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23 julho 2014

Manoel de Andrade: A moldura dos tempos


Poema


Cada dia é um devir inquietante,
um enredo que anuncia a tempestade
e a bonança...?
ah! a bonança é um barco num medonho temporal!

Uma egrégora maligna comanda o turbilhão,
é a frequência subliminar que domina o mundo,
a combustão da história,
o trágico espasmo da vida,
o tumulto e a fúria linchando as derradeiras utopias.

Na moldura dos tempos cada alma revela o seu retrato,
entre a incredulidade dos “sábios” e a fé de uma criança,
transita a expectativa dos homens...
São dias sem bandeiras,
quando a verdade se envergonha da “justiça”,
as togas e os mandatos acumpliciados na ambição,
os crimes lavados na corte dos “eleitos”
e os vilões absolvidos nesse palco de trapaças.
Até quando assistiremos a esse fatídico cenário?
Quem apagará as luzes dessa medonha ribalta?
Até quando, Senhor, suportaremos tanta ignomínia?


Nessa república de escândalos,
a corrupção gargalha da história.
Nos palanques da ilusão,
máfias partidárias e alianças promíscuas
maquiam seus patéticos contendores.
É um ritual insuportável,
onde o poder trama as suas dinastias,
as ideologias são negociadas
e nas tribunas se mascara a hipocrisia.
Eis o reduto oficial dos futuros saqueadores,
festejando sua agenda eleitoral em sórdidos banquetes,
ante a súplica inconsolável no olhar dos miseráveis.

Não quero o esquecimento,
não aceito o silêncio,
sou a acusação e a profecia
vivo num tempo de iniquidades e presságios,
numa pátria humilhada pela impunidade,
comandada por homens sujos e soturnos
e eis porque hoje meu canto surge assim crispado,
testemunhando o impasse e esperando novos dias.
Sei que não se engana a posteridade,
que nessa nau dos insensatos toda perfídia será nominada,
todas as máscaras cairão.

Sei também que um lento alvorecer anunciará o amanhã,
e que a fé e a decência viverão muito além desse holocausto.
Mas até quando, Senhor, combateremos esse combate?
Há uma “música” sinistra e constante,
martelando, sem limites, em toda parte,
e eu e tantos outros não toleramos essa assuada.
Canto para os homens honrados e para os cultores da beleza
e vos peço perdão por tanto desencanto,
por vos dar meu verso sombrio e indignado,
e esse febril retrato da esperança.


Curitiba, 04 de julho de 2014

Ilustrações: divulgação


29 janeiro 2014

Manoel de Andrade - O barco da memória


                                  

A infância sempre volta na hora humana do crepúsculo...
Vem de um tempo silenciado,
é um eco que cresce,
um fantasma que ronda e volta comovido,
surge remando no barco da memória,
abre na alma um sulco imaginário, tão formoso
e aporta para povoar a aldeia melancólica da saudade.

Traz consigo os seus inconfessáveis segredos,
as tardes azuis e açucaradas,
a dizer-nos que só se é criança uma vez na vida
e que tudo que lá ficou é um mágico clarão,
um enigma que arde imperecível,
um nunca mais.


Em cada dia houve um tempo...,
um tempo em que o mar banhou minha inocência.
Herdei essa extensão entre o horizonte e o branco cinturão de areia,
herdei do mar essa salgada lembrança,
o mar, sempre o mar, meu mágico recanto,
aquele mar que tanto amei
e onde o coração navegou o meu encanto.
A praia, o território itinerante nos meus passos,
os botos, em cada dia, nadando para o sul,
o voo preguiçoso das gaivotas,
as velas ligeiras ante a paz invencível da paisagem.
o azul e a luz espelhados sobre as águas da manhã,
as canoas trazendo suas translúcidas escamas,
o mantra suave das ondas,
esse rumor ainda presente no caracol dos meus ouvidos.

Eu tinha quatro, cinco, seis e sete anos,
a alma banhada, as retinas submersas
e em cada gesto uma sílaba antecipada do meu canto.
Tinha as mãos cheias de caramujos, de conchas,
e a vigiar  meus olhos,  o espanto.
Tinha meus castelos,
a espuma espessa e flutuante
e três castas amantes para brincar.
Tinha os fulgores da aurora, os mistérios constelados,
uma pequenina lagoa
e um canal estreito por onde as tainhas entravam no inverno.
Eu tinha de minha mãe o seu regaço: mel e ternura repartidos.

Lembro meu avô cortando lenha, meu retrato mais antigo.
Eu o chamava Pai Trajano.
Um dia ele levou minha pobreza seminua pela mão,
e lá, além da ponte, na loja do Seu Abrão,
vestiu-me uma camisa colorida.


Não, Drummond, não se dissipa nunca a merencória infância.


                                                           Curitiba, 26 de Janeiro de 2014.


Ilustrações: divulgação


21 novembro 2013

Manoel de Andrade - Bandeiras e máscaras

Fotos: divulgação

Esse é o tempo cruel que antecede o amanhecer.
Em seu rastro marcham os filhos das estrelas e os herdeiros da penumbra.
Na moldura das horas as intenções se partem.
Ali, os justos ensaiam seus passos.
Acolá, nos becos, os ânimos crepitam
e engatilham seus gestos.
Nas ruas as faces empunham bandeiras,
as máscaras escondem punhais.


Passo a passo, portando consignas e estandartes, a multidão caminha...
ocupam estradas, bloqueiam rodovias, paralisam cidades,
avançam no seio da tarde denunciando os charcos do poder e os leilões 
da mais-valia.
É o nosso “Dia de Lutas”, gritam os sindicalizados.
São cinquenta, são cem mil pedindo tarifas justas,
terras repartidas, quarenta horas semanais...
Faixas, cartazes, coros e gritos:
“Prisão para os corruptos”, “Punição para os crimes da ditadura”.
“O povo acordou, o povo decidiu, ou para a roubalheira, ou paramos o Brasil”.


Eis o espaço do povo,
eis as ruas virtuais,
é a nova democracia,
pelas redes sociais.
Salve moças e rapazes,
salve as faces descobertas,
salve as bandeiras e os sonhos,
erguidos com transparência.

De repente as fronteiras são rompidas,
sobre as cores da paisagem as máscaras armam seus braços,
quais abutres insaciáveis atacam os cristais e escarram na decência.
Atrás dos grandes escudos os uniformes avançam.
Voam coquetéis e pedras, explodem gazes, morteiros,
soam tiros e foguetes entre o fogo e as barricadas.
Salve os agentes da ordem, salve os bons pretorianos.
O verde-oliva e o negro já cruzam suas espadas,
barras, paus e cassetetes
e as razões abaladas.
Chegou a tropa de choque nos trajes da truculência.
Surge o gesto inconfessável,
surge a fraude na vergonha e o flagrante forjado.
Asco aos falcões do cinismo algemando a inocência.


Eis o palco dos tumultos,
eis as cinzas da batalha,
eis o saldo do espanto
e a multidão dispersada.
Restou o ato incompleto,
sem o hino dos professores,
e sem o eco das promessas
na voz dos governadores.
Massacraram a primavera
e a magia da cidade.
Assustaram os pardais,
retalharam a liberdade.
Eis a cultura que herdamos
a esfolar nossas almas.
Abatido por tantos golpes,
o amor é um silêncio
e as avenidas soluçam,
qual um salgueiro de lágrimas.


E agora, eis-me aqui, diante da poesia,
assistindo desabar as velhas torres do encanto...
Perplexo, que posso ainda?
sou apenas um olhar melancólico diante da esperança.
Indignado ante a mística do horror,
quero transformar em versos os protestos, o confronto, as cicatrizes.
A realidade é um idioma intraduzível,
e eu impotente, ante o mistério sinuoso das palavras.
As palavras, oh! as palavras em sua essência,
elas não se revelam a qualquer poeta...
habitam em seu próprio enigma,
são silentes como os hinos do entardecer...
Nesse impasse, entre as imagens e o lirismo,
ante a sensibilidade e a violência,
sei de um roseiral em flor no caminho dos meus passos,
alhures há um campo de espigas que cantam, balançando ao vento
e, nesta palmeira esbelta, a vida é reproclamada nos trinos de um ninho em festa.


Curitiba, outubro de 2013.

27 junho 2013

Frederico Füllgraf - Brasil: un grito por mucho más que 20 centavos


Versión impresa en lkos kioscos

En el área internacional, vea por qué en Brasil el grito actual es por mucho más que los veinte centavos que iba a subir el precio de la locomoción colectiva. ¿Es que no les gusta más el fútbol a estos jóvenes? No. Ellos estimaron que con la fortuna gastada en los estadios sería posible construir, por ejemplo, 20.860 guarderías infantiles o 123 hospitales modernos en Brasil.


Texto: Frederico Füllgraf

25 maio 2013

Carlos Marighella - Poemário




Não ficarei tão só no campo da arte,
e, ânimo firme, sobranceiro e forte,
tudo farei por ti para exaltar-te,
serenamente, alheio à própria sorte. 


Para que eu possa um dia contemplar-te
dominadora, em férvido transporte,
direi que és bela e pura em toda parte,
por maior risco em que essa audácia importe. 


Queira-te eu tanto, e de tal modo em suma,
que não exista força humana alguma
que esta paixão embriagadora dome. 


E que eu por ti, se torturado for,
possa feliz, indiferente à dor,
morrer sorrindo a murmurar teu nome” 

São Paulo, Presídio Especial, 1939

14 fevereiro 2013

Frederico Füllgraf - "Esqueceram" de Dona Aracy, a salvadora de judeus

Aracy e João Guimarães Rosa, Hamburgo, 1939


Carta Aberta ao Paraná
– Via Coluna Aroldo Murá

O que segue, é uma triste evocação do que o poeta e dramaturgo alemão, de origem dinamarquesa, Friedrich Hebbel, dizia da insuficência e parvidade humanas: "Toda... mediocridade na poesia acarreta hipocrisia no caráter e na vida."

A rigor, a descrição do episódio caía como luva sobre a cerimônia de distinções a personalidades do Paraná com a medalha da Araucária, ocorrida em dezembro passado, que acompanhei em sua coluna, mas daqui, da orla do Pacífico. Decidi, então, esperar a poeira baixar e, principalmente, não afugentar os good spirits, pois era dia de festa e você, um dos galardoados. Nesse meio tempo, renasceu o Senhor, nos quatro cantos do planeta acabam de esbaldar-se em bacanais dionisíacos e, fiel aos dislikes da Quaresma, já estando prestes a crucificá-Lo de novo, mando-lhe minha estocada no imperdoável.

Faltou uma figura humana insubstituível naquele pódio de bravos paranaenses, Aroldo, que, como você, foram vestidos pelo governador de turno, com a Comenda da Araucária. Faltou Aracy Moebius Tess de Carvalho, “ Ara”, a esposa do mestre Guimarães Rosa, que lhe teria arrancado lágrimas de ternura. Mas não poderia ter faltado sob qualquer pretexto, por isso, há exatos dois (!) anos, sugeri ao governo do Paraná, que não perdesse tempo em trazê-la a Curitiba e homenageá-la como a rara e emblemática Heroína, mundo afora conhecida como o “Anjo de Hamburgo”. Contudo, Curitiba traz nas entranhas a maldição, não dos anjos caídos, que são estóicos, mas dos santos pequenos da mediaria, sempre de costas para os Tempos e a História, deformação congênita que seus administradores tentam encobrir com ícones ladinos de capital de muitas mentiras; “primeiro-mundistas”, “europeias”, “ecológicas”, o escambau.

Como você sabe, em 2010 a editora Record me encomendara o romance “O Caminho de Tula”, narrativa sobre o pano de fundo histórico do nazismo, que se desloca entre a Alemanha, a União Soviética e o Brasil, e temperada pelo olhar de um jovem que após a morte de seu pai, descobre sua verdadeira trajetória, com o acesso aos autos de um processo de “des-nazificação”, de 1948. O livro, embora em nada datado, exigiu-me pesquisa que editor nenhum vai me pagar, e umas das tramas paralelas brinca com a estória de um personagem algo mítico, que segundo o próprio Guimarães Rosa, realizou a “mãe de todas as traduções”, para o Alemão, do clássico “Grandes Sertões. Veredas”: Curt Meyer-Clason.

Conheci-o em 1975, eu, estudante de Cinema em Berlim, “visitando” a “Revolução dos Cravos”, ele, então diretor do Instituto Goethe, em Lisboa. Em 1976, a Rádio SFB, de Berlim, enviou-me novamente a Lisboa, desta vez para gravar um programa sobre o papel dos escritores durante a derrubada do fascismo. O programa foi ao ar com o título “Motim no Café Lusitânia”, pontilhado de longas entrevistas com três Josés, todos já saudosos: o imperdível José Cardoso Pires (“O Defilm”), o titânico poeta José Gomes Ferreira, e José Saramago, ainda algo desconhecido, a quem entrevistei em sua própria casa. Os contatos e a articulação, todos, me foram auspiciados por Meyer-Clason, que, como tradutor genial de “Cem anos de solidão”, de García Márquez, estava traduzindo para o Alemão e divulgando Europa afora  a poderosa plêiade de escritores portugueses censurados pela ditadura fascista – com esses repentes de solidariedade aos “comunistas”, estaria Mayer-Clason exorcizando seus próprios fantasmas?

Mas o que essas tramas paralelas da ficção têm a ver com a figura de Aracy, como filha de pai brasileiro e mãe alemã, nascida em 1908, em Rio Negro? Ocorre que a História real acabou unindo indissoluvelmente os caminhos de Aracy e de Meyer-Clason: ela, fugindo ao preconceito da mal vista “mulher separada”, abandonando o Brasil em 1935, com destino a Hamburgo, e, em sentido inverso, Meyer-Clason, deixando o norte da Alemanha no final da década de 1930, para fixar-se no Brasil como corretor de commodities brasileiros e argentinos, que exportava para a Alemanha. Até que, no início da Segunda Guerra, a polícia política de Getúlio Vargas flagrou Meyer-Clason em atividade ilícita: ele se desempenhava como agente da espionagem alemã! Atividade nunca provada em seus detalhes, mas que lhe custou cinco anos em um campo de concentração na Ilha Grande, Rio de Janeiro, onde outro intelectual alemão – homossexual e esquerdista, a policia de Filinto Müller não fazia distinção entre seguidores e opositores do nazismo, prendia todos! – o despertou para a Literatura. Em “Äquator”(Debaixo do Equador, 1986), M.Clason narra sua metamorfose, de corretor de cereais para amante da Literatura, e de suposto agente nazista, para apaixonado pelo Brasil; não guardara rancores. Em 1995, publica “Die große Insel“ [A Ilha Grande], como indifarçadas memórias do cárcere, elégico título do romance de Graciliano Ramos, outro “hóspede” da grande ilha, libertado em 1937.

E Aracy, o que fazia? Morando com uma tia alemã, conseguira emprego como secretária biligue no Consulado Geral do Brasil em Hamburgo. A famigerada “Noite dos Cristais” desencadeara o progrom anti-semita dos sicários de Hitler, e a despolitizada, mas nada boba, Aracy, não teve dúvidas: começou a ajudar os judeus que batiam à porta do consulado, em busca de um visto para o Brasil. Sua “ajuda” tinha um pequeno problema: o cônsul brasileiro era simpatizante dos nazistas e o Itamaraty seguia à risca a Circular Secreta 1.127, que proibia a concessão de vistos a "semitas" . A Aracy ocorreu um ardil: recebia os judeus na ausência do cônsul e contrabandeava os formulários dos vistos para a pilha da papelada a assinar pelo cônsul, sempre faltando poucos minutos para encerramento do expediente; pelo qual o cônsul já ansiava, desatento. À atividade subversiva veio somar-se o novo cônsul adjunto que chegara a Hamburgo em 1938, logo se apaixonara pela bela secretária com sotaque de “lêite quênte”, e abandonara sua esposa, deixada no Brasil: João Guimarães Rosa. Como a maioria de seus colegas do Itamaraty, escritor nas horas vagas.

Juntos, Aracy e o Rosa acabaram salvando a vida de dezenas (há quem estime, centenas) de judeus alemães, que então emigraram ao Brasil. Única mulher a ter seu nome escrito, em 1982, no Jardim dos Justos entre as Nações, no Museu do Holocausto (Yad Vashem), em Israel, alguém já disse que a historiografia brasileira não contempla esta mulher, conhecida pela comunidade judaica por “Anjo de Hamburgo”, lembrada oportuna, mas tardiamente, pela Presidente Dilma Rousseff em evento ocorrido no final de 2012.

Dona Aracy é uma personagem comovente da História, mas também da Literatura por excelência, pois encarna exemplarmente a tríade espiritual da heroína de mil faces: destemor, aventura e romance. Heroína que não perdera o hábito, depois de retornar ao Brasil e perder o Rosa: vivendo no apartamento do casal no Rio, em 1968, teve a pachorra de nele esconder o compositor Geraldo Vandré, perseguido pela ditadura por causa de “Caminhando (Pra não dizer que não falei de flores)”. Aracy era mesmo uma doida, na melhor acepção do termo: no mesmo prédio moravam vários oficiais do exército, mas enquanto a repressão, desorientada, caçava Vandré nas ruas, este compunha, incólume, no sofá de Aracy. Foi o Dr. Eduardo Tess Filho, seu neto, que levou Vandré para São Paulo numa Kombi. E de lá para o exílio.

Minha advertência ao governo Beto Richa, como você e seus leitores podem inferir, foi feita mediante Ofício de 8 de fevereiro de 2011, entregue ao então Secretário da Cultura, Paulino Viapiana (vide anexo), através da Diretora Geral da SEC, Valéria Marques Teixeira, que então me explicou, que a SEC com muita honra acolhia e intermediaria, mas que o Palácio Iguaçu era o destinarário formal da sugestão.

Escrevíamos o início de fevereiro. Em São Paulo, Dona Aracy beirava os 103 anos, em Munique, Meyer-Clason, nascido em 1910, os 101 anos de idade.

Avisei ao Dr. Eduardo Tess Filho, neto de Dona Aracy, minha sugestão e o deixei de sobreaviso para a resposta do governo Richa. Passaram-se semanas, quando recebi um telefonema de uma funcionária subalterna da SEC, sugerindo que a Federação Israelita do Paraná “encabeçasse” o evento e avisando que me chamariam da federação. Reagi estupefato: obviamente, como representação da etnia mais vilipendiada em todo o séc. XX, a federação deveria participar do evento, sentada em cadeira de honra. Vaticinei: por que será que os judeus do Paraná tinham esquecido Dona Aracy. Me perguntei: será que um cidadão independente tem que pedir “autorização” para entidade judaica, para homenagear um amigo dos judeus? Por que essa competição imbecil por um assunto da máxima seriedade? Questionamentos, todos, que, ainda por cima, poderiam detonar sobre minha cabeça - na qual perdura a memória de uma avó judia! - a tão desgastada e ridícula borduna do “anti-semitismo”, para quem ousa criticar Israel ou as associaçõs judaicas, mundo afora.

Trocado em miúdos: a federação jamais ligou, a SEC se esquivou, a Prefeitura de Rio Negro pediu “um tempo” (um tempo?)... – enfim, o Paraná “esqueceu” da grande mulher, a provinciana de Rio Negro, que tecera fios da Humanidade, pela primeira vez, unindo pelo cordão umbelical, o Paraná ao ventre da História Universal. Mas para isso oferecendo sua própria cabeça a prêmio.

Dona Aracy morreu no mês seguinte, março de 2011, como amigo até o último suspiro do Rosa, Meyer-Clason passou em janeiro de 2012.

Indigna-me essa mediocridade de governo e instituições do Paraná.
Indigna-me a preguiça e a indiferença do servidor público.
Indigna-me terem “esquecido” de Aracy.
Indigna-me o pouco caso, a obstrução, a agressão à memória coletiva.
Por isso, um filme, tão logo seja possível.

Fotos: ilustração

29 outubro 2012

Frederico Füllgraf - Der 0,5 Mio. Euro Deal mit der Jungfernhaut

Fotos: divulgação


Nach zweimonatiger Ausstellung im Internet und den Medien, endete am 24. Oktober eine seltsame Auktion: die Versteigerung der Jungfräulichkeit der Südbrasilianerin Catarina Migliorini (20). Ein Japaner, genannt „Natsu“, gewann mit 780 tausend US-Dollar das „Los“: er darf nun „das erste Mal“ mit der angehenden Medizin-Studentin. Die Begegnung ist  Höhepunkt eines Dokumentarfilms der Anfang 2013 weltweite Verbreitung finden soll.

Der Veranstalter der  „Auktion” ist die Internet-Seite „Virgins Wanted“, die Idee hatten der unbekannte Filmemacher,  Justin Sisely, und sein ebenso unerfahrener Produzent, Thomas Williams, beide Australier. Sisely´s Filmoeuvre beschränkt sich bisher auf eine einzige Surf-Dokumentation, Williams verdiente seinen Unterhalt mit Hochzeits-Videos.

(Un)schuld der Medien?

Jungfrauen, die ihre Unschuld verkaufen, sind nichts Neues. Eingang in die Geschichte bizarren Verhaltens fand die 22jährige US-Amerikanerin Natalie Dylan, die 1998 Angebote bis zu 3,8 Mio. Dollar für ihre Jungfernhaut erhielt. Als Grund für ihren Schritt nannte sie die Finanzierung ihres Studiums. Für das peruanische Model, Graciela Yataco, mußte als Grund die medizinische Behandlung ihrer Eltern herhalten. Sie erhielt Angebote bis zu 1,5 Mio. US-Dollar, gab jedoch auf. Rafaella Fico, Model und Teilnehmerin am „Big Brother“ in Italien, verlangte 1.3 Mio. Euro für das Ende ihrer Unschuld.

Wie beim Rätselraten darüber, ob erst das Ei, oder das Huhn, stellt sich bei der öffentlichen Entjunferung die Frage, wer zuerst auf den kapriziösen Gedanken kam: Ob die Jungfern, oder die Medien. In Arthur Goldens „Memoirs of a gheisha“ (1997), versteigert eine Japanerin den Siegel ihrer Weiblichkeit. Doch der brasilianische Drehbuchautor,  Gilberto Braga, war dem US-Amerikaner zuvorgekommnen: In seiner Telenovela, „O Dono do Mundo“ [Der Herr über die Welt], ausgestrahlt von TV Globo (1991-1992), veräusserte die Figur Márcia Nogueira (Malu Mäder) als erste ihre Jungfernhaut auf dem Altar des Mammons.
Mit Catarina Migliorini im Bunde, der angehenden Um-ein-Haar-Millionärin, teilten die Virgins-Wanted-Autoren bisher das Schicksal der grössten Menschengemeinschaft auf Erden  – die persons unknown. Das änderte sich vor zwei Monaten, als Catarina im Internet von der Hymen-Versteigerung erfuhr und sich zur Teilnahme anmeldete. Dies hätte sie ja unter einem Pseudonym machen- und fast unversehrt davon kommen können, denn ihr Jungfernhäutchen wollte sie ja angeblich einer edlen Sache opfern: die Finanzierung von Billighäusern für Obdachlose in – nomen est omen - Santa Catarina, ihre südbrasilianische Heimat. Das aber erschien ihr nun doch zu fromm, also rief sie die Medien an. Wie eine Zündschnur brannte sich Ihre Bekanntgabe durch Tageszeitungen, Fernsehen und Internetseiten. Im Nu war Catarina zur Celebrity geworden, so wie die seltenen Winner aus ihrer sozialen Schicht, die alljährlich durch die leidliche, doch Publikumswirksame TV-Sendung „Big Brother“ zum Millionär und „öffentlichen Person“ werden. Und sei es auch nur für eine Viertelstunde im öden Alltag in der Provinz -  “In the future, everyone will be world-famous for 15 minutes”, witzelte US­-Performkünstler Andy Warhol einst salbungsvoll.
Geschockte Familien

 „Es war nicht leicht, Mädchen zu finden, denn immer wenn wir eine gecastet hatten, funkten Freunde und Familienangehörige dazwischen, setzten sie unter Druck, und die Mädchen sprangen ab“, erklärte Sisely dem Internetportal Huffington Post. Marli Migliorini, Catarinas Mutter,  reagierte zunächst neutral: “Die Entscheidung hat sie allein getroffen, sie hat niemanden um andere Meinung gebeten. Sie ist ja volljährig...“. Der im Ausland lebende Vater, ein Architekt, war entsetzt, “dennoch habe ich seine Unterstützung“, versicherte Catarina. Doch dann wollte Marli doch nach Bali reisen, wo die Dreharbeiten stattfanden, um der Tochter die Teinahme auszureden. Die Eltern waren über das Ausmass der Affaire in den Medien geschockt, damit hätten sie nicht gerechnet, erklärte die Frau dem Nachrichtenportal G1, allerdings wenig überzeugend. Doch genau die Publicity schien das Kalkül der Tochter gewesen zu sein. „Ich Bin davon überzeugt, dieses Mädchen wird von grossem Geltungsbedürfnis angetrieben, sie will die öffentlicdhe Darstellung...“, schlussfolgerte Marcos Alexandre Gomes, Professor für Psychologie an der Fakultät Helio Alonso, Rio de Janeiro.


Prostitution – ja oder ja?

Marli beeilte sich einen Satz der Tochter zu dementieren. „Ich war immer ein romantisches Mädchen, doch die Versteigerung ist reines Geschäft“, hatte Catarina im Brustton der Überzeugung verkündet. Der Satz rief die Moralapostel - aber nicht nur die - auf den Plan. Die Mutter meint, man solle den Satz als „naïv” verstehen.
Regierungen und beachtliche Teile der weltweiten Öffentlichkeit sehen das anders: Catarina wurde der Vollzug des Erstbeischlafs in Australien unter Androhung von Strafmassnahmen untersagt: die Aktion verstösst gegen den Prostitutions-Paragraphen im Lande. Auch in den USA – ein Grund weshalb am 3. November Catarina und ihr japanischer Entjungferer den Akt über dem Ozean, während einem Flug von Sidney nach New York vollziehen müssen.

"Diese Art von Geschäft schafft eine gefährliche Präzedenz, ganz zu schwiegen vom Aufruf zu weltweiter Prostitution“, warnte Cleon Daskalakis, ehemalige Geschäftsführerin des Philantropievereins Boston Bruin, in Anspielung auf das angebliche charitative Ziel von Migliorinis  Opfergang. Der in ihrer Heimat populäre Journalist und Blogger, Cacau Menezes, erregte sich: „Dieses Mädchen gibt den jungen Menschen auf der ganzen Welt ein sehr schlechtes Beispiel. Welch´andre Bedeutgung soll dem zugemessen werden, als nicht die der Prostitution? Wir sollten ja nicht heuchlerisch sein und als Moralapostel auftreten, doch mir kann niemand weismachen, dass jemand, der eine Dreiviertelmillion Dollar zahlt, nicht sein Anrecht geltend macht, dafür auch mit Lust entschädigt zu werden! ... Aber die Medien schönschreiben und fördern ja geradezu solche solche Ideen in den schrägen Köpfen der gegenwärtigen Jugend!“.

Fleischbetastung
Vor dem Akt, müsse Migliorini von einem Gynekologen auf die Richtigkeit ihrer Angaben untersucht werden, wenn man verstünde, was er meine,  sinnierte Sizely: Es gäbe da so einen Test, der nachweist, ob Catarina vorher von einem Penis penetriert worden sei, oder nicht – also, eine Garantieleistung für den Käufer, damit der auch bekommt, wofür er gezahlt hat.
Das liest sich wie eine Fleischbetastung beim Metzger – so hirnverbrannt und brutal wie der Satz Richard Mourdocks, Romneys republikanischer Kandidat für den US-Senat, demnach eine Schwangerschaft als Folge einer Vergewaltigung, „dem Wille Gottes“ entspräche.

Man kann sich des Eindrucks nicht erwehren, für die Veranstalter von “Virgins Wanted“ sei der Verkauf der Jungfräulichkeit blosses „Fleisch in der Dose“; aber auch für die „Verkäuferin“. Die Aktvorgaben sind rigoros, von eiskaltem Geschäftskalkül eingefädelgt: Der Freier darf Migliorini nur penetrieren, aber nicht küssen oder Bewegungen vollziehn und Utensilien zur Luststeigerung verwenden.
Alter Brauch im Christlichen Abendland
Streng historisch gesehen, mutet das Moralgeschrei in der Tat etwas heuchlerisch an. Worin unterscheidet sich schliesslich Migliorinis Entjungferung vom Jahrtausend alten Brauch und eiskalten Kalkül der massenhaften „Versprechung“ und Verehelichung europäischer Mädchen an fremde Fürsten, zur Schmiedung neuer politischer Allianzen und Sicherung wirtschaflicher Interessen? Ein nachlesenswertes Lehrstück vom kirchlich sanktionierten Handel mit der Unschuld ist beispielsweise die tragische Geschichte der Heiligen Elisabeth, die bereits als siebenjährige dem ältesten Sohn des Landgrafen Hermann von Thüringen versprochen wurde.
Den Unterschied, so scheint es, macht der Zeitgeist der Postmoderne: Der Entfall des traditionellen Ehrenkodex im modernen Rechtsverständnis ging einher mit dem schrittweisen Verfall der „Aufbauwerte“ des Abendlandes. Dazu gehört die Ent-romantisierung der Sexualität und die Verdinglichung des weiblichen Körpers. Und streng ökonomisch gesehen: Die Frauen im Mittelalter waren ja die Doppelverliererinnen, sie verdienten garnichts am Handel mit ihrem Geschlecht und verloren obendrein ihre Unschuld. Anders im Zeitalter der Gleichberechtigung.
“Diese Auktion handelt von der Umwandlung des Lebens“, brüstete sich der Australier Sisely, „die Leute, die daran teilnehmen, sind danach andere Menschen, ihr Leben wird nicht mehr das gleiche sein“.
 „Womit wird das Leben Catarina danach bescheren?” , fragt er zynisch.
Die Bescherung, so viel ist sicher, bringt die Reife – sie könnte bitter sein.

"Business as usual..."