21 abril 2011

Frederico Füllgraf - EnsaioCarta para Nina Hoss


Ensaio

Querida Nina,
acabo de republicar uma breve crônica sobre aquela tarde de domingo na casa de vocês, em Stuttgart, poucos dias após o fatídico acidente em Chernobyl. Soa inacreditável, mas depois desse tempo todo, as sensações descritas na crônica estão presentes como se houvessem ocorrido ontem. Você era uma colegial, mas recordo que já era uma garota muito bonita e, como filha única da Heyde e do Willy, muito paparicada (não negue!)
Não tenho certeza se você conseguirá ler essas mal escritas em português, salvo que seu pai, que em seus últimos anos de vida mais incursionava pela indomada Amazônia do que pelos bem-criados bosques de Stuttgart, lhe tenha ensinado algumas noções do meu idioma. Movido por essa incerteza, vou tentar lhe fazer chegar uma versão para o alemão dentro de algumas semanas. Até lá, tenha paciência, eu quase ia dizendo, como se você não tivesse outra coisa a fazer.
Você deve estar pensando que é de mau augúrio começar essa carta com a referência àquele nefando acidente nuclear. Com o que você tem quase toda razão. Mas foi a última vez que vi você em carne e osso, entende? Porque depois nos perdemos de vista. Obviamente, para você eu fui sempre o viajante que chegava de um país exótico e que discutia os desígnios do planeta, com seu pai. É verdade – nossas conversas não ficavam por menos, não eram modestas.
Porém, com sua mãe, que conheci através da Katrin, eu também tive algumas conversas das quais muito aprendi. Se bem recordo, você estava presente num daqueles finais de tarde, quando abancados ao redor da mesa da cozinha, na casa de vocês, a Heyde disse que o Príncipe de Homburg, do Kleist, seria um papel no qual ela adoraria me dirigir. Claro que você conhece a estória, uma novela de capa e espada: na Batalha de Fehrbellin, em 1675, o príncipe, sem consultar seus superiores, ataca as linhas inimigas e vence a batalha. Acusado de insubordinação, na corte marcial ameaçam-no com o paredão: fuzilamento sumário. Naquela peça, Kleist discutia o dogmatismo e a cegueira castrense diante da espontaneidade e criatividade, humanas, incapazes de vislumbrarem exceções e honrarem a quebra de disciplina realizada com propósito nobre e ainda por cima exitosa.
Mas cá entre nós: vinte e cinco anos depois, confesso que jamais entendi a indicação daquele papel por sua mãe. Prussiana, ou – para usar uma palavra que os leitores daqui entendem sem pestanejar - “Caxias” que ela era (ou ainda é?), talvez a Heyde cogitasse que eu deveria logo me submeter ao aprendizado de um teatro de gente grande - clássico, solene, essas coisas. Acho que ela estava coberta de razão: antes de me meter no palco num papel do Heiner Müller era preciso ir para a escola; Stanislavsky, Lee Strasberg, assim por diante.  Porém, que tal se naquele convite ela estivesse articulando uma metáfora, melhor dizendo: uma indireta? Bem, fico até sem jeito, porque você pode não ter percebido, mas ocorre que numa visita anterior, quando fui hóspede de vocês, eu passei uma ou duas noites “fora de casa”. Quero dizer, na casa da Katrin. Ausência que a Heyde poderia ter entendido como “quebra de disciplina”. Pespicaz, né? Mas vá entender aquele papel!
O  que estou tentando dizer é que deveria ter levado a sério o convite de sua mãe e, depois daqueles primeiros anos após o fim da ditadura, aqui, retornado de malas e cuias para a Alemanha. Estou falando do meu namoro com a profissão de ator. E se arrependimento doesse, Nina, eu juraria que estou sangrando até hoje! Todavia, naqueles dias eu estava me tornando pai e era meu dever retornar ao Rio. Algumas vezes matutei se não retornei a Stuttgart por covardia. Talvez, sim, mas só em parte. Hoje tenho certeza que o que me prendeu aqui foram minhas infelizes ilusões em relação ao Brasil.
Mas espere – o que eu queria dizer mesmo, e venho adiando isso há mais de dois anos, é que fiquei muito contente com aquela foto na qual você segura na mão o Urso de Prata, o grande prêmio do Festival Internacional de Cinema de Berlim! Cheguei a mostrá-la a alguns amigos. Olhem - essa garota eu conheço desde pequena!
Nossa - como senti orgulho!
Entretanto, sabe por que mais eu quis escrever essa carta? Porque você foi muito corajosa ao aceitar e desempenhar o papel da “Anônima”. A propósito, esqueci de lhe contar que entre um modesto filme e outro, quando transcorrem dois, três, ou quatro anos na busca de financiamento, tenho me desempenhado como tradutor. Talvez você tenha lido “Jeder stirbt für sich allein”, de Hans Fallada. Sua mãe com certeza o leu. Narra a luta solitária de um operário berlinense e sua esposa contra a ditadura hitlerista. Durante dois anos eles distribuem cartões de protesto nas soleiras das portas de consultórios médicos e escritórios de advocacia, em Berlim Mitte, até serem identificados pela Gestapo e decapitados em 1942, na prisão de Plötzensee. Pois bem, minha versão para o português, “Sós, em Berlim”, está prestes a ser lançada aqui no Brasil, pela Editora Record.
O que meu trabalho tem a ver com o seu? Pois veja! Por um acaso desses da vida, quando vi sua foto na Internet, eu tinha acabado de ler o livro da “Anônima”. Numa péssima tradução, diga-se, com erros bestificantes, expressão de desmedida preguiça e dos mistifórios do tradutor. Como dizia o Pentateuco da Bíblia Medieval Portuguesa, “[...] e entom destruiu nostro Senhor a torre, e departiu a cada hum sua voz propria, porém foi chamado aquel logar Babilonia, que quer dezer confondimento”. Foi o que senti ao ler a versão em português do texto adaptado para o filme do qual você é protagonista. Aliás, Kurt Marek, que celebrizado como C.W.Ceram foi publisher da versão americana do livro, sempre soube quem era sua autora, mas Marta Hillers conseguiu preservar seu anonimato até a morte. Por acaso ocorrida nestes últimos anos.

Outro motivo para a presente é que, quando vi sua foto rodando o mundo, eu tinha acabado de assinar o contrato sobre um romance. Seu protagonista é um combatente alemão que é preso após a queda da “fortaleza de Breslau”, e levado para um campo de prisioneiros de guerra em Tula, nas profundezas da União Soviética. De onde consegue escapar e depois emigrar para o Brasil. Jamais imaginei que esse tema me atraísse, porém, como teria dito Leon Trótski, "você pode não estar interessado em guerra, mas a guerra está interessada em você!”. Adágio que tem tudo a ver com a “Anônima”, que, do ponto de vista feminino, relata os últimos dias daquela carnificina e o horror dos primeiros dias da “libertação”.
Quando assinei o contrato para escrever o romance, eu tinha a estória do sujeito, mas me faltava a moldura. Então comecei a pesquisar. Ao cabo de uns quatro meses acabei acumulando 5,0 GB de material arquivo, o que, por baixo, deve significar algo em torno de uns seiscentos livros com trezentas páginas cada. Certo dia, deparei-me com a história das caravanas que em fevereiro de 1945 fugiam da Prússia Oriental e passavam por Breslau. Eram 1,5 milhões de mulheres, crianças e velhos correndo à frente dos tanques soviéticos.
Os exércitos de Hitler tinham derramado muito sangue, empreendido uma campanha de extermínio nas nações eslavas. Quando em 1943 a relação de forças inverteu-se a favor da União Soviética, temia-se uma terrível revanche. Por isso, em sua ordem do dia № 55, Stálin havia dito: “Às vezes circulam boatos de que o Exército Vermelho tenha por objetivo exterminar o povo alemão... Seria ridículo confundir o Povo alemão, o Estado alemão, com a corja de Hitler. A História ensina que os Hitlers da vida vêm e voltam, mas o Povo alemão, o Estado alemão, são permanentes”. As tropas de Stálin, contudo, tinham um entendimento assaz diferente da mensagem conciliadora do chefe de governo. Jornalistas, poetas e escritores alistados no Exército Vermelho trataram de jogar lenha na fogueira durante o avanço de suas colunas. ”Os alemães não são seres humanos... Para nós não existe nada mais divertido do que cadáveres alemães”, vociferou Ilya Ehrenburg.
“Com três semanas de guerra em território alemão, nós sabíamos: fossem alemãs as garotas, e qualquer um de nós tinha o direito a violá-las, em seguida executá-las. Atos que por pouco eram entendidos como ações de combate...”, escreveu um jovem capitão da tropa chamado Alexander Solchenizyn. Esse mesmo, de “O arquipélago Gulag”. Em seu poema, “Noturnos da Prússia Oriental”, lê-se em livre tradução, minha:
“Vinte e dois da Höringstrasse.
Nenhum incêndio ainda, mas rudemente pilhado.
Através da parede – um gemido sufocado:
Com vida encontro apenas a mãe.
Foram muitos sobre o colchão? Um destacamento, um pelotão?
Que diferença faz! A filha – criança ainda, morta no ato.
Tudo com a facilidade do jargão:
NADA ESQUECER!
NADA PERDOAR! SANGUE POR SANGUE!
E dente por dente.
Quem donzela ainda, mulher será feita,
e o mulherio – cadáveres em breve.
Toda embotada já, olhos sangrando, implora:
´Mate-me, soldado!´...”.

Desde tenra infância eu me lembrava ter ouvido burburinhos sobre as selvagerias cometidas contra as mulheres, mas não as conhecia em detalhe. E preciso te dizer que me senti enojado à medida que a leitura dos testemunhos avançava. Eu gostaria muito de ver logo seu filme para entender como o roteirista, o diretor e você resolveram os desafios colocados pelo material. Numa reprodução de sua introdução a “Anônima”, publicada em 01/05/2002, no Guardian, Anthony Beevor cita os depoimentos de duas mulheres russas sobre as violações em massa. A primeira, uma garota de 21 anos, do batalhão de reconhecimento de Agranenko, desconversou: “O comportamento de nossos soldados em relação aos alemães, particularmente as mulheres alemãs, é absolutamente correto!”. Já Natalya Gesse, amiga íntima do cientista Andrei Sakharov, e correspondente de guerra durante a campanha soviética, disse coisa completamente diferente: “Os soldados russos estavam violando qualquer mulher alemã, dos oito aos oitenta [...] Foi um exército de violadores”, ela fulminou.

Bebidas de qualquer natureza, inclusive soluções químicas perigosas, desviadas de laboratórios e oficinas, segundo Beevor foram fator agravante da violência hedionda. “Parece que os soldados soviéticos necessitavam de coragem para atacar mulheres”, adverte, ajuntando: “Mas então, muito frequentemente, bebiam demais e, incapazes de completar o ato, usavam a garrafa com efeito arrepiante. Muitas vítimas foram mutiladas obscenamente”.
Crimes mais bestiais e abjetos, porque perpetrados contra cerca de quinhentas moças conscritas na Frente do Trabalho, durante os dias 16, 17 e 18 de fevereiro de 1945, no campo de Vilmsee, foi o que testemunhou a brasileira, Leonora Cavoa, nascida em 22 de outubro de 1925, em São Paulo, cujo sobrenome de casada mudara para Geier. Leonora, que dizem estar viva e quem estou tentando localizar, foi obrigada a testemunhar cenas para as quais durante muitos dias procurou palavras. Leia: “The Commissar told me to watch and learn how to turn the Master Race into whimpering bits of misery. Now two Poles came in, dressed only in trousers, and the girls cried out at their sight. They quickly grabbed the first of the girls, and bent her backwards over the edge of the table until her joints cracked. I was close to passing out as one of them took his knife and, before the very eyes of the other girls, cut off her right breast. He paused for a moment, then cut off the other side” […]
Ainda segundo Beevor, estimativas do número de violações praticadas contra mulheres que deram entrada nos dois principais hospitais de Berlim, em meados de 1945, vão de 95 mil a 130 mil. Um médico citado deduziu que das 100 mil mulheres, “em média”, brutalmente violadas e desfiguradas, cerca de 10 mil morreram em consequência do choque e das mutilações. Ou suicidaram-se.

Muitas pessoas voltam a perguntar-se se não dá para comparar o genocídio das Einsatzgruppen de Heinrich Himmler, como a fuzilaria em Babi Yar (34 mil judeus executados em uma semana), com as violações em massa perpetradas pela soldadesca russa durante a ocupação do Reich em ruínas. Durante a guerra fria essa comparação de motivações era considerada moralmente ilícita. Abertos os arquivos, cá e lá, a percepção mudou. Mas na minha opinião a comparação não procede: o genocídio nazista foi um projeto premeditado, amplamente discutido pelo círculo fechado de Hitler, e praticado com cínica eficiência industrial. As violações em massa soviéticas foram a evocação da vingança. Em sua prática, às vezes até mais hediondas. E não men os cínicas. Como resposta acachapante, hoje ainda, veteranos soviéticos decrépitos fanfarroneiam sua versão descarada: “Todas elas [“as mulheres alemãs”] erguiam seus vestidos para nós e deitavam na cama [...] Dois milhões de nossos filhos foram paridos na Alemanha”.

Violação, diz a historiadora Susan Brownmiller, é o ato do conquistador que enfatiza sua vitória sobre o inimigo apropriando-se do corpo de suas mulheres. Nenhuma novidade: da campanha de Alexandre Magno à Guerra do Vietnã, mulheres de todo o mundo foram violentadas e trucidadas com requintes de crueldade estupidamente descritos como “animalescos”. Estupidamente, porque a animália conserva o instinto da dignidade, não conhece a humilhação. Ao contrário, o gênero humano. 

Mas então como explicar o alerta emitido pelo comitê central da juventude soviética, Komsomol, de 29 de março de 1945, a Malenkov, braço direito de Stálin, reportando-se a um relatório do Gen. Tsygankov, do 1º. Front Ucraniano? Um entre sem número de casos, nele lia-se: “Na madrugada de 24 de fevereiro, um grupo de aspirantes a tenente em curso de instrução, liderado por seu comandante, invadiu o dormitório feminino na vila de Grutenberg, e violou todas as mulheres”. Naquelas semanas, as notícias de violações em massa começavam a minar seriamente as tentativas do regime soviético de justificar o comportamento de seus exércitos como estouro de boiada após as atrocidades cometidas pelos exércitos nazistas em solo russo. Três meses depois, na Alemanha, foi a vez do novelista Vasily Grossman de sentir-se chocado. Integrando a campanha como correspondente do jornal do Exército Vermelho, também percebeu que as violações sequer se detinham diante das mulheres nas próprias fileiras. Ou libertadas. Jovens polonesas, russas, bielorrussas e ucranianas, deportadas à Alemanha como trabalhadoras forçadas, foram violadas e curradas às milhares. “Uma garota contou-me, às lágrimas – ´ele era um homem velho, mais velho que meu pai!´”.

“Bom número de outras energias ou influências estavam a operar”, escreve Beevor. “Liberdade sexual havia sido assunto de acalorados debates nas fileiras do partido comunista durante a década de 1920, mas na década seguinte Stálin fez tudo para que a sociedade soviética se percebesse como virtualmente assexuada. Isso não tinha nada a ver com puritanismo genuíno, mas foi porque amor e sexo não se encaixavam no dogma desenhado para ´des-individualizar´ o indivíduo”. Necessidades e emoções humanas tinham imperiosamente que ser suprimidas. A obra de Freud foi banida (minha nota: à guisa de comparação, na mesma época, na Alemanha nazista a psicanálise foi combatida como “ciência judaica”). Adultério e divórcio foram objeto de rigorosa desaprovação do partido, e o homossexualismo enquadrado como crime social. A doutrina stalinista estendeu-se à completa supressão de qualquer forma de educação sexual, praticada pelos socialistas libertários antes da revolução de 1917. Com uma pitada de ironia é preciso imaginar que nas artes gráficas eram rigorosamente fiscalizados até mesmo os contornos dos seios de uma mulher vestida, tidos como perigosamente eróticos. Tinham que ser disfarçados debaixo de alguma peça de roupa. Porque o regime “tencionava claramente a conversão de qualquer forma de desejo em amor pelo partido e, acima de tudo, pelo Camarada Stálin”.

Com sua introdução, Beevor disse quase tudo. Mas não disse o mais importante, porque sua abordagem se faz do ponto de vista do macho violador, e não da mulher violada. Por isso, James W. Messerschmidt, da University of Southern Maine (“The forgotten victims of WW II: masculinities and rape in Berlin, 1945”) adverte que o insight mais dramático na abordagem da violação é que ela destrói a integridade feminina, negando à vítima a vontade própria de engajar-se ou não no ato sexual. “Ao negar-lhe essa liberdade, o violador cria condições de domínio, controle e subordinação. Em outras palavras: os motivos dos violadores do Exército Vermelho à parte, o ato de violação é em si mesmo um fenômeno de dominação, desvalorização e violência. E como observou a autora dos diários [“Anônima”], os soldados soviéticos não escolhiam as mulheres ´mais atraentes´ para vitimizar – ´para eles, qualquer mulher o faria´. E de fato, os violadores do Exército Vermelho vitimizaram até mesmo mulheres judias que exitosamente tinham evitado sua captura pelos nazistas [...]”.  
No episódio referido por Messerschmidt, enquanto a mulher, que gritava “mas eu sou judia, eu sou judia!”, era estuprada por uma fila de soviéticos, seu marido, que tentara defendê-la, definhava numa poça de sangue. Baleado. Vocês filmaram essa cena?
Bem, querida Nina, a modesta epístola imaginada acaba de virar novela, e a releitura da história sempre teve o poder de revirar estômagos, tal seu asco. Assinados os acordos de paz, os governantes que sucedem as carnagens, abraçam-se, derramam algumas lágrimas fotogênicas para as câmeras e anunciam uma nova era da reconciliação. E seus povos que se danem. Porque ficam abandonados às suas lembranças, de parte a parte remoendo pesadelos e ressentimentos.

Que você tenha tido a coragem de mergulhar nesse túnel fantasmal do tempo, vestindo a camisa da “Anônima”, é um ato de coragem que merece um prêmio aquém ou além das telas.

Cá com meus botões fiquei pensando em te fazer um convite. Um papel bonito num dos meus projetos em gestação. Você ouviu falar de uma mulher chamada Pola Bauer-Adamara? Na mesma época, dos anos 1920, em que Paul Bowles publicava “O céu que nos protege”, ela acompanhou seu marido numa expedição à Amazônia. E me assaltou a acachapante analogia com a tragédia filmada por Bertolucci porque ela cai como luva na estória de um bando de alemães. Estória que começa com bebedeiras num café, em Berlim. Ali, um tal Artur Heye, dândi e aventureiro dublê de escritor, reuniu um grupo de cineastas, dos quais se destacava o veterano da UFA, August Brückner, casado com Pola Adamara. Estavam também o câmera, Adalbert Bittner, boêmio e alcoólatra, e sua mulher, e os irmãos Eichhorn. O projeto de Heye consistia de uma série de filmes “culturais“ para a UFA, e o grupo desembarcou em Belém do Pará, a cidade cuja universidade concedeu o título de Dr. Honoris Causa a seu pai – lembra? Mas a UFA não disponibilizou o dinheiro todo que necessitavam, o principal foi financiado por um primo rico da esposa de Heye. E sob o calor de 40ºC começaram os problemas: com o sol na moleira, a sra. Bittner estava às bordas de um ataque de nervos. Artur Heye, que era hepático, era só maus bofes. O profissional Brückner estava com pressa para trabalhar, mas o primo rico retém a grana. Enquanto isso, frustrado, Adalbert Bittner afogava sua decepção na cachaça. E então ocorre a grande separação no meio da mata: o primo rico e avaro toma o primeiro avião de volta à Alemanha; Brückner, sua esposa e os Eichhorn, acompanhados do indigenista Curt Nimuendaju Unckel, rumam às cabeceiras do Amazonas, mas os Heye e os Bittner decidem permanecer em Belém. Impiedoso, o destino desata a catástrofe: Bittner definha de uma cirrose em Belém, enquanto na fronteira com o Peru, Brückner é vitimado por uma misteriosa intoxicação. Feito o barco de Holofernes, das profundezas da Amazônia, Nimuendaju conduz uma canoa em direção a Belém, para salvar a vida de Brückner. Mas não consegue. Brückner não resiste. Sepultada a segunda vítima da equipe, Pola Adamara – e esta é você! - retorna à selva com Nimuendaju e conclui o filme do marido – Urwaldsymphonie, a “sinfonia da selva”. A propósito – você tem algum primo rico?
Beijos,
Frederico



Nina Hoss ao receber o Urso de Prata
do Festival Internacional de Cinema de Berlim
por seu papel protagonista em
"Anônima - Uma mulher em Berlim" (2008)

Link para o trailer do filme



06 fevereiro 2011

Frederico Füllgraf - Mauro Alice: ao mestre, com saudade

Fotos, de cima para baixo: M. Alice, 1927;
batendo claquette em "Jeca Tatu", 1960; à moviola, anos 80;
Anselmo Duarte, O,. Hafenrichter, M. Alice (dir), anos 60;
Cartazes de Mazzaroppi e Carandiru

Frederico Füllgraf


Conheci-o em 1968, quando ele estava de passagem por Curitiba, sua terra natal, onde eu era ainda um adolescente. Se bem recordo era um final de tarde friorento e úmido, típico daquelas latitudes, quando Christo Dickoff me levou até a Cinematográfica Guaíra, ao pé de cujas salas, localizadas num pavimento elevado de um sobradão, antigo, se descortinava a Praça Tiradentes, em sua babélica quadratura, traçada pela basílica menor, vendedores de bilhetes de loteria, bazares árabes, o comércio de roupas, judaico, a grande loja de departamentos, Prosdócimo, tudo escoltado pelos majestosos ipês e araucárias.

Eu trazia nas mãos um punhado de cartazes para divulgar uma mostra do Jovem Cinema Alemão, que me foram confiados pelo diretor do que anos mais tarde se transformaria no Instituto Goethe. Godard, Truffaut, Resnais estavam em nossos corações e mentes de cinéfilos como ícones devidamente assimilados da Nouvelle Vague. Mas “Junger deutscher Film” – o que era isso? Lembro-me de nosso espanto ao desenrolarmos na Guaíra, cartazes, cujos letreiros estampavam nomes tão dessemelhantes como Alexander Kluge, Volker Schlöndorff, Jean-Marie Straub entre outros.

E estudando-os com olhos lampejantes, Mauro Alice, aquele senhor bem apessoado e elegante, pareceu decolar para uma viagem no éter, resgatando em sua lembrança nomes do Expressionismo Alemão, pontificando sobre Fritz Langs e Caligaris, mas também evocando “anjos azuis” e belas pernas, tudo para mim tão intangível e fantástico, que meus olhos não queriam desgrudar dos lábios do montador. Que, ironicamente, apesar de viver em São Paulo fazia mais de vinte anos, falava com carregado e divertido sotaque curitibano, articulando as vogais como se rolasse “balas”, de canto a canto do palato, depois as mastigando com desbragado prazer – lêite quênte... e assim por diante.

Mas então chegara a hora de apresentar o motivo para a inusitada visita: será que seria possível filmar aqueles cartazes? E Mauro Alice, que viera à cidade natal para dar uma mão na edição dos cinejornais da Guaíra, do saudoso Júlio Krieger, não vacilou um instante: com uma velha Arriflex, 35mm, montada sobre um tripé, desafiou-me para dirigir os enquadramentos. Na verdade, mero ensaio de “natureza morta”, pinceladas da câmera sobre uma superfície de papel, sem cenário vivo ou atores para orientar.

Mas ali mesmo comecei a aprender o que era um “close”, um “tilt”, um “contra-plongée”, um “travelling”; noções que reforcei com a leitura de um livrinho de primeiros passos no Cinema, de Maurício Rittner, que eu teimava em decodificar no ônibus sacolejante rumo à escola. Por muitos anos aquele livrinho me acompanhou pela Europa como espécie de evangelho de iniciação, ao qual aderia a lembrança da filmagem tão singela pelas mãos de Mauro Alice.
Naqueles dias, eu ainda não tinha a menor idéia da trajetória de Mauro. Vagamente, me lembro que seu nome era associado a uma grande produtora paulista chamada Vera Cruz, em franco declínio, enquanto no final dos anos sessenta, Cinema Brasileiro para nós era sinônimo de “Deus e o diabo na terra do sol” e “Terra em Transe”.

Colegial, ainda, e freqüentador assíduo dos “filmes de arte” do Colégio Santa Maria, capitaneado pelo heróico Iwersen, o Cinema definitivamente me seduzira como promissão, embora em casa todos apostassem em meu futuro como geólogo da Petrobras. Por um fio fui desviado do chamamento, não fosse o movimento estudantil e a decisão do meu pai, assustado com a UNE, de me “tirar de circulação”.

E embarcado num cargueiro de minérios no porto de Vitória fui circular na margem oposta e boreal do Atlântico. Para desgosto da família, com uma nova turma, muito parecida.

Porém, o verdadeiro talismã carregado comigo durante as primeiras incursões no Velho Mundo foi a lata com os poucos metros de película 35 mm, revelada, que estampavam aqueles cartazes, que Mauro me ofertara como espécie de lição de casa corrigida e aprovada. Deslumbrado por seu filme, “Os artistas na cúpula do circo: perplexos” (1967) eu me obstinara que algum dia a presentearia ao diretor Alexander Kluge, como prova de minha devoção, e, como segunda intenção, cavaria uma vaga em sua equipe de produção.

Minhas circulações pelo Velho Continente, com algumas incursões na África, do Senegal até Angola, duraram treze anos. Nesse tempo, cometi alguns erros estratégicos, tais como a teimosa decisão de “estudar” Cinema na DFFB – a lendária, mas conturbada Academia Alemã de Cinema e Televisão, onde perdi preciosos anos assistindo aulas, intermináveis e soníferas, de “estética marxista” (na verdade deslavado stalinismo), cujos professores desfiavam mantras como “A luta de classes em Hunan”, do glorioso Mao Tsé Tung, mas não sabiam enquadrar uma câmera.

A técnica da montagem de conflito (ou de atrações, segundo Eisenstein) eu a aprendera sozinho, assistindo, sempre de novo, os filmes do diretor de “Outubro” e os filmes agit-prop de Pudovkin. Nossos professores repudiavam o cinema de ficção, e queriam fazer de nós - latinos, gregos, iranianos e africanos - “cineastas da revolução”. A revolução projetada, que eles, frustrados e amargos, não conseguiam fazer em seu país. Um sujeito chamado Régis Debray já não se danara por isso?

Resolvi então mudar-me para a universidade. Findos ambos os cursos, o de Comunicação e de Cinema, fui fazer estágio na TV Alemã. E este foi o segundo grande erro de início de carreira. Aprendi muitas firulas, algumas úteis, mas a linguagem de TV estava mais para reportagem que para a poesia do documentário. E ambos, a reportagem e o documentário, durante muitos anos travaram meu envolvimento com a ficção.

Alguns anos depois, com um título de Mestre em Comunicação Social, conferido pela FUB – Universidade Livre de Berlim, na algibeira, retornei prematuramente ao Brasil, com pressa para ver a ditadura cair, e também movido pela ilusão de que aqui estava “tudo por fazer” – ilusão que me perseguiria oito anos após o meu regresso, no escritório de Icaza Sánchez, ex-cônsul honorário do Panamá e “bruxo” da TV Globo, que após nossa entrevista sobre a telenovela “Vale Tudo”, recém-comprada pela WDR-TV, da Alemanha, e ao fim da segunda garrafa de um Johnny “black”, me insultou, dizendo: “la TV que você aprendió a hacer na Europa, aqui no vale porra ninguna!”...

Queria dizer: a TV aberta, brasileira, estava se lixando para a formação cultural de seu público, pois o “nivelamento por baixo” tinha dado certo. Dinheiro. Estrategista em “programar narizes”, como me disse, o formato das telenovelas estava correto. Por isso não entenderam na TV Globo, para onde fui chamado para dar explicações, por que a versão alemã de “Vale Tudo” fora colocada no ar às 5h da tarde, para o público de terceira idade, ainda por cima com pelo menos 50 do total de 220 originais suprimidos. Tentei lhes fazer entender que horário nobre alemão é reserva de cinema, ópera, balé, documentário de viagem, e que ninguém agüenta 220 capítulos de estórias arrastadas. Explicação que Gilberto Braga, o autor extenuado, endossou, dizendo diante da câmera, sem reservas, que ao completar 60 capítulos toda novela estava com sua estória bem contada. Portanto, o resto, segundo Hamlet, deveria ser silêncio, mas na TV aberta brasileira teimava-se com “encheção de lingüiça”.

Ao chegar, no Oeste do Paraná milhares de agricultores esgrimiam uma teimosa resistência à submersão de suas fertilíssimas terras pela hidrelétrica de Itaipu. Sacerdotes católicos e protestantes irmanavam-se em apoio aos expropriados, e, já se antecipando ironicamente ao insulto de Icaza Sánchez, esse conflito interessava à TV Alemã, porque, de um lado das trincheiras, na represa rodavam turbinas de multinacionais alemães e, do outro, as igrejas germânicas subsidiavam a luta dos seus irmãos brasileiros. Assim, em paralelo a várias incursões televisivas para a Europa nasceu, primeiro, meu documentário “Desapropriados”. E logo depois, o curta-metragem cult, “Quarup Sete Quedas”; ambos de 1983.

Mal acabara de filmar o “Quarup...” e, desses encontros que não são acasos, topo com Mauro Alice em Curitiba. Depois de quinze anos sem nos vermos, entreguei-me a um abraço saudoso, e o convidei para montar o filme (o que é mentira, porque literalmente o intimei). E mais uma vez Mauro, que acabara de ministrar um curso de montagem na Cinemateca de Curitiba, durante uma pausa entre o filme “Pixote”, cuja trilha sonora acabara de editar, e “O beijo da mulher-aranha”, novo projeto de Héctor Babenco, que deveria montar, aceitou o desafio. Não porque sabia que seu trabalho seria pago, mas movido pelo tema e a amizade pelo jovem diretor. E as contas do “Quarup...” paguei-as todas do meu próprio bolso, porque embora definhasse, em 1983, a morte da ditadura era lenta e, apesar de que a Fundação Roberto Marinho me procurara, finalmente recuou, preferindo não aventurar-se, bancando o curta-metragem rebelde (que tal se depois perdesse a faustosa campanha de publicidade da hidrelétrica para a concorrência?).

Naturalmente, em nosso primeiro encontro em São Paulo, de preparação da montagem, que contava apenas com um roteiro esboçado, mas totalmente ultrapassado pela profusão de imagens inesperadas, desta vez invertiam-se nossos papéis, pois agora eram os olhos do Mauro que não desgrudavam da minha boca. Claro que ele queria saber como eu tinha aproveitado aqueles anos, principalmente em tão sublimes companhias, que o encheram de ais e aquela saborosa inveja que só os amigos de verdade sentem.

Então lhe contei minhas aventuras. Em Frankfurt, a re-emergente Meca do mundo das finanças, mas também de uma universidade e uma boemia, barulhentas, onde se gestava outro mundo, o da esperança, começara minha jornada do herói de muitas faces, ora separando volumes numa distribuidora de livros, ora embalando perfumes e sabonetes numa fábrica de cosméticos e, finalmente, recondicionando embreagens de caminhões e blindados; trabalho que me tirava da cama às cinco da manhã, me obrigava a tomar duas conduções e, na linha de montagem, esfolava-me as mãos com as lascas sanguinárias das pesadas peças de ferro fundido.

“É isso aí, student, tá quase chegando lá!”, caçoavam os operários, gordos e sádicos, deleitados com minha sangria. Queriam dizer: com meu batismo de expropriado da mais-valia. De frente para o umbral, o pequeno herói, latino, enfrentava seu primeiro obstáculo: viera para “estudar” Cinema, mas ali se sentia perdido, proletarizado. Ou seria essa sua humanização?

Mas então lhe contei que, atiçado por um repente um belo dia tomei um trem através daquele território que se chamava República Democrática Alemã (que em 1989 desabaria juntamente com o Muro) e cheguei a Berlim na véspera da Berlinale; excetuando o glamour de Cannes, talvez o maior festival de cinema do mundo. E cara de pau infiltrei-me como “correspondente” do ilustre desconhecido “Diário do Paraná”, cujo editor de Cultura, Haroldo Murá, para quem eu escrevera minhas primeiras resenhas cinematográficas, não se sabe movido por qual intuição, certo dia me aprovisionara com uma credencial, que apresentei, já toda dobrada e descorada, ao bureau do festival. E durante dez dias ininterruptos bebi, comi e regurgitei filmes. Estimando que fossem 84 no total.

E novamente tendo como abre-alas meu anjo da guarda, que nunca se apresentava com seu nome, de repente eu estava cara a cara com meus deuses: Luis Buñuel, Jean Luc Godard, Billy Wilder, Alain Resnais – todos ali, em carne e osso. No balcão de um bar do festival, ao meu lado abancara-se um sujeito transpirado e mal-cheiroso, vestindo parka e coturnos do exército, que acendia um cigarro dos negros Gitanes na ponta do outro, e era o Rainer Werner Fassbinder, “reprovado” pela mesma escola de cinema que eu pretendia cursar, mas que já dera a volta por cima, fazendo seus filmes em Munique e dando bananas para os iluminati da tal DFFB. Primeiro vi seu “Katzelmacher” e saí chorando do cinema (vinte anos depois, em companhia de uma amiga, antropóloga alemã, fui visitar seu túmulo num cemitério de Munique. Fiz uma pequena prece e agradeci por todos os seus filmes).

E assim tinham se sucedido os dias, derretidos em longas tertúlias com um tal Istvan Szábo, que chegou a me convidar para Budapeste – conversas  alternadas com aparições altissonantes de um sujeito doidivanas chamado Glauber Rocha, exilado em Roma, mas que teimava em ligar para o Gal. Médici (ou já era o Geisel...) para convencê-lo a fundar a Embrafilme, ali maquinada.

Sem perceber, porque ainda era tímida sua voz interior, o pequeno herói estava seduzido pelo novo, a todo dia potenciado, e ia colecionando decisões erradas, e reeditando equívocos. A primeira, por não insistir no encontro com Alexander Kluge, guru desde Curitiba, e destinatário daquela latinha-talismã. O segundo passo em falso foi não entender a oportunidade que se descortinara com o convite de Szábo. O terceiro, finalmente, foi não ter dado ouvidos à advertência do amigo, Thomas Mitscherlich, para quem a DFFB, que o expulsara em 1969, mas que eu tanto mistificava, era uma solene perda de tempo.
Mauro Alice se descabelava com gargalhadas! E não me censurou por minhas decisões equivocadas – legou-me a auto-recriminação, muito mais doída. A moral da estória que Mauro encarnava à perfeição era: não se aprende Cinema numa escola, mas preferencialmente ao lado de um grande mestre.

Parêntese: perguntam-me se arrependimento dói? Dois anos após aquela conversa com Mauro Alice, fui ver “Mephisto”. E gelei na poltrona quando me deparei com Istvan Szábo pela segunda vez: ele assinava pela direção do belíssimo filme, adaptado do romance explosivo de Klaus Mann, em cuja produção eu certamente teria tido um papel; nem que fosse puxando cabos como assistente do eletricista.

Mas então engatamos três semanas de montagem numa moviola alugada da Verbo Filmes, produtora católica instalada num mosteiro da Granja Julieta, e Mauro começou a dar corpo a “Quarup Sete Quedas”, ao qual, mediante carta escrita de próprio punho, Carlos Drummond de Andrade já me emprestara como alma seu comovente poema, “Adeus a Sete Quedas”.

Tínhamos várias cenas que exigiam trucagem – aquela fotografia em preto e branco da Estação Matte-Laranjeira, por exemplo, que vai afundando no reservatório de Itaipu - porque a época ainda não nos abençoara com a tecnologia do corte e da composição, digitais. Mauro estruturou e marcou as cenas, e fomos à Truca, empresa localizada a menos de duas quadras dos então Laboratórios Líder, no Bexiga, que era espécie de “plantão 24 horas” dos profissionais de Cinema de São Paulo. E - “Grande Mauro!”, “Oh, Mauro, que prazer!” - saudações pronunciadas por cada dois entre três cineastas, não me escapou a celebridade do meu amigo naquele meio.

Quarup Sete Quedas - Estação Matte Laranjeira submergindo.

De volta da montagem, em algumas noites, jantamos nos quarteirões adjacentes ao apartamento de Mauro, em Higienópolis. E só então em nossas conversas fui me apossando de sua história. Filho de imigrantes italianos, o Cinema estava por assim dizer inoculado em seu DNA. Sempre me surpreendendo, contou-me que já na década de 1930, em Curitiba o cinema era o divertimento mais importante da família Alice. Isto porque seu tio, Henrique Oliva, era distribuidor de filmes. Divertimento dos Alice-Oliva e da metade de Curitiba, diga-se, porque as fitas atraíam legiões de trabalhadores e gente da classe média, sobretudo os imigrantes, às salas de cinema, com nomes tão dissímiles como Ópera e Arlequim, Ritz e Avenida, que começavam a se concentrar no perímetro daquelas duas quadras da Avenida João Pessoa, depois renomeada de Luiz Xavier. Que o povo cansado de revisionismo histórico decidiu batizar de “Cinelândia” - a menor avenida do mundo, imortalizada por Dalton Trevisan como a “Boca Maldita”.

Químico contratado pela Rhodia, no final da década de 1940, Mauro mudara-se para São Paulo. Mas devido a esses “chamamentos”, como o que me assediara em 1968, em 1950 Mauro Alice abandonou o emprego na Rhodia, em Santo André, desviando seu rumo para São Bernardo do Campo, sede da produtora Vera Cruz. Estava extasiado pelo anúncio da volta ao Brasil de Alberto Cavalcanti, o cineasta brasileiro que fizera fama na Itália, e que Franco Zampari, empresário paulista, ítalo-descendente, desejava incorporar à Vera Cruz como o grande pivô artístico de seu projeto de um deslumbrante estúdio cinematográfico à semelhança de Hollywood e da Cinecittá.

Sempre em débito com seus artistas enquanto vivos, sua terra natal, Curitiba, e o Estado do Paraná, lhe ficaram devendo o reconhecimento. Por sorte, a trajetória de Mauro Alice, com sua infinidade de tramas paralelas e episódios tragicômicos (basta lembrar o choque da Segunda Guerra Mundial e a perseguição aos súditos do Eixo vivenciados pelo filho de um casal de calabreses, cuja casa em Curitiba é invadida pela polícia de Getúlio), nos é narrada de forma enternecedora por Sheila Schvarzman, advertida e sensível, que com a voz do célebre, mas sempre tão modesto montador em primeiro plano, compilou sua biografia (“Mauro Alice – Um operário do filme”, 2008) para a série “Aplausos”, da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Não fosse Sheila e tenho certeza a história do grande montador se teria perdido. Porque Mauro Alice nos deixou no dia 23 de novembro de 2010.

Para mim, com o passar dos anos, Mauro Alice era a memória ambulante, o arquivo de imagens, cenários e protagonistas da lendária Vera Cruz, do Cinema de Walter Hugo Khoury e do dessemelhante Mazzaroppi; três nomes indissociáveis da História e de certa Economia Política do Cinema Brasileiro, entendida como atividade industrial apoiada sobre o trinômio criadores-estúdios-investidores.

Com três décadas dedicadas à montagem dos filmes de Lima Barreto, Watson Macedo, Anselmo Duarte, Glauko Mirko Laurelli e Amácio Mazzaropi, e tantos outros, no início dos anos 80, Mauro Alice fechava por assim dizer o ciclo do mercado doméstico do Cinema Brasileiro, quando então, com passagens pelo filme publicitário e o gênero Boca do Lixo, em São Paulo, é descoberto por Héctor Babenco, cuja obra, de “Pixote” (1983) a “Carandiru” (2003), co-produções geralmente associadas a produtores estrangeiros, o lançará no circuito internacional.

Um detalhe importante a ressaltar é o hiato que se percebe em sua filmografia (na qual não figuram “Quarup Sete Quedas”, talvez desconhecidos de Scheyla, motivo pelo qual agrego sua ficha da Cinemateca Brasileira à filmografia), situado entre as montagens de A Grande Noitada, de Denoy de Oliveira (1990), e Coração Iluminado, de Hector Babenco (1997). Foram os anos, após a liquidação da Embrafilme e da passagem do desastroso Governo Collor, da completa estagnação da atividade cinematográfica brasileira, durante os quais, não poucas vezes, em meus telefonemas do Rio para São Paulo, percebi alquebrada a voz de Mauro Alice; desempregado, desanimado e aflito. Mas sem jamais esboçar qualquer pedido de ajuda. Que na época, como efeito de outro cataclismo - a queda do Muro de Berlim e, como trama decorrente, o completo desinteresse da TV Alemão pelo Brasil de José Sarney - eu também não poderia lhe dar, penando como subempregado, mas com um filho recém-nascido. Foi quando Arnaldo Jabor, quem, aos sábados, eu costumava encontrar na Praia do Pepino, me confidenciou que desistira de fazer Cinema, retornando ao jornalismo, na Folha de S. Paulo. E foi quando Tizuka Yamazaki, depois do estrondoso sucesso de sua telenovela, “Cananga do Japão”, na qual também estreara como atriz minha companheira de então, Leticia Vota, começou a disputar no tapa, vídeos institucionais, porque o mercado estava “parado”.

Voltei a ver Mauro Alice em 2001, quando o sondei para a edição de um filme institucional, encomendado pela Osram do Brasil, todo gravado em vídeo. Mas então o mestre, habituado à sua moviola e à montagem manual de películas, me confidenciou que ainda não se sentia à vontade com toda aquelas engenhocas de corte eletrônico, preferindo acompanhar a filmagem como espécie de “diretor nas sombras”. Gravações durante as quais tivemos uma breve rusga, de caráter eminentemente técnico, mas solenemente desprezível, na verdade um pequeno choque de egos, que muito lamentei.

“Se tivesse que definir Mauro Alice numa frase” - escreve Sheila Schvartzman, e eu peço licença a ela para fazer minhas, suas palavras – “diria que ele é antes de tudo uma pessoa generosa. Isso lhe permite ser, como disse, um operário do filme. Alguém que, através do seu ofício de montador, se põe à disposição da engrenagem do filme, para que o sentido da obra possa emergir”.

Generoso, sempre, mas eu o percebi também muito franco diante dos acertos e erros de seus parceiros: seus elogios, sempre sinceros, lhe presentearam amizades para toda a vida; já suas críticas, incompreensão e problemas. Inclusive com Babenco, o diretor com quem Mauro Alice dividiu sua mais fértil parceria. Com desabafos off the record fiquei sabendo de muitos episódios das coxias, dos bastidores dos sets e das salas de montagem, e de forma alguma será exagerado afirmar que Mauro Alice foi o salvador de numerosa penca de filmes brasileiros.

Conversar com Mauro era sempre um evento prazeroso. Fatalmente falávamos de Cinema. Às vezes, conversávamos sobre música, e o pouco que eu sabia de ópera, Mauro expunha ao vexame com sua pequena, mas seleta discoteca, então me surpreendendo com suas hilariantes pantomimas, imitando a áspera, mas poética dicção dos heróis crepusculares de Wagner. Va bene, obviamente ele se identificava muito mais com uma “Tosca” ou um “Barbeiro de Sevilha”, cujas intonazzioni conhecia desde o berço. “Eu fui criado com leite e óperas”, contou a Scheyla.

Noutras vezes, embarcávamos em viagens. Numa das noites, durante a produção, Mauro contou-me que viajara à Itália, como espécie de missão de resgate de suas origens. Sempre ilustradas com gestos amplos, suspiros e onomatopéias, também aquela narrativa pedia uma câmera para ser registrada, de tão teatralizada, mas pelo coração, sem qualquer afetação. A chegada à Calábria o emocionara além da conta. Então me confidenciou que seus pais tinham se conhecido em Curitiba, mas que, por coincidência, ambos tinham nascido na Calábria; o pai numa aldeia chamada Acri, e a mãe em outra, chamada Scalea. Queria dizer: na verdade o casamento fora arranjado por um tio e um senhor calabrês, mãe da moça, como espécie de “pacto” entre patrícios. E me mostrou algumas das fotos clicadas durante suas vertiginosas subidas e descidas de Scalea, uma “escada” (no dialeto local) encrustada em penhascos literalmente tombados sobre o esplendoroso Mediterrâneo. Ali, para Mauro se fechara outro ciclo, o do domínio da história da família.

Em várias oportunidades, mostrou-me alguns de seus contos e roteiros esboçados, todos de curta-metragem, alguns dos quais publicados na revista cultural, “Nicolau”, editada na Secretaria da Cultura do Paraná pelas mãos do também saudoso Wilson Bueno. Eram quase sempre estórias como essas contadas pelos sonhos, por isso, intrinsecamente cinematográficas, cujos personagens, geralmente femininos, experimentavam expiações ou revelações: a lembrança de um grande amor do passado, o ressurgimento de um ente querido, solilóquios sobre segredos inconfessáveis... Mas eram projetos de longa gestação, e nenhum deles realmente alçou vôo, sem esquecer que, apesar de seu talento autoral, Mauro Alice jamais apostou nele, investindo numa carreira de diretor.

Outros dez anos depois, cuja passagem sem notícias deploro amargamente, me encontrava em São Paulo com Adriane. Era agosto de 2010, e eu disse a ela, preciso visitar o Mauro. Não tinha mais seu telefone, anotado em antigas agendas descartadas e, irresponsavelmente, não transferido para a agenda do celular. E pusemo-nos a devassar a lista telefônica pela internet. Horas a fio, e nada! Pensei em ir visitá-lo, sem aviso, mas não me lembrava mais do nome da rua, que só meses depois Rosina Alice Perchen recordou. E deixei São Paulo sem ver Mauro Alice, porque não confiava em minha memória visual e meu sentido de orientação na tentativa de encontrar seu apartamento em Higienópolis.

No dia 24 de novembro, abri o jornal como o abro todos os dias, mas então lá estava a notícia: “Morre o montador Mauro Alice!” Larguei o jornal e tive a certeza de que aquele impulso de agosto, em São Paulo, fora um aviso. Talvez Mauro, que estava doente, premonizara a morte e estivera pensando em seus amigos? Escusa, amico!

Poucos dias antes do Natal de 2010, ligou-me o amigo “Vitamina”, o egrégio advogado, Dr. Henrique Schmidlin, convidando-me para o ato da transferência dos despojos de Mauro Alice para o Cemitério Municipal de Curitiba.

No dia marcado, encontrei “Vitamina”, acompanhado de Rosina, sua chefe na Secretaria de Cultura, por quem eu tantas vezes e durante tantos anos passara sem me dar conta que era sobrinha e apadrinhada de Mauro Alice.

E após uma longa hora de espera, que eu não sabia explicar, nem seu sentido me atrevia a perguntar, imaginando que aguardávamos toda a família, residente em Curitiba, subitamente nos alcançou um jovem, trazendo na mão um saco plástico contendo um vasilhame lacrado. E estendendo a Rosina um formulário, despediu-se burocraticamente após colher a assinatura da destinatária. Simples assim.

Eram as cinzas de Mauro Alice.

E começamos a caminhar por um corredor de túmulos até encontrarmos os dois coveiros, ocupados em alavancar o pesado tampo de mármore de uma sepultura que se revelou da família. Rosina conferiu seu número, e não havia dúvidas. Depois de uns vinte minutos forcejando, conseguiram abrir uma fresta, por onde então “Mauro Alice” foi introduzido. Depois do que o tampo foi cuidadosamente re-encaixado em sua posição original. Neste tempo, todo, ninguém disse palavra. Eu me afastei alguns passos do grupo e balbuciei alguma coisa que parecia misto de prece e conversa com meu amigo.

Até hoje não consigo assimilar aquele saco plástico trazido às pressas de São Paulo.

Aquele não era Mauro Alice.


Filmografia de Mauro Alice

2004
• Vinho de Rosas – Elza Cataldo, Montagem
2003
• Carandiru – Hector Babenco, Montagem
2001
• Memórias Póstumas de Brás Cubas – André  Klotzel, Pré-Montagem
1999
• Até que a Vida nos Separe – José Zaragoza,  Montagem
1998
Coração Iluminado – Hector Babenco, Montagem
1997
• A Grande Noitada – Denoy de Oliveira, Montagem
1990
• Brincando nos Campos do Senhor – Hector Babenco, Assistente de Montagem
1988
• Doida Demais – Sérgio Rezende, Montagem
1987
• Fogo e Paixão – Márcio Kogan e Isay Weinfeld, Montagem
1986
• Besame Mucho – Francisco Ramalho Jr., Montagem
1985
• A Hora da Estrela – Susana Amaral – Montagem-básica não credenciada,
• O Turista Aprendiz – Maureen Bisilliat, Montagem
1984
• Made in Brazil – Carlos Nascimbeni, Francisco Magaldi, Renato Pitta, Montagem
• O Beijo da Mulher-Aranha – Hector Babenco, Montagem
1983
• Pixote – Hector Babenco, Sonorização
 - QUARUP SETE QUEDAS
1982
• Filhos e Amantes – Francisco Ramalho Jr., Montagem
• Retrato Falado de uma Mulher sem Pudor – Jair Correia/Francisco Ramalho Jr., Montagem
• As Aventuras da Turma da Mônica – Maurício de Souza, Montagem
1979
• Alucinada pela Paixão – Sérgio Hingst, Montagem
1974
• O Anjo da Noite – Walter Hugo Khouri, Montagem
• As Cangaceiras Eróticas – Roberto Mauro, Montagem
• Jecão: Um Fofoqueiro no Céu – Pio Zamuner/ Amacio Mazzaropi, Montagem
1973
• Pantanal de Sangue – Reynaldo Paes de Barros, Montagem
• Um Caipira em Bariloche – Pio Zamuner/ Amacio Mazzaropi, Montagem
• O Detetive Bolacha contra o Império do Crime – Tito Teijido, Montagem
1971
• As Noites de Iemanjá – Maurice Capovilla, Montagem
1970
• Balada dos Infiéis – Renato Santos Pereira, Pré-Montagem
• Quelé do Pajeú – Anselmo Duarte, Sonorização
• As Gatinhas – Astolpho Araújo, Montagem
• Transplante de Mãe in Em cada Coração um Punhal – Sebastião de Souza, Montagem
• O Palácio dos Anjos – Walter Hugo Khouri, Montagem
1969 30
• OSS-117 Prend dês Vacances (Verão de Fogo) Pierre Kalfon, Montagem
1966
• O Corpo Ardente – Walter Hugo Khouri, Montagem
• O Puritano da Rua Augusta – John Dôo/ Mazzaropi, Montagem
• O Círculo Perfeito – Prof. Leonel Moro, Montagem
• Maré Alta – Egydio Éccio, Montagem
1965
• Vereda da Salvação – Anselmo Duarte, Montagem Imitando o Sol ou O Homem das Encrencas – Geraldo Vietri, Montagem
1964
• Noite Vazia – Walter Hugo Khouri, Montagem
1963
• Casinha Pequenina – Glauco Mirko Laurelli/ Amacio Mazzaropi, Montagem
• O Casaco (in Claudia) – Beatriz Segall, Montagem
1962
• O Vendedor de Lingüiças – Glauko Mirko Laurelli/Amacio Mazzaropi, Montagem
1961
• Bruma Seca – Mario Civelli, Montagem
• A Primeira Missa – Lima Barreto, Montagem
• O Pagador de Promessas – Anselmo Duarte, Sonorização
• Tristeza do Jeca – Milton Amaral/Amacio Mazzaropi, Montagem
1960
• Mistérios da Ilha de Vênus - Douglas Fowley, Assistente de Montagem
• Jeca Tatu – Milton Amaral/Amacio Mazzaropi, Montagem
• Na Garganta do Diabo – Walter Hugo Khouri, Montagem
1959
• Ravina – Rubem Biáfora, Montagem
1958
•Alegria de Viver – Watson Macedo, Montagem
• A Grande Vedete – Watson Macedo, Montagem
1957
• Rio Fantasia – Watson Macedo, Montagem
• A Baronesa Transviada - Watson Macedo, Montagem
• Rico Ri à Toa – Roberto Farias, Montagem
1956
• O Sobrado – Walter George Durst, Assistente
290 de Montagem
• A Estrada – Oswaldo Sampaio, Assistente de Montagem
• O Gato de Madame – Agostinho Martins Pereira, Montagem
1954
• Uma Pulga na Balança – Luciano Salce, Auxiliar de Montagem
• Candinho – Abílio Pereira de Almeida, Montagem
• Floradas na Serra- Luciano Salce, Assistente de Montagem



1953
• Sinhá Moça – Tom Payne, Auxiliar de Montagem
1952
• Veneno – Gianni Pons, Auxiliar de Montagem
• Sai da Frente – Abílio Pereira de Almeida, Assistente de Montagem
• Apassionata – Fernando de Barros, Assistente de Montagem
1951
• Ângela – Tom Payne, Auxiliar de Montagem
1950
• Caiçara – Adolfo Celli, Auxiliar de Montagem
• Terra é Sempre Terra – Tom Payne, Auxiliar de Montagem



18 janeiro 2011

Frederico Füllgraf - Habanera gitana



Sobre um poema de Federico García Lorca


Quero chegar a Havana quando fizer lua cheia e nos empedrados de tua Cidade Velha as ruínas projetarem silhuetas dos sonhos estilhaçados.

Quero chegar num carro de águas de esmeralda e baixar à praia, embalado por roces da guitarra de Tonino,  percutidos pelos atabaques dos negros de Lorca menino. Negros com pele de seda das primeiras luzes da manhã, e cuja cor é a soma de todas as cores.

Quero chegar a Havana quando em mim se completar o medonho ciclo, meu sangue do Andalús vertido numa coreografia rumbera, quando enfim meu corpo entranhar o ditame da alma antiga e esbanjadeira, que abandone minha crisálida para tornar-me  bicho heliotrópico atraído por tua luz.

Quando eu desembarcar em Havana com a lembrança de Málaga e Almería, a boca pronta para o beijo perfumado pelos temperos de Zanzibar, e a pele azeitada por maresia, me estende a palma de tua mão para que nela possa pousar.

Quanto mar!

Quando eu pisar nas areias de tua Havana ouvirás o pranto de Canut, o lamento do Djebel Al Tarik estreitado na garganta de Nicolás – não o Guillén da tua Ilha, mas o Reyes cigano errante entre Córdoba e Sevilla.


O coração incendiado de flamenco e álcool da videira quero enlaçar “tua cintura quente e gota de madeira!”

Áy, llevame, llevame el compás Deste tipo que me gusta cantar
Áy, llevame, llevame el compás Deste tipo que me gusta bailar...

“Harpa de troncos vivos”, útero de águas quentes, me juntarei às carpideiras da Pavana, funeral com flor de tabaco para Federico García em Havana. Uma guitarreada para o fuzilado e uma salsa encharcada de rum como brinde ao escritor, Cabreiro e exilado!

Quando me batizarem com a cachaça do teu mar de pés de cana renascerei como o espião que contava navios e tornou-se tradutor demais do Rosa na prisão. Já o outro alemão, fuzilado pelo General Benítez, era o risível espia que de menos sabia; estória antiga que desde criança você conhecia. O primeiro traduziu “Grandes Sertões” e “Sagarana”, o segundo eternizou-se como “Nosso homem em Havana”.
(o deles, naturalmente, que alcoviteirice não é com a gente!)

Quando eu chegar a Cuba, “oh, curva de suspiro e barro”,
Do barco denotarás o pranto de uma bulería.
Abraça, beija, benze-me com as águas do teu amoroso tarro.
Para começar basta-me: uma habanera é tudo o que eu queria.
Prosa sem métrica, mas bêbada de poesia.
Para ler sincronizada com a Rumba Tech dos reis da cigania.


Agora habáname!

30 dezembro 2010

Frederico Füllgraf - Feliz Ano Novo! Crônica politicamente incorreta


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Para Jan Pablo 

Reeditasse sem comentários esta crônica publicada há sete anos, e quem se lembraria? No entanto, o Ano Novo está às portas. Mas as portas aqui referidas são metáfora de tempos sombrios, que meu filho Jan não conheceu. Botafoguense de nascimento, conhece Curitiba e a Ilha do Mel como a palma da própria mão. Contudo, por inusitadas e insolitas razões, Jan é um privilegiado morador de Palermo Viejo, Buenos Aires. E movido não sei por qual intuição, numa quinta feira à tarde de um dos últimos anos, chama um colega da escola, empunha uma velha câmera VHS, atravessa a cidade e – de chofre – entrevista algumas Madres da Plaza de Mayo. Pai, pede-me por e-mail, me ajuda com alguns contatos!  Em janeiro de 2011, Jan completará dezenove anos – o resto era silêncio, mas o leitor associará. 

Pasmado, leio no jornal a confissão de Dr. Henry: sempre desmentida, em 2003 a conspiração é admitida. Fria, burocrática, desata em mim a irrefreável viagem à ré no tempo. Faz trinta anos. Agora alguns rostos são apenas feições embaciadas. O de Cláudio, por exemplo, estudante de engenharia e companheiro da associação de estudantes latino-americanos. Naquele momento o argentino Cláudio é como eu, Ruiz, Alícia, João e Marina: estamos confortavelmente instalados na Alemanha  dos anos 70 e por isso nos sentimos “culpados”, em dívida com “o chamamento”.  Por isso Cláudio se despede à francesa. Meses mais tarde saberemos que trabalha numa fábrica, a 12 mil quilômetros de distância, no labirinto entre La Boca e Avellaneda. É o início de 1976 e depois disso Cláudio Zieschank some do mapa.

Retomo o jornal, mergulho na trama paralela: 7 de outubro de 1976, outono em Nova York. Imagino o cenário. Uma suave brisa toca álamos, carvalhos e castanheiras, despindo-os de sua última folhagem. Enquanto fala com seu interlocutor sul-americano, Dr. Henry levanta-se da poltrona e acompanha pela janela da suíte, a elipse de uma folha em queda-livre, que vai juntar-se ao cintilante e fofo tapete ocre-bordô em formação no Central Park; ali aos pés do Waldorf-Astoria. Absorto, com as mãos cruzadas às costas, por um momento deixa-se cativar pela lerdeza dos elementos. Intui que o ciclo se completa. Reincorporado, volta-se abruptamente para seu interlocutor, disparando seco: “Quanto mais rapidamente vocês agirem, tanto melhor!”. O almirante César Augusto Guzzetti retorna à embaixada argentina em Washington e de lá transmite a senha para seus pares: “Se conseguirmos acabar com eles antes que o Congresso americano volte a reunir-se, em dezembro, eles nos darão as armas e o crédito!”.


Duas semanas mais tarde, madrugada do dia 23 de outubro de 1976 em Buenos Aires, derrubam a porta da casa da família Meijide. Na frente dos pais aflitos agarram Pablo, um garoto com apenas dezesseis anos de idade. É Graciela Meijide, a mãe, que me narra o episódio – faz sete anos, mas sua emoção é de ontem. No vinco das rugas em seu bonito rosto, percebo a falsa velhice de oitenta e cinco meses de vigília.  Enrique Fernández Meijide, o pai, mergulha em duas mil e quinhentas noites de insônia, para dar forma ao choque, ao terror, à náusea, à cólera represados. Troca a arquitetura pela poesia,  para dar um sentido à própria impotência: “Te fuiste por el lado de las sombras / Sin mirar hacia atrás. Juntando el miedo, / que te sobraba, / con todo el nuestro. // Intentando dejarlo a nuestro cargo / porque debías parecer sereno. / Cinco gorilas / y vos en medio…”.

E eles virão sempre de madrugada: primeiro, os paramilitares de uma certa Triple A, depois, tropas regulares; se é que neste ofício de carniceiros se pode falar em “regularidade”… Em deferência à tradição cristã, no final do ano batizam o operativo de “Missão Natal Feliz”.  

Outubro de 1983. Caminho em ziguezague entre as valas reabertas do cemitério de La Chacarita. Somos trinta pessoas que seguem um coveiro errante, guiado por uma bússola falha: segura nas mãos o mapa oficial das covas com nome, sobrenome, data de nascimento e morte dos finados. Neste mapa, não há, contudo, registro de “NNs”, os non nominati varridos da geografia, expropriados de identidade, engolfados pelo anonimato silente. Cláudio, Pablo e os demais vinte e nove mil, novecentos e noventa e oito desaparecidos não existiram – diz a “história oficial”. Por isso, na Praça de Maio as Madres e Abuelas caminham em círculos, repetem há anos o rosário da dor, insistem em devolvê-los à vida.

O Poder se cala e então os fantasmas tagarelam através das frestas desta história adulterada e pervertida, como o personagem do paisano em “La Ciudad Ausente”, de Ricardo Piglia:  (…) Eu vi coisas tais, que preferiria começar outra vida, sem recordações, se já estive a ponto de deixar minha mulher e os filhos, tomar um trem, ir-me a Lomas (…)Fuzilavam-nos a dois metros de distância e atiravam os corpos em poços, depois andavam com topadoras, abrindo valas, e às vezes aos mesmos desgraçados obrigavam a cavar a tumba para matá-los em seguida. Via-os como num sonho, nus, os cristãos cavando a própria sepultura (…). 

Último ato. Há uma estância em Bariloche, aos pés da Cordilheira. Dr. Henry adquiriu-a em troca de sua vilania. Pressionou a Argentina para livrar-se de suas paisagens, após assinar a ata do extermínio de seus filhos. Sugeriu que entregassem a Patagônia para pagar uma dívida mil vezes quitada. Obsceno, aqui instalou seu pouso de guerreiro. Dr. Henry: fugitivo do Holocausto e mago da Solução Final no Prata. Dr Jekill & Mr Hide. Sabotou uma conferência de paz em Paris e meio milhão de vietnamitas morreram em vão; junto com eles, vinte mil norte-americanos. Para garantir o poder a Nixon. Determinou a invasão do Timor Leste e a soldadesca de Suharto perpetrou uma carnificina. E nenhum mea-culpa. Consentiu o assassinato do general Schneider no Chile e preparou o golpe contra Salvador Allende. Disse: “Não vejo por que agüentar um país que se torna comunista devido à irresponsabilidade de seu próprio povo”.

Dr. Henry não sente remorsos. Prêmio Nobel da Paz e Criminoso de Guerra... 


Para o mercado, as bênçãos; para os adversários, o extermínio. O médico e o monstro. 


Para o Village Voice não passa de  “Milosevic do Big Apple”: durante os bombardeios dos EUA morreram 350 mil civis no Laos. No Camboja foram 600 mil; sem contar os mutilados e para sempre aleijados. O indignado Christopher Hitchens dedicou-lhe The Trial of H.K., mas o Império não permitirá que arrastem Dr.Henry (aliás: Heinz Alfred Kissinger) à Corte Internacional.  

Se apesar da neve, todavia o chão esquentar demais em Nova York, a besta encurralar-se-á em seu último refúgio – Natal em Bariloche, mas no céu nenhuma estrela.  

Mas haverá sempre um idiota disposto a abraçá-lo.