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26 janeiro 2016

Frederico Füllgraf - A cicatriz de Balder Olden


Fragmento ficcional

Boletim de ocorrência: “Na manhã do dia 24 de outubro de 1949, foi encontrado o cadáver do sr. Balder Olden, cidadão alemão, exilado na República Oriental do Uruguai. Não há indícios de ferimentos no corpo da vítima, seja por arma de fogo ou artefatos cortantes. O sr. Olden foi encontrado imóvel em sua cama por sua esposa, a sra. Margareth Olden”.


Este seria um bom começo, pensei: a estória de Olden em retronarrativa.

O boletim policial poderia ser uma criação ficcional, mas o caso pertence à História real. Muitas décadas depois, a história do alemão que se encerrava de modo trágico naquela manhã, mereceu apenas alguns ensaios tímidos em gabinetes acadêmicos. Por isso, assaltou-me  a dúvida, se um livro, apenas, seria capaz de traduzir à altura as multifacetárias andanças do escritor e jornalista por mundos há muito esquecidos. As aventuras do alemão morto em Montevidéu esbanjavam tragédias, pediam imagens; quem sabe, um dia um filme.

Contudo, sobre os oito anos de vida de Olden, primeiro, em Buenos Aires, depois, em Montevidéu, pouco é sabido. 

"Ni idea!", Eduardo Galeano respondeu-me, surpreso. Benedetti? Ah, Benedetti com certeza se lembraria, mas desde o final de 2009 fazia companhia a Olden lá, em algum lugar onde repousam os justos, que então se tornam incomunicáveis até que os mortais se lembrem de que o foram.
 
O mutismo das fontes é um desafio para o roteirista, mas também para o policial. Foi o problema do meu personagem, Facundo O´Donnel, detetive da Divisão de Homicídios da polícia de Montevidéu. Ele sabia por leituras tornadas experiência, que desde as errâncias de Ulisses pelos labirintos que separavam Troia de Esparta, as esfinges encenam suas diatribes com os mortais: “decifra-me, ou...”.

Como método, a consulta a um oráculo - em seu caso, o cerco ao suspeito de um crime - não era muito diferente da investigação policial. 

- Exilado, antifascista? 


Como primeira observação, fria, O´Donnel alfinetou que, na qualidade de inimigo do Terceiro Reich, naturalmente a vítima acumulara inimizades não desprezíveis entre os Volksdeutschen, alemães nacionalistas e patrioteiros, residentes no Uruguai e na Argentina. 


- Um atentado vingador contra um traidor da pátria – é isso que a sra. está insinuando? 


Mas a estrangeira do belo rosto sacode ligeiramente a cabeça, mirando o chão. Não, eles não fariam isso - não, quatro anos depois da queda do nazismo; seria um redondo tiro no pé.

A argumentação da mulher fazia sentido, mas então O´Donnel vaticinou que tinha todo o direito de colocar sob suspeita a própria viúva - nome de solteira Margareth-María Kershaw, terceira esposa do morto.

- Então... alguma rival suspeita?


Mas que burrada, que amadorismo! Houvesse rival, haveria sinal de tiro, pelo menos uma bala encravada na parede. As assassinas passionais sempre erravam o primeiro tiro!


O detetive tenta voltar atrás, mas sua pergunta imbecil já reverberava pela sala.


Mais uma vez a mulher meneia a cabeça, agora esboçando um ligeiro sorriso que lhe ilumina os traços abatidos. À medida, porém, que aperta o torniquete do interrogatório, o policial percebe que a esposa suspeita do crime é verdadeiramente apaixonada e grande admiradora da personalidade do marido. 


O laudo pericial do exame de sangue e do conteúdo do estômago demorariam cinco dias, matuta o policial, enquanto sorve a segunda cuia de mate que trouxe na algibeira, e então se dispõe a admitir, mais que hipótese, a certeza expressada pelos belos olhos e as palavras daquela gringa de modos suaves – “suicídio”.

Com toque enternecido, os dedos da mulher roçam a face direita de Olden, e ela diz – Veja! 

Constrangido, porque se limitara a observar a expressão dos olhos e das mãos do morto, só então o uruguaio presta atenção à notável cicatriz que corta na diagonal a face direita do homem estendido sobre a cama, a boca escancarada como a de um peixe agonizante fora d´água.


- Talho de esgrima... - esclarece a mulher, já de costas para a cena, mirando pela janela que descortina o Prata, sujo e buliçoso.

- Duelo? - insinua o tira com ar zombeteiro.

- Exatamente! - Margareth devolve-lhe de chofre.


Aos vinte anos de idade, conta-lhe, Olden fora caluniado como “judeu imundo” por um colega de faculdade, em Freiburg, Alemanha, que então desafiara para o tal duelo. E para o resto de sua vida aquela cicatriz afligira com insuportáveis dores sua face direita, semi-paralisada por ligamentos seccionados. E isto apesar de seu pai, o escritor Rudolf Oppenheim, ter mudado o sobrenome da família para Olden, deixando para trás suas origens judaicas. Por sua natureza, atitude semelhante à de Alfred Döblin, ao afastar-se do judaísmo, em 1912, ajunta a mulher.

- Döblin?


- Oh! - desculpa-se a mulher, ela tinha pensado em voz alta.

Aquele homem ali, ela sussurra, assombrada - ela que por muito tempo rejeitará a nova identidade de viúva - aquele homem de inteligência febril e coração generoso, estudara Literatura, História e Filosofia, esforço que completara com aulas particulares de interpretação, pois desejava atuar no palco. A cicatriz, contudo, o incomodara além da conta, e ele desistira da carreira de ator, que trocara pela de jornalista. Apesar de todo o tempo que já lá ia, aquele corte de lâmina de florete jamais cicatrizara, quase cochicha a mulher com uma entonação na qual por momentos a palavra cicatriz vibra como alegoria, discreta e fugaz, da completa odisseia do desterro: em 1933, a fuga para Praga, de lá para a França, em 1940, com a ocupação da França pelos nazistas, a terceira etapa da fuga, para a Argentina e, de lá, finalmente em 1943, para Montevidéu.

Deslocando-se da sala para o escritório do morto, o policial ordena à mulher que lhe explique o significado da papelada que cobre o tampo da escrivaninha e se esparrama por secretários e cadeiras, sem contar as folhas rabiscadas, derrubadas sobre o tapete. 

Ela abre os braços num gesto vago: são ensaios literários, idéias para reportagens, planos de viagem. Ali, em Montevidéu, ele parecia ter renascido para sua profissão.

“La otra Alemania”, dizia o cabeçalho de um panfleto. 

Sob uma escultura africana espreita uma folha de papel com uma estrela vermelha, a foice e o martelo e as iniciais "KPD". 

- Comunista... E por acaso existe "outra Alemanha"? - cobra-lhe o policial. 


- Ora, se existe! Sempre existiu e sempre existirá! - responde-lhe, determinada, a estrangeira, que alemã não era, mas que o mirava desafiadoramente nos olhos.


Uma foto chama atenção de O´Donnel – Quem é este homem? 

É o próprio Olden, trinta anos mais moço, metido num uniforme das tropas do Kaiser, explica Margareth. Ele estava fazendo uma reportagem na Tanzânia, colonizada pelos alemães, e fora colhido de surpresa pela eclosão da Primeira Guerra Mundial, mas não vacilara em apresentar-se como voluntário. 


Outro porta-retratos ostenta a foto da sra. Kershaw-Olden, mas a assinatura que leva, diz “Primavera”. Por instantes o policial a contempla como se conferisse a estação na qual repousava sua idade. Com seus quarenta incompletos, vinte e oito anos mais moça que o marido, ela vivia o esplendor da fêmea. 


Ela desvia o olhar, mas por um átimo O´Donnel apostaria ter percebido uma ponta de ironia no canto esquerdo daquela boca de traços cinzelados. 


- Ele me chamava de Gretel, e também de Primavera, segreda-lhe Margareth Kershaw-Olden – era como se todos os dias esparramassem flores diante dos meus pés.


O detetive pigarreia, constrangido.

Numa estante Margareth pesca um livro com formato de álbum: “Mdisi-Bibi-Safari”.  As fotos são de Wolfgang Vennemann e os textos de Balder Olden, edição artesanal de 500 exemplares, numerados e autografados. São imagens do cotidiano no nordeste e no Chifre africanos, tangidos pelo véu do Islã, sem o toque do exótico, mas muito inspiradas. 


O tira não se contém: - Por que esse interesse de um alemão pelos negros?  

Na entonação algo crivada - "negros" - Margareth parece entreouvir o preconceito de portenhos e orientais de linhagem européia quando expressam sua ojeriza ao candombe


Então ela retira da estante vizinha a primeira edição de “Paradiese des Teufels”, um esboço de autobiografia do próprio Olden, à qual juntara crônicas, homenagens aos seus companheiros do KPD, o partido comunista, mas cujo título homenageava um personagem tocante, esclarece-lhe a mulher. 


Es una pena que no sepa leer en alemán - diz ela - ¡porque podría llevarselo!

- Como é mesmo o título? 

Margareth Kershaw-Olden explica-lhe que a edição toda desse "Paraísos do Diabo" fora devorada pelas chamas dos autos-de-fé de Joseph Goebbels.

O policial escancara o olhar, engole seco. Para disfarçar, tenta ser engraçado: – Onde o diabo entra nessa estória?

Na verdade, suspira Margareth, a mais acabada encarnação do demônio era o próprio Goebbels, mas não era o protagonista do livro e, sim, seu carrasco. 

Aquele título era uma ironia!


- Veja por que! - diz ela, apontando o dedo indicador para a costa mediterrânea sobre o mapa pendurado na parede, atrás da escrivaninha de Olden. 


Antes de escapar clandestinamente de Marselha para Buenos Aires, Balder desfrutara de alguns dos mais belos dias de sua vida em Sanary-sur-Mer, balneário cujas fundações remetem ao séc. XVI: sol os trezentos dias do ano, águas de azul turquesa chapinhando, lentas e sensuais, nas rochas; temperaturas abençoadas; areias brancas e aconchegantes.


Ali tinham se instalado uns quatrocentos refugiados políticos alemães: Lion Feuchtwanger, Stefan Zweig, Thomas Mann, Heinrich Mann...


O´Donnel a fixa, todo ouvidos, distraindo-a, mas ela consegue se lembrar de mais alguns nomes célebres: Bertolt Brecht, Bruno Frank, Walter Hasenclever, Alfred Kantarowicz, Arthur Koestler, Joseph Roth, o poeta e dramaturgo, austríaco, Franz Werfel – tanta gente bonita! 

“Vivíamos no paraíso, sem querer!”, escrevera Ludwig Marcuse - e ironiza o exílio tornado resort turístico, burguês. 


C´est la vie, coisas que acontecem! Mas enfim, o primeiro a instalar-se em Sanary foi Aldous Huxley, comprando uma chácara.

- “Admirável mundo novo”?... – interrompe e surpreende-a, O´Donnel. 

Margareth reincorpora-se: - Pois foi lá que ele escreveu o livro. Mas agora vem a parte onde o diabo entra na estória.


No final da Primeira Guerra, quando estava recluso no campo de prisioneiros inglês na África, Olden soubera da denúncia  das atrocidades cometidas pelos invasores belgas contra os nativos africanos do Congo, feitas por um 
tal Roger Casement. Quer dizer, na verdade, quem o alertara às atrocidades foi Joseph Conrad, que preferiu descrevê-las ficcionalmente em “O coração das trevas”, enquanto Casement, que era cônsul britânico no Congo, foi o autor de um contundente relatório factual para a Coroa, em Londres. 

Com a divulgação do relatório e um esfriamento das relações diplomáticas com a Bélgica, por algum tempo Casement foi tirado de circulação. Poucos anos depois, porém, o governo inglês ofereceu-lhe um novo posto em Santos, e depois em Belém do Pará, lá na desembocadura do Amazonas. Parecia mentira, piada de mau gosto, é o que pensou Casement, quando em Belém o alcançou a notícia de um novo genocídio – desta vez, dos índios do Alto Rio Negro. E lá foi ele, novamente como enviado do governo britânico, investigar os crimes do cauchero Julio Cesar Araña, matador de 50 mil índios, mas cuja empresa, a Peruvian Amazon Rubber, tinha sócios ingleses e sede em Londres.


- Mundo Novo muito pouco admirável! - suspira, enfastiado, o policial.

Margareth Kershaw-Olden dá meia volta, retorna à sala. O rosto coberto de lágrimas, ela acomoda-se ao lado do marido morto. Acende um cigarro, dá uma longa e profunda tragada. Agora, terá que se organizar, informar os amigos, preparar o funeral.

O tira sente vontade de consolá-la, passar a mão na cabeça da mulher, mas detém-se, o manual de procedimentos proíbe gestos descabeçados de compaixão.

Quando O´ Donnel se despede na soleira da porta, entregando-lhe a intimação para a prestação oficial de esclarecimentos na delegacia, Margareth-Kershaw-Olden murmureja:

- A propósito, seu sobrenome por acaso é de origem irlandesa? 


- É, sim - confirma-lhe
O´Donnel, desconcertado.

Pois o dela também era, confidencia-lhe Margareth Kershaw-Olden, interrompendo a despedida.

Retornando às Ilhas Britânicas, depois de cobrir cinco anos em postos consulares no Brasil, Casement comandou uma operação clandestina de transporte de armas alemãs para a insurreição contra os ingleses. 

O policial se contrai, engolindo seco mais uma vez. E despede-se com a sensação de um buraco em seu plexo solar, melhor dizendo: um dead spot na narrativa da emigração de seu avô, el irlandés.

Parada na soleira da porta, Margareth acompanha os passos do detetive, escada abaixo.


Pensa, tortura-se: deveria, ou não, admitir na delegacia, que sobrevivera a tentativa de suicídio duplo, ali na cama, ao lado de Balder?

Aqui, por enquanto, o roteiro se interrompe.

Fotos: Wolfgang Vennemann, Frederico Füllgraf



                       

17 dezembro 2015

Frederico Füllgraf - A história perversa do biquini

Mosaico Dieci Ragazze, Villa Romana del Casale, Sicília - séc. III DC


Ensaio

Um ano depois do silêncio das armas da II Guerra Mundial, Louis Reard, estilista francês, teve o que a infiltração anglicizante do nosso vernáculo chama de insight: lançaria uma peça de vestuário de encher os olhos com as prendas do corpo feminino: curvas, saliências, altiplanos e vales, preservando, s´il vous plais!, as fagueiras e vaporosas vergonhas venusinas. 

Discreto, passou madrugadas em vigília, desenhando maquetes de seu invento revolucionário, mas sentiu que lhe faltava um nome forte com apelo exótico. Eis que, em julho de 1946, faltando quatro dias para o lançamento da nova criação, explodem as bombas atômicas “Baker” e “Abel” no Atol de Bikini, centro do Pacífico Sul, e de bandeja os EUA oferecem a Reard o nome que rasgaria a boca do balão, do jeito que as bombas tinham rasgado ao meio o atol – la mode du terreur!

A aventura nuclear de Antony Guarisco

Deparei-me com esta estória intrigante anos atrás, durante a pesquisa para o roteiro do telefilme Burning Sand, para o qual tinha entrevistado em Nova York, Antony Guarisco, marine norte-americano durante os testesa nucleares no Pacífico, que em 1987 liderava o movimento nacional dos Atomic Veterans. 

Desde a década dos anos 70, estes soldados reclamavam reparações dos sucessivos governos em Washington - reparações pela morte de aprox. 200 mil veteranos que participaram dos testes nucleares entre as décadas de 1940 e 1960, porque tinham sido enganados pelas autoridades, forçados a assinar “salvo-condutos”, cheques em branco, isentando o Pentágono de “todas e quaisquer responsabilidades por eventuais danos à saúde”. A malícia infernal já estava subentendida na própria declaração, mas os rapazes assinaram; alguns por patriotismo, outros por ingenuidade, outros ainda por esdruxularias equivalentes.
42 mil marines norte-americanos usados e irradiados como ratos de laboratório
durante os testes no Pacífico
A sound of frying eggs was in the air and for minutes I could see my own 
bones trough the flesh of my hands.. – um som de ovos fritos crispava o ar 
e por minutos pude ver meus próprios ossos através da carne da minha mão …” 

 
Campanha por reparações: Antony Guarisco diante 
da Corte Internacional de Justiça, Haia.

Quando conheci Guarisco, ele já se arrastava pelos corredores do hotel apoiado numa bengala, os ossos triturados pela doença terminal que matara a maioria de seus camaradas. Impossível esquecer sua frase dirigida para a câmera, com seu testemunho sobre a explosão da bomba Baker, no atol de Bikini: “A sound of frying eggs was in the air and for minutes I could see my own bones trough the flesh of my hands.. – um som de ovos fritos crispava o ar e por minutos pude ver meus próprios ossos através da carne da minha mão …”. 

Um dos navios que se vê ao largo, literalmente foi aos ares, por segundos suspenso no céu, devido à onda de pressão da explosão da bomba, detonada 30 m abaixo da superfície da água.

A cena de terror fora vivida por Guarisco e seus companheiros numa praia do Atol de Bikini, sem proteção física alguma contra o “grande raio-X”, o eclipse da luz e das trevas. O objetivo da missão era “testar as condições de combate da tropa após um ataque nuclear soviético" (sic!)

Ficção? História, e das escalafriantes! 

Nunca mais vi Guarisco. Há poucos anos liguei para sua esposa e soube que ele tinha morrido de leucemia.

Revisionismo atômico

O filme, com financiamento inicial do Film Office Hamburg e roteiro premiado pela finada Embrafilme, baseado em meu livro A bomba pacífica (Brasiliense, 1988), há anos aguarda conclusão, porque a Fundação do Cinema Brasileiro pagou apenas a primeira parcela do contrato e literalmente afundou em 1989. Depois, a Guerra Fria deixava de ser fashion, as usinas nucleares e seus gêmeos siameses, as bombas, também atômicas, caíram em desuso em escala global, e a estória do filme mofa no limbo. Mas talvez o projeto seja salvo pelo gongo da História, melhor: por sua versão Bonapartista, aquela, cuja repetição Marx tão espirituosamente chamou de farsa. É que o fogo fátuo da Guerra Fria se reacende com a desconfiança ocidental do programa nuclear do Irã (o de Israel obviamente é tabu), mas também porque, atento às graves alterações climáticas e a desesperada busca por fontes geradoras de energia de baixo impacto ambiental, um poderoso lobby (l´escroquerie nucleaire, como diz um amigo gallo-romano) arma esperto revisionismo histórico dos perigos das instalações nucleares, agora vendidas ao distinto público como “as menos poluentes e mais seguras”.

Esse revisionismo fez a cabeça de nosso ex-timoneiro, Luis Inácio Lula da Silva, e sua então Ministra da Energia, hoje sua sucessora plenipotenciária. Como é sabido, aprovou-se a conclusão de Angra-3 e a construção de outras seis usinas nucleares. Dizem línguas afiadas que o Brasil precisa de assento no Conselho de Segurança da ONU, onde meras usinas nucleares rimam com bombas. Mas, o que interessa aqui, é que das seis usinas planejadas, duas ou três operarão no litoral do Nordeste – cujas praias badaladas nos remetem novamente à iluminação de Louis Reard.

Relação macabra

Nos anos 1950, a relação macabra entre a fonte inspiradora e o trapinho homônimo – a bomba e o biquíni – repercutiu desfavoravelmente para Reard. Mas argumentando pela tangente, ele afirmou que havia emprestado o nome do sumário traje de banho ao atol, e não à bomba. A verdade é que ele tirou enorme vantagem dos testes com a arma terminal, cuja devastação parecia pescar no inconsciente coletivo fantasias associadas ao imperativo histórico de uma urgente devastação da moral vitoriana. Com a reprodução em algodão, de fac-símiles da cobertura de imprensa sobre os testes nucleares, Reard promoveu um marketing literalmente bombástico.

 
 
Acima, à direita, Louis Reard; à esquerda, Brigittte Bardot;
embaixo, fio dental: a deserotização pelo escancaramento

Mas o inventor do biquíni necessitava de um trunfo adicional, pois outro francês, Jacques Heim, havia chegado às passarelas com uma criação semelhante – a do maiô partido em dois, assumidamente batizado de “L’atome”. Reard contra-atacou, promovendo seu biquíni como “o traje menor que o mundialmente menor dos trajes”, e ganhou a guerra dos nomes e das torcidas. 

Se Reard conhecia o mosaico Villa Romana del Casale, apropriou-se da fonte de inspiração sem jamais revelá-la, porque o biquíni de fato não foi sua invenção: o traje já era usado pelas moças sicilianas no séc. III DC.



Economia e libido

Contudo, garimpadas nas lixeiras da História as segundas intenções, eis que uma insólita explicação econômica parece varrer todo o encanto, substituindo nossas fantasias por fatos da fria economia. 

O pano de fundo histórico do biquíni, que aqui funciona como perfeito trocadilho, foi a falta de pano para a confecção de fundilhos. 

Em 1943, em plena II Guerra Mundial, o governo norte-americano obrigou a indústria têxtil ao racionamento de matérias-primas, provocando a redução de 10 por cento de algodão na confecção de trajes de banho femininos. 

O resultado desta operação militar foi uma espécie de “ventre livre” patriótico para o corpo feminino, e foi Reard quem lhe daria a forma no Velho Continente. Sua inovação mercadológica consistiu em reduzir o traje para 30 polegadas de malha, desmembradas em bustier top e um triângulo invertido, down, conectados por um cordão. O biquíni de Reard era tão sumário para a moral da época, que nenhuma modelo parisiense ousou subir à passarela.

Nos EUA, certa “Liga pela Decência” pressionou os produtores de Hollywood para banir o biquíni das telas. Porta-vozes da cruzada vitoriana questionaram a reputação das moças convertidas à moda, afirmando que “o biquíni revela tudo no corpo de uma mulher, menos o nome da mãe dela “. Como eram amáveis as madames 

Impávido, Reard manteve a classe e a ousadia a serviço do marketing, contratando Micheline Bernardini, em cuja cabeça e corpo o biquíni caiu como uma luva, pois atuava como dançarina de nus no Cassino de Paris: após uma sessão de fotos dela em poses reclinantes, a imprensa ajoelhou-se diante dela, embasbacada, e a musa foi soterrada sob uma avalanche de 50 mil cartas de fãs ensandecida/os.

Mas la Bernardini não foi capaz de impor a capitulação aos vitorianos EUA. Desesperado, melhor: de olho grande no mercado yankee, Reard incorporou a carta do eremita do tarô, e teve seu segundo insight: uma femme fatale mal conhecida por “BB”- a estreante Brigitte Bardot. 

Deslocou para o campo de batalha sua mal disfarçada inocência de "E Deus fez a mulher", acentuada pelo trapinho, et voilá! 

O biquíni precisava de curvas para ser valorizado, e BB impôs a queda das últimas barricadas norte-americanas. Entrava em cena em Hollywood o vitorioso trapo que matava a cobra e escondia o… principal. 

Das passarelas para a tela e o vinil, foi um passo. O biquíni foi cantado em prosa e verso, imortalizado no rock de Brian Hyland, do final dos anos 50, “Itsy-Bitsy-Teenie-Weenie/Yellow-Polka-Dot Bikini”.

A empresa de Reard conseguiu manter-se no mercado até 1988. Uma versão sobre os motivos de seu fechamento insinua que Reard perdera a guerra pela miniaturização para o fio-dental brasileiro; aberração, vingança dos inventivos trópicos e golpe fatal nos planos do estilista.

Cinqüenta anos depois é oportuno indagar se a vinculação proposital do maiô partido em dois com a arma de extermínio em massa, não abriga códigos de significados convergentes. 

O primeiro deles é a “onda Shumpeteriana”: em conjunturas de abertura democrática e crescimento econômico, a moda (e a libido) abre-se, liberando o corpo do “supérfluo” (no inconsciente coletivo pós-guerra, masculino, era enorme a demanda pela “abertura do pano” sobre o corpo feminino). 

O segundo, é seu significante profundamente pós-moderno: a visão de Reard é a alegoria do êxtase ilimitado, cujo pêndulo sempre oscila entre Eros e Tanatos, entre o prazer e a morte – o signo marcante de toda a cultura iconográfica e moda militarizadas e ferozmente midiatizadas neste início de Terceiro Milênio.

Por fim, uma pitada de pimenta tupiniquim: as bombas atômicas norte-americanas lançadas sobre o paradisíaco atol de Polinésia – imortalizado nos quadros de Paul Gauguin – foram construídas, durante e depois da 2ª Guerra Mundial, com matéria-prima brasileira: milhões de toneladas de areia monazítica, contendo urânio e tório, das praias de Guarapari, no Espírito Santo, Mãe Ubá e outros costões do sul nordestino. Quem aguardar o filme, verá.

 
(Ilustrações: Bikini Atoll.com; Villa Romana del Casale)
Recomendado:
BIKINIS AND BOMBS A Senior Project Exhibition, 
The Library Art Gallery at the Florida Gulf Coast University

30 maio 2015

Frederico Füllgraf - O beijo de Bóreas, Parte I

Reparos à “Viagem no Brasil” (1817-1920)
de Carl Friedrich Phillip von Martius & Johann Baptist von Spix




Südfriedhof - Cemitério da Zona Sul, Munique, verão de 1992. 

Seguindo a indicação de Alexander von Martius, tetra-tetraneto do lendário naturalista-viajante, vim prestar uma homenagem a dois brasileiros aqui sepultados. 

E lá estava a lápide reproduzida na capa do  livro de Henrike Leonhardt, que eu acabara de ler: esculpido em mármore azulado, levita no céu o mitológico deus dos ventos do norte, soprando seu hálito glacial sobre o corpo de duas crianças, prostradas: Isabella-Miranha e Yuri-Comás, dois curumins com idades variando entre 10 e 14 anos, arrancadas da Amazônia tropical e transplantadas para o inverno de Munique, onde morreram de frio, entre 1821 e 1822.

Ao lado dos dois indiozinhos, repousa Carl-Friedrich Phillip von Martius - médico, dublê de botânico, geólogo e geógrafo, aos 23 anos de idade - que juntamente com Johann Baptist von Spix (32 anos, zoólogo), empreendeu a mais longa de todas as expedições naturalistas ao interior do Brasil-Colônia: a "Viagem pelo Brasil". 

Para um cineasta à procura de uma back story, não poderia haver imagem mais desconcertante que a do túmulo dos curumins, aos pés dos Alpes; metáfora de inúmeras aberrações que aderem à história das expedições científicas europeias do séc. 19, à América profunda.

No divã de Humboldt

Recém-retornado de sua epopeia nas Américas, Alexander von Humboldt foi assediado por convites para proferir palestras e participar de tertúlias com amigos e admiradores nos salões da nobreza prussiana, em Jena e em Weimar, discorrendo sobre sua Voyage aux régions equinoxiales du Nouveau Continent, fait en 1799-1804, par Alexandre de Humboldt et Aimé Bonpland (Paris, 1807). 

Na plateia costumava reunir-se a fina flor das artes e da cultura alemã da época, tais como Heinrich Heine, Ludwig Tieck, ou ainda Matthias Claudius, Carl Friedrich Gauss, Wilhelm Grimm e August Wilhelm Schlegel, sem esquecer os já canonizados Johann Wolfgang von Goethe e Friedrich Schiller. Entre os ouvintes que disputavam uma cadeira, frequentemente estava um jovem médico dublê de botânico, chamado Carl-Friedrich Phillip Martius, de Munique, que não desgrudava olhos e ouvidos dos lábios de Humboldt.


Parte da plateia estava ali para deliciar-se com o "olhar planetário" do barão, porque fenômenos fantásticos como as assim chamadas "províncias botânicas" - conceito científico emoldurado por uma estética das floras, que segundo Humboldt teciam um cordão de afinidades eletivas, botânicas, ao redor do planeta - constituíam verdadeiras relíquias visionárias. Mas Humboldt estava burilando um projeto completamente inédito, que atraiu e extasiou grande número de artistas plásticos: o "Ensaio de uma geografia das plantas". Nela, ela pretendia plasmar suas concepções sobre a representação artística da natureza tropical.



Humboldt já tinha esboçado uma técnica da representação das plantas em corte anatômico e, não se considerando, ele mesmo, dono da mão mais engenhosa, o que precisava, agora, eram representações de paisagens pela mão de artistas consumados. E de uma forma tal que resultassem adequadas do ponto de vista estético, e fossem ao mesmo tempo cientificamente informativas. Estas paisagens, enfatizava Humboldt, deveriam ser contempladas como organismos vivos e como totalidade. Por isso, seria preciso captar nos desenhos a ação conjunta dos fenômenos naturais, como as condições climáticas e o crescimento, mas acentuando as representações das plantas e as silhuetas das colinas mais características. 

Na platéia, ovações e êxtase...

Elegante, mas categórico, agora Humboldt discorria sobre o aspecto mais delicado e comprometedor de sua nova cosmogonia: o imperativo de um novo olhar político sobre as Américas, atitude que definiu como Wiederentdeckung - o re-descobrimento. E nestas oportunidades era possível perceber que Alexander não era o termômetro, mas ele mesmo protagonista destes novos tempos, pois ousava denunciar, enérgico, o sistema colonialista nas Américas, assentado sobre o massacre dos indígenas autóctones e a exploração do mais abjeto escravismo.

Não cabia dúvida que a inflexão ideológica de seu discurso tinha um quê do "sotaque" francês de 1789 - "liberté-egalité-fraternité! - e não por acaso o gênio berlinense pisara o continente americano exatamente na véspera da eclosão do movimento independentista, no sul encabeçado por nacionalistas como Bolívar e San Martín. 

Com seu novo olhar sobre as Américas, assim o percebia a platéia, simbolicamente Humboldt declarava morto o ciclo da "longa noite escura", inaugurada pelos "descobrimentos" do séc. XVI. Portanto, cobrava o gênio, o programa de todo naturalista que se prezasse, interessado em baixar às regiões equinociais, deveria constituir-se da mais rigorosa investigação científica, acompanhada de não menos enérgica conscientização humanista e política. 

O jovem Martius anotou o recado em sua agenda, mas algo constrangido.

Resultados versus “filosofia”- a  Viagem pelo Brasil

No início de 1817, começam os preparativos para a partida ao Brasil da Missão Austríaca, cujo personagem central era a Arquiduquesa Leopoldine von Habsburg, pedida em casamento por D. Pedro I. Integravam a comitiva o zoólogo Johann Baptist Spix e o médico, dublê de botânico, geólogo e geógrafo, Carl-Friedrich Phillip Martius, que desembarcaram no Rio de Janeiro em abril de 1817. Mas eis um aspecto político do convite: como súditos cristãos do Império da Áustria e do Reino da Baviera, contaram com o estímulo de D.João VI, apenas porque lhe pareciam confiáveis.

E aqui se faz mister explicar um conflito com "esses intelectuais, metidos" da Alemanha: em 1795, o rei português embargara o visto de entrada para outro alemão, mais célebre, porém nada confiável aos olhos da Casa de Bragança: ele mesmo, Alexander von Humboldt, adepto da Revolução Francesa, cujo desembarque no Brasil a Coroa avaliava como perigoso estímulo à luta dos brasileiros pela Independência (Humboldt era esperado em Vila Rica). Enxotado para o Brasil, após a invasão de Portugal por Napoleão, e ainda por cima abrir as fronteiras da colônia para as "bisbilhotices" do prussiano francófilo era, na acepção de D. João VI, colocar a raposa como guarda do galinheiro! Em 1800, quando a Coroa, em Lisboa, soubera que Humboldt fazia pesquisas na fronteira da Venezuela com o Brasil, oficiara o governador da Província do Maranhão, mandando-o distribuir um cartaz: "Alexandre de Humboldt, vivo ou morto!".

Por outro lado, o convite aos dois bávaros foi também uma espécie de compensação para a malfadada "Viagem Filosófica", comandada pelo naturalista baiano, Alexandre Rodrigues Ferreira, e auspiciada  pela Academia das Ciências de Lisboa e o Ministério de Negócios e  Domínios Ultramarinos (1). De 1783 a 1792, Ferreira percorrera as capitanias do Grão-Pará, Rio Negro e Mato Grosso, mas seu rico acervo jamais fora estudado em Portugal, sendo requisitado por Napoleão como butim de guerra e desviado para a França.


Contabilizados os prejuízos, agora o entendimento da Coroa era de que estas viagens não deveriam esgotar-se no devaneio romântico, mas inserir-se na estratégia de fortalecimento da economia imperial, isto é, produzir resultados. Entre suas finalidades, as expedições visavam a reprodução em cativeiro de plantas trazidas pelos naturalistas, e a diversificação da agricultura de contexto colonial.

Pelo Brasil profundo

O primeiro aspecto que chama atenção na "Viagem..." de Martius e Spix foi a extensão territorial de sua caminhada: mais de dez mil quilômetros, percorridos em ziguezague, do Rio de Janeiro até as fronteiras com o Peru e a Colômbia; extensão que se compara à campanha militar de Alexandre Magno, na Ásia Menor, e que faria sombra à "Odisséia" de Ulisses e à "longa marcha" de Mao Tsé Tung, durante a Revolução Chinesa. 

Spix e Martius embrenharam-se em um trópico hostil, a pé, em lombo de burro; navegando rios em canoas improvisadas, dormindo ao relento, passando privações, adoecendo, perdendo as esperanças. E quase o juízo. Despencaram em cachoeiras, e por um triz não morreram afogados, como atesta uma cruz afixada à porta de uma capela em Santarém, na Amazônia.

Interessado em refazer essa odisséia, adaptada para formato de seriado para a TV Alemã, que deveria ser produzido pelo jurista Walter Kalthoff, de Munique, e dividido em 12 capítulos dos três tomos da versão original da "Viagem...", mergulhei no texto da crônica de Martius, que descreve a faina diária dos expedicionários, coletando plantas, animais, minerais e fósseis, catalogando-os provisoriamente. Plantas e animais recebiam desenho apenas esboçado, geralmente acompanhado de instruções para os coloristas, de Munique, pois in situm os naturalistas não possuiam as tintas apropriadas, nem o tempo. Mas o primeiro desfalque da "Viagem pelo Brasil" - espécie de maldição que se abaterá duplamente sobre a expedição de Langsdorff, anos mais tarde - foi Thomas Ender, aquarelista austríaco com a função de “repórter fotográfico”, que adoeceu e abandonaria a expedição, antes mesmo de atingir São Paulo. Suas aquarelas refletem os modos de percepção dos pintores viajantes europeus ao construírem certa imagem do Brasil no início do século XIX, e serviram de modelo para várias enquadramentos de câmera que fizemos em Bananal, buscando a posição mais aproximada do eixo de seus cavaletes.

Entre Santa Cruz, na Província do Rio de Janeiro, e o Alto Japurá, na Amazônia, Martius coletou  20 mil ecicatas, representando 6.500 espécies botânicas, entre as quais  400 espécies novas, descritas na "Flora Brasiliensis" - obra monumental, de aprox. 80 tomos, que reúne 23 mil espécies botânicas, com cerca de 4 mil ilustrações, de acachapante beleza e precisão, e que só recentemente foi digitalizada e está acessível na Internet (http://www.fapesp.br/publicacoes/flora/) na forma de projeto patrocinado, entre outros, pela empresa Natura. O que se desconhece completamente no Brasil é a belíssima zoografia de Spix, que catalogou centenas de espécies de aves, primatas, além de infindáveis gêneros de insetos, que constituem o acervo cult da Coletânea Zoológica do Estado da Baviera, com belíssimas reproduções, em aquarela, de espécies de aves hoje virtualmente extintas. Causou-me enorme estranhamento a visita à Coletânea, onde “dormem” centenas de tucanos brasileiros - e dez, apenas, não teriam sido suficientes? Replicou o prof. Ernst Fitkau, sucessor de Spix, cento e setenta anos mais tarde, que o estudo das espécies vivas requer sempre o abate de dezenas e centenas de indivíduos. Resposta cruel. E lá estão os tucanos, empalhados, com quase duzentos anos de idade, que já perderam o odor a formol, mas cujas plumas continuam sedosas, e cujos olhos brilham, por vezes esboçando sorrisos de cumplicidade. Tocá-los é uma experiência mágica e ao mesmo tempo insólita.

Estratégia fatal

Vinte mil plantas a bordo da galera Nova Amazona, e outro tanto de animais - eis a "Arca de Spix e Martius", em Belém, no ano de 1820, preparando-se para a grande travessia. A nau toma  feições de um colorido jardim botânico, à cuja sombra jaz um hilariante jardim zoológico de animais abatidos.

E la nave va ...

Entretanto, à altura das Ilhas Canárias, a estratégia fatal da travessia é sinalizada pelas primeiras rajadas de vento gelado, e as plantas começam a definhar. 

Martius registra em seu diário de bordo a “má vontade  do capitão português com a carga”, mas é a latitude que exige seu tributo. 

A galera partira de Belém durante o afélio, quando a Terra encontrava-se na posição mais afastada do Sol, e era verão no Hemisfério Norte. À medida, porém, que o barco avançara, rumo a Lisboa, acima da linha dos equinócios, a Terra inclinara-se para o periélio, anunciando a aproximação da estação fria na Europa. 

A propósito, “Herr Professor”, era pergunta a se fazer a Von Martius: o que, diabos, os curumins amazônicos ainda fazem a bordo? 

Já estão batendo queixo de frio como peixes fora d água! 

Tarde demais, porém: três (ou terão sido quatro, cinco – ninguém sabe quantos índios foram, exatamente) morrem de frio. Sim, porque além dos curumins, presenteados por suas tribos, alguns índios adultos também pegaram "carona" na caravela de Spix e Martius. Mortos, são lançados ao mar gelado, mas dizem os nativos que, quando no céu noturno desponta a Estrela Dalva, eles podem ser vistos na abóbada, caminhando de volta ao grande Rio-Mar...

Spix, Martius e sua “arca” cruelmente desfalcada de índios, animais e plantas, atingem a foz do Tejo no final de outubro de 1820. 

Extenuados e debilitados, apressam-se em saudar a El Rey, em Lisboa. 

Enquanto a galera segue viagem para descarregar o butim tropical em Gênova, os naturalistas tomam uma carruagem rumo a Munique. A bordo dela, febris e silenciosos, dois curumins de pele da cor do cacau, são arrastados através do tapete branco, mágico e fatal, da Europa invernal.


19 janeiro 2015

Frederico Füllgraf - Isabelle Eberhardt, a vagabunda europeia convertida ao Islã (Parte 2)

 

Ensaio


A vagabunda reinventada

Essa vagabundagem começara após a morte da mãe, Nathalie. Quando mãe e filha se dirigiam a Bône, norte de Argélia, em maio de 1897, abrira-se uma nova e dramática etapa na vida de Isabelle. 

Compartilhando uma casa modesta do bairro árabe, ela e a mãe convertem-se ao Islã. Seis meses depois de instaladas, sua mãe também morre fulminada por um ataque cardíaco, em seguida se suicida seu meio-irmão, Wladimir. 

Suas tendências depressivas impelem-na à fuga, para longe dali, pois alguém dissera que “viver não é necessário, mas partir é preciso". Para Isabelle, muito pelo contrário, partir é viver.

Por um estranho efeito de retorno, ali, onde a mirada só pode pendurar-se em nada mais que no horizonte, a viagem se faz interior: "El Ued [curso de água no deserto] me alcançou como revelação de beleza visual e de profundo mistério, o apossamento de meu ser errante e inquieto por um aspecto da terra que não havia suspeitado", escreve ela. 

Nesse oásis, em agosto de 1900, encontrará o homem de sua vida, Slimane Ehnni, e receberá o rosário dos iniciados pela Qadriya. Com natureza predisposta, aprende as técnicas sufis do êxtase místico e chamar-se-á Si Mahmoud Saadi; pseudônimo que sobressairá sobre os demais e que recorda o poeta viajante de Shiráz, na Pérsia, quem, segundo Isabelle, no séc. XIII enaltecia no amor "a renúncia e a arte de domar-se a si mesmo".

A descrição de sua conversão ao Sufismo é muito lacônica em seu seus textos, referida apenas numa carta enviada à Dépêche Algérienne, de 6 de julho de 1901. 

Na verdade, frequentara três zaouïas – conventos súfis – diferentes em El Oued, e os menciona perante um juizado para contextualizar a tentativa de assassinato perpetrado contra ela por um seguidor fanático da zaouïa rival de Tidjanya. Ela o perdoa, mas o árabe é condenado a pena gravíssima, e ela, expulsa da Argélia. 

Mulher européia, de comportamento impensável para os padrões do mundo árabe, Isabelle impõe-se à sociedade islâmica e à ritualística súfi, pois os homens da Qadriya oferecem-lhe as novas vestimentas, tanto femininas, como masculinas, que terá liberdade de usar do modo que mais lhe apetecer – generosidade incomum, sibila-se, porque muito provavelmente com seu mestre a vinculara algo mais que amizade espiritual, apenas.

George Sand e Mata Hari

Isabelle Eberhardt é um misto do travesti Georges Sand e da glamurizada espiã Mata Hari,  transplantados aos confins do Saara meridional

Incensada por uns, devido às suas audaciosas andanças como mulher européia desacompanhada - no Saara, mas também no coração de sociedades fortemente machistas e excludentes do feminino - por outros, Eberhardt é lembrada como a jovem ocidental escapista, que incorpora a dolorosa experiência, mas também o prazer pervertido dos relacionamentos incestuosos, fincado na personalidade de uma mãe traidora e insegura, atraída por relacionamentos no mínimo exóticos, e fortalecida ainda pelo papel de uma irmã dominadora e de dois meios-irmãos, também de paternidade duvidosa; um deles, incestuosamente vinculado a Isabelle.

Eu não sou mais que autêntica, uma sonhadora que deseja viver longe do mundo, viver a vida livre e nômade, para em seguida tentar expressar o que viu e talvez comunicar a alguns poucos, o frisson melancólico e charmoso que experimentou na contemplação dos tristes esplendores do Saara”, ela escreve na dolorosa tentativa de exorcizar o passado boêmio iniciado em Genebra, quando frequentava círculos anarquistas. 

Em Bône, na Argélia, envolve-se em encontros amorosos ditados por colonos franceses, invasores que costumam receber apenas ”nativas” para seu consumo de ”carne fresca”. 

Agora acaba de retornar de Túnis, de noites turbulentas vividas entre amigos e amantes árabes. 

A promiscuidade cobra seu preço, e por vezes ela intui que a sífilis infectou seu fruto. 

O Islã proíbe o consumo de bebidas alcoólicas aos seguidores de fé, mas Isabelle contrabalança seu alcoolismo com dosagens de profundas convicções religiosas. Por momentos é capaz de experimentar o êxtase, e não raramente gostaria de perder-se na mera contemplação do deserto.

Expulsa da Argélia, à raiz de um processo criminal, mas com evidente intenção política (a Argélia era uma colônia francesa, há mais de oitenta anos invadida e anexada por Napoleão), ela só conseguiá regressar ao deserto graças ao seu casamento com Slimène Ehni, suboficial de dupla nacionalidade. 

Mas o vínculo com o exército francês levanta suspeitas: por acaso suas incursões aos territórios (aqui definidos no mais estrito senso geográfico) interditados aos europeus no Saara, dissimulavam missões de espionagem para o exército francês? 

Alguns argumentos baseiam-se sobretudo na inexistência de qualquer reflexão profunda sobre o Sufismo nos escritos de Eberhardt, especulando tratar-se de uma convertida de fachada. Outro argumento, irrefutável, é a lembrança de sua estreita amizade como o Gen. Hubert Lyautey. 

Publicado em 1994, em seu ensaio ”Colonialism, Transvestism, and the Orientalist Parasite” (”Belated Travellers” - Durham & London, Duke University Press), Ali Behdad reitera a colaboração de Isabelle com o poder colonialista francês no Saara.


Gen. Lyautey
Filha de Rimbaud?

De quem é mesmo filha, Isabelle Eberhardt, cuja vida novelesca já começara como mistério?”.

Sem rodeios, já em 1943  Pierre Arnoult atribuia em sua biografia "Rimbaud" (Éd. Albin Michel) a paternidade de Isabelle ao autor de "Uma estação no inferno”, baseando-se em três indícios algo frágeis para conformar prova documental:

1) as semelhanças das compleições físicas de Isabelle e Rimbaud; 
2) a presença do poeta na região do lago Lemans, em junho de 1876, a cujas margens jaz Genebra, onde naqueles momentos vivia Nathalie de Moerder; 
3) o nome Isabelle Wilhelmine, da recém-nascida, segundo Arnoult inexplicável pelo lado dos Moerder-Trophimowsky, mas vinculável a Rimbaud por intermédio de sua irmã preferida, Isabelle, que também era o nome da rainha da Holanda, em cujo exército Rimbaud acabara de alistar-se.

Contudo, em "Vie d´Isabelle Eberhardt", Francoise d'Eaubonne, além de corroborá-los, agrega a tais indícios um misterioso juramento da cavaleira do deserto, endossado pelo testemunho de várias pessoas: "Morrerei convertida em muçulmana, como meu pai!". 

Aqui, Isabelle jamais poderia estar se referindo ao monge anarco-islâmico, Trophirnowsky, afirma d'Eaubonne, reiterando que não resta remédio que assombrar-se diante do estranho tropismo que o Islã conseguira obrar nos destinos, tanto de Rimbaud, como de Isabelle Eberhardt, porque ambos teriam sido conversos sinceros. Com essa justificativa rebatendo a tese de uma conversão superficial da loira aventureira, travestida de homem.

Apocalipse em Aïn-Sefra

Em 21 de outubro de 1904, internada num hospital da pequena cidade de Aïn-Sefra, para tratar de uma malária que a assaltava periodicamente, têm desenlace trágico as andanças da teuto-russa-suíço muçulmana: uma tempestade que parecia o fim do mundo, rapidamente transforma os baixios do lugarejo em torrente furiosa de barro e escombros. 

Os casebres modestos são varridos do mapa como fossem raminhos de palha. Percebendo o perigo, Isabelle arranca o marido da casa, mas retorna para apanhar um manuscrito e, quando tenta sair pela porta, a casa se derruba sobre ela; seu corpo encontrado somente dias depois. 

Quando faleceu, Isabelle tinha vinte e sete anos.

Com sua morte inicia-se o resgate de sua biografia, e sua reputação é objeto de distorções gritantes, contra as quais logo se insurge o escritor norte-americano, Paul Bowles, um dos re-descobridores de seus textos e autor de "O céu que nos protege". 

Exceção feita a artigos esparsos, publicados em jornais sem destaque, Isabelle não conseguira publicar nada em vida. "Mas a quê referir-se, se grande parte do que ela escreveu, foi recolhido após sua morte [pelo general] Lyautey, e talvez já naquele primeiro momento submetido a censura problemática?" – questiona o jornalista argelino, Beghdadi Boutkhil (”Lyautey et les oeuvres d’Isabelle Eberhardt”, Le Quotidien d'Oran, 20-21/10/2004), advetindo: “Deve tomar-se por obra efetiva ou faltante aquilo que o general enviou para publicação ao senhor Barrucand, redator-chefe doe jornal L´Akhbar? Estes fatos são notórios: em 1906, Barrucand retocou, corrigiu e censurou os manuscritos [de Isabelle] destinados à publicação”.

Referindo-se ao Maghreb, Isabelle Eberhardt disse certa vez: “Eu queria possuir este país, e este país acabou me possuindo”.

A obra póstuma

Eberhardt, Isabelle & Barrucand, Victor: À l'ombre chaude de l'Islam, Arles, Actes Sud, 1996 ;
Pages d'Islam, París, Fasquelle, 1908 ; 
Notes de route, París, Fasquelle, 1908 ;
Mes journaliers, París, La Connaissance, 1923 ; 
Mes journaliers, París, Les Introuvables, 1985;
Isabelle Eberhardt racontée par ses lettres et journaliers, (présentation et commentaires: Aglal Errera) Arles, Actes Sud 1987; 
Écrits sur le sable. Oeuvres complètes. vol. I, París, Grasset, 1988. Oeuvres complètes. vol. II. Edição, notas e apresentação: Marie Odile De la Cour et Jean René Huleu. Prefácio: Edmond Ch. Roux, París, Grasset, 1990. 
Un voyage oriental: "Sud oranais", (De la Cour, M.O.; Huleu, J.R.: Edición) París, LGF, 1991. Crônica. 
Un désir d'Orient et Nomade j'étais, (biografía por Edmonde Charles-Roux) Livre de poche, 1997. 
Écrits intimes: lettres aux trois hommes les plus aimés, (De la Cour, M.O.; Huleu, J.R.: Presentación) París, Payot, 1991. Reed., Payot, 1998. Correspondencia. 
Notes de route "Maroc, Algérie, Tunisie" (Jean Marie Durou), Arles, Actes Sud, 1998. 
Au pays des sables (nouvelles inspirées par un séjour au Sahara en 1902), París, Joëlle Losfeld, 2002. 
Mes journaliers (cartas e diários íntimos), París, Joëlle Losfeld, 2002. 
Isabelle Eberhardt / L'Écriture de sable, Alger, Barzakh, 2002. 
País de arena, (Inmaculada Jiménez) Madrid, del Oriente y del Mediterráneo, 1989. Edición revisada y corregida, del Oriente y del Mediterráneo, 2000.

The oblivion Seekers, 13 peças de Eberhardt traduzidas ao inglês por Paul Bowles, 1972.