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16 janeiro 2015

Manoel de Andrade - Poetas não morrem


Neste mês de janeiro são lembrados na Nicarágua os 45 anos da morte do poeta e combatente sandinista Leonel Rugama e, no Peru, os 73 anos do nascimento do poeta e guerrilheiro Javier Heraud.

Mortos respectivamente aos 20 e 21 anos, Heraud e Rugama são os exemplos mais precoces, na América Latina, de poetas que caíram em combate, dando a vida por um sonho.

12 dezembro 2014

Frederico Füllgraf - Greenpeace invade Patrimônio da Humanidade em Nazca

Fotos: divulgação



Aproveitando-se da realização da COP 20 - Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, reunida em Lima até o dia 12 de dezembro - a ONG ambientalista Greenpeace invade área das Linhas de Nazca, protegida pela UNESCO, para instalar mensagem de protesto e alavancar manchetes na imprensa internacional. Indignado, o ministério da cultura do Peru expediu nota à imprensa, manifestando seu repúdio ao incidente, que agrava os danos já causados às milenares inscrições do deserto peruano. O incidente alinha-se a verdadeiras chicanas políticas, como o apoio da Greenpeace à privatizadora Lei de Pesca do governo Sebastián Piñera, que mereceu o repúdio de 80 mil pescadores artesanais chilenos e cada vez mais desacredita a ONG em toda a América Latina. O que chama atenção no episódio, é a lampeira determinação da ONG em afrontar o Direito Internacional e violar a soberania nacional, como foi a penetração em águas territorias da Rússia, em setembro de 2013, a ridícula fundação da “República dos Glaciares”, no Chile e, agora, a invasão do Patrimônio Cultural da Humanidade, no Peru. Glamurizada pela imprensa dos países ocidentais, na Rússia a ONG sofreu a apreensão de sua embarcação e a prisão temporária de seus ocupantes. Alpinista social, meses depois, a brasileira Ana Paula Maciel, uma de suas ativistas, posou nua para a revista Playboy.


A COP 20 em Lima

Em Lima acontece a COP-20, mais uma conferência na esteira do Protocolo de Kioto – esboçado em 1997 e ratificado apenas em 2005 – com o objetivo declarado de reduzir a emissão de poluentes atmosféricos e, com isso, mitigar o efeito-estufa em escala global, de origem indiscutivelmente antropogênica.

Desde sua implementação, nenhuma de suas metas foi cumprida, cuja principal era a redução das emissões globais em 5,2%, entre 2008 e 2012; o tão decantado “primeiro período de compromisso”.

Os Estados Unidos, a China e a Europa são os maiores emissores de gases-estufa, seguidos de perto pelo Brasil, no triste 6º lugar do ranking sujo.

Em outubro, a União Europeia alardeou que diminuirá em 40% suas emissões até 2030 Em novembro, os Estados Unidos anunciaram sua intenção de reduzir suas emissões entre 26% e 28% até 2025. A China não divulgou números, mas compromete-se a zerar seus gases-estufa até 2030.

Custo das alterações climáticas e seus “danos colaterais”

Para sinalizar boa vontade, 32 países ricos destinaram 9,0 bilhões de dólares para o Fundo Verde do Clima.

Estão falando sério? Não, literalmente estão brincando com fogo.

Em 2005, a ONU estimou entre 40,0 e 170,0 bilhões de dólares o custo anual do plano de estabilização do aumento da temperatura global na casa dos 2º C, até 2030. Em 2009, o Instituto Internacional para o Meio-Ambiente e o Desenvolvimento, de Londres,. mandou para a estratosfera a estimativa original, alardeando seu aumento em 500,0 bilhões de dólares, isto é, 0,7% do faturamento econômico global anual.

Mas estes são apenas os chamados “custos de adaptação às alterações climáticas”, que o Banco Mundial estima entre 18,0 e 21,0 bilhões de dólares anuais, de 2010 a 2050, apenas na América Latina.

O custo dos “danos colaterais” já em curso – tufões, inundações, obras de reconstrução e seu oposto: estiagens, redução dos recursos hídricos, desertificação, migração agrícola – nem estão sendo devidamente computados ainda, mas estima-se que rondem 1,0 trilhão de dólares em escala global.

Trocado em miúdos: até agora, a conta “fechava”, pois os principais perdedores – de vidas humanas, meio-ambiente e dinheiro – eram os países do Sul, e os grandes ganhadores, os países centrais do Norte, que aumentaram suas emissões durante a fase de expansão econômica (1997-2008), “porque não se mexe em time que está ganhando”.

Desde então, na ONU foi desatada a briga pela responsabilização das emissões, entre op Norte e o Sul. Os otimistas especulam que, desta vez, as negociações podem avançar favoravelmente aos países do Sul – terão motivos?

A posição do Brasil

Na COP 20, o governo brasileiro defende que se mantenha o princípio das “responsabilidades compartidas”, porém de modo diferenciado, alertando que os países desenvolvidos têm maior responsabilidade e devem assumir a maior cota nos cortes de emissões. Em paralelo, a diplomacia brasileira conseguiu submeter à Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC) uma proposta, conhecida como “moeda do clima”, cujo objetivo é a precificação de ações antecipadas, obtendo créditos por todas as ações que o país pretende realizar antes de 2020, para a redução dos gases-estufa. Difícil imaginar que essa contabilidade, na qual se imbricam interesses do Itamaray com ações do Ministério do Meio Ambiente, seja efetivamente aprovada e compartilhada pelos movimentos sociais, que realizam em Lima sua “Cúpula dos Povos” à margem da conferência oficial, sob permanente pressão.

Greenpeace invade Patrimônio da Humanidade

Transitando entre as duas conferências, na madrugada da última terça-feira, 9, ativistas do Greenpeace infiltraram-se na Área Protegida das milenares e mundialmente admiradas Linhas de Nazca, para instalar faixas de advertência às alteraçõeds climáticas.

Quando ao conteúdo, nihil obstat, diria um rábula. Mas ao lado do famoso “Colibri”?

O ministério da Cultura do Peru esclareceu que na área “está terminantemente proibida qualquer intervenção humana, dada a fragilidade do contorno das figuras”, e condenou o incidente: “Após a ação ilegal, inconsulta e premeditada do grupo ambientalista, a área foi gravemente afetada”.

Respondendo pelo Facebook, a Greenpeace alegou que “as faixas são apenas de pano estendido sobre o chão. Todo mundo foi muito cuidadoso e não se produziu nenhum dano em absoluto”.

Para acalmar as autoridades peruanas, Kumi Naidoo, porta-voz internacional da ONG, anunciou uma viagem a Lima “para desculpar-se pessoalmente pela ofensa causada, como tambén representar a organização em qualquer discussão com as autoridades peruanas.”

Contudo, o vice-ministro da Cultura do Peru, Luis Castillo, replicou que o Peru solemente repele as desculpas oferecidas”, porque a ONG não admite o dano causado ao patrimônio histórico e cultural do país.

Após a denúncia do ministério da Cultura, a procuradora Velia Begazo, da Segunda Promotoria Provincial de Nazca, abriu inquérito, inspecionando a área contigua à figura arqueológica do Colibrí, acompanhada por policiais e peritos, concluindo por “danos irreparáveis, em uma área de 1.600 metros quadrados”. Identificados, os implicados da Greenpeace, estimados em doze ativistas, poderão enfrentar processo por “delito contra o patrimônio cultural”, que prevê penas de até 8 años de reclusão.

Tentando brilhar com mais um de seus shows de pirotecnica midiática, a Greenpeace paga caro pela indesculpável estultícia de ignorar as suscetibilidades do Peru, país que ainda hoje brigas nas cortes internacionais pela devolução de grande parte de seu patrimônio cultural, saqueado por aventureiros gananciosos como Hiram Bingham, o ladrão de Machu Pichu, glamurizado nas telas como o “Indiana Jones” de Steven Spielberg.

As Linhas de Nazca

As Linhas de Nazca são antigos geóglifos em grande escala, localizados nas Pampas de Jumana, deserto de Nazca, região de Ica, sul do Peru. Traçadas por artistas da cultura Nazca (sécs I a VII d.C.), representam centenas de figuras, de deseños simples a mais complexos, simbolizando criaturas zoomorfas, fitomorfas e abstrações geométricas, todas riscadas com sulcos na superfície terrestre.

Comunidades esotéricas e ufólogos tecem conjeturas e lendas as mais extravagantes e doidivanas sobre sua origem e propósito, entre as que se conta que os desenhos teriam origem extra-terrestre, ou de que configurem código de aterrisagem para naves de ETs.
Afetadas por projetos de mineração, visitação abusiva e estradas clandestinas, em 1994, a UNESCO declarou as Linhas de Nazca Patrimônio Cultural da Humanidade.

Apesar da proteção, o governo do Peru, irresponsavelmente, liberou a área para a realização, em 2012 e 2013, da rally de Dakar, milionário empreendimento expulso do Saara, agravando a proteção do sítio.

Sua grande estudiosa e protetora foi a arqueóloga alemã, María Reiche (1903-1998), figura emblemática conhecida como a Dama de la Pampa.

Possivelmente, Reiche tenha encontrado a verdadeira dos desenhos, que interpretou como um imenso calendário. Estabelecendo relação entre os desenhos e sua posição frente às estrelas, tentou demonstrar que os habitantes de Nazca criaram o sítio astronômico – um observatório? - para calcular o início de cada estação do ano, qual era a melhor época para colheitas e quando começava a temporada das chuvas.

Havia vida inteligente e perspicaz na Cordilheira dos Andes, em cujo chão a Greenpeace se move com inusitada jumentice.



04 novembro 2014

Frederico Füllgraf- A bela e o matador

Ivette Vergara, animadora de Mega TV, Chile

Santiago do Chile                                                                                                               Exclusivo para Jornal GGN 

Ivette Vergara é um dos mais belos rostos do Chile, e os fotógrafos indiscretos costumam registrar closes de suas pernas cruzadas, não menos esculturais. Faz parte do tititi, Ivette gosta.
Ex-modelo, “Miss Paula 1990” (organizado pela revista homônima) e animadora do programa de variedades "Mucho Gusto", no canal privado Mega TV, nestes dias de outubro estourou uma bomba nos meios de comunicação, salpicando com seus destroços a imagem do símbolo sexual chileno: a Corte Suprema sentenciou a três anos e um dia de reclusão o capitão reformado do exército, Aquiles Vergara Muñoz , como autor de homicídio qualificado, perpetrado em 1973 no interior de uma delegacia de polícia de Puerto Aysén, na Patagônia. Além deste, o ex-militar pinochetista foi indiciado por outros dois assassinatos de simpatizantes do então presidente Salvador Allende, fuzilados a sangue frio e enterrados clandestinamente em valas anônimas. A falta de sorte de Ivette Vergara: o militar sentenciado é seu pai. Sua primeira reação à notícia foi: “Estamos tranquilos, porque sabemos que meu pai é inocente”.
Retronarrativa: fuzilamentos na Patagônia
Outubro de 1973.
Poucas semanas após o golpe militar contra o governo Salvador Allende, chega a Puerto Aysén – que à altura mal contava 5.000 habitantes, mas hoje é o principal núcleo de aquicultura de salmão do Chile, localizado 2.300 quilômetros ao sul de Santiago - um batalhão de artilharia comandado pelo capitão do exército Aquiles Vergara Muñoz, “para contribuir à manutenção da ordem interna ante eventuais insubordinações e violações do toque de recolher”, segundo a linguagem eufemística da ditadura Pinochet.
Acima: Presos executados em Aysén
Abaixo: Capitão do exército (R) Aquiles Vergara Muñoz
Fotos: divulgação

A rigor, naquelas semanas estava aberta a “temporada de caça” aos simpatizantes allendistas. Realizar prisões arbitrárias, torturar e matar estavam na ordem do dia. Foi em suas rondas ostensivas que no dia 2 de outubro de 1973, o capitão prendeu o jovem Julio Cárcamo e seu amigo apelidado “Cachorro [filhote] Alvarado”, que supostamente teriam insultado e ameaçado o funcionário da polícia, Oscar Carrasco Leiva.
Debaixo de coronhadas de fuzil e chutes em todo o corpo, ambos foram arrastados à segunda delegacia de Carabineiros de Aysén e jogados numa cela imunda.
Madrugada alta, os dois presos foram retirados da cela e conduzidos a uma baia de cavalos, onde os esperava Vergara Muñoz. Primeiro, o capitão descarregou sua pistola nos presos, em seguida formou um pelotão irregular e ordenou fogo, que crivou de balas Cárcamo e o “Filhote” - em flagrante assassinato a sangue frio de dois presos ilegais, sem acusação formal, sem tribunal nem direito à defesa.
Completada a chacina, os corpos das vítimas foram levados para a morgue, onde um médico emitiu o laudo sem qualquer autópsia. Porém, o atestado de óbito de 20 de outubro de 1973 atesta “anemia aguda” e “ferida de projétil” como causas mortis dos dois patagoneses, que foram colocados nus em um jipe, conduzidos até o cemitério local e jogados em uma vala anônima, devidamente preparada.
A selvageria do “Caso Aysén” é emblemática porque tortura, fuzilamento e ocultação de cadáveres foi o modus operandi da repressão não apenas pinochetista, mas da posterior Operação Condor, em todo o continente.
Negando evidências durante 40 anos
Ninón Neira de Órdenes, uma senhora em provecta idade e presidente da Comissão de DDHH da Região de Aysén, protestou em alto e bom som contra a sentença dos ministros da segunda turma do Supremo, por considerá-la tímida: o septuagenário Muñoz Vergara é notório assassino e merecia pena mais drástica do que três anos de liberdade vigiada.
Embora muito mais criativa e eficiente do que a brasileira, a Justiça chilena tem sabido contornar e esvaziar a Lei da Anistia pinochetista ainda em vigor, julgando violadores de DDHH pelo viés dos “crimes comuns”, tais como formação de quadrilha, sequestro e homicídio, contudo, em casos como o de Muñoz Vergara, atropelando a jurisprudência internacional, ao reduzir a pena em primeira instância, alegando “meia prescrição”. Tanto a Corte Internacional de Justiça como a Corte Interamericana de Direitos Humanos estabeleceram que crimes de lesa-humanidade não prescrevem.
Detido pela primeira vez em 2009, o ex-capitão Aquiles Vergara negou tudo. Afirmou que não teve “faculdade legal para determinar nenhuma detenção”, não constituiu pelotões de fuzilamento e que, ademais, sequer teve conhecimento do nome ou da fisionomia dos executados.
“¡Yo no sé de nada!”, insistiu o ex-capitão pinochetista - simples assim.
Inesperadamente, em setembro de 2014, o ministro Sepúlveda Coronado o indiciaria em novo processo, desta vez pelo homicidio qualificado de Elvin Alfonso Altamirano Monje, “detido à margem de qualquer processo legal” e também assassinado em uma delegacia dos Carabineiros de Puerto Aysén.
Como você reagiria, se seu pai fosse condenado por violação de DDHH?
No início de 2014, um caso semelhante ao de Ivette Vergara derrubou a recém-nomeada Subsecretária do ministério da Defesa do governo Michelle Bachelet, Carolina Echeverría Moya. Em 2009, durante a primeira administração Bachelet (2006-2010), a funcionária já articulara o arquivamento de um processo por violação de DDHH, iniciado por ex-marinheiros allendistas, e em janeiro de 2014 omitiu em seu currículo o parentesco com o coronel da reserva do exército, Víctor Echeverría Henríquez, seu pai. Vivendo em liberdade impune, Echeverría Henríquez foi reconhecido por ex-presos políticos como comandante do famigerado Regimento de Infantería N°1 “Buin”, que durante a ditadura Pinochet funcionou como centro clandestino de detenção e tortura.
A sublimação dos crimes paternos por Ivette Vergara e Carolina Moya pode ser considerada uma síndrome.
Indagado sobre a reação de familiares de militares processados por violações de DDHH, o psicólogo chileno Marco Antonio Grez aponta um curiosa racionalização: ”Quando familiares diretos são confrontados com fatos acobertados por mentiras, delitos ou ilícitos envolvendo seus pais, em sua mente costuma ocorrer uma contradição. Quando crescemos, habituando-nos a justificar uma situação que nos faz sofrer, tratamos de dar um sentido às justificativas, inventando o pretexto de que o pai teve que cumprir ordens, deste modo conseguindo restabelecer um estado de equilíbrio".
Somente arrependimento redime imagem dos filhos
Em entrevista ao semanário Cambio21, o sociólogo Manuel Antonio Garretón adverte contra generalizações: “A única solução para estas coisas são sociedades  mais educadas, menos familísticas, menos fechadas em grupos estanques, até mesmo religiosamente, já que a tendência é atribuir aos filhos as características que têm os pais ou parentes”.
Contudo, até quando mulheres como a musa da TV ou a secretária de Estado continuarão a tampar o sol com a peneira, escondendo-se onde não há mas refúgio?
Garretón é taxativo:”A única maneira de superar esta situação é que os que cometeram os crimes os admitam, peçam perdão e deem mostra de seu arrependimento. Só assim ninguém mais poderá insinuar que´tal pai, tal filho´".
Talvez não seja exatamente este o ponto: se o capitão assassino admitisse a verdade, talvez aliviasse a dor de sua filha Ivette Vergara e ela não precisasse mais encobri-lo.
Talvez.

 Publicado originalmente em:
http://jornalggn.com.br/blog/frederico-fuellgraf/chile-condenacao-de-pai-violador-de-direitos-humanos-atinge-apresentadora-de-tv

02 setembro 2014

Frederico Füllgraf: A lista do “Schindler chileno”



Foto copyright: F. Füllgraf

No filme “A lista de Schindler”, há uma cena particularmente comovente, protagonizada pelo contador Itzhak Stern, que entrega a Oskar Schindler a lista datilografada e assinada por cada um dos 1.200 judeus salvos pelo empresário alemão, e diz, citando o Talmude dos rabinos:"Aquele que salva uma vida, salva o mundo inteiro”.

O empresário chileno, Jorge Schindler Etchegaray, salvou a vida de aproximadamente cem dirigentes da esquerda chilena após o golpe civil-militar de 11 de setembro de 1973, mas rejeita qualquer atributo de heroísmo.

Nomen est omen, rezava um adagio latino, pretextando que no nome de um indivíduo estava escrito seu destino. Alemão o primeiro, descendente de suíços o segundo, a coincidência das atitudes de Oskar e Julio Schindler parece sugerir que seu sobrenome seja portador de um misterioso DNA da solidariedade humana. Etimologicamente falando, Schindler vem do antropônimo medieval germânico,“schinteler”, que quer dizer “telhadeiro”. Pois, dar um teto foi exatamente o que fizeram Oskar e Julio, ao abrigarem seus protegidos: um, os judeus perseguidos pelo nazismo, o outro, os comunistas caçados pela ditadura Pinochet.

Na epopeia do chileno repete-se a lição ensinada pelo alemão: salvar seres humanos das garras de regimes totalitários requer criatividade e circunspecção. Junto com sua esposa Emilie, Oskar Schindler literalmente comprava judeus condenados ao extermínio, subornando comandante da SS, aos quais pretextava a necessidade de mão de obra escrava. Julio Schindler - um ex-executivo da Corfo-Corporación de Fomento de la Producción de Chile, no governo Salvador Allende, sumariamente defenestrado de seu cargo pela ditadura militar – empregou um simulacro ainda mais criativo. Homem com posses, poderia ter abandonado o Chile, rumo ao exílio, mas resolveu ficar e resistir, criando uma rede de farmácias para socorrer dirigentes do Partido Comunista, esfacelado pela repressão.


Com lançamentos em Santiago e Concepción – as maiores cidades do Chile, onde ainda funcionam duas das farmácias abertas há quarenta anos – o livro “La Lista del Schindler Chileno”, escrito pelo jornalista Manuel Salazar, narra a epopeia protagonizada entre 1974 e 1978, por aproximadamente cem homens e mulheres perseguidos pelos órgãos de repressão da ditadura chilena, que se reinventam como modestos empregados de drogaria, acima de qualquer suspeita, socorridos por Julio Schindler e seu amigo, o farmacêutico Ramiro Rios. De passagem pelas farmácias, dois militantes são sequestrados, até hoje desaparecidos, mas a rede de fachada não é descoberto pela DINA de Pinochet. Apesar disso, pressagiando que sua prisão eram dias contados, em 1979, Julio Schindler, hoje com 75 anos de idade, escapa com sua família para Frankfurt, na Alemanha, onde dirige a agência de viagens “Chile Touristik”.

Em breve contato telefônico com o Jornal GGN, na véspera do lançamento do livro em Concepción, Julio Schindler advertiu: “Era um projeto que virou uma rede de sobrevivência. Dando trabalho e uma fachada legal aos nossos companheiros, suas vidas foram salvas. Mas não foi obra de um homem só, aquilo foi um trabalho coletivo", esclarece o chileno, fiel às suas convicções ideológicas.

Quarenta anos de discrição

Julio Schindler sempre quis tornar pública a aventura, mas aguardou o momento oportuno para fazê-lo com a concordância do PC chileno, do qual se afastou há mais de trinta anos. Com o depoimento de Schindler como alavanca da narrativa, o jornalista Manuel Salazar saiu a campo, colhendo sessenta entrevistas com ex-protagonistas da epopeia, cuja maioria sobrevive até os dias de hoje. No início apenas fascinado por uma estória completamente desconhecida no Chile, durante as entrevistas Salazar sentiu a vibração e verdadeira dimensão do significado da clandestinidade coletiva.

As farmácias serviam de refúgio para dirigentes considerados calibre grosso pela ditadura. Uma delas, ainda existente em Santiago e localizada em Villa México na divisa das comunas de Cerrillos e Maipú, era atendida por Quintín Romero, ninguém menos que o policiial federal que permaneceu ao lado do presidente Salvador Allende até o instante de seu suicídio, no dia 11 de setembro de 1973. Como muitos outros militantes, depois Romero refugiou-se na farmácia porque logo após o golpe foi exonerado e não tinha como sobreviver.


A organização da vida na clandestinidade

A rigor, a rede de farmácias era apenas um dos “aparelhos” desenvolvidos pela direção do PC, empenhada na sobrevivência mínima de sua estrutura e militância na clandestinidade, tarefa na qual Julio Schindler teve papel de estrategista.

O veterinário Alsino García, por exemplo, tomou a inciativa de criar um centro de atendimento veterinário com seu colega César Martínez, gerente de Pfizer. Na verdade, a empresa servia de fachada para a ativação das células da frente camponesa do PC e se reportava à Comissão Nacional Agrária do partido.
Armando Gatica foi outro “farmacêutico” acolhido por Schindler durante a caçada da ditadura aos hospitais clandestinos mantidos pela resistência, que ilustram uma das cenas emblemáticas do documentário “Miguel Littín clandestino en Chile”, do cineasta chileno homônimo.

Como funcionário do Serviço Nacional de Saúde, Gatica tinha baixado e sobrevivido ao inferno em um dos centros de tortura da ditadura, localizado em La Serena, norte do país. Detido, foi conduzido vendado e encapuzado ao galpão de um regimento do exército, em cujo teto foi suspenso por cordas, violentamente espancado e submetido a choques elétricos no peito, nas genitálias e no ânus, até perder a consciência. Gatica foi salvo graças à intercessão do bispo Francisco Fresno. Por intermédio de um colega soube das farmácias e refugiou-se em Santiago, também acolhido por Jorge Schindler, que o empregou, primeiramente, na farmácia O’Higgins, em seguida entregando-lhe a gerência da farmácia Principal, en Maipú - missão que atrás da fachada significava, primeiramente, alimentar e vestir os esfomeados e maltrapilhos militantes e reconstruir as células clandestinas do PC.

A maioria dos cem militantes salvos por Schindler não se conhecia e para garantir a sobrevivência do grupo, todos cortaram seus vínculos operacionais com o partido.

Destemido, Schindler alugou casas, prestou apoio financeiro, distribuiu medicamentos e chegou a esconder armas dos militantes em operação ou em fuga, como os fuzis AK-47 que, suspeita-se, pertenciam à Frente Patriótica Manuel Rodríguez (FPMR), o braço militar do PC, que em setembro de 1986 tentou assassinar Pinochet.

Em 1979, Julio Schindler abandonou o Chile, notabilizando-se até a queda do muro de Berlim, por sua participação ativa nas reuniões clandestinas de reconstrução do partido, grande parte delas realizadas em Berlim Ocidental.

O que ele fez é notável!”, afirma, emocionado, Quintin Barrios, que gerencia a farmácia México, a primeira aberta por Schindler e talvez a mais lendária farmácia do Chile.
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Texto publicado originalmente em JORNAL GGN, São Paulo

23 julho 2014

Manoel de Andrade: A moldura dos tempos


Poema


Cada dia é um devir inquietante,
um enredo que anuncia a tempestade
e a bonança...?
ah! a bonança é um barco num medonho temporal!

Uma egrégora maligna comanda o turbilhão,
é a frequência subliminar que domina o mundo,
a combustão da história,
o trágico espasmo da vida,
o tumulto e a fúria linchando as derradeiras utopias.

Na moldura dos tempos cada alma revela o seu retrato,
entre a incredulidade dos “sábios” e a fé de uma criança,
transita a expectativa dos homens...
São dias sem bandeiras,
quando a verdade se envergonha da “justiça”,
as togas e os mandatos acumpliciados na ambição,
os crimes lavados na corte dos “eleitos”
e os vilões absolvidos nesse palco de trapaças.
Até quando assistiremos a esse fatídico cenário?
Quem apagará as luzes dessa medonha ribalta?
Até quando, Senhor, suportaremos tanta ignomínia?


Nessa república de escândalos,
a corrupção gargalha da história.
Nos palanques da ilusão,
máfias partidárias e alianças promíscuas
maquiam seus patéticos contendores.
É um ritual insuportável,
onde o poder trama as suas dinastias,
as ideologias são negociadas
e nas tribunas se mascara a hipocrisia.
Eis o reduto oficial dos futuros saqueadores,
festejando sua agenda eleitoral em sórdidos banquetes,
ante a súplica inconsolável no olhar dos miseráveis.

Não quero o esquecimento,
não aceito o silêncio,
sou a acusação e a profecia
vivo num tempo de iniquidades e presságios,
numa pátria humilhada pela impunidade,
comandada por homens sujos e soturnos
e eis porque hoje meu canto surge assim crispado,
testemunhando o impasse e esperando novos dias.
Sei que não se engana a posteridade,
que nessa nau dos insensatos toda perfídia será nominada,
todas as máscaras cairão.

Sei também que um lento alvorecer anunciará o amanhã,
e que a fé e a decência viverão muito além desse holocausto.
Mas até quando, Senhor, combateremos esse combate?
Há uma “música” sinistra e constante,
martelando, sem limites, em toda parte,
e eu e tantos outros não toleramos essa assuada.
Canto para os homens honrados e para os cultores da beleza
e vos peço perdão por tanto desencanto,
por vos dar meu verso sombrio e indignado,
e esse febril retrato da esperança.


Curitiba, 04 de julho de 2014

Ilustrações: divulgação


13 julho 2014

12 de julho, 110 anos de Pablo Neruda, o imortal




Esta vez dejadme
ser feliz,
nada ha pasado a nadie,
no estoy en parte alguna,
sucede solamente
que soy feliz
por los cuatro costados
del corazón, andando,
durmiendo o escribiendo.
Qué voy a hacerle, soy
feliz.


Soy más innumerable
que el pasto
en las praderas,
siento la piel como un árbol rugoso
y el agua abajo,
los pájaros arriba,
el mar como un anillo
en mi cintura,
hecha de pan y piedra la tierra
el aire canta como una guitarra.

Tú a mi lado en la arena
eres arena,
tú cantas y eres canto,
el mundo
es hoy mi alma,
canto y arena,
el mundo
es hoy tu boca,
dejadme
en tu boca y en la arena
ser feliz,
ser feliz porque si, porque respiro
y porque tú respiras,
ser feliz porque toco
tu rodilla
y es como si tocara
la piel azul del cielo
y su frescura.

Hoy dejadme
a mí solo
ser feliz,
con todos o sin todos,
ser feliz
con el pasto
y la arena,
ser feliz
con el aire y la tierra,
ser feliz,
contigo, con tu boca,
ser feliz.