tantas cosas nobles, ha entrado por la puerta grande de la Historia.
Con todo mi afecto
Eduardo Luis Duhalde
Nota: Eduardo Luis Duhalde é Secretário Nacional de Direitos Humanos no Governo Cristina Fernández de Kirchner.
Solidariedade com o Juíz Baltasar Garzón
Juízes latino-americanos se solidarizam com Garzón
A Rede Latino Americana de Juízes (Redlaj), entidade que reúne
juízes de 19 países da América Latina e Caribe, emitiu nota de solidariedade ao
juiz espanhol Baltasar Garzón, condenado pelo Supremo Tribunal espanhol por
ordenar a escuta de conversas de advogados com clientes presos. Garzón não
poderá exercer atividades ligadas à magistratura por 11 anos.
Ao lamentar o veredito do tribunal espanhol, a Redlaj
reconheceu o esforço do juiz espanhol em “diversas causas de Direitos Humanos,
possibilitando seu franco desenvolvimento e reafirmando a consciência
internacional de que os crimes de lesa humanidade devem ser julgados,
independentemente das fronteira”.
Garzón ficou conhecido por ter decretado a prisão do ex-ditador
chileno Augusto Pinochet, em 1998. Além de sua luta em defesa dos direitos
humanos, ganhou fama também por seu estilo justiceiro, e de passar por cima da
lei para atingir seus objetivos.
De acordo com a Justiça da Espanha, Garzón prejudicou o direito
de defesa, ao ordenar a gravação de conversas na prisão entre advogados e seus
clientes, acusados de fazer parte de um esquema de corrupção envolvendo membros
do Partido Popular, que hoje governa o país. O juiz foi acusado, ainda, de
abuso de poder e de desrespeito à Lei de Anistia espanhola de 1977, que
absolveu supostos crimes cometidos durante a ditadura do general Francisco
Franco (1939-1975).
Leia
a nota da Redlaj
PRONUNCIAMIENTO
Lima (Perú) y Belo
Horizonte (Brasil) 14 de febrero de 2012
LA
RED LATINOAMERICANA DE JUECES — REDLAJ, entidad
internacional, con jueces y magistrados representantes en diecinueve países de
América del Sur, Centroamérica, Caribe y México, ante la sentencia emitida por
el Tribunal Supremo Español, contra el Juez Baltasar Garzón, considera
necesario emitir el siguiente pronunciamiento:
Ante el juicio que se
siguió contra el Juez Baltasar Garzón, hemos guardado prudente silencio con la
expectativa que el fallo guarde consonancia con lo actuado en el proceso,
atentos a que quienes juzgaban, integrantes del más elevado Tribunal de
Justicia de España, se encuentran constitucionalmente legitimados.
El resultado del
proceso, no es el esperado por que conocedores de la trayectoria del Juez
Baltasar Garzón, apreciamos el valor y esfuerzo que puso en diversas causas de
Derechos Humanos, posibilitando su franco desarrollo y reafirmando la
conciencia internacional de que los crímenes de lesa humanidad serán juzgados
independientemente de las fronteras.
Nos solidarizamos con
el digno Juez Baltasar Garzón y reafirmamos nuestra vocación de defender los
más caros principios de la jurisdicción: la independencia del Juez, su
autonomía funcional, libertad para interpretar la ley y vocación de impartir
justicia.
Elvia Barrios Alvarado (Perú)
PRESIDENTE
PRESIDENTE
José Eduardo de Resende Chaves Júnior (Brasil)
VICE-PRESIDENTE
VICE-PRESIDENTE
Assine /Firma /
Sign!
10 fevereiro 2012
08 fevereiro 2012
Joaquin Torres García - "Nuestro norte es el Sur"

Acima: Joaquín Torres García: El Sur es el Norte", 1943
Embaixo: Planisfério ou Tabula Rogeriana, Al Idrisi, 1194;
.
"El mapamundi que nos
enseñaron otorga dos tercios al norte y un tercio al sur. Europa es, en el
mapa, más extensa que América latina, aunque en realidad América latina duplica
la superficie de Europa. La India parece más pequeña que Escandinavia, aunque
es tres veces mayor. Estados Unidos y Canadá ocupan, en el mapa, más espacio
que África, y en la realidad apenas llegan a las dos terceras partes del
territorio africano.
El mapa miente. La geografía tradicional roba el espacio, como la economía imperial roba la riqueza, la historia oficial roba la memoria y la cultura formal roba la palabra."
Eduardo Galeano (Patas Arriba)
El mapa miente. La geografía tradicional roba el espacio, como la economía imperial roba la riqueza, la historia oficial roba la memoria y la cultura formal roba la palabra."
Eduardo Galeano (Patas Arriba)
"He dicho Escuela del Sur; porque en realidad, nuestro norte es el Sur. No debe haber norte, para nosotros, sino por oposición a nuestro Sur. Por eso ahora ponemos el mapa al revés, y entonces ya tenemos justa idea de nuestra posición, y no como quieren en el resto del mundo. La punta de América, desde ahora, prolongándose, señala insistentemente el Sur, nuestro norte.
Es decir, olvidar lo del Viejo mundo, y poner toda nuestra esperanza, y nuestro esfuerzo, en crear esta nueva cultura que aquí tiene que producirse. Olvidar artistas y escuelas;
olvidar aquella literatura y filosofía; limpiarse, renovarse; pensar al compás de esta vida que nos circunda […] Deja, pues, autores y maestros, que ya no pueden servirnos, puesto
que nada pueden decirnos de lo que debemos descubrir en nosotros mismo.
Joaquín Torres García (Universalismo constructivo, Buenos Aires, Poseidón, 1944).
05 fevereiro 2012
Frederico Füllgraf - Sobre Gauguin, Charlie Ching e a bomba
Crônica
Era 5 de setembro de
1993, ensolarado, como soem ser quase sempre os dias na Micronésia. Teste
número 124: a terra treme no Taiti. No
subsolo, o ventre do vulcão se contorce, acima dele o mar se agita, deita espuma branca
pela boca. Jovens ensandecidos lançam coquetéis-molotov e bradam:
"Franceses, go home !". Atravesso a madrugada navegando por controle
remoto entre CNN, DW-TV, TV5, TV-E... à procura de imagens, de novidades de
Mururoa. Dá-me vontade de ligar para Charlie, em Papeete, mas a agenda com seu número de telefone está em alguma
caixa da mudança, ainda não desembalada.
Conheci Charlie Ching, um taitiano de
descendência chinesa, em 1987, em Nova York. Ele tinha acabado de sair da
prisão em Papeete, por motivos semelhantes aos de Gauguin, em 1901:
"conspiração contra a ordem colonial" - a do chicote e da escopeta de
1890, e a da bomba atômica do final do séc. 20.
O que segue são apenas devaneios, imagino-os como nota de rodapé subversiva dos
manuais de História da Arte, ou talvez da arte de contar a História de reverso: a crescente identificação do homem Gauguin com o modo de vida natural dos nativos, sua solidariedade com os direitos naturais dos taitianos, pelos quais, quase cem anos depois, Charlie Ching continua a lutar. Durante seus últimos dois anos de vida Gauguin encoraja-os a boicotarem a Igreja (a imposição da moral branca, colonialista) e a administração colonial francesa, que começara exigir o pagamento de impostos. Em 1901, Gauguin choca-se frontalmente com as autoridades francesas, é preso e condenado a pagar uma pesada multa.
O que segue são apenas devaneios, imagino-os como nota de rodapé subversiva dos
manuais de História da Arte, ou talvez da arte de contar a História de reverso: a crescente identificação do homem Gauguin com o modo de vida natural dos nativos, sua solidariedade com os direitos naturais dos taitianos, pelos quais, quase cem anos depois, Charlie Ching continua a lutar. Durante seus últimos dois anos de vida Gauguin encoraja-os a boicotarem a Igreja (a imposição da moral branca, colonialista) e a administração colonial francesa, que começara exigir o pagamento de impostos. Em 1901, Gauguin choca-se frontalmente com as autoridades francesas, é preso e condenado a pagar uma pesada multa.
Trama paralela: Em
1987, Charlie Ching atravessa o Pacífico e os EUA, de costa a costa, para dar
seu testemunho sobre trinta anos de testes nucleares franceses em Mururoa, na 1a. Conferencia Global das Vítimas da Radiação, realizada nos salões do nobre
e decadente Hotel Roosevelt, do Big Apple. O depoimento de Charlie com mais de 45 minutos de duração, inaugura as
filmagens de "Burning Sand" (Areia de Fogo) - uma co-produção entre
Fundação do Cinema Brasileiro, Filmoffice Hamburg e minha produtora. O filme, interrompido e reescrito várias vezes e por vários anos, não tem
prazo para estréia.
A Mururoa de Charlie é como a Pounaouia de Gauguin: uma praia
idílica, onde estão sentadas suas "Duas Mulheres ... ", pintadas em 1891. Não me canso de olhar para elas...
- Parto
com dois anos a mais, mas vinte anos mais jovem... mais bárbaro... Sim, os
selvagens ensinaram muitas coisas ao velho civilizado, muita coisa sobre a
ciência de viver e a arte de ser feliz ! - escreve Gauguin a um marchand de Paris, ao deixar o Taiti pela primeira vez.
Mas no cais do porto de Papete, Tehura, uma bela
vahiné (nativa) e amante abandonada por Gauguin, chora noites sem parar.
Na praia, as "Duas Mulheres"...
A da direita, mais à frente, cruza as pernas na posição de Lotus. Aperta um lenço de seda cor-de-rosa entre as mãos cruzadas, como se fosse o único elo que a mantém amarrada ao mundo material; o olhar ligeiramente desviado para o buraco negro no infinito. Ou para a perda infinita? A cabeça da mulher da esquerda está ligeiramente inclinada, os lábios apertados um contra o outro. Os olhos, semi-cerrados, fitam a areia; eles parecem medir o tamanho da perda. Adivinho sua pergunta, silenciosa: - O que é que eles trazem, que nos faz sentir tão tristes ? E por que nos sentimos tão vazios, de repente?
Na praia, as "Duas Mulheres"...
A da direita, mais à frente, cruza as pernas na posição de Lotus. Aperta um lenço de seda cor-de-rosa entre as mãos cruzadas, como se fosse o único elo que a mantém amarrada ao mundo material; o olhar ligeiramente desviado para o buraco negro no infinito. Ou para a perda infinita? A cabeça da mulher da esquerda está ligeiramente inclinada, os lábios apertados um contra o outro. Os olhos, semi-cerrados, fitam a areia; eles parecem medir o tamanho da perda. Adivinho sua pergunta, silenciosa: - O que é que eles trazem, que nos faz sentir tão tristes ? E por que nos sentimos tão vazios, de repente?
Mururoa
está chegando ao fim, afirmava Roger
Clark, geólogo da Universidade de Leeds/Inglaterra. Enquanto isso, em Tóquio,
Jacques Custeau fazia coro com Chirac e a´escroquerie nucleaire", passeando "fatos" numa coletiva de imprensa: - O fato é que os
testes subterrâneos não contaminam absolutamente nada !
Fato...
Le grand seigneur perde uma rara oportunidade para ficar calado. Repete a dose de 1992, quando navegou pela Amazônia, onde afirmou ter visto "a floresta intacta", enquanto Rondônia ardia em chamas...
Fato...
Le grand seigneur perde uma rara oportunidade para ficar calado. Repete a dose de 1992, quando navegou pela Amazônia, onde afirmou ter visto "a floresta intacta", enquanto Rondônia ardia em chamas...
C'est la vie: le vieux ecologiste, fatigué de la guerre... - ou já teria mudado de lado?
Aliás,
a França sempre teve um olhar esquizóide para a realidade. Lembro-me bem, era
um sábado ensolarado, em abril de 1986. Estava em turnê pela Alemanha, com outro
filme, quando ocorreu o acidente nuclear em Chernobyl (ironicamente, o título
do meu filme era "Dose Diária Aceitável"...). Freiburg, na margem
oriental do Reno, parecia uma cidade deserta. As pessoas não abandonaram suas
casas devido à perigosa nuvem que despejava
césio, estrôncio e outros elementos radioativos sobre a natureza. As
vacas estavam presas nos estábulos, estava proibido beber leite fresco, e na
fronteira com a França batalhões de guardas, que pareciam ter saltado de um set
futurista, barravam os carros sem falar palavra e scannerizavam pessoas e
animais de corpo inteiro com seus contadores Geiger, dos quais pipocava um
estranho ruído. Seleção darwiniana na era nuclear: "liberar os sadios, os
contaminados para o camburão!" (ordem de um oficial do exército, durante exercício de simulação de acidente na usina nuclear em Angra dos Reis, 1990).
O
"Day After" nos apanhara de
surpresa, muitos anos antes do que tínhamos imaginado. Mas do outro lado
do Reno, em Colmar, a festa continuava, uma estranha festa:
feiras de hortigranjeiros, queijos e vinhos,
a população flanando ao ar livre... Então o prefeito rosnou para uma câmera de TV: -
Radioatividade ?! Onde ? Eu não vi, cést l'hysterie des allemands,
monsieur...
Minha última lembrança de Colmar foi um beco, um acordeão e uma canção, acho que era do Jacques Dutronc, cuja letra dizia assim: "Les temps sont flous, les gens sont fous // Ils sont la comme des toutous de Paris a Tombouctou // Quand il s'agit de faire joujou avec des v-new(?)
Minha última lembrança de Colmar foi um beco, um acordeão e uma canção, acho que era do Jacques Dutronc, cuja letra dizia assim: "Les temps sont flous, les gens sont fous // Ils sont la comme des toutous de Paris a Tombouctou // Quand il s'agit de faire joujou avec des v-new(?)
Segunda trama paralela: os usos ditos pacíficos da energia nuclear... Bielorussia. Estatísticas oficiais admitem pelo menos 200 mil pessoas contaminadas, seis anos após o acidente de Chernobyl.
Agora, nos habituaremos a conviver com um novo quadro mental, o retrato das crianças de Chernobyl com a moldura da pós-modernidade: pele coberta por eczemas, pruridos, cabeças sem cabelos, feridas pelo corpo todo, escondidas, é claro, que ninguém gosta de exibir a lepra, radioativa. E este terror ambulante fez Chirac empreender a fuga, atacando os críticos e adversários de testes nucleares: - Estas reações contra a França são histéricas, a verdade ... é que os testes nucleares não oferecem perigo!...
Agora, nos habituaremos a conviver com um novo quadro mental, o retrato das crianças de Chernobyl com a moldura da pós-modernidade: pele coberta por eczemas, pruridos, cabeças sem cabelos, feridas pelo corpo todo, escondidas, é claro, que ninguém gosta de exibir a lepra, radioativa. E este terror ambulante fez Chirac empreender a fuga, atacando os críticos e adversários de testes nucleares: - Estas reações contra a França são histéricas, a verdade ... é que os testes nucleares não oferecem perigo!...
A verdade...
Charlie
Ching em Nova York, 1987: - Temos indicadores, de que no Taiti há milhares de
pessoas contaminadas pela radioatividade. Papete, setembro de 1995: líder do
movimento separatista confirma a morte de 1.200 taitianos por câncer linfático.
Pounaouia,
1899.
Da mata exuberante que dá para a praia, vêm caminhando duas jovens, formosas, daquelas que habitam o imaginário exótico masculino e que atraíram Marlon Brando para uma ilha vizinha. São de uma beleza selvagem, bárbara. Talvez tenham inspirado Gauguin a pendurar aquela plaqueta no pequeno estúdio da Rue Vergintorix, em Paris, onde expôs, em 1894, suas primeiras cinqüenta telas sobre o Taiti: "Te Faruru" (= Aqui se faz amor!). Mas o rosto delas expressa aquela melancolia de todas as nativas: os olhos desviados ligeiramente para algum lado, fitando um ponto no infinito, os pensamentos "descolados" do presente... Oferecem seus "Seios com flores vermelhas" (tela de 1899) com desprendimento, espécie de última dádiva ao invasor, antes que...
Então Gauguin decide colocar na vitrine seu quadro definitivo, o daquela mulher estendida sobre um divã à imagem da gata, felina, de pele eriçada, ardendo, esperando o toque, mas em vão: "Nevermore O. Tahiti", Gauguin fica em Paris, para nunca mais voltar.
Da mata exuberante que dá para a praia, vêm caminhando duas jovens, formosas, daquelas que habitam o imaginário exótico masculino e que atraíram Marlon Brando para uma ilha vizinha. São de uma beleza selvagem, bárbara. Talvez tenham inspirado Gauguin a pendurar aquela plaqueta no pequeno estúdio da Rue Vergintorix, em Paris, onde expôs, em 1894, suas primeiras cinqüenta telas sobre o Taiti: "Te Faruru" (= Aqui se faz amor!). Mas o rosto delas expressa aquela melancolia de todas as nativas: os olhos desviados ligeiramente para algum lado, fitando um ponto no infinito, os pensamentos "descolados" do presente... Oferecem seus "Seios com flores vermelhas" (tela de 1899) com desprendimento, espécie de última dádiva ao invasor, antes que...
Então Gauguin decide colocar na vitrine seu quadro definitivo, o daquela mulher estendida sobre um divã à imagem da gata, felina, de pele eriçada, ardendo, esperando o toque, mas em vão: "Nevermore O. Tahiti", Gauguin fica em Paris, para nunca mais voltar.
04 fevereiro 2012
Martín Fierro - La ley primera
"Los
hermanos sean unidos
porque ésa es la ley primera,
tengan unión verdadera,
en cualquier tiempo que sea,
porque si entre ellos pelean
los devoran los de ajuera."
porque ésa es la ley primera,
tengan unión verdadera,
en cualquier tiempo que sea,
porque si entre ellos pelean
los devoran los de ajuera."
La vuelta de Martín Fierro - José Hernández, 1879
Com o agradecimento de Füllgrafianas a Lota Moncada pelo envio.
Ilustrações: domínio público
01 fevereiro 2012
Albert Camus - (Apesar do absurdo...) é preciso imaginar Sísifo feliz
Ilustração: domínio público
"Deixo Sísifo no sopé da montanha! Encontramos sempre o nosso fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e levanta os rochedos. Ele também julga que tudo está bem. Esse universo enfim sem dono não lhe parece estéril nem fútil. Cada grão dessa pedra, cada estilhaço mineral dessa montanha cheia de noite, forma por si só um mundo. A própria luta para atingir os píncaros basta para encher um coração de homem. É preciso imaginar Sísifo feliz".
30 janeiro 2012
Roger Casement - "England, the enemy of Peace" - Still an unfortunate truth
Sir Roger Casement (1864-1916)
"Inglaterra, a inimiga da paz"
Cap IV - The Crime Against Europe
[...]
I believe England to be the enemy of European peace, and that until her "mastery of the sea" is overmastered by Europe, there can be no peace upon earth or goodwill among men. Her claim to rule the seas, and the consequences, direct and indirect, that flow from its assertion are the chief factors of international discord that now threaten the peace of the world.
In order to maintain that indefensible claim she is driven to aggression and intrigue in every quarter of the globe; to setting otherwise friendly peoples by the ears; to forming "alliances" and ententes, to dissolving friendships, the aim always being the old one, divide et impera.
The fact that Europe to-day is divided into armed camps is mainly due to English effort to retain that mastery of the sea. It is generally assumed, and the idea is propagated by English agencies, that Europe owes her burden of armaments to the antagonism between France and Germany, to the loss of Alsace-Lorraine by France, and the spirit and hope of a revanche thereby engendered. But this antagonism has long ceased to be the chief factor that moulds European armaments.
Were it not for British policy, and the unhealthy hope it proffers France would ere this have resigned herself, as the two provinces have done, to the solution imposed by the war of 1870. It is England and English ambition that beget the state of mind responsible for the enormous growth of armaments that now over-shadows continental civilization. Humanity, hemmed in in Central Europe by a forest of bayonets and debarred all egress to the light of a larger world by a forbidding circle of dreadnoughts, is called to peace conferences and arbitration treaties by the very power whose fundamental maxim of rule ensures war as the normal outlook for every growing nation of the Old World.
If Europe would not strangle herself with her own hands she must strangle the sea serpent whose coils enfold her shores.
Inspect the foundation of European armaments where we will, and we shall find that the master builder is he who fashioned the British Empire. It is that empire, its claim to universal right of pre-emption to every zone and region washed by the waves and useful and necessary for the expansion of the white races, and its assertion of a right to control at will all the seas of all the world that drives the peoples of Europe into armed camps. The policy [pg 38]of the Boer War is being tried on a vaster scale against Europe. Just as England beat the Boers by concentration camps and not by arms, by money and not by men, so she seeks to-day to erect an armourplate barrier around the one European people she fears to meet in the field, and to turn all Central Europe into a vast concentration camp. By use of the longest purse she has already carried this barrier well towards completion. One gap remains, and it is to make sure that this opening, too, shall be closed that she now directs all the force of her efforts. Here the longest purse is of less avail, so England draws upon another armoury. She appeals to the longest tongue in history—the longest and something else.
In order to make sure the encompassing of Europe with a girdle of steel it is necessary to circle the United States with a girdle of lies. With America true to the great policy of her great founder, an America, "the friend of all powers but the ally of none," English designs against European civilization must in the end fail. Those plans can succeed only by active American support, and to secure this is now the supreme task and aim of British stealth and skill. Every tool of her diplomacy, polished and unpolished, from the trained envoy to the boy scout and the minor poet has been tried in turn. The pulpit, the bar, the press; the society hostess, the Cabinet Minister and the Cabinet Minister's wife, the ex-Cabinet Minister and the Royal Family itself, and last, but not least, even "Irish nationality"—all have been pilgrims to that shrine; and each has been carefully primed, loaded, well aimed, and then turned full on the weak spots in the armour of republican simplicity. To the success of these resources of panic the falsification of history becomes essential and the vilification of the most peace-loving people of Europe. The past relations of England with the United States are to be blotted out, and the American people who are by blood so largely Germanic, are to be entrapped into an attitude of suspicion, hostility and resentment against the country and race from whom they have received nothing but good. Germany is represented as the enemy, not to England's indefensible claim to own the seas, but to American ideals on the American continent. Just as the Teuton has become the "enemy of civilization" in the Old World because he alone has power, strength of mind, and force of purpose to seriously dispute the British hegemony of the seas, so he is assiduously represented as the only threat to American hegemony of the New World [...]
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