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15 maio 2013

Manoel de Andrade - Os filmes de Frederico Füllgraf


Resenha



Acabo de assistir, pela segunda vez, o filme Fogo sobre Cristal, um Diário Antártico, do escritor e cineasta paranaense Frederico Füllgraf. O filme retrata as paisagens geladas da Passagem de Drake, nas Ilhas Orçadas do Sul, Shettland do Sul  e do Mar de Weddel, no setor leste da Península Antártida.

Essa invejável aventura, filmada em fins de 1998, nasceu de um inesperado convite ao cineasta para embarcar num navio quebra-gelo da marinha argentina numa expedição de entregas de suprimentos e revezamento de técnicos e cientistas em base de estudos na Antártida.

A bordo do navio “Almirante Irizar”, Frederico Füllgraf chega até o fim do mundo para filmar as fascinantes paisagens brancas e silenciosas do sul do planeta.  Rodado sem um roteiro previamente planejado, as cenas resultaram num documentário de uma hora que encanta quer pela beleza imóvel das paisagens, quer pelo inquietante movimento das geleiras retalhando seus imensos blocos para formar as inumeráveis frotas de icebergs em busca  do oceano.

O que pensa o homem nestas paragens solitárias, isolado por meses ou anos do torvelinho incessante da civilização urbana? Dias imensos, paisagens imensas, enseadas de deslumbrante beleza, comunidades numerosas de pinguins, com suas elegantes posturas quase humanas nos sugerindo a idéia dos únicos seres com que pudéssemos partilhar, solidariamente, aquela assustadora solidão. É um cenário que induz o expectador, e por certo leva aos que por lá se isolam, à reflexão, à catarse e ao mistério. Como escrever um poema diante de tanta majestade, se tudo que a visão alcança é uma poesia constantemente reescrita pela própria natureza e indelevelmente impressa em cada traço de uma imensa tela? A reflexão sobre um poder oculto que comanda os elementos, que dita as leis que regem as variações climáticas que, a partir dali, invadem o continente, gerando as ventanias violentas, mudanças bruscas de temperatura, as chuvas torrenciais, enchentes e destruição. Que misterioso laboratório da natureza se esconde por traz de paisagens tão poéticas!

As imagens de filme nos transmitem tudo isso e muito mais. É uma viagem além de tudo o que nos propuséssemos imaginar. Um outro mundo, uma outra dimensão da vida, um outro planeta, poderíamos pensar. Apesar dos tantos documentários sobre o assunto, Fogo sob Cristal é a expressão visual da criatividade e do espírito aventureiro do autor, uma “Crônica da solidão de um cineasta e sua câmera no fim do mundo”. Entre tantas cenas marítimas e humanas, surgindo além da proa itinerante e nos pátios e interior das bases, um fato apenas, entre tantos que poderíamos citar: uma sequência comovente de cenas com o navio parado em alto mar, jogando coroas de flores às águas onde fora afundado o  contra-torpedeiro Gen. Belgrano, durante a Guerra das Malvinas – conflito em que o Comodoro Miqueloud, comandante de Marambio, presente a uma das bases visitadas,  lutara como aviador...

A credibilidade de Frederico Füllgraf, como cineasta, vem de uma longa trajetória de realizações cujos rastros foram deixados, em 2006, no interior paranaense e na distante Namíbia, quando dirigiu a filmagem de Maack, Profeta Pé-na-Estrada, relatando as viagens e pesquisas geológicas feitas no Paraná, na década de 40,  pelo cientista alemão Reinhard Maack,  um precursor do ambientalismo, descobridor do Pico do Paraná e autor de estudos geológicos que ligam a bacia geológica paranaense à bacia de Gondwana, na Namíbia.

Seu primeiro filme, Queremos que esta terra seja nossa, rodado em Portugal, em 1975, aborda a “Revolução dos Cravos”, golpe militar pacífico que derrubou o governo herdeiro da ditadura de Salazar.

Em 1985, pelo seu filme Dose Diária Aceitável,  sobre as consequências  dos agrotóxicos no Brasil, recebe no RIEENA - Festival Internacional  do filme ambiental, na França, o prêmio de “Melhor Documentário de Conscientização”, considerado o primeiro prêmio internacional do cinema paranaense.

No seu invejável currículo acadêmico, Füllgraf, na década de 80 estudou Comunicação Social, Filosofia e Ciências Políticas na Universidade Livre da Alemanha, época em que realizou reportagens e filmagens de documentários para a ARD (rede pública de Televisão da Alemanha).  Em 1988, a Editora Brasiliense publicou seu livro (já esgotado)  A Bomba Pacífica – O Brasil e outros Cenários da Corrida Nuclear.

Frederico Füllgraf é um respeitável intelectual que deverá publicar proximamente O Caminho de Tula, seu primeiro romance a ser lançado pela Record.  Essa casa editorial  deverá entregar nos próximos meses o polêmico romance "Sós, em Berlim", de Hans Fallada. A obra, com 700 páginas escritas em 24 dias, no ano de 1946, e publicada no ano seguinte na Alemanha Oriental, foi traduzida do original  alemão por Füllgraf e estréia no Brasil depois de publicada na Inglaterra e nos EE.UU., onde aparece entre os títulos mais vendidos, no topo do ranking do site Amazon. Baseada em documentos da Gestapo descobertos pelo exercito russo no fim da Segunda Guerra Mundial, relata a história real de um casal alemão executado em 1942 por distribuir cartões com frases ofensivas a Hitler e ao regime nazista.




MANOEL DE ANDRADE é um dos mais importantes poetas da atualidade no Brasil. Seu primeiro livro, “Poemas para la libertad”,  com três edições  em espanhol e ainda inédito em português, consta de vários catálogos da literatura política latinoamericana, na Internet. Em 2000, a Epsilon Editores, do México, publicou a importante coletânea Poesia Latino americana – Antologia Bilíngüe” em espanhol e inglês, numa primorosa edição, cuja capa e interiores são ilustrados com fragmentos da obra “La destrucción del viejo orden”  do grande pintor mexicano José Clemente Orozco.  Suas páginas são compartilhadas pela poesia de 36 celebrados poetas hispano-americanos, entre eles uruguaio Mario Benedetti e a poetisa equatoriana Sara Vanégas Coveña e por apenas um brasileiro, o poeta catarinense Manoel de Andrade. Atualmente, escreve suas memórias, O Bardo Errante, sobre suas peregrinações pela América Latina dos “anos de chumbo”. Manoel é ensaísta e colunista das revistas eletrônicas e blogs, Digestivo Cultural Füllgrafianas, Banco da Poesia, Livres Pensantes, Palavras, entre outros.

22 março 2012

Frederico Füllgraf - No café com a Stasi

Ilustrações: divulgação

Crônica de Berlim 


O recém-eleito Presidente da Alemanha, Joachim Gauck, 
foi fiel depositário e investigador dos arquivos secretos 
da StaSi, a polícia política da ex-RDA. 
E esta é uma crônica de um encontro deveras insólito.

A Alemanha tem um novo Presidente: Joachim Gauck, eleito em 18 de março de 2012, pela Assembléia Federal Alemã, ganhou fama como primeiro Delegado Federal para a investigação dos arquivos secretos da Stasi, a polícia política da ex-RDA.


Embora não fosse figura de proa do movimento popular que culminou com a queda do Muro, em 1989, Gauck, cujo pai fora sequestrado e preso na União Soviética, encarna como poucos alemães o embate traumático entre as razões de Estado de uma república socialista, autoritária, e o postulado das liberdades individuais: milhares de cidadãos foram espionados, denunciados, tiveram suas vidas devassadas, sofreram repressão, e impedidos de exercerem suas profissões. 


Já quem vivia em Berlim Ocidental, de cuja perspectiva é narrada a presente crônica, desfrutava o privilégio do "trânsito", isto é, podia visitar Berlim Oriental quando bem entendesse, mas não quem quisesse. Eis, pois, os ruídos na linha que soíam surpreendê-lo durante suas incursões ao território hostil.


- O número para o qual você ligou, está desativado há mais de um ano, você deve ter conversado com o serviço de espionagem (gargalhadas).


Com esta troça, Wolf Biermann, poeta e músico, recebeu-me à porta de seu apartamento do quarto andar da Chaussee Strasse, que dava para a sala, em cuja sombra se recortavam as figuras a estudante do conservatório de música (a ainda não roqueira) Nina Hagen, e sua mãe (uma das ex-amantes de Biermann), Tine (a então mulher do poeta) com o filho recém-nascido no colo, e vários outros artistas de Berlim Oriental. Tomando chá, deblateramos até o sol se pôr no oeste, atrás do muro, tentando elucidar como aquele antigo número de telefone se instalara em minha agenda. Não teria sido por um engano ou ato falho do próprio Biermann? – Enfim... - concluiu, perspicaz, o bardo: - Não desativaram a linha, mantêm-na grampeada e mapeiam meus contatos ocidentais que, como você, ainda não dispõe do número novo…


Ruídos na linha


A confusão tinha começado assim: era início de tarde de um dia de outono, gris, quando liguei de Berlim Ocidental, anunciando minha visita ao "outro lado". Estranhamente, o poeta pareceu não reconhecer-me ou lembrar-se do encontro previamente marcado, para uma entrevista. Sua  reação surpreendeu-me. E o que dizer da estranha vibração daquela voz! Intrigado, mergulhei no túnel do metrô com o percurso mais doidivano do mundo daqueles dias: a linha Zôo – Märkisches Viertel, que partia do centro do mais coruscante cartão postal do capitalismo, se embrenhava nas entranhas do “primeiro estado operário-camponês em solo alemão” e, feito toupeira distraída, re-emergia por baixo deste muro, vinte quilômetros adiante, em pleno Ocidente, definido como território do "inimigo de classe" – uma dupla ironia, geográfica e ideológica, e aventura simultânea no túnel do tempo, pois a cada estação subterrânea em território já oriental, o metrô reduzia sua velocidade, proibido de parar, policiado desde as plataformas fantasmáticas, abandonadas desde os anos 60, por guardas de fronteira com fuzis Kalashnikov em punho.


Alcançada a histórica estação Friedrichstrasse, em plena fronteira da cidade dividida, e desembaraçado do controle de passaportes, fiz nova ligação à casa do poeta para confirmar que já pisava seu território. E na outra extremidade da linha, agora atendia-me uma mulher; pelo seu tom de voz, uma mulher jovem. Perguntei se era Tine, a namorada de Biermann, e ela tropeçou na resposta, agravando minha apreensão. Mas não lhe fiz caso e logo alcancei o prédio antigo da Chaussee-Strasse, com frontispício Jugendstil, barbaramente agredido por intempéries e sinais de guerra, e agora em irônica vizinhança com a “representação diplomática da República Federal da Alemanha”. 


Por instantes, parei na calçada, e sob a alça da mira do olhar perscrutante dos policiais orientais, que do outro lado da rua protegiam aquela pseudo-embaixada, encimada pelo brasão nacional da inimiga Alemanha Ocidental, não contive o riso ao sentir-me encarado pela imensa águia preta, de maus bofes, ironizada como “gavião da rapina” numa das faiscantes canções políticas do bardo que eu deveria avistar nos próximos minutos. E depois de alguns lances na velha escada rangente, bati então à porta do apartamento e abriu-a o próprio, Wolf Biermann, de queixo caído quando lhe cobrei os dois telefonemas. Mas havia também algum desconcerto em sua atitude, espécie de pedido de desculpas sussurrado de viés, alguma vergonha por um constrangimento só admitido sob pressão. 

Os dissidentes

Biermann acabara de lançar seu quinto ou sexto LP, com dois títulos que, pela primeira vez em sua carreira, faziam referência à América Latina: a brilhante versão alemã da canção cubana, Comandante Che Guevara, de Carlos Puebla, e a Balada do Cinegrafista – arrepiante poema musical sobre o fuzilamento do cinegrafista argentino, Leonardo Henrichsen, que durante o tancazo de junho de 1973, em Santiago do Chile, aponta sua câmera para um soldado. Este se volta enfurecido para o cinegrafista, aponta sua arma, mira e… então as cordas do violão de Biermann sonorizam a macabra contagem regressiva do vídeo-clipe, tal como o vimos na TV, até a imagem tremular, sinal de que a câmera ainda empunhada por seu operador começava a despencar, e Henrichsen filma sua própria morte... Este disco era um forte motivo para a entrevista.

O outro, era a estória de sua dissidência, como um dos intelectuais mais inquietos e prestigiados do “socialismo realmente existente” – auto-definição daquela república alemã, cuja perversão autoritária, paranóica e repressiva estava fazendo inveja às ditaduras latino-americanas

Filho de pai comunista (e judeu), militante das Brigadas Internacionais, morto na Guerra Civil Espanhola, Biermann optara voluntariamente pela RDA, mudando-se de Hamburgo, sua cidade natal, para a Berlim da Guerra Fria dos anos 50. Lá conhecera e estudara com Bertolt Brecht e fizera carreira, amealhando a aura do “intelectual orgânico”, confiável. Até o início dos anos 70. Quando se solidarizara com a revolta estudantil em Berlim Ocidental (esquerdista demais para o paladar do partido único SED, oriental), o poeta fora percebido como “influência nefasta”; considerado “renegado”, e sua obra submetida à censura. Sem recursos, passara então a publicá-la em editoras ocidentais, as únicas que, para seu enorme desgosto, impediram que morresse de fome.

Começa então a crônica da perseguição anunciada de Biermann, sua ex-mulher Sarah Kirsch, o físico nuclear Robert Havemann, a roqueira Nina Hagen e sua mãe, e muitos outros, alguns presos e narcotizados em Niederschönhausen; a penitenciária política da Stasi (abreviatura de MfS, “Ministerium für Staats-Sicherheit” = [Ministério] da Segurança do Estado), espécie de Gestapo com fraseado “socialista”. 

Havemann - ilustre militante da resistência contra Hitler - morreria pouco tempo depois, Biermann seria expulso da RDA em 1976, Nina Hagen e sua família também. E durante mais treze anos, a Stasi com seus 200 mil agentes - e uma rede de 150 mil informantes “voluntários”, alcaguetes, dedos-duros, para uma população que não passava de 18 milhões (um agente para cada 60 habitantes) - continuou bisbilhotando, achacando, desestabilizando e arruinando A Vida dos Outros – Das Leben der Anderen – filme alemão premiado com o Oscar, em 2007.

O filme

Sendo guiado agora pela câmera dentro daquele apartamento do personagem Dreymann, infestado de microfones escondidos sob tapetes, reboco, vão de portas e janelas, assento de cadeiras e vaso sanitário, percebo finalmente por que em certos momentos de suas conversas no apartamento de Biermann, sobretudo quando ele falava da boca para fora, habituado como estava no Ocidente, parecia instalar-se certo constrangimento, o poeta e seus amigos entreolhando-se; às vezes em silêncio, noutras, mudando subitamente de assunto.


Mas observando na tela, a namorada do personagem Dreymann (emblema do intelectual trágico, porque oportunista, comendo da mão do regime) sendo acoimada e molestada pela Stasi, abriu-se uma janela para outro “filme”, risível, do qual eu mesmo fora protagonista, cujo título deveria ser: No Café com os Secretas… – um prato cheio, roteiro hílare.

Garoto ainda, mal tinha colocado os pés no setor ocidental da cidade dividida, e revoltado com a violação dos direitos humanos no Brasil, certo dia assaltara-me um repente, e com a aura dos heróis, do paladino de justa causa, rumei à fronteira, e às portas do paraíso socialista pedi para falar com o oficial de plantão.

Enquanto aguardava alguma resposta naquela recepção do céu de São Pedro comunista, presenciei e não entendi por que um trabalhador turco, de simples vestimentas, mal conseguindo expressar-se satisfatoriamente em alemão, fora agredido, maltratado com ofensas e violentos pontapés, aos pés da bandeira socialista, expulso da pátria dos proletários… Aquilo me indignara além da conta, evocara imagens do nazismo (a propósito: a semelhança daqueles uniformes!). E então tinha aparecido um guarda, que cara de anjo não tinha, marcando um encontro para a semana seguinte. 

Encontro?! Momentaneamente senti a vertigem do mergulho no escuro, naquelas tramas de Green e Le Carré, grande parte inspiradas em Berlim, praça globalizada da Guerra Fria, maior concentração do mundo de espiões por metro quadrado: esbirros do Circus (M-16 britânico) caçando os de Karla (KGB soviética), os Primos (CIA) bisbilhotando ambos; todos admiradores do mitológico Alm. Canaris, o quase infalível oráculo de Delfos, digo: de Adolfo, o austríaco.

No café com a Stasi


E no dia e hora marcados, aproximara-me pela calçada daquela imensa avenida, zombeteira alegoria da inevitável “transição para o socialismo”, pois iniciava no Ocidente como Kaiserdamm (= esplanada do Imperador) e terminava do outro lado do muro como Stalin-Allee (= Avenida Stálin); nome logo corrigido, quando o georgiano caiu em desgraça e sua imagem fora obliterada das fotos históricas do Politburô.

Acomodados a uma mesa próxima à entrada, estavam dois senhores engravatados. Um deles apressara-se em apresentar-se como Herr Professor, e lembro-me que consenti a mentira. E então lhes entreguei em mãos o motivo de minha intempestiva visita: o pedido de divulgação, através da Rádio Berlim Internacional, de uma lista do comitê brasileiro pela anistia. A emissora levava ao ar um programa em Português, e seu locutor sem dúvida era membro do nosso "partidão"; filiação que não era a minha, logo se via, com aquela pinta de “foquista”...

Matreiros, tentaram empanturrar-me com torta de cereja rançosa e café de sabor indecifrável, enquanto num canto daquele histórico e agora decadente Café Unter den Linden, ouvíamos poutpurrís desafinados, arrancados de seus instrumentos por um pianista coxo e um violinista que parecia surdo. E marcaram novo encontro para confirmar a divulgação da lista de presos políticos da ditadura militar brasileira, que corriam risco de vida...

Pontualmente, outra semana depois lá estava eu flanando no trottoir (melodioso galicismo que desde a passagem de Napoleão ainda designa as calçadas em Berlim) socialista, confundindo os passantes cabisbaixos com as figuras imaginárias de Brecht, Piscator e Tucholsky, ou de Fritz Lang e G.W. Pabst entrando e saindo dos cafés e bistrôs da arruinada Praça Potsdam, quando já adentrava o Unter den Linden. E lá estavam novamente dois obsidiantes, um deles, novo, e desta vez eu me abstivera da torta de cereja e do café. Mal lembrando, pedira uma dose dupla de vodca russa e saudara - nasdrovje! Mas os anfitriões agradeceram - “não bebemos em serviço”...

Então os dois cavalheiros começaram a circunavegar o motivo do encontro, comendo pelas bordas, feitos gatos (certamente a lista brasileira estava sendo analisada, perscrutada, esmiuçada, a textura do papel inclusive…). E trocando o atacado pelo varejo, assaltaram-me com perguntas sobre minha jubilosa vida de estudante. Insinuaram que no Ocidente a vida não deveria ser fácil, mas que poderiam dar um jeito nisso, “uma mão na roda”. Como assim, senhores camaradas? - eu não conseguia acreditar o que estava ouvindo. Ora, certa “ajuda de custo em troca de algumas observações”, provocou a dupla cara-dura e generosa – e eu quase vomitei no colarinho do “professor”, a vodca revolvendo minhas entranhas, meus olhos encharcados de aguardente, buscando o sorriso salvador de Brecht, mas deparando-se com a figura apoquentada dos dois instrumentistas aleijados.

Dei um “bolo” no terceiro tête-à-tête com a Stasi, e apostei que abririam uma ficha com meu nome naquele imenso, perverso arquivo sobre A vida dos outros, que ainda hei de consultar.

E no caminho de volta, do Oriente para o Ocidente, reparei no Muro uma intrepidez impossível de denunciá-lo como mero outdoor – quem imaginaria que poucos anos depois “tudo o que é sólido se desmancha[ria] no ar”, e que – insólita ironia – o que caía não era exatamente a velha e odiada burguesia...

04 novembro 2011

Frederico Füllgraf- As más companhias de Indiana Jones


Fotos: divulgação


Indy, o arqueólogo rufião, estava de volta: coroa, poeira branca sobre as pálpebras, ainda arrancava suspiros da platéia feminina e surfava virtuosamente na maionese de Steven Spielberg. Mas para a maioria dos mortais sua cepa continuava obscura. Spielberg, seu alter-ego, se fingiu de morto, nunca revelando suas fontes, e quase trinta anos após sua estréia nas telas, o público ignora que o Indiana Jones da vida real se chamava Hiram Bingham: nascido no Havaí, em 1875, e morto em Washington DC, em 1956, foi político nos EUA e “descobridor” das ruínas de Machu Picchu, em julho de 1911.

Chapéu de aba murcha ao vento, sorriso debochado, Bingham emprestou ao personagem de Harrison Ford sua estampa de “canastrão, mas bom moço”. Contrariando o zelo arqueológico, em Machu Picchu violou 130 sepulcros incas, metendo a pá onde estava a História. Sob o pretexto de “análise científica”, o aventureiro levou para os EUA 5 mil (as autoridades peruanas falam em 40 mil) peças arqueológicas de inestimável valor, com a promessa de “empréstimo” por doze meses. Quebrou o contrato: entregou o butim ao Museu Yale Peabody, em Boston, e há 97 anos o Peru luta pela devolução de seu patrimônio histórico.  

Da guerra-fria ao império

Dublê de arqueólogo e agente secreto, truculento, Indy tem uma faible por mistérios, câmaras ocultas, rituais demoníacos: em “Os caçadores da arca perdida” (1981), disputa a tábua mítica dos Dez Mandamentos; em “O templo da morte” (1984) corre atrás de um gigantesco diamante; na “Última cruzada” (1989) tenta apossar-se daquele cálice com o sangue do Cristo crucificado; o Santo Gral.

E dê-lhe “nazistas” e “comunistas”: como “vingador do Ocidente”, o herói não recusa um flerte com o FBI e a CIA.

Inventado por Spielberg e George Lucas, durante uma reunião no Havaí de Bingham, Indiana Jones é fenômeno da transição da Guerra Fria para o império, unipolar. Sustentada por plágios descarados, em vinte e cinco anos a trilogia amealhou a alucinante bilheteria global de 1,3 bilhões de dólares, provavelmente a maior bilheteria do Cinema de todos os tempos – um engendramento sutil da lei da oferta e da procura e chocante termômetro da irrefreável imbecilização da humanidade.

Spielberg não tem tempo de ler livros. Mal lê suas orelhas, e freqüenta catacumbas onde, colher de pau na mão, mexe o caldeirão de sua indigesta gororoba, trocando fatos por fábulas.

A última bola da vez foi a Amazônia. Quer dizer, mais ou menos: História e Geografia reais são incômodas. Indiana Jones e a Caveira de Cristal(2007) foi mais uma versão de samba of the foolish gringo, com figurações, sotaques e referências ao México, quando o enredo “mostra” o Peru (ou seria o Acre, no Brasil?). Lá o herói tenta reencontrar um ex-colega desaparecido. Escreve-se o ano de 1957, auge das disputas com a URSS, e não é que um comando da KGB, travestido de marines e encabeçado por uma “vidente”, primeiro invade uma base de testes nucleares no Nevada, e depois reaparece na “selva amazônica” (filmada no Havaí...), atrás do mesmo obscuro objeto do desejo: o crânio de cristal caçado por Indy.

Mais fake que mito

Tais crânios de cristal são tão verdadeiros como o “santo Gral”, o “triângulo das Bermudas” ou os “diários de Hitler”: tudo fake, mas funciona brilhantemente como realimento para esotéricos delirantes e a comunidade dos teóricos da conspiração.

Uma dúzia destas recriações do crânio humano, esculpidas em cristal de quartzo, encontra-se espalhada pelo mundo, do British Museum ao museu Smithsonian, em Washington. Nenhum deles é original, todos são réplicas. Sua verdadeira origem, incaica ou asteca, continua mistério, provavelmente simbolizam rituais de sepultamento e de “passagem”. Já na Internet e em livros esotéricos circula a versão de que os crânios têm 100 mil anos de idade, emanam super-poderes, e que foram deixados na Terra por ETs – “trip” na qual embarcou Spielberg, que, mais “modesto”, afirma serem relíquias de Atlântida, o mitológico continente “desaparecido”.

O Indiana Jones de 2007 é um coquetel de “Lost City of the Incas”, livro de Hiram publicado em 1948, e de uma farsa urdida nos anos 1970, que culmina em 1984, com o assassinato de seu autor, na saída de um restaurante do Leblon: “A Crônica de Akakor “ (Bertram, 1977) de Karl Brugger, então correspondente da rede de Rádio e TV Pública da Alemanha, no Rio de Janeiro.

Contudo, crônica making of de um filme virtual, o compromisso da presente é surpreender o leitor, aqui convidado, como fazia o bruxo Machado, a acompanhar o autor escada abaixo, porque a caverna escura de Indiana Jones (não citada por Spielberg nem por Brugger) é assaz surpreendente e escabrosa.

Spielberg & Herr Himmler

O círculo do delírio de Spielberg fecha-se numa insuspeitável geografia e companhia: Heinrich Himmler, fundador da SS, a tropa de elite nazista.

Desde a tenra juventude, o ideólogo tinha um notável pendão para o esoterismo, numa versão impregnada de patriotismo racista e antijudaísmo. Acreditava, por exemplo, numa “civilização de Atlântida“, que supunha ter existido na orla da Groenlândia, cujos descendentes presumiu, transmutados, no Tibet e na América do Sul.

Na origem do esoterismo de Himmler estão “ariósofos” sombrios, como o austríaco, Karl Maria Wiligut, aliás Weisthor . Willigut foge de um manicômio, o que não o impede de alcançar a patente de chefe de Brigada da SS, protegido por Himmler, e de atuar como mentor do jovem mitologista, Otto Rahn, PhD na saga de Parsifal e nos mitos do Santo Gral. Em 1929, Rahn peregrina à fortaleza medieval de Montségur, na França, convencido de lá encontrar o maldito cálice (que presume ser um monólito). Não o encontra, mas publica uma pesquisa avassaladora sobre a “Cruzada contra o Gral“ (fonte na qual bebe, sem citá-la, outro profissional do plagiato: Dan Brown, autor d´ ”O código da Vinci”).

Reciclando o Gral como mistério pagão para a SS, Himmler inaugura uma série de expedições para os recônditos do planeta. A primeira delas, realizou-se sob liderança do zoólogo e montanhista, Ernst Schäfer, em 1934, ao Tibet, onde o supremo sacerdote da SS imagina sobreviventes da “raça ariana”, e Schäfer se curva respeitosamente à aura do jovem Dalai Lama. Indício, rude, dessa teoria “pan-ariana“, seria a cruz gamada ou swastika (termo de raiz indo-germânica), que desde tempos imemoriais é símbolo da boa sorte dos tibetanos.  Outra expedição teria como destino a Amazônia.

Cronista assassinado no Leblon

De volta à tela: transcorrida mais da metade da ação de Indiana Jones e a Caveira de Cristal, a perseguição atinge a apoteose em Akator, uma “cidade perdida”, em cuja grafia Spielberg trocou apenas o ”k” da Akakor de Brugger pelo “t” de seu plágio.

Alimentada por uma bizarra teoria da conspiração, a inspirada “Crônica de Akakor” de Brugger conta-nos que certa “elite nazista”, acompanhada de 2 mil (!) soldados e (para delírio da tribo dos UFOlogistas) uma versão primitiva de discos-voadores, teria se refugiado numa “cidade perdida”, também conhecida como “o castelo do Gral dos Incas”, na Amazônia.

Já na versão de Spielberg não cabiam os “nazistas” de Brugger porque, segundo a crônica, uma guerra entre os nativos e os primeiros, teria virtualmente exterminado os povos de Akakor.  Em seu lugar, entraram os soviéticos, tão órfãos de materialismo dialético, quando catatônicos os gringos, face à horripilância da “cidade perdida” - úmida morada de múmias, morcegos, escorpiões e caranguejeiras. E então a seqüência final: aqui o auto-referido Spielberg faz desabar a montanha do “gral andino” e de seu interior decolar (“ET is back”!) um gigantesco disco-voador – numa semelhança mais do que suspeita com “Eram os deuses astronautas”, do lunático Von Däniken, e com a crônica Babylõniaká (História da Caldéia) de Bérose, sacerdote de Bel-Marduk (330 a.C.), vagamente referida por Platão, segundo a qual o homem primitivo foi visitado pelos akpalos, extraterrestres pisciformes, que lhe transferiram o conhecimento para o despertar da Humanidade nas terras do atual Iraque.

Infelizmente, para a teoria da conspiração, o informante de Brugger foi um tal de “Tatunca Nara”, que em 1972 se apresenta como filho de um chefe indígena e de mãe alemã, “refugiada nazista”. Mas Tatunca Nara”, que falava alemão sem sotaque, estava mal parado na foto: no final dos anos 1980, a BKA, Polícia Federal alemã, reconhece o cidadão Günther Hauck com bronzeado de urucum, na roupagem do falso índio - alemão, nascido em 1941, em Coburg, Baviera, procurado por dívidas de pensão alimentícia e por isso escondido, desde a década dos anos 60, em Barcelos, no Amazonas. Mediante declaração cartorial, emitida em 2003, Tatunca Nara”, que já se naturalizara brasileiro, assume sua condição de “doente mental” – foi a segunda morte de Karl Brugger

Impassível, a inconfidência esotérica insiste que a “expedição amazônica nazista” teria ocorrido entre 1942 e 1943, e que em 1984 Brugger foi liquidado como “queima de arquivo”. Mais plausível é a hipótese de que Brugger tenha sofrido um assalto banal: levou um tiro quando esticou a mão ao bolso traseiro da calça. Certamente queria apanhar a carteira de dinheiro, mas o pivete fez outra leitura, pensou que seria uma arma – gesto fatal, mas não improvável, para quem já vivia há mais de dez anos no Rio de Janeiro.

E desde então “os nazistas” povoam a “cidade perdida dos Incas”, esculpida no subsolo da Amazônia, à qual Spielberg se mudou, sem pagar aluguel.

15 outubro 2011

"Eillen", la guerrillera holandesa


Fotos: Peter van Huystee Film, La Semana, divulgação


Nota: Füllgrafianas reproduz a presente reportagem de La Semana, em que pese seu apuro investigativo e consistente,  mas reservando-se o direito de discordar de algumas opiniões emitidas pelo semanário colombiano. 

PORTADAEl diario de Tanja Nimeijer muestra la sórdida realidad de las Farc. SEMANA estuvo en Holanda y reconstruyó la historia de esa guerrillera que tiene conmocionada a Europa.
Sábado 8 Septiembre 2007
El ataque del Ejército fue tan sorpresivo, que los miembros de las Farc sólo atinaron a correr para salvar sus vidas. Esa mañana del 18 de junio, en límites de los municipios de Macarena y Uribe, un comando de la fuerza de tarea Omega llegó hasta el campamento de Carlos Antonio Lozada, miembro del Secretariado de las Farc, en un tupido paraje de la cordillera Oriental. Tras una débil resistencia quedaron en medio de un improvisado cambuche tres muertos y apenas el rastro de su comandante, quien huyó gravemente herido.
Aún no se había disipado el humo del combate cuando los militares entraron al lugar y encontraron el portátil del jefe guerrillero que contenía información, estratégica del grupo subversivo. Pero a pesar del valor de la información esa no sería la mayor sorpresa. En medio de las pertenencias que dejaron los guerrilleros en su estampida, estaban varios cuadernos escritos en holandés. Intrigados ante lo que parecía confirmar que había europeos en las filas guerrilleras, los soldados los enviaron a Bogotá, donde ofíciales de inteligencia ordenaron traducirlos. Y cuando leyeron el texto en español, la impresión fue mayor. Los cuadernos contenían el diario de una joven holandesa que había pasado de la simpatía ideológica -común en muchos jóvenes europeos sensibles e incautos- a la militancia armada. 
La noticia conmocionó a Colombia, pero mucho más a Holanda. Los diarios de ese país comenzaron a buscar a la familia de esa muchacha que había decidido internarse en las selvas colombianas para perseguir un difuso sueño revolucionario. Todos se preguntaban cómo había llegado a tomar una decisión tan arriesgada como absurda. Camilo Jiménez, corresponsal de SEMANA en Alemania, viajó a Denekamp, su pueblo natal, para reconstruir el proceso que la llevó a esa utopía en la que, hoy por hoy, se encuentra atrapada.


La holandesa se rebela


Tanja Nijmeijer, especialista en lenguas romances de la Universidad de Groningen, era en sus años más jóvenes una chica dulce, esbelta y sensible. Es la mayor de los hijos de la familia Nijmeijer, o más precisamente, los Nijmeijer de la calle Brink. Es una familia protestante, de clase media, que vive en una bella casa muy cerca del centro de pueblo próspero y tan tranquilo que un gato herido en un techo podría ser primera página del periódico local. Éste, a su vez, está muy próximo a la frontera alemana y en medio de una inmensa planicie del noreste de Holanda que en esta época del año parece una verdadera colcha de retazos verdeamarillos. Hoy Tanja, que lo dejó todo para viajar a Colombia y realizar su anhelo de luchar aquí por "la justicia social", es a sus 29 años todo menos una niña ingenua.


Convencidos de ello están los periodistas Jan Blaauw y Remco In't Hof, de Holanda, y el reportero belga Lieven Sioen. Conocieron a Tanja a mediados de 2001, poco tiempo antes de que ésta abandonó definitivamente su país con el propósito -como no se cansó de repetírselo a los tres- de ayudar a toda costa a las víctimas de la violencia, la injusticia y la desigualdad en Colombia. Con la firmeza que la caracterizaba, les habló de la miseria en las zonas rurales de Colombia, de la displicencia de la clase alta ante la situación social, de la corrupción de los órganos del Estado, de la impunidad y del terror que los señores del poder -paramilitares, militares, guerrilleros- han infundido en las almas de los pobres. No argumentaba estructuradamente. Más bien, buscaba desde su sensibilidad siempre imponer su forma de ver el mundo. Quería dejar rodar su vida en el ritmo de sus convicciones. Y a pesar de las negativas de sus padres, se había prometido a sí misma que antes de la Navidad de ese 2001 volvería a Colombia.


De groningen a pereira, 2000-2001


Volvería, pues ya en 2000 había estado en el país. Era entonces estudiante en la facultad de lenguas de la Universidad de Groningen. Y tras obtener un pregrado, había iniciado una especialización en lengua española. Ansiosa, como la mayor parte de sus compañeros, de hacer un semestre de intercambio en el exterior, hizo una solicitud para realizar un año de prácticas en América Latina. Muy pronto recibió la oferta que la llevaría por primera vez a Colombia: viviría en Pereira, en la casa de una familia, y daría clases de inglés en un colegio privado. No tardó mucho en decidirse por esa aventura.


Casi un año después, en julio de 2001, Remco In't Hof, que trabajaba como reportero del diario regional holandés Nieuwsblad van het Noorden, tuvo noticias de ella. In't Hof, a quien tiempo atrás su periódico le había encomendado la misión de internarse en el submundo juvenil de Groningen, se había convertido en un experto de la escena alternativa de la ciudad. Su deambular por los vericuetos del submundo underground de la ciudad le había permitido verlo todo: comunidades de jóvenes holandeses viviendo en casas ocupadas, agitando las banderas del altermundismo, la anarquía, la izquierda radical y el antiimperialismo. Había pasado noches enteras en antros en los que artistas y activistas conjuraban la transformación del mundo con protestas, panfletos y masivas acciones de altruismo. Y había fraguado una considerable red de contactos. Uno de estos se acercó a él a mediados de 2001 y le habló de una activista local que viajaría a Colombia en agosto para participar en las Caravanas Internacionales por la Vida. La chica vivía en una 'casa tomada' (squat) de la calle Eerste Drift. El tema podría interesarle; podrían ayudarle a localizarla; se llamaba Tanja. El periodista no dudó un instante. La llamó, y concretaron una cita en el primer piso del squat de la Eerste Drift.


La que había sido el hogar de Tanja antes de partir por última vez rumbo a Colombia ya no es una 'casa tomada' en cuyo primer piso funcionaba un inmenso negocio en que se fabricaban y se vendían ropa, zapatos y comida, todos libres de componentes animales, sino el taller de trabajo y la casa de un artista plástico llamado Pablo. Él le contó a SEMANA, con su voz carrasposa y su tufo a cerveza bávara, que ese squat fue desalojado por la Policía en 2006. Desde entonces, come, duerme y elabora allí inmensos bisontes y ratas de alambre para vivir. En la sala del segundo piso tuvo lugar el 13 de julio de 2001 la entrevista de Tanja con el periodista Remco In't Hof.


Se encontraron en el primer piso de la casa frente a Salmonella, el expendio de comida no animal del squat. Tanja le contó al periodista que trabajaba en un puesto de distribución gratuita de comidas en el centro de Groningen y que ésta era una acción de protesta. Afirmó su convencimiento de que en Colombia, donde había estado un año y había visto la situación de los desfavorecidos, había muchas cosas que hacer. ¿Y por qué debía hacer esto un europeo? Porque aunque no se crea, decía Tanja, un pasaporte europeo y el poder de los medios y las organizaciones en Europa son excelentes instrumentos de presión. Insistió en que la caravana en la que había participado en Colombia era una acción con fines humanitarios y que detrás de su realización no se escondían pretensiones políticas. Y confesó que iba a preparar un informe sobre sus experiencias y presentarlo en una conferencia por la paz que se celebraría en septiembre en algún lugar de Europa.


San Pablo, sur de Bolívar, agosto, 2001 
No fue muy distinto lo que Tanja, ya en agosto del mismo año, le diría a Lieven Sioen, reportero del diario belga Standaart y enviado especial a Colombia como observador de la Caravana por la Vida. Al principio de agosto, Sioen arribó al aeropuerto El Dorado, donde representantes de ONG colombianas lo recogieron para llevarlo a un albergue juvenil en el centro de Bogotá. Dice el belga de 38 años que cuando llegó fue inmediatamente presentado a los coordinadores colombianos de la caravana, a más de 50 representantes de ONG provenientes de Italia, España, Bélgica y Suecia, y a unos pocos jóvenes europeos que habían decidido unirse por cuenta propia. De todos ellos, sólo una chica hablaba neerlandés. Así conoció a Tanja Nijmeijer.


Permanecieron tres días en el albergue, según Sioen, preparando el viaje: hubo que hacer un gran mercado, acordar estrategias de reacción ante cualquier eventualidad que se produjera, e incluso, cuenta él, tuvieron que escuchar a un profesor universitario que les explicaba la actualidad colombiana con un discurso salpicado de observaciones doctrinarias de izquierda.


Sioen afirma que la holandesa le pareció muy joven, y rápidamente notó su buen manejo del español. La oyó hablar del impacto que había producido en ella su experiencia en Pereira. Escuchándola, dice él, Tanja no daba la impresión de ser la clásica chica inocente que no sabía de qué hablaba ni qué quería. Se refería al shock que le había causado ver la forma como la familia con que había vivido en Pereira se refería a los pobres. ¿Y qué pensaba esta europea idealista de las acusaciones hechas durante años a la guerrilla? Sioen recuerda que, sin esfuerzos, Tanja admitía ser consciente del repudio de la sociedad colombiana hacia los actos de violencia de las Farc. A primera vista, para ella el terrorismo, las violaciones de los derechos humanos y el tráfico de drogas en el que están involucradas las Farc eran hechos indiscutibles.


El bus que llevó a todos los participantes de la caravana hasta Barrancabermeja salió de Bogotá la madrugada del 4 de agosto. Una vez en el sofocante calor del Magdalena Medio, los integrantes de la caravana se refugiaron en un hotel y en las instalaciones del sindicato de Ecopetrol. Campesinos, habitantes de la ciudad, miembros de organizaciones cívicas y políticos locales desfilaron por el salón de conferencias en el que durante dos días la caravana estableció una especie de audiencia pública. Tanja, cuenta Sioen, llevó un registro exhaustivo de los testimonios que dejaban todos los conferencistas, la mayoría provenientes del sur de Bolívar. Múltiples denuncias de masacres civiles, destrucción de viviendas, desalojos y del predominio de la impunidad debieron de quedar consignadas en su cuaderno de notas.


Pero el momento que recuerda con mayor claridad el periodista de Standaard ocurrió el día en que la angustia se hizo dueña de la caravana. Se acuerda de una embarcación con cupo para 100 personas que los aguardaba en el puerto de Barrancabermeja y del espíritu activo y comprometido de Tanja durante los primeros días de viaje por el Magdalena. El navío ya había pasado por numerosas comunidades, y se había repartido ropa, alimentos, material escolar y herramientas entre la población. El 6 de agosto, sin embargo, a su llegada al casco urbano de San Pablo, en el sur de Bolívar, la caravana se paralizó.


Fue recibida por una inesperada masa de gente que se oponía a la continuación del viaje. La muchedumbre impidió el desembarque de los pasajeros y la embarcación fue acorralada por lanchas. Cuenta Sioen que debieron pasar la noche en el barco. El temor dominó profundamente a la tripulación. También a Tanja. La angustia produjo fuertes discusiones a bordo del barco. Empezaron a aparecer fotógrafos que dirigían las cámaras hacia los pasajeros, y éstos a taparse los rostros, no fueran esas fotos a condenarlos a muerte. Los testimonios de Tanja y del belga concuerdan en la indignación por los chantajes, las manifestaciones -según ellos, ficticias- y el bloqueo de la caravana. Sioen debió abandonar el grupo inmediatamente a bordo de una lancha en la que viajó con Eduardo Cifuentes, entonces Defensor del Pueblo. Y dejó en la embarcación a quien él olvidaría por años después de saber por los medios que se había vuelto guerrillera, a Tanja, atemorizada, indignada y con el corazón en llamas.


Groningen, finales de agosto, 2001 
Después de su intensa experiencia en la caravana, Tanja volvió a Holanda sólo por tres motivos: para decirle a su familia que se había prometido regresar a Colombia; para finalizar sus compromisos en la universidad y sellar el fin de su vida en la ciudad; y para realizar con un reportero del UK de Groningen una entrevista que ya antes de su viaje al Magdalena Medio había sido concretada.


Jan Blauuw, quien se mantuvo en contacto con Tanja durante la participación de ésta en las caravanas, recuerda el día en que ella lo visitó en su despacho del UK para contarle su historia. La describe como una chica lista, educada y sencilla. Incluso conjetura que detrás de su decisión de volver a Colombia antes de la Navidad de 2001 no se escondían intereses distintos al de reaccionar a todo lo impactante que había tenido que presenciar en Colombia.


Caminando por las callejuelas aledañas a la redacción del UK, Blaauw comenta emocionado los avances diarios que hace la prensa holandesa en el caso de Tanja. Las reacciones de sorpresa del gobierno, que no tenía la menor idea de su suerte en la selva colombiana. La negativa de los habitantes de su ciudad natal a hablar ante los medios. La desaparición de la familia Nijmeijer la misma noche en que se publicaron los diarios de alias 'Eillen' y su repentino comunicado en el que exigen silencio. Los interrogantes surgidos en relación con la presencia de las Farc en Europa. Las frecuentes menciones del PC3 en las páginas de reconocidos diarios holandeses. Las ridículas especulaciones de algunos sobre un supuesto proyecto de las Farc para reclutar europeos. Y, por supuesto, las confesiones de la familia Nijmeijer: el enfado de los padres con las decisiones de Tanja, el intercambio de e-mails, las llamadas de auxilio a la Embajada de Holanda en Colombia y a la Cruz Roja, las negociaciones para llevar a cabo un encuentro entre madre e hija en territorio venezolano, la visita de la madre de Tanja a la selva colombiana, las fotos.


Sin embargo, lo que más sorprende a Jan Blaauw es que los medios de su país sigan insistiendo en responder al interrogante de si la guerrillera holandesa era o no una niña ingenua. Blaauw insiste en que no. Pero la pregunta es más compleja. Más importante es, sin duda, saber interpretar las acciones de Tanja. ¿Por qué terminó envuelta en la lucha armada de las Farc? ¿Fue su propio compromiso el que la llevó a hacer aquello que no hacen los cientos de activistas que anualmente visitan Colombia y que viven las mismas experiencias? ¿O tuvieron en este caso efecto las estrategias propagandísticas de la guerrilla en Europa?


Hoy, cuando se conocen los diarios de la guerrillera holandesa (ver recuadros) parece claro que esa motivación altruista ha quedado atrás. Su texto, en ocasiones desgarrador y en otras indignante, muestra a una guerrilla desmoralizada y convertida en un grupo delincuencial en el que la promiscuidad sexual y los privilegios de la cúpula de la comandancia reniegan de las virtudes de su supuesto mensaje. La importancia del diario radica en que se trata de la voz de una europea que llegó movida por una concepción abstracta del drama colombiano y que descubrió que en la realidad las Farc no son el grupo de libertadores que venden en Europa.


La joven Tanja es el ejemplo más vívido de la parábola de un ideario revolucionario que ha sido resquebrajado por la crueldad y el terror. En su diario se puede leer cómo del movimiento insurgente en busca de justicia social que esperaba encontrar en Colombia, llega a una guerrilla llena de injusticias, explotaciones y arbitrariedades. Su ilusión de niña aventurera en busca de ayudar al prójimo se desvaneció rápidamente al ver que los privilegios de los comandantes, las condiciones paupérrimas de la tropa, los vejámenes en los castigos, la falta de ideas y formación, las difíciles condiciones de vida, y sobre todo, la incoherencia ideológica de una guerrilla que se alza en armas para salvar el pueblo y es el primero que lo oprime en sus filas.


El diario de Tanja es, en el fondo, el diario de una decepción. 
Fonte: Semana.com
Primeira entrevista de Tanja Nimeijer



O documentário de Leo de Boer, 2010


Las mujeres en las FARC

11 outubro 2011

Frederico Füllgraf - O capitalismo no DNA - Fragmentos do filme, "O Capital", de Alexander Kluge



“ ´Marx não está superado´.
O que significa essa afirmação?  Eu só posso falar do meu próprio interesse.Este se baseia em pessoas de confiança, das quais algumas são referidas [anteriormente, no filme]. O que me interessa nos textos de Marx não é tanto a descrição da Economia Circundante, por assim dizer, ou das suas "leis“, mas, sim, a descrição do capitalismo dentro de nós [...] O mundo exterior das relações industriais, como em sua essência toda sua história pregressa, regem nosso mundo interior e constituem um poder vigoroso (da motivação, da capacidade de discernimento, do sentir); uma espécie de governo paralelo fincado ao lado de nosso equipamento psíquico, clássico, e ambos interagem, vinculados”.
         Alexander Kluge, in: "Nachrichten aus der ideologischen Antike. Marx – Eisenstein – Das Kapital. Drei        
         DVDs mit einem Essay von Alexander Kluge. Etwa 580 Minuten. Farbe - Ed. Suhrkamp.


Em meia quadra de uma calçada, a pasmante 
história do capitalismo

"O ser humano na coisa"
Sequência de Tom Tywker (Correr, Lola, corre; O Perfume)  em "O Capital", de Alexander Kluge


07 outubro 2011

Frederico Füllgraf - Koch-Grünberg, pioneiro do cinema na Amazônia

Taurepang, 1911

Ensaio


Em 1911, quando o boom da borracha, na Amazônia, já descrevia uma curva descendente, o antropólogo alemão, Dr. Theodor Koch-Grünberg, empreendia sua terceira expedição à selva amazônica.

Talvez os céus lhe tivessem dado um crédito de sobrevida, porque, mal completara vinte e quatro anos de idade, vinculara-se à descabeçada e acidentada expedição de Hermann Meyer, iniciada em 1896 em Buenos Aires, rumo à foz do Rio Xingu. Sobrevivente, retornou à Alemanha e escreveu seu doutorado. Em 1903,  partiu para sua primeira expedição pessoal à Amazônia, internando-se em territórios onde cem anos antes o naturalista Carl F. Philip von Martius concluía sua “Viagem pelo Brasil” (http://fuellgrafianas.blogspot.com/2010/11/o-beijo-de-boreas-parte-i.html).

Agora, Koch-Grünberg explorava o Rio Japurá e o Rio Negro, até a fronteira da Venezuela. A expedição durou dois anos e, de volta à Alemanha, o antropólogo a documentou com o livro, Zwei Jahre Unter Den Indianern. Reisen in Nord West Brasilien, 1903-1905. (Dois anos entre os índios. Viagens no noroeste do Brasil, 1903-1905, com farta e fascinante cobertura fotográfica. 


Naqueles dias, um tal Fitzgerald, seringalista peruano, procurava atalhar caminho entre dois rios, o Varadero de Fitzcarrald, para levar sua borrache em menos tempo para Manaus. Nas matas perto dali, nascia a etnografia audio-visual de Koch-Grünberg: as gravações em cilindros metálicos, às quais se somavam as impressões visuais de seu convívio com os índios do Alto Rio Negro, com os quais montou uma espécie de “ateliê das selvas”.



A terceira expedição de KG partiu de Manaus, em 1911, até o Rio Branco e de lá rumou à Venezuela. Em 1913, KG alcançou o Rio Orinoco depois de explorar nesse percurso, a pé e de canoa, várias regiões ainda hoje de difícil acesso. Ao voltar a Manaus, escreveu seu livro mais importante, Vom Roraima Zum Orinoco (De Roraima ao Orinoco), publicado em 1917, mas só outros100 anos depois no Brasil (cf. Livraria UNESP). 

Durante esta expedição, com a duração de dois anos, nascia o primeiro filme na História da Amazônia – “Aus dem Leben der Taulipang in Guyana” (Da vida dos Taurepang na Guiana),
As bem humoradas anotações que seguem, descrevem os percalços da filmagem, realizadas por KG e seu assistente, H. Schmidt, e foram por mim traduzidas da edição original de “Vom Roroima zum Orinoco”.

 Minha afirmação, de que KG é autor dao primeiro fillme amazônico (http://www.cronopios.com.br/site/colunistas.asp?id=2690), suscitou polêmica e contradisse a crença generalizada na Amazônia, reverberada pelo escritor Márcio Souza, segundo a qual o português, Silvino Santos, teria sido o pioneiro, com seu filme rodado em 1912 no Putumayo, contratado pelo “cauchero”, Julio Cesar Aranã.

Theodor Koch-Grünberg

O diário das filmagens

"As chapas fotográficas que me foram fornecidas por uma grande e famosa empresa berlinense, são uma encrenca. A consistência das chapas de Isolar deixa muito a desejar. Ainda que eu proceda com o maior cuidado, revelando somente durante a madrugada e enxaguando o material em água fresca do arroio da montanha, em várias delas a emulsão se desprende em grandes nacos de pele. Bom número de imagens se perde e terá que ser re-fotografada. O banho de sulfato duplo de alumínio e sódio, que eu executo rigorosamente segundo o manual, comprime a camada flácida demais em um sem número de rugas, tornando as fotografias imprestáveis. Toca de forma notavelmente ridícula ao especialista em trópico, quando lê, impresso em três idiomas na embalagem deste material, "a prova de trópicos“, que: "a temperatura do revelador não deverá exceder 20 graus centígrados”. É muito raro encontrar água com  temperatura tão baixa nos trópicos, que pelo menos se mantenha baixa até conseguirmos revelar uma dúzia de chapas.

[....] Já as gravações fonográficas me proporcionam alegria compensadora. Eu trouxe um cilindro já gravado e costumo tocar as gravações para habituar as pessoas à percepção de que o aparelho reproduz a voz humana. "---- és minha doce, pequena mulher“, da peça "O Conde de Luxemburgo“ de Lehár, e trechos  ("---mas, que coisa, o que é que deu na Rosa“ -  do  charmoso  regional da Renânia, "No Bósforo“, de Paul Lincke, são canções que eles sempre voltam a pedir e não demora até essas crianças com tino musical entoarem as melodias, com divertida  mutilação do texto alemão.

[...] É preciosa a ajuda que o cacique Pitá me dá neste trabalho. Com sofrível acompanhamento de Pirokaí, ele mesmo entoa os cânticos de dança dos Makuschí para o funil [do fonógrafo], também o Parischerá, o Tukúi, o Muruá, um Oarebã, somente dançado de dia, e outro, que é dançado de madrugada. Com suas vozes luminosas, agradáveis, duas meninas entoam canções envolventes, como acompanhamento da ralação de mandioca (...)



 


[...] A meu pedido, o cacique arrasta o curandeiro Katúra à cena. Inicialmente, este resiste a cantar para a ´mákina´, como todos os índios costumam chamar minhas engenhocas mágicas. Desconfiado, Katúra pergunta por que eu quero levar sua voz comigo. Eu lhe prometo presentear uma grande faca. Isso o convence,  mas desde que a gravação seja feita em todo segredo e que, depois, seus cânticos não sejam reproduzidos `às pessoas´. Provavelmente teme [expor-se e]  perder sua influência. Pitá enxota todos os visitantes da maloca [...]  – in:  Theodor Koch-Grünberg,  Do Roraima ao Orinoco, edição alemã, 1917, vol. I, 51-53

"O que devo relatar sobre os dias seguintes ? Eles foram belos, também de paz, não menos laboriosos, é certo, como na minha primeira estada em Koimélemong. – Contudo, não foram os ´selvagens´ que nos fizeram sofrer, nem os mosquitos, que a cada dia surgiram em menor número. Não - foi uma das mais modernas conquistas da civilização, há vinte anos sequer imaginada pelos exploradores – o Kinematógrapho!


Kynematographo

Carregar sua pesada caixa, é um suplício diário e, de entrada, esforço aparentemente inócuo. Apesar de observarmos atentamente as recomendações, a película costuma emaranhar-se após alguns metros. A exposição à luz torna este pedaço de filme imprestável, tendo que ser cortado e queimado, para que os índios não cometam besteira com a sobra [tóxica]. Generosas, essas pessoas aguardam pacientemente debaixo de calor tórrido, suspendem respeitosamente suas danças e seus afazeres, até que eu consiga carregar um novo chassis.  Eu retomo a manivela e a geringonça trava novamente. Assim, muito material, tempo e paciência são desperdiçados. Sem perda de tempo, após sua impressão os filmes têm de ser retirados do chassis, embalados em folha de alumínio e acondicionados em latas metálicas. Quase nu, estou alapado na barraca improvisada de câmara escura, tomando um banho turco, na acepção mais aleatória do termo, pois do lado de fora já se faz meio-dia com 35 graus à sombra. Freqüentemente, só conseguimos repousar muito depois de meia-noite e, mesmo dormindo, continuamos a manivelar [o cinematógrafo]...

(...) Estou completamente estendido no chão, que reflete um calor de chapa de fogão.  Observo as brincadeiras das crianças, ou converso com meninas e mulheres inteligentes, que tomam aulas de alemão comigo. Elas quase torcem a língua na tentativa de repetir a fonética das pesadas palavras, que lhes parecem duras, devido à profusão incomum de consoantes. Suas divertidas gargalhadas parecem não ter fim. Querem saber o nome de tudo em alemão: da lua e das estrelas, de todas as  partes do corpo. Elas me perguntam o nome do meu pai, da minha mãe, da minha esposa e dos meus filhos, se eu resido na montanha ou na planície, quais os animais que vivem sobre a terra, na água e no ar da minha terra natal; se lá as pessoas têm de morrer, se também existem Piasángs (curandeiros) e muito mais. Ato contínuo, me pedem para cantar.  E o cenário é como o de Uaupés. E que belas canções eu canto !  "Annemarie, wo willst du hin / Anamaria, pra onde queres ir“, ¨Saufen ist das Allerbest/ Beber é o melhor que há...“, "Ich ging mal bei der Nacht / Uma vez fui de madrugada ...“ – canções que certamente os missionários não cantam para elas! [...]" (Koch-Grünberg 1917, Vp, Roroima ao Orinoco / Do Roroima ao Orinoco, Tomo 1, 80-81).


Cenas de Taulipang (1911)


Imagens: Philips Universität Marburg, Museum für Völkerkunde Berlin