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22 dezembro 2013

Manoel de Andrade: O significado do Natal

Ilustração: Jesus, o Bom Pastor - ícone russo

Nestes dias que precedem o Natal, ocorre-me pensar nas tantas portas que se fecham para o seu real significado, mascarado por estranhas personagens natalinas e maculado por poderosos interesses mercadológicos. Ocorre-me também pensar que se o Cristianismo fosse verdadeiramente interpretado não haveria tantos sectarismos e o simbolismo da manjedoura de Belém seria fraternalmente reverenciado no mundo inteiro, além da barreira das religiões.

Jesus não fundou nenhuma igreja, nem dogmatizou nenhuma religião. Trouxe-nos a imagem de Deus como um pai, mostrou a importância da religiosidade e nos revelou o significado incondicional do amor. Não escreveu nada, mas deixou, na memória de seus discípulos, a sabedoria de suas parábolas e, no Sermão da Montanha, toda a essência do cristianismo, falando do amor aos inimigos, do perdão das ofensas e da importância de dar a outra face como um caminho aberto para a reconciliação. Resumindo, quis dizer-nos que ser cristão é saber transformar o orgulho em humildade e o egoísmo em amor.

A ênfase de sua filosofia propunha a redenção humana pela educação e não pelo constrangimento. Embora abominasse o pecado, Ele amava o pecador e acreditava que educar é despertar o senso da justiça, do amor e da beleza moral que existe, potencialmente, em cada ser humano. Nesse sentido, entre tantos fatos de sua vida pública, exemplificou sua tolerância e sua caridade diante da mulher adúltera e do bom ladrão, no alto do Calvário.

Passados vinte séculos hoje perguntamos qual o significado do seu nascimento para cada um de nós. Sobretudo perguntamos quantos já leram e estudaram o seu Evangelho. Nesse singelo banco escolar que é o planeta, -- onde ainda somos espiritualmente crianças -- seu conteúdo é uma cartilha insubstituível para soletrarmos o beabá do amor, da paciência e do perdão. Diante das sabatinas diárias da vida é imprescindível aprendermos o que significa “orar e vigiar” e não fazer a ninguém o que não queremos que nos façam. Quantos são capazes de vivenciar suas lições e seus exemplos, ante as provas e os embates do dia a dia, oferecendo a outra face ante o agressor e perdoando sempre? Se já começamos a ensaiar essa difícil conduta então Jesus já nasceu para nós e temos um Natal para comemorar. Mas muitos ainda trazemos o coração fechado a essa realidade, tais como as estalagens de Belém, cujas portas se fecharam ao seu nascimento.

Se perguntássemos a Paulo de Tarso onde nasceu Jesus, ele certamente diria que foi diante das Portas de Damasco, onde chegou para aprisionar alguns cristãos da cidade. Se perguntássemos a Maria Madalena onde Ele nasceu, com certeza, responderia que Jesus nasceu para ela na casa de Simão, o fariseu. Foi ali que depois de lavar e enxugar seus pés ela ouviu sua voz compassiva perdoando-lhe os pecados.

Onde predomina o orgulho e o egoísmo --- essas patologias crônicas da alma humana --- Ele não poderá renascer, ainda que invocado em rituais e ladainhas. É imprescindível que façamos do coração uma manjedoura humilde para que Jesus possa renascer em nossas vidas. Caso contrário, além da beleza sentimental da fraternidade e o significado envolvente do Natal no seio da família, temos apenas uma data histórica para comemorar, com muitos presentes, a figura patética de um Papai Noel, um banquete de sabores e aparências e o apego às ilusões do mundo.

21 novembro 2013

Manoel de Andrade - Bandeiras e máscaras

Fotos: divulgação

Esse é o tempo cruel que antecede o amanhecer.
Em seu rastro marcham os filhos das estrelas e os herdeiros da penumbra.
Na moldura das horas as intenções se partem.
Ali, os justos ensaiam seus passos.
Acolá, nos becos, os ânimos crepitam
e engatilham seus gestos.
Nas ruas as faces empunham bandeiras,
as máscaras escondem punhais.


Passo a passo, portando consignas e estandartes, a multidão caminha...
ocupam estradas, bloqueiam rodovias, paralisam cidades,
avançam no seio da tarde denunciando os charcos do poder e os leilões 
da mais-valia.
É o nosso “Dia de Lutas”, gritam os sindicalizados.
São cinquenta, são cem mil pedindo tarifas justas,
terras repartidas, quarenta horas semanais...
Faixas, cartazes, coros e gritos:
“Prisão para os corruptos”, “Punição para os crimes da ditadura”.
“O povo acordou, o povo decidiu, ou para a roubalheira, ou paramos o Brasil”.


Eis o espaço do povo,
eis as ruas virtuais,
é a nova democracia,
pelas redes sociais.
Salve moças e rapazes,
salve as faces descobertas,
salve as bandeiras e os sonhos,
erguidos com transparência.

De repente as fronteiras são rompidas,
sobre as cores da paisagem as máscaras armam seus braços,
quais abutres insaciáveis atacam os cristais e escarram na decência.
Atrás dos grandes escudos os uniformes avançam.
Voam coquetéis e pedras, explodem gazes, morteiros,
soam tiros e foguetes entre o fogo e as barricadas.
Salve os agentes da ordem, salve os bons pretorianos.
O verde-oliva e o negro já cruzam suas espadas,
barras, paus e cassetetes
e as razões abaladas.
Chegou a tropa de choque nos trajes da truculência.
Surge o gesto inconfessável,
surge a fraude na vergonha e o flagrante forjado.
Asco aos falcões do cinismo algemando a inocência.


Eis o palco dos tumultos,
eis as cinzas da batalha,
eis o saldo do espanto
e a multidão dispersada.
Restou o ato incompleto,
sem o hino dos professores,
e sem o eco das promessas
na voz dos governadores.
Massacraram a primavera
e a magia da cidade.
Assustaram os pardais,
retalharam a liberdade.
Eis a cultura que herdamos
a esfolar nossas almas.
Abatido por tantos golpes,
o amor é um silêncio
e as avenidas soluçam,
qual um salgueiro de lágrimas.


E agora, eis-me aqui, diante da poesia,
assistindo desabar as velhas torres do encanto...
Perplexo, que posso ainda?
sou apenas um olhar melancólico diante da esperança.
Indignado ante a mística do horror,
quero transformar em versos os protestos, o confronto, as cicatrizes.
A realidade é um idioma intraduzível,
e eu impotente, ante o mistério sinuoso das palavras.
As palavras, oh! as palavras em sua essência,
elas não se revelam a qualquer poeta...
habitam em seu próprio enigma,
são silentes como os hinos do entardecer...
Nesse impasse, entre as imagens e o lirismo,
ante a sensibilidade e a violência,
sei de um roseiral em flor no caminho dos meus passos,
alhures há um campo de espigas que cantam, balançando ao vento
e, nesta palmeira esbelta, a vida é reproclamada nos trinos de um ninho em festa.


Curitiba, outubro de 2013.

15 maio 2013

Manoel de Andrade - Os filmes de Frederico Füllgraf


Resenha



Acabo de assistir, pela segunda vez, o filme Fogo sobre Cristal, um Diário Antártico, do escritor e cineasta paranaense Frederico Füllgraf. O filme retrata as paisagens geladas da Passagem de Drake, nas Ilhas Orçadas do Sul, Shettland do Sul  e do Mar de Weddel, no setor leste da Península Antártida.

Essa invejável aventura, filmada em fins de 1998, nasceu de um inesperado convite ao cineasta para embarcar num navio quebra-gelo da marinha argentina numa expedição de entregas de suprimentos e revezamento de técnicos e cientistas em base de estudos na Antártida.

A bordo do navio “Almirante Irizar”, Frederico Füllgraf chega até o fim do mundo para filmar as fascinantes paisagens brancas e silenciosas do sul do planeta.  Rodado sem um roteiro previamente planejado, as cenas resultaram num documentário de uma hora que encanta quer pela beleza imóvel das paisagens, quer pelo inquietante movimento das geleiras retalhando seus imensos blocos para formar as inumeráveis frotas de icebergs em busca  do oceano.

O que pensa o homem nestas paragens solitárias, isolado por meses ou anos do torvelinho incessante da civilização urbana? Dias imensos, paisagens imensas, enseadas de deslumbrante beleza, comunidades numerosas de pinguins, com suas elegantes posturas quase humanas nos sugerindo a idéia dos únicos seres com que pudéssemos partilhar, solidariamente, aquela assustadora solidão. É um cenário que induz o expectador, e por certo leva aos que por lá se isolam, à reflexão, à catarse e ao mistério. Como escrever um poema diante de tanta majestade, se tudo que a visão alcança é uma poesia constantemente reescrita pela própria natureza e indelevelmente impressa em cada traço de uma imensa tela? A reflexão sobre um poder oculto que comanda os elementos, que dita as leis que regem as variações climáticas que, a partir dali, invadem o continente, gerando as ventanias violentas, mudanças bruscas de temperatura, as chuvas torrenciais, enchentes e destruição. Que misterioso laboratório da natureza se esconde por traz de paisagens tão poéticas!

As imagens de filme nos transmitem tudo isso e muito mais. É uma viagem além de tudo o que nos propuséssemos imaginar. Um outro mundo, uma outra dimensão da vida, um outro planeta, poderíamos pensar. Apesar dos tantos documentários sobre o assunto, Fogo sob Cristal é a expressão visual da criatividade e do espírito aventureiro do autor, uma “Crônica da solidão de um cineasta e sua câmera no fim do mundo”. Entre tantas cenas marítimas e humanas, surgindo além da proa itinerante e nos pátios e interior das bases, um fato apenas, entre tantos que poderíamos citar: uma sequência comovente de cenas com o navio parado em alto mar, jogando coroas de flores às águas onde fora afundado o  contra-torpedeiro Gen. Belgrano, durante a Guerra das Malvinas – conflito em que o Comodoro Miqueloud, comandante de Marambio, presente a uma das bases visitadas,  lutara como aviador...

A credibilidade de Frederico Füllgraf, como cineasta, vem de uma longa trajetória de realizações cujos rastros foram deixados, em 2006, no interior paranaense e na distante Namíbia, quando dirigiu a filmagem de Maack, Profeta Pé-na-Estrada, relatando as viagens e pesquisas geológicas feitas no Paraná, na década de 40,  pelo cientista alemão Reinhard Maack,  um precursor do ambientalismo, descobridor do Pico do Paraná e autor de estudos geológicos que ligam a bacia geológica paranaense à bacia de Gondwana, na Namíbia.

Seu primeiro filme, Queremos que esta terra seja nossa, rodado em Portugal, em 1975, aborda a “Revolução dos Cravos”, golpe militar pacífico que derrubou o governo herdeiro da ditadura de Salazar.

Em 1985, pelo seu filme Dose Diária Aceitável,  sobre as consequências  dos agrotóxicos no Brasil, recebe no RIEENA - Festival Internacional  do filme ambiental, na França, o prêmio de “Melhor Documentário de Conscientização”, considerado o primeiro prêmio internacional do cinema paranaense.

No seu invejável currículo acadêmico, Füllgraf, na década de 80 estudou Comunicação Social, Filosofia e Ciências Políticas na Universidade Livre da Alemanha, época em que realizou reportagens e filmagens de documentários para a ARD (rede pública de Televisão da Alemanha).  Em 1988, a Editora Brasiliense publicou seu livro (já esgotado)  A Bomba Pacífica – O Brasil e outros Cenários da Corrida Nuclear.

Frederico Füllgraf é um respeitável intelectual que deverá publicar proximamente O Caminho de Tula, seu primeiro romance a ser lançado pela Record.  Essa casa editorial  deverá entregar nos próximos meses o polêmico romance "Sós, em Berlim", de Hans Fallada. A obra, com 700 páginas escritas em 24 dias, no ano de 1946, e publicada no ano seguinte na Alemanha Oriental, foi traduzida do original  alemão por Füllgraf e estréia no Brasil depois de publicada na Inglaterra e nos EE.UU., onde aparece entre os títulos mais vendidos, no topo do ranking do site Amazon. Baseada em documentos da Gestapo descobertos pelo exercito russo no fim da Segunda Guerra Mundial, relata a história real de um casal alemão executado em 1942 por distribuir cartões com frases ofensivas a Hitler e ao regime nazista.




MANOEL DE ANDRADE é um dos mais importantes poetas da atualidade no Brasil. Seu primeiro livro, “Poemas para la libertad”,  com três edições  em espanhol e ainda inédito em português, consta de vários catálogos da literatura política latinoamericana, na Internet. Em 2000, a Epsilon Editores, do México, publicou a importante coletânea Poesia Latino americana – Antologia Bilíngüe” em espanhol e inglês, numa primorosa edição, cuja capa e interiores são ilustrados com fragmentos da obra “La destrucción del viejo orden”  do grande pintor mexicano José Clemente Orozco.  Suas páginas são compartilhadas pela poesia de 36 celebrados poetas hispano-americanos, entre eles uruguaio Mario Benedetti e a poetisa equatoriana Sara Vanégas Coveña e por apenas um brasileiro, o poeta catarinense Manoel de Andrade. Atualmente, escreve suas memórias, O Bardo Errante, sobre suas peregrinações pela América Latina dos “anos de chumbo”. Manoel é ensaísta e colunista das revistas eletrônicas e blogs, Digestivo Cultural Füllgrafianas, Banco da Poesia, Livres Pensantes, Palavras, entre outros.

04 março 2013

Manoel de Andrade - Mariano Melgar, el primer peruano en la literatura indigenista

Ilustrações: divulgação


          Se ha contado que Arequipa nació sobre las ruinas de una antigua ciudad incaica y que fue fundada en 1540 por el propio conquistador del Perú, Francisco Pizarro. Cuna de nombres notables de la política peruana, en ella nació Mario Vargas Llosa, en el año 1936. Sin embargo, su celebridad literaria, coronada con el Nobel en el 2010, dispensa aquí cualquier comentario. Pero debo decir que cuando por allá pasé, a la vuelta de los años sesenta, el nombre de Vargas Llosa, a pesar de sus cuatro libros ya publicados, todavía no era tan ilustre como el del poeta Mariano Melgar, uno de los hijos más queridos de la ciudad. Hablo de un poeta libertario, combatiente por la independencia del Perú, quien inaugura el Romanticismo y el Indigenismo en la literatura peruana y, como nuestro Castro Alves, también libertario por el abolicionismo, muere igualmente a los veinticuatro años.

          Mariano Lorenzo Melgar Valdivieso, nació en Arequipa el 10 de agosto 1790 y por su precocidad fue un verdadero prodigio intelectual. A los tres años ya leía y escribía, a los ocho hablaba latín y a los nueve años dominaba el inglés y el francés. Profundamente identificado con el pueblo en su expresión indígena, encontró en el lirismo sencillo de las canciones quechuas la motivación poética para gran parte de sus versos compuestos en forma de yaravíes, género musical de origen inca, de composición breve y con un carácter elegíaco, amoroso y melancólico. Es lo que el poeta expresa en este su poema llamado Yaraví:

¡Ay, amor!, dulce veneno,
ay, tema de mi  delírio,
solicitado martirio
y de todos males lleno.

¡Ay, amor! lleno de insultos,
centro de angustias mortales,
donde los bienes son males
y los placeres tumultos.

¡Ay, amor! ladrón casero
de la quietud más estable.
¡Ay, amor, falso y mudable!
¡Ay, que por causa muero
¡Ay, amor! glorioso infierno
y de infernales injurias,
león de celosas furias,
disfrazado de cordero.

¡Ay, amor!, pero ¿qué digo,
que conociendo quién eres,
abandonando placeres.
soy yo quien a ti te sigo?
[2]

          José Carlos Mariátegui, en sus Siete ensayos de interpretación de la realidad peruana, al analizar la poesía de Melgar hace hincapié  al  "extremo centralismo"  con que Lima dominó la literatura colonial, considerada como un "producto urbano", y añade:
          (...) Por  culpa de esta hegemonía absoluta de Lima,  no ha podido  nuestra literatura nutrirse de savia indígena. Lima ha sido la capital española primero. Ha sido la capital criolla después. Y su literatura ha tenido esta marca.
          El sentimiento indígena no ha carecido totalmente de expresión en este período de nuestra historia literaria. Su primer expresador de categoría es Mariano Melgar. (...)[3]

          Es esclarecedor referir aquí al ejemplo de la poesía de Melgar, para evaluar, en un determinado momento histórico, las dos partes con que la crítica peruana encara su propia literatura: una desde el punto de vista colonial y culturalmente con prejuicios, y otra del punto de vista legítimamente peruano, es decir, indigenista, explicitada por dos figuras tan emblemáticas de la historia de la intelectualidad  peruana, como Mariátegui y el historiador José de la Riva Agüero (1885-1944), con opiniones tan diversas sobre la imagen literaria de Melgar:

"Para Riva Agüero, el poeta de los yaravíes no es sino "un momento curioso de la literatura peruana". Rectifiquemos su juicio, diciendo que es el primer momento peruano de esta literatura.”
[4]

          Comenta Mariátegui el desprecio con que la crítica limeña trató la poesía popular e indígena de Melgar, con un arraigado prejuicio colonial que, un siglo más tarde, alcanzaría aún, con la daga de la indiferencia, el corazón poético y indígena de César Vallejo, al punto de hacerlo abandonar el Perú para no volver jamás. Vallejo es ahora reconocido como el más grande poeta del Perú y, como poeta universal, comparte con Pablo Neruda la grandeza de la poesía hispanoamericana. Mariano Melgar tuvo su imagen poética y libertaria reconocida oficialmente por el gobierno peruano sólo en junio de 1964. Sólo en dos casos aquí citados, esa es una justa, necesaria y tardía penitencia, pero preguntamos si la cultura limeña ya limpió el alma de este antiguo pecado, ya que continúa, hasta el día de hoy, dictando sus sentencias culturales en el ejercicio de su explícita hegemonía intelectual, a expensas de los valores literarios de las provincias.


          Mariátegui es quien mejor expone la dimensión del poeta de Arequipa, sea como mártir de la independencia, sea por la potencialidad de su poesía, si no hubiera muerto tan temprano. Abordando el lado romántico de Melgar, resalta la gran renuncia del joven poeta por la causa libertaria, comparándolo con el cacique cusqueño Mateo Pumacahua, que en 1815 se convirtió en uno de los líderes de la rebelión contra los españoles, siendo arrestado y fusilado por las tropas coloniales.

          (…)"Melgar es un romántico. Lo es no sólo en su arte, sino también en su vida. El romanticismo no había llegado, todavía, oficialmente a nuestras letras. En Melgar no es,  por ende, como más tarde en otros, un gesto imitativo; es un arranque espontáneo. Y este es un dado de su sensibilidad artística. Se ha dicho que debe a su muerte heróica una parte de su renombre literario. Pero esta valorización disimula mal la antipatía desdeñosa que la inspira. La muerte creó el héroe,  frustró al artista. Melgar murió muy joven. Y aunque resulta siempre un poco aventurada toda hipótesis sobre la probable trayectoria de un artista, sorprendido prematuramente por la muerte, no es excesivo suponer que Melgar, maduro, habría producido un arte más purgado de retórica clásica y amaneramiento clásicos y, por consiguiente, más nativo, más puro.

        (…)Los que se duelen de la vulgaridad de su léxico y sus imágenes, parten de un prejuicio aristrocratista  y academicista. El artista que en el lenguaje del pueblo escribe un poema de perdurable emoción  vale, en todas las literaturas, mil veces más que el que, en lenguaje académico, escribe una acrisolada pieza de antología. De otra parte, como lo observa Carlos Octavio Bunge en un estudio sobre la literatura argentina, la poesía popular ha precedido siempre a la poesía artística. Algunos yaravíes de Melgar viven sólo como fragmentos de poesía popular. Pero, con este título, han adquirido sustancia inmortal.”[5]

           No es diferente la opinión del crítico italiano Giuseppe Bellini, considerado como el más calificado estudioso europeo de la literatura hispanoamericana. Comentando la poesía gaucha del poeta de la independencia uruguaya José Bartolomé Hidalgo (1788-1822), Bellini afirma:

"Junto con Hidalgo, cabe recordar Mariano Melgar (1791-1815), cultivador también de la poesía popular en los "yaravíes" y "palomitas". El poeta peruano, sin duda más culto que Hidalgo, traductor e imitador de Horacio y de Virgilio, manifestó, tal vez por su carácter de mestizo, un profundo apego al elemento popular quechua y a la naturaleza, anticipando un indigenismo que dará resultados consistentes durante el Romanticismo y en el siglo XX.”[6]

          Mariano Melgar adhiere a las tropas del cacique Mateo Pumacahua, que en el pasado era aliado de los españoles, pero que a partir del 1814 empuñó a la bandera de la independencia en Cuzco. Derrotados en la batalla de Umachiri, el poeta es aprisionado y mantenido en cautiverio hasta el amanecer del día 12 de marzo del 1815, cuando lo ejecutan. Cara a cara con el pelotón de fusilamiento, Melgar escribió una nota a los oficiales españoles, con las siguientes palabras:

"¡Cubran sus ojos, ya que ustedes son quienes necesitarán misericordia porque América será libre en menos de diez años!"

Y así sucedió.

El 9 de diciembre del 1824, un ejército con 6.879 patriotas de varios países hispanoamericanos, comandado por el general venezolano, Antonio José de Sucre, impone la derrota al ejército español, con 10.000 soldados, sellando en Ayacucho la independencia del Perú y  de América del Sur.



[1] Este artículo integra el texto de un libro que el autor está escribiendo sobre los años que pasó en América Latina , en las décadas del 1960/1970. Las notas y la versión para el castellano son del autor.
[3] MARIÁTEGUI, José Carlos. Siete ensayos de interpretación de la realidad peruana. Lima: Amauta, 1967, 11ª ed. p. 230.
[4] MARIÁTEGUI, José Carlos. Op. Cit. p.231.
[5] Iden, pp. 230-231.
[6] BELLINI, Giuseppe. Nueva historia de la literatura hispanoamericana. Madrid. Editorial Castalia, 1997, p. 209.

Los fusilamientos del 2 de mayo, de Goya

07 agosto 2012

Manoel de Andrade - Por que cantamos


para Mario Benedetti(*)


Se tantas balas perdidas cruzam nosso espaço
e já são tantos os  caídos nesta guerra...
Se há uma possível emboscada em cada esquina
e  temos que caminhar num chão minado...

“você perguntará  por que  cantamos”

Se a violência sitia os nossos atos
e a corrupção gargalha da justiça
Se respiramos esse ar abominável
impotentes diante do deboche...

“você perguntará por que cantamos”

Se o medo  está  tatuado em nossa agenda
e a perplexidade estampada em nosso olhar
se há um mantra entoado no silêncio
e as lágrimas repetem: até quando, até quando, até quando...

“você perguntará  por que cantamos”

Cantamos porque uma lei maior sustenta a vida
e porque um olhar ampara os nossos passos
Cantamos porque há uma partícula de luz no túnel da maldade
e porque nesse embate só o amor é invencível

Cantamos porque é imprescindível dar as mãos
e recompor, em cada dia, a condição humana
Cantamos porque a paz é uma bandeira solitária
a espera de um punho inumerável

Cantamos porque o pânico não retardará a primavera
e porque em cada amanhecer as sombras batem em retirada
Cantamos porque a luz se redesenha em cada aurora
e porque as estrelas e porque as rosas

Cantamos porque nos riachos e lá na fonte as águas cantam
e porque toda essa dor desaguará um dia.
Cantamos porque no trigal o grão amadurece
e porque a seiva cumprirá o seu destino

Cantamos porque os pássaros estão piando
e ninguém poderá silenciar seu canto.
Cantamos para saudar o Criador e a criatura
e porque alguém está parindo neste instante

Pelo encanto de cantar e pela esperança nós cantamos
e porque a utopia persiste a despeito da descrença
Cantamos porque nessa trincheira global, nessa ribalta,
nossa canção viverá para dizer por que cantamos.

Cantamos porque somos os trovadores desse impasse
e porque a poesia tem um pacto com a beleza.
E porque nesse verso ou nalgum lugar deste universo
o nosso sonho floresce deslumbrante




Curitiba, maio de 2003
(*)Escrevi  estes  versos motivado pelo belíssimo  poema  “POR QUE CANTAMOS”  do poeta uruguaio MARIO BENEDETTI. Num tempo em que todos caminhamos sobre o “fio da navalha” me senti, como poeta, implicitamente convocado a  também  testemunhar  por que cantamos.

18 maio 2012

Manoel de Andrade - EN LAS HUELLAS DE LA UTOPíA - Nos rastros da Utopia




Se as coisas são inatingíveis… ora!
                                                                                                              Não é motivo para não querê-las…
                                                                                                              Que tristes os caminhos se não fora
                                                                                                              A mágica presença das estrelas!
                                                                                                                 

                                                                                                                    Mário Quintana 



Trad.: Cleto de Assis

                                                                                                              Si las cosas son inalcanzables… ¡pues
                                                                                                               No es motivo para no desearlas!…

                                                                                                              ¡Qué tristes los caminos si no fuera
                                                                                                        la mágica  presencia de las estrellas!
Mário Quintana 
(Trad. F. Füllgraf)

Eran los últimos días de 1969, y en las charlas en Lima discutíamos la herencia que  recibimos de los "años rebeldes". La década del 60 se había iniciado con un ejército limitando con un muro la libertad de Berlín, pero había terminado con tres astronautas abriendo los caminos del universo. En aquellos años el mundo se había conmovido con el mensaje de paz y amor, en la imagen sacrificada de Martin Luther King, y había conocido el verdadero significado de la resistencia, en la figura irreprochable de Ho Chi Minh. La revuelta de Nanterre movilizó a los estudiantes de todo el mundo, y a lo largo del continente, aportábamos en 1970 en la cresta de una ola libertaria de gran alcance, cuya espuma esparcía el ejemplo del Che Guevara. Vivíamos en un tiempo sin el liberalismo y la globalización, y Cuba surgía como una alternativa socialista y referencia de la lucha revolucionaria. El mundo era una alquimia de ideas y América Latina su mejor laboratorio. La nueva historia en el contexto continental, era la de una sola nación, un solo pueblo, latino e "indoamericano" – en la expresión de Mariátegui. La esperanza era una bandera izada en el corazón de todos los que se atrevían a soñar con una sociedad justa y fraterna, fuesen ellos un guerrillero, un intelectual comprometido, o integrase a una vanguardia estudiantil. Nuestra cultura ancestral – manchada por la violencia colonial y por la sangre de tantos mártires en la trágica memoria de cinco siglos – era redescubierta como una fuente que traía nuevas aguas para interpretar la historia. Nuestros sueños navegaban en el misterioso velero del tiempo, inflado por los vientos de la fe revolucionaria, cargado de himnos y canciones libertarias, llevando la madre tierra y las semillas para los desheredados, lleno también de emociones y con el encanto de la solidaridad, rumbo a la sociedad con que soñábamos.

Nosotros, los poetas, nos expresábamos por las  líricas huellas de esa anhelada utopía, al cantar las primicias de un mundo nuevo, con el presentimiento y de las luces de aquel inmenso amanecer. Transitábamos en la ruta de las estrellas en busca de un puerto en el horizonte, en búsqueda de un hombre nuevo, de una tierra prometida para ser entrevista en los primeros destellos de la aurora. Había una perseverante certeza en el mañana y muchos cayeron luchando con esa creencia tatuada en el alma, aunque los sobrevivientes nunca hayan llegado a contemplar esa alborada.

En los años 1960ser joven significaba estar comprometido con una fe, con una causa social, y en aquellos pasos de la historia era molesto ante el grupo no tener un compromiso político y peor todavía, ser de "derecha". En la juventud de aquellos añosser un "reaccionario" era un estigmaEsa fue la palabra que nosotros, los de la "izquierda", los opositores deshacíamos ideológicamente a los adversarios de la "derecha" y hasta a los dogmáticos del “Partidão”[i], por quienes éramos llamados de revisionistasPor otro lado, se hablaba de un " poder joven". ¿Pero que "poder joven" era aquelmaquillado con la credibilidad de las filosofías orientales, si ese poder no estaba comprometido con el significado social de la libertad y la justicia? La ideología marxista no nos permitía confundir los ideales inconsecuentes de la contracultura con el ideario de aquellos que estaban dispuestos a dar su vida por la construcción de una nueva sociedad. Era como si hubiera en América Latina, dos Mecas para la juventud, una en Berkeley y otra en Cuba.

Si la palabra "izquierda" ante los emolumentos del poder fue perdiendo su transparencia ideológica, es imprescindible no perder el significado histórico de esta dicotomía, ya que en su origendurante la Revolución Francesa, el clero y la nobleza se posicionaban a la derecha del Rey y los representantes del pueblo a su izquierda. Doscientos veinte años después, todos sabemos cuál es el lado que continúa defendiendo las causas socialesLos principios son intocables, pero no las ideasEs razonable, por lo tanto, que podamos resignificarlas, redefiniendo los colores de nuestra antigua bandera, así como reconocer los errores y defectos de la propia "izquierda".

Los años 60, enriquecidos por la generación de nuevas teorías sociales, por filosofías que señalaban el progreso de las relaciones humanasno mostrarían, en el sabor amargo de lo frutos, la dulzura sembrada por la esperanza. Los grandes sueños políticos se desmovilizaron por intereses ideológicos equivocadospor el oportunismo electoral y la seducción del poderLos sueños alimentados por la contracultura, en principio legitimados por las postulaciones en contra de los males del capitalismo, se perdieron en la peligrosa ilusión favorecida por las drogas, por el desencanto por la sexualidad y la posterior dependencia a las tecnologías alienantes. Sueños y esperanzas acabaron desaguando en este inquietante "mar de los sargazos" en que se transformó el mundodonde navegan los piratas de la codicia y la crueldad.

Pero también había jóvenes que no tuvieron la experiencia de esa emoción sublime de indignarse con las injusticias. En aquellos años, en otra línea de reacciones, una columna elitista de jóvenes marchaba en contra de todo lo que luchábamos. Me encontré con estas figuras siniestras en las calles de Curitiba. Eran portavoces de la alta jerarquía de la Iglesia y desfilaban altaneras con sus atavíos medievales, en los primeros años de la dictadura en Brasil, en defensa del régimen militar y los intereses conservadores de la oligarquía con las banderas "Tradición, Familia y Propiedad". Vi a sus asociados en Chile, liderados por Maximiano Ríos Griffin en 1969, durante el gobierno de Eduardo Frei, llevando las banderas al viento con el emblema de "Fiducia", el odio social, el resentimiento contra un cristianismo que abrazaba a las causas populares y sobre todo, a plantar las semillas de la conspiración que derrocaría, con otros aliados sanguinarios, el gobierno legítimo de Salvador Allende.

Desde los años 1970 la ascensión del capitalismo financiero, bajo el disfraz de la globalización, comenzó a extender sus redes y a ganar, con armas invencibles, esa nueva e inmensa guerra mundial, que avanza con voracidad, a desterrar los valores humanos y a generar multitudes de excluidos, moliendo nuestras utopías, convirtiendo el planeta en un supermercado y quitándole el carácter de la propia cultura con atrayentes modelos de un consumo superfluo y desechable.


Aunque haya en Brasil muchos jóvenes "conectados", preocupados con la ética, con las fronteras alarmantede la corrupción, con el rescate del medio ambiente y bellos proyectos comunitarios, toda aquella generación fue víctima de la nueva orden social impuesta a lo largo de veintiún años de dictadura militar, inducida a "educarse" en las cartillas de Educación Moral y Cívica, centradas en la obediencia, la pasividad, el anticomunismo y un malsano patrioterismo. Víctimas de un proceso de moldeo subliminal de comportamiento, los jóvenes que abdicaron de su conciencia crítica se transformaron en simples consumidores. Ellos forman parte de la juventud apresurada de nuestros días, no comprometida con los problemas sociales, inmediatista, con aversión a la lectura, o derrotada por la adicción. Esta es la cara trágica de un segmento de la juventud contemporánea: jóvenes que actúan como simples títeres de un mercado global de las ilusiones, asimilados por las nuevas tecnologías de información, homogeneizados desde los primeros años para consumir, renunciando a menudo al análisis de los hechos y de la etapa promisora de la ciudadanía.

Los precursores involuntarios de la posmodernidad – leer a Nietzsche y Heidegger – y sus ideólogos más ilustres en la filosofía y en el arte, se aliaron al posterior trabajo de demolición comandado por la globalización. En reacción a los paradigmas orgullosos y dogmáticos de la ciencia mecanicista del siglo XIX, los intelectuales nihilistas han apostado en la reacción generalizada de la falta de fe en los valores humanos, des-construyendo el significado de la verdad, la belleza y la trascendencia del humanismo en la tradición occidental; anunciando una libertad sin la noción del deber; no respetando los arquetipos religiosos, descalificando a la Historia, invirtiendo la estética del arte al despojarla de la estesía y del encanto (y si hay algún mérito en los excesos del arte moderno, es el de retratar el perfil catastrófico del mundo contemporáneo); la eliminación de la melodía de la música, proclamando la irreverencia y haciendo burla de los ideales y del significado de la utopía. Acerca de este término, tan desfigurado en nuestros días, estudiantes colombianos hicieron en una ocasión,  al cineasta argentino Fernando Birri, la siguiente pregunta: ¿Para qué sirve la utopía? El contestó que la utopía es como la línea del horizonte, siempre va por delante de nosotros y por eso nunca podemos alcanzarla. Si caminamos diez, veinte, cien pasos, ella siempre estará por delante de nosotros. Si la buscamos, ella se aleja. ¿Qué es la utopía? — preguntó él, respondiendo: Para hacernos caminar...

Aunque casi todo ha sido des-construido, nuestros ideales desterrados y la globalización ya nos impida soñar y nos arrastre al olvido, es imprescindible creer que hay una Fénix entre las cenizas que quedaron del mundo por el cual luchamos. No renunciamos a la esperanza, pero reconocemos que nuestro velero zozobró y sus restos se esparcieron en  las playas melancólicas de esos años. Sobrevivimos tal cual náufragos en un mar de ultrajes y desengaños, junto con lo que restó del destrozo de las grandes ideologías y con las crueles aberraciones que avergonzaron nuestros sueños cuándo vimos el marxismo dogmatizado por el estalinismo y comprendimos  por qué marchitaba la "Primavera de Praga". Sobrevivimos en las lágrimas derramadas por sobre las páginas de El Archipiélago Gulag, en el desencanto de saber la belleza de la utopía hegeliana invertida por el totalitarismo nazi y el conocimiento científico manchado por la explosión atómica.

La contraculturala postmodernidadla globalización y la destrucción del medio ambiente son los nuevos caballeros del mundo apocalíptico que recibimos. De estos cuatro patéticos espectros, los tres primeros han causado efectos desastrosos en la cultura – y allá en la región andinami nueva escuela en aquellos años, la globalización insinuaría el olvido de la historia y de la cultura, encontrándose con la lucha de los peruanos delante del legado Quechua y la resistencia inquebrantable de los bolivianos de mantener la cultura aymará – y los dos últimos sobre el curso futuro de la humanidad.

Nosotros no heredamos solamente la decepción, sino un enojo crónico a pesar de cualquier optimismoHoy somos, tan solo, seres comprados en este gran centro comercial de negocios y apariencias en el que se convirtió el mundo. Herederos impotentes de un sueñovivimos en un mundo alienante, distópico y devorado por las fauces de la globalización.

Años 60 – ¡que ventura haber sido joven en aquel tiempoAllí la realidad se encontraba a pocos pasos de los ideales.

Siglo XXI – ¡qué insólita transición¿A dónde vamos? ¡Sin nortesin puerto, sin un amanecer¡Cuánta perplejidad, cuántos presentimientos! ¿No habrá otro mundo mejor y posible? ¿Sin crueldad, estupidez y falsas promesasEstas son preguntas que piden respuestas plurales. Esta es una transición umbrosa balizada por la desventura y el desencanto. Es un tiempo de antítesis. Esperamos que el proprio Tiempocon su dialéctica misteriosa, nos traiga una síntesis regenerada. En este callejón sin salida nos quedan, sin embargo, los territorios inviolables de la imaginación y la esperanza y para mí un poco másla trascendencia y la grata introspección en esas memorias.



(*) Este capitulo forma parte del libro que el autor actualmente escribe sobre sus años de exilio en América Latina.

[i] Partidão – partidazo, apodo que recibía el Partido Comunista Brasileño, cuándo era considerado el mayor partido político de izquierda del país. (N.T.)



Versão original em Português

Nota editorial

Tempos atrás, o poeta e pensador paranaense, Manoel de Andrade, começou a dar vida a um projeto que vinha acalentando há vários anos: o resgate de sua memorável caminhada do Brasil até a fronteira do México, durante os anos de chumbo das ditaduras, época que em outros países coincidia com o rebrotar da efervescência politica e cultural, do que foram exemplos os governos progressistas, civis e militares, no Peru, Chile e na Bolívia. Destas lembranças nasce O Bardo Errante, livro do qual Manoel nos cede gentilmente alguns capítulos a título de pré-divulgação, iniciada com "Nos rastros da Utopia"

No Brasil, o poeta-viandante, Manoel de Andrade, é um personagem que foge à regra, no Paraná e em Curitiba, é pioneiro. Refiro-me, em primeiro lugar, à alma que subjaz ao seu projeto literário, o da grande crônica de viagem e de costumes, estilo virtualmente extinto em nosso jornalismo e até mesmo na literatura brasileira contemporânea. A alma manoelina que narra, questiona, celebra e canta, é a do abraço cultural e afetivo com a América de raízes indo-latinas.

Quem no Brasil conhece sua história, sua gente, suas riquíssimas culturas, sua literatura, seus cantos, e não por último – como comem, bebem e amam esses hermanos? Tomemos como exemplo o convívio entre os vizinhos. Houve épocas, e duraram muito, em que o ignaro baronato do café, aquela república autoritária instalada no Catete, mas que pensava no Vale do Paraíba apenas, tratava os vizinhos argentinos como “cucarachas”, e é bem verdade que, muitas décadas além, a recíproca era verdadeira, isto é, para os portenhos os brasileiros não passavam de “los negritos”. Trocado em miúdos: as velhas oligarquias, das quais apenas a argentina merecia ter atributo de elite, minimamente erudita – deste velho senhorio nada a esperar para o desvelo das diferenças; quem dirá das complementariedades. E fazê-lo, com o esforço da lembrança (lá se vão quarenta anos dessa odisséia) e a fúria investigativa – este é o primeiro mérito da obra, ao mesmo tempo hercúlea e apurada, de Manoel de Andrade, que percorre trilhas jamais sonhadas pelo jovem Guevara em sua romantizada viagem de motocicleta, realizada quinze anos antes.

A segunda virtude dessa “crônica do selvagem a pé” é sua indignação. Estupor e ira justificadas contra a decadência, que Manoel atribui a quatro novos “cavaleiros do apocalipse”, a saber a “contracultura, a pós-modernidade, a globalização e a destruição ambiental”. Manoel não faz denúncias vazias, sua dor transcende os cenários e os protagonistas da rapina e do pensamento único da mais-valia, pois deplora também a incapacidade dos “sujeitos históricos”, os da década de 1960, de trazerem para mais perto a Utopia – seja porque foram violentamente reprimidos e obliterados da face da Terra (o caso argentino), ou porque décadas depois grande parte dos sobreviventes confundiu-se com as regras do jogo (o alpinismo social, as ligações perigosas, 
a corrupção) transformando-se nos senhores da banca.

Talvez algumas assertivas soem polêmicas, mas aí estão para suscitar o debate - que o leitor se sinta à vontade para articular sua discordância(Frederico Füllgraf).


          Eram os últimos dias de 1969 e, nas conversas em Lima, discutíamos a herança que recebêramos dos “anos rebeldes”. A década de 60 se iniciara com um exército murando a liberdade de Berlím, mas terminara com três astronautas abrindo os caminhos do universo. Naqueles anos o mundo comovera-se com a mensagem de paz e de amor, na imagem sacrificada de Martin Luther King, e conhecera o real significado da resistência, na figura irretocável de Ho Chi Minh. A revolta de Nanterre mobilizara os estudantes do mundo inteiro e, ao longo do continente, aportávamos em 1970 na crista de uma poderosa onda libertária, cujas espumas espraiavam o exemplo de Che Guevara. Vivíamos num tempo sem liberalismo e sem globalização e Cuba surgia como uma alternativa socialista e referência da luta revolucionária. O mundo era uma alquimia de ideias e a América Latina seu melhor laboratório. A nova história, no contexto continental, era a de uma só nação, de um só povo, latino e “indo-americano”  -- na expressão de Mariátegui. A esperança era uma bandeira hasteada no coração de todos os que ousavam sonhar com uma sociedade justa e fraterna, fossem eles um guerrilheiro, um intelectual engajado ou integrasse uma vanguarda estudantil. Nossa ancestralidade cultural – manchada pela violência colonial e por tantos mártires na memória sangrenta de cinco séculos – era redescoberta como uma fonte trazendo novas águas para interpretar a história. Nossos sonhos navegavam no misterioso veleiro do tempo, enfunado pelos ventos da fé revolucionária, carregado de hinos e canções libertárias, levando a mãe-terra e as sementes para os deserdados, carregado com as emoções e o encanto da solidariedade e rumando à sociedade que sonhávamos.

          Nós, os poetas, expressávamo-nos pelos líricos rastros dessa ansiada utopia, cantando as primícias de um novo mundo e pressentindo as luzes daquele imenso amanhecer. Transitávamos na rota das estrelas, em busca de um porto no horizonte, em busca de um homem novo, de uma terra prometida a ser entrevista nos primeiros clarões da madrugada. Havia uma perseverante certeza no amanhã e muitos caíram lutando com essa crença tatuada na alma, embora os sobreviventes nunca tenham chegado a contemplar essa alvorada.

          Nos anos 60, ser jovem significava estar comprometido com uma fé, com uma causa social e, naqueles passos da história, era um desconforto, perante o grupo, não ter um engajamento político e, pior ainda, ser de “direita”. Na juventude daqueles anos, ser um “reacionário” era um estigma. Essa era a palavra com que nós, da “esquerda”, desfazíamos ideologicamente os adversários da “direita” e até os dogmáticos do Partidão,[1] por quem éramos chamados de revisionistas. Por outro lado, falava-se de um “Poder Jovem”. Mas que “poder jovem” era aquele, maquiado com a credibilidade das filosofias orientais se esse poder não estivesse comprometido com o significado social da liberdade e da justiça? A ideologia marxista não nos permitia confundir os ideais inconsequentes da contracultura com o ideário daqueles que estavam dispostos a dar a vida pela construção de uma nova sociedade. Era como se houvesse, na América Latina, duas Mecas para a juventude: uma em Berkeley e outra em Cuba.

Havana, 1961; Woodstock, 1969

          Se a palavra “esquerda”, perante as benesses do poder, foi perdendo sua transparência ideológica, é imprescindível não se perder o significado histórico dessa dicotomia, já que na sua origem, durante a Revolução Francesa, o clero e a nobreza ficavam à direita do rei e os representantes do povo a sua esquerda. Passados duzentos e vinte anos, todos sabemos qual o lado que continua defendendo as causas sociais. Os princípios são intocáveis mas não as ideias. É razoável, portanto, que possamos resignificá-las redefinindo as cores de nossa antiga bandeira, assim como reconhecer os equívocos e os defeitos congênitos da propria  “esquerda”.

 

          Os anos 60, ricos pela geração de novas teses sociais, por filosofias que apontavam para o progresso das relações humanas, não mostrariam, no gosto amargo dos frutos, o doce sabor semeado pela esperança. Os grandes sonhos políticos foram desmobilizados por interesses ideológicos equivocados, pelo oportunismo eleitoral e pela sedução do poder. Os sonhos alimentados pela contracultura, inicialmente legitimados pelas postulações contra os males do capitalismo, perderam-se nas perigosas síndromes da ilusão propiciada pelas drogas, pelos desencantos da sexualidade e pela posterior dependência de tecnologias alienantes. Sonhos e esperanças  acabaram desaguando neste inquietante “mar de sargaços” em que se transformou o mundo, onde navegam os corsários da ambição e da crueldade.

 

          Mas também havia jovens que não vivenciaram essa sublime  emoção de indignar-se com as injustiças. Naqueles anos, numa outra linha de reações,  uma elitizada coluna de jovens marchava contra  tudo pelo que lutávamos. Conheci essas sinistras figuras nas ruas de Curitiba. Porta-vozes da alta hierarquia da Igreja, desfilavam altaneiras, com seus paramentos medievais, nos primeiros anos da ditadura no Brasil, defendendo o regime militar e os interesses conservadores da oligarquia que representavam com os estandartes da “Tradição, Família e Propriedade”. Vi também seus parceiros, no Chile, liderados por Maximiano Griffin Ríos, em 1969, durante o governo de Eduardo Frei, portando, nos panos ao vento com o emblema da “Fiducia”, o ódio social, o ressentimento contra um cristianismo que abraçava as causas populares e, sobretudo, plantando as sementes da conspiração que derrubaria, com outros aliados sanguinários, o governo legítimo de Salvador Allende.

 

          A partir da década de 70 a ascensão do capitalismo financeiro, sob o disfarce de globalização, começou a estender as suas redes e a ganhar, com armas invencíveis, essa nova e imensa guerra mundial, avançando com sua voracidade, desterrando os valores humanos, gerando multidões de excluídos,  triturando nossas utopias, transformando o planeta num supermercado e descaracterizando a própria  cultura com atraentes modelos de um consumismo supérfluo e descartável.


           Ainda que haja, no Brasil, muitos jovens “conectados”, preocupados com a ética, com as fronteiras alarmantes da corrupção, com a redenção ambiental e com belos projetos comunitários, toda aquela geração foi vítima da nova ordem social imposta ao longo dos vinte e um anos de ditadura militar, sendo induzida a “educar-se” pela cartilha da Educação Moral e Cívica, focada na obediência, passividade, no anti-comunismo e num patrioterismo doentio. Vítimas de todo um processo subliminar de moldagem comportamental, os jovens que abdicaram da consciência crítica foram transformados em meros consumidores.  Formam parte da juventude apressada dos nossos dias, descomprometida com os problemas sociais, imediatista, avessos à leitura,  ou derrotada pelo vício. Essa é a face trágica de um segmento da juventude contemporânea: jovens como meras marionetes de um mercado global de ilusões, aculturados pelas novas midias, homogeneizados desde os primeiros anos para consumir, abdicando quase sempre da análise dos fatos e do estágio promissor da cidadania.

          Os precursores involuntários da pós-modernidade – leia-se Nietzsche e Heidegger – e os seus mais ilustres ideólogos, na filosofia e na arte, aliaram-se ao trabalho posterior de demolição comandado pela globalização. Reagindo aos paradigmas orgulhosos e dogmáticos da ciência mecanicista do século XIX, os intelectuais niilistas apostaram na reação generalizada da descrença nos valores humanos, desconstruindo o significado da verdade, da beleza e da transcendência do humanismo na tradição ocidental; anunciando uma liberdade sem a noção do dever; desrespeitando os arquétipos da religiosidade; desqualificando a história; invertendo a estética da arte ao despojá-la da estesia e do encanto (e se há algum mérito nos exageros da arte moderna é o de retratar o perfil catastrófico do mundo contemporâneo); retirando a melodia da música,  proclamando a irreverência  e ironizando os ideais e o significado da utopia. Sobre esse termo, tão desfigurado em nossos dias, certa vez estudantes colombianos fizeram ao celebrado cineasta argentino Fernando Birri, a seguinte pergunta: Para que serve a utopia? Ele respondeu que a utopia é como a linha do horizonte, está sempre a nossa frente e por isso nunca podemos alcançá-la. Se andamos dez, vinte, cem passos, ela sempre estará adiante de nós. Se a buscamos, ela se afasta. Para que serve a utopia? perguntou ele, respondendo: Para fazer-nos caminhar…

 

          Embora  quase tudo tenha sido desconstruído, nossos ideais desterrados e a globalização já não nos deixe sonhar e nos insinue a esquecer, é imprescindível acreditar que há uma Fênix entre as cinzas que restaram do mundo pelo qual lutamos. Não abdicamos da esperança, mas reconhecemos que nosso veleiro soçobrou e que seus restos foram bater nas praias melancólicas desses anos. Sobrevivemos quais náufragos num mar de ultrajes e decepções, junto com os destroços das grandes ideologias e com as cruéis aberrações que envergonharam os nossos sonhos ao vermos  o marxismo dogmatizado pelo stalinismo e ao compreendermos porque murchava a “Primavera de Praga”. Sobrevivemos nas lágrimas derramadas sobre as páginas d’O Arquipélago Gulag,  no desencanto de saber a beleza da utopia hegeliana invertida pelo totalitarismo nazista e o conhecimento científico manchado pela explosão atômica.

         A contracultura, a pós-modernidade, a globalização e a destruição ambiental, são os novos cavaleiros do mundo apocalíptico que recebemos. Dessas quatro patéticas “figuras”, as três primeiras causaram efeitos desastrosos sobre a cultura – e lá na região andina, minha nova escola naqueles anos, a globalização insinuaria o esquecimento da história e da cultura deparando-se com a luta dos peruanos ante a herança quéchua e a resistência inquebrantável dos bolivianos pela manutenção da cultura aymara  –  e as duas últimas sobre os rumos futuros da humanidade.

          Não herdamos somente a decepção, mas uma crônica indignação a despeito de qualquer otimismo. Hoje somos, tão somente, seres comprados nesse grande shopping de negócios e aparências em que se transformou o mundo, herdeiros impotentes de um sonho, vivendo num mundo alienante, distópico e devorado pelas fauces da globalização.

          Anos 60 -- Que ventura ter sido jovem naquele tempo! Lá a realidade estava a poucos passos dos ideais.

         Século XXI -- Que estranha transição! Para onde vamos? Sem norte, sem porto, sem um amanhecer! Quanta perplexidade, quantos pressentimentos!  Haverá outro mundo, melhor e possível? Sem crueldade, estupidez e promessas mentirosas? São perguntas plurais que pedem respostas plurais. Essa é uma transição sombria balizada pela desventura e o desencanto. É um tempo de antíteses. Esperamos que o próprio Tempo, com sua misteriosa dialética, traga-nos uma regenerada síntese. Nesse impasse restam-nos, contudo, os territórios invioláveis da imaginação e da esperança e para mim um pouco mais: a transcendência, e a grata introspecção nessas memórias.

[1] Apodo que tinha o Partido Comunista de Brasil, na época considerado o maior partido político de esquerda do país.


Fotos e ilustrações: divulgação