Fotos: divulgação
Aproveitando-se
da realização da COP 20 - Conferência das Nações Unidas sobre
Mudanças Climáticas, reunida em Lima até o dia 12 de dezembro - a
ONG ambientalista Greenpeace invade área das Linhas de Nazca,
protegida pela UNESCO, para instalar mensagem de protesto e alavancar
manchetes na imprensa internacional. Indignado, o ministério da
cultura do Peru expediu nota à imprensa, manifestando seu repúdio
ao incidente, que agrava os danos já causados às milenares
inscrições do deserto peruano. O incidente alinha-se a verdadeiras
chicanas políticas, como o apoio da Greenpeace à privatizadora Lei
de Pesca do governo Sebastián Piñera, que mereceu o repúdio de 80
mil pescadores artesanais chilenos e cada vez mais desacredita a ONG
em toda a América Latina. O que chama atenção no episódio, é a
lampeira determinação da ONG em afrontar o Direito Internacional e
violar a soberania nacional, como foi a penetração em águas
territorias da Rússia, em setembro de 2013, a ridícula fundação
da “República dos Glaciares”, no Chile e, agora, a invasão do
Patrimônio Cultural da Humanidade, no Peru. Glamurizada pela
imprensa dos países ocidentais, na Rússia a ONG sofreu a apreensão
de sua embarcação e a prisão temporária de seus ocupantes.
Alpinista social, meses depois, a brasileira Ana Paula Maciel, uma de
suas ativistas, posou nua para a revista Playboy.
A COP
20 em Lima
Em
Lima acontece a COP-20, mais uma conferência na esteira do Protocolo
de Kioto – esboçado em 1997 e ratificado apenas em 2005 – com o
objetivo declarado de reduzir a emissão de poluentes atmosféricos
e, com isso, mitigar o efeito-estufa em escala global, de origem
indiscutivelmente antropogênica.
Desde
sua implementação, nenhuma de suas metas foi cumprida, cuja
principal era a redução das emissões globais em 5,2%, entre 2008 e
2012; o tão decantado “primeiro período de compromisso”.
Os
Estados Unidos, a China e a Europa são os maiores emissores de
gases-estufa, seguidos de perto pelo Brasil, no triste 6º lugar
do ranking sujo.
Em
outubro, a União Europeia alardeou que diminuirá em 40% suas
emissões até 2030 Em novembro, os Estados Unidos anunciaram sua
intenção de reduzir suas emissões entre 26% e 28% até 2025. A
China não divulgou números, mas compromete-se a zerar seus
gases-estufa até 2030.
Custo
das alterações climáticas e seus “danos colaterais”
Para
sinalizar boa vontade, 32 países ricos destinaram 9,0 bilhões de
dólares para o Fundo Verde do Clima.
Estão
falando sério? Não, literalmente estão brincando com fogo.
Em
2005, a ONU estimou entre 40,0 e 170,0 bilhões de dólares o custo
anual do plano de estabilização do aumento da temperatura global na
casa dos 2º C, até 2030. Em 2009, o Instituto Internacional para o
Meio-Ambiente e o Desenvolvimento, de Londres,. mandou para a
estratosfera a estimativa original, alardeando seu aumento em 500,0
bilhões de dólares, isto é, 0,7% do faturamento econômico global
anual.
Mas
estes são apenas os chamados “custos de adaptação às alterações
climáticas”, que o Banco Mundial estima entre 18,0 e 21,0 bilhões
de dólares anuais, de 2010 a 2050, apenas na América Latina.
O
custo dos “danos colaterais” já em curso – tufões,
inundações, obras de reconstrução e seu oposto: estiagens,
redução dos recursos hídricos, desertificação, migração
agrícola – nem estão sendo devidamente computados ainda, mas
estima-se que rondem 1,0 trilhão de dólares em escala global.
Trocado
em miúdos: até agora, a conta “fechava”, pois os principais
perdedores – de vidas humanas, meio-ambiente e dinheiro – eram os
países do Sul, e os grandes ganhadores, os países centrais do
Norte, que aumentaram suas emissões durante a fase de expansão
econômica (1997-2008), “porque não se mexe em time que está
ganhando”.
Desde
então, na ONU foi desatada a briga pela responsabilização das
emissões, entre op Norte e o Sul. Os otimistas especulam que, desta
vez, as negociações podem avançar favoravelmente aos países do
Sul – terão motivos?
A
posição do Brasil
Na
COP 20, o governo brasileiro defende que se mantenha o princípio das
“responsabilidades compartidas”, porém de modo diferenciado,
alertando que os países desenvolvidos têm maior responsabilidade e
devem assumir a maior cota nos cortes de emissões. Em paralelo, a
diplomacia brasileira conseguiu submeter à Convenção Quadro das
Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC) uma proposta,
conhecida como “moeda do clima”, cujo objetivo é a precificação
de ações antecipadas, obtendo créditos por todas as ações que o
país pretende realizar antes de 2020, para a redução dos
gases-estufa. Difícil imaginar que essa contabilidade, na qual se
imbricam interesses do Itamaray com ações do Ministério do Meio
Ambiente, seja efetivamente aprovada e compartilhada pelos movimentos
sociais, que realizam em Lima sua “Cúpula dos Povos” à margem
da conferência oficial, sob permanente pressão.
Greenpeace
invade Patrimônio da Humanidade
Transitando
entre as duas conferências, na madrugada da última terça-feira, 9,
ativistas do Greenpeace infiltraram-se na Área Protegida das
milenares e mundialmente admiradas Linhas de Nazca, para instalar
faixas de advertência às alteraçõeds climáticas.
Quando
ao conteúdo, nihil obstat, diria um rábula. Mas ao lado do famoso
“Colibri”?
O
ministério da Cultura do Peru esclareceu que na área “está
terminantemente proibida qualquer intervenção humana, dada a
fragilidade do contorno das figuras”, e condenou o incidente: “Após
a ação ilegal, inconsulta e premeditada do grupo
ambientalista, a área foi gravemente afetada”.
Respondendo
pelo Facebook, a Greenpeace alegou que “as faixas são apenas de
pano estendido sobre o chão. Todo mundo foi muito cuidadoso e não
se produziu nenhum dano em absoluto”.
Para
acalmar as autoridades peruanas, Kumi Naidoo, porta-voz internacional
da ONG, anunciou uma viagem a Lima “para desculpar-se pessoalmente
pela ofensa causada, como tambén representar a organização em
qualquer discussão com as autoridades peruanas.”
Contudo,
o vice-ministro da Cultura do Peru, Luis Castillo, replicou que o
Peru solemente repele as desculpas oferecidas”, porque a ONG não
admite o dano causado ao patrimônio histórico e cultural do país.
Após
a denúncia do ministério da Cultura, a procuradora Velia Begazo, da
Segunda Promotoria Provincial de Nazca, abriu inquérito,
inspecionando a área contigua à figura arqueológica do Colibrí,
acompanhada por policiais e peritos, concluindo por “danos
irreparáveis, em uma área de 1.600 metros quadrados”.
Identificados, os implicados da Greenpeace, estimados em doze
ativistas, poderão enfrentar processo por “delito contra o
patrimônio cultural”, que prevê penas de até 8 años de
reclusão.
Tentando
brilhar com mais um de seus shows de pirotecnica midiática, a
Greenpeace paga caro pela indesculpável estultícia de ignorar as
suscetibilidades do Peru, país que ainda hoje brigas nas cortes
internacionais pela devolução de grande parte de seu patrimônio
cultural, saqueado por aventureiros gananciosos como Hiram Bingham, o
ladrão de Machu Pichu, glamurizado nas telas como o “Indiana
Jones” de Steven Spielberg.
As
Linhas de Nazca
As
Linhas de Nazca são antigos geóglifos em grande escala, localizados
nas Pampas de Jumana, deserto de Nazca, região de Ica, sul do Peru.
Traçadas por artistas da cultura Nazca (sécs I a VII d.C.),
representam centenas de figuras, de deseños simples a mais
complexos, simbolizando criaturas zoomorfas, fitomorfas e abstrações
geométricas, todas riscadas com sulcos na superfície terrestre.
Comunidades
esotéricas e ufólogos tecem conjeturas e lendas as mais
extravagantes e doidivanas sobre sua origem e propósito, entre as
que se conta que os desenhos teriam origem extra-terrestre, ou de que
configurem código de aterrisagem para naves de ETs.
Afetadas
por projetos de mineração, visitação abusiva e estradas
clandestinas, em 1994, a UNESCO declarou as Linhas de Nazca
Patrimônio Cultural da Humanidade.
Apesar
da proteção, o governo do Peru, irresponsavelmente, liberou a área
para a realização, em 2012 e 2013, da rally de Dakar, milionário
empreendimento expulso do Saara, agravando a proteção do sítio.
Sua
grande estudiosa e protetora foi a arqueóloga alemã, María
Reiche (1903-1998), figura emblemática conhecida como a Dama de
la Pampa.
Possivelmente,
Reiche tenha encontrado a verdadeira dos desenhos, que interpretou
como um imenso calendário. Estabelecendo relação entre os desenhos
e sua posição frente às estrelas, tentou demonstrar que os
habitantes de Nazca criaram o sítio astronômico – um
observatório? - para calcular o início de cada estação do ano,
qual era a melhor época para colheitas e quando começava a
temporada das chuvas.
Havia
vida inteligente e perspicaz na Cordilheira dos Andes, em cujo chão
a Greenpeace se move com inusitada jumentice.