02 janeiro 2012
Sergi Pàmies - Clima ruim na Literatura
A mudança climática é um gênero literário com seus personagens, como a geleira e a desertificação, e seus críticos, popes e pontífices.
A mudança climática é um gênero literário. Sua decadência é discutida em fóruns internacionais e as notícias que tratam de sua existência convidam a pensar que ela acabará em catástrofe. Exatamente como o romance. Exatamente como a literatura de um modo geral. Exatamente como quase todas as línguas nas quais se escrevem os romances em particular e as literaturas em geral. Um dos protagonistas desta história de paixões e indiferenças é o aquecimento do planeta, narrador onisciente, um tipo duro e sem escrúpulos. Não se trata de um protagonista qualquer. Ele tem o poder de fazer com que nos sintamos culpados, uma vez que, assim como a literatura e Frankenstein, foi criado pelo homem.
A mudança climática mescla elementos de romance histórico mas, em muitos aspectos, é pura ficção científica. Sabe-se como começou, mas a partir de então o argumento se perde em digressões experimentais próprias do nouveau roman ou do realismo mágico. Afinal, o aumento do nível do mar e a inundação de regiões e países inteiros é algo que a Bíblia já previu, e, mais recentemente, Gabriel García Márquez. No que diz respeito ao aumento das temperaturas e à mudança dos hábitos alimentares, a melhor ficção científica já os anunciou sem a necessidade de contar com diretores de marketing tão eficazes e em evidência como Al Gore.
Al Gore é, para a mudança climática, o mesmo que Harold Bloom para a literatura. Fixa os cânones, influencia a comunidade dos especialistas e cria mensagens que se espalham com a potência de uma epidemia. Fisicamente, contudo, Bloom e Gore não são parecidos. O primeiro poderia ser o rei de um país autárquico e ficcional (primo-irmão de Orson Welles), ao passo que o segundo parece um fabricante de impressoras, adepto de tratamentos cosméticos faciais. Para o leitor da presente história, os ganchos argumentativos certamente se multiplicam. As emissões de CO2, por exemplo, configuram um personagem fascinante. Inventadas pelo homem, estimuladas por sua vontade irrefreável de ambição e enriquecimento, elas acabaram com o equilíbrio e ameaçam alterar a biosfera. A potência do personagem, ademais, pode ser vislumbrada em metáforas perfeitas, graficamente agressivas e com uma alta carga dramática: chaminés industriais cuspindo seus canhões de fumaça ao céu virgem, ou engarrafamentos automobilísticos somando a maldade de milhões de escapamentos.
Outro dos meus personagens favoritos é a geleira que, depois de resistir durante milhares de anos, está se fendendo. Já vimos a cena centenas de vezes na televisão: o compacto geleiro, filho, neto e bisneto de geleiras ancestrais, limitado por um fundamento natural de águas límpidas e gélidas, se rompe e, ruidosamente, despenca contorcendo-se de dor, dramaticidade e impotência. Em câmera lenta, e sublinhada por uma trilha sonora tendenciosamente depressiva, a imagem transmite ainda mais dor. A cena já faz parte de nossos pesadelos, e temos todo o direito de suspeitar que, assim como nas melhores intrigas de um romance noir, alguém se encarregou de repetir a mesma cena um punhado de vezes para manipular os elementos de um crime que todos nós podemos ter cometido. Ficamos encantados em ver a cena de novo, e sentimos falta de alguns pinguins saltando desesperada e disciplinadamente ao mar, sem dúvida para completar a sensação de suicídio coreográfico.
A mudança climática é insaciável. Sua estrutura narrativa é antropofágica: ela precisa devorar-se a si mesma para manter os níveis de intriga, angústia e esperança que preocupam um número cada vez maior de leitores. No princípio, fazíamos pouco caso dela. Alguém nos falava da mudança climática, mas não lhe dávamos importância. No entanto, ela foi impondo aos poucos seu poder de sedução, aliás mais próximo daquele que caracteriza os vilões do que os heróis. E ali está ela, crescendo a cada dia, brincando com nosso medo e nos mantendo na incerteza, invadindo nossos esbanjamentos aprazíveis e egoístas. Assim como os melhores livros, ela nos obriga a nos fixar em sucessivas evoluções, nos seduz com novas reviravoltas no enredo, cada vez mais complexas se comparadas às anteriores, cada vez mais surpreendentes.
A desertificação, por exemplo, que grande personagem! Graças à tecnologia informática, podemos visualizar seus efeitos devastadores. Seu encanto nos obriga a fixar a tela sem pestanejar. De modo geral, vemos uma cidade agradável em um belo dia de sol. As pessoas passeiam pela rua. Os pássaros cantam. As hipotecas são pagas pontualmente. As equipes da limpeza municipal recolhem o lixo previamente selecionado pelos cidadãos. Tudo parece normal. E, de repente, uma voz em off, com ênfase pseudocientífica e a teatralidade de um médico especialista anunciando um tumor, nos diz que, por culpa da desertificação provocada pela mudança climática, a cidade será arrasada por um sol implacável e por temperaturas que nos obrigarão a mudar nosso modo de vida. E então, depois de uma rajada de efeitos especiais, vemos a mesma cidade, assada como a costela de um churrasco, chamuscada por seus próprios excessos, vítima das iras do clima. Nessas reconstruções fictícias de desastres futuristas, nunca vemos uma cidade asquerosa, corrupta, uma espécie de Gotham City sombria e degenerada, salva pelo aquecimento do planeta. Não seria comercial, não teria o caráter atraente da catástrofe, o sensacionalismo dos melhores argumentos de best-sellers. Se fôssemos a um produtor de filmes e lhe disséssemos que queremos contar a história de uma mudança climática que, em vez de prejudicar, melhora as condições de vida, ele nos diria que ela não é verossímil, que ele não investirá dinheiro nisso e que os adolescentes devoradores de pipoca jamais pagarão para ver uma história de terror sem medo.
A mundança climática nunca se apaixona. Os leitores estão fartos de sentimentalismos e romantismos, e adoram os tipos implacáveis que não se detêm diante de nada e que, apesar dos obstáculos, seguem avançando. E ali está ela, proporcionando estatísticas negativas sem cessar, multiplicando seus efeitos para desmentir qualquer interpretação positiva, fornecendo carniça aos amantes de histórias fortes, sórdidas e desesperadas. Trata-se, ademais, de um romance que jamais termina. Começou com pequenas anedotas, mas, lentamente, passamos a ver que o drama era maior, que estava em todo lugar, estendendo seus tentáculos bem além do óbvio. Se combatem a mudança climática, ela se torna mais forte. Se tentam enganá-la, ela se rebela. Nem mesmo Steven Spielberg poderia filmar esse romance. E, se o fizesse, veríamos populações inteiras olhando pela janela e, por sua expressão, adivinharíamos que se trata de um monstro impossível de ser descrito e do qual entenderíamos apenas o medo que produz, o terror que sugere. Ninguém tentaria fugir porque, vá você para onde for, a mudança climática o encontrará, se meterá dentro de você, violará seus filhos e seus pais, roubará suas economias, destruirá suas propriedades e o converterá naquilo que você é: um ser assustado e temeroso diante da previsão meteorológica.
A mudança climática é uma forma de medo verossímil. Existem outras, e todas são justificadas com argumentos mais ou menos científicos. Um dos luxos de nossa época é que os medos se multiplicam. Nos livros de Asterix e Obelix, o único medo era que o céu caísse sobre a cabeça dos gauleses. É o primeiro prenúncio da mudança climática intimidante. A peculiaridade da mudança climática é que ela intervém em outros medos. Se antes tínhamos medo de morrer ou de ficar arruinados, agora sofisticamos esses temores e pensamos que morreremos de sede e ficaremos arruinados porque as secas e os tufões acabarão com nossas propriedades. Há imagens que confirmam tudo isso: Nova Orleans, Birmânia. A televisão estará sempre presente para colher todas as imagens que, devidamente manipuladas, alimentarão a indústria do terror meio ambiental. Isso tem justificativa? Mas é claro. Em nome da divulgação e da pedagogia são ditas muitíssimas verdades, porém, além disso, elas são empanadas com a farinha de rosca dos interesses. Como é possível assustar uma população já cética e desconfiada? Exagerando ainda mais e, com o talento de um Stephen King, fazendo com que os sintomas de alarme se colem nas fendas menos perceptíveis do cotidiano.
Certa manhã, Gregor Samsa acordará metamorfoseado em uma enorme barata que, em vez de refletir sobre sua mutação existencial, pensará que é o produto de uma mudança meio ambiental. Proust irá se deitar bem cedo porque o tempo perdido desfilará pela janela em forma de ciclone ou desertificação. Thomas Mann não encontrará lugar em nenhum balneário porque alguém terá descoberto que as águas termais são, no fundo, insalubres.
A mudança climática é, além de uma certeza, uma indústria. Funciona seguindo os caprichos da oferta e da procura e logo poderá estar cotada na bolsa. Seu mercado é infinito, já que todos necessitamos consumi-la, concordar com seus encantos para nos sentir culpados e arrastar uma consciência pesada que nos transforme em contribuintes dóceis, votantes disciplinados, pais e maridos exemplares.
Às vezes, quando aumenta o temporal de notícias catastróficas, saio à rua e passeio por aí. Vejo as árvores, o sol, o céu azul e começo a suar, que é o que sempre fazemos no Mediterrâneo. Vejo uma menina tomando um sorvete, uma mulher vaidosa de pernas bonitas e um adolescente colocando à prova o equilíbrio de seu skate. Recordo que, há anos, o sol era sinônimo de alegria. Todos queríamos que fizesse sol e o relacionávamos com praias, festas até a madrugada e banhos à luz da lua. Agora o sol é um inimigo, uma vez que nos recorda dos erros meio ambientais cometidos. A chuva, que sempre foi considerada um embaraço e um obstáculo à vida neste rincão do planeta, tem cada vez mais prestígio. Chantageados pelas mensagens dos agourentos e pregadores, cada vez que chove, em vez de nos enfadarmos, aplaudimos e consultamos, pela internet, o nível das represas. Assim, pois, antes que ser um amante do sol se transforme em crime, quero dizer mais uma vez em voz bem alta: o tempo bom me encanta, o sol, o calor e o clima mediterrâneo.
Sergi Pàmies (1960, Paris)
chegou a Barcelona em 1971. Colabora com diversos suplementos e revistas culturais, trabalha como tradutor e é autor de numerosos relatos e romances. Escreve em catalão. Seu volume de relatos La gran novela sobre Barcelona foi um êxito internacional.
Tradução: Marcelo Backes
Copyright: Süddeutsche Zeitung
29 dezembro 2011
Pablo Neruda - Ode à tipografia
Ilustrações: divulgação
Tradução: F. Füllgraf
Letras amplas, severas,
verticais,
feitas
de linha pura,
erguidas
como o mastro
do navio
no meio
da página
cheia
de confusão e turbulência,
Bodonis
algébricos,
letras
cabais,
finas
como lebréis,
submetidas
ao retângulo branco
da geometria,
vogais
elzevires
cunhadas
no miúdo aço
da oficina junto à água,
em Flandres, no norte
traçado por canais,
cifras
da âncora
caracteres de Aldus,
firmes como
a estatura
marinha
de Veneza
em cujas águas-mães
como vela
inclinada,
navega a cursiva
curvando o alfabeto:
o ar
dos descobridores
oceânicos
agachou
para sempre o perfil da escritura.
Desde
as mãos medievais
avançou até teus olhos
este
N
este 8
duplo
este
J
este
R
de rei e de rocio.
Ali
se lavraram
como se fossem
dentes, unhas,
metálicos martelos
do idioma.
Golpearam cada letra,
erigiram-na
pequena estátua negra
na alvura,
pétala
do pensamento que tomava forma
do caudaloso rio
e que ao mar dos povos navegava
com todo
o alfabeto
iluminando
a desembocadura.
O coração, os olhos
dos homens
se encheram de letras,
de mensagens,
de palavras,
e o vento passageiro
ou permanente
levantou livros
loucos
ou sagrados.
Debaixo
das novas pirâmides escritas
a letra
estava viva,
o alfabeto ardendo,
as vogais,
as consoantes como
flores curvas.
Os olhos
do papel, os que miraram
nos homens
buscando
seus presentes,
sua história, seus amores,
estendendo
o tesouro
acumulado,
espargindo prontamente
a lentidão da sabedoria
sobre a mesa
como um baralho,
todo
o húmus
secreto
dos séculos
o canto, a memória,
a revolta,
a parábola cega,
pronto
foram
fecundidade,
celeiro,
letras,
letras
que caminharam
e se acenderam
letras
que navegaram
e venceram,
letras
que despertaram
e subiram,
letras
que libertaram,
letras
em forma de pomba
que voaram,
letras
vermelhas sobre a neve,
pontuações,
caminhos,
edifícios
de letras
e Villon e Bercéo,
trovadores
da memória
apenas
escrita sobre o couro
e também sobre o tambor
da batalha,
chegaram
à espaçosa nave
dos livros,
à tipografia
navegante.
as mãos medievais
avançou até teus olhos
este
N
este 8
duplo
este
J
este
R
de rei e de rocio.
Ali
se lavraram
como se fossem
dentes, unhas,
metálicos martelos
do idioma.
Golpearam cada letra,
erigiram-na
pequena estátua negra
na alvura,
pétala
do pensamento que tomava forma
do caudaloso rio
e que ao mar dos povos navegava
com todo
o alfabeto
iluminando
a desembocadura.
O coração, os olhos
dos homens
se encheram de letras,
de mensagens,
de palavras,
e o vento passageiro
ou permanente
levantou livros
loucos
ou sagrados.
Debaixo
das novas pirâmides escritas
a letra
estava viva,
o alfabeto ardendo,
as vogais,
as consoantes como
flores curvas.
Os olhos
do papel, os que miraram
nos homens
buscando
seus presentes,
sua história, seus amores,
estendendo
o tesouro
acumulado,
espargindo prontamente
a lentidão da sabedoria
sobre a mesa
como um baralho,
todo
o húmus
secreto
dos séculos
o canto, a memória,
a revolta,
a parábola cega,
pronto
foram
fecundidade,
celeiro,
letras,
letras
que caminharam
e se acenderam
letras
que navegaram
e venceram,
letras
que despertaram
e subiram,
letras
que libertaram,
letras
em forma de pomba
que voaram,
letras
vermelhas sobre a neve,
pontuações,
caminhos,
edifícios
de letras
e Villon e Bercéo,
trovadores
da memória
apenas
escrita sobre o couro
e também sobre o tambor
da batalha,
chegaram
à espaçosa nave
dos livros,
à tipografia
navegante.
Mas
a letra
não foi só beleza,
e sim, vida,
foi paz para o soldado,
baixou às soledades
da mina
e o mineiro
leu
o panfleto duro
e clandestino,
ocultou-o nos recônditos
do segredo
coração
e acima
sobre a terra,
foi outro
e outra
foi sua palavra.
A letra
foi a mãe
das novas bandeiras,
as letras
procriaram,
as estrelas
terrestres
e o canto, o hino ardente
que reúne
aos povos
de
uma
letra
agregada
a outra
letra
e a outra
de povo em povo foi sobrelevando
sua autoridade sonora
e cresceu na garganta dos homens
até impor a claridade do canto.
a letra
não foi só beleza,
e sim, vida,
foi paz para o soldado,
baixou às soledades
da mina
e o mineiro
leu
o panfleto duro
e clandestino,
ocultou-o nos recônditos
do segredo
coração
e acima
sobre a terra,
foi outro
e outra
foi sua palavra.
A letra
foi a mãe
das novas bandeiras,
as letras
procriaram,
as estrelas
terrestres
e o canto, o hino ardente
que reúne
aos povos
de
uma
letra
agregada
a outra
letra
e a outra
de povo em povo foi sobrelevando
sua autoridade sonora
e cresceu na garganta dos homens
até impor a claridade do canto.
Mas
tipografia,
deixe-me
celebrar-te
na pureza
de teus
puros perfis,
na redoma
da letra
O,
no viçoso
alguidar
do
Y,
no
Q
de Quevedo
(como poderia passar
minha poesia
em frente dessa letra
sem sentir o antigo arrepio
do sábio moribundo?),
à açucena
multi
multiplicada
do
V
de vitória,
no
E
escalonado
para subir ao céu,
no
Z
com seu rosto de raio,
no P
alaranjado.
tipografia,
deixe-me
celebrar-te
na pureza
de teus
puros perfis,
na redoma
da letra
O,
no viçoso
alguidar
do
Y,
no
Q
de Quevedo
(como poderia passar
minha poesia
em frente dessa letra
sem sentir o antigo arrepio
do sábio moribundo?),
à açucena
multi
multiplicada
do
V
de vitória,
no
E
escalonado
para subir ao céu,
no
Z
com seu rosto de raio,
no P
alaranjado.
Amor,
amo
as letras
de teu cabelo,
o
U
de teu olhar,
os
S
de tuas curvas.
Nas folhas
da jovem primavera
refulge o alfabeto
diamantino,
as esmeraldas
escrevem teu nome
com iniciais frescas do rocio.
Meu amor,
tua cabeleira profunda
como selva ou dicionário
me cobre
com sua totalidade
de idioma
vermelho.
Em tudo,
no estalão
do verme
se lê,
na rosa se lê,
as raízes
estão cheias de letras
retorcidas
pela umidade do bosque
e no céu
de Isla Negra, à noite,
leio,
leio
no firmamento frio
da costa,
intenso,
diáfano de formosura,
despregado,
com estrelas capitais
e minúsculas
e exclamações
de diamante gelado,
leio, leio
na noite do Chile
austral, perdido
nas celestes solitudes
do firmamento,
como em um livro
leio
todas
as aventuras
e na erva
leio,
leio
a verde, a arenosa
tipografia
da terra agreste,
leio
os navios, os rostos
e as mãos,
leio
em teu coração
onde
vivem
entrelaçados
a inicial
provinciana
de teu nome
e
o arrecife
de meus sobrenomes.
Leio
tua fronte,
leio
teu cabelo
e no jasmim
as letras
escondidas
elevam
a incessante
primavera
até que eu decifro
a enterrada
pontuação
da papoula
e a letra
escarlate
do estio:
são as exatas flores do meu canto.
amo
as letras
de teu cabelo,
o
U
de teu olhar,
os
S
de tuas curvas.
Nas folhas
da jovem primavera
refulge o alfabeto
diamantino,
as esmeraldas
escrevem teu nome
com iniciais frescas do rocio.
Meu amor,
tua cabeleira profunda
como selva ou dicionário
me cobre
com sua totalidade
de idioma
vermelho.
Em tudo,
no estalão
do verme
se lê,
na rosa se lê,
as raízes
estão cheias de letras
retorcidas
pela umidade do bosque
e no céu
de Isla Negra, à noite,
leio,
leio
no firmamento frio
da costa,
intenso,
diáfano de formosura,
despregado,
com estrelas capitais
e minúsculas
e exclamações
de diamante gelado,
leio, leio
na noite do Chile
austral, perdido
nas celestes solitudes
do firmamento,
como em um livro
leio
todas
as aventuras
e na erva
leio,
leio
a verde, a arenosa
tipografia
da terra agreste,
leio
os navios, os rostos
e as mãos,
leio
em teu coração
onde
vivem
entrelaçados
a inicial
provinciana
de teu nome
e
o arrecife
de meus sobrenomes.
Leio
tua fronte,
leio
teu cabelo
e no jasmim
as letras
escondidas
elevam
a incessante
primavera
até que eu decifro
a enterrada
pontuação
da papoula
e a letra
escarlate
do estio:
são as exatas flores do meu canto.
Contudo
quando
desfralda
seus rosais
a escritura,
a letra
sua essencial
jardinaria,
quando lês
as velhas e as novas
palavras, as verdades
e as explorações,
te peço
um pensamento
para quem as ordena
e as levanta,
para o que separa
o tipo,
para o linotipista
com sua lâmpada
como um piloto
sobre
as ondas da linguagem
ordenando
os ventos na espuma,
a sombra e as estrelas
no livro:
o homem
e o aço
uma vez mais reunidos
contra as asas noturnas
do mistério,
navegando,
hora dando,
compondo.
quando
desfralda
seus rosais
a escritura,
a letra
sua essencial
jardinaria,
quando lês
as velhas e as novas
palavras, as verdades
e as explorações,
te peço
um pensamento
para quem as ordena
e as levanta,
para o que separa
o tipo,
para o linotipista
com sua lâmpada
como um piloto
sobre
as ondas da linguagem
ordenando
os ventos na espuma,
a sombra e as estrelas
no livro:
o homem
e o aço
uma vez mais reunidos
contra as asas noturnas
do mistério,
navegando,
hora dando,
compondo.
Tipografia,
sou
apenas um poeta
e és
o florido
jogo da razão,
o movimento
do cerzir
da inteligência.
Não descansas
de noite
nem no inverno
circulas
nas veias
de nossa anatomia
e se dormes
voando
durante
alguma noite ou greve
ou fadiga ou ruptura
de linotipia
baixas de novo ao livro
ou ao jornal
como nuvem
de pássaros ao ninho.
Regressas
ao sistema
à ordem
inapelável
da inteligência.
sou
apenas um poeta
e és
o florido
jogo da razão,
o movimento
do cerzir
da inteligência.
Não descansas
de noite
nem no inverno
circulas
nas veias
de nossa anatomia
e se dormes
voando
durante
alguma noite ou greve
ou fadiga ou ruptura
de linotipia
baixas de novo ao livro
ou ao jornal
como nuvem
de pássaros ao ninho.
Regressas
ao sistema
à ordem
inapelável
da inteligência.
Letras
continuai caindo
como precisa chuva
em meu caminho.
Letras de tudo
o que vive
e morre,
letras de luz, de lua,
de silêncio,
de água,
amo-vos,
e em vós
recolho
não apenas pensamento
e o combate,
mas também vossos vestidos,
sentidos
e sonoridades:
A
de gloriosa aveia,
T
de trigo y de torre
e
M
como teu nome
de maçã.
Ilustração: Obvious_mag
continuai caindo
como precisa chuva
em meu caminho.
Letras de tudo
o que vive
e morre,
letras de luz, de lua,
de silêncio,
de água,
amo-vos,
e em vós
recolho
não apenas pensamento
e o combate,
mas também vossos vestidos,
sentidos
e sonoridades:
A
de gloriosa aveia,
T
de trigo y de torre
e
M
como teu nome
de maçã.
Ilustração: Obvious_mag
Frederico Füllgraf - Goethe e as folhas da Ginkgo
O poema “Gingo biloba”, escrito em 1815, foi publicado por Johann Wolfgang von Goethe
(1749-1832) em sua antologia, 'West-östlicher Divan' (livro Suleika), de 1819, no qual dialoga com o “Divã” do poeta persa, Háfiz. Como fonte de inspiração, serviu-lhe a folha de uma Ginkgo que crescia em Heidelberg, cidade próxima de Frankfurt.
Contemplando a folha bi-lobular da Ginkgo, Goethe a associou à imagem das almas gêmeas, por assim dizer inseparáveis, e dedicou os versos a Marianne von Willemer, uma antiga namorada.
Goethe enviara uma folha de Ginkgo para Marianne, e em 15 de setembro de 1815, no local chamado Gerbermühle, em Frankfurt, fez uma récita do esboço do poema que segue, para Marianne e alguns amigos.
Depois, Goethe finalizou o poema e em 27 de setembro de 1815,enviou-o a Marianne – e caiu no mundo...
Dieses Baums Blatt, der von Osten
Meinem Garten anvertraut,
Gibt geheimen Sinn zu kosten,
Wie's den Wissenden erbaut.
Ist es ein lebendig Wesen,
Das sich in sich selbst getrennt?
Sind es zwei, die sich erlesen,
Dasz man sie als Eines kennt?
Solche Frage zu erwidern,
Fand ich wohl den rechten Sinn:
Fühlst du nicht an meinen Liedern,
Dasz ich Eins und doppelt bin?
(trad. Frederico Füllgraf)
Esta folha da árvore que o Oriente
ao meu jardim resolveu confiar
com arcanos sentidos desafia a mente
que ao sábio apraz desvendar.
Será um único ser vivente
que a si mesmo em dois apartou?
Ou será um casal que se juntou
E se vê como um só, como diz a gente?
E tentando desvendar a misteriosa ciência
Ocorreu-me oportuna confidência:
Se em meus cantos não tens percebido
Que sou um só, mas também em dois partido?
English
This leaf from a tree in the East,
Has been given to my garden.
It reveals a certain secret,
Which pleases me and thoughtful people.
Does it represent One living creature
Which has divided itself?
Or are these Two, which have decided,
That they should be as One?
To reply to such a Question,
I found the right answer:
Do you notice in my songs and verses
That I am One and Two?
Las hojas de este árbol, que del Oriente
a mi jardín venido, lo adorna ahora,
un arcano sentido tienen, que al sabio
de reflexión le brindan materia obvia.
¿Será este árbol extraño algún ser vivo
que un día en dos mitades se dividiera?
¿O dos seres que tanto se comprendieron,
que fundirse en un solo ser decidieran?
La clave de este enigma tan inquietante
Yo dentro de mí mismo creo haberla hallado:
¿no adivinas tú mismo, por mis canciones,
que soy sencillo y doble como este árbol?
La feuille de cet arbre
Qu'à mon jardin confia l 'Orient
Laisse entrevoir son sens secret
Au sage qui sait s'en saisir.
Serait-ce là un être unique
Qui de lui-même s’est déchiré ?
Ou bien deux qui se sont choisis
Et qui ne veulent être qu’un ?
Répondant à cette question
J’ai percé le sens de l’énigme
Ne sens-tu pas d’après mon chant
Que je suis un et pourtant deux ?
Italiano
La foglia di quest'albero,
venuto dall'oriente al mio giardino,
consente di gustare sensi occulti,
edificando il saggio.
Sarà un essere vivo,
che sé in se medesimo ha spartito?
oppure saran due, che vollero apparire come uno?
Per dare alla domanda una risposta,
il senso giusto trovo:
non senti, nei miei canti,
che sono uno e insieme sono doppio?
venuto dall'oriente al mio giardino,
consente di gustare sensi occulti,
edificando il saggio.
Sarà un essere vivo,
che sé in se medesimo ha spartito?
oppure saran due, che vollero apparire come uno?
Per dare alla domanda una risposta,
il senso giusto trovo:
non senti, nei miei canti,
che sono uno e insieme sono doppio?
09 dezembro 2011
Hans Magnus Enzensberger - Discurso de noivado após o jantar
Ilustrações: Heyle, Pascal Renoux
Este eu, um recipiente que
desde que ninguém o abra,
parece compacto, liso
como um Kinder Ovo,
quase apetitoso. Somente lá
no interior está escuro. Quem sabe
o que estará dentro, à tua espera
Obsessões, sem dúvida,
hábitos enferrujados
medos incompreensíveis
truques de segunda mão
desejos infantis.
Que tu a desejes ter
a esta prenda embrulhada
roça o milagre.
Si estoy contigo - Mayte Dalianegra
Si estoy contigo me sobra el universo
y me palpitan los vientos sobre las crines del cielo,
y me amanecen los ojos coagulados de un silencio,
que se quiebra cuando siento el abrazo de tu aliento.
Si estoy contigo el mar se encrespa
en el infinito oleaje de mis sueños,
y recorro los caminos olvidados entre tu boca y mi cuello,
y se encienden los suspiros y el halago lisonjero,
que me humedece las sienes,
que me derrama por dentro y me acalora y me vence,
hasta dejarme extenuada y desnuda en mis adentros.
Perfil
Mayte Dalianegra é poeta española, natural de Oviedo, Astúrias.
“Viajera incansable, pintora vocacional y aficionada a la escritura, amante de la literatura, el arte, la historia, el cine, la música y la cocina”, é como se apresenta em seu blog (http://maytedalianegra.blogspot.com), ricamente estilizado com suas criações.
“El amor es como el relámpago: nunca sabes donde caerá hasta que lo hace”, disse o dominicano Henri Lacordaire, e a poesia de Maité é a chuva depois dos relâmpagos; sensual e penetrante.
18 novembro 2011
Comentários sobre nossos queridos canibais
Ilustração: cacique tamoio, Cunhambebe
por José Carlos Gallas
O Cunhambebe da sua crônica até que está bonito no retrato, na versão inglesa da Wikipedia (vide abaixo). O cocar e o bastão parecem meio fajutos, mas o artista, André de Thevet, da comitiva de Nicolas Durand de Villegaignon e autor das "Singularidades da França Antártica", também costumava usar de psicografia e relatos de marujos para compor seus retratos e histórias.
(Footnotes of History: Acabo de ler que Thevet disputou com Jean Nicot a "honra" de ter introduzido o tabaco na França).
De qualquer maneira, é certo que nossos indígenas consideravam um desperdício e uma afronta à memória do inimigo morto se não comessem suas carnes:
"Nós outros, fortes Tamoios, só de heróis fazemos pasto; não queremos com carne vil enfraquecer os fortes", disse Gonçalves Dias, e lança uma dúvida: será que os europeus das longas viagens, rescendendo ao bodum vil dos escrotos e podex lavados nunca ou só por ocasião da Santa Páscoa, eram vistos pelos índios com especial apetite? Deve ser por causa dessa peculiaridade que nunca comeram Staden - pelo menos no sentido estritamente culinário da palavra.
14 novembro 2011
Frederico Füllgraf - Olhos e bocas canibais, ou o nascedouro da etimologia
Ilustração: Theodor de Bry
O prisioneiro branco, longa barba, ruiva, inteiramente nu, está imobilizado com cordas de cipó a um tronco no centro da aldeia. Ao seu lado um xamã balbucia sons ininteligíveis, agressivos. Sua litania atiça homens, mulheres e crianças, que saltitam em lamento monocórdio ao redor de outro prisioneiro; este, indígena, já prostrado diante de um inimigo forte, que ergue a pedra da morte, rachando em duas a cabeça do caçado. Sangue, fragmentos cranianos, cérebro indagante, grudados a mechas de cabelo, saltam para os lados, incitando a caterva ao ataque.
Rasgam-no em pedaços: cabeça, tronco e membros secionados, arrancados das articulações. Cheiro adocicado de exótico assado desprende-se da fogueira, deita-se sobre a aldeia e invade as narinas do homem branco, barbudo e nu, inteiramente banhado em seu próprio suor; a transpiração do horror à morte iminente. Homens e mulheres disputam histericamente o butim de carne humana, que sacia a fome das crianças com nacos ainda malpassados. O branco barbudo, desvelado e fragilizado, ergue a cabeça em atitude de devoção, pede proteção ao seu Deus.
Cenas como esta se repetem ao longo de dez meses e constituem o eixo da narrativa de a “Historia Verdadeira e Descrição de uma Paisagem dos Selvagens/Desnudos/ Ferozes e Devoradores de Gente no Novo Mundo da América”.
De autoria do arcabuzeiro, mercenário alemão, Hans Staden, este misto de diário e crônica do espanto é, depois da carta de Caminha, o primeiro ensaio etnográfico sobre o Brasil quinhentista. Aprisionado pelos índios Tupinambá diante de um forte português em Bertioga, litoral de São Paulo, é ameaçado de morte e devoração. Como por encanto, Staden é poupado e consegue fugir. Seu calvário, porém, dura mais de ano, com uma peregrinação que vai de Bertioga à Ilha Grande, litoral sul do Rio de Janeiro.
Seios flácidos como as “bruxas” da Inquisição...
Retornando à Europa a bordo de um barco francês, decide publicar um livro em 1557, cuja primeira edição é ricamente ilustrada pelo gravurista Theodor de Bry, que nunca havia estado no Brasil e que por isso desenhou “de ouvido”. Mas é de Bry quem imprimirá ao olhar quinhentista sua mirada eurocêntrica e certo maneirismo estético, sintomaticamente “fora da ordem” tropical. É o caso da xilogravura que mostra Staden nu, cercado de sedutoras mulheres índias. Igualmente nuas, dançam ao seu redor, podam-lhe a barba e os cílios. Com suas bocas roçando-lhe as orelhas, parecem sussurrar-lhe sacanagens ao ouvido casto, devorando-lhe os lóbulos com seus lábios carnudos, temperando-os com seu bafejo de libidinosa maresia.
O que chama atenção nas demais xilogravuras de De Bry é que apenas as índias sensuais são retratadas em primeiro plano. Em segundo plano predominam as mulheres de carnes flácidas e peitos caídos – o que pode ser uma sutil alegoria do imaginário cristão, que na Europa necessitava de uma justificativa estética, uma mensagem na garrafa para a condenação das “bruxas” às fogueiras da Inquisição.
Borrascas e naufrágios
Após seis meses de navegação errante pelo Atlântico Sul, as caravelas de Juan de Salazar - que partira da Espanha durante a Páscoa de 1550, com a missão de iniciar a ocupação da Bacia do Prata - castigadas por tormentas e borrascas e desviadas de seu curso, foram atiradas contra a costa do sudeste brasileiro. Era o dia 24 de novembro de 1550, com sol de rachar pedra, e quis o mau humor de Netuno que um mercenário ruivo, oriundo de Wolfhagen, recôndita província alemã, fosse o primeiro europeu a pisar o solo do Paraná, vindo do mar, vomitando água e sal.
Além de um mapa-de-ouvido confeccionado por de Bry, o episódio não mereceu comentários na narrativa de Staden. É a este hiato da memória que me reporto com alguma licença poética.
Supõe-se que o barco foi abastecido de víveres e concedido descanso à sua tripulação no Superagüi, depois zarpando rumo a São Vicente. Lá não chegou porque naufragou mais ao sul, estima-se que nas praias de Cananéia. Uma vez salvos, Staden e os espanhóis procuraram a amizade dos portugueses ali estabelecidos. Parte do grupo espanhol partiu rumo ao Prata, enquanto Staden foi incumbido de guarnecer o forte de Bertioga.
Neste forte começa a aventura hilariante e dilacerante do jovem aventureiro que na esteira do furor re-descobrimentista em 2000 teve reeditada no Brasil sua obra e saltou do arquivamento histórico para a imortalidade cinematográfica. O que confere dinâmica a uma boa estória é uma pitada de conflito e, não fosse o seqüestro de Staden pelos Tupinambá (cujo mitológico cacique Cunhambebe, Antonio Torres resgatou em seu romance “Meu querido canibal”), jamais teríamos sabido da intimidade destes índios. Digo: de seu apurado paladar na degustação de orelhas, bíceps, coxas e glúteos humanos...
Mas é de lingüística que quero falar, do picante desencontro entre o bárbaro tropical, devorador de corpos humanos, e o cristão temente às tentações da carne: a origem do termo “comer”, por exemplo, para designar a cópula, a interpenetração dos corpos. Recordemos: Staden era obrigado a saudar os selvagens com a frase tupi-guarani, “Ajune che peê remiurãama - aqui venho eu para vossa comida!”.
Etimologia da palavra “comer”
Chula e por isso excitante, fato é que ao longo de quinhentos anos de ilusão des-cobrimentista, a verdadeira voragem dos corpos acontece nas camas brasileiras, onde (sempre na contramão de abalizada verdade anatômica) machos iludem-se em “comer” suas fêmeas e estas iludem-se em ser “comidas”, quando na verdade são elas as devoradoras.
Refletindo estes equívocos tropicais, Darcy Ribeiro sempre suspirava, resignado, uma bela frase de efeito: “No Brasil o mundo ‘tá de ponta-cabeça. É preciso reinventar tudo!” E eu sempre me perguntava: mas com os pés no chão, não perderia a graça? A segunda hipótese é a de que nem Cunhambebe e muito menos Staden tenham sido lembrados pelos patronos da Semana de 22 como os pais legítimos e incontestes do Antropofagismo - Cunhambebe como seu mentor e Staden como Macunaíma-Cara-Pálida , o assimilador e deglutidor da grande comilança tropical, mas autor do grande equívoco canibal.
Freqüentemente deixado (testado?) a sós com as mulheres, Staden escreve:
- Algumas caminharam à minha frente, outras atrás, dançando e cantando uma canção que, segundo seu costume, entoavam aos prisioneiros que tencionavam devorar.
Os historiadores creditam sua sobrevivência à inabalável fé cristã, mas eu imagino que Staden foi poupado por outro, um motivo forte - qual indiazinha, enxuta e perfumada por óleos essenciais da flora atlântica e sais marinhos, teria de livre e espontâneo desejo realizado o intercurso multirracial com um bárbaro branco, encardido e mal cheiroso?
Si non e vero e ben trovato: o “descobrimento” do Superagüi foi na verdade um desencontro de libidos.
Imaginei a seguinte cena: no meio das tratativas protocolares, uma indiazinha afoita consegue saltar para o convés do barco dos espanhóis e, esgueirando-se entre couraças, barbas e corpos suados, tenta apoderar-se do espelho que vira da canoa, e que, pendurado num dos mastros da caravela, reproduzia toda a cena do encontro insólito, agora multiplicado por dois.
Uma señora, do grupo de respeitosas damas espanholas, que se mantinha a distância segura, solta um grito de advertência, mas quando os bucaneiros correm para agarrar a indiazinha... é tarde demais! Esta dá um salto tríplice de bombordo, diretamente para a canoa dos seus companheiros. Interrogam-na irritados sobre sua incursão em território inimigo e sua resposta, o polegar e o indicador da mão direita espremendo as narinas em sinal de fedor, é o primeiro signo compartilhado naquela conversa de surdos-mudos, entre descobridores e descobertos - alguma coisa cheirava muito mal no Reino de Castela!
08 novembro 2011
Obrigado, Luis Nassif (e Manoel de Andrade)!
Lili Marlene: a canção que virou hino de soldadosEnviado por luisnassif, sex, 04/11/2011 - 17:00Por Chrisppa Silva Füllgrafianas: Lili Marleen, os 95 anos de um mito (parte 1/3) Füllgrafianas: Lili Marleen, os 95 anos de um mito (parte 2/3) Füllgrafianas: Lili Marleen, os 95 anos de um mito (parte 3/3) Sobre a Lilli Marleen de Frederico Manoel de Andrade Poeta e ensaísta Eu já tinha ouvido “Lilli Marleen” na voz de Marlene Dietrich, mas não imaginava que aquele poema, transformado em música, tivesse uma trajetória tão fantástica e nem que Hans Leip tivesse sido um escritor tão fecundo. Quantos vultos famosos da história europeia estiveram, direta ou indiretamente, relacionados com essa célebre canção!!! A interculturalidade com que o texto é escrito leva-nos a caminhar pelos fronts históricos e geográficos da Segunda Grande Guerra, bem como pelos seus bastidores, chocando-nos com o terror da censura nazista sobre a cultura. Era a ironia da própria guerra trazendo, depois do bombardeiro alemão de Belgrado, o som radiofônico de uma canção ouvida e apreciada, a despeito da proibição de Goebbels, pelo prestígio do General Rommel e seus soldados nas areias da África. Como um rastilho de pólvora a parceria poético-musical Leip&Shultze começa correndo acesa, no idioma de Goethe, pelas trincheiras nazistas e aliadas, mas seu encantamento vai explodir também nos ouvidos dos soldados russos. O rigor intelectual com que Frederico Füllgraf vasculhou e constatou, pela crítica documental de suas fontes, a autenticidade dos fatos, conduz o leitor pelos estranhos atalhos desse fantástico fenômeno musical, para nos apresentar uma admirável pesquisa sobre quase um século de vida do tão discutido poema-musical alemão. Seu ensaio envolve-nos com a história do um jovem soldado, saudoso da namorada, que lhe inspira, no campo de batalha, seus primeiros versos. Esse romântico enredo de guerra lembra o grande poema “Espera-me” que o poeta e dramaturgo russo Konstantin Simonov, escreveu, em 1941, no front de guerra contra os alemães à sua querida Valentina Serova. Traduzido para muitos idiomas, e para o português, com incomparável beleza lírica, por Hélio do Soveral, Espera-me ou Espera por mim é um dos mais conhecidos poemas da Rússia. A sensibilidade de Cleto de Assis escreveu a essência comovente dessa história no seu site Banco da Poesia: http://cdeassis.wordpress.com/2009/06/19/poema-de-amor-e-guerra/ Abro aqui um parêntesis, fugindo do estrito significado musical do texto, para considerar as grandes motivações que o fenômeno da guerra tem trazido à criação poética e musical, propiciando produções ou veiculando versos de infinita beleza. Por certo a Ilíada e a Odisseia não existiriam sem a Guerra de Troia, nem a Itália teria seu grande poema épico se o início das Cruzadas não inspirasse Torquato Tasso a escrever Jerusalém Libertada. A Chanson d’Automne, de Paul Verlaine, não seria tão conhecida se não fosse enviada também por rádio, como uma senha, à Resistência Francesa anunciando o desembarque aliado na Normandia e determinando o fim do Terceiro Reich, que pretendia durar mil anos. Que honra maior poderia ter um poema, abrindo com o lirismo e o suave encanto dos seus versos, as portas da liberdade do continente europeu dominado pelo nazismo? E neste contexto as comparações se derivam para as canções que inspiraram a resistência revolucionária nas guerras civis que abalaram o mundo e se celebrizaram com o nome Marselhesa, na França revolucionária e como Le chant des Partisans, entoado pela Resistência, na França invadida pelos exército alemão. Com o mesmo ardor se cantava Se me quieres escribir e Viva la Quinta Brigada, na Guerra Civil Espanhola. E assim foi, ao som da Bandiera Rossa e Bella Ciao na Itália, Nicaragua Nicaraguita, cantada pelos sandinista, Venceremos, no Chile socialista, onde Viva Chile Mierda, de Fernando Alegria, foi o poema mais declamado durante o governo de Salvador Allende. Aqui, no Brasil, a canção Caminhando, de Geraldo Vandré, foi o hino revolucionário com que a nação inteira protestou, cantando, contra a ditadura militar. Voltando à história sentimental do soldado Hans Leip e seu poema, e considerando a amplitude do texto, creio ser interessante repicar, neste comentário, alguns aspectos marcantes no longo artigo de Frederico Füllgraf. Primeiramente o encanto musical das emissões diárias da “canção de um jovem sentinela” pela rádio de Belgrado, polarizando a longínqua atenção dos soldados alemães no norte da África. A transmissão, captada também na região pelos soldados britânicos, levou o orgulho militar inglês, sob o comando de Montgomery, a criar uma sarcástica versão política de “Lilli Marleen” ironizando Hitler e o partido nazista. O autor nos fala da canção na voz radiofônica da BBC e de meio milhão de discos vendidos, em 1944, na Inglaterra e sua versão adaptada para 50 idiomas. Detalha a biografia conturbada e trágica de Lale Andersen e depois sua turnê pela Coréia e Indochina. A segunda grande intérprete da canção é Lucie Mannnheim, chegando enfim a Marlene Dietrich, que foi a mascote musical dos aliados correndo os Estados Unidos e a Europa com “Lilli Marleen” nos lábios e as grandes platéias aos seus pés. Os intérpretes da famosa canção se sucedem, no incrível caleidoscópio de informações --- que transpiram normalmente por todos os neurônios do Frederico que conhecemos, --- passando por Edith Piaf e Bing Crosby, e por interpretações contemporâneas na voz da cantora francesa Patrícia Kaas, comemorando, em 2005, os 60 anos do Dia “D”. O texto, entre outras tantas revelações e curiosidades, traz uma passagem pitoresca envolvendo Winston Churchill e seu pesadelo com o General Rommel, em torno da sua preferência pela canção. Refere-se também a uma misteriosa versão judaica feita por Stefan Zweig. O ponto alto do texto é a referência a uma edição de 2006 do livro em que a autora, Lilly Freud Marlé, sobrinha de Freud, revela ser a pessoa que inspirou Hans Leip a escrever o poema que gerou a composição musical “Lilli Marleen”, versão reiterada por outros descendentes de Freud. Finalmente é surpreendente constatar que as sementes lançadas há noventa e cinco anos por um simples poema que se tornou canção, tenha se aberto em tantas flores musicais pelos idiomas do mundo inteiro, inclusive uma versão judaica de nome Lili, em homenagem à pára-quedista Hannah Senesh, morta em Budapeste pela Gestapo, e geram ainda, ano a ano, tantos frutos “saborosos” para a viúva de Leip e mantenham repletos os celeiros amoedados do compositor Norbert Schultze. Parabenizando o autor pela dimensão crítica e historiográfica do seu trabalho, ressalto as duas ironias genialmente bem colocadas: a primeira que “Lilli Marleen” foi a única contribuição dos nazistas para o mundo”. E a segunda ironizando a primeira: que uma musa judia seria a inspiradora da mais célebre canção nazista. |
Assinar:
Postagens (Atom)




















