29 janeiro 2012

W. B. Yeats - Easter 1916

William Buttler Yeats (1865-1939)



I have met them at close of day
Coming with vivid faces
From counter or desk among grey
Eighteenth-century houses.
I have passed with a nod of the head
Or polite meaningless words,
Or have lingered awhile and said
Polite meaningless words,
And thought before I had done
Of a mocking tale or a gibe
To please a companion
Around the fire at the club,
Being certain that they and I
But lived where motley is worn:
All changed, changed utterly:
A terrible beauty is born.

That woman’s days were spent
In ignorant good-will,
Her nights in argument
Until her voice grew shrill.
What voice more sweet than hers
When, young and beautiful,
She rode to harriers?
This man had kept a school
And rode our winged horse;
This other his helper and friend
Was coming into his force;
He might have won fame in the end,
So sensitive his nature seemed,
So daring and sweet his thought.
This other man I had dreamed
A drunken, vainglorious lout.
He had done most bitter wrong
To some who are near my heart,
Yet I number him in the song;
He, too, has resigned his part
In the casual comedy;
He, too, has been changed in his turn,
Transformed utterly:
A terrible beauty is born.

Hearts with one purpose alone
Through summer and winter seem
Enchanted to a stone
To trouble the living stream.
The horse that comes from the road.
The rider, the birds that range
From cloud to tumbling cloud,
Minute by minute they change;
A shadow of cloud on the stream
Changes minute by minute;
A horse-hoof slides on the brim,
And a horse plashes within it;
The long-legged moor-hens dive,
And hens to moor-cocks call;
Minute by minute they live:
The stone’s in the midst of all.

Too long a sacrifice
Can make a stone of the heart.
O when may it suffice?
That is Heaven’s part, our part
To murmur name upon name,
As a mother names her child
When sleep at last has come
On limbs that had run wild.
What is it but nightfall?
No, no, not night but death;
Was it needless death after all?
For England may keep faith
For all that is done and said.
We know their dream; enough
To know they dreamed and are dead;
And what if excess of love
Bewildered them till they died?
I write it out in a verse -
MacDonagh and MacBride
And Connolly and Pearse
Now and in time to be,
Wherever green is worn,
Are changed, changed utterly:
A terrible beauty is born.
Português
PÁSCOA, 1916

Encontrei-vos ao fechar do dia;
Vinham com rostos vívidos
Do balcão ou secretária, por entre
Casas cinzentas setecentistas.
Passei com um acenar de cabeça
Ou palavras de cortesia sem sentido,
Ou então demorei-me um pouco e disse
Palavras de cortesia sem sentido,
E pensei antes de partir
Numa história jocose ou chalaça
Que agradasse a um amigo
À volta do fogo no clube,
Na certeza de que vivíamos
Onde reine o bolbo multicolour.
Tudo mudou, de todo mudou,
E uma terrível beleza nasceu.

II


Essa mulher passava os dias
Em ignorante benevolência,
E as noites em discussão
Até se tornar estridente.
Que voz mais doce que a dela,
Quando, bela e jovem,
Cavalgava com a matilha?
Este homem possuía uma escola
E montava o nosso cavalo alado;
Este outro, seu amigo e seu apoio,
Quase amoderecidos os poderes,
Podia ter, por fim, ganhado fama,
De tão sensível natureza era,
Tão ousado e doce o pensamento.
Este outro homem eu julgava
Um rude e arrogante bêbado,
Que tinha cruelmente ofendido
A quem tenho no coração,
Porém, conto-o no meu canto:
Também ele rejeitou o papel
Na comédia occasional;
Também ele foi, por sua vez, mudado,
De todo transformado:
E uma terrível beleza nasceu.

III

Corações de um só intento,
Ao longo do Verão e Inverno
Parecem de pedra, enfeitiçados,
Alterando a corrente viva.
O cavalo que surge da Estrada,
O cavaleiro, as aves que vão
De nuvem em nuvem rodopiante,
Mudam minuto a minuto;
Uma sombre de nuvem no rio
Muda minuto a minuto.
Um casco que escorrega na borda
E um cavalo chapinha na água;
Mergulham galinhas silvestres
E as fêmeas chamam os machos;
Todos vivem minuto a minuto:
A pedra permanence no meio.


IV

Longo de mais, o sacrifício
Faz do coração uma pedra.
Oh, quando bastará?
Isso cabe ao Céu dizer; a nós,
Murmurar nome após nome
Como a mãe nomeia o filho
Quando, por fim, o sono chega
A membros extenuados.
O que é, senão o anoitecer?
Não, não a noite, mas a morte;
Terá sido afinal a morte inútil?
Pois a Inglaterra pode cumprir,
Apesar de tudo, a palavra.
Sabemos o sonho deles; chega
Saber que sonharam e estão mortos;
E se o excesso de amor,
Por desvairo, os faz morrer?
No meu verso escrevo tudo:
MacDonagh e MacBride
E Connolly e Pearse,
Agora e no tempo por vir,
Onde quer que reine a cor verde,
Mudaram, de todo mudaram:
E uma terrível beleza nasceu.
(trad. João Ferreira Duarte)

22 janeiro 2012

Quando o amor mata - Variação sobre Killer love, de Nicole Scherzinger

fotos: Culo Magazine


«El amor es un pájaro silvestre
al que nadie puede enjaular
Y es completamente en vano llamarlo
Si no quiere contestar
[...]
El amor es gitanillo
que nunca ha conocido ninguna ley,
si tú no me quieres, yo te amo
si yo te amo, ¡ten cuidado!... »

(Habanera de "Cármen", de P. Merimé)

21 janeiro 2012

Silvia Beatriz Adoue * - A Escrita com o Corpo, ou a última metáfora de Rodolfo Walsh

 Foto Rodolfo Walsh, esposa, Lilia Ferreyra: domínio público


(Texto gentilmente cedido pela autora)

Su muerte sí, su muerte fue gloriosamente suya, y en ese orgullo me afirmo y soy quien renace de ella. [2]
Rodolfo Walsh
No es un arma guardada que rememora los disparos, sino un hacer violento, en los cuales la escritura agrede la molicie y espanta los oropeles Daniel Camels
Su cadáver estaba lleno de mundo. [4]
César Vallejo.




Na quinta-feira 24 de março de 1977, a um ano do golpe militar, Rodolfo Walsh passa a limpo a Carta abierta de um escritor a la Junta Militar (in: LINK, 1998) e um conto sobre um homem, Juan, que atravessa o Rio da Prata, excepcionalmente seco, a cavalo, enquanto o rio volta a crescer [5] .
Walsh não publicava ficção desde 1967, quando apareceu Un oscuro día de justicia [6] (1993), o último da série dos irlandeses, que ele pretendia continuar [7] . Mas o conto que agora tem entre mãos, Juan se iba por el río, havia sido pensado em 1967 como o primeiro capítulo de um romance, a “novela séria”, que queria escrever e que ele chamava de “novela geológica”, elaborada por camadas.
El primero de sus temas recoge una tradición oral que los prácticos y baqueanos del Río de la Plata transmiten de padres a hijos: es la historia de un hombre que, a fines del siglo XIX, consiguió atravesar el río a caballo, durante una bajante prodigiosa. [8] (in: LAFFORGUE, 2000: p. 50.)
Nessa retomada da ficção escolhe uma trama das muitas que vinha ruminando por anos, uma história de cavalos e de água. Seu pai, ele contou numa nota autobiográfica, falava com os cavalos, tinha sido morto por um, que o esmagou ao cair após enfiar a pata num buraco. Havia deixado outro cavalo para a família, chamado Mar Negro, que Walsh mesmo levou numa longa viagem para a terra de um parente que poderia ficar com ele (in: LAFFORGUE, 2000: p. 241 et FERREIRA, 1985).
Assina a Carta abierta de un escritor a la Junta Militar com seu nome, sobrenome e número de documento de identidade. Faz muito tempo que não publica seus escritos assinados. Desde que se enquadrou na organização Montoneros, e ainda antes, quando militava no jornalismo da resistência, sua assinatura sumia, indicando ora que o texto era resultado de uma elaboração coletiva, ora que era assumido pelo coletivo da organização. Mas em 1977, e depois da sua polêmica com a direção de Montoneros, começa a escrever o que ele chama de “cartas pessoais”, que circulam entre poucas pessoas e que ele assina. A polêmica de Walsh aponta para o sectarismo e o militarismo da organização, que vem se afastando da população que pretende dirigir. Propõe um “retorno” às massas, desmontando os vínculos de aparato e reconstruindo a confiança a partir de uma relação mais estreita com os não militantes. (in: BASCHETTI, 1994)
Chega a escrever três “cartas pessoais”: Carta a Vicky (in: BASCHETTI, 1994), Carta a mis amigos, (in: LAFFORGUE, 2000) e Carta de un escritor a la Junta Militar. Na que inicia a série, ele expõe seus sentimentos ao ser informado, pelo rádio, da morte da sua filha, também militante montonera. O assunto é a própria dor, que não pode ser contada senão recorrendo a voz de um desconhecido passageiro de trem suburbano, ouvida de relance. A dor, então, pode ser formulada e compartilhada. A segunda, é o relato da morte de Vicky reconstruído por Walsh a partir do testemunho de um soldado que participou do cerco à casa onde ela se encontrava. Na terceira, faz uma análise minuciosa da destruição do país operada pela Junta Militar, a um ano do golpe. A assinatura indica o compromisso pessoal e o texto convoca o leitor a divulgar a carta: tenga la satisfacción de un acto de libertad[9] Assim retoma a proposta da sua polêmica com a direção de Montoneros, ao retornar à relação corpo-a-corpo, olho-no-olho, que tinha sido substituída pela hierarquia e pela concepção militarista que reduz a ação política a um automatismo. Walsh a transforma num ato de liberdade, não de um herói, mas de um homem ou de uma mulher que se atrevem a contradizer aquilo que os poderosos impõem. O que supõe uma decisão pessoal, carregada de subjetividade, que se aproxima a outras decisões pessoais e a outras subjetividades. Vozes que ele recolhe do quotidiano, do indivíduo que se achega a apresentar um testemunho.
Está morando desde o ano anterior numa casa em San Vicente, um subúrbio do grande Buenos Aires, com a sua companheira. Comprou a casa com a identidade de um professor de inglês aposentado. Fez uma horta, plantou alfaces. Na sexta-feira, 25 de março, disfarçado de aposentado, com chapéu de palha, botas e carregando uma pasta de plástico onde leva alguns exemplares da Carta... que acaba de escrever, dirige-se à estação de trem. Na bota, um revólver de pequeno calibre.
Walsh veste o disfarce do homem que alguma vez foi. Afinal, não podemos nos disfarçar senão daquilo que, de alguma maneira, também somos. Ele assume a aparência daquele que foi mais de vinte anos atrás, quando suas opiniões políticas não se traduziam em ação. Um homem que cuidava da sua casa e se interessava pelo xadrez e a literatura policial, um tradutor e editor de relatos de suspense. Em 1956, a voz de um soldado que havia se entrincheirado junto à janela da sua casa o tirou da rotina dessa vida tranqüila. O soldado, a quem o azar havia colocado do lado das tropas leais ao governo militar que tinha derrubado Perón, foi atingido por uma bala. Sentindo-se abandonado pelos colegas e agonizando, sussurrou como para si mesmo: No me dejen solo, hijos de puta [10] . A voz do soldado surpreendeu Walsh. Ele pensava que um soldado “costuma” morrer dizendo¡Viva la Patria! [11] , como os livros contam que morrem os soldados, mas o soldado não se sentia morrendo pela pátria, não tinha identidade espiritual com a causa que defendia com o corpoO incômodo que lhe produziu aquela frase destoante levou Walsh a indagar, enquanto jornalista, pela sorte dos que morreram durante o levantamento. Para isso, teve de trocar de nome, abandonar a casa familiar, a rotina do trabalho e o xadrez com os amigos do bar. A voz do soldado o lançou para além dessa vida tranqüila, cada descobrimento o levava a um compromisso mais profundo. Num princípio, um compromisso pessoal na defesa da verdade que obtinha das testemunhas das injustiças, mas, depois, um compromisso militante para com todos os humilhados e ofendidos. Nisso consistiu para o autor escrever Operación Masacre (2000b), relato dos assassinatos de ‘56: um compromisso que parte da sua própria ação literária, o de recolher a voz desses humilhados e ofendidos. Não falar no seu nome, em representação, mas dar curso a sua enunciação. Assim inaugurou um registro estético e uma maneira de fazer jornalismo.
Modificou sua condição de escritor e sua escrita. Como escreve Walter Benjamin:
Agora, é claro que as opiniões importam muito, mas a melhor opinião nada aporta se não faz algo de útil com aqueles que a sustentam. A melhor tendência é falsa se antes não mostra a atitude a ser seguida. E essa atitude, o escritor apenas pode mostrá-la onde ele demonstra alguma coisa, ou seja escrevendo. (in: BACCEGA, 1998: p. 45)
Em 1965, publicou Esa mujer (in: WALSH, 2000a). Nesse conto, narrado em primeira pessoa, um intelectual visita um militar. O militar sabe onde se encontra o cadáver de Eva Perón, seqüestrado pelas Forças Armadas. O intelectual quer o cadáver. É a forma que ele encontra de ir ao povo, se unir à sua indignação e não mais estar sozinho.
Algún día (pienso en momentos de ira) iré a buscarla. Ella no significa nada para mí, y sin embargo iré tras el misterio de su muerte, detrás de sus restos que se pudren lentamente en algún remoto cementerio. Si la encuentro, frescas altas olas de cólera, miedo y frustrado amor se alzarán, poderosas vengativas olas, y por un momento ya no me sentiré solo, ya no me sentiré como una arrastrada, amarga, olvidada sombra [12] (in: WALSH, 2000a)
O cadáver escamoteado é metáfora da verdade. Um corpo no lugar de uma escrita. Mas o corpo também escreve. O conto é relato de um acontecimento real, ao qual a escrita lhe dá sentido. Walsh esteve mesmo na casa do militar e negociou com ele. Mas é no conto onde ele estabelece as suas lealdades e explica seus motivos: escrita sobre escrita, ação e registro, quando o registro também é ação e a ação se articula como uma escrita, suporte que é de metáforas poderosas.
Mas isso foi há muito tempo. Já estamos no caminho para a estação e Walsh encontra com o dono da imobiliária que lhe vendeu a casa, quem lhe entrega a escritura. Ele a guarda na pasta de plástico. Não dá tempo para retornar e deixar os papéis na sua casa, os horários não lhe permitem esse luxo.
Walsh e sua mulher pegam o trem e descem na estação Constitución, na capital. Ali despedem-se: ele tem um encontro. O encontro está “envenenado”. Um companheiro o entregou na mesa de tortura. O escritor caminha pela rua San Juan, em direção a Entre Rios. Em Sarandí, um grupo de policiais e marinhos o emboscam. Walsh responde ao fogo com o revólver calibre 22 que guarda na sua bota. O pequeno calibre da sua arma não é páreo para o armamento dos marinhos e policiais, mas serve para alguma coisa: está decidido a não se deixar prender vivo. Como fez sua filha, em setembro do ano anterior, escolhe não se entregar.
Antes poderia ter saído do país, o que não teria sido desonroso. Mas preferiu permanecer e trabalhar na ANCLA, a Agência de Notícias Clandestina, desde onde fazia, junto com sua equipe, tarefas de informação e contrainformação. E na Cadena de Notícias, rede de circulação de notícias de caráter horizontal. Prefere escrever as “cartas pessoais” e retomar a ficção com Juan se iba por el río. O seu jeito de ir pelo rio é o de se internar mais e mais no território do seu país, como tinha feito com seu pai, na sua infância, atravessando a cavalo as lacunas do Sul da província de Buenos Aires (FERREIRA, 1985).
Talvez já nem esteja enxergando direito, continua atirando até que acabam as balas. E talvez pense nas cartas ou tenha lembrado dos papéis da casa que carrega na pasta. Também é possível que lembre de Vicky nessa hora. Mas também é provável que esteja pensando num último galope desatado, pelo leito de um rio subitamente convertido numa pampa sem limites.
Depois, é visto mal ferido por prisioneiros na Escuela de Mecánica da Armada, junto a uma grande quantidade de papéis roubados da sua casa de San Vicente, cujo endereço é descoberto pelos papéis da imobiliária que leva na sua pasta. Somem com seu corpo e com os seus escritos inéditos. Ambos perigosos, ambos juntos, indissoluvelmente unidos, para sempre.


[1] Este trabalho é subproduto de um estudo mais extenso, em andamento, sobre Rodolfo Walsh: RODOLFO WALSH, el criptógrafo –Literatura y realidad.
[2] Tradução da autora do artigo: Sua morte sim, sua morte foi gloriosamente sua, seguro-me nesse orgulho e sou quem renace dela. Walsh refere-se ao sentido da morte da sua filha, após relata-la aos seus amigos (Carta a mis amigos in: BASCHETTI,  1994: p. 191).
[3] Tradução da autora do artigo: Não é uma arma guardada que lembra os tiros, mas um fazer violento, nos quais a escrita agride a molície e espanta os enfeites. (CAMELS, 2001).
[4] Tradução da autora do artigo: Seu cadáver estava cheio de mundo.
[5] O original e único exemplar deste conto permanece seqüestrado pelos militares que vasculharam a sua casa em San Vicente em 25 de março de 1977.
[6] O publicou na revista Adán, uma revista “masculina”, entre fotos e matérias mais ou menos eróticas.
[7] Em entrevista a Piglia, em 1967, fala sobre as suas idéias para continuar a série (in: PIGLIA, 1993).
[8] Tradução da autora do artigo: O primeiro dos seus temas recolhe a tradição oral que os práticos e conhecedores do Rio de la Plata transmitem de pai para filho: é a história de um homem que, no final do século XIX, conseguiu atravessar o rio a cavalo durante uma grande decida do nível da água.
[9] Tradução da autora do artigo: tenha a satisfação de um ato de liberdade.
[10] Tradução da autora do artigo: Não me deixem sozinho, filhos da puta.
[11] Tradução da autora do artigo: Viva a Pátria!
[12] Tradução da autora do artigo: Algum dia (penso em momentos de ira) irei procurar-la. Ela nada significa para mim,porém irei atrás do mistério da sua morte, atrás dos seus restos que apodrecem lentamente nalgum remoto cemitério. Se a encontrar, frescas altas ondas de cólera, medo e frustrado amor levantarão-se, poderosas vingativas ondas, e por um momento já não me sentirei só, já não me sentirei como uma arrastada, amargurada, esquecida sombra.


Silvia Beatriz Adoue, é pedagoga, historiadora e ensaista argentina, há 30 anos radicada no Brasil. Foi metalúrgica, gráfica e professora primária em Grand Bourg (Provincia de Buenos Aires). Licenciada em Matemática pela USP, fez Mestrado em Integração da América Latina no PROLAM/USP e doutorou-se em Letras pela FFLCH/USP com a Tese, “Rodolfo Walsh, o criptógrafo-relações entre escrita e ação política na obra de Rodolfo Walsh”. Leciona na Escola Nacional Florestan Fernandes do MST.

16 janeiro 2012

Rodolfo Walsh - Guevara






Buenos Aires, octubre de 1967.

¿Por quién doblan las campanas? Doblan por nosotros. Me resulta imposible pensar en Guevara, desde esta lúgubre primavera de Buenos Aires, sin pensar en Hemingway, en Camilo, en Masetti, en Fabricio Ojeda, en toda esa maravillosa gente que era La Habana o pasaba por La Habana en el 59 y el 60. La nostalgia se codifica en un rosario de muertos y da un poco de vergüenza estar aquí sentado frente a una máquina de escribir, aun sabiendo que eso también es una especie de fatalidad aun si uno pudiera consolarse con la idea de que es una fatalidad que sirve para algo.

Lo veo a Camilo, una mañana de domingo, volando bajo en un helicóptero sobre la playa de Coney Island, asomándose muerto de risa y la muchedumbre que gozaba con él desde abajo. Lo oigo al viejo Hemingway, en el aeropuerto de Rancho Boyeros, decir esas palabras penúltimas: "Vamos a ganar, nosotros los cubanos vamos a ganar". Y ante mi sorpresa: "I’m not a yankee, you know".


Interminablemente veo a Masetti en las madrugadas de Prensa Latina, cuando ya se tomaba mate y se escuchaba unos tangos, pero el asunto que volvía era el de esa revolución tan necesaria, aunque hoy se presenta tan dura, tan vestida con la sangre de la gente que uno admirado simplemente quiso.


Nunca sabíamos en Prensa Latina, cuándo iba a venir el Che, simplemente caía sin anunciarse, y la única señal de su presencia en el edificio eran dos guajiritos con el glorioso uniforme de la sierra, uno se estacionaba junto al ascensor, otro ante la oficina de Masetti, metralleta al brazo. No sé exactamente por qué daban la impresión de que se harían matar por Guevara, y cuando eso ocurriera no sería fácil.


Muchos tuvieron más suerte que yo, conversaron largamente con Guevara. Aunque no era imposible ni siquiera difícil yo me limite a escucharlo, dos o tres veces, cuando hablaba con Masetti. Había preguntas por hacer pero no daban ganas de interrumpir o quizá las preguntas quedaban contestadas antes de que uno las hiciera. Sentía lo que él cuenta que sintió al ver por única vez a Frank País: sólo podría precisar en este momento que sus ojos mostraban enseguida el hombre poseído por una causa y que ese hombre era un ser superior. Yo leía sus artículos en Verde Olivo, lo escuchaba por TV: Parecía suficiente, porque Che Cuevara era un   hombre sin desdoblamiento. Sus escritos hablaban con su voz, y su voz era la misma en el papel o entre dos mates en aquella oficina del Retiro Médico.


Creo que los habaneros tardaron un poco en acostumbrarse a él, su humor frío y seco, tan porteño, debía caerles como un chubasco. Cuando lo entendieron, era uno de los hombres más queridos de Cuba.


De aquel humor se hacia la primera víctima. Que yo recuerde, ningún jefe de ejército, ningún general, ningún héroe se ha descrito a sí mismo huyendo en dos oportunidades. Del combate de Bueycito, donde se le trabo la ametralladora frente a un soldado enemigo que lo tiroteaba desde cerca, dice: "mi participación en aquel combate fue escasa y nada heroica, pues los pocos tiros los enfrenté con la parte posterior del cuerpo". Y refiriéndose a la sorpresa de Altos de Espinosa: "no hice nada más que una retirada estratégica a toda velocidad en aquel encuentro". Exageraba él estas cosas, cuando todos sabían que acaba de recordar Fidel, que lo difícil era sacarlo del lugar donde hubiera más peligro. Dominaba su vanidad como el asma.

En esa renuncia a las últimas pasiones, estaba el germen del hombre nuevo que hablaba.

Guevara no se proponía como un héroe: en todo caso, podía ser un héroe a la altura de todos. Pero esto, claro, no era cierto para los demás. Su altura era anonadante: resulta más fácil a veces desistir que seguirlo, y lo mismo ocurría con Fidel y la gente de la Sierra. Esta exigencia podía ponernos en crisis, y esa crisis tiene ahora su forma definitiva, tras los episodios de Bolivia.


Dicho más simplemente: nos cuesta a muchos eludir la vergüenza, no de estar vivos porque no es el deseo de la muerte, es su contrario, la fuerza de la revolución, sino de que Guevara haya muerto con tan pocos alrededor. Por supuesto, no sabíamos, oficialmente no sabíamos nada, pero algunos sospechábamos, temíamos. Fuimos lentos, ¿culpables? Inútil ya discutir la cosa, pero ese sentimiento que digo está, al menos para mí y tal vez sea un nuevo punto de partida.


El agente de la CIA que según la agencia Reuter codeó y panceó a cien periodistas que en Valle Grande pretendían ver el cadáver, dijo una frase en inglés: "awright, get the hell out of here".


Esta frase con su sello, su impronta, su marca criminal, queda propuesta para la historia. Y su necesaria réplica: alguien tarde o temprano se irá al carajo de este continente. No serán los que nacieron en él. No será la memoria del Che.


Que ahora está desparramado en cien ciudades entregado al camino de quienes no lo conocieron.



El presente texto fue extraído de una recopilación de artículos sobre el Che Guevara publicado por la Casa de las Américas en 1986.

15 janeiro 2012

Guerra contra o Euro (VII) - Agências de notação, uma quadrilha americana



Fear of the Executioners

The Sinister Power of the Rating Agencies

By Michaela Schiessl, Christoph Schult and Thomas Schulz

As the debt crisis worsens, governments fear the rating agencies, which have the power of life and death over whole economies. The Big Three helped to cause the 2008 financial crisis and are now accused of worsening the euro zone's woes. But a look behind the scenes shows that there are few alternatives to the mighty agencies.


The man who will decide on the financial health of entire countries this summer wears dark suits and square wire-rimmed glasses. He has graying hair, but his face is youthful. He speaks in a sonorous baritone tinged with a southern German accent. Yes, this ratings guru is from Germany.


His name is Moritz Kraemer and he makes a friendly and relaxed impression. But when his critics talk about Kraemer's work, they characterize him as "highly dangerous" and a "firebrand," one of those murderous men "who destabilize all of Europe." His powerful opponents include the German chancellor, the president of the European Commission and the French head of state, to name just a few.


Kraemer is the head of the European sovereign credit ratings unit at Standard & Poor's. Together with his colleagues at the rating agency, he has helped ensure that Greek government bonds are now seen as "junk" and those from Portugal and Ireland are rated only slightly better. Being saddled with such a low rating makes it far more difficult for these countries to take out additional loans.


Kraemer and his team have repeatedly downgraded Greece's credit rating over the past two years -- and each step down the rating ladder has escalated the European debt crisis. "That was really rough," Kraemer admits in a surprisingly calm manner, "but we're simply obligated to promptly inform investors of our opinion of the risks involved." Kraemer assesses the creditworthiness of countries and addresses the question of how likely it is that they will become insolvent. Working with his colleagues, he takes hundreds of pieces of data, combines this with people's views and opinions, and finally distills this to a rating. The highest rating, AAA, has become the ultimate seal of approval. From there it goes downhill over nearly two dozen rungs to D, for default. Germany is rated AAA. Greece is hovering just above D.


Repercussions for Whole Continents


Kraemer's job is normally a rather low-profile position that is only important for bond dealers, central bankers and other financial professionals. But these are no ordinary times. The currency market is teetering on the brink of disaster and suddenly everything Kraemer does has repercussions for entire countries -- and even continents.


Ever since he and his colleagues downgraded the US government's AAA sovereign credit rating on the Friday before last, shockwaves have been reverberating around the globe. Stock markets are plunging and politicians are dashing from one crisis summit to the next. When the rating agencies give the thumbs-down, the markets are obliged to follow. Indeed, most investors have no choice but to rely on the assessments of rating agencies. Their role is enshrined in countless statutes and regulations stating that institutions such as banks, insurance companies and pension funds may only invest in companies, financial securities and government bonds that are classified as practically risk-free. If the rating falls, they are forced to sell.


This gives enormous power to this tiny sector. The agencies' verdict decides whether, and at what price, a country can raise money on the capital markets -- and if the crisis will continue to escalate. If a country is downgraded, this price rises, which exacerbates its plight -- which could in turn lead to the next downgrading.


The governments of the euro zone, which are struggling to find a way out of the crisis, are forced to watch helplessly from the sidelines as the rating agencies make life more difficult for them. When they moved to have private-sector creditors shoulder part of the burden of a new aid package for Greece, the rating agencies threatened to give Greece a "default" rating, which would have caused renewed turmoil in the markets. It took intense negotiations to hammer out a compromise.


To make matters worse, all of this power lies largely in the hands of three private companies that have their headquarters in the US: Standard & Poor's (S&P), Moody's and Fitch (which has dual headquarters in New York and London). They form the infernal trio of the financial world.
Is it acceptable for so much power to be concentrated in private companies whose objective is not a stable financial system, but their own profit? Or is this precisely what global public finances need: an independent oversight that forces governments to tighten their belts and keep their budgets in order? Americans are only beginning to truly ask these questions now. The debate has been raging in Europe for months, however. European politicians across the political spectrum have harshly condemned the agencies, arguing that they are a threat to the global financial system and that they fuel the bloodletting on the markets.


These critics contend that in the run-up to the 2008 crash, the agencies helped spark the crisis by giving far too lenient ratings to American mortgage-backed securities. Now, they say that the agencies are being too harsh -- and are thus again responsible for widespread misery.


'You Need to Have a Thick Skin'


What effect does this have on Kraemer? Can he still sleep at night? And when he sees protests and street battles in Greece and Spain, does he feel partly responsible?
"No," says Kraemer. "You need to have a thick skin in that respect. Countries don't have to trim their budgets for our sake, but because they have accumulated too many debts."
Kraemer's office is located on the 27th floor of the Frankfurt Main Tower. The view extends all the way to the Taunus mountain range, but Kraemer is rarely here. Instead, he spends much of his time traveling around the world. "At least once a year we send a team to every country that is rated by S&P," he explains.


Many doors are opened for Kraemer, right up to the heads of government: "Ministers brief us on policy guidelines." He says that this dialogue with the governments is part of the rating process. "We of course listen to what they have to say -- anything else would be unreasonable."
At the same time, he adds, the rating agency doesn't rely too much on the plans and data presented during these visits. "We make our own analytical decisions."


'There Were No Calculation Errors'


That's hardly surprising. After all, many official figures are questionable. It's been common knowledge for some time that Greece's deficit figures were unrealistic. But how do you rate a country in such cases? "If the flow of information is too slow, we don't pull a rating out of a hat," says Kraemer, explaining that S&P withdrew its rating for Libya for this very reason. In the case of Greece, he adds, "there was, in our opinion, sufficient information available for an assessment."


Apparently, the information didn't shed a positive light on the country: In only 500 days, S&P downgraded its rating of Greece by seven notches. "The situation in Greece deteriorated much faster and more dramatically than was initially apparent," says Kraemer. "From today's perspective, though, no one would say that these steps were exaggerated."
Generally speaking, Kraemer also sees very few problems with the work of his agency -- not even with the fact that S&P initially apparently misinterpreted the US federal deficit. When analysts decided to lower the long-term sovereign credit rating for the first time from AAA to AA+, the US Treasury immediately sounded the alarm and contended that S&P had made a $2 trillion (€1.4 trillion) error in its calculations of the country's future debt. The agency asked for a few hours to think it over. It then confirmed the downgrade, but the reason had suddenly changed. Now, instead of highlighting its financial calculations, the agency cast doubt on the country's political leadership.


"There were no calculation errors," Kraemer says. "We only used an alternative scenario to examine the anticipated growth in expenditure." The reaction from politicians is not surprising, he says: "If there is bad news, they often first try to play it down and discredit the analysis." The US Treasury sees things differently: "They (S&P) have handled themselves very poorly and they've shown a stunning lack of knowledge about basic US fiscal budget math," said Treasury Secretary Timothy Geithner.


Reproduzido de DER SPIEGEL, 16/08;2011
http://www.spiegel.de/international/business/0,1518,780304,00.html

Guerra contra o Euro (VI) - A guerra psicológica ilustrada

US covert dirty war


Ilustrações: domínio público