Mostrando postagens com marcador Chile. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Chile. Mostrar todas as postagens

02 setembro 2014

Frederico Füllgraf: A lista do “Schindler chileno”



Foto copyright: F. Füllgraf

No filme “A lista de Schindler”, há uma cena particularmente comovente, protagonizada pelo contador Itzhak Stern, que entrega a Oskar Schindler a lista datilografada e assinada por cada um dos 1.200 judeus salvos pelo empresário alemão, e diz, citando o Talmude dos rabinos:"Aquele que salva uma vida, salva o mundo inteiro”.

O empresário chileno, Jorge Schindler Etchegaray, salvou a vida de aproximadamente cem dirigentes da esquerda chilena após o golpe civil-militar de 11 de setembro de 1973, mas rejeita qualquer atributo de heroísmo.

Nomen est omen, rezava um adagio latino, pretextando que no nome de um indivíduo estava escrito seu destino. Alemão o primeiro, descendente de suíços o segundo, a coincidência das atitudes de Oskar e Julio Schindler parece sugerir que seu sobrenome seja portador de um misterioso DNA da solidariedade humana. Etimologicamente falando, Schindler vem do antropônimo medieval germânico,“schinteler”, que quer dizer “telhadeiro”. Pois, dar um teto foi exatamente o que fizeram Oskar e Julio, ao abrigarem seus protegidos: um, os judeus perseguidos pelo nazismo, o outro, os comunistas caçados pela ditadura Pinochet.

Na epopeia do chileno repete-se a lição ensinada pelo alemão: salvar seres humanos das garras de regimes totalitários requer criatividade e circunspecção. Junto com sua esposa Emilie, Oskar Schindler literalmente comprava judeus condenados ao extermínio, subornando comandante da SS, aos quais pretextava a necessidade de mão de obra escrava. Julio Schindler - um ex-executivo da Corfo-Corporación de Fomento de la Producción de Chile, no governo Salvador Allende, sumariamente defenestrado de seu cargo pela ditadura militar – empregou um simulacro ainda mais criativo. Homem com posses, poderia ter abandonado o Chile, rumo ao exílio, mas resolveu ficar e resistir, criando uma rede de farmácias para socorrer dirigentes do Partido Comunista, esfacelado pela repressão.


Com lançamentos em Santiago e Concepción – as maiores cidades do Chile, onde ainda funcionam duas das farmácias abertas há quarenta anos – o livro “La Lista del Schindler Chileno”, escrito pelo jornalista Manuel Salazar, narra a epopeia protagonizada entre 1974 e 1978, por aproximadamente cem homens e mulheres perseguidos pelos órgãos de repressão da ditadura chilena, que se reinventam como modestos empregados de drogaria, acima de qualquer suspeita, socorridos por Julio Schindler e seu amigo, o farmacêutico Ramiro Rios. De passagem pelas farmácias, dois militantes são sequestrados, até hoje desaparecidos, mas a rede de fachada não é descoberto pela DINA de Pinochet. Apesar disso, pressagiando que sua prisão eram dias contados, em 1979, Julio Schindler, hoje com 75 anos de idade, escapa com sua família para Frankfurt, na Alemanha, onde dirige a agência de viagens “Chile Touristik”.

Em breve contato telefônico com o Jornal GGN, na véspera do lançamento do livro em Concepción, Julio Schindler advertiu: “Era um projeto que virou uma rede de sobrevivência. Dando trabalho e uma fachada legal aos nossos companheiros, suas vidas foram salvas. Mas não foi obra de um homem só, aquilo foi um trabalho coletivo", esclarece o chileno, fiel às suas convicções ideológicas.

Quarenta anos de discrição

Julio Schindler sempre quis tornar pública a aventura, mas aguardou o momento oportuno para fazê-lo com a concordância do PC chileno, do qual se afastou há mais de trinta anos. Com o depoimento de Schindler como alavanca da narrativa, o jornalista Manuel Salazar saiu a campo, colhendo sessenta entrevistas com ex-protagonistas da epopeia, cuja maioria sobrevive até os dias de hoje. No início apenas fascinado por uma estória completamente desconhecida no Chile, durante as entrevistas Salazar sentiu a vibração e verdadeira dimensão do significado da clandestinidade coletiva.

As farmácias serviam de refúgio para dirigentes considerados calibre grosso pela ditadura. Uma delas, ainda existente em Santiago e localizada em Villa México na divisa das comunas de Cerrillos e Maipú, era atendida por Quintín Romero, ninguém menos que o policiial federal que permaneceu ao lado do presidente Salvador Allende até o instante de seu suicídio, no dia 11 de setembro de 1973. Como muitos outros militantes, depois Romero refugiou-se na farmácia porque logo após o golpe foi exonerado e não tinha como sobreviver.


A organização da vida na clandestinidade

A rigor, a rede de farmácias era apenas um dos “aparelhos” desenvolvidos pela direção do PC, empenhada na sobrevivência mínima de sua estrutura e militância na clandestinidade, tarefa na qual Julio Schindler teve papel de estrategista.

O veterinário Alsino García, por exemplo, tomou a inciativa de criar um centro de atendimento veterinário com seu colega César Martínez, gerente de Pfizer. Na verdade, a empresa servia de fachada para a ativação das células da frente camponesa do PC e se reportava à Comissão Nacional Agrária do partido.
Armando Gatica foi outro “farmacêutico” acolhido por Schindler durante a caçada da ditadura aos hospitais clandestinos mantidos pela resistência, que ilustram uma das cenas emblemáticas do documentário “Miguel Littín clandestino en Chile”, do cineasta chileno homônimo.

Como funcionário do Serviço Nacional de Saúde, Gatica tinha baixado e sobrevivido ao inferno em um dos centros de tortura da ditadura, localizado em La Serena, norte do país. Detido, foi conduzido vendado e encapuzado ao galpão de um regimento do exército, em cujo teto foi suspenso por cordas, violentamente espancado e submetido a choques elétricos no peito, nas genitálias e no ânus, até perder a consciência. Gatica foi salvo graças à intercessão do bispo Francisco Fresno. Por intermédio de um colega soube das farmácias e refugiou-se em Santiago, também acolhido por Jorge Schindler, que o empregou, primeiramente, na farmácia O’Higgins, em seguida entregando-lhe a gerência da farmácia Principal, en Maipú - missão que atrás da fachada significava, primeiramente, alimentar e vestir os esfomeados e maltrapilhos militantes e reconstruir as células clandestinas do PC.

A maioria dos cem militantes salvos por Schindler não se conhecia e para garantir a sobrevivência do grupo, todos cortaram seus vínculos operacionais com o partido.

Destemido, Schindler alugou casas, prestou apoio financeiro, distribuiu medicamentos e chegou a esconder armas dos militantes em operação ou em fuga, como os fuzis AK-47 que, suspeita-se, pertenciam à Frente Patriótica Manuel Rodríguez (FPMR), o braço militar do PC, que em setembro de 1986 tentou assassinar Pinochet.

Em 1979, Julio Schindler abandonou o Chile, notabilizando-se até a queda do muro de Berlim, por sua participação ativa nas reuniões clandestinas de reconstrução do partido, grande parte delas realizadas em Berlim Ocidental.

O que ele fez é notável!”, afirma, emocionado, Quintin Barrios, que gerencia a farmácia México, a primeira aberta por Schindler e talvez a mais lendária farmácia do Chile.
____
Texto publicado originalmente em JORNAL GGN, São Paulo

13 julho 2014

12 de julho, 110 anos de Pablo Neruda, o imortal




Esta vez dejadme
ser feliz,
nada ha pasado a nadie,
no estoy en parte alguna,
sucede solamente
que soy feliz
por los cuatro costados
del corazón, andando,
durmiendo o escribiendo.
Qué voy a hacerle, soy
feliz.


Soy más innumerable
que el pasto
en las praderas,
siento la piel como un árbol rugoso
y el agua abajo,
los pájaros arriba,
el mar como un anillo
en mi cintura,
hecha de pan y piedra la tierra
el aire canta como una guitarra.

Tú a mi lado en la arena
eres arena,
tú cantas y eres canto,
el mundo
es hoy mi alma,
canto y arena,
el mundo
es hoy tu boca,
dejadme
en tu boca y en la arena
ser feliz,
ser feliz porque si, porque respiro
y porque tú respiras,
ser feliz porque toco
tu rodilla
y es como si tocara
la piel azul del cielo
y su frescura.

Hoy dejadme
a mí solo
ser feliz,
con todos o sin todos,
ser feliz
con el pasto
y la arena,
ser feliz
con el aire y la tierra,
ser feliz,
contigo, con tu boca,
ser feliz.



05 julho 2014

Alejandro Lavquén - Ejército y Fútbol



El comandante en jefe del ejército, general Humberto Oviedo, rindió un homenaje, en nombre de su institución, al futbolista y seleccionado nacional Gary Medel, de brillante participación en el mundial de fútbol 2014. 

Las razones del homenaje las dio el mismo Oviedo: “Esta es una expresión de gratitud por la gesta deportiva. Una actitud de vencer la adversidad y ser capaz de decir: yo puedo más” (…) “Es un hombre que ha puesto disciplina en lo que hace y, por lo mismo, estamos seguros de que es un ejemplo para nuestros soldados”. 

Luego, le regaló a Medel un corvo, aquel arma que los militares usaron para desbarrigar chilenos y luego arrojarlos al mar. Gary Medel respondió que estaba emocionado por el homenaje y que se identificaba “con el soldado chileno por lo guerreros que son, por lo luchadores, nunca dicen que no, siempre pueden más y por eso el agradecimiento hacia ellos”.

Pues bien, esta situación es representativa de cuestiones que merecen ser tomadas en cuenta si queremos entender nuestra sociedad y sus opuestos. 

No discuto que Medel merezca todos los homenajes que se le quieran dar como deportista. Por cierto que los merece. Dicho esto, vamos a lo de fondo. 

El comandante en jefe del ejército toma al futbolista como ejemplo de patriotismo para sus soldados. Es decir, dar la batalla hasta el final, a pesar de estar herido (Medel jugó con un desgarro). Se debe mantener la bandera siempre al tope (en el deporte equivale a la camiseta). Claro que existen diferencias notables entre el fin que persigue un soldado y el que busca un futbolista. Al primero lo entrenan para matar, utilizando entre otras armas el famoso corvo; en cambio, al futbolista lo entrenan para jugar con un balón y hacer goles, sin matar a nadie. O sea, fines totalmente opuestos, pero que hoy el general Oviedo ha querido homologar. Imagino que por el bien de la patria.     

Respecto a la respuesta de Medel y su sentimiento hacia los soldados, sólo se trata (aunque no nos guste) de cómo la mayoría de los chilenos ve a nuestro ejército. 

El patrioterismo y chovinismo, son características de nuestro pueblo. La visión del ejército chileno que han enseñado por años en los colegios se ha grabado a fuego en el consciente e inconsciente de los chilenos. De hecho, no es extraño escuchar decir, a más que muchos, que la corten con las acusaciones contra los violadores de los derechos humanos, que hay que dejar atrás el pasado, que por algo pasó lo que pasó, etcétera. 

Grave. ¿Ignorancia? Por supuesto. 

El ejército chileno ha masacrado a sus compatriotas muchas veces desde 1830 en adelante, siempre con la venia de presidentes y la derecha en sus distintas encarnaciones hasta 1973. 

Los hechos están documentados, pero han sido silenciados en las casas de estudio. ¿Las víctimas de este silencio? Entre otros, futbolistas de buena voluntad como Gary Medel ¿Los beneficiados? Tipos como el general Oviedo, que con estrategia militar aprovecha de blanquear la imagen de su institución aprovechándose del mundial de fútbol. 

El problema es que en vez de balones regala corvos. Lo que me recuerda la fábula de la rana y el escorpión: “es mi naturaleza”. 

Fotos: divulgação

Alejandro Lavquén (Santiago1959) es poeta y escritor chileno.
Entre los años 2000 y 2005 condujo en radio Nuevo Mundo, en Chile, el programa literario De Puño y Letra. Actualmente es colaborador de la revista Punto Final y otros medios de comunicación impresos y digitales. Sus poemas y trabajos periodísticos han sido reproducidos por revistas, periódicos y páginas web de diversos países. En el año 2012 su libro Sacros iconoclastas fue traducido al griego por el poeta Rigas Kappatos y publicado en Atenas, Grecia, en una edición bilingüe por Editorial EKATH.

15 junho 2014

Frederico Füllgraf - A trégua da Copa: conversas ao pé do ouvido entre Dilma Rousseff e Michelle Bachelet



Santiago do Chile - Menos de 48 horas após as primeiras e gigantescas manifestações pelo Ensino Público e Gratuito, que na terça-feira, 10 de junho, voltaram a mobilizar dezenas de milhares de estudantes nas ruas das principais cidades do Chile – com 90 manifestantes presos e 6 policiais militares feridos - a presidente Michelle Bachelet realiza sua primeira visita de Estado desde sua posse em março último, para ratificar sua aliança estratégica com o Brasil.
Embora tenha reiterado que cumprirá sua promessa de devolver ao país um sistema de ensino que não penalize a classe média e os trabalhadores – punidos, sim, desde a ditadura Pinochet, com  impagáveis dívidas bancárias por mensalidades entre 400,00 e  1.000,00 dólares, até mesmo nas universidades estatais – agora Bachelet enfrenta também a oposição do Colégio (Federação de Sindicatos) de Professores do Chile, que rejeita frontalmente o projeto do ministro da educação, Nicolás Eyzaguirre, e conclama uma greve geral do setor de Educação a partir do dia 25 de junho.
Abancadas no Itaquerão, talvez durante o intervalo após um tedioso primeiro tempo do jogo inaugural, Brasil-Croácia, as presidentes Dilma Rouseff e Michelle Bachelet tenham trocado confidências e desabafado uma no ombro da outra.
A presidente brasileira por ter se tornado alvo predileto de uma sórdida campanha de mídias, nacionais e internacionais, que a culpabilizam desde torneiras que não doam água em algum estádio terminado às pressas, até as nuvens negras sobre a Economia do país, cujas sombras escrevem a palabra “estancamento”. Isso, sem falar no refrão “não vai ter copa!”, reverberado dentro e fora do país por grupúsculos entre si dessemelhantes, porém acampados na lateral direita das assim chamadas “redes sociais”. E sindicatos oportunistas – aeroviários, metroviários et allii – que se lixam um cazzo com vésperas de Natal, Carnaval ou Copa do Mundo, eventos de confraternização universal, aos quais os grevistas soem antepor reivindicações muitas vezes justas, mas que cobradas com truculência e na hora errada são mesmo atitude boçal.
Cruzada contra o “Santo Gral”.
Porém, se Dilma foi sincera, haverá confessado à compañera Michelle, que se arrepende de uma lição de casa não feita. Como bem lembrou Luis Nassif, em recente coluna, tivesse refletido e tornado ação política a sábia frase do esperto Confúcio - “Mais vale uma imagem do que mil palavras!” - e o estrago midiático teria sido evitado com respostas à altura: as literais imagens das obras. Afinal, o Planalto tem motivos, não para disparar rojões de soberba, mas contrarestar a campanha com dados e indicadores de inclusão social  irrefutáveis. Tëm motivos para dizer, mas não diz, e deixa seus adversários desdizerem. Então, ninguém menos que Jim Young Kim, presidente do Banco Mundial, teve que sair em socorro de Dilma Rousseff, carregando nas tintas: “O governo brasileiro conseguiu implementar o ´Santo Gral´, com investimentos que unem o bem-estar social, a educação e a saúde, através  de programas como o conhecido Bolsa Família e o Brasil Sem Miséria!” (Young Kim em Brasília, 02/06/2013).
Exatamente o que o México de Peña Nieto e o Chile de Bachelet agora imitam com outros nomes: “Oportunidades”, ou “Bono de las Famílias”. 
São modestas, mas exitosas ferramentas de inclusão social primária, forjadas pelos ferreiros da socialdemocracia latino-americana.




Fotos:  divulgação

Aquém e além Andes, a ressaca da crise de 2008
O que terá cochichado Michelle Bachelet no ouvido de Dilma Rousseff?
Em primeiro lugar, que lhe fazem a mesma crítica: a do estancamento da Economia. Reverberado mundo afora como pupilo-modelo do projeto neoliberal em escala global, cujo PIB vinha crescendo acima dos 7,0% desde a década dos anos 1980 – ao custo de truculenta “desregulamentação” (desestatizações e privatizações a rodo)  e “flexibilização” do mercado de trabalho (esquartejamento dos sindicatos, liquidação da estabilidade, terceirização de mão-de-obra e privatização da seguridade social) - em 2013, último ano da administração Sebastián Piñera, a taxa de crescimento do Chile caiu para 4% e não deverá superar os 3% em 2014.
Então o refluxo não é um fenômeno exclusivo, “made in Brazil”, e “culpa da Dilma”? Não, não é. Bancos Centrais, banqueiros, UNCTAD e OECD são unânimes em seu prognóstico de uma retração em bloco nas Economias da América Latina em 2014, como ressaca da grande quebradeira global de 2008. É a sina dos exportadores de commodities, como o Chile, mas grupo ao que, apesar do diversificado perfil de industrialização, o Brasil ainda pertence.
Mas estará essa socialdemocracia promovendo reformas estruturais, capazes de desafiar a dominação dos mercados, com modelos sócio-econômicos efetivamente profundos e não apenas paleativos?
Eyzaguirre, o “socialista arrependido”
Apesar das boas intenções, com suas hesitações, os nem tão novos ferreiros socialdemocráticos teimam em dar uma cravo, e outra na ferradura, isto é: namorar os pobres, sem trair “os mercados”. Exemplo disso é a turbulenta reforma educacional cobrada pela sociedade chilena nas ruas.
Estudantes e, agora, os professores insistem que, apesar do diálogo mantido com o ministro da educação, Nicolás Eyzaguirre, o projeto de reforma elaborado pelo governo não contempla suas demandas, pois prevê um “parcelamento” inaceitável de medidas, das quais a mais esperada é o ensino público universal gratuito. Prometido apenas para 2026, até lá Inês é morta!
Contudo, o pivô da crise entre estudantes e professores de um lado, e o governo, de outro, é o inabalável credo de Eyzaguirre na redenção pelo mercado.
De raízes democrata-cristãs, o ministro foi membro dos partidos Esquerda Cristã e Comunista durante o governo da Unidade Popular de Salvador Allende. Obrigado a refugiar-se após o golpe civil-militar de 11 de setembro de 1973, decidiu exilar-se nos EUA. Engenheiro comercial diplomado pela Universidade do Chile, Eyzaguirre doutorou-se em Macro-Economia e Comércio Exterior na Universidade de Harvard, instituição que, segundo tem afirmado, alterou radicalmente sua visão de Economia, pois ali adotaria sua crença nos princípios do “livre mercado”, reconhecendo seu “erro”, ao abraçar anteriormente o ideário socialista. De Harvard para as instituições reguladoras foi um pulo, pois tempos depois Eyzaguirre chefiava o Departamento para o Hemisfério Ocidental do FMI-Fundo Monetário Internacional, de onde foi guindado para o ministério da fazenda no Governo do socialista Ricardo Lagos (2000-2006).
O lucrativo business da educação
Com seu perfil declaradamente neoliberal, mal fora empossado por Bachelet, e Eyzaguirre bateu de frente com os estudantes: ele promete a reforma, mas adverte que os “sostenedores” (patrocinadores) privados das redes pública e privada de ensino querem garantias de retorno seu “investimento”.
Quem são estes “patrocinadores”?
São empresas privadas, autorizadas pela ditadura Pinochet (1973-1990) para gerenciar  colégios e universidades. Apesar dos 25 anos do retorno da democracia, o sistema pinochetista sobrevive: a educação pública chilena é oferecida pelos municipios e os assim chamados "sostenedores". Que não tiram dinheiro do próprio bolso, mas recebem fundos do Estado para a administração do ensino em caráter privado.
Uma aberração!
Mas Eyzaguirre propõe a sobrevida do “sistema misto”, no qual o Estado faz uma “oferta de conhecimento” e os estudantes registram sua “demanda”. Ao que, com razão, os estudantes respondem nas ruas: “Basta à mercantilização da educação!”.
Fogo amigo
Com a adesão do Colégio de Professores do Chile ao movimento pela reforma educacional autêntica, abriu-se nova trincheira não apenas em frente ao ministério da educação, mas dentro da própria coligação do Governo Bachelet.
Apoiado pela Central Unitária de Trabajadores (CUT), à qual é filiada, a federação sindical dos professores é presidida por Jaime Gajardo, que com Bárbara Figueroa, presidente da CUT, integra o Diretório Nacional do Partido Comunista, que é integrante do Governo Bachelet, e cujo ministo da educação é o socialista arrependido Nicolás Eyzaguirre.
Ex-preso político da ditadura Pinochet - que no Estádio Nacional, em 1973, viu morrer o lendário cantor Víctor Jara, e que sofreu expulsão da universidade - o matemático Gajardo é taxativo: “Acreditamos que este projeto, ao caminhar de forma parcelada, não aborda problemas que são estruturais... e que a coluna vertebral deste sistema - que é o financiamento competitivo, por assistencia média  - deve ser quebrada, porque do contrário a educação pública se debilitará ainda mais”.
Como advertência ao governo, no próximo dia 25 de junho os professores do Chile cruzarão os braços: ou Eyzaguirre, que insiste no diálogo, escuta de verdade seus pares, mudando conteúdo e abreviando prazos da agenda, ou uma greve geral com duração indefinida paralisará o setor de Educação no Chile.
Hoje, numa emblemática sexta-feira, 13, Michelle Bachelet desembarca emCuiabá, onde, em companhia do governador Silval da Cunha Barbosa, visitará uma  exposição fotográfica arranjada em última hora: “Chile–Brasil unidos pelo futebol”.
Às 17:30, no Estádio Arena Pantanal, a mandatária assistirá então o enfrentamento da “roja”, a seleção do Chile, com a Austrália.
Se há poucos fenômenos memoráveis que unam  Chile e Brasil, no futebol une-os a paralisia: o Chile também pára com a Copa.
Será que em sua trégua, longe das trincheiras escaldantes, Bachelet ligará para Eyzaguirre, dizendo: “É bom parar para pensar”?
Publicado originalmente em